domingo, 8 de maio de 2011

Gregas Tragédias - 10 - EUMÊNIDES (as Fúrias; Orestes)

Dedicado ao anjo que se escreve com três letras. Feliz Dia das Mães!

Ésquilo

Época da ação – idade heróica da Grécia – c. 1.200 aC.

Cenário – a ação ocorre em duas cidades. Em Delfos, diante do Templo de Apolo. Em Atenas, no Areópago.

1. Eumênides – forma positiva e amistosa que os gregos usavam para referir-se às Erínias (Fúrias, latinizado e aportuguesado) na tentativa de aplarcar-lhes.

Personagens:

1. Apolo, deus.

2. Atená, deusa.

3. Coro – composto por seis Fúrias.

4. Escolta

5. Fantasma de Clitemnestra

6. Hermes, deus.

7. Orestes, filho de Agamêmnon e de Clitemnestra

8. Pítia, sacerdotisa já em avançada idade.

Lembra-se o leitor (a) que ao final da peça “Coéforas”, Orestes parte apressado para Delfos, aonde no Templo de Apolo irá se purificar pelo matricídio que cometeu. Purificação que lhe urge, pois as Fúrias (ou o remorso, a culpa) já iniciaram seu castigo.

A peça de Ésquilo inicia-se com a profetisa caminhando para a porta fechada do Templo. Antes, porém, de entrar ela pára e reverencia a “Trípode (2)” onde sentava para profetizar.

2. Trípode – do grego “Tripous”, “odos”; móvel dividido em três partes, no qual a Pitonisa proferia seus oráculos.

Após reverenciar o móvel, a Pítia inicia uma oração na qual cita as seguintes deusas e deuses: Terra, a 1ª deusa; Têmis, filha da Terra e a 2ª deusa (Segundo a tradição, foi Têmis quem inventou os Oráculos e instruiu Apolo na arte de profetizar. Era uma das esposas legitimas de Zeus); Febe (titânica), também filha da deusa Terra, a 3ª deusa; Febo (Apolo), natural dos Montes Delos que se fixou em Delfos, onde os filhos de Hefestos (os atenienses) o homenagearam e favoreceram para a conquista de toda a região. O rei Delfos, epônimo do lugar, instituiu o culto solene a ele e a Zeus. Em Delfos, Apolo tornou-se o porta-voz do Pai dos Deuses.

Na seqüência, a Pítia volta-se para a imagem da deusa Atená e para as dos outros deuses que invoca. Prossegue sua prece, dizendo que Atená também tem situação destacada em sua crença e no seu discurso. Depois, menciona as Ninfas, o deus Dionísio (chamado de Brômio), o divino rei Pleisto, o deus olímpico Poseidon e o Pai de todos, Zeus. Só depois de invocar todas essas deidades é que ela se dirige como Sacerdotisa, ao seu trono. Antes, porém, fala aos presentes no pátio: se aqui estiverem peregrinos gregos, que eles se aproximem conforme a ordem ditada pelo sorteio, pois eu profetizarei o que for inspirado pelos deuses. Na seqüência entra no templo, mas após poucos segundos volta horrorizada, cambaleante, escorando-se nas portas e nas colunas da edificação.

Aos que lhe esperavam, conta que ao se dirigir ao altar avistou um homem que carregava um punhal ainda ensangüentado e um ramo de oliveira recoberto de alva lã de carneiro. Cercavam-no figuras tão sinistras que nem às Górgonas podiam ser comparadas. Pareciam medonhas Hárpias sem as asas. Tinham o hálito que enojava a todos e, além disso, tinham olhos que vertiam um liquido pútrido e asqueroso. Não sei, diz a Pitonisa, quem é o suplicante, mas sei que só poderá encontrar ajuda com o próprio deus Loxias (= oblíquo, um dos epítetos de Apolo, referente aos seus vaticínios obscuros). Apenas ele, que sempre cura os homens e é um interprete confiável de Zeus e doutros deuses, terá poderes para salvar o pobre homem.

Na seqüência, a profetisa se afasta e as portas do templo são abertas mostrando Orestes sentado no meio do recinto, o deus Apolo, em pé, ao seu lado e as “Fúrias”, adormecidas nos bancos.

Dirigindo-se a Orestes, Apolo diz: nunca te abandonarei. Perto ou longe, sempre te protegerei. Veja que as Fúrias já estão dominadas, presas por pesado sono. Criaturas malditas que herdaram o Tártaro (a parte mais escura e tenebrosa do Hades. Talvez o “Inferno” cristão) e são odiadas pelos Homens e pelos Deuses do Olimpo.

Todavia, Orestes, fuja rápido, pois elas te procurarão por todos os lugares. Não deixe o cansaço te vencer e vá para a cidade de Palas (Atenas) onde deves ajoelhar-se e abraçar a estatua da deusa. Então, à frente dos Juízes, teremos as palavras corretas que te libertarão em definitivo. Tenho essa obrigação contigo, pois fui eu quem te mandou matar a própria mãe.

Orestes responde que Apolo é justo, quando isso é de seu interesse; assim, que continue a protegê-lo, pois só então sua libertação será completa e o sucesso de sua vingança terá sido verdadeiro.

Na seqüência o deus Hermes entra em cena. Apolo fala com Orestes e depois com o “Mensageiro dos Deuses”. Ao primeiro pede que não se entregue ao medo. Ao segundo, seu irmão, solicita ajuda para proteger Orestes, pois ele conta com a benção de Zeus, sempre favorável aos mortais que estão naquela situação. Que Hermes lhe ajude a protegê-lo até que ele seja julgado por outros Homens.

Aqui se menciona pela primeira vez um julgamento nos moldes atuais. É a primeira referência aos ritos processuais que, com o tempo, foram sendo lapidados até o formato atual.

Feito o pedido, Apolo sai e Orestes é conduzido por Hermes. Os três são substituídos na cena pelo fantasma de Clitemnestra que se dirige ao Coro, composto pelas Fúrias adormecidas. Diz-lhe a falecida rainha: Oh, como dormem! Qual a sua serventia Coro sonolento, se não vingam os insultos que recebo amiúde no Hades? Sim, lá, sou frequentemente chamada de assassina e outros nomes. E em meio a tantas humilhações não vejo nenhum deus apiedar-se dessa pobre mãe, assassinada pelo próprio filho. Ninguém se mostra contra o assassino. Oh, destino cruel! Vejam com vossos corações as chagas que trago, pois seus olhos estão vencidos por pesado sono. E lembrem-se de quantas celebrações e sacrifícios eu lhes fiz quando estava viva. Vamos, levantem-se! Orestes escapou e zomba de vós com sarcasmo. De pé, deusas das profundezas infernais! Eu, Clitemnestra, a invoco!

As Fúrias respondem com lúgubres uivos. Clitemnestra torna a lhes falar: oh, dragões malignos, por que vos acomodam? Vejam que o matricida tem amigos divinos que o protegem, enquanto eu não tenho quem me valha. E entre os uivos descoordenados do Coro, Clitemnestra continua sua cantilena atiçando o apetite dos monstros e incitando-as a prosseguir na caçada.

O leitor (a) notou que mesmo morta, Clitemnestra continua extremamente egoísta. Nada lhe importa que não seja seu interesse individual. Aqui, ela não se preocupa com a feitura da justiça, ou da injustiça, pois quer apenas saciar sua vingança pessoal.

Em seguida, o fantasma da rainha dirige-se particularmente ao Corifeu (a líder das Fúrias) dizendo: por que só persegues a caça em sonhos, como os cães que nunca saem do canil? O que fazes? Vamos, não deixe que cansaço impeça-te de queimar o sórdido Orestes com o tenebroso hálito de tuas entranhas. Extenue-o até deixá-lo invalido, prostrado. Vá!

Se havia dúvida sobre o sentimento da mãe pelo filho, aqui ela fica desfeita totalmente. Ao contrário da maioria de pais e de mães que perdoam todas as ofensas dos filhos e nem cogitam desejar-lhes o menor dos males, Clitemnestra mostra que o filho não lhe era nada. Ela mostra por ele apenas ressentimento e ódio.

Isto dito, o fantasma de Clitemnestra sai da ribalta e as Fúrias acordam. O Corifeu apressa o despertar de todas, ordenando que cada uma acorde a que lhe estiver mais perto. O conjunto do Coro, enfim desperto, reclama dos sofrimentos que experimentando. Oh, penas insuportáveis! A fera matricida rompeu nossa armadilha e fugiu rápido como uma lebre. Sim, outra Fúria diz: todo nosso trabalho e sofrimento foram inúteis. Uma terceira se queixa pelo sono ter-lhes vencido e que, por isso, tenham perdido a presa. O conjunto une sua voz enfim e classifica o comportamento de Apolo como mero e vergonhoso roubo. Justo ele, “um jovem deus (por serem da 3ª geração, a de Zeus, que foi precedida pela de Cronos e pela de Urano. Geração que também é chamada de Olímpica)”, surrupia as “velhas deusas”. Oh, filho de Zeus, só por piedade é que tu proteges o cruel facínora? Mas veja filho de Latona, ele é um homem crudelíssimo, um ateu que mata a própria mãe e que se livra da justa punição, graças a tua interferência. Como se pode ver Justiça nesse resgate, ou nesse roubo, que tu nos fez? Uma das Fúrias toma a palavra para dizer que aquela afronta a fere como se fosse um poderoso chicote na mão de cruel verdugo. Volta o Coro dizendo: é dessa forma que agem os deuses mais jovens? Tudo isso só para conquistar mais poder no Mundo, sem se importarem com a Justiça. Outra Fúria diz que vê o Oráculo de Delfos – o centro do Mundo – maculado pelo acobertamento de tão odioso crime. O Coro diz que Apolo transgrediu antigas Leis e por um mero mortal sujou seu próprio lar. Com isso, outra Fúria diz: ele só conseguiu ganhar o meu ódio, sem conseguir salvar seu protegido. Orestes não se livrará de nós! Aonde for encontrará um vingador.

Nesse instante Apolo sai do seu Templo com um arco preparado para atirar. Irado, ele grita para as Fúrias: saiam daqui! Deixem minha casa! Andem, pois caso contrário as “serpentes sibilantes (metáfora para as flechas) sairão do arco, fazendo-as vomitar o sangue que tomaram de tantos humanos. Vossas aparências horrorosas já indicam, por si, que vosso lugar é entre os bárbaros que degolam, empalam, mutilam etc. Ouviram monstros odiados pelos deuses? Saiam desse Templo, onde faço profecias verdadeiras e úteis. Não atormentem os vários visitantes que aqui vêm.

Responde-lhe o Corifeu que ele, Apolo, não é um mero cúmplice, mas o verdadeiro artífice e culpado pelo matricídio.

Como? Pergunta-lhe o deus. Ou tu só disseste essa asneira pelo gosto de falar?

Não, responde o Corifeu. Foi teu Oráculo que o mandou matar a própria mãe.

O Oráculo, Apolo retruca, mandou-o vingar o pai.

Sim, mas tu lhe prometeste proteção, antes mesmo dele ter sujado as mãos com o sangue da mãe.

Sim, prometi e é por isso que o mandei vir a mim para que eu o purificasse.

Mas se é assim, por que tu impedes que minhas irmãs fiquem aqui? Nós só queremos cumprir com nossa obrigação de punir o culpado.

Obrigação? Que obrigação? Vocês sempre se apóiam nesse argumento.

Sim, cumpre-nos banir do lar o sórdido matricida.

E o que fizeram com a mulher que matou o marido?

Nada. Eles não eram parentes. Não tinham o mesmo sangue, diz o Corifeu.

Argumento que não se aplica quando o assassino é o pai Agamêmnon e a vitima sua própria filha, Ifigênia. Novamente, nada é comentado sobre esse assunto. Por que as Fúrias não o atacaram? Resposta racional não se tem e nem seria Ésquilo obrigado a fornecê-la, pois ele não escreveu uma tese sobre o Direito Grego, mas sim uma Dramaturgia onde as “licenças poéticas” são plenamente aceitáveis. O mesmo se pode dizer doutros Trágicos em suas maravilhosas peças.

Apolo retruca dizendo: vocês são degradadas. Apequenam esse sagrado pacto entre homens e mulheres que é abençoado por Hera e pelo próprio Zeus. Também afrontam Afrodite ao não darem o devido valor ao sentimento do amor conjugal que ela deu aos Homens. Fica claro porque, então, vocês não punem o crime entre esposos e até o esquecem. É por essa parcialidade, no torto julgamento que vocês fazem que eu não reconheço como justificável a perseguição contra Orestes. Vossos corações só querem castigar um crime, enquanto se esquecem dos outros. Mas deixe estar, a poderosa deusa Atená será justa em sua avaliação.

A Fúria líder responde que jamais deixará Orestes livre. Impune. Apolo lhe diz que então vá, pois isto só lhe trará sofrimento. O Corifeu replica que não. Que nem ele, deus do Olimpo, pode tirar seus poderes, seus privilégios. Responde Apolo dizendo que suas palavras são vazias; que seus poderes pouco lhe importam. O Corifeu retruca: fala-se do seu grande poder, mas eu sou impelida pelo sangue de uma mãe e é com esse estimulo que perseguirei Orestes. Volta Apolo para dizer: pois seja, com igual denodo eu o defenderei. Nós outros, deuses do Olimpo, não toleramos ouvir uma súplica dos mortais e não vir em seu socorro. Para os deuses e para os humanos é impossível ficar estático ante um suplicante que sofre.

Nesse ponto a peça muda de cenário. O Coro das Fúrias se retira e as portas do Templo são fechadas. Quando as cortinas são reabertas aparece a Acrópole com o Templo de Palas (Atená) e a imagem da deusa à frente do mesmo.

Entram em cena Hermes e Orestes que imediatamente abraça-se a estátua da deusa dizendo-lhe: aqui cheguei por ordem de Apolo. Deusa soberana acolhe-me com clemência. Já não tenho sangue nas mãos, pois o convívio com as pessoas generosas que me abrigaram por tanto tempo, lavou minha mácula. Sempre obediente às ordens de Loxias (Apolo) chego ao teu sagrado Oráculo e aos pés de tua imagem aguardo com humildade o veredicto da Justiça.

Nesse ínterim chegam as Fúrias, que tão logo despertaram seguiram as pegadas do fugitivo Príncipe de Argos. O Corifeu logo exclama: aqui está o facínora! Já vejo seus rastros. Como determinados cães de caça seguimos os pingos de sangue que ainda caem de suas mãos. Estamos exaustas após percorrer toda a Terra a seguir-lhe, mas aqui o encurralamos. As outras Fúrias, em uníssono, falam ao Corifeu que ela atente em tudo para que Orestes não lhes fuja de novo. Depois, cada uma delas fala com a outra, até que uma o vê ajoelhado aos pés da imagem divina e diz que ele quer ser julgado por seu crime. Outra Fúria responde que tal julgamento não pode ocorrer, pois o sangue derramado não reflui e está perdido para sempre. Outra, ironicamente, pede que Orestes deixe-lhe beber seu sangue para aplacar a sua sede. Outra delas ameaça extenuá-lo e levá-lo, ainda em vida, para o pior abismo do Universo onde ele pagará por seu crime. Mais uma fala complementando a ameaça da anterior: lá, naquele terrível abismo, ele encontrará outros impiedosos que afrontaram os deuses, ou seus hospedeiros, ou seus genitores. Cada qual sofrendo o horrendo castigo imposto pela Vingança. A última Fúria diz: o deus Hades (epônimo do Mundo dos Mortos) cobra sem compaixão a divida contraída pelo mortal.

A crença na pós-morte foi deveras importante no Mundo Antigo e é interessante notar como seus conceitos chegaram integralmente aos nossos dias. Vê-se que o avanço tecnológico não é suficiente para acabar com lendas tão antigas. Essa carência humana de buscar algum sentido para o ato de viver pode ser vista, entre outras, como uma forma do Homem imaginar que paira acima da Natureza. Tudo nasce, vive e morre cumprindo seu papel no mosaico natural, cujo espaço e tempo de cada indivíduo são pré-determinados; exceto para a esperança humana, que se permite um Tempo extra (num lugar imaterial) após desaparecer do Espaço que a Natura lhe havia concedido.

Orestes, em resposta, diz que sua desventura ensinou-lhe que há várias formas de purificação e que há o tempo de calar e o tempo de falar. Agora, orientado por um sábio, é chegado o momento de falar. A mancha do matricídio que cometi desbotou graças à purificação do deus Apolo. Outrossim, o grande número de pessoas que me hospedou, sem temor e sem rancor, deu-me a certeza que o Tempo tudo apaga em sua passagem. Assim, purificado por um deus e também pelos Homens é que venho a ti, deusa querida, pedir com os lábios imaculados o teu socorro. Saiba Atená que se tu me favorecer conquistará sem luta a minha admiração e minha fé, bem como a de todos os meus súditos na grande cidade de Argos.

Note-se, novamente, que um mortal oferece suborno a um deus como se a sua proteção nada tivesse de divina. Como se fosse um mero negócio humano.

O Corifeu, porém, em tom de ameaça diz a Orestes que sua súplica é vã, pois tal como Apolo, Atená também não o ajudará. Ficará, diz, na mais completa solidão e após sua morte a tua alma será abandonada pela Felicidade. Será mera sombra a ser eternamente sugada pelas Entidades Infernais.

Orestes cospe em sua direção, demonstrando seu desprezo.

O Corifeu, indignado, protesta contra aquele gesto de desdém e o ameaça de ser devorado ainda vivo. As outras Fúrias, de mãos dadas, aproximam-se do Príncipe Argivo e dançam de maneira tosca e bizarra enquanto entoam um Canto que tem o poder de imobilizar a vitima. Fechando o circulo, dizem que são as “Vingadoras Implacáveis” e que falam pelos mortos em testemunho contra os vivos. Dizem que o homem sem crimes viverá sua vida sem que elas o importunem, mas o celerado, com as mãos sujas do sangue alheio, experimentará a força de seu ódio. O Corifeu invoca a sua mãe, a deusa Noite, queixando-se que Apolo está atrapalhando sua missão de castigar os culpados, estejam vivos ou mortos. Reclama que o deus tenta humilhar-lhes ao tentar salvar Orestes, autor de um dos piores crimes: o matricídio. O Coro, à frente do Príncipe, entoa o hino dedicado às Sagradas Fúrias. Inebriante, este hino provoca tais delírios que os mortais sentem a mente imobilizada. É um canto isolado, sem acompanhamento da Lira, que apavora de tal modo que todos os movimentos escapam de quem o escuta. Nele, está escrito que essa é a tarefa que o deus Destino deu às Fúrias por toda a Eternidade: perseguir implacavelmente as criaturas, cuja demência lançou no charco do crime; até que elas sumam no mais fundo dos Infernos.

Observe-se que no arrazoado das Fúrias já existia um atenuante para os homicídios; ou seja, a demência, a insanidade, ou incapacidade mental do criminoso. Contudo, esse atenuante não era considerado pelas mesmas, ao contrário de hoje que serve, em certos casos, para declarar um réu demente como inimputável.

Nem a morte libertará de nossas garras o homicida. Já nascemos para essa tarefa e nem os deuses podem interferir. Não freqüentam nossas casas ou festas, mas também nunca os bajulamos. Destruiremos todas as casas onde a deusa “Discórdia” se instalar e disso resultar um crime de morte entre os consangüíneos. Por mais poderoso que o culpado seja logo iniciamos a perseguição até consumir suas últimas chamas. É esse nosso papel: evitar que alguma “divindade nova (1)” tenha que se ocupar desse horripilante mister.

1 – por “divindades novas” entenda-se os Deuses e Deusas do Olimpo, a 3ª geração – Urano, Cronos e Zeus; em contraponto com as “Divindades Velhas”, dentre as quais as próprias Fúrias, surgidas no inicio dos tempos.

Livramos-lhes dessa terrível tarefa, mas em contrapartida estabeleceu-se que nenhum deles tivesse autoridade sobre nós. Por isso, o sórdido Orestes não pode nem ser levado à presença de uma deidade. O próprio Zeus considera maldita essa classe de mortais, sujas com o sangue. As maiores glórias para os Homens, mesmo que trazidas do Céu para a Terra, perdem seu brilho se forem tocadas por nossos véus e pelos efeitos nefastos que se originam em nossas danças. Saltamos com vigor e pisamos até nos corredores mais velozes. Orestes, insano, caiu num terrível delírio que o perdeu (horrenda mácula cobriu seus olhos, como se o cegasse) enquanto pesada nuvem já envolvia o Palácio paterno, segundo os rumores que nos chegaram. Somos lentas para pensar, mas ágeis para executar, nunca esquecendo os crimes praticados. Humildes e desprezadas temos, no entanto, poder para cumprir nossa missão. Somos como um horroroso pântano sem Sol, longe dos outros deuses e intolerável para os vivos e para os mortos. Por isso, que mortal pode ouvir sem temor a “Lei” que a Parca nos deu? Embora moremos num negro abismo, ainda é nossa a antiga prerrogativa de fazer justiça. E não nos faltam honrarias.

Nesse ínterim entra em cena a poderosa deusa Atená dizendo que desde as margens do rio Escamandro (em Tróia, cuja terra lhe foi consagrada pelos gregos vitoriosos) escutou um apelo angustiado e que célere fez o caminho de volta, a bordo de sua égide transformada num carro puxado por fogosos corcéis. Agora, aqui chegada, eu vejo um bando de seres estranhos que não me causam temor, mas um espanto natural e condizente com suas bizarras figuras. Na seqüência fala às Fúrias e a Orestes: quem são vocês? Tu, ajoelhado aos pés de minha imagem; e vós, que não se parecem com os mortais, tampouco com os deuses. Por que insultaram a quem não vos deu motivo? Por que cometem essa iniqüidade?

O Corifeu responde explicando que são descendentes da deusa Noite e que são conhecidas, no fundo da Terra, onde têm sua morada, como “Maldições”. Logo, deusa, tu conhecerás nossas prerrogativas e obrigações.

Sim, responde Atená, diga-me claramente para eu saber.

Estamos em sua casa buscando um assassino que matou a própria mãe. Nossos gritos que ouvistes foram dados nas ocasiões em que ele nos fugiu. Que escapou de ser levado ao “lugar onde ninguém se sente alegre”.

Atená a interrompe para perguntar-lhe se alguém ou alguma circunstância levou o criminoso a cometer tal crime?

Mas pode alguma compulsão levar ao matricídio? Responde perguntando o Corifeu.

A palavra volta para Atená que sentencia: já que aqui estão as duas partes e eu só ouvi uma delas, quero ouvir à outra antes de exarar qualquer comentário ou julgamento.

Pretextando uma questão de ordem, o Corifeu diz: poderosa deusa, ele nem jurou. Nem quis que nós jurássemos (que diria a verdade, como acontece nos julgamentos atuais).

Sim, diz Atená, quereis parecer justa, mas não estais sendo. Como? Responde a Fúria. O que pretendes dizer? Nós, Fúrias, não temos capacidade de te compreender. Diz a deusa que os Juramentos são apenas uma formalidade, pois não podem transformar a Justiça em Injustiça. Então deusa, retruca o Corifeu, ouve-o e julgue corretamente. Mas por quê? Pretendes que eu seja a árbitra dessa questão? Sim, por que não, assente a líder das Fúrias. Assim prestaremos reverência a ti, que é digna da nossa veneração.

Atená, então, dirige-se a Orestes e diz: fala-me primeiro quem tu és e donde vens. Qual é a tua raça e quais são teus infortúnios? E se tens confiança na Justiça? Vejo que se apega à minha sagrada imagem com o mesmo fervor que Ixion, o rei dos Lápitas, segurava a de Zeus enquanto buscava abrigo após cometer mais um de seus crimes cruéis. Depois, suplicante, diga-me o motivo de estar sendo perseguido.

Orestes responde: Atená soberana, eu começarei pelo fim, pois assim logo eliminarei qualquer preocupação ou pré-julgamento sobre a minha pessoa. Não sou um bandido, nem um maldito. E nem tenho sangue sujando minhas mãos, pois tive purificações em todas as terras que conheci e de todas as pessoas que me acolheram, sem medo ou rancor. Aqui a Lei impõe silêncio a um criminoso até que ele seja purificado, mas como eu não sou um facínora posso lhe dizer que sou de Argos, filho de Agamêmnon – que tu bem conhece e que, com tua ajuda, conquistou Tróia. Após a guerra, meu pai voltou ao lar onde minha mãe o matou traiçoeiramente, como comprovam o tecido, a malha e a banheira que foram usadas no triste episódio. Esse acontecimento eu não vi, pois desde meus primeiros dias ela meu exilou na corte de Estrófio, na Fócida. Do exílio só voltei na idade adulta e o fiz a pedido do espírito do meu pai que reclamava vingança e a conselho e incentivo do deus Apolo, que a par do encorajamento, ameaçou-me com terríveis castigos no caso de eu não cumprir a vingança, matando Clitemnestra e seu amante Egisto. Chegando a Argos cometi os assassinatos, crente na palavra de Apolo de que eu só sofreria algum castigo se não o fizesse; mas como tu vê, não foi isso que sucedeu. Desde aquele dia estou sendo implacavelmente perseguido pelas Fúrias Vingadoras, como se eu fosse um criminoso qualquer. Assim, nobre deusa, se não houver qualquer atenuante em meu caso, pelo fato de vingar meu pai e obedecer a um deus, aceitarei resignadamente a pena que tu me impuser.

A versão de Orestes e seus argumentos causaram efeito na deusa que viu o caso de outra maneira. Não era um crime banal, mas, ao contrário, uma questão complexa por envolver justa vingança (sic) e intromissão de um dos deuses. Responde Atená que a complexidade da questão estava além de seu poder ou de seu julgamento. De um lado, Orestes com suas razões e seus atenuantes; doutro lado, as Fúrias e suas prerrogativas e suas obrigações. Prerrogativas, aliás, que se não forem respeitadas resultarão em graves conseqüências para a cidade de Atenas. Assim, diz a filha preferida de Zeus, eu indicarei doze Juízes de crimes sangrentos. Escolherei os melhores cidadãos e todos se comprometerão, por Sagrado Juramento, a julgarem sem qualquer preconceito, sem qualquer tendência pessoal e sem qualquer outra iniqüidade. Destarte esse “Alto Tribunal”, assim constituído e assim regido, terá perpetuamente essa nobre missão.

Note-se como foi o surgimento do Tribunal do Júri, enquanto Instituição civilizatória. A bruta vingança deixaria de existir, sendo substituída pela apuração da verdade que há em cada caso. Merece atenção, também, o fato da Instituição ser delegada aos Homens. Ao contrário da “Vingança” que era atributo de alguns deuses, como as Fúrias, por exemplo, que a todos os homicídios puniam sem considerar a existência de algum atenuante (legitima defesa, por exemplo), ou de algum agravante (crime contra indefesos, por métodos cruéis, por motivos fúteis etc.).

Prosseguindo, Atená diz que as duas partes devem preparar as suas provas, suas testemunhas, seus argumentos etc. para reforçarem suas razões. Enquanto isso, diz, escolherei os melhores cidadãos de Atenas para que julguem o caso corretamente, fiéis ao juramento de não decidirem contrariamente aos mandatos da boa justiça.

O Coro das Fúrias assume a cena e faz um prognóstico sombrio: se esse matricida for favorecido no julgamento, logo se instalará uma grande subversão resultante dessas novas Leis. As justificativas que aceitarem para seu crime, em breve acobertarão crimes similares. E isto se dará porque nós, Fúrias, deixaremos de punir os homicidas. A partir desse momento abrir-se-á as portas para todos os tipos de celerados que antes continham suas perversidades pelo medo que nós impúnhamos. Sim, o medo é bom e deveria estar sempre vigilante. Mas, findo o temor, os mortais atingidos por crimes, em vão nos invocarão, pois nada poderemos fazer. Ficarão os homens subjugados pela anarquia, haja vista que a desordem reinará levando ao fim a vida feliz. Um sofrimento adicional, aliás, pois no fim todos serão colhidos pela morte e seus crimes alongados pelo beneplácito da demora na Justiça os farão sofrer com mais rigor, do que seriam antes.

Note-se que Ésquilo não escapa da regra grega que associa a Felicidade com a Ordem, a Organização. E a desgraça com a Desorganização. Esse conceito norteou o Pensamento grego de forma quase unânime, tendo em Aristóteles seu expoente máximo. Note-se, também, que a Fúrias exaram um raciocínio torto e primário, muito em voga nos dias de hoje, que associa o respeito aos “Direitos Humanos” como incentivos aos criminosos. Desse primarismo intelectual é que surge o apelo da maioria da população atual para o endurecimento na repressão como única forma de combater o crime.

Ao fim do discurso do Coro, Atená volta à cena acompanhada pelos Juízes escolhidos, que se sentam de frente para o público enquanto o Coro ocupa as laterais do proscênio. Orestes, como réu, a um gesto dos Juízes fica em pé. Atená ordena que o Arauto que a seguia desse o sinal para que a ordem e o silêncio fossem respeitados pelo povo. Diz-lhe que o sinal tenha tal força que seja ouvido até nos Céus, pois será o prenúncio das novas Leis que ela promulgará para que o Tribunal do Júri possa julgar com acerto e retidão, até o fim dos tempos.

Apolo adentra ao recinto e o Corifeu pergunta-lhe o que ele faz ali? O que tem a ver com aquele processo? Em resposta, Apolo diz que ali veio para testemunhar a favor do réu, Orestes. Este mortal, diz, além de meu suplicante é um fiel sempre bem vindo ao meu altar. Fui eu quem o purificou do sangue que derramou. Aqui serei seu defensor, pois eu sou o responsável pelo matricídio que ele cometeu.

Na seqüência, Apolo pede que Atená abra os debates. Atendendo-lhe a deusa dá a palavra às Fúrias. Cabe-lhes, diz, que nos informem com clareza sobre os fatos a serem julgados. O Corifeu diz que assim fará e que falarão pouco, apesar de serem muitas as Fúrias presentes. Para Orestes diz: responda sucintamente a cada pergunta.

- Mataste tua mãe?

- Sim, não posso negar esse fato.

- Essa primeira queda já nos favorece, comemora o Corifeu; mas Orestes retruca:

- queda? Ainda não caí, por que te vanglorias?

- como te atrevestes a matá-la?

- degolei-a com minha espada.

- quem te persuadiu?

- foi o deus Apolo, que agora é minha testemunha.

- como, o deus-profeta comandou o matricídio?

- sim, foi ele. Mas não me queixarei de meu destino.

- será? Não pensarás assim após o veredicto, diz o Corifeu.

- eu tenho fé em meu pai e creio no seu auxilio, responde Orestes.

- tu que mataste a própria mãe ainda tem confiança nos mortos?

- sim, pois foi ela própria que se sujou em dois assassinatos.

- dois? Como assim, dois? Explica-te aos Juízes.

- matando seu marido e meu pai, responde com certa ingenuidade o Príncipe Orestes.

- sim, diz o Corifeu, mas ela já se redimiu sendo assassinada, enquanto tu vives apesar de ter matado quatro.

- quatro? Como assim?

- sim. A tua mãe, a viúva de Agamêmnon, a amante de Egisto e a mãe do filho deste; responde em forma de zombaria a ardilosa Fúria.

- por que vós não a perseguistes como fazem comigo? Por que não a exilaram enquanto estava viva?

- o Corifeu responde, motivo é simples: ela não tinha laços de sangue com a sua vitima.

- Orestes, novamente ingênuo, pergunta: mas tu pensas que ela e eu somos consangüíneos?

- sim, diz o Corifeu, pois não foi ela quem te deu à luz. Agora tu renegas o precioso vínculo de mãe e filho?

- percebendo que caía na armadilha que a Fúria lhe armava, Orestes pede que Apolo dê o seu depoimento. Explica-lhes, ó deus, que quando a matei estava agindo segundo a Justiça. Não nego o fato, mas quero tua opinião se esse homicídio pode ser justificado? Desfaze a dúvida dos Juízes.

Apolo cumprimenta cerimoniosamente os membros do júri e inicia sua fala: esse Instituto, recém fundado pela deusa Atená será, posso profetizar, um reduto de equidade e da reta justiça. Do meu Oráculo jamais proferi qualquer palavra sobre homens ou mulheres que não fosse com a aprovação de Zeus. Fiquem atentos, pois, à justificativa que darei para o fato aqui julgado e sejam obedientes à vontade do meu Pai, o Pai dos Deuses Olímpicos. Juramento algum deve prevalecer sobre as ordens do grande Zeus.

Pergunta-lhe o Corifeu se veio de Zeus a ordem para Orestes matar a mãe, ou só vingar o pai (matando apenas Egisto, por exemplo)?

Sim! Pois a morte de um grande herói é mais importante que a de um anônimo. Sua vingança exigia o sangue de quem, ardilosa e traiçoeiramente, o abateu quando saía da banheira e se secava no longo manto que a facínora lhe estendeu com falso carinho. Preso naquele pano, não pôde o Comandante dos Aqueus desvencilhar-se, dando a Clitemnestra o tempo necessário para que o apunhalasse com a espada do amante. Isso eu volto a relatar a vós, nobres jurados, para que se indignem com a sórdida traição.

O Corifeu retoma a palavra para colocar um paradoxo: segundo o relato de Apolo, Zeus teria predileção pelos pais, porém com o seu, Cronos, a sua atitude foi totalmente diferente, haja vista que ele o matou sem pejo algum. Como, Apolo, tu conciliarás esse paradoxal ódio de Zeus com a tua argumentação? Em seguida, a líder das Fúrias dirige-se ao júri pedindo que prestem atenção àquelas contradições que acabou de expor.

Apolo retoma e diz: vós, monstros execrados, sabem muito bem quais são os imensos poderes do meu Pai. São quase infinitos, mas contra a morte ele nada pode.

Devolve o Corifeu: então, atente Apolo, para o modo com que tu defendes Orestes. Deverá ele, que derramou o sangue da própria mãe, morar no Palácio Real? Em quais altares ele poderá rezar e fazer os sacrifícios? Que Confraria dar-lhe-á consentimento para purificar-se com a água lustral (sagrada, benta)?

A isso responderei Fúrias, diz Apolo. O filho não é gerado pela mãe. Ela é somente a nutriz do germe que o homem nela semeou. Aqui mesmo, nesse egrégio Tribunal, temos uma prova de que é possível ser pai, sem que tenha havido uma mãe. Sim, falo de Palas Atená (1), filha de Zeus que a gestou em seu cérebro e lhe deu à luz já adulta e plena de poderes. Alguma deusa poderia ter feito semelhante? Poderosa deusa, eu sempre darei glórias a ti e à tua cidade. E Orestes, aqui chegado graças ao meu amparo, também traz sua devoção eterna, bem como farão seus descendentes e seus súditos.

1 – Zeus engoliu Métis, sua primeira esposa divina que estava grávida de Atená. Quando ele sentiu que era hora do nascimento, ordenou que Hefesto (deus do fogo) lhe partisse a cabeça para que dela emergisse a deusa, já adulta e poderosa.

O argumento de Apolo acerca da impossibilidade da mulher gerar um filho sem a participação de um homem foi comum na antiguidade, eivada do conceito da “superioridade masculina”. Com os avanças atuais, sabe-se o quão falaciosa é essa teoria.

Atená assume a palavra e dirigindo-se ao Coro pergunta se já pode pedir que os juízes depositem seus votos, vez que a argumentação e a réplica foram feitas.

Sim, concorda o Corifeu. Já disparamos todas as flechas que tínhamos e agora só nos resta esperar pelo veredicto. Para Apolo e Orestes, Atená repete a pergunta e acrescenta: para vós, o que devo fazer para não merecer vossa reprovação? O deus do Sol não lhe responde diretamente e dirigindo-se aos juízes dá seu consentimento dizendo: ouvistes o que ouvistes. Ao votarem, juízes, lembrem do juramento que fizeram.

Presidindo os trabalhos, Atená retoma a palavra para dizer: atenienses foram convocados entre os melhores cidadãos. Por mim mesma eles foram escolhidos e julgarão pela primeira vez um homem, autor de um crime em que foi derramado sangue. A partir deste dia e para sempre, terão vós a incumbência de manter intactas as normas e os objetivos deste Tribunal. Sobre este monte, chamado de “Colina de Ares”, minha voz conclama a “Reverência” e seu irmão o “Temor” para que evitem os crimes, pois caso contrário cidadãos, vós beberão a água da fonte que poluíram, haja vista que desprezar as Leis equivale a voltar à barbárie. Que não haja Opressão, nem Anarquia eis o lema que todos devem seguir. Proclamo, pois, instituído um Tribunal incorruptível, venerável, inflexível e sempre vigilante para que a cidade durma em paz. Agora juízes, levantem-se e depositem seus votos.

Especialmente caro aos homens e mulheres relacionados com os assuntos jurídicos, esse trecho muitas vezes deixa de ser dramaturgia para ganha contornos de História. É uma atitude, claro, que não prima pela precisão, mas não deixa de ser elegante dar essa gênese ao Direito e, especificamente, ao Tribunal do Júri.

Os juízes vão até o pote onde depositam seus votos. Apolo e o Corifeu continuam a troca de insultos e ameaças, dentre os quais, a das Fúrias que prometem cataclismos sem fim à cidade de Atená (Atenas), caso seus direitos não sejam respeitados. Apolo as exorta a aceitarem suas profecias, que são inspiradas por Zeus. O Corifeu argumenta que ele está se intrometendo em crimes sangrentos que não se relacionam com seus vaticínios. Apolo recorda o socorro que Zeus ofereceu a Ixion (o primeiro assassino [o Caim judaico-cristão?]). Rebate o Corifeu repetindo a ameaça contra a cidade de Atenas. E a troca de insultos se estende até que Atená anuncia que seu voto será o último e que será somado aos favoráveis a Orestes. Nasci, diz, sem ter estado em ventre materno e, por isso, sempre sou favorável aos homens, aos pais. O assassinato de Agamêmnon dói-me muito mais que o de Clitemnestra, justamente por isso. Assim, prossegue, basta que os juízes se dividam pela metade para que Orestes vença, com o meu voto. Na seqüência a deusa apressa os juízes, os quais tiram da urna os sufrágios e iniciam a apuração dos mesmos.

Ansioso, angustiado, Orestes pergunta a Apolo qual terá sido o resultado. O Corifeu clama por sua mãe, a deusa Noite, para que veja o que está acontecendo naquela assembléia. Orestes pergunta-se se será degolado ou libertado. O Corifeu se questiona se haverá sucesso ou sua ruína total?

Nessas poucas linhas é possível saborear a grandeza de Ésquilo. Nesse pequeno trecho, no original, ele constrói um magnífico painel que mostra os sentimentos das partes envolvidas. Orestes, entre a morte ou a liberdade. As Fúrias, entre o reconhecimento de sua autoridade, ou o fim de suas atribuições, o desprezo por sua utilidade. Prerrogativas que agora são substituídas pelos julgamentos de simples mortais.

Também impaciente Apolo ordena que os juízes confiram os votos com muito cuidado, pois qualquer falha ou fraude acarretará uma grande injustiça e a continuação de valores e conceitos que precisam ser revistos, renovados; numa clara alusão à substituição da pura vingança, como a praticada pelas Fúrias, pela equidade de um julgamento justo.

Enfim os votos são mostrados a Atená que proclama: empate! Orestes foi absolvido! Os votos dividiram-se em quantidades iguais e eu, diz a filha de Zeus, desempatei a favor do réu (daí a expressão Voto de Atená [Minerva, em latim]), que é utilizado para desempatar uma questão em que nenhum dos lados alcançou a maioria. É uma prerrogativa do Presidente ou da autoridade máxima do julgamento).

Enquanto Apolo sai de cena, Orestes inicia a série de perorações que fará. Começa agradecendo a Atená, ao deus Apolo e a Zeus e comemorando seu retorno à sociedade dos argivos e ao seu Palácio. E, principalmente, por estar liberto das Fúrias, graças ao julgamento e por iniciativa do próprio Zeus, em reconhecimento dos méritos de Agamêmnon e da correta (sic) vingança que lhe foi feita. Depois, dirige-se especialmente a Atená jurando solenemente que nunca a sua terra, Argos, se voltará contra Atenas e se um sucessor assim tentar, ele próprio, mesmo de sua tumba, lançará tal maldição que o impedirá de concretizar a má intenção. Mas se meus sucessores honrarem meu juramento e forem fiéis aliados da nobre terra de Palas, eu os favorecerei sempre. Por fim, deusa, eu me despeço de ti e de teu nobre povo, desejando-lhes pleno êxito em todos os campos, inclusive no das guerras. Isto dito sai da cena.

Após a saída de Orestes, o Coro inicia um canto nostálgico dirigido aos “deuses novos (1ª geração = Urano, as Fúrias e outros; 2ª geração = Cronos e a 3ª geração = Zeus e os deuses Olímpicos.)” e especialmente a Atená: vós, jovens deuses humilham as deidades antigas. Arrebatam nossas funções e nossos direitos com a arrogância dos conquistadores. Mas tu, deusa, não perde por esperar. Nossa vingança será terrível, pois as gotas de veneno que destilaremos dos nossos corações humilhados cairão sobre teu solo e será a praga de tua cidade. O mal atingirá todos os atenienses. Nós, filhas da deusa Noite arruinaremos teu reino.

Atená responde em tom conciliador, dizendo: Sagradas Deusas, reflitam antes de agir. O resultado do julgamento, metade a metade, é prova de que ao menos a metade dos mortais gostaria da pura vingança que vós lhe proporcionaríeis. Vejam, portanto, que não há razão para sentirem-se humilhadas, pois o que aconteceu com Orestes foi uma exceção determinada pelo próprio Zeus. E como todos sabem os decretos do Pai, não podem ser modificados. Fiquem em minha cidade e meus súditos sempre as honrarão.

O Coro retruca dizendo: não, nós fomos humilhadas, sim. E nossa vingança contra tua pátria será pesada.

Atená retoma com o mesmo tom conciliador: não, não fostes humilhadas. Como eu disse, Orestes foi uma exceção, mas seus privilégios permaneceram intactos. Evitem que essa cólera imensa as estimule a perseguir homens inocentes, ou inocentados pelo conjunto das circunstâncias em que agiram. Já com tom mais ameaçador, prossegue aludindo ao estreito relacionamento que mantém com Zeus e que a torna especialmente poderosa. Sugere, pois, que pode defender sua terra e seus súditos com a mesma intensidade com que forem atacados. Na seqüência, como um pêndulo intencional que reveza amizade e adversidade, volta ao tom mais moderado e torna a convidar as Fúrias para morarem (terem um Templo) em Atenas, onde receberão todas as honrarias destinadas às deusas.

As Fúrias, contudo, rejeitam a ofertam e voltam a prometer dura vingança.

Atená volta a exortá-las para que esqueçam os maus intentos, pois ela, Atená, pode profetizar e já prevê as glórias vindouras que Atenas terá. Que elas, ilustres deidades, juntem-se a ela para serem, também, recobertas com as mais ricas oferendas. Todavia, se insistirem no desejo de voltar ao seu antro, que elas lhe concedam a dádiva de não inspirarem ódio nos corações antenienses, os quais, por causa desse rancor logo se porão a matar seus irmãos, ao invés de reservarem a coragem e a força para combaterem os inimigos estrangeiros.

Não, diz o Corifeu. Não queremos ter um Templo em tua cidade e sermos tratadas como “seres impuros”. Oh, Noite! Ouve-nos, mãe, que esses deuses perversos despojam-nos das nossas honrarias, fato que até hoje nunca havia acontecido. Nunca nossas prerrogativas foram negadas, como hoje foram.

Pacienciosa, Atená prossegue em sua tentativa de convencê-las a aceitarem suas oferendas e poupar sua terra das medonhas vinganças. Não pensem que eu, a deusa mais nova, ou meus súditos, teve a intenção de expulsá-las daqui. Ao contrário, gostaríamos muito de homenageá-las por serem as “deusas mais antigas” e, portanto, as mais sábias e poderosas. Se vós, como eu, veneram a deusa “Persuasão” concordem com as minhas palavras e sejam minhas hóspedes eternas, pois se não aceitarem e causarem ódio e desgraça para minha cidade, todos saberão que as Fúrias são “deusas intratáveis e injustas”.

O Corifeu, já desarmando o espírito, indaga-lhe: mas onde ficará o nosso Templo, soberana Atená? Digo-lhes que num lugar onde não há tristezas, responde a dileta filha de Zeus. Mas se aceitarmos tua oferta, como seremos honradas? Sem vossa benção, nenhum lar prosperará, responde a deusa de Palas. Mas, pergunta o Corifeu, teremos de fato todo esse poder? Sim, e só os vossos devotos é que poderão contar com a minha proteção, responde Atená. E tua palavra valerá para sempre? Sim, pois nada me obriga a prometer o que não quero, afirma a deusa. Certo, filha de Zeus, tu abrandaste meu rancor e nós renunciaremos ao ódio e à cizânia. Sejam bem-vindas antigas e sábias deusas. Por gratidão, deusa, que hino nós deveremos cantar, pergunta o Corifeu, para homenagear a tua e a nossa nova cidade? Cantem Fúrias benévolas, Eumênides, os hinos que remetem às vitórias sem tristezas. Que falem das calmas brisas e se refira às preces para que o solo e o rebanho nunca deixem de dar mesa farta ao nosso povo. Que exortem aos deuses a protegerem as sementes dos mortais, e que ameacem os descrentes e infiéis. São esses, deusas, os hinos que devem entoar, pois são essas as bênçãos que vocês trarão aos atenienses. Da guerra eu cuidarei, enquanto vós, Corifeu, cuida dos homens.

Observe-se nesse trecho, que decidimos alongar um pouco mais, a magnífica metáfora que Ésquilo faz acerca do difícil processo que transformou a bruta vingança em reta justiça, onde os ritos permitem (ou deveriam permitir) que se encontre o verdadeiro culpado e se adeque a pena ao crime cometido, evitando-se as iniqüidades que a falta de um julgamento ponderado sempre causa. A vingança transformada em justiça assenta-se em lugar de honra no mosaico da sociedade, onde recebe as honrarias que sua nobre tarefa enseja.

O Coro confirma seu desejo de ter um Templo em Atenas, junto com Atená, e jura que nunca aviltará a sua cidade enquanto faz efusivos votos de plena prosperidade para a terra que também é abençoada por Hermes e por Zeus.

Atená, feliz com decisão diz que deixará com seu povo essas deusas incorruptíveis. Que a elas caberá dirigir a vida dos mortais, sendo um açoite para aqueles que não viverem segundo suas normas e regras. Mesmo que o infrator desconheça quais são as normas e as regras (como acontece no Direito atual onde se parte do pressuposto que todos conhecem a Lei). Nasceram tais deusas dos Pecados cometidos pelos antepassados (o original da lenda judaico-cristã sobre o Paraíso?) e mesmo que alguém tente vencê-las com rudes palavras será em vão, pois elas sempre prevalecerão.

O Coro retoma a palavra e diz em tom de súplica: que as colheitas e as criações nunca sofram com as pragas vistas alhures e que os céus revelem as riquezas ocultas no sub-solo, para que os homens possam sempre honrar e agradecer aos deuses pelas benesses que lhes são concedidas.

Atená dirige-se aos próceres da cidade indagando-lhes se bem ouviram os benefícios que as Fúrias farão por Atenas? Vejam como é grande o poder dessas deusas e sua influência sobre as “Entidades Infernais”. Para os mortais serão quem dará motivo de riso para o justo e de pranto para o iníquo.

O Coro proclama que livrará Atenas da morte dos jovens e para tanto intercederá junto das Parcas (as deusas que controlam a vida e morte dos homens) para que todas as virgens desfrutem das delicias do amor. Vós, Parcas, dizem, confirmem vossas presenças em todos os lares, pois neles vós sois as sagradas deusas mais respeitadas.

Atená retoma o discurso para manifestar sua alegria pela deusa Persuasão ter colocado as palavras certas em sua boca, as quais venceram a dura resistência das Fúrias que assim depositaram suas bênçãos sobre a cidade.

O Coro clama para que a deusa Discórdia jamais inspire ódio e vinganças entre os atenienses. E que assim eles troquem as lutas fratricidas pela generosidade entre irmãos, pois só assim a Felicidade prospera entre os humanos.

Atená pergunta às Fúrias se elas descobriram o caminho da bondade? E diz que seus rostos, antes esquálidos, agora só prometem bem aventuranças ao povo. E que o amor que demonstram as fará veneradas para sempre e uma unanimidade em todo Mundo.

Responde o Coro desejando que os atenienses sejam prósperos e felizes, sempre ao lado de Atená e por ela, protegidos de Zeus.

Atená retribui-lhes os votos e pede que elas a acompanhem à frente de piedosa procissão até o caminho para sua morada. De lá, deusas, das profundezas da Terra, retenham os males que nos seriam destinados. E vós, homens ilustres de Atenas, mostrem a rota às bem-vindas recém chegadas.

Diz o Coro: tornamos a desejar felicidades aos moradores dessa cidade. Sejam eles, mortais ou deuses. Cidade que é de Palas Atená, seja-nos reverente, pois a deusa soberana deu-nos a cidadania, e serão felizes.

Atená congratula-lhes pela santa invocação e as convida a lhe seguirem, à luz das tochas, até a descida para as entranhas da Terra, em companhia de minhas seguidoras e da minha sacra imagem. Os olhos dessa minha cidade, que já foi a de Teseu (célebre herói grego), irão conosco nesse cortejo. Matronas e virgens adornem-se com belas roupas para que as bênçãos das novas cidadãs sejam constantes.

O povo que as escoltam cantam: marchem poderosas deusas, filhas da Noite; ao vosso lado seguem seus novos amigos e protegidos que irão convosco até a gruta subterrânea, onde as esperam santas oferendas e preciosas ofertas. Cidadãos de Atenas desejem-lhes bons votos! Aqui sereis sempre cultuadas como deusas benevolentes, pois sabemos que vós sois leais a nossa terra. Nossas tochas indicam vosso caminho divino. O povo de Atenas, o preferido por Atená, ganhou paz e felicidade e assistiu a união entre as Parcas e Zeus onividente. Gritemos de jubilo, cidadãos! Nossa ventura será perpétua.

São Paulo, 01/05/2011.

sábado, 7 de maio de 2011

A Tortura

Eis-me tentando rezar
para algum deus.
De novo, o pesadelo
consome minha
noite.

Os teus gritos
atravessam os tempos,
tal qual
os muros da masmorra.
Parece-me
ouvir-te
clamando a santa
misericórdia
das mães.

Súplica inútil.
Como o meu desespero.
Ainda ouço
o som da pá
que o carrasco-brasil
em ti batia.

Mas tua mãe
não pôde te ouvir.
Ouvi-a eu.
De tudo incapaz.
De morrer-te, incapaz.

Que sonho foi aquele,
que juntos sonhamos?

Para Beth, que hoje faria 49 anos.



.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pura

Eu queria
um amor sereno.
Desses, que me espere
no fim do dia
sem relato de proeza
ou acúmulo de riquesa.

Desses, cuja segurança
não se torne tédio
e cujo ciúme,
mostre-me querido
sem a sensação
da posse e compulsão.

Desses, que me espere
com um guarda-chuva,
mas que na chuva
ande comigo.

Desses, que me leia
Homero
e chore pela dor
de Otelo.

Desses que ria, lamente,
brigue e volte,
por saber que ambos
somos um.

Desses, que perfume
minha mala
e espalhe flores
pela sala.

Desses, que saiba
o quanto se diz
no silêncio que se quis.

Desses, que saiba
que a vida é breve
tempo
entre dois momentos.

Desses, que me beije
com paixão
e viva a ternura a dois
no gozo
do depois.

Desses, que se saiba
o fim da procura,
pois caminha comigo
a santa virgem
pura;
e a santa
puta
impura.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Atlante

Lá longe ficou
o frio da serra,
e as gorjetas
de tantos horrores.
As tantas dores
e os indevidos amores.

Agora aqui,
tanta mágoa´
e esse barco/corpo
que náufraga.
O eterno temor
do sabido tumor.

Restaram-me
alguns versos,
alguns verbos
e mais substantivos
que adjetivos,
nas coisas que
escrevi
e não li.

As coisas
de sempre:
as esperas,
a tortura
das esperas;
a demora,
o bota-fora
e a não vinda,
por Culpa do Sistema,
senhor...
Senhor!?
Senhor de quê?
Da inútil quimera
e do Pesadelo
das utopias abandonadas...

Carrossel sem fim,
de coisas assim.
As insônias sem fim,
por coisas assim.

A dor logo passa.
Creio na graça
de Iemanjá, dos Orixás
e da Santa Morfina,
por quem rezo
em surdina.

Não sei o fim
dessas latinas lendas,
perdidas nas gregas
calendas.

Poços ficou distante.
E é tão inútil
qualquer Rocinante,
que eu nem vi
o mar de Atlante.
Findou o rio que
eu navegava,
mas o mar de Platão
não estava.

Perdido mar Perdido.
Como um "Si" em
sustenido,
ao longo desse
parto
invertido.

La Vie

O tempo
nunca é curto,
enquanto mede
a dor
de uma ausência.

Mas eis que me
visitam
amores que vivi;
e Piaf ressurge
em todos os
tons e sons.

E se por ti
eu soube,
que a saudade
tem nome,

por ti
talvez eu saiba,
como renascem
os
devaneios.

Para Eliane

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pedras

Agora é de pedras
o leito do homem,
que pedras sonha
sob o viaduto
de todos
(ma non troppo).

Agora já não
dorme
o homem
das pedras.

Seu sono incomoda
os passantes
dessemelhantes,
desde o
infortúnio
de antes.

*Houve um pedra no meio do caminho...


*Da poética de Carlos Drumonnd de Andrade.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Tina

Vê-se na tina d'água
um Oceano
limitado
pelas humanas
margens redondas.

Oceano contido,
tristeza sem alarido
do Existencialista
sem sentido.

Assim é:
viver por viver,
velejar sem se ver.

O Mundo é mais
que o barril
rotundo.
Raso e Profundo,
em cada marola
canta a troco
da reles esmola.

A vida nos assola.

Tina do Mar
na bacia das almas,
xepa da feira,
oferta da videira.

Viver,
é passar
na peneira.

domingo, 1 de maio de 2011

La Prima Veritá

Nada custa
lembrar de ti
ao som de Vivaldi.

Rebrotou a vida
como uma
Primeira Verdade,
"una Prima Veritá",
inesperada Primavera
sob um Sol
que tendia ao ocaso.

Eis-te refeito, Homem
que já acabara.
Eis reposto
teu desejo,
o ensejo
e o querer benfazejo.

Revive
o que reviveu.
O gerânio que
reabriu,
como os azuis
do céu
de Abril.

Para Eliane.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Barba

O espelho
que tudo
reflete,
balança no
prego torto.

Prisioneiro naquele
retângulo embaçado,
vejo que a idade só
mostra
o que está atrás
das minhas costas.
A vida que vivi
atrás dos meus ombros,
vestutos escombros.

À frente só vejo
que minha barba
está branca.
Alva e calva
redesenharam
o que ainda
penso ser.

Cada sulco no rosto
foi semeado de dor,
frustração
e desamor.

Mas um brilho insistente
reconta algumas
vitórias:
certos amores certos,
os momentos de fúrias
e as calmas dos desertos
despertos.

O rosto que vejo,
conta minha história.
O resto,
fugiu da memória.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pecado

Paraíso Perdido
por culpa
do Pecado cometido
e do abuso consentido.

Erramos desde
o começo;
assim dizem
as Escrituras
e os Torquemadas
Fleurys
das torturas.

Brejo da Cruz
de Chico*,
infecundas
as tuas águas,
abundantes
as tuas pragas.

Só mosca varejeira
na morada derradeira
da insana guerreira,
que lutou
contra a direita
cachoeira.

O jovem ator
presta-te reverência.
Algum arrependido
faz-lhe continência.
Tudo em vão,
sete palmos
abaixo do chão.

Para Bete.



* da poética de Chico Buarque de Holanda.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Cordel

Rio das Almas Penadas,
chorosas águas passadas,
que já não movem moinhos
e nem saciam
os homens sozinhos.

Navegam fomes
nas barrancas
dos Ribeiros;
navegam desejos
nas palafitas
dos Alagados.

Comida não há,
corpo não há.
Só a Carranca
do Destino
é que há.

Severinos de Cabral,
retirantes de Graciliano,
brutas penas,
das brutas terras
de Penas apenas.

- Poeta da corda
o que canta teu cordel?
- Coisa pouca:
o Rio das Almas Penadas,
as carnes talhadas,
as vozes caladas
e as vividas mortes
prolongadas.

Referência às obras de João Cabral de Melo Neto e Graciliano Ramos.

domingo, 24 de abril de 2011

Seca

Sinto
a seca dos versos.
O papel é caatinga
donde nada brota.

A caneta é espinho
e o longo punhal
que sangraria o Poema
perdeu o corte e a ponta.
A letra bateu asa
e fugiu.

Seco ressecado
estou caminho
de chão batido;
sem destino
de chegada,
sem lembrança
da partida.
A vida é só de ida.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Longe

Longe,
muito longe.
Depois da toca
do monge,
a vida
se divide
e é preciso
outra valentia,
nessa nova
sesmaria.

Já não bastam
reza, ladainha
e punhal na bainha.
Urge
e ruge,
qual fera
enjaulada
e mortal
na distância da patada.

Bruta vida,
bruto Tempo.
É inútil
o antigo
lamento.
O caminho
escolhido,
não merece
ser lido.
O Poema findou
e o verso não se fez.
Contentemo-nos
com um talvez.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Cheia

Como Matrona
da Renascença,
segue opulenta
essa Lua Cheia
que o proibido
cerceia
e todo mistério
clareia.

Quantos amores
tu revelará?
Quantas juras
se fará?

Lua gitana
nessa América
pós Ibérica,
que canta
a negra dor
entre a luxúria
de tanta cor.

Quais amantes
tu já viu,
Dama de Plata?
A quantos Homens
tu serviu
menina de lata?

Noite clara
na rara
semi-paz,
dos Homens
irreais.

Dormem os anjos
sonhando serem
arcanjos.
E as sofridas mulheres,
com outros arranjos.

De tudo se vê
Lua Cheia.
E tudo se ouve
nessa pensão
de parede-e-meia,
que vadia
vagueia
como Santa sem Graça
ou virgem devassa,
sem dono,
sem raça.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Noite Gim

A pista,
a meia-luz,
o gosto do gim
e o calor do teu
corpo
ainda no meu...

Vivi a noite.
Vivi pelas noites,
nas boites
de toda esquina,
onde a cura
para o "Mal de Amor"
vira sina.

Noites que em teus
olhos
sempre vi;
e contigo
reparti.

Poetas dançados,
beijos molhados
e teus seios,
sempre amados.

Velhas lembranças
que alguma música
aviva,
qual brasa escondida
nesses tempos
de boêmia
esquecida.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Depois

Depois
do momento
escorrido,
pinga o tédio
do tempo médio.
Há um cinza
em cada cor.

Guernica não
está só.
Outro Pablo
desenha
outras mortes;
estão lançadas
as sortes
e perdidos
os nortes.

Homero já
não canta
e os deuses
se foram.

O grito da
gaivota
sugere
o Mar
que não
vejo.
Só sigo
o cortejo.

sábado, 16 de abril de 2011

Gregas Tragédias - 09 - COÉFORAS (Electra, Orestes)

Ésquilo

Cenário – ao fundo o Palácio de Agamêmnon com três portas, sendo uma do Gineceu (1). No centro da cena está o túmulo do rei assassinado. Ação transcorrida em Argos.

1 - Gineceu: parte da casa destinada às mulheres.

Época da ação – idade heróica da Grécia, c. 1200 aC.

A 1ª apresentação – 458 aC. em Atenas.

Personagens:

1- Clitemnestra, viúva de Agamêmnon e amante de Egisto.

2- Coro, composto pelas escravas

3- Egisto, primo de Agamêmnon e mentor intelectual de seu assassinato. Amante de Clitemnestra.

4- Electra, irmã de Orestes.

5- Orestes, filho de Agamêmnon e de Clitemnestra.

6- Pilades, filho do rei Estrófio, melhor amigo de Orestes e futuro marido de Electra.

Resumo


Coéforas (1) narra a vingança de Orestes sobre Clitemnestra e Egisto. Esse texto, com as variações pertinentes ao estilo de cada um, também é tratado por Sófocles na peça intitulada Electra. Embora sejam similares, decidiu-se incluir a mesma nessa obra, para que o leitor possa saborear a genialidade de cada um dos trágicos.

1 – Coéforas – do grego “choephóras”, na Grécia Antiga, cada uma das portadoras de oferendas destinadas aos mortos.

O inicio de Coéforas deveria ser precedido pelo lamentoso monólogo de Electra que se queixa das duras condições em que vive, graças ao desprezo da mãe, Clitemnestra; que após o sacrifício de Ifigênia e a partida de Agamêmnon para Tróia, preservou-a da morte, bem como ao irmão Orestes, mas a rebaixou ao nível de escrava.

Nesse tempo, em certa noite Clitemnestra tem um pesadelo horrível. No sonho, ela pariu uma cobra que ao ser amamentada suga-lhe o leite e o sangue. Alarmada, logo na primeira hora da manhã seguinte ela consulta um dos adivinhos do Palácio que “vê” o sonho mau como um aviso do rancor das Entidades Infernais. Sugere-lhe que não tarde em mandar oferendas ao rei assassinado para acalmar as almas furiosas. Presto, Clitemnestra manda Electra e outras servas ao cemitério onde deverão fazer os ritos necessários para pacificar os espíritos e a alma do rei morto. No Campo Santo, Electra vê cachos de cabelo, como oferenda, no túmulo de Agamêmnon e pressente serem de Orestes, o irmão que se salvou da insana fúria da mãe ao ser enviado para a Corte de seu tio Estrófio, na distante Fócia. E, de fato, a ele pertence a oferta. Adulto, Orestes recebe em sonhos o pedido de vingança que o pai lhe faz e decidido a cumprir tal apelo volta para Argos, parando primeiramente no túmulo do pai para prestar as homenagens fúnebres.

A peça de Ésquilo inicia-se com Orestes depositando sua oferenda (um cacho de cabelos, conforme o costume da época) no túmulo do pai, enquanto tece loas ao mesmo e pede a proteção do deus da guerra, Ares. Após depositar o cacho de cabelos no túmulo do pai, Orestes galga o mausoléu e avista um grupo de mulheres aproximando-se do local. Dentre elas, distingue sua irmã, Electra, fato que o faz reforçar sua súplica aos deuses para que consiga vingar o pai e banir a dor profunda que vê no rosto da irmã. Porém, como acha que a hora ainda não é chegada, diz ao seu dileto amigo, Pilades, que devem se esconder para saber com exatidão o que querem aquelas mulheres.

O Coro, com Electra à frente, assume a cena e canta, em tom melancólico, que as mandaram sair do Palácio e trazer oferendas para acalmar os espíritos e, principalmente, a alma de Agamêmnon. Além das ofertas, aquelas mulheres trazem no rosto as marcas dos sofrimentos diários a que são submetidas, em meio a tantas outras desgraças. Dizem que elas trazem os tributos a mando de Clitemnestra, atormentada em sonhos pelo espectro do marido que matou.

Veja-se o capitulo “Agamêmnon”, nessa obra.

Pretende a homicida, diz Electra, livrar-se da punição com esses falsos agrados; com essa hipócrita devoção. Ah, terra-mãe, que sacrílega! Falsa, cínica! Eu temo até pronunciar as palavras que ela me ordenou, pois que reparação poderá haver para o cruel assassinato? Oh, Casa Real completamente destruída! A antiga e respeitada Majestade já não existe. Todos questionam a legitimidade e a legalidade dos novos reis. Ninguém os respeita, apenas os temem. Mas quando o sangue encharcar a terra, ao menos um coágulo manter-se-á intacto e é dele que virá a vingança. A balança da Justiça chega antes para alguns, mais tarde para outros; mas é certo que atingirá a todos. Tão certo quanto à morte ceifar todas as coisas vivas. E quanto mais demorar, mais severa será a Vingança, pois da mesma forma que nada pode repor a virgindade, nada pode lavar completamente o sangue injustamente derramado. Nem mesmo se todos os elos formassem uma única e poderosa corrente. Agora somos tratadas como escravas em nossa própria casa e temos que conter nosso ódio e acatar as sórdidas ordens dos nossos algozes. E ocultar a mágoa e a pena por nosso pai e rei que caiu vitima dos traiçoeiros golpes da pérfida mulher que nos pariu. Por esconder nosso luto no fundo peito, é que temos o coração constantemente gelado.

Note-se que em nenhum momento Electra cita o nome de Ifigênia e tampouco lamenta sua morte. Trata Agamêmnon como o melhor dos pais, esquecendo-se convenientemente do bárbaro infanticídio que ele cometeu. Chora sua morte, mas apenas pelo que ela representa em termos de seu próprio rebaixamento. O egoísmo grego, aqui explícito, mostra-se novamente.

Já no pé de túmulo, Electra pede às escravas da sua comitiva que lhe deem conselhos sobre como fazer os ritos, sobre o que dizer quando fizer as libações, pois lhe custa achar as palavras certas em seu espírito perturbado. Dirá apenas que é a portadora das homenagens a um esposo amado de uma amante esposa? Mas “isso não se pode dizer”, pois não tenho a menor dúvida da falsidade desse amor que ela diz ter. Ou direi apenas os ritos sucintos, como os que os homens fazem, dizendo-lhe apenas que retribua todo mal que ela lhe causou e que nos causa ainda?

É oportuno notar que esse rito ordenado por Clitemnestra pode ter sido motivado apenas pelo temor que a alma de Agamêmnon ainda lhe inspira; porém, não se deve descartar que a motivação pode ter sido o remorso. Sentimentos típicos da mente humana que se sobrepõem e ditam as condutas.

Sem resposta ainda, Electra insiste no apelo dirigindo-se ao Corifeu, que em atitude de reverência a Agamêmnon, recomenda-lhe que durante as libações ela elogie os amigos, depois os parentes e na seqüência, Orestes, mesmo ele estando distante. Electra aprova sua sugestão e o Corifeu prossegue dizendo-lhe que, depois, ela pense nos culpados e peça a algum deus, ou a um mortal poderoso que os enfrente e derrote. Ela pergunta se ele se refere a um “Juiz” ou a um “Vingador” e a seca resposta do Corifeu não deixa dúvidas: “alguém que mate, quem matou”.

Recorde-se aqui a questão da “Vingança” e da “Justiça” que é colocada alhures nessa obra, particularmente no capitulo referente à Hécuba.

Hesitante, Electra pergunta-lhe se tal desejo é piedoso (no sentido de religioso, agradável aos deuses) e ele responde com nova pergunta: “não queres desejar mal aos inimigos?”. Convencida, Electra segura o vaso e derrama a água cerimonial dando inicio às libações sobre o túmulo. Primeiro invoca o deus Hermes e as Entidades Infernais que são os protetores da Casa Real de Agamêmnon. Em seguida invoca o pai e a ele se lamenta por estar sendo tratada como reles escrava enquanto a mãe e o amante dilapidam os bens que ele tão arduamente conquistou. Perdularismo que a deixam e a Orestes cada dia mais despossuídos. Pede-lhe a benção e o auxilio que propicie a volta de Orestes; e que ele, ou outro homem poderoso, a ajudem a matar os assassínios.

Embora repetida, vale a observação da questão do “Direito Divino”. Electra não questiona a péssima qualidade de vida de uma escrava. Nem lhe passa pelo pensamento melhorar a condição daquela, apenas sair da mesma.

Que ela possa executar a justa retaliação (sic). Pede-lhe, enfim, que permita juntar seus pedidos de proteção aos amigos, com as imprecações que faz contra os inimigos. Que ele, do Hades, zele pelos filhos que continuam na face da Terra graças aos deuses e à Justiça, mensageira da Vitória. Terminando de derramar as libações sobre o túmulo, diz às servas que elas encerrem o ritual com lamentações em altos brados, entoando um hino em homenagem ao ilustre morto. E o Coro entoa seu Canto nostálgico, prateando o falecido Senhor que ora jaz naquele refúgio do Bem e do Mal. Choram para que as lágrimas lavem a mácula de Agamêmnon enquanto derramam as águas lustrais e clamam pela vinda de um herói que vingue os crimes passados e interrompa os do Presente.

Electra reassume a palavra e diz a que Terra e o Pai já sorveram as libações. Em seguida fala de sua surpresa ao ver um cacho de cabelos deitado, como oferenda, ao pé do mausoléu. O Corifeu indaga-lhe se é de moça ou de rapaz e ela responde que é fácil de presumir, pois além dela quem mais poderia fazer tal oferta, já que só ela é loura. Responde o Corifeu que o autor da oferenda deve sentir o mesmo ódio que a princesa e nota como são semelhantes os cabelos do cacho e os dela. Impaciente, a serva mais idosa suplica-lhe que diga a verdade, embora já intuísse a possibilidade de ser de Orestes; restando a Electra confirmar-lhe o que já sabia. Sim! É de Orestes, a mecha de cabelos. O Corifeu, porém, questiona se ele teria coragem para vir a Argos e Electra pondera que ele talvez só tenha mandado sua oferenda por alguém de sua confiança. A serva, então, não retém as lágrimas por temer que ele nunca mais volte à terra natal e aos seus braços que o seguraram quando bebê.

Na seqüência, Electra diz que compartilha do temor da escrava e com isso se desfaz o fio de esperança de que ele tivesse voltado. Talvez, dizem, esse cabelo seja uma relíquia de algum inimigo, embora isso fosse improvável, pois nenhum deles tinha a pele clara e o cabelo louro. Exceto Clitemnestra, mas também seria impossível acreditar que aquela pérfida esposa tivesse a nobreza desse ato.

Contudo, o germe da esperança já estava semeado e Electra se queixa da falta de alguém que pudesse confirmar o retorno do irmão querido. Por fim reza e pede aos deuses que a protejam das más ondas que a envolvem. Em seguida, nota algumas pegadas e volta a ter esperança de que o irmão querido tenha voltado, pois as marcas são idênticas as suas. A aflição domina-lhe os sentimentos e nesse instante, disfarçado, Orestes surge seguido pelo fiel Pilades.

Dirigindo-se à irmã, ainda incógnito, ele sugere que ela peça aos deuses que conservem o seu dom de formular excelentes votos, como o que acabara de fazer. Responde-lhe Electra perguntando se as divindades lhe concederiam tão alta graça? Retruca Orestes dizendo: “teus olhos veem a criatura que há tanto tempo desejava rever”, por mérito de teus votos, que comovem até aos deuses mais empedernidos. Electra pergunta se ele conhece o homem que ela procura? O “Vingador”. Ele responde que sim e ela lhe pede que indique qual oração os deuses escutariam naquele momento para trazê-lo a Argos?

Orestes, enfim, se revela. No primeiro momento Electra não lhe reconhece e teme que ele planeje algo escuso; ou que deseje apenas zombar de sua dor. Assim, indaga-lhe como aceitá-lo sem sombra de dúvidas?

Retruca o Príncipe que há poucos minutos, ao ver sua pegada e a mecha de cabelos, ela encheu-se de esperança. Agora, diz, coloca essa mecha em meu cabelo e tu verás que o encaixe é perfeito, no lugar em que o cortei. Observe, também, esse manto que eu vestia e haverá de reconhecer que os adornos foram feitos pelas tuas hábeis mãos.

Quase convencida, Electra vai em direção a Orestes prestes a soltar um grito de júbilo. Contudo, domina-se e impede que seu inconsciente se transtorne por contentamento, pois carrega o trauma de ser mais maltratada do que amada. Mas a verdade é inescapável e ela confirma a identidade do irmão. Sim! És tu! Após os elogios naturais, ela diz que o amará de quatro maneiras diferentes: como se ele fosse o pai, transferindo-lhe o amor que deveria oferecer à mãe se ela não fosse como é; ofertando-lhe o amor que deveria dedicar à irmã Ifigênia; por ele representar o “Vingador” que restituirá o que lhe foi tomado e, por último, por ele ser o irmão dileto.

Note-se que mesmo citando a falecida Ifigênia, Electra nada diz sobre o fato dela ter sido cruelmente executada por Agamêmnon. Essa observação revela a falsidade das outras formas de amor, deixando apenas a de “Vingador” como válida.

Suplicante, reza para que Zeus dê a força e o poder necessários ao irmão para que ele consuma a vingança. Que sempre esteja ao lado dele. Orestes a segue na invocação e compara a si e a Electra, como jovens águias órfãs, sem o apoio do pai. Também implora que Zeus perfaça o apoio paterno que eles não têm e lhe “diz” que foi Agamêmnon quem mais o celebrou e que se Ele quisesse mais celebrações deveria auxiliar-lhe na dura empreitada (sic).

Note-se que Orestes chantageia Zeus, condicionando suas homenagens ao apoio que ele lhe oferecer. É sabido o antropoformismo na Grécia antiga, mas é interessante notar que a essência do esquema “obediência = recompensa” continua a vigorar nos dias de hoje. Supõe-se que existe um “Ser Superior” que protegerá quem obedecer a suas regras. Em contrapartida, os devotos atuais (com as exceções devidas e até de forma inconsciente) rezam para alcançar algum beneficio, ou alguma graça, e não para louvar a Deidade em si.

O Corifeu assume a cena e recomenda aos jovens que façam silêncio, evitando que os “Donos do Poder” saibam da chegada de Orestes e dos planos de ambos.

Orestes retoma a palavra dizendo que recebeu ordens do próprio Apolo para que executasse a vingança. Também relata os terríveis castigos que sofreria, caso não cumprisse os desígnios do deus. Ficaria sujeito às “Fúrias”, que punem especialmente os crimes entre consangüíneos, e constantemente sofreria com o aguilhão das mesmas; além de se tornar um pária, por todos enjeitado. Tenebrosos castigos, diz, mas mesmo que nada houvesse, ele executaria a Vingança para atender aos apelos de seu coração e da alma de Agamêmnon que seguidamente lhe aparece em sonhos. Sim, ele não permitiria que os bravos argivos, heróis na guerra de Tróia, fossem dominados por “duas mulheres”.

Orestes compara Egisto a uma mulher debitando-lhe, conforme a prática machista e chauvinista, os “defeitos” de ser frágil, ou incoerente, ou vivente fora da realidade. Alguns eruditos veem nessa comparação certa homofobia. Recorde-se que à época, ser mulher ou homossexual eram condições de inferioridade social, não obstante os relacionamentos amorosos serem aceitos.

Volta o Corifeu à cena invocando, através das Parcas, a intercessão de Zeus para que tudo se realize a bom termo. Que cada ódio dos “governantes” tenha igual resposta e que cada golpe mortal, seja respondido por outro superior. “Que se dê ao culpado, o castigo”, como diz o antigo provérbio.

Orestes lamenta o pai infeliz e pergunta como proceder para que sua voz chegue ao negro Hades. Como deverá fazer para seja uma luz em meio à escuridão que cerca Agamêmnon? Em seguida lamenta a si próprio e à irmã, pois muitos soluços já derramaram e ainda derramarão até que o Palácio volte a ser dos Atridas, seus donos legítimos.

Replica o Corifeu dizendo que a alma de Agamêmnon continua feroz e que cedo ou tarde sua cólera irromperá, pois basta alguém lamentá-lo para que apareça quem lhe vingue. Os lamentos pelos pais são justos e poderosos e inexoravelmente alcançarão os culpados.

Electra toma parte na conversa e dirigindo-se à memória do falecido pai, diz que seus dois filhos lamentam-no sobre uma fria sepultura. Uma reles tumba que os recebe e onde entoam seus lamentosos cantos. Haverá, pois, algum conforto nisso? Não é um justo motivo para se desesperar, ter que lutar contra tal fatalidade?

O Corifeu retoma a palavra para dizer que se um deus desejar, sons mais agradáveis que os tristes lamentos de agora serão ouvidos. Que alegres hinos serão entoados no Palácio para comemorar a volta de um Rei querido e o fim da amargura presente.

Note-se que à semelhança da atualidade, delegava-se aos deuses (ou a Deus) a ocorrência da felicidade ou da tristeza, como se os Homens não fossem responsáveis por essas situações.

Lamenta Orestes o fato do pai não ter morrido na guerra de Tróia, pois se tal acontecesse maior seria sua fama e maior seria a admiração que ele e sua irmã causariam entre os outros gregos. Mais glorioso (sic) seria seu túmulo e menos triste para seus filhos. O Corifeu prossegue nessa linha dizendo que se ele fosse morto heroicamente, ilustre e caro aos amigos, mesmo enterrado, manteria sua alta posição ante os outros reis. Electra, porém, discorda e fala que o Pai não deveria ter morrido em Tróia, tampouco em seu próprio lar. Mas se o contrário acontecesse e os seus assassinos tivessem sido mortos, eles nem teriam noticias de seus passamentos, pois isso em nada os afetaria. Ao contrário de agora, em que a saudade e a mágoa são companheiras constantes.

O Corifeu, em tom de censura, diz à Electra que ela almeja uma felicidade inatingível, irreal. Diz-lhe que isso é apenas um sonho, muito distante da realidade que se constitui apenas dos sofrimentos causados pelos dois verdugos, Egisto e Clitemnestra. Orestes ressente-se dessas palavras e após breve invocação a Zeus e de constatar que o alvo a ser atingido é sua própria mãe, anuncia resoluto que já é tempo de agir.

O Corifeu fala de seu desejo de gritar o vaticínio e de sua ânsia de ver Egisto no limiar da vida, enquanto Clitemnestra já adentra o negro Hades. Diz que já não pode reprimir seus sentimentos, posto que eles se sobreponham à conveniência de se manterem ocultos.

Pergunta Electra quanto Zeus executará a vingança sobre os culpados, trazendo de volta a paz e a confiança sobre a Terra? “Justiça”, ela brada. “Chega de injustiça!” exclama a princesa.

É interessante notar como são diferentes os pesos atribuídos aos atos. O infanticídio perpetrado por Agamêmnon contra a própria filha não é sequer mencionado por Electra, Orestes e o Coro. Se um leitor, ou um espectador, não conhecesse o Passado do rei, acharia que ele é, de fato, uma vitima inocente da crueldade da esposa e do amante desta. A morte de Ifigênia pesa bem menos que a de seu algoz. Certamente por ele garantir o conforto e o bem-estar daqueles que o idolatram hipocritamente. Chora-se pelo que não se terá com a morte dele, mas não pela morte em si; pelo seu desaparecimento, por saudades de seus modos carinhosos etc.

A palavra volta para Electra que clama por maior celeridade de Zeus para punir os culpados. De novo pede Justiça (sic) e não Injustiça. Suplica que a Terra e as Entidades Infernais ouçam seu apelo. O Corifeu completa o seu arrazoado, citando a “Lei” que exige o “sangue de quem o derramou injustamente (por que, então, não se pediu o de Agamêmnon quando ele imolou a filha?)”. Diz que o assassinato de Agamêmnon exige a vingança das “Fúrias Vingadoras”, as quais, em nome das primeiras vitimas, provocarão outras tantas.

O Corifeu alude a um Conceito que se tornou o proverbial: “violência gera violência”.

Volta Orestes a se pronunciar suplicando que “As Fúrias” vejam a miséria à que foi reduzida a Casa Real dos Atridas; enquanto ele mesmo sofria as humilhações e os pesares inerentes ao seu longo exílio. O Corifeu diz que as últimas palavras de Orestes causam-lhe medo e desesperança, pois só as suas afirmativas viris e corajosas é que o fazem sonhar com a vitória derradeira. E Electra questiona o que se deveria dizer naquela hora. Que nosso sofrimento é obra de quem nos deu à luz? E que mesmo que ela tentasse suavizá-los seria em vão, pois o coração de cada um dos filhos restantes tornou-se um lobo ávido por sangue.

O Corifeu bate no próprio peito seguindo uma lúgubre cadência, como as carpideiras fazem. Diz que os baques de suas mãos mortificam-lhe o corpo e a mente.

Electra torna a xingar a mãe de despudorada e malvada e pergunta como ela ousou sepultar secretamente o rei, dando-lhe tosco funeral; frio, pobre, sem as lágrimas do Povo e daqueles que amavam verdadeiramente o grande soberano? Orestes mostra indignação igual à da irmã ante o sacrílego enterro do pai e afirma que matará a mãe, mesmo que tenha de morrer por isso. O Corifeu alimenta o fogo desses ressentimentos dizendo que Clitemnestra, após matar Agamêmnon, mutilou o seu corpo. Aliás, diz, talvez fosse esse o motivo de fazer o sepultamento às escondidas, o qual só aumenta o fardo de vergonha sobre os descendentes do rei argivo.

Electra prossegue suas lamúrias dizendo que o Coro relata os sofrimentos de Agamêmnon, mas os que ela mesma suporta não ficam a dever em relação àqueles. Tratada como escrava, diz, eu fui trancafiada em meu quarto sem poder, ao menos, chorar as minhas desventuras. Em seguida dirige-se a Orestes e pede que guarde n’alma o que ela disse. Ambos voltam a invocar o Pai e o Coro junta-se à voz dos irmãos e clama pelo rei morto. Orestes brada que doravante será “força contra força” e Electra pede que os deuses se coloquem sempre ao seu lado. Que lhes dê a vitória.

O Coro volta a manifestar seu medo de que a vingança demore e lamenta o sofrimento da raça dos Atridas, que só cessará por obra de um filho da dinastia, após luta renhida e sangrenta. O Corifeu pede que as Entidades Infernais socorram e auxiliem os jovens para que eles consigam a vitória final. Orestes implora que o Pai, morto de forma indecorosa e imprópria para um rei conceda-lhe a soberania do Palácio. Electra, por sua vez, suplica ao Pai que lance a desventura que ora enfrentam, sobre o detestável Egisto. E o jovem príncipe promete ao Pai, em retribuição à sua ajuda, que fará celebrar constantes e grandes festas para que seu nome nunca seja esquecido, pois ele bem sabe que sem comemorações a memória do povo é curta. Nesse sentido, Electra invoca seu direito de legitima sucessora e corrobora a fala do irmão, dizendo que trará ao Mausoléu do Pai as suas libações de “esposa moça” quando deixar o seu Palácio para se casar. Também diz que honrará sua memória acima de qualquer outra. Por fim, os irmãos pedem que a Terra se abra e que o pai venha se juntar a eles para a dura luta, prestes a começar. Na seqüência citam os detalhes da traição e da morte de Agamêmnon e lhes pedem que não deixe morrer a última semente do Patriarca Pelópidas, pois se assim fizer, vencerá a própria morte, haja vista que sua memória será eterna. Orestes se coloca como uma bóia que impede o nome paterno de afundar no Oceano do esquecimento. Após o longo discurso, os irmãos afastam-se do túmulo e o Corifeu anima Orestes dizendo que agora, com sua disposição no ápice do vigor, que comece a lutar.

Orestes concorda com o Corifeu, mas se mostra apreensivo sobre os motivos de Clitemnestra fazer aquelas libações e oferendas. O Corifeu conta-lhe dos pesadelos que a rainha teve e que a forçaram a tentar apaziguar os espíritos enfurecidos. E para saciar a curiosidade de Orestes, também lhe conta os detalhes dos sonhos ruins.

Esperançoso de que aqueles pesadelos fossem presságios a ele favoráveis, torna a pedir a graça ao Pai para que aquelas premonições tornem-se reais. Associa-se à víbora que ela pariu nos sonhos e pressente que ele, então transformado em víbora pela maldade dela, haverá de tirar-lhe o sangue e a vida. O Corifeu elogia sua arguta interpretação e lhe pede que se coordene com os amigos e planejem a ação, pois o tempo urge. Responde-lhe Orestes dizendo que seu plano é muito simples: que do mesmo modo que eles mataram o heróico rei, ele os matará usando as armadilhas que lhe foram aconselhadas pelo deus Apolo. Ele e seu amigo Pilades fingirão serem suplicantes vindos do Parnaso e em busca de hospitalidade no Palácio. É provável, diz, que os guardas não sejam amistosos e nesse caso eles contam com a curiosidade do povo sobre aqueles forasteiros a quem Egisto nega hospedagem, um crime inadmissível nos costumes da época. E se Egisto lhes aparecer de súbito, prontamente eles o matarão, sem lhe dar chance de pedir socorro à sua guarda. Morto o amante, o passo seguinte será matar Clitemnestra, sua própria mãe; tarefa que lhe pesa mais pela emoção do que pela dificuldade que antevê. Após esclarecer o que lhe vai à mente, pede que as mulheres que compõe o Coro voltem ao Palácio e que, enquanto tomam as providências necessárias, guardem estrito segredo sobre o que foi tramado e exposto.

O Coro, nesse ínterim, volta ao Palácio entoando um triste canto que relembra as maldades já ocorridas entre filhos e pais, mães e filhos, esposas e maridos etc. durante a História do Mundo. Cita como exemplos abomináveis o fogo que Altaia colocou em seu próprio filho Meleagro; a sangrenta Cila que imolou o próprio pai a troco de algum ouro do rei Minos, de Creta; o tenebroso casamento entre os Lêmnios (os habitantes da ilha de Lemnos, mortos traiçoeiramente por suas esposas enciumadas) que extingui com a dinastia. E agora, a esse conjunto horroroso, irá se juntar o matricídio cometido por Orestes.

Para melhor entendimento, aconselha-se que os crimes citados sejam estudados através dos Dicionários de Mitologias que citamos na Bibliografia.

Enquanto isso, Orestes e Pilades seguem para o Palácio onde executarão seu plano. Chegados, Orestes chama pelos escravos e bate à porta reclamando os “direitos a hospedagem”, conforme o férreo costume da época. Um dos serviçais atende perguntando-lhe quem bate e qual a sua procedência? Orestes pede que rapidamente o anuncie ao dono, ou a dona da casa, pois traz noticias do filho da mesma e pelo fato da noite estar prestes a cair, obrigando-lhe a buscar abrigo.

Nesse instante Clitemnestra assoma à porta e lhes diz que ali encontrarão a melhor acolhida possível e que se trazem assuntos sérios, o homem da casa os receberá. Fala-lhe Orestes que é de Dáulis, na Fócida, e que a caminho de Argos foi abordado por um desconhecido que lhe pediu, após saber seu destino e se apresentar como Estrófio, para avisar aos reis argivos que Orestes morrera. E que na volta informasse-lhe se devia enviar as cinzas do jovem para a casa paterna, ou se deveria sepultá-lo definitivamente na pátria que o recebeu e que sempre honraria sua memória.

Clitemnestra finge estar arrasada com a notícia e culpa a maldição da Casa de Agamêmnon por mais esta desgraça, enquanto clama e brada uma dor que não sente. Orestes lamenta ter portado uma má noticia, até porque se fosse o contrário, seria mais bem tratado. Clitemnestra sossega-lhe esse temor, pois a notícia funesta não impedirá de lhes prestar a melhor das hospedagens. Talvez esquecida de que deveria continuar com a falsa tristeza, logo ela designa uma das servas para lhes acomodar e lhes propiciar tudo de que necessitarem. Em seguida todos entram e a alegria contida de Clitemnestra não passa despercebida pelos servos.

O Corifeu conclama as servas do Coro a apoiarem Orestes; e ao deus Hermes pede que lhe dê êxito na empreitada. Nesse momento, a escrava que cuidava dos “estrangeiros” sai do Palácio anunciando que eles já começaram a molestar os anfitriões. A ama-de-leite que cuidou do príncipe recém nato também sai apressada e sinceramente ferida pela morte de “seu menino”. Ao Corifeu responde que está indo chamar Egisto conforme as ordens da rainha, pois ela quer o amante presente para que converse com os hóspedes sobre as notícias que trouxeram. O Corifeu pergunta-lhe, então, se Clitemnestra mandou que Egisto viesse só, ou com sua guarda e ela responde que acompanhado pela escolta. Ele lhe pede que minta ao impostor e lhe diga que a rainha o chama com urgência e que ele não se preocupe em vir acompanhado, pois não há sombra de perigo. A velha ama, mesmo sem alcançar o motivo daquela mentira, a cumpre. Dói-lhe n’alma ver a falsa tristeza da mãe desnaturada e prever a falsidade do impostor, que internamente estará sorrindo com a morte de “seu filho”.

Note-se que a figura da “ama-de-leite” é um arquétipo universal de fato. Aqui no Brasil, a “mãe-preta” ajusta-se à perfeição com tal paradigma.

O Coro assume a cena e invoca a proteção dos deuses citando nominalmente a Zeus, a Apolo e a Hermes. A eles também pede que Orestes não hesite em matar Clitemnestra se ela quiser chantageá-lo emocionalmente e, novamente, promete grandes celebrações e oferendas. Enquanto entoa o “Hino da Libertação”, Egisto chega à ribalta.

Ao Corifeu indaga se a notícia da morte de Orestes é verdadeira, ou se não passaria de um boato entre mulheres. E com a mesma hipocrisia de Clitemnestra diz-se consternado com o infausto acontecimento. Com mais aquela morte, logo após as recém ocorridas no Palácio.

O Corifeu responde que ele deve entrar para ter a confirmação diretamente com os forasteiros. Egisto concorda e diz que quer falar logo com os mesmos para saber se eles o viram morto, ou se apenas souberam que morreu.

Note-se que ao contrário de Clitemnestra, Egisto conserva uma ponta de desconfiança; porém, como ela, nada desconfia da real intenção dos estranhos.

Enquanto o Corifeu indaga aos deuses sobre como rezar, sobre o quê dizer, ouve-se gritos angustiados no interior do Palácio. Egisto, com voz inconfundível, lamenta-se dizendo: “ai! Ai! Infeliz de mim, ai! Acertaram-me!”

O Coro se pergunta sobre o que estaria ocorrendo e qual estaria sendo o desfecho? O Corifeu aconselha que todas se afastem para não serem acusadas de cumplicidade.

Nota-se aqui o acovardamento que frequentemente atinge aqueles (as) que são mais frágeis moralmente.

Em seguida surge em cena um servo leal de Egisto que aos berros lamenta o assassinato de seu Senhor, enquanto chama por sua Senhora, batendo na porta dos aposentos femininos. Em prantos, pede que algum jovem forte e vigoroso os acuda, não mais para socorrer a Egisto, pois este já é finado, mas para salvar a rainha de destino igual. Assustada, Clitemnestra atende à porta indagando sobre o sucedido. Confuso, o criado diz enigmático: “um morto matou um vivo”. Ela, aturdida, diz que já entendeu o enigma posto pelo criado. Sim, diz, morreremos vitimas de uma farsa, de um ardil, tal qual o que encenamos para matar Agamêmnon. Agora só me resta esperar para ver que me dará o golpe fatal. Daqui a pouco se verá quem são os vencedores desses pobres vencidos. Eu, por mim, já cheguei ao máximo do infortúnio, pois antevejo morto meu amado Egisto.

Nisso, a porta central é aberta e se vislumbra o cadáver do amante de Clitemnestra. Ao lado, estão Orestes e Pilades.

Saindo do salão e dirigindo à mãe, Orestes diz que foi bom ela ter vindo, pois ele já a esperava. Aponta para Egisto e fala que ele já recebeu a sua parte. Clitemnestra responde com sofridas lamentações, enquanto jura seu leal amor ao amante assassinado. Transtornado, Orestes lhe diz que se ela o ama tanto que se deite com ele na mesma sepultura e, ato contínuo, avança sobre ela com o punhal em riste. Clitemnestra, porém, rende-se ao medo e de joelhos rasga a túnica e mostrando-lhe o seio diz: “pára meu filho, respeita os seios que te alimentaram”. Orestes hesita, baixa o punhal e consulta o amigo: “que faço? Mato minha própria mãe?”. Pilades responde que não hesite, pois uma hesitação teria um efeito terrível sobre o Oráculo de Apolo. Lembre, diz, que foi o próprio deus quem o mandou fazer esse sacrifício e deixou claros os castigos que tu sofrerias se não o fizesse. Mate-a, é melhor obedecer a único deus que a todos os homens. Orestes se diz convencido e volta-se para Clitemnestra dizendo: “siga-me, vou matar-te junto a Egisto. Se em vida tu o preferistes ao meu pai, é justo que também o prefiras na morte”. Clitemnestra torna a suplicar clemência e Orestes contra argumenta perguntando como lhe seria possível viver junto com o assassino de seu amado companheiro? E eu, diz, como poderia viver ao lado de quem matou meu amado pai? “Filho, diz a rainha, tudo que aconteceu foi obra do Destino”. Orestes contrapõe dizendo que será, então, o Destino que o fará matar-lhe. Clitemnestra, num último esforço, indaga-lhe se ele não teme a maldição de uma mãe? Mas ele responde que a maldição do pai, se não o vingar, seria muito pior que a dela. Ademais, ela nunca lhe foi uma mãe, pois tão logo o pôs no Mundo, lançou-o na desgraça do exílio. Como (?), pergunta Clitemnestra. O que fiz não foi uma desgraça, pois te entreguei ao bom amigo Estrófio. Não! Responde Orestes, tu me vendeste como se vende um escravo. Mas então, diz a filha de Leda, onde está o dinheiro dessa venda? O destino, responde Orestes, dessa quantia é tão abjeto que eu nem quero falar. Diz-me então, filho, sobre as más condutas do teu “amado pai”, em tantas situações, como na do assassinato de tua irmã Ifigênia. Cala-te! Tu não podes acusar um herói que se batia contra ferozes inimigos na longínqua Tróia enquanto vadiavas no Palácio. Mas filho esse é o que o Destino nos reserva. Sempre aguardar os ausentes maridos. Não te queixe mulher, pois é a luta dos maridos que sustenta os luxos e as frivolidades das mulheres. Filho, tu persiste na idéia de matar a própria mãe? Não! Não, eu não. Foste tu mesma quem causou tua perda. Cuidado filho com a maldição que posso te lançar. Lance-a! Oh Zeus! A que ponto eu cheguei. Estou implorando misericórdia a um túmulo. Sim, é o trágico destino que destes ao meu pai que hoje te impõe essa sentença fatal. Oh deuses! Gerei essa víbora! Sim, a profecia dos pesadelos revela-se verdadeira.

Orestes e Pilades obrigam Clitemnestra a entrar no salão onde jaz o corpo de Egisto. A porta se fecha e se ouve o Corifeu lamentar a terrível situação em que estão mãe e filho. O Coro entoa um hino em comemoração à Justiça que está sendo feita, comparando-a com a que puniu o rei Príamo e todos os troianos. E celebrando o presságio da pitonisa que ora se cumpre com a volta do “desterrado”, guiado pelo deus Apolo, ensejando os gritos de júbilo, pois a Casa de Agamêmnon, finalmente, será purificada de tantas desgraças e do impuro casal que a usurpou. E loas canta, para a deusa Justiça, para Apolo e para o Tempo que cicatriza todas as chagas.

Nesse ínterim, a porta é aberta e os cadáveres de Clitemnestra e de Egisto são vistos. Para as mulheres do Coro que entraram no Palácio, Orestes diz que olhem para a dupla de opressores e assassinos do rei. Vejam a manta que os encobre. É a mesma que utilizaram para aprisionar Agamêmnon. Reparem que morrem unidos, talvez por um pacto de fidelidade. Puxem esse amaldiçoado pano e estirem a rede que prendeu meu pai, pois assim o sórdido crime de minha mãe ficará mais visível para meu Pai Divino, o grande Apolo. Assim, quando eu for julgado depois de morto, ele possa testemunhar a meu favor, pois sabe que minha vingança é justa, ainda que tivesse que matar minha própria mãe. De Egisto nada falarei exceto que ele recebeu o castigo que todo adúltero merece. Apontando para a rede, diz que nome eu posso dar a isto? Chamarei de “armadilha para feras”, ou um “rude pano para ladrões”? Não sei. Só peço aos deuses que companheira tão pérfida nunca entre em minha casa, mesmo que eu tenha que morrer sem ter tido filhos. Vejam no sangue incrustado no pano a prova cabal de que ela matou meu pai, com o punhal que Egisto manejou. Agora, mulheres, eu posso me congratular abertamente, sem medo de parecer soberbo. Também posso lamentar a morte de meu pai, sem medo das emboscadas dos tiranos. Mas também choro pelas desgraças em minha raça, pois mesmo essa vitória de agora deixará em mim uma grande mácula. Oh! Cruel destino de nossa estirpe.

Com essas palavras Orestes deixa transparecer ao Coro que certa angústia o oprime; e ele lhes diz que gostaria de sentir que é Senhor da situação, mas é o contrário o que experimenta. Sente-se como alguém que em vão tenta dirigir um carro fora da estrada e sob o comando de enlouquecidos cavalos. Seu coração já sente o peso do que fez, mesmo que sua Razão insista em justificar seu ato. Sim, aos demais pode dizer, matei minha mãe, mas o fiz coberto de motivos, pois além de ter matado meu pai, ela encarnava todas as abominações e males do Mundo. Ademais, ao fazê-lo estava cumprindo ordens do deus Apolo, que me ameaçou com terríveis castigos caso não o fizesse. Porém, o remorso, a culpa e o medo das conseqüências toldam-lhe o semblante.

Note-se a elegância e profundidade da escrita de Ésquilo. Em poucas linhas ele expõe magistralmente a dor do filho, cujos sentimentos acusam, sem que a defesa da Razão seja suficiente para livrá-lo do horror que cometeu. É um drama intimo, fechado a todos e angustiante para quem o sente. Em sua alma pouco importa se a mãe mereceria tal castigo, ou se ele o cometeu a mando de um deus. O arrependimento é o câncer que lhe corrói qualquer sentimento de paz.

Vejam, prossegue o príncipe, que nada comemoro, pois como já disse, tal vitória me é amarga em demasia. Doravante, como mero suplicante, irei até o Oráculo de Delfos – o Centro do Mundo – fugindo da maldição materna que jorrou com seu sangue. Irei, também, para cumprir ao que me foi ordenado pelo deus Apolo, mas principalmente em busca de algum alivio para o aguilhão das “Fúrias Vingadoras” que começam a me dilacerar. São elas que promovem as reparações e os castigos para os crimes de sangue, principalmente entre parentes. A vós eu peço que contem ao meu tio Menelau quanta tragédia nós vivemos em razão da guerra motivada por sua impudica esposa. Adeus! Vagarei pela Terra deixando a cada passo essa horrível fama de matricida que me seguirá por toda vida e até depois da morte.

O destino final de Orestes poderá ser lido no capitulo intitulado “Eumênides”, nessa obra.

O Corifeu tenta consolar-lhe dizendo que seu punhal devolveu a paz aos argivos ao liquidar as “cobras peçonhentas” que usurpavam o trono. Indiferente, Orestes inicia sua jornada, mas pára após poucos passos. Atemorizado, lamenta-se: “ai, ai, ai de mim!” já vejo as Górgonas (ou Fúrias Vingadoras). Tenho que ir. Não posso mais ficar aqui. O Corifeu pergunta-lhe quais fantasmas ele vê? Tenha coragem! Vá, tu é o grande vencedor!

Não, não são simples fantasmas que vejo. São as “cadelas rábidas (1)” de minha mãe.

1- Cadelas rábidas – forma pejorativa de chamar as Fúrias Vingadoras.

Há muito sangue fresco em tuas mãos, filho querido por teu pai. É desse sangue que provem essas alucinações.

Apolo, meu Senhor, clama Orestes, proteja-me. Vejo-as em grande quantidade e prontas para me atacar.

Vá, filho, diz o Corifeu, purifica-te, pois há purificação para teus atos. Vai ao Templo de Apolo e toca o deus com tua mão. Ele te libertará desses monstros; dessa aflição que te consome.

Correndo, Orestes grita que foge das Fúrias e o Corifeu lhe diz para se apressar em direção ao templo. O Coro entoa um lastimoso hino onde canta que mais uma tempestade se consumou. Os filhos de Tiestes, mortos e devorados, deram inicio à tenebrosa amargura. Depois, o traiçoeiro assassinato de um rei, comandante de todos os aqueus. E agora, será que ao fim desta terceira tempestade, alguma paz virá? As tristezas chegaram ao fim? Ou até onde irá a Ira, precursora da Vingança?

Notará o leitor (a) que o presente resumo é mais extenso que seus pares. A razão para tanto vai além da beleza que Ésquilo produziu, localizando-se mais na importância que essa peça tem por ser o eixo da trilogia intitulada “Oréstia”. É o fio condutor entre “Agamêmnon” e “Eumênides”, as duas presentes nessa obra.
Outro motivo é sua importância na área das Leis e do Direito. Nela, implicitamente, já se faz menção ao primeiro julgamento nos moldes atuais, em que doze jurados decidem a condenação ou a absolvição de um acusado. Na “Eumênides”, esse rito é explicitado, mas sem um conhecimento mais detalhado dos fatos, como aqui se fez, pouco utilidade teria tal explicitação.

Rio, 14 de abril de 2011.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Boca

A boca da noite
devora o conhecido.
Vago
entre seres
vagos
e rumino
o poema
que divago.

O escuro
me veste,
com a roupa
da peste.
N'algum palco
ficou o inexato
entreato,
da falta de tato.

A Boca da Noite
gargalha
pelo fogo na palha.
Tudo passa
na puída malha,
que só esconde
essa
busca por onde.

                         Dedicado à Poetisa Suzette Briner.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Áspera

Porque a vida
não é subjetiva,
senti a aspereza
viva
nas paredes
em que fui
forçado
a delatar.

Racionalidade dos
números e dos
energúmenos,
a vida corre
pela raia
de fora,
no constante apelo
que se solte a sabiá
e alguma alma,
se ainda há.

Frieza de bisturí
que rasga corpo
e semente de pensar.
Lâmina inversa,
na vida reversa
de quem viveu
sem sequer notar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Verso

Um poema
não se repete,
porque o canto
de cada vida
é singular.

Cada conjugar
respeita o peito
que invade
e a mão
que o pariu.

Caminho reto
que mira
o que virá,
ainda que
fale do que
foi.

Poeta desenha
a vida,
porque é
nesse traço
que correm as
palavras.

Pintura sem cor
de quem não
sabe desenhar,
mas que insiste
em divagar
e teima
em sonhar.
 
Dedicado à Poetisa Flávia Assaif

terça-feira, 12 de abril de 2011

Cyber

Escrevo
a cyber-palavra
nessa rocha virtual
para que o arqueólogo
do Futuro
se pergunte
o que foi
o "amor"
sobre o qual
tanto cantei,
nessa rude época
em que sou,
Troglodita
como estou...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Travesseiros

Dividiram-se as noites
e só restaram
travesseiros
e sonho separados,
além dos desejos
culpados.

Teu lado
está vago
e todo gosto
é amargo,
como uma ironia
de Saramago.

A sombra da noite
é acre, feroz.
Conhecido algoz,
entre as dobras
dos lençois.

O cheiro de amor
terminado,
preenche o silêncio
declarado.
Antigos adornos
desenhados,
retém os inúteis gestos
tentados.

As brancas colunas
já nada sustentam.
Sigamos em paz,
o amor não se refaz

domingo, 10 de abril de 2011

Realengo

Realengo
realejo,
bem nos avisou
o passarinho
que o Terror viria
um dia.

Mas não acreditamos
que tanto horror traria,
que tanta inocência
violaria
e que tantos
anjos faria.

Para as crianças da Escola Tasso da Silveira, Rio de Janeiro.

sábado, 9 de abril de 2011

Busca

Porque quedo diante
de Tempo tão duro,
eu sonho
outra infância
no Futuro.

Novo começar,
nova pureza
e a antiga petulância
de crer numa certeza.

Outras mãos
a me guiarem
pela velha ousadia
de buscar a rebeldia.

Nova infância nova,
com gosto de quem
tudo aprova;
e ainda livre
da fome
de alcova.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Quaresmeira

A fotografia é implacável:
nossos sonhos envelheceram.
Brancos cabelos,
brancos esquecimentos.

Mas a quaresmeira
insiste na florada,
como se ainda houvesse
Lua na calçada.

Tempos de leve poesia.
Dessas que se ouvia,
logo após a melodia.

Tempos de leve soneto.
Desses que se fazia,
na ante-sala da nostalgia.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Pendular

Urro,
murro,
Casmurro.
A vida é sussurro.

O pêndulo de Foucault
indecide
quem eu sou.
A espada de Dâmocles
relembra o fato
da vida só ter um ato.

Branca Dulcinéia,
traga-me a panacéia
da Isolda de alvas mãos.
Que ela faça
o mágico unguento
que tudo cura,
ainda que a obscura
procela,
roube-me a tarde amarela.

Que Duendes e Ninfas
forrem meu leito,
alisem meu peito
e me guiem
na terra da fantasia,
nessa pós utopia.

Casmurro,
murro
e urro,
fiquem com outras gentes,
já não lhes escuto
o ranger dos dentes.
Só ouço
os silêncios urgentes.

terça-feira, 5 de abril de 2011

CISNE NEGRO, o Filme - Critica de Thyago Marão Villela para o Jornal "Palavra Operária"

Sugere-se a letra com 150% de zoom para melhor leitura.

Zona

Lâmpada da Lua
que ilumina o bêbado
demente de paixão
pela mulher-dama
e pela moça virgem,
de desconhecida origem.

Moça virgindade,
há pouco chegada,
fique com o gringo
e depois tu teras
uma cama, um lápis e um papel,
além de uma cortina de bordel.

Forasteiro das Gerais,
que ouro trouxestes?
-Quase nada, cabra da peste.
Só cansaço e desalento
pela promessa
que se foi ao vento.

Deite-se comigo forasteiro
e acenda meu braseiro,
diz a ex-virgem da caatinga,
que já morreu, sem saber ainda.

Lua violada pelo irmão do Norte,
que a perdeu como consorte
e a roubou do poeta insone,
que é como carcará,
bicho que voa, mata e come.

É coisa da fome.
Coisa do 3º Mundo,
esse saco sem fundo.

sábado, 2 de abril de 2011

Jogo

Escorre lento
o adeus que
não se quis.

Mas as portas fechadas
e as caras amarradas,
confirmam
que são favas contadas.
Fez-se um fim,
entre dois goles de gim.

Agora, junta-se os pedaços
e se tenta re-equilibrar a vida.
Caminhar nessa corda estendida,
jogar os malabares
e aventurar-se noutros mares.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Voz

Calada, a voz é branca
e o verso é inútil.
A chuva da noite
não me consola
com a solidão conhecida.

Outra rima não vem
e nem a procuro.
De tudo descuro.
Cansam-me os esquemas
donde não jorram os poemas
que falariam do mal que sinto
nessas noites
em que a dor
me alucina,
sem que me baste
a morfina.

O ponteiro do relógio
percorre o caminho
de sempre.
A voz no telefone
não me atinge,
minha fala logo finge
uma desculpa qualquer.
Não quero mais ouvir
esperanças no porvir.

Eu só queria
um alívio,
um silêncio.
E que o novo dia
me trouxesse
um bilhete só de ida,
para onde a dor
fosse esquecida.