quinta-feira, 17 de março de 2011

Gregas Tragédias - 07 - HÉCUBA

Eurípedes – 485/406 – Salamina

Época da Ação – Idade heróica da Grécia.

Cenário – uma praia do Quersoneso Trácio (península a oeste do Helesponto), vizinho à Tróia, onde as naus gregas se detiveram após a vitória para cumprir o sacrifício exigido pelo espírito de Aquiles. Ao nascer do sol, no fundo as tendas das troianas feitas escravas, ao lado a tenda de Agamêmnon e no alto, com o uso de cordas, o espírito de Polidoro.

Personagens:

1. Agamêmnon – chefe supremo das forças gregas.

2. Coro – das mulheres troianas, escravizadas pelos gregos. Escrava.

3. Hécuba – viúva de Príamo, o rei de Tróia.

4. Odisseu – rei de Ítaca e um dos chefes gregos. Ulisses, em latim.

5. Polidoro – fantasma – filho de Hécuba e de Príamo.

6. Poliméstor – rei do Quersoneso da Trácia, nas cercanias de Tróia.

7. Políxena – filha de Hécuba e de Príamo.

8. Taltíbio – arauto dos gregos.

Sinônimos:

1. Gregos = helenos, aqueus e argivos.

2. Troianos = frígios

3. Tróia = Ilíon (donde Ilíada, de Homero) e Frigia.

Há alguns anos, montou-se uma encenação dessa Tragédia que percorreu grande parte do Brasil. Após a excelente representação, abria-se o debate entre platéia, mediadores, atores, atrizes e diretores sobre a questão: vingança ou justiça. E muita conversa se viu, sem que se chegasse a um denominador comum. Afinal, na ótica de muitos (inclusive desse escrevinhador) usar eufemisticamente o termo “justiça” para acobertar o desejo por vingança é apenas uma das hipocrisias que permeiam nossa sociedade. “Justiça” representa a equidade, o equilíbrio. “Vingança”, o desejo de revanche. Coisas diferentes, como são os sentimentos que ambos representam. E se assim não fosse, como explicar que ao invés de se construir Centros que reabilitem efetivamente os autores de crimes, constroem-se masmorras onde os mesmos são brutalmente castigados. Contra os criminosos não se quer justiça, quer-se vingança. A mesma que Hécuba pediu e que agora vem disfarçada em conceitos ditos civilizados. Porém, despida a máscara da hipocrisia, vemos que Hécuba nos mostra o que somos. O que, ainda somos.

O livro ou a peça começa com o monólogo do espectro de Polidoro, que entre lamentos conta sua curta vida e sua recém morte: quando Príamo viu que Tróia poderia cair, mandou seu filho mais novo, Polidoro, para viver em refúgio na corte de Poliméstor, na vizinha Trácia, a quem julgava seu amigo. Junto mandou um vasto tesouro para que sua estirpe sobrevivesse e tivesse uma fortuna para amparar seu novo crescimento e pudesse recuperar a Casa Real de Tróia. Enquanto as forças troianas, lideradas por Heitor, enfrentavam com êxito as tropas gregas, Polidoro foi bem tratado por seu anfitrião, mas bastou Príamo e Tróia caírem para que fosse assassinado pelo mesmo, interessado em seu tesouro.

Insepulto Polidoro, sua alma vagava sem descanso. E foi nessa condição que se apresentava em sonhos à Hécuba. Porém, após muito rogar, conseguiu a anuência do deus Hefesto para apresentar seu corpo mutilado à mãe no intuito de que lhe fossem dados os ritos necessários à sua passagem definitiva para o Hades, onde descansaria enfim.

Os jovens mortos pela Ditadura, na década de 1970, foram enterrados anonimamente. Mais de trinta anos depois, suas famílias não medem esforços para encontrar seus restos mortais e lhes dar um sepultamento digno. Essa carência de se enterrar os entes queridos com rituais apropriados, de alguma forma traz alguma paz aos que sofrem com sua ausência. Na Antiguidade, berço dessa tradição, além da paz dada aos que enterram essa ação dava ao morto o direito de gozar seu descanso eterno. Nota-se, pois, que tanto naquela época, quanto agora, o sepultamento é um sentimento tão arraigado que alguns eruditos o classificam como o divisor da civilidade e da barbárie. Voltaremos ao assunto.

Prossegue Polidoro narrando o fato dos gregos ainda estarem em Tróia para atender ao desejo de Aquiles, de ser homenageado com o sacrifício de uma jovem virgem troiana. No caso, sua irmã Políxena, em pira fúnebre. Sacrifício a ser executado no mesmo dia em que daria à praia os restos mortais do narrador. Dupla e excruciante dor para Hécuba, que chorará a morte de mais dois filhos.

Hécuba, nesse momento conclama outras troianas a lhe ajudarem a erguer-se, enquanto chora a baixa condição a que foi lançada: de rainha à escrava. Lamenta-se e suplica a Zeus que afaste os pesadelos a que vem tendo com Polidoro, à derradeira esperança de um dia a Casa Real de Príamo ser restaurada. Ainda ignorando o assassinato do filho, roga que Poliméstor zele por ele. Também pede ao “Pai dos Deuses” que interceda a favor de Políxena e conta como se acelera o coração, oprimindo-a junto com a má intuição de novas desgraças. Lamenta que Cassandra e Heleno, seus filhos capazes de profetizar, esteja mortos ou inacessíveis, pois eles poderiam decifrar os maus agouros que a perseguem.

Sabe-se que Cassandra foi tomada como concubina por Agamêmnon. Sobre Heleno, sabe-se que foi aprisionado pelos gregos após ter lutado com valentia, tomando o lugar que fora de Heitor. Ambos receberam de Apolo o dom das profecias, mas as feitas por Cassandra não eram acreditadas, como castigo por ela ter-se recusado ao deus Sol.

Na seqüência o Coro, formado pelas mulheres troianas, toma a cena e conta a Hécuba o que ouviram nas tendas de seus novos Amos: depois de acirrado debate entre os mesmos, ficou decidido sacrificar uma jovem à memória de Aquiles, cujo espectro controlou os ventos impedindo que as naus zarpassem antes de cumprir o que ele exigia. Graças a Odisseu, que desempatara o pleito, convencendo a todos com sua proverbial habilidade, a escolhida foi Políxena, pois segundo ele, só uma jovem de alta estirpe estaria à altura de um herói como Aquiles. Contra o sacrifício estava Agamêmnon - talvez por influência de Cassandra – e a favor do mesmo estavam os filhos de Teseu, Acamas e Domofon.

Assim, mãe Hécuba, dizem-lhe, agarre-se aos joelhos de Agamêmnon e peça-lhe que não permita o sacrifício de sua bela filha. E implore aos deuses e até aos entes infernais, que não deixem tal horror acontecer. Vá, rainha, não demorará Odisseu vir para arrebatar-lhe a filha querida. Vá Hécuba!

Atônita, desesperada, ferida, Hécuba clama a sua impotência, seu desamparo. O horror do seu cativeiro, de sua solidão. Morto o marido, mortos os filhos, derrotados os súditos e distantes os deuses; quem a defenderá?

Trôpega, cambaleante, sob o peso de tantas desgraças, dirige-se à tenda de Políxena que a atende trêmula e temerosa. Indaga da mãe o que a traz naquele estado, por que tamanho desespero? Hécuba vê no temor da menina uma intuição sobre a desgraça porvir, mas Políxena diz que seu medo e seu pranto são motivados pela vida miserável que a mãe agora leva e não por ela mesma. E Hécuba retruca o mesmo: chora por Políxena, sua filha imaculada. Políxena, então, pede-lhe que diga a verdade sem rodeios, pois sente seu medo crescer com o silencio da mãe e Hécuba lhe fala que os gregos decidiram que a sacrificarão sobre o túmulo de Aquiles...

É deveras importante a observação de Bertolt Brecht (1898-1956) sobre o cozinheiro de Alexandre, o Grande. Tomando tal anedota é possível refletir e imaginar o tamanho de cada tragédia pessoal e familiar que se oculta sob a lápide fria das “execuções”, “sacrifícios” e quejandos. Quanta dor fica represada e escondida pelos números que fazem a História? Seria possível mensurar quantas lágrimas anônimas foram derramadas e desdenhadas?

Após ouvir os terríveis detalhes de sua execução, Políxena tenta consolar a mãe, lamentando tão duro fim de vida. Sobre sua morte, não se queixa, pois a prefere ao invés de uma vida de escravidão.

Esse tema, a Eutanásia, ultimamente veem freqüentando algumas rodas. Uma vida miserável, sofrida, dolorosa, sem expectativas de melhora é preferível à morte? É um assunto controverso que não será esmiuçado aqui, limitando-nos ao registro de sua atualidade. Há milênios é um assunto que ronda a Humanidade.

Pouco depois, o Coro alerta as duas sobre a chegada de Odisseu, que logo se dirige a Hécuba informando-a que levará Políxena para ser sacrificada no túmulo de Aquiles, por Neoptólemo, o filho do herói. Aconselha-a a não se rebelar, pois em sua mísera condição tal reação seria insensata e inútil.

Entre lamentos por ter sobrevivido aos filhos e por ser alvo de tantas desgraças, Hécuba invoca o direito dos escravos fazerem perguntas aos Amos. Após a concordância de Odisseu, indaga-lhe se ele recorda-se de quando veio espionar Tróia e ela, apesar dele ter sido reconhecido por Helena sob os andrajos do disfarce, deixou-o ir, salvando-lhe a vida? E lhe indaga-lhe se não se considera um malvado que só faz o máximo de mal. Tu, prossegue, és um Sofista e como os outros, atrás das belas palavras só a Maldade traz. Porque veja, o que haverá de útil para os gregos no assassinato de minha filha? Não seria possível sacrificar um boi? Será Aquiles quem pede o sangue de quem o matou? Mas, se é assim, por que matar essa inocente, que nem participou da guerra? Por que não sacrificar Helena, a verdadeira culpada pelo conflito? Seja justo Odisseu! Lembra-te que já tocastes minha mão pedindo clemência. Agora sou eu quem te pede indulgência, que cobra a bondade que tive contigo. Não me tires Políxena, pois ela é a alegria que me restou. É o meu consolo, o meu bastão de apoio. Convence os outros gregos da impropriedade de assassinar uma inocente.

Note-se nesse discurso de Hécuba o seu egoísmo sem recato. Ao invés de dizer que Políxena deveria ser poupada por ser jovem, por ter a vida pela frente, etc. ela só diz o quanto a filha lhe fará falta. Interessa-lhe antes de tudo o seu conforto, o seu arrimo. Pensa primeiro que perderá seu bastão, sua guia etc. E nem lhe passa pela consideração respeitar a decisão de Políxena que prefere a morte a uma vida de escravidão.

O Corifeu, representando a líder das troianas, dirige-se a ex- rainha e busca consolar-lhe dizendo que Odisseu atenderá suas súplicas.

Mas Odisseu toma a palavra e diz a Hécuba que não pode alterar o que antes já estava decidido: uma princesa troiana seria sacrificada em honra do herói incomum; e justamente por ser incomum, o maior guerreiro grego, é que a Aquiles o sacrifício não poderia ser vulgar, igual ao que é dado a qualquer medíocre. E se assim não fosse feito, como se iria, no Futuro, conseguir reunir novas tropas em caso de necessidade? Quem se disporia a morrer pela pátria, ou por seu rei, sabendo que sua valentia, que seu denodo não seria convenientemente reconhecido? Ele mesmo não se incomoda com uma vida frugal, mas deseja no seu túmulo todas as honras, pois são essas as perenes. Por fim, diz a Hécuba que dor como a sua, mães, pais e esposas gregas estão sofrendo, pois este é o verdadeiro preço da guerra.

Observe-se que a importância dada aos funerais liga-se à idéia da “vida após a morte”. Essa crença, certamente, foi o alicerce da futura teoria da transmigração das almas, colocada pelo filósofo Pitágoras e, depois, por Platão, após seus estudos na Índia donde absorveu os conceitos superiores dessa matéria no Hinduísmo. Como se sabe, a crença na vida após a morte continua nos dias atuais, mas os detalhes divergem entre as correntes religiosas. Católicos creem no Paraíso, no Inferno; espiritualista, em Karma, reencarnação, espíritos etc.

Após rápida lamentação do Coro, Hécuba diz a Políxena que seus pedidos foram inúteis e que ela deveria pedir clemência a Odisseu, pois talvez ele se condoa de sua sorte. Mas ela diz a Odisseu que sossegue, pois não lhe pedirá a salvação. Diz que deseja a morte, preferível aos horrores da servidão. Que aceita seu Destino e se livra das acusações de covardia que alguns poderiam impingir-lhe (censura à Hécuba?). Que morrerá feliz, ante a possibilidade de se tornar uma reles escrava. Ela, que já foi uma das mais desejadas princesas de Tróia e prometida a tantos Príncipes poderosos não consegue admitir que doravante seja forçada a amassar o pão, varrer um chão, deitar-se com um homem que não deseja. Não! Que lhe matem, pois já não há felicidade em sua vida.

Note-se o quão arraigado era a idéia do “Direito Divino” na Antiguidade. Talvez até mais que nos dias atuais. Para Políxena e outros, os dias felizes não ocorriam por méritos próprios, mas sim pela dádiva dos deuses. Era inerente à cultura da época essa “eleição divina” em que alguns felizardos eram premiados. Era uma crença geral e isso legitimava essas felizes condições. Atualmente esse comportamento prossegue, mas dirigido mais à fortuna que ao Poder. Herdeiros não questionam a legitimidade de uma fortuna que lhes chegou sem sacrifício.

Na seqüência, Políxena dirige-se à mãe e lhe pede que não tente demover-lhe do desejo de morrer, pois tudo que disse ao carrasco grego não poderia ser refutado por ninguém. Nem por Hécuba.

O Corifeu entendendo que ela preferia a honra a uma vida abjeta saúda sua nobreza de caráter.

Hécuba retoma a palavra e também elogia o nobre discurso da filha, mas ainda roga a Odisseu que lhe mate em lugar da menina, pois ela também seria uma vitima importante na medida em que foi de si que nasceu Páris, o matador de Aquiles. Mas Odisseu reafirma que o fantasma do herói exigia o sacrifício da filha e não o da mãe; e como Hécuba insiste para que lhe matem junto, o rei de Ítaca contra-argumenta dizendo que o derramamento de sangue seria excessivo, pois até a morte da Princesa lhe é indesejável.

Pode-se questionar a sinceridade do desejo de morrer que Hécuba demonstra, pois se tal fosse real ela poderia suicidar-se.

Hécuba, em desespero, tenta agarrar-se à filha e persiste na negativa de vê-la caminhar para a morte. Mas a própria Políxena lhe pede que cesse seu arroubo, pois é inútil e só retarda o inevitável. Que Hécuba mantenha a compostura e se despeça de modo suave, pacificador. Que não lhe dê mais esse desgosto na hora de morrer. E saem Políxena, Odisseu e os soldados. Resta Hécuba caída ao solo. Entre as lamúrias que chora, não deixa de maldizer a Helena, a quem debita a culpa exclusiva, segundo ela, de tanta dor.

Raiva compreensível, mas talvez injusta. Se Helena errou ao trair o marido, se Páris errou por tê-la levado para Tróia, também erraram todos eles que permitiram a situação. Mesmo Hécuba é grande culpada na medida em que: se foi desinteressada em defender Páris quando ele foi condenado à morte, por seu marido e pai do menino, enquanto bebê, nada justifica que ela o defendesse em adulto e em falta evidente, cujo resultado nefasto para todos os troianos inocentes poderia ser esperado. Adiante veremos que talvez Eurípedes tenta repassar essa culpa aos deuses, suavizando a dos humanos.

O Coro, agora representando todas as cativas troianas, entoa triste lamento por Políxena e pela longa viagem que farão até as casas de seus novos Senhores. Entre os tristes cantos, adentra à cena Taltíbio, o arauto grego, que pergunta por Hécuba. Espantado pela prostração da mesma, horroriza-se ainda mais com seu aspecto deplorável. Dirige-lhe um pedido enérgico para que mantenha alguma dignidade e a anciã, sem lhe conhecer, indaga-lhe quem é; por que interrompeu suas tristes lamentações. Responde-lhe Taltíbio anunciando uma nova ordem de Agamêmnon para levá-la à sua tenda. Crente que seria para executá-la, Hécuba apressa-se em ir, bendizendo aquela ordem, mas ante a tácita negativa do arauto ela lhe pede que conte como se deu o sacrifício da filha. E ele conta da altiva coragem mostrada pela menina ante a morte, o quê comoveu até aos gregos que lhe prestaram homenagens dignas dos campeões. Também Hécuba elogia a altivez da Princesa, dizendo que sua atitude chega a lhe suavizar a dor pela perda. Em seguida pede ao arauto que diga aos gregos que se afastem do corpo de Políxena, pois ela é quem fará suas exéquias. Que não a profanem e se afastem do local para que más intenções não se sobreponham à decência. Taltíbio parte para executar o pedido que lhe foi dado quase que em tom de ordem. Prossegue Hécuba seu discurso dizendo em tom imperativo a uma ex-escrava que apanhe água no mar para purificar o cadáver e fazer as libações. Diz que tudo fará para lhe dar os melhores adornos e pede às mulheres que furtem de seus Senhores gregos tudo que puderem para ornamentar Políxena. Na seqüência volta a lamentar a perda de seu Palácio e de suas riquezas.

Observe-se que Hécuba ainda usa o tom imperativo de sua condição de rainha. Hábito tão arraigado quanto o da servidão, mostrado por sua ex-escrava e até pelo arauto grego. Atualmente comportamento análogo pode ser verificado na seguinte situação: alguém que execute funções consideradas subalternas atende sem rancores as ordens dadas por quem considerem ricos, poderosos etc. Porém, revolta-se se as mesmas ordens forem dadas por quem considerem “de seu nível”.

O Coro assume a cena e chora o fato de que um julgamento fútil entre três deusas (sobre quem seria a mais bela), feito por um mero pastor (Páris antes de ser reconhecido por Príamo e agraciado com o amor da mais bela mulher do Mundo, Helena) resultasse na queda de Tróia, na matança dos troianos e na escravização das troianas. E, também, em tanto luto entre as gregas que perderam maridos, filhos, irmãos.

Talvez aqui, Eurípedes tente lançar a culpa da guerra nos deuses, ou mais precisamente naquelas três deusas, com o intuito de amenizar a culpa dos humanos. Recurso que ainda hoje é utilizado quando os atos irracionais e nefastos são debitados à “Vontade de Deus”.

Nesse momento a ex-escrava volta à cena puxando um cadáver encoberto. Titubeante, mostra o corpo de Polidoro; Hécuba se prostra ante a nova e inesperada tragédia; transtornada clama aos Céus e em seu desespero interroga ao falecido quem o matou, como se ele pudesse responder. A ex-escrava conta-lhe que retirou o corpo do mar quando buscava a água necessária para os ritos a Políxena. Informação que serve para confirmar à troiana a validade dos pesadelos a que vinha tendo com o filho mais novo. E também para lhe assegurar que o assassino fora Poliméstor que assim se apoderava do tesouro troiano.

Suas tristes lamentações são interrompidas pela chegada de Agamêmnon que lhe indaga sobre o motivo de ainda não ter sepultado o corpo de Políxena, vez que suas solicitações foram atendidas. A resposta, contudo, ele logo adivinha ao ver o corpo de Polidoro. Centrada em sua dor, Hécuba continua o monólogo sobre suas desgraças enquanto analisa a conveniência de pedir a Agamêmnon que vingue a morte de Polidoro. E quando o Atrida faz menção de se retirar, ela decide arriscar o pedido, pois ele é sua única esperança de revanche. Invocando a mão direita, o joelho e o queixo do grego (como era o hábito da época) ela faz o pedido por vingança, desdenhando até da liberdade que Agamêmnon sugere poder lhe dar. Prosseguindo, Hécuba conta-lhe a história de Polidoro e o Argivo lamenta com sinceridade os sofrimentos da anciã que reafirma suas súplicas, alegando inclusive que o concubinato dele com sua filha, fazem-no uma espécie de “cunhado” do falecido.

Nisso o Corifeu comenta que as “Leis Divinas (ou da Natureza)” reduzem os atos e as disposições dos Homens a nada. (Terremotos, Tsunamis e outros cataclismos assim o comprovam) Ante tais “Leis Superiores” inimigos se juntam para combater um terceiro, provando que o Homem não passa de mero fantoche dos deuses (ou do Destino, ou das circunstâncias).

Agamêmnon reafirma sua pena por Hécuba, mas pondera que o rei Trácio é visto como amigo pelos outros gregos, enquanto que seu filho, troiano, é visto como inimigo por seu exército. Desse modo não poderia executar a vingança sem se indispor com suas tropas. E também por temer ser acusado de tendencioso, por vingar o irmão de sua concubina. Hécuba lhe pede então que apenas se omita sobre os fatos futuros. Ela entende as suas razões, pois sabe que nenhum mortal é verdadeiramente livre; suas vontades e atitudes são sempre limitadas pela conjuntura dos fatos. Na seqüência responde à pergunta de Agamêmnon explicando-lhe como executará sua vingança contra Poliméstor, confiante que as mulheres troianas unidas terão força suficiente para tal feito. Enfim, pede-lhe que garanta a ida de uma de suas auxiliares para chamar o rei, dizendo-lhe que tem um assunto a tratar com o próprio e que será de seu interesse; e que garanta a chegada deste, ao acampamento das cativas; também lhe pede que aguarde um pouco mais para o funeral de Políxena, já que ela quer enterrar seus dois filhos juntos. O Atrida consente e autoriza seu desejo.

O Coro assume a cena e canta como foi a noite em que os gregos adentraram a cidade, através do Cavalo de Madeira, mataram os troianos e aprisionaram as troianas. Ao lamento se junta o ressentimento contra Helena e Páris, acusados de serem os culpados pela queda de Tróia.

Observe-se que esse ressentimento, novamente, é exposto e se vê que era generalizado contra o casal. Seria o caso de o Povo assumir como “Verdade” a versão dos governantes?

Nisso chega Poliméstor, com seus dois filhos e com sua escolta, conforme o chamado de Hécuba. Ignorando que o assassinato de Polidoro já era sabido pela troiana, ele saúda a ex-rainha como se ainda fossem amigos e deplora cinicamente suas tristes condições.

Hécuba mantém a farsa e diz que se sente constrangida por sua miséria, não conseguindo sequer fitá-lo. Pergunta-lhe o rei sobre o assunto que a fez chamá-lo e ela diz que é restrito a ele e aos seus filhos e lhe pede que dispense a escolta, no que é atendida prontamente. Em seguida, pergunta-lhe sobre seu filho que está aos cuidados do Trácio e ele responde hipocritamente que está em excelente condição, assim como a integridade do tesouro. Hécuba ainda prossegue a farsa aludindo a um eventual tesouro escondido em local secreto, mas que ele terá acesso, pois é de confiança. Também diz que lhe dará suas riquezas pessoais, escondidas em sua tenda, e a ganância do rei incumbe-se de levá-lo, e os filhos, para o interior da morada.

Pouco depois se escutam os gritos pavorosos de Poliméstor que se queixa de ter sido cegado, enquanto seus filhos eram assassinados. Brada o mutilado rei que lutará contra suas ofensoras com o máximo denodo possível, mas o Coro conclama as outras mulheres troianas a se juntarem às que estavam na tenda, para auxiliarem Hécuba a escapar da cega fúria do Trácio. E Hécuba sai para evitar um golpe dado ao acaso pelo rei e incita às mulheres a terminarem o que começou. Que o massacre dos Príncipes fosse completado.

Poliméstor, cego, sai tateando o caminho e Hécuba dirige-se ao Coro confirmando a mutilação no rei e a morte de seus filhos. Resta ao rei lamentar-se e com o tato buscar uma trilha que o leve às troianas e à vingança. Ao ouvir passos se prepara para saltar sobre as inimigas, mas a lembrança dos corpos dos filhos o detém, pois ele teme que se abandoná-los as troianas irão desmembrá-los e dar os restos aos cães. Tenta voltar à tenda e grita por socorro ao seu exército e ao exército grego, mas como não tem nenhuma resposta de imediato.

Na seqüência, Agamêmnon volta à cena com sua escolta, dizendo ter ouvido os gritos de Poliméstor. Tão altos que se as muralhas de Tróia já não estivessem caídas ele temeria novo ataque dos frigios. O Trácio reconhece sua voz e conta-lhe que ao entrarem na tenda foram ludibriados pelas mulheres que com falsidade seduziram seus filhos até os matarem; enquanto ele teve os olhos perfurados pelos alfinetes de suas túnicas.

Agamêmnon dirige-se à Hécuba, que estava nas proximidades, censurando-lhe a ousadia de ter cometido tais crimes. Poliméstor, ao saber de sua proximidade, tenta feri-la, mas em vão. Agamêmnon lhe pede que abandone seus bárbaros costumes de vingança e escute antes de agir, pois ele irá ouvir as duas partes para julgar corretamente a questão.

Diz-lhe Poliméstor que matou Polidoro por temer que ele se tornasse poderoso e recriasse a grandeza de Tróia. Com isso, talvez, tentasse vingar-se dos gregos, os quais, por sua vez, poderiam retornar à região exaurindo seu País novamente, através dos sucessivos saques em suas plantações e rebanhos para alimentar os exércitos, tal como fizeram nas duas expedições contra Tróia. Ou, mesmo que Polidoro não buscasse vingança, poderia ser alvo dos gregos que temeriam deixar viver um descendente de Príamo, causando os atos nefastos, que expôs acima, aos vizinhos de Tróia, com nova guerra.

Hécuba toma a palavra e se dirige a Poliméstor dizendo que sua versão é falsa, pois se ele queria prestar um serviço aos gregos, por que ele não matou o menino enquanto Príamo e Heitor ainda viviam? Sua covardia não lhe permitiu? O real motivo foi mesmo a sua cobiça pelo ouro que Polidoro guardava. E se ele fosse tão leal aos gregos, como disse, por que não dividiu ou ofertou esse ouro aos seus ditos amigos? Dirigindo-se a Agamêmnon, Hécuba continua seu arrazoado dizendo que se o Atrida apoiar o assassino será considerado malévolo, pois apoiaria quem foi infiel aos deveres dos anfitriões e desprezou a Justiça dos deuses e dos Homens.

Agamêmnon retoma a palavra dizendo da dificuldade de avaliar os erros alheios, mas que julgaria atos tão extremos. A Poliméstor diz que não acredita em sua versão e crê que seu motivo era mesmo só a ganância. Também lhe diz que faltar aos deveres dos anfitriões é um crime grave na Grécia, não podendo ser perdoado.

Poliméstor lamenta sua decisão e o fato de ter sido vencido por uma mulher reduzida à escravidão e diz que chora pelos seus olhos e por seus filhos perdidos.

Hécuba replica que também chora seus filhos mortos, mas que se alegra por sua vingança ter atingido quem lhe fez tamanho ultraje.

A altercação entre ambos prossegue e Poliméstor profetiza que ela nem chegará à Grécia, pois antes, o deus Dionísio a transformará em cadela. Também profetiza que Cassandra morrerá em breve, como predisse o Oráculo do deus citado. A Agamêmnon, o Oráculo diz que ele morrerá tão logo chegue à casa pelas mãos da própria esposa. Agamêmnon invoca a proteção dos deuses, enquanto o Trácio continua com seus vaticínios irritando o chefe grego. Ultrajado, o Aqueu manda seus soldados levarem-no para algum lugar deserto. E ordena que Hécuba sepulte seus filhos e se apronte, pois como o Coro, ela deverá se apresentar ao seu Amo, já que o vento favorece a partida rumo à Grécia. Tróia deixou de existir.

Em 1870, Henrich Schiemann dirigiu-se à Turquia atual e através dos relatos de Homero, na Ilíada, iniciou uma escavação que resultou na descoberta das ruínas de Ilion e do tesouro de Príamo. Por ter cometido erros metodológicos, a descoberta de Schiemann recebe criticas de vários eruditos, mas é inegável que a cidade de Tróia não é uma fantasia do poeta grego. Em relação à Guerra, acredita-se numa licença poética de Homero.

Rio, 17/03/2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Lixo

O homem da reciclagem
recolhe a placa de Homenagem
e pragueja alguma malandragem
enquando segue a dura viagem,
pois se tal não fizesse
seria preso por vadiagem
na próxima abordagem
do Capitão coragem.

Puxa a carroça,
responde à troça
e assobia assustado
pela estranha voragem
deitada no lixo da burguesia,
que renova sua compulsão
a cada novo dia.

Talvez sonhe com outra vida,
mas teme ser apenas uma Miragem.
Um vacilo, mano,
na força e na coragem.
O resto é bobagem...

terça-feira, 15 de março de 2011

Gregas

Trágicas mulheres gregas,
dizei-me quando chega
o mito da felicidade.
Em qual página
dorme escondida
a paz quase esquecida?
Em quais piras
arderam todas as iras?
Onde estarão os heróis
e o ouro que nada corrói?

Digam-me, gregas mulheres,
após qual travessia
o monstro da agonia
será ceifado
por Ares alado?

Quando, mulheres trágicas,
serão reais as mágicas,
as poções, os elixires
e a nobreza de Aquiles,
nesse tempo de deslizes?

E por fim, Helenas,
digam-me
em qual bosque se despe
a deusa mulher,
musa e música
do poeta qualquer.

domingo, 13 de março de 2011

Terror

O grito na noite
verbaliza o terror.
Frágeis estamos
na toca dos cêntimanos.

É noite das maldições lançadas,
das bestas-feras aladas
e das almas apenadas
pelas culpas passadas.

Confabulam duendes e gnomos,
nesse livro de tantos tomos,

a eterna questão de quem somos:

talvez bruxas e demônios,
ou só avessos anônimos.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Jarro

Cai o cigarro
sobre o tapete.
Ainda o levanto
por temer as chamas de Dante.
Até quando esse levante?

Em que ponto
vencerá a angústia
esse fim,
que tudo apagaria,
nas cinzas do próximo dia?

Repito o café
e o cigarro,
na esperança
de ser o último jarro.
Na espera
da quebra do jarro,
que lavará em barro
essa inconsistência
que chamam de existência.

Um lápis e um papel
dão-me algum alívio.
E a incerteza
de um alvo delírio.
Poema de quem não morreu,
do semi extinto eu,
que olha o correr do carvão,
nesse imenso não.

POESIA DISTINGUIDA COM "MENÇÃO HONROSA" COM XV CONCURSO INTERNACIONAL DE LITERATURA DA ALPAS XXI - PORTO ALEGRE RS. 30/04/2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

Entulho

Silêncio tão espesso,
que nem se lembra do começo.
Recluso do Mundo,
sou esse largo e profundo
Oceano de água vertida,
sem estrela caída.

Entre o rigor do orgulho
e o breu do mergulho,
vagueio entulho.

Que fim levou
o que conheci?
As árvores que vi
e os ardores que senti?
E pensar que ainda ontem,
tudo estava aqui...

A vida em croqui
no lápis d´algum deus
que planeja inúteis retas
e vagos ângulos,
além dos triângulos
que atravessei
nos choros que chorei
pelas dores que só eu sei.

Estou só como tu,
*anjo deformado.
Gauche e parado,
enquanto a vida passa ao lado.


* da poética de Carlos Drumonnd de Andrade.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Elas

A ternura ainda é possível.
A essência de santas putas senhoras,
sobrevive à rudeza do Mundo.

Lavadeiras, operárias, faxineiras
sorriem batons imprecisos.
Alegria despossuída
ante a crueza do Mundo.

Embalam filhos incertos
de destinos não sabidos.
Acaletam sonos e sonhos
de quem pouco sonhará.

Musas esquecidas
de poucos poemas.
Macabéas* de Clarice.
Macabéas da vida...

A todas,

* da obra de Clarice Lispector.

domingo, 6 de março de 2011

Mestre

O homem negro
flutua sobre o chão
e dança seu bailado,
pois a ele o voo foi dado.

Bom lhe ver,
da gravidade nos esquecer.
E mostrar sua finura
de nobre cortesão,
nos bailes da ocasião.

O homem negro
invoca Deus, primeiro.
Depois, seu orixá;
e samba,
soberano pachá.

Teatro invulgar
assiste sua cadência.
Sob a benção de uma árvore,
dança o canto
do Brasil sem pranto.
Dança o mágico encanto
(epa babá!)
do Brasil sem quebranto.



Ao Mestre Bira, Presidente do "Cacique de Ramos".

sábado, 5 de março de 2011

Gregas Tragédias - 06 - Medéia

Eurípedes – 484/406

Cenário – as cercanias do Palácio de Jasão, em Corinto

A 1ª Apresentação –

Personagens:

1. Coro, as mulheres Coríntias

2. Creonte, rei de Corinto, homônimo ao de Tebas.

3. Egeu, rei de Atenas

4. Filhos de Jasão e Medéia.

5. Glauce, filha de Creonte

6. Jasão, herói grego e marido de Medéia.

7. Medéia

8. Mensageiro, a Aia e o Escravo que guarda as crianças.

Qual é o limite da vingança que uma mulher abandonada comete? Será justo utilizar inocentes para saciar essa sede?

Essas seriam as questões de fundo desse drama. Mas, e as respostas? Tão variadas quanto são os expectadores, ou leitores dessa obra, que traz, além da belíssima forma, essas dúvidas perturbadoras. É preciso ler Eurípedes para sondar as cavernas em que transitam os seres ditos civilizados.

Medéia era filha do rei Eetes, da Cólquida, e poderosa feiticeira. Apaixonou-se por Jasão, quando ele e outros heróis foram à sua terra em busca do “Velo de Ouro”. Ajudou-o na conquista do mesmo e depois decidiu acompanhar-lhe e fugiu da casa paterna. Eetes saiu em seu encalço e para lhe retardar a marcha, Medéia matou seu irmão, Absirto, e o desmembrou para que o pai de ambos se atrasasse enquanto recolhia as partes da criança, que ia jogando pelo caminho. Contudo, os soldados do rei continuaram a perseguição e alcançaram os Argonautas e ela no País do rei Alcínoo, da Feácia. Ali, o rei consentiria que a levassem de volta se ela fosse virgem e para evitar que isso acontecesse, Jasão a desposou e dessa relação nasceram os dois filhos do casal: Feres e Mérmero.

Liberados da perseguição paterna, o casal e os demais seguiram para o País de Iolco do rei Pélias. Como foi ele quem tinha obrigado seu marido àquela difícil tarefa, Medéia decidiu vingar-se do mesmo e persuadiu as filhas do rei que conseguiria rejuvenescê-lo. Para tanto as ludibriou cozendo um carneiro e dele tirando um novo filhote. As princesas despedaçaram o pai na esperança de lhe dar nova vida, mas logo a farsa ficou evidente e ela e Jasão foram expulsos do País. Dali, o casal e os filhos foram para Corinto onde, após certo tempo, Creonte ofereceu a mão de sua filha, a princesa Glauce (também chamada de Creúsa), a Jasão que aceitou de pronto o novo casamento, abandonando Medéia e os filhos de ambos. A partir daqui tem inicio a “Tragédia” de Eurípedes:

“É uma alma violenta”... ”não suportará essa injuria”... ”ela me assusta”... ”ela é terrível”. A peça se inicia com a Aia de Medéia falando consigo mesmo. Entre outras, as frase pinçadas, e acima expostas, de seu monólogo reafirmam a ferocidade de sua Ama, que nesses dias estava prostrada em seu leito, em estado de depressão, do qual às vezes saía apenas para lançar olhares raivosos a todos que se lhe achegassem, inclusive seus filhos. Prosseguindo seu solilóquio, a Aia fala de seu medo de que a Ama cometa suicídio ou homicídio contra Jasão e Glauce, ou infanticídio contra os filhos. Essa expectativa sombria é respaldada pelas atitudes anteriores da mesma, como se viu no preâmbulo.

A chegada do Escravo que guarda as crianças, vindas do ginásio com a alegre despreocupação da idade, interrompe as reflexões da Aia, mas não as suas preocupações, que as expõe ao escravo. Delas, ele compartilha e acrescenta às mesmas a informação que colheu entre o povo, de que Creonte iria expulsar a patroa de ambos em brevíssimo tempo. Atônita, a Aia dirige-se às crianças falando do desamor que o pai delas agora lhes sente e dos cuidados que eles devem ter para não perturbar a mãe, ferida por aquela traição. Sobre essa traição, o escravo diz uma frase que resume a atitude de quase todos os Homens: “que mortal não faz o mesmo? Todo Homem ama mais a si próprio do que ao seu próximo...”

Note-se que essa frase do escravo poderia ser estendida às outras “Tragédias”, bem como à vida em geral. Tanto naquela época, quanto na atual. A força do Instinto de Conservação prevalece (como egoísmo, egocentrismo, ambição, desprezo etc.) sobre qualquer regra que castigue esses comportamentos, ou que premie a sua não realização. A generosidade, salvo raríssimas exceções, só é praticada na esperança de que resulte em alguma recompensa (material ou abstrata), inclusive após a morte, para que o renome atinja o desejado destaque, ou o Crente consiga sua “Salvação”.

Antes de se separarem, a Aia pede ao escravo que ele mantenha as crianças longe da mãe, pois ela já entreviu olhares funestos da mesma em relação a eles. Repete a advertência para os filhos de Jasão, enquanto se escuta os lamentos de Medéia. Dentre essas suas altercações, algumas se dirigem diretamente aos filhos, ameaçando-lhes com rude frieza: “malditas crianças de mãe odiosa, morram com seu pai”

O Coro, representando o povo, indaga a Aia o que sucede, pois as lamentações da ex-esposa extravasam o Palácio, mas as informações estão confusas. A resposta de que Jasão trocou a família pela princesa Glauce causa uma onda de compaixão por Medéia e o Coro pede a Aia que a traga para ouvir suas consolações e pedidos que evite cometer alguma violência a que sua ira predispõe.

Relutantemente a Aia entra no Palácio, temente de que a fúria da patroa a repila. E lamenta que ninguém tenha inventado uma música que acalme o ódio dos humanos, fonte de brigas, assassinatos etc.

Medéia sai e diz ao Coro que o fez para não parecer orgulhosa. Lamenta estar em terra alheia, sem parentes que a amparem naquele terrível momento e discursa contra as injustiças que se veem nos casamentos quando o Homem assume o papel de “todo poderoso”, cujas vontades prevalecem sobre qualquer coisa, em prejuízo da esposa. Fala de seus sofrimentos com a traição de Teseu, seu desejo de morrer e, por fim, confidencia sua intenção de buscar vingança, para a qual pede discrição ao povo, que também vê justiça nessa revanche.

Nisso, Creonte entra em cena e grosseiramente participa a Medéia a sua decisão de expulsá-la sem demora. Que ela e seus filhos partam imediatamente. E lhe avisa que só voltará ao Palácio Real após sua partida, pois quer se certificar de sua ida.

Medéia lamenta sua triste situação e questiona Creonte sobre o motivo de sua decisão. Por que expulsá-la? Até ali ela não cometeu crime algum que justificasse castigo tão extremo. E Creonte, com sinceridade, diz que o motivo é o temor de que ela cumpra as ameaças que fez contra sua filha, contra ele e contra Jasão. Medéia responde-lhe que seu ódio é apenas contra o último e que nada tem contra ele ou contra sua filha. Também diz que a grande sabedoria1 que lhe creditam é uma maldição. Imagina o Povo que ela é capaz de provocar males de tal extensão que tudo poderia conseguir, mas isto está longe de ser verdadeiro. Ela não tem poder algum que a diferencie dos demais e que, portanto, ele não deve temê-la, pois o que poderia uma simples cidadã contra um rei? E repete, em tom de súplica, que ele a deixe ficar.

1 – em termos literais diz Medéia: ”um homem de bom senso não deveria nunca dar aos seus filhos ciência demasiada, pois o expõe a critica por ociosidade e à inveja e ao ódio do povo”. Ainda hoje tal observação é válida. Todo saber que não se traduz em resultado material imediato, (a filosofia, por exemplo), é visto pela maioria como inútil. Tal preconceito decorre da incapacidade de ver além do físico instantâneo. De entender que os Estudos Superiores formam indivíduos mais capazes de no médio prazo produzir mais e melhores bens concretos. E não é raro de que ao conceito de inutilidade se junte o de ociosidade daqueles que buscam tais saberes. Geralmente os estudantes das áreas voltadas para a intelectualidade pura são taxados de preguiçosos, lúmpens que vivem à custa “dos que produzem”.

Creonte se diz imune às belas palavras de Medéia, mas teme que em surdina ela prepare sua vingança. E por temer mais uma oculta má intenção que uma cólera explicita, reafirma sua ordem de exílio. A seqüência de argumentos e contra-argumentos é interrompida por Medéia que pede ao Rei algumas horas para providenciar sua mudança, o que, a contragosto, Creonte consente, dando-lhe mais um dia de prazo.

Enquanto o Coro lamenta a má fortuna de Medéia, ela diz ao povo que só bajulou Creonte por ter segundas intenções e que ao lhe dar um dia a mais, o incauto selou a sua sorte e a de sua filha. Continua contando às mulheres do Coro seus planos para cometer o duplo homicídio, o qual deverá ser feito através de cruel envenenamento. A sua especialidade, aliás. Que irá matá-los é certo, mas tem dúvidas sobre o passo seguinte. Quem lhe daria refúgio contra a fúria de Jasão e doutros sequazes de Creonte? Quem a abrigaria? Dúvidas, diz, que a obrigam a agir com cautela; mas se nada der certo, apunhalará Glauce e quem lhe socorrer, pois sua obsessão é exterminar-lhes efetivamente.

Juristas, provavelmente, classificariam esse crime como premeditado, pensado, refletido. Enquanto que o assassinato do irmão seria classificado como passional, não obstante ter tido requintes crudelíssimos. O segundo, pois, mais levemente apenado. Fica clara a questão do afastamento entre a “Letra e o Espírito” da Lei. Como criticar as mulheres por não lhe delatar? O parágrafo abaixo retorna à questão.

O Coro volta à cena e entoa um canto profético sobre o Futuro das mulheres: tempo haverá que deixarão de ser injuriosamente tratadas e a elas será dado o devido respeito masculino, gênero que abriga indivíduos de igual ou maior maldade que a delas (sic). E prossegue o canto lamentando a má fortuna de Medéia, cuja casa já não é sua, pois outra dama dela se apossou e agora lhe expulsa.

E segue o canto até ser interrompido pela chegada de Jasão que culpa a ex-mulher pelo exílio que ela e os filhos sofrerão. Diz que se não fosse a rebeldia dela, seus desacatos ao Rei, ela poderia viver para sempre em Corinto. Também se diz disposto a lhe dar algum dinheiro para que ela e seus filhos usem durante a peregrinação em busca de novo lar.

Note-se: filhos só de Medéia. Não dele. Já não os reconhece como seus.

Medéia responde-lhe com insultos e xingamentos irados e recapitula tudo que fez em seu beneficio: ações que vão da morte do dragão que zelava pelo “Velo de Ouro”, passando pelo assassinato do próprio irmão, pelo abandono do pai e da mãe e chegando à morte do rei Pélias. E todos os cuidados que teve para salvar-lhe a vida em cada uma dessas situações. Lança-lhe em rosto a vilania de sua traição e pergunta-lhe com sarcasmo, para realçar sua torpe conduta, para onde ela agora pode ir. Para o reino do finado Pélias? Para sua terra natal? Ou para os outros lugares onde fez inúmeros inimigos, apenas para auxiliá-lo? E termina essa parte do discurso questionando o próprio Zeus, que deu aos Homens meios de distinguir o ouro falso do verdadeiro, mas não lhes ensinou a diferenciar o bom e o mau caráter.

Retruca Jasão dizendo-lhe que credita seus salvamentos à deusa e não a ela, pobre mortal como ele. Que não lhe cabe culpa por ela ter-se apaixonado por ele, mas sim a Eros que a fez amá-lo. Prossegue dizendo que os trabalhos que ela teve com ele estão sendo pagos pelo fato dela ter sido tirada de um País bárbaro e colocada na ilustre Grécia, onde ela poderia aprender o conceito de Justiça, do Direito e não apenas o da força bruta. E que foi graças a ele que a sua ciência a tornou famosa em toda Hélade. E que a importância desse reconhecimento está no fato de ter acontecido na célebre Grécia e não em um local ermo e remoto; e que tudo isso é a justa recompensa para seu denodo.

É inegável que para a maioria importa mais ostentar a riqueza que desfrutá-la. Há um prazer infantil em mostrar aos demais “o quanto se é superior”. E para que tal reconhecimento seja o máximo possível é necessário que se dê em um grande centro, em um local que sirva para referendar aquela abastança. É um comportamento que se liga diretamente à carência existencial: é preciso “ter”, para “ser”.

Sobre seu casamento com a Princesa, alega que o fez para beneficiar a ela, Medéia, e aos seus filhos; pois ele, pobre exilado, tendo sido abençoado pela sorte iria, doravante, conseguir oferecer um futuro melhor para todos e não apenas para si. Que tal himeneu não aconteceu por ele desgostar de Medéia, ou por desejar outra mulher, mas tão somente por aquela ambição. Por querer dar a ela e aos filhos de ambos um futuro risonho e próspero.

Observe-se que a falsidade e o vazio do discurso de Jasão são tais, que no final ele se coloca novamente na posição de pai dos filhos de Medéia, numa desesperada tentativa de se tornar mais digno de compreensão e aceitação. Contudo, a prevalência do individualismo sobre o respeito a terceiros, ou a compromissos éticos, não é uma maldade restrita a Jasão. Individualismo igual, na essência, norteou os passos de Medéia que não titubeou em abandonar os pais, em matar e desmembrar o irmão, em matar Pélias etc. para perseguir seu gozo. Em ambos, o que se quis foi a satisfação pessoal, não importando o preço a pagar. Medéia quis a felicidade personificada em Jasão; e ele a viu na Princesa Glauce. E os dois tudo fizeram para chegar aos seus objetivos, inclusive ao arrepio da Lei dos Homens e da Lei dos deuses.
Despindo-se qualquer ilusão, observa-se que milênios foram insuficientes para mudar o Homem. Tudo que faz, visa seu próprio beneficio e se não avança além de certos limites não é por cuidado ético, mas sim pelo medo da repressão que outrem lhe infligirá por ter ameaçado o “direito” desse mesmo outrem.

Intervém o Coro criticando a atitude de Jasão ao abandonar os filhos e a mulher. Na corrente, Medéia continua seu ataque contra ele acusando-o de falacioso discursar e inábil pensar. Que se de fato ele não tencionava traí-la, ele deveria ter-lhe comunicado seus planos ao se casar com a Princesa. Embora doloroso, seria mais honesto da parte dele. Jasão responde dizendo que se fizesse isso, o violento ciúme dela ter-lhe-ia impedido de levar o plano a bom termo. E ante a sua observação de que a trocava por ser “bárbara”, reafirma que não quis (sic) outra mulher, pois só visava às vantagens econômicas que o casamento asseguraria a ele, a ela e aos filhos de ambos, que seriam tão príncipes quanto os filhos que viesse a ter com Glauce. Por fim, volta a oferecer dinheiro para a viagem, que Medéia recusa violentamente.

O Coro reassume a cena, condenando os amores furiosos e deplorando a sorte de Medéia que experimenta as mais duras provações: ser trocada por outra mulher e ser banida de sua casa.

Nesse ínterim, adentra a cena o rei de Atenas, Egeu. Cumprimenta Medéia amistosamente e diz que vai a busca de orientações num Oráculo, para ter filhos. Medéia responde-lhe o cumprimento e lhe deseja sorte na empreitada. Mas a tristeza no olhar dela não passa despercebida por ele que a indaga sobre a causa. Ao saber da traição de Jasão e do exílio a que ela e os filhos estão submetidos, oferece-lhe abrigo e proteção. Benefícios que ela aceita prontamente, enquanto lhe garante que usará seu saber místico para ajudar-lhe a ter os descendentes que tanto quer. Depois, cuidadosamente arranca do ateniense o juramento solene de ampará-la, defendê-la e abrigar contra quaisquer inimigos que a queiram. Que peçam sua extradição. Egeu lhe garante que seu asilo será inviolável e segue seu caminho e deixando um rastro de conforto e segurança para que Medéia execute seu intento de se vingar dos ultrajes sofridos.

Semi extasiada, Medéia conta às mulheres do Coro o seu plano: primeiro chamará Jasão e com falsas palavras doces o convencerá de que se arrependeu de sua atitude anterior. Que reviu seu comportamento e que se convenceu de que ele agiu corretamente (sic). Depois pedirá que ele fique com as crianças, alegando a dureza de um banimento para os filhos. Mas o que planeja, na verdade, é utilizar-se dos filhos para preparar a terrível armadilha contra Glauce e Creonte. Enviará com os mesmos um rico presente, como se fosse uma oferenda para que não os expulsem do País. Funesto presente, que ao ser tocado pela Princesa a matará cruelmente. E o mesmo em que a tocar, pois o veneno que levará é extremamente poderoso. Depois, continua Medéia, matarei meus filhos para que outrem não o faça com requintado sadismo. Dar-lhes-ei uma morte suave e indolor, protegendo-os dos vingadores e dos meus inimigos. Tudo feito, eu irei para a segurança do refúgio em Atenas, protegida pelo rei Egeu. Na consciência levarei o remorso pelo assassinato das crianças e por ter abandonado meus pais, tornando-me uma pária execrável.

O Coro, agora representando todo o Povo, tenta dissuadi-la, pois ninguém pode compreender ou justificar um infanticídio, mas Medéia responde-lhe que só matando os filhos de Jasão é que poderá causar-lhe a dor que pretende. E indiferente à réplica, manda chamar-lhe.

Observe-se que a real intenção de Medéia ao assassinar os próprios filhos é causar dor no pai das mesmas. Vingança pela dor que ele lhe causou ao trocá-la por outra. Como cordeiros de sacrifícios, seguem os inocentes como massa de manobra, cuja única serventia é ferir o oponente.

Chegando Jasão, Medéia faz o discurso da falsa conciliação e ele aprova sua “racionalidade”, sua “objetividade” em esquecer os sentimentos e pensar nos lucros materiais que o novo casamento proporcionará a todos. Promete-lhe, ainda, que fará dos filhos de ambos, príncipes iguais aos que nascerem de sua união com a filha de Creonte. Que lhes proporcionará uma longa vida feliz. E diante do pedido de Medéia de que fique com eles ao invés de mandá-los para o exílio, diz que tudo fará para conseguir o assentimento de Creonte, usando inclusive a própria Princesa, como lhe sugeriu Medéia. Ela, para reforçar tal pedido, já preparou uma rica prenda para Glauce e embora Jasão diga que tais presentes são desnecessários, insiste em enviar-lhe através das crianças. Afinal, diz, o ouro vale mais que qualquer discurso.

Pela voz do Coro, Eurípedes conta da satisfação de Glauce ao receber o mimo e como, por serem tão belos, quis usá-los imediatamente. E conta, também, que subitamente ela caiu morta em meio a sofrimentos lancinantes. E pela voz do Escravo, relata Eurípedes, que a permanência dos filhos de Medéia foi autorizada.

Medéia, em seu transe diz ao Escravo para organizar os pertences dos filhos e estando sozinha inicia um monólogo lamuriento onde assume o papel de vitima, enquanto lamenta sua má sorte. Sua infelicidade por não ver os filhos adultos, casados, felizes etc. Nesse momento, vacila em matá-los, mas ante a perspectiva de se tornar objeto de escárnio e das punições da sociedade, retoma seu intento macabro.

No monólogo supra citado, Eurípedes retrata com maestria os conflitos na alma de Medéia. Sua consciência do horror que envolve o que fará e a necessidade de fazê-lo, segundo sua ótica. Seu sacrifício interno, a dor que lhe dilacera, o orgulho que a obriga a cometer o ato nefando e todas as convulsões de espírito que se pode imaginar nesse tétrico quadro desenhado pela pena do poeta. Sem dúvida, é um dos cumes da literatura universal de todos os tempos.

O Coro canta uma sofrida reflexão onde questiona se os pais e as mães são mais felizes que aqueles despojados de filhos. Pois só quem os tem, sabe da eterna preocupação que causam involuntariamente: saberei educá-los? Serão voltados ao Bem? Poderei garantir-lhes a subsistência? Dúvidas, que entre outras, povoam os dias e as noites daqueles que ainda correm o risco extremo: ter um filho arrebatado pelo Hades.

Aqui, Eurípedes torna a atingir outro ápice literário. O escrevinhador dessa sinopse e o (a) leitor (a) da mesma, que são progenitores, veem-se fielmente retratados em cada linha.

Nisso, um Mensageiro chega e aconselha Medéia a fugir imediatamente, pois Glauce e Creonte estão mortos e a turba exige vingança. Exultante, para espanto do Mensageiro, Medéia gargalha e lhe pede que conte em detalhes como tudo aconteceu, pois lhe será dobrado o prazer se souber das torturas que sofreram no desenlace.

E o Mensageiro se põe a contar que Jasão chegou ao Palácio na companhia dos filhos, os quais, no primeiro momento foram alvo da aversão de Creúsa (ou Glauce), sendo necessário que Jasão intercedesse para que ela abrandasse o seu repúdio. Depois, ao ver os presentes que traziam, a Princesa deixou qualquer rejeição e os tratou com generosidade, intervindo junto ao pai para que ficassem no País. E que enquanto Jasão encaminhava os filhos de volta à Medéia, a Princesa já colocava o diadema de ouro na cabeça e vestia a fina túnica que ganhara. Deslumbrada, ainda se mirava ao espelho quando irrompeu o incêndio em sua cabeça, face e corpo, por obra dos mimos recebidos. Terrível incêndio que não amainava, pois ao tentar tirar os adereços que o causavam, mais eles se fixavam causando-lhe dores insuportáveis, até que a morte a prostou irreconhecível. Alertado pelo barulho, Creonte correu aos aposentos da filha e transido de pavor e de sofrimento abraçou o corpo desfigurado. Depois, ao tentar afastar-se, a rogo de Jasão e dos demais, viu que a túnica lhe segurava com tal força que a cada gesto seu, um pedaço de carne se desgrudava do osso. Tentativas inglórias que também o deixaram morto em meio a grande sofrimento.

Satisfeita, Medéia avisa às mulheres do Coro que cumprirá o restante do plano e após alguma vacilação, toma o punhal e mata os filhos, cujos gritos horrorosos chegam ao Coro, agora representando todo o povo, e preenchem todo espaço. Tenta o Coro intervir, mas já é tarde. Os filhos de Jasão estão mortos.

E é ele quem chega nesse momento à cena, dizendo ao Povo que já não pode ajudar sua noiva, nem seu sogro, mas que ainda pode salvar seus filhos da mãe enlouquecida. É, então, que recebe a noticia do assassinato de ambos. Irado, transido, promete vingar-se matando Medéia, de quem escuta a voz, mas sem poder ver-lhe, pois ela está no carro que lhe deu o Sol, seu antepassado. Dali é invisível a Jasão, que, impotente, insulta-lhe e rememora todos os crimes que ela cometeu, remoendo o remorso por ter trazido uma mulher bárbara para a ilustre Grécia.

Protegida pela invisibilidade, Medéia responde aos insultos e lhe debita o ônus da trágica situação. Se ele não a tivesse traído, nada teria acontecido. Também lhe diz que será ela quem enterrará as crianças no “Bosque Sagrado” de Hera, onde ninguém poderá violar as suas sepulturas. Por fim, lança uma maldição a Jasão: ele morrerá esmagado pelo navio Argos (o que de fato sucede posteriormente); e parte para Atenas, onde se casa com o rei Egeu e lhe dá um filho chamado “Medo”.

Lavínia completaria sete anos em 13/03/2011. Porém, foi assassinada dez dias antes – em Belfort Roxo, RJ – pela amante de seu pai, que assim se vingava por ele ter-lhe trocado por outra.

À memória de Lavínia esse capítulo é dedicado.

terça-feira, 1 de março de 2011

Março

Paira sobre cada qual,
a melancolia comum:
A tristeza de dois
menos um.

Dor que se reparte
com estranha justiça;
a todos contenta
e a todos violenta.

As águas de Março*
ensopam a saudade;
caminha-se a cidade.

E de tudo que se teve,
sobrou esse vazio;
e um resto de cio.

* da poética de Antonio Carlos Jobim

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Vazio - (Poesia Selecionada)

Na beira do edificio
o passarinho desdenha a queda.
Não lhe existe o vazio.

Reina no meu impossível,
reduzindo o quê me pensei
e fazendo o que eu só sonhei.

Desliza caminhos
em espaços só seus.
Passeia sua independência
e cala minha insolência.

Preso ao chão
rastejo multidão.
Longe do Rei,
que um dia me achei.

Poesia Selecionada para a Antologia III da Editora Corpos - Porto - Portugal.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Face

Doce Serão seria
se a cama não fosse vazia
e se à mesa não faltasse
a Musa de branca face.

Doce seria o Serão
se a brisa trouxesse,
como eco de prece,
a Musa que anoitece.

Serão que me assiste
na luta contra o vazio,
contra a palavra que não vem
e contra o amor que não se tem.

Serão das toalhas de Açores,
Serão de Volpi, de tantas cores.
Serão da inútil ceia posta,
pois só ausência é a reposta.

                                                       Para Fabi K.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Intruso

Intruso vento frio,
arrepia-me a face e a pele
e o desejo que nada repele.

E a bruta saudade
do que nos acontecia
faz-se suave companhia,
como fêmea sorrateira
que se deixa por inteira.

Frio vento de pré Outono,
de tantas vias já andado,
diz-me da esperança doutro lado
e da bonança doutro fado.

Fale-me da mulher amada,
da sorte lançada
e da vida pós julgada.
Depois, leve consigo
essa vontade de abrigo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Megido

Leva a mulher
uma flor inválida.
A rosa de Vinicius*,
a rosa de Hiroshima.
É o Armagedon que se aproxima.

Louca criança demente
desembrulha o não Presente.
Gargalha Sancho Pança,
no último banquete
cantado em falsete.

Transpira o Homem
o pão que não se come
na mostra que o Diabo gosta.
Viver é aposta.

Miguel Arcanjo guerreiro
comanda branca legião,
mas os Cavaleiros já galopam
semeando o branco Fim.
E ainda se briga pelo butim.
A vida toda foi assim...


* da poética de Vinicius de Morais.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Gregas Tragédias - EDIPO REI -05

Sófocles – 496/406 – Colono

Cenário – diante do Palácio Real, em Tebas, com altares junto às portas.

A 1ª apresentação em – 430 em Atenas

Personagens:

1. Coro, representando os anciãos de Tebas.

2. Creonte, irmão de Jocasta

3. Édipo, rei de Tebas.

4. Jocasta, rainha de Tebas

5. Suplicantes, as

6. Tirésias, o famoso adivinho cego

7. Guardas, Servidores do Palácio, Sacerdote, Emissário de Corinto, Pastor da casa de Laios, Arauto do Palácio Real; Aia, acompanhante de Jocasta; Menino, guia do cego Tirésias.

A roda do ano reprisa a dor de sempre? ... Édipo não sabia que tinha o “complexo de Édipo”... (Keneth Tynam - crítico teatral)

A representação inicia com Édipo dirigindo-se a um grupo de cidadãos de Tebas, reunidos à frente do palácio real. Ali, pede que um dos anciãos, um venerável Sacerdote, diga o que deseja o grupo, embora já saiba o que pedirão, pois vê em toda Tebas sinais que se vive em estado de lamentação e súplicas.

Responde-lhe o velho que o povo, de crianças a idosos, sofre com a peste que assola a cidade e o campo tebano, dizimando tudo que atinge: plantações, gado, pessoas. E que Édipo, o melhor dos mortais, é a última esperança de todos. Foi ele quem matou a esfinge (1), que antes aterrorizava a cidade exigindo pesado tributo de todos que passavam, e realizou uma série de melhorias à cidade e à população. Contam com ele, pois nem bem conhecendo a cidade já lhe prestara tantos favores. Agora, com mais motivos, esperam que use sua inteligência ou da graça de um deus para encontrar a solução para tão grave problema.

1 – Esfinge – normalmente o nome “Esfinge” nos remete ao monumento egípcio situado ao lado da grande Pirâmide. É claro, porém, que aqui se refere a outro Ser Mitológico. Também chamada de “inexorável cantadeira”, tinha cabeça de mulher e corpo de animal e atraia os passantes com seu canto, propondo-lhes enigmas e devorando os que não os adivinhassem. No encontro com o Édipo o enigma indagava: que animal tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde? Édipo respondeu que era o homem, que na primeira infância engatinha, depois anda com dois pés e na velhice além dos dois pés apóia-se numa bengala formando, pois, um tripé. Graças ao seu acerto, o herói livrou a cidade daquela desgraça, pois a Esfinge precipitou-se num abismo e morreu.

Na seqüência, o Sacerdote apela para a vaidade de Édipo ao aludir o quão grande será sua glória por ter salvado a cidade novamente. Serás, diz, visto como o herói de Tebas, aquele que a salvou de duas calamidades terríveis.

Note-se uma característica humana que sobrevive ao passar do tempo: a necessidade de delegar a outrem a responsabilidade pelo próprio bem-estar. Ainda hoje, lideres são buscados (e como esses e outros heróis são inexistentes, busca-se em Deus essa figura que garante a felicidade de cada um que o invoca) e aceitos com subserviência. No mínimo para lhes debitar o fracasso pessoal, haja vista que sempre é mais fácil atribuir a terceiros as próprias derrotas. E no máximo para usufruir o que foi conquistado sem a necessidade de penosos sacrifícios e trabalhos. A contrapartida a isto, o ganho de que assume o papel de “Salvador”, situa-se no espaço do egocentrismo. Na necessidade de ser o centro das atenções, de ser amado, querido etc.

Responde-lhe Édipo que está ciente da hecatombe que se abateu sobre a “Tebas das Sete Portas” e que seu sofrimento é maior que o deles, pois enquanto cada um sofre por si, ele sofre por todos. Diz-lhe que mandou Creonte, seu cunhado, ao Santuário do deus Apolo, em Delfos, para receber instruções de como fazer para cessar o flagelo e que tão logo ele volte tudo fará para vencer esse inimigo.

Creonte entra em cena portando boas novas, como crê. Embora difícil, a exigência poderá ser cumprida já que consiste em achar e extirpar um “mal” nascido em Tebas e nela residente. Respondendo às ansiosas dúvidas de Édipo sobre o que seria tal “mal”, Creonte lhe diz que deverá ser localizado e banido, ou justiçado, o assassino do rei Laios. Édipo sabe que seu antecessor foi assassinado e embora não o tenha conhecido, concorda que seu sangue seja vingado, como exige Apolo. Que o assassino seja severamente punido, seja ele quem for, conforme as instruções do deus.

Na seqüência, Édipo e Creonte conversam sobre as dificuldades de se esclarecer crime tão antigo, mas sendo necessário que se comece imediatamente. O espaço geográfico da busca é pequeno: a cidade e o campo adjacente de Tebas, já que o assassino ali reside. Também o espaço cronológico é sinalizado pela frase de Creonte “a ameaça da esfinge nos forçava a por de lado as coisas duvidosas e a só pensar em nosso dia-a-dia”; isto é, pouco antes da chegada de Édipo à cidade. Com essas premissas, o rei inicia sua investigação imaginando que ela também o favorecerá pessoalmente, pois se já mataram um rei, é possível que queiram matar o sucessor e ao liquidar o assassino estará se livrando de um inimigo oculto e desconhecido.

Iniciando o inquérito, Édipo conclama ao assassino prometendo-lhe que nenhuma violência sofrerá, bastando que aceite ser banido pelo resto da vida. Aos outros cidadãos promete régia recompensa a quem delatar o culpado. Por outro lado, ameaça o culpado de se tornar um pária, de todos recebendo ofensas e desprezo e, até, agressões físicas e enxotamentos. Também amaldiçoa o facínora para que sua vida seja de eterna desgraça. Essas mesmas ameaças ele dirige aos demais compatriotas, aos seus parentes e aos cortesãos que habitam seu palácio e lhes são íntimos.

O Corifeu toma a palavra e após falar de sua inocência, sugere que Tirésias, o famoso adivinho, seja chamado, pois ele tem os mesmos poderes que qualquer outro Oráculo e poderá elucidar a autoria do crime. Édipo responde-lhe que por sugestão de Creonte já tomara essa iniciativa e estava aguardando-o para breve. O Corifeu cita alguns boatos que sugerem ter sido alguns viajantes o matador de Laios e Édipo diz ter ouvido semelhante versão, mas são informações truncadas, inconclusivas.

Nisso, Tirésias chega e Édipo saúda respeitosamente a sua sabedoria, a sua capacidade de adivinhação e lhe pede que o ajude a desvendar o crime e, assim, salvar a cidade. O velho profeta maldiz seu dom, já prenunciando uma resposta amarga e inesperada. Ciente da gravidade do que já sabe por intuição, pede a Édipo que não o obrigue a dizer o que sabe. Pede, também, que o levem de volta à sua casa. Preocupado com esse comportamento, o rei insiste para que o adivinho conte o que sabe. Implora-lhe a verdade, mas Tirésias mantém sua recusa e com isso aumenta o desespero de Édipo, que passa a vê-lo como um inimigo. Tomado pela raiva, acusa o adivinho de ter sido o assassino, ou o mandante do crime; replica o profeta que é ele, Édipo, a desgraça que está arruinando a cidade e pede que não mais lhe dirija a palavra, enquanto se queda em profundo silêncio.

Édipo, indignado pela acusação de Tirésias, ameaça punir-lhe, mas o velho não se amedronta e diz que a verdade que está consigo o protegerá como sempre protegeu. Porém, não obstante sua relutância cede aos apelos – agora patéticos – de Édipo e com clareza torna a dizer que ele é o assassino de Laios e como o rei obriga-o a repetir, ele o faz sem qualquer temor. Diz ainda que o casamento de Édipo e Jocasta (mesmo que ambos nada saibam) levou o rei a mais sórdida das situações, embora ele nem perceba aquele horror. E ante as novas ameaças de Édipo, insiste em dizer que aquilo é a pura verdade. Na réplica, o rei o chama de farsante, embusteiro; e lhe acusa de ter-se vendido a Creonte, que arquiteta sua queda para herdar o trono. Alega que ele e o cunhado estão em espúrio conluio visando à tomada do Poder e a auferição de riquezas. Mas ao ouvir de Tirésias que seu fim se aproxima, que o Destino não lhe tarda pelas mãos de Apolo, Édipo demonstra alguma insegurança e pergunta se aquela afirmativa é pura invencionice dele, ou de Creonte? E discursa sobre o poder da inveja que sentem do seu poder, prestigio e fortuna. Inveja que faz de Creonte, que antes julgava leal amigo, um reles intrigante. E enquanto repete as acusações de falsidade e charlatanismo, questiona Tirésias sobre o porquê ele, tão poderoso em decifrar mistérios, não decifrava os enigmas da esfinge? Por que foi preciso esperar que um simples viajante, como ele, assim o fizesse e com isso salvasse Tebas?

Nesse ponto intervém o Corifeu argumentando que os insultos trocados foram originados pela raiva e que eram inúteis já que em nada contribuíam para solucionar o terror que toma a cidade. Contudo, Tirésias volta à carga e afirma que se Édipo zombou de sua cegueira, em breve saberá que seus dois olhos pouco ou nenhuma serventia tiveram para lhe mostrar a sujidade de seus atos, a sordidez de matar o próprio pai e deitar-se com a própria mãe. Diz, ainda, que as desgraças de Édipo não cessarão nele, mas atingirão sua “funesta prole”. Irritado, Édipo já não contra-argumenta e se limita a expulsar o velho profeta, que na partida, vaticina a sua cegueira, sua ruína, a desgraça com seus filhos, o seu banimento e todos os sofrimentos que enfrentará por ter sido o marido da própria mãe e homicida do próprio pai.

Note-se o tom acusador de Tirésias. Mesmo sendo ignorante sobre seus atos, Édipo é apontado como uma facínora. Essa tendência se coaduna com a ideologia da antiga Grécia que via naquele que praticasse atos contrários à moral, mesmo que à revelia, um homem marcado pelo Destino e, portanto, culpado de alguma forma. Os hindus, e mais recentemente algumas seitas que lhes seguem os ensinamentos, acreditam no “Karma”, ou seja, que um erro cometido no Passado é cobrado no Presente. Pode-se fazer alguma analogia entre essas duas visões, lembrando sempre, que a grega é discípula da hindu.

O povo que ouvira a acusação de Tirésias, nesse primeiro momento mantém a crença na inocência de Édipo, mas um germe de dúvida começa a se instalar entre todos e a cizânia se principia quando Creonte sabe do que Édipo o acusara e se dirige ao povo para externar sua indignação pela maldosa alusão que Édipo fez, colocando-o junto com Tirésias num sinistro plano para herdar o poder e a fortuna do cunhado. Na seqüência, Creonte é confrontado por Édipo, que torna a lhe acusar de tramar sua queda e aponta-lhe algumas evidencias (segundo ele as vê) que confirmariam sua tese. Creonte contra argumenta e entre outras posições cita a de que seria uma estupidez imensa trocar a sua suntuosa vida de agora pelas agruras que permeiam a vida de quem governa. Sim, pois em sua posição ele tem os mesmos privilégios que Édipo, mas não tem os mesmos encargos. A discussão prossegue estéril até que a rainha Jocasta surge e põe fim a mesma criticando a ambos por estarem focados apenas em problemas particulares e não na solução dos graves problemas que a coletividade enfrenta.

Note-se que é a segunda vez que alguém critica Édipo por esse motivo: preocupar-se consigo e esquecer o coletivo. Mais não é preciso para deixar claro seu egocentrismo, igual à de tantos outros protagonistas das Tragédias.

Também o povo apóia Creonte e pede que antes de acusá-lo Édipo faça um inquérito válido cujas provas não deixem duvidas de suas eventuais más intenções. Todavia, Édipo aferra-se em sua posição.

E tamanho é o seu apego a essa tese, sem qualquer comprovação objetiva, que se pode deduzir que inconscientemente ele já estaria em processo de fuga. Seria uma desesperada maneira de afastar o horror que Tirésias escancarou, mas que ele reluta aceitar. Como admitir que deseje a própria mãe e odeie o pai ao ponto de matá-lo? Esse conflito entre uma possibilidade, uma tendência, e o asco que causa, é a origem de tantos males emocionais? Para Freud e seguidores, sim.

Já no palácio, com Jocasta, Édipo não se aquieta com a desconfiança que ela tem de oráculos, adivinhos e quetais. Diz-lhe que ela mesma teve provas que adivinhos, profetas, místicos são falhos, ou malévolos. Cita o exemplo da profecia que versava sobre a morte de Laios. Até onde se sabe, o rei foi morto por salteadores, e não pelo filho, no cruzamento de três grandes estradas.

Observe-se que a morte do filho não a abalou como seria de se esperar de uma mãe. Ao invés de se rebelar contra o marido assassino, acomodou-se ao luxo que ele lhe proporcionava. Característica da pessoa, ou da época? Da pessoa, certamente! Vê-se, ao contrário dela, o sofrimento indizível de outras mães, suas contemporâneas, com a perda dos filhos.

Porém, ao ouvir o local onde ocorreu o assassinato, Édipo se sobressalta, pois foi ali que ele matou o homem que lhe impedia a passagem. Com a informação da data em que ocorreu o episodio, similar à do seu entrevero, a sua angústia aumenta e com a informação sobre a aparência do rei falecido, uma terrível suspeita toma-lhe o coração. Pressente que Tirésias estava certo. E quando Jocasta lhe conta que Laios viajava com uma pequena escolta e que ia num carro; e que a noticia chegou a Tebas através de um servo, o único sobrevivente (que ao saber de sua união com Jocasta pediu a esta que o mandasse para o campo, sem jamais voltar à cidade) a suspeita transforma-se em certeza. Já não tem mais dúvidas. Era ele o assassino de Laios.

Tomado de terror, pede a Jocasta que chame o servo e até que ele chegue conta-lhe o sucedido em sua pseudo terra natal, Corinto: em certo banquete, um comensal embriagado disse que ele era adotado. Embora seus pais adotivos, Polibio e Mérope negassem com veemência, uma dúvida ficou em seu coração. Para dirimi-la foi ao Oráculo, em Delfos, mas veio-lhe uma resposta confusa, recheada de dor, sofrimento, lutas etc. Estudando-a com mais vagar viu a trágica profecia de que mataria o pai, deitar-se-ia com a mãe e com ela geraria uma prole destinada a grandes sofrimentos. Foi para evitar esses horrores é que decidiu sair de Corinto e vagou pelo Mundo até que num entroncamento de três grandes vias, matou um homem...

Preso de profundo desgosto, conta a Jocasta como matou aquele estranho, que agora, pressente ser Laios. E, pior, casou-se com a viúva do mesmo.

Talvez se não fosse o calor dos acontecimentos, que geralmente prejudica o raciocínio, ambos teriam visto que tantas coincidências não poderiam ser explicadas. Inconscientemente ou não, tem-se aqui novo exemplo do poder das circunstâncias sobre o Homem. O irracional, o destino, assume o espaço que deveria ser do raciocínio.

Jocasta prossegue em sua tentativa de acalmá-lo dizendo que segundo o sobrevivente, os assassinos de Laios eram vários bandidos e não um só homem. Agarrado nessa esperança, Édipo aguarda a chegada do homem enquanto escuta Jocasta maldizer os oráculos, taxando-os de incorretos, frágeis e talvez manipulados.

Note-se que Jocasta desacreditava dos oráculos, mas não dos deuses, os quais, nessa obra e em várias outras, são tidos como reais (materiais, concretos). A vida na Grécia antiga era efetivamente regulada por essas entidades, que participes do cotidiano, interferiam das menores questões até os grandes problemas. Deuses e Deusas que emanavam as “Leis Superiores”, as quais regiam desde os hábitos mais arraigados até as questões mais importantes (aquelas inalteráveis com o correr do tempo e/ou com as disposições dos legisladores humanos). De certo modo é o que se vê em algumas religiões contemporâneas, onde os fiéis pedem desde um suculento almoço, até a cura do câncer.

Passado algum tempo, e após pedir a intercessão de Apolo para que acalme seu inconsolável marido (e filho), Jocasta recebe a visita de um emissário de Corinto que relata o desejo de seus compatriotas de ter Édipo como rei, haja vista que o velho Polibio morreu. Mais que o trono, a noticia alegra o casal pelo fato daquela morte ter-se dado sem a participação de Édipo. Exultam com a fabilidade do Oráculo, pois como Édipo poderia matar um pai que morreu naturalmente. Doutro perigo, o de deitar-se com mãe, Édipo desdenha. Nesse ponto, Jocasta diz a frase que ficou célebre graças ao Dr. Freud: - não tenhas medo da cama de tua mãe, quantas vezes, em sonho, um homem dorme com a mãe!”

Édipo, porém, reafirma seu medo de sucumbir a essa fraqueza, pois é uma maldição lançada por um Oráculo. O emissário, então, ao saber dos motivos de Édipo para se auto-exilar, conta-lhe que ele é filho adotivo de Mérope, dado por ele mesmo ao rei e à rainha de Corinto como presente e para suprir a falta de filhos do casal. Também lhe conta que o recebeu de outro pastor, da casa de Laios, numa várzea e que tratou de seus tornozelos (Édipo em tradução literal significa: “o de pés inchados”) machucado pelos grampos que o prendia, conforme Laios ordenara.

Édipo insiste nos pormenores, pois quer saber em detalhes a sua origem verdadeira, enquanto Jocasta tenta dissuadi-lo, mas sem êxito. Por fim, ela se afasta dizendo as últimas palavras ao Édipo: - pobre de ti... Que nunca descubra quem é... Desgraçado!

Adivinhando o final, Jocasta acovarda-se e tenta interromper o processo. Vencida, porém, pela persistência do marido – a quem já pressente como filho – adentra o palácio. Nada mais dizendo sobre ela, Sófocles abre espaço para que o leitor ou espectador imagine o cataclismo em sua alma. Talvez remorso pelo co-assassinato do filho, ou horror por ter-lhe como homem, ou medo pelo que virá no Futuro etc.

Édipo ainda se ilude que o pior sobre sua origem seja relacionado com a miséria, ao baixo nível social, mas como se acha um eterno bafejado pela boa sorte, sente-se feliz por seu Destino. O povo compartilha de seu entusiasmo, pensando que o herói seria filho de algum dos deuses e, por isso, divina seria a sua origem.

Nesse momento chega o pastor, que é reconhecido pelo povo e pelo emissário de Corinto, como aquele que lhe entregou Édipo para que fosse criado como filho. O pastor, após alguma indecisão pelo tempo transcorrido, lembra-se afinal e se põe a praguejar contra o emissário e só depois de ameaçado por Édipo é que confirma ter entregado o filho enjeitado de Laios. Criança que lhe fora dada pela própria mãe, Jocasta, para ser morto. Contudo, por compaixão, ele não cumpriu a ordem recebida dando o garoto ao pastor que agora é emissário de Corinto.

Esse trecho confirma a culpa de Jocasta que não titubeou em mandar matar o próprio filho para continuar usufruindo das vantagens em ser a rainha. E que no Presente não vacila em tentar impedir a pesquisa de Édipo, pois abafando o caso manterá seus privilégios.

- Horror! Horror! Horror! Grita Édipo, sacudido por tal revelação. Confirmou-se que ele matara o pai e cometera incesto com a mãe. Em seu desespero, pragueja contra sua sina terrível e diz que não suporta mais a luz do Sol (ou da verdade).

O Coro entoa seus lúgubres cantos e desencantos, citando a volatilidade da vida humana que a despeito da intenção e dos atos, vai aos píncaros da glória, da fortuna e noutro momento desce à mais sórdida corrupção e miséria. Note-se que milênios após, essa oscilação é tão presente quanto foi desde os primórdios.

Entra em cena o Arauto que anuncia ao povo o relato que fará sobre a sujidade que existe no Palácio Real. Tanto aquela cometida sem dolo, quanto as premeditadas malevolamente. Prossegue anunciando a morte de Jocasta que cometeu suicídio enforcando-se após duro suplicio emocional. E que ao ver a rainha morta, Édipo tomou os alfinetes que lhe prendiam a túnica e feriu seus próprios olhos dizendo: - olhos meus, não vereis mais esta culpa, esta vergonha; nunca mais vereis o que não deveríeis ter visto nunca...

Insano, Édipo manda que os portões sejam abertos e ordena aos súditos que entrem para verem o maior horror possível. Depois, exige ser banido de Tebas e segue vacilante, sem ninguém para guiá-lo. O povo, não obstante o incesto e o parricídio, ainda se condói da desgraça de seu Rei, que vaga entre os impropérios que lança à própria sina. A esse mesmo povo que o critica por ter vazado os olhos, Édipo responde que o fez a mando do deus Apolo e suplica que o levem dali com urgência enquanto pragueja contra o pastor que o salvou da morte em criança, mas lhe deu uma vida cheia de terror.

E prosseguindo suas lamentações, explica o porquê da auto-mutilação e não o suicídio, valendo-se da crença na época de que no Hades o corpo físico continuava a desempenhar as mesmas funções e seus olhos, então, veriam os genitores, cobrindo-o de vergonha.

Note-se que Édipo age com a culpa de quem cometeu os crimes premeditadamente. Seu Consciente recrimina os atos e intenções do Inconsciente, disso resultando o conflito interior que, tempos depois, transformou-se na pedra angular dos estudos de Freud. Porém, fica dúvida: seu Inconsciente procurou essas situações, ou elas foram armadas por simples acaso? Mas o “acaso” existe por si? Não seria apenas o cenário composto pelas inclinações inconscientes?

Observe-se, ainda, que se para Édipo havia motivos para tantas lamentações por ter percorrido a via que o Destino lhe impôs; hoje, essa motivação não seria tão verdadeira, pois o conceito de deus ou deuses já não tem o mesmo rigor de antes e, no entanto, tais conflitos se repetem. A culpa continua existindo sem estar vinculada diretamente a uma figura divina.

Nesse momento chega Creonte, motivo de mais angústia para Édipo que se arrepende por tê-lo acusado injustamente. Contudo, Creonte mostra-se magnânimo e diante da súplica que Édipo lhe faz para que o expulse, responde que esse é seu desejo pessoal, mas só o fará após ter consultado, pela segunda vez, o deus Apolo. Édipo pede-lhe que dê um enterro digno a Jocasta e que cuide de suas filhas, pois se os filhos – Polinice e Eteócles - já são independentes, elas não. E são elas que adentram à cena, autorizadas por Creonte, para a despedida do pai que lamenta a sorte de ambas. Insultos, ofensas e rejeições farão parte de seus cotidianos tristes e solitários, pois a solteirice lhes é certa, já que ninguém irá querer casar-se com quem descende de toda aquela sordidez.

Creonte põe fim àquela triste despedida e convida a todos para adentrarem ao Palácio aonde a resposta do deus chegará selando o destino de Édipo. Porém, antes do deus e ante a insistência de Édipo para ser banido, autoriza seu exílio, mas retém suas filhas. Parte Édipo tão sozinho, quanto sozinho um dia chegou à Tebas das Sete Portas.

E com essas certezas estabelecidas encerra-se a peça. Porem, tais certezas não escapam de um segundo julgamento e nesse, a sua inexorabilidade começa a cair. Inicialmente vamos recuar um pouco no tempo para localizar a origem da maldição de Édipo. Segundo os eruditos, decorre do fato de Laios ter seduzido o jovem Crisipo e com isso ter “inaugurado o amor homossexual”. Mas, numa época em que tais amores eram vistos com bons olhos, como admitir esse “pecado original” como motivo de maldição? Com essa primeira dúvida, chegam outras, conforme abaixo:

1. O Emissário e o Pastor seriam absolutamente idôneos? Ou teriam sido corrompidos por Creonte?

2. Tudo não seria um golpe arquitetado por Creonte para usurpar o Poder? Sua arenga sobre as vantagens de usufruir as benesses, mas não o encargo da realeza colide diretamente com a natureza humana que busca, sempre, o ponto mais alto de qualquer escala. Seria, pois, verdadeira?

3. Jocasta sabia desse plano do irmão, mas não quis delatá-lo? Foi por isso que insistiu para Édipo esquecer o assunto e aceitou ficar com ele, pois sabia que ele não era seu filho?

Questões que Sófocles não responde; e que raras vezes são formuladas. Talvez por isso as teses embasadas nessas histórias não encontrem o unânime apoio que pretendiam. De todo modo, olhando o trabalho apenas pelo seu lado literário, a magia é perene. Ainda hoje emociona a todos que tem o privilégio de conhecer-lhe.

O nome de Édipo tornou-se popular graças à tese do já citado Freud, a qual, se considerada válida, revela que a peça teatral, infelizmente, não teve a mesma popularidade. É de se lamentar, pois Sófocles desvendou a alma humana de forma magistral. Se atualmente o Inconsciente já não é tão atrelado aos deuses, como já se disse, pouco importa, pois continua a querer tudo que lhe é proibido pelo Consciente, a individuação das restrições sociais. Paradoxalmente o Homem busca a proteção da tribo, mas continua sonhar, a desejar o que a tribo lhe nega. Esse, ao cabo, é o conflito: o Homem contra a tribo, da qual depende. O Homem contra seus desejos mais íntimos. O Homem contra ele mesmo.

São Paulo, 21/02/2011









Economia

A vida sem sentido
termina com triste balido.
O homem está caído,
como trigo não colhido.

O tempo lhe passou,
a vida lhe escapou
e o amor não veio,
barrado por tanto receio.

E agora Jose?*, diria o poeta.
A cova está aberta
e a seara foi deserta.

Tanto medo. Tanta economia.
Tanta ausência de boemia...
Morreu quem nunca viveu.
Aquele, que nunca se deu.





* do poema "E agora José", de Carlos Drumond de Andrade.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Hélade

Nasceu das penas primeiras
o canto dos Homens.
Grega canção
que ressoa em todo Coro
e desliza em cada choro.

Trágica tragédia,
de Heróis corrompidos,
de ídolos caídos
e de sonhos despidos.

Trágico drama
de ignorada chama,
agora leve teu Canto
a um futuro encanto,
pois nesses nossos dias
sucumbiram as fantasias.

Leve tuas quimeras
à esperança de Novas Eras.
Talvez lá longe
renasça a cultura:
e o texto, a pintura
e a pedra vestida de escultura
sejam sempre
o inicio de nova procura.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Games

Moderna guilhotina
que uniformiza
corpos e almas cortadas
por insanas lâminas ajustadas.

Virtudes virtuais
são teias irreais,
conjunto de elementos
em que vidas são fragmentos.

Entre a promessa do decote
e o lusco fusco do archote,
assoma a triste e rude verdade
da fantasia ser impossibilidade.

Verdugos são todos,
entre os espíritos assassinados
e os demônios atormentados.
Nada mais afeta o coiote,
pois o estalo do chicote
só chega ao corpo torto
do homem natimorto.

Desejos são perdidos
em labirintos urdidos
na Bagdá dos possuídos.
E tudo se faz,
por uma morte a mais.

Febe

O escuro da noite
é minha angústia insone.
Madrugo acordado.
Já quase escuto o clarim do soldado
e o inexistente tropel do cavalo alado.

Mas como em cavalo dado
não se olha os dentes,
fantasio as tristezas
com planos lenientes
de fadas urgentes.

Quanto custaria dormir?

Logo o Sol estará a pino,
o tarô adivinhará um destino
e como se eu voltasse menino
pensarei que há um prumo
nessa falta de rumo.

Mas quando Febe voltar
de suas outras noites,
sentirei, só comigo,
o horror do desabrigo
e a solitária solidão
dessa imensa imensidão.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Gárgula

Uma gárgula me reflete,
fantasmas me seguem
e demônios me habitam.
É tempo das bruxas
e de suas faces esdrúxulas.

Será vã a Epopéia do Bardo,
só leio o urro do Leopardo.
Fera atiçada
nessa noite de "São Nada".

Junto meu delírio à luz do Poste,
mas não há Lua que se mostre.
Blasfemo contra a Divindade
e proclamo a Luxúria na Cidade.

Mas, no fundo, temo a Maldade.
Fecho olhos e janela
e o terror me invade.

Eu queria novo Tempo de Bondade...
Durmo a metade
e sonho saudade

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Jaz

JAZ

Se houvesse um epitáfio
alguém escreveria:
morreu de beleza.
Da sofrida certeza
de apagar
ao luar.

E pensar que a tantos abrigou,
que a tantos alegrou...
Vi-lhe há pouco:
saco de miséria,
de desgosto.
Senti-a há pouco:
abandono de choro rouco,
engasgado.

E pensar que queriam sua boca,
que desejavam seu corpo,
seu sorriso meio torto...
Que antes seus quereres não
duravam instantes. Que tudo era seu,
que o Mundo era seu.

tão triste meu Deus...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Gregas Tragédias - Prometeu Acorrentado - Resumo Comentado

Ésquilo – 525(4)/456 aC. - Elêusis

Cenário – região desolada na Citia, atual Sibéria.

Época da ação – primórdios da Humanidade

A 1ª Apresentação – em 458 aC. em Atenas.

Personagens:

1. Coro – representando as Oceânidas

2. Hefesto – o deus do fogo.

3. Hermes – deus, arauto e mensageiro de Zeus.

4. Ío, filha do rei Ínaco, amada por Zeus e perseguida por Hera, a ciumenta esposa do “Pai do Deuses”.

5. Poder e Força – divindades auxiliares de Zeus.

6. Prometeu, um dos titãs, filho de Urano (o Céu, também chamado de jápeto) e Gaia, ou de Urano e Têmis.

Resumo

Num banquete servido aos Homens e aos Deuses, Prometeu encarregou-se de fazer a partilha de um boi assado. Ludibriando Zeus fê-lo escolher a parte onde colocara apenas ossos camuflados por uma branca gordura. O “Pai do Deus” ao ver-se vitima do ardil encolerizou-se contra Prometeu e contra os mortais (que ficariam com as partes nobres da carne) e para castigá-los escondeu-lhes o fogo, o último elemento que faltava para que eles atingissem a civilização. O titã voou até o Olimpo, acendeu um ramo nas brasas do Sol (ou nas fornalhas de Hefestos, segundo uma variante da lenda) e deu aos Homens aquela chama. Zeus, duplamente enganado, puniu os Homens mandando à Terra a deusa Pandora e a Prometeu castigou mandando acorrentá-lo num rochedo.

A tragédia de Ésquilo começa a partir desse ponto, mas achamos oportuno recuarmos um pouco no tempo para facilitar a compreensão da peça. Também, com esse espírito, discorreremos brevemente sobre Pandora, que apesar de não estar diretamente mencionada na obra de Ésquilo ocupa um papel de destaque no encadeamento da lenda.

É bem conhecida a fábula de Pandora que ao abrir sua caixa libertou todas as maldades no Mundo. Também é comum que se creia que nem só de Maldades estava cheia a caixa, pois nela havia uma exceção benéfica: a esperança. Todavia é um erro supor que a “Esperança” fosse algo benéfico, pois ela é apenas mais uma das maldades. É a “Esperança” que ilude o Homem fazendo-o crer que seu Futuro será diferente. Que ele poderá dominar esse Futuro. É claro que mudanças superficiais ele poderá realizar, mas o intimo, a essência, está nas mãos do Destino, das circunstâncias que lhe cercam e cercarão. É a “Esperança” que obriga a Humanidade a perseverar como se fosse o mitológico Sísifo, cuja pena no Hades consistia em empurrar uma pesada rocha montanha acima e ao chegar ao cume, ver que a pedra rolava para seu ponto inicial, fazendo-o erguê-la novamente. Lendo a fábula de Pandora com a alma desarmada de clichês, nota-se a semelhança do Homem e Sísifo. Ambos fazem um inútil trabalho contínuo (ou uma vida de trabalho, cuja satisfação é sempre momentânea; e logo substituída por nova ambição) sem saber o motivo de tanta dor e sofrimento.

A representação teatral inicia com a chegada do “Poder”, da “Força”, de Hefestos e do prisioneiro Prometeu a um rochedo na distante e congelada Citia. Hefestos deixa escapar sua tristeza por ver um deus, um irmão seu naquela situação e logo é advertido pelo “Poder” para a necessidade de cumprir a ordem do Pai Zeus. Lembra-lhe que todos, inclusive os deuses estão presos às cordas do Destino e que tudo é inútil na tentativa de modificá-lo. Tudo é pré-determinado.

Note-se que essa negação do “Livre Arbítrio” e da meritocracia para alcançar “A Salvação” voltaria à cena milênios depois nas vozes de Religiosos Protestantes. Calvino e Lutero, dentre outros, pregavam a “Graça Divina”; ou seja, seriam “Salvos” aqueles que fossem escolhidos (sic) por Deus, independentemente dos seus atos.

Preso por grossas cadeias, Prometeu experimenta a solidão com a partida de seus carcereiros e dá inicio as suas lamúrias e queixumes (alguns estudiosos veem nessa cena o original da cena da Crucificação de Jesus. É certo que há alguma semelhança na essência, embora os detalhes mudem: um Ser Divino, protetor dos Homens, é castigado por tê-los favorecido.) até que ouve um barulho que lhe indica a chegada de alguém. São as Oceânidas que lhe trazem sua amizade e sua solidariedade. Prometeu, repete-lhes suas queixas e lhes ouve dizer que Zeus é um “Novo Rei” ainda em fase de consolidação do poder e inexperiente em seus mandos e desmandos.

Esse fato se repete a sorrelfa em várias oportunidades na História do Homem, principalmente quando as revoltas, justas ou injustas, chegam ao Poder e a agitação social, inclusive com violência, faz-se presente até que haja uma acomodação de todos os agentes deslocados por aquela convulsão.

Através do Coro, as Ninfas contestam Prometeu que julga ser motivo de escárnio doutros deuses. Ponderam que ninguém poderia ficar satisfeito com aquela situação. Nesse ponto, Prometeu cita pela primeira vez a hipótese de Zeus vir a ser derrubado por outro deus. Cita, então, um segredo (que se desposasse Tétis, o filho que gerassem o destronaria. Por isso, o Senhor dos Deuses fez com que ela se casasse com o mortal Peleu, a quem deu o filho chamado Aquiles, o maior guerreiro grego) que sabe e que interessa diretamente a Zeus, pois nele está o nome de quem o substituirá no trono. Prossegue afirmando que tal trunfo lhe é valioso e que por isso não será revelado mesmo que lhes sejam ditas doces palavras, ou lhes sejam aplicadas cruéis torturas.

Ante o medo que as Ninfas externam, dizendo que o coração de Zeus é tão duro quanto um diamante, Prometeu as consola retrucando que chegará o tempo que ele, o soberano Pai dos Deus, será curvado pelas circunstâncias e será obrigado a vir humildemente pedir-lhe socorro. Na seqüência, Prometeu responde ao Corifeu (representando a líder das Ninfas) contando o que fez para receber aquele castigo. Contou-lhe primeiro que foi decisivo como aliado de Zeus contra os titãs, pois usou além da força bruta a sutil inteligência; e se queixa da ingratidão de Zeus, nesse assunto.

Prosseguindo sua narrativa, contra-argumenta com o Coro, dizendo-lhe ser fácil criticar, mas de tudo que fez, de nada se arrepende, pois como tinha o dom da adivinhação sabia de antemão o que teria que enfrentar, embora não esperasse que em condições tão duras. E tudo por amor aos Homens...

Volta a questão do egocentrismo. Por amor ao Homem, ou por desejo de se opor a Zeus? Por ciúme do poder adquirido pelo irmão? A segunda opção tem mais probabilidade de ser a verdadeira.

Nesse momento chega o titã Oceano que presta juras de amizade, mas censura Prometeu por não ter se submetido ao poder de Zeus. Primeiro ele recebe as criticas com polidez, mas depois usa de sarcasmo e diz que os covardes, como Oceano, não devem dar motivos para censuras dos poderosos do momento e que, portanto, ele deve partir sem vagar. Assumindo sua paúra, Oceano parte célere, amedrontado de ter contrariado o novo Senhor.

Nesse trecho é oportuno observar uma característica bem humana: qualquer sentimento mais nobre, a amizade, por exemplo, não resiste a um eventual risco. Tanto há milênios, quanto nos dias atuais. Há, aqui, todo um desnudamento profundo do caráter humano. Chega-se ao mais intimo do Ser, graças à genialidade de Sófocles.

No outro extremo, o da nobreza dos sentimentos, as Oceânidas permanecem junto a Prometeu suavizando-lhe a solidão a que foi condenado.

Na seqüência o titã relata os benefícios que concedeu aos Homens, narrando desde os primórdios da Humanidade:

1. A arte de construir casas, livrando-o das cavernas, onde vivia então.

2. O uso do raciocínio e a partir daí o conhecimento astronômico básico.

3. As ciências matemáticas e a escrita.

4. A doma e o uso dos animais de carga

5. Os navios à vela.

E após essa enumeração, queixa-se por não saber como se livrar da terrível condição em que ele próprio agora está. O Corifeu o compara a um médico talentoso, mas que desconhece o remédio que o curaria de sua enfermidade. Prometeu enumera mais algumas dádivas que deu aos Homens:

1. Os remédios e as ervas medicinais. Os alimentos funcionais.

2. As artes divinatórias. Como interpretar as estranhas de um animal sacrificado, ou o vento dos pássaros etc.

3. A metalurgia.

O Corifeu lhe pede, então, que não mais exagere no amor aos mortais. E que, se um dia libertar-se dessas correntes, leve uma vida harmoniosa com os outros deuses, especialmente com Zeus.

Responde-lhe Prometeu que ainda não é hora para a reconciliação. O Destino já fixou essa hora, bem como as dores que ainda sofrerá. E essas determinações são inflexíveis. Não podem ser alteradas. E o Corifeu faz a pergunta esperada: e quem controla o Destino (ou a Deus)?

Responde-lhe o filho de Jápeto, que o Destino é controlado pelas três Parcas e pelas três Fúrias, que não esquecem jamais qualquer erro. Sendo o próprio Zeus sujeito a isso.

No hinduísmo há essa concepção de Deus. Acima da TRIMURTI (Vishnu, Brahma, Shiva) está o “Deus Maior”, chamado de BRAHMAN. No catolicismo, algumas correntes já admitem que exista um “Deus” acima do demiurgo que construiu o Universo.

Na seqüência, a questão do controle de Zeus (ou de Deus, na modernidade e na contemporaneidade) é retomada pelo Corifeu, mas Prometeu se recusa ao assunto, alegando que ainda não é o Tempo certo para a revelação de tal segredo.

O Corifeu continua questionando e pergunta a Prometeu o porquê de seu amor aos Homens? Que benefícios isso lhe traz? Mas antes que o titã responda, chega à cena a beleza jovem de ÍO que atormentada pelo moscardo (a mosca da madeira) enfeitiçado, corre por todas as direções enquanto pergunta às Oceânidas sobre o prisioneiro atado à rocha, em meio aos seus próprios queixumes.

Prometeu diz conhecê-la, bem como ao seu fardo. De amada de Zeus, passou a ser a perseguida pela ciumenta Hera. Retruca a jovem pedindo-lhe que revele as futuras torturas que ainda passará. Diz que lhe revelará o seu futuro, de forma clara e objetiva. Porém, antes que comece, o Corifeu pede a ÍO que ela própria conte seu males e ela, envergonhada, conta dos sonhos freqüentes que a induziram a receber Zeus em seu corpo; de como seu pai a expulsou de casa, pensando que desse modo agradava aos deuses. E como seu físico e sua mente foram modificados para que ela ficasse parecida com uma novilha; também fala como o moscardo começou a torturar-lhe diuturnamente, impedindo qualquer repouso ou refeição. E mais contaria, mas achou melhor voltar a pedir o vaticínio de Prometeu.

Prometeu inicia seu vaticínio indicando-lhe o caminho a seguir, no qual encontrará e deverá evitar vários povos hostis, exceto o das Amazonas que a tratarão como amiga e lhes darão um breve repouso na dura e longa caminhada, até sair da Europa e adentrar na Ásia. Prometeu compara seu sofrimento com o da jovem e não a persuade de desistir do suicídio. Apenas lamenta o fato de ser imortal, proibido do descanso que a morte promete. Diz-lhe que só terá paz com a queda de Zeus, perspectiva que também alegra ÍO, pois ela entende que foi ele o causador de seus males. O titã lhe conta, então, que Zeus caiará tombado por um filho de sua estirpe, mas não será o filho de ÍO, posto que ele só há de vir após terem se passado treze gerações. Também lhe diz do longo caminho que deverá percorrer em solo asiático e dos perigos que enfrentará até que no território do atual Egito ela funde uma Colônia.

O Corifeu volta a lhe perguntar: quem destronará Zeus? Em resposta o titã diz que na Colônia, ÍO recuperará a forma humana e a sua paz interior. Ali gerará um filho negro, EPAFO, que cultivará a região banhada pelo Nilo criando as bases de uma linhagem real. Dessa linhagem virá o seu libertador, mas não entra em detalhes alegando que seria necessário um longo tempo para chegar ao término da narrativa, o que seria improdutivo para a jovem.

O nobre descendente de ÍO, através da linhagem de Epafo, é Herácles (Hercules, em latim) que efetivamente libertou Prometeu.

Entrementes, novamente aguilhoada pelo moscardo, ÍO chora seus sofrimentos e em desabalada carreira sai de cena.

Note-se a importância dada nos textos antigos aos males causados pelos insetos. Na Bíblia judaico-cristã um dos terrores mais comuns é associado à picada dos escorpiões, ou à praga dos gafanhotos, de moscas etc. Se na atualidade tais ameaças deixaram de ser tão decisivas foi graças ao uso dos inseticidas, mas esses, por sua vez, afetam os ecossistemas. Esses dois aspectos dão força aos argumentos dos que chamam os insetos de piores inimigos da Humanidade. Tanto direta, quanto indiretamente.

Enquanto o Coro relata o erro de ÍO que, como muitos, casou-se deslumbrada pelo dinheiro e pelo poder de Zeus, Prometeu retoma seu discurso sobre a queda de Zeus e se gaba de ser o único que sabe do segredo de Zeus e como minorá-lo. As Oceânidas questionam-lhe se ele não estaria confundindo seus desejos com a real previsão do Futuro, hipótese que o titã rechaça e quando vai contra-argumentar, adentra à cena o deus Hermes, especialmente detestado por Prometeu que não lhe perdoa a servilidade, a covardia perante Zeus. Um Homem que se sujeita a ser um mero “menino de recados”.

Com esse ódio no peito, Prometeu o recebe com escárnio, acentuando sua covardia e sua servil condição de mensageiro. Hermes responde-lhe os insultos chamando-o de “Sofista”, ou seja, enganador, manipulador por meio de discurso vazio, mas convincente pela bela forma. Também lhe chama de “ladrão”, pelo “fogo” dado aos Homens. E entre ataques e contra-ataques, Hermes transmite-lhe a pergunta de Zeus sobre que casamento lhe arruinará? Ordena Zeus que Prometeu esclareça essa profecia, mas como seria de se esperar, o titã se nega a dizer quem o derrubará enquanto continua seu feroz ataque ao mensageiro, insultando-o pela sua mediocridade, sua baixa estima e sua ingenuidade de achar que tanto ele quanto Zeus, serão eternos nos postos que ora ocupam. Ele mesmo, diz Prometeu, já assistiu à queda de dois “Pais dos Deuses”. Primeiro Urano e depois Cronos, avô e pai de Zeus.

Furioso, antes de voltar ao Olimpo, Hermes ameaça Prometeu com novos castigos: o primeiro será o “cão alado” que estraçalhará seu corpo; o segundo será a “branca águia real” que comerá seu fígado diariamente, ou na medida em que ele se regenere. O Corifeu tenta intervir na briga pedindo que Prometeu abrande sua fúria e se submeta ao novo “Rei dos Deuses”. Mas é em vão tal apelo, pois o titã reafirma sua posição e diz nada temer dos novos castigos que Zeus lhe infligirá. É acompanhado nessa determinação pelas leais Oceânidas que se recusam a abandonar o filho de Jápeto. Com isso repelem o conselho de Hermes para se afastarem e não serem feridas pelos raios de Zeus.

E firmes em sua convicção e em seu propósito, Prometeu e as Ninfas são colhidos pela imensa tempestade que se abate sobre eles, cuja fúria pressupõe o extermínio de todos. É o fim da apresentação teatral.

O leitor ou espectador observa que nessa Tragédia o sentimento dominante é a ira e o desejo de vingança contra uma suposta ou real injustiça. Num primeiro momento exalta-se a justeza do caráter de Prometeu. Num segundo instante, essa admiração chega às Oceânidas, cuja lealdade é voluntária. E talvez mais digna de louvor justamente por isso e pelo fato de não terem a mesma imortalidade de Prometeu, tampouco sua proteção como ente divino.

Ao fechar o livro, ou ir para casa após o teatro, o conceito do espectador ou do leitor sobre a firmeza, vai sendo substituído pela dúvida sobre os reais motivos de Prometeu. O que ele fez foi mesmo por “amor aos Homens”? Ou terá sido apenas uma maneira de afrontar alguém (Zeus) que teria usurpado um trono que deveria ser seu? Foram os Homens apenas “massa de manobra”, tola e ingênua? É quase certo que a sua resposta será “Sim”. Pois olhando em retrospectiva, vê-se que o “fogo (a luz, a sabedoria)” dado pelo titã serviu para iluminar um Pensador como Platão; mas, com muito mais ocorrência, serviu para armar os Homens que se matam entre si, por conceitos absurdos. O que adiantou para a Humanidade a “civilização” que o deus lhe ofertou? Só a opressão de uns contra outros, sem que através dela se criasse efetivas melhorias para todos. Tudo que foi dado, e NÃO conquistado, veio com a maldição de todas as heranças: a criação de uma geração de incapazes, inescrupulosos, vadios e fúteis.

Todas essas questões perpassam os Juízos de todos que têm contato com a obra de Ésquilo, cada qual analisando de uma maneira própria. Mas é certo que todos - independentemente do juízo que faça das personagens - concordam que se saboreou um texto de beleza superlativa. Uma das grandezas de Ésquilo, cuja sutileza permite, a quem dele se aproxima, viajar pelos meandros das almas humanas e divinas.

Rio, 12/02/2011




Jardins

O verso caído
de um amor ressequido,
segue a folha de Outono
na trilha do abandono.

Uma lágrima caída
fertiliza a dor sofrida,
pois amores acabados
são jardins violados.

Suspira-se o fim dos delírios
a chegada de velhos martírios
e a falta do canteiro de lírios.

Agora,
após a nossa Aurora,
nuvens apagam o Sol
e só resta tua ausência no lençol.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Licores

Amores escondidos
Mostram-se atrevidos,
Nos caminhos percorridos
Pelos corpos proibidos.

Luzes e Sombras,
Flores e bombas,
Formam-lhe o cenário
De Paraíso e Calvário.

Amores indevidos,
(E por isso mais sentidos),
Desnudam a hipocrisia
Da moralista melancolia.

Amores proibidos
São sonhos vividos.
Licores escolhidos
na adega dos convertidos.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Viço

O branco perfume
da flor de laranjeira
espalha-se liberto
do vaso que o continha
e da rotina que o sustinha.

Flor recém chegada,
trazes consigo
o bálsamo amigo
para o sofrer antigo.

Alvo alívio,
a qual deusa agradeço
por haver em teu viço
todo esplendor
de uma vida nascida,
ante a morte morrida?

Flor sozinha
na curta sacada,
de teu parto
outros nascimentos chegaram,
como se outra Musa existisse
e novo poema surgisse.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Personalidade do Ano de 2010 - Produção Literária

Extremamente honrado pela láurea que me foi concedida, deixo um sincero agradecimento à Comendadora Isabelle Valladares, à Drª Dyandréia Valverde e aos Contrades e Confreiras de Academia de Artes de Cabo Frio - Rio de Janeiro

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Casa

Triste de ver,
a máquina do Homem
derrubar a velha casa
e soterrar as memórias
que lá viviam.

Ali, um choro.
Aqui, um riso;
no quarto, um desejo,
na mesa, um gosto
e no espelho,
o que foi um rosto.
Na sala, uma festa.
Na janela, uma fresta.
Na porta, um adeus,
uma partida à revelia;
uma dura agonia
e uma ou outra fantasia...

Telhas caídas
sobre vidas esquecidas.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Vento

Chuva fina
molhando o cinza
na janela.

Tarde de pré Outono,
indecisa entre um frio
sorrateiro
e um calor
passageiro.

Um ipê se atreve
a florir antes
do que deve.
São confusos os ares
que voam nos ventos.
Toda cor se recusa
à paleta do pintor
e brancos quadros
adornam paredes
que nada guardam.

Breve chegará o Minuano.
Sopro gelado
que arrepia tua pele nua.
Quem te fará amor?
Quem te trará a próxima dor?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Escarlate

Escuto as vozes
e os suspiros atrozes
da gente que procura
o que não perdura.

Cores escuras
tingem as molduras
dos soturnos retratos
que se postam como duros fatos.
Os sentimentos já não são fartos,
pois ficaram nos caminhos
que antes eram torvelinhos
de névoas escarlates,
mosaicos de todas as partes.

Épocas e tempos de antes,
de fugidos instantes
que se perderam nas brumas
e nas brancas espumas.

Restei apenas e só.
De posse nada tenho
e nem sei donde venho.
Mas sigo a estrada
até que a Parca irada
corte-me o pavio
dessa vida por um fio.

Nada me disse Delfos,
ou outro oráculo qualquer.
Sigo de encontro ao que vier,
esperando a paz de uma mulher

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Noite

Nada deveria ser dito
nessa madrugada.
Esse céu estrelado
exige reverência.

É preciso renegar a ciência,
a saudade não se mensura.
É chaga sem cura.

Que todos se calem
e só as Estrelas falem.
Ouçamos velhos amores em murmúrios
e as novas promessas em perjúrios.

É preciso vestir a fantasia
e sonhar antes do dia.
É preciso esquecer
que logo se volta a viver.