domingo, 28 de novembro de 2010

Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto VIII

Notas à Edição


1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios. Essa adaptação não é uma tradução, até porque o idioma é único. Destarte, o leitor notará que as estrofes adaptadas não brilham pela perfeição da métrica ou do sistema rimático. E se tal não se dá o motivo é simples: é impossível copiar a genialidade do bardo, sendo, pois, a proposta dessa obra a de ser mero instrumento para auxiliar a compreensão do Épico de Camões.

2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.

3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.

4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer à perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.

5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.

Dedicado aos Poetas Portugueses

Inês Dupas e Giraldoff

Canto VIII


Na primeira figura se detinha

O Catual que vira estar pintada,

Que por divisa um ramo na mão tinha,

A barba branca, longa e penteada.

Quem era e por que causa lhe convinha

A divisa que tem na mão tomada?

Paulo responde, cuja voz discreta

O Mauritano sábio lhe interpreta:



1o Na primeira figura o Catual se detinha,
Naquela bandeira onde estava pintada,
O retrato de Luso (1) que na mão tinha
Um verde ramo e longa barba bem penteada.
Quem seria e por que motivo lhe convinha
Ter na mão, aquela insígnia levantada?
Paulo da Gama lhe respondia, com voz discreta,
Que o sábio Monçaide interpreta:

1- Luso ou Lisa: companheiro ou servo de Baco, lendário fundador de Portugal.



- «Estas figuras todas que aparecem,

Bravos em vista e feros nos aspeitos,

Mais bravos e mais feros se conhecem,

Pela fama, nas obras e nos feitos.

Antigos são, mas inda resplandecem

Co nome, entre os engenhos mais perfeitos.

Este que vês, é Luso, donde a Fama

O nosso Reino «Lusitânia» chama.



2o Todas estas figuras que nas bandeiras aparecem,

Sobejamente corajosos e com ferozes aspectos,

Mais bravos e mais ferozes se parecem,

Quando deles se conhece a fama, as obras e os feitos.

São antigos, mas ainda resplandecem,

Com os seus renomes, entre os heróis mais perfeitos.

Este que agora vês é chamado de Luso, de cuja fama,

O nosso reino herdou o nome de Lusitana.



«Foi filho e companheiro do Tebano

Que tão diversas partes conquistou;

Parece vindo ter ao ninho Hispano

Seguindo as armas, que contino usou.

Do Douro, Guadiana o campo ufano,

Já dito EIísio, tanto o contentou

Que ali quis dar aos já cansados ossos

Eterna sepultura, e nome aos nossos.



3o Luso foi filho ou companheiro do Tebano (1)

Que muitas terras e muita fama conquistou;

Dizem que veio para o reino Hispano

Seguindo os combates, nos quais, sempre lutou.

O rios Douro e Guadiana e o campo lusitano,

Antes chamados de Elíseos (2), tanto o agradou,

Que ali ele quis dar os seus já cansados ossos

À sepultura, dando seu nome aos patrícios nossos.



1- Tebano: adjetivo de Baco, por ser cultuado em Tebas.

2- O Campo Elíseos era o Céu, lugar onde repousavam os heróis e os virtuosos. Camões o situa na península Ibérica, talvez pela aproximação fonética com Luso, ou, Lisa.



«O ramo que lhe vês, pera divisa,

O verde tirso foi, de Baco usado;

O qual à nossa idade amostra e avisa

Que foi seu companheiro e filho amado.

Vês outro, que do Tejo a terra pisa,

Despois de ter tão longo mar arado,

Onde muros perpétuos edifica,

E templo a Palas, que em memória fica?



4o O verde ramo em sua mão, como bandeira viva,

Representa o verde bastão que por Baco foi usado;

Com isto mostra para nossa geração e nos avisa,

Que de Baco foi companheiro ou o seu filho amado.

Consegue ver este outro (1) que a terra do Tejo pisa,

Depois de ter por um longo mar navegado?

Podes ver as altas e sólidas muralhas que ele edifica

E o belo templo a Palas (2) que na historia fica?



1-Referência a Ulisses, que segundo a tradição teria fundado Lisboa.

2- Palas: um dos nomes de Minerva, a deusa da sabedoria e da eloqüência.





«Ulisses é, o que faz a santa casa

À Deusa que lhe dá língua facunda;

Que se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,

Cá na Europa Lisboa ingente funda.»

- «Quem será estoutro cá, que o campo arrasa

De mortos, com presença furibunda?

Grandes batalhas tem desbaratadas,

Que as Águias nas bandeiras tem pintadas!»



5o Ulisses é quem fez a Santa Casa

Em honra da deusa que lhe deu a eloqüência fecunda;

Ele, que se na guerra de Tróia aos inimigos arrasa,

Na Europa, a enorme cidade de Lisboa funda.

- E este outro quem será que o campo abrasa,

Com mortos e com a sua presença furibunda?

Vejo que batalhas ele venceu e deixou derrotadas

Várias nações, como mostram as águias pintadas.



Assi o Gentio diz. Responde o Gama:

- «Este que vês, pastor já foi de gado;

Viriato sabemos que se chama,

Destro na lança mais que no cajado;

Injuriada tem de Roma a fama,

Vencedor invencíbil, afamado.

Não tem com ele, não, nem ter puderam,

O primor que com Pirro já tiveram.



6o Assim diz o Ministro e lhe responde o Gama:

Esse que tu vês já foi um pastor de gado;

Sabemos que Viriato (1) é como se chama

E foi mais hábil com a lança que com o cajado (2).

Por ter enfrentado a poderosa Roma fez a fama

De ser invencível, pois nunca foi derrotado.

Roma não teve contra ele, pois não puderam,

O mesmo requinte que contra Pirro (3) tiveram.



1- Viriato: pastor dos montes Hermínio, em Portugal, que durante quatorze anos desafiou o poderio de Roma na Península Ibérica.

2- Cajado: referência ao bastão utilizado no pastoreio de gado.

3- Pirro: rei do Epiro, no século III AC, que foi inimigo de Roma. Seu médico ofereceu-se para envenená-lo, mas a oferta foi recusada pelos romanos que tiveram o ‘requinte’ de derrotá-lo pessoalmente.





«Com força, não; com manha vergonhosa

A vida lhe tiraram, que os espanta;

Que o grande aperto, em gente inda que honrosa,

As vezes leis magnânimas quebranta.

Outro está aqui que, contra a pátria irosa,

Degradado, connosco se alevanta;

Escolheu bem com quem se alevantasse

Pera que eternamente se ilustrasse.



7o Pela força não puderam, só com ardil vergonhoso,

Tiraram a vida (1) daquele que tanto os espanta;

Sendo grande a ganância, até o luso honroso

Às vezes, a lei da ética e da honra quebranta.

Outro (2) que aqui está contra a sua pátria raivosa,

Que o exilou, junto conosco se levanta.

E escolheu bem com quem se levantasse

Para que a sua fama eternamente brilhasse.



1- Viriato: nascido na região da Estremadura, possivelmente na Serra da Estrela próximo ao litoral, conseguiu opor uma grande resistência a Roma até que em 140 A.C. derrotou o novo cônsul Fabio Maximo Servillano, matando mais de três mil romanos. Porém deixou que o cônsul escapasse acreditand nas falsas promessas de que os lusitanos conservariam o território conquistado. Em Roma esse tratado foi desdenhado e o Senado voltou atrás e lhe declarou outra guerra. Viriato, então, estava com o exército destroçado e foi compelido a pedir a paz e para tanto, enviou como emissários Audax, Ditalkon e Minuros, que tinha como os seus melhores amigos. Contudo, os três foram subornados por Servilho e o assassinaram enquanto ele dormia na sua tenda.

2- Referência a Sertório. Veja notas na estrófe oito.



Vês, connosco também vence as bandeiras

Dessas aves de Júpiter validas;

Que já naquele tempo as mais guerreiras

Gentes de nós souberam ser vencidas.

Olha tão sutis artes e maneiras

Pera adquirir os povos, tão fingidas:

A fatídica cerva que o avisa.

Ele é Sertório, e ela a sua divisa.



8o Veja que junto das nossas, há nas bandeiras,

Várias vitórias de outras nações aguerridas.

Pois já naquela época as mais guerreiras

Pátrias, por nós, foram derrotadas e rendidas.

Repare no quanto eram sutis a sua arte e as maneiras

Que usava para tomar outras terras, tão fingidas:

Observe a fatídica cerva (1) que sempre lhe avisa.

Ele é Sertório (1) e a cerva é a sua divisa.



1- Cerva: a deusa Diana, que se metamorfoseava em vários animais.

2- Sertório: general romano que, depois da morte de Mário (de quem era partidário) organizou na Península Ibérica um movimento contra Roma, mas acabou sendo assassinado por Perpena em 73 a. C.



«OIha estoutra bandeira, e vê pintado

O grão progenitor dos Reis primeiros:

Nós Húngaro o fazemos, porém nado

Crêm ser em Lotaríngia os estrangeiros.

Despois de ter, cos Mouros, superado

Galegos e Lioneses cavaleiros,

À Casa Santa passa o santo Henrique,

Por que o tronco dos Reis se santifique.»



9o Olhe esta outra bandeira e veja pintado,

O grande pai dos nossos reis primeiros.

Nós o chamamos de Húngaro (1), porém, teria nascido

Na Lotaríngia (2), como acreditam os estrangeiros.

Ele, depois de aos Mouros ter derrotado,

E aos Galegos e aos Leoneses, bravos cavaleiros,

Subiu para o Céu tornando-se o santificado Henrique,

Para que a sua dinastia de valorosos reis se santifique.



1- Húngaro: referência a Dom Henrique, pai de Dom Afonso Henriques. Foi o fundador histórico da Dinastia e do Estado de Portugal.

2- Lotaríngia: antigo nome da Lorena, atualmente na província francesa de Mosela.



- «Quem é, me dize, estoutro que me espanta

(Pergunta o Malabar maravilhado),

Que tantos esquadrões, que gente tanta,

Com tão pouca, tem roto e destroçado?

Tantos muros aspérrimos quebranta,

Tantas batalhas dá, nunca cansado,

Tantas coroas tem, por tantas partes,

A seus pés derribadas, e estandartes?»



10o Me diga quem é esse outro, que me espanta,

(Pergunta o Malabar maravilhado),

Que a tantos esquadrões e a gente tanta,

Com poucos recursos, deixa roto e destroçado?

Tantas muralhas poderosas ele quebranta,

A tantas batalhas enfrenta nunca fatigado.

E que tantas nações, em tantas partes,

Derruba aos seus pés, com seus estandartes.



- «Este é o primeiro Afonso (disse o Gama),

Que todo Portugal aos Mouros toma;

Por quem no Estígio lago jura a Fama

De mais não celebrar nenhum de Roma.

Este é aquele zeloso a quem Deus ama,

Com cujo braço o Mouro imigo doma,

Pera quem de seu Reino abaxa os muros,

Nada deixando já pera os futuros.



11o Este é Afonso I, disse o Gama,

Que todo Portugal, dos mouros, retoma;

Por ele, lá no Estigio (1), a deusa Fama (2)

Jura não mais celebrar aos de Roma.

Ele é o fiel zeloso que Deus tanto ama,

E que ao inimigo mouro doma

E o expulsa para fora dos muros,

Tudo facilitando para os reis futuros.



1- Estigio: lago ou rio do Inferno.

2- Fama: divindade que Ovídio descreve como habitante nos confins da Terra, do Céu e do Mar, num palácio com mil janelas, onde penetram todos os rumores, mesmo os mais baixos. Deste palácio, todo em bronze, saiem amplificadas todas as palavras que nele entraram. Há, ainda, outra versão em que ela seria a Mensageira de Zeus.



«Se César, se Alexandre Rei, tiveram

Tão pequeno poder, tão pouca gente,

Contra tantos imigos quantos eram

Os que desbaratava este excelente,

Não creias que seus nomes se estenderam

Com glórias imortais tão largamente;

Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,

Vê que os de seus vassalos são notáveis.



12o César ou Alexandre nunca tiveram

Tão poucos recursos, tão pouca gente,

Contra tantos inimigos como eram

Os que ele derrotou, de modo tão valente.

Veja quão injusto, suas famas se estenderam,

Como “glórias imortais” tão largamente;

Mas deixe as suas proezas inexplicáveis

E veja que seus vassalos também são notáveis.



1) César: imperador romano.

2) Alexandre: Alexandre Magno,rei da Macedônia, conquistador da Índia e da Pérsia.



«Este que vês olhar, com gesto irado,

Pera o rompido aluno mal sofrido,

Dizendo-lhe que o exército espalhado

Recolha, e torne ao campo defendido;

Torna o Moço, do velho acompanhado,

Que vencedor o torna de vencido:

Egas Moniz se chama o forte velho,

Pera leais vassalos claro espelho.



13o Veja este, que olha com o rosto irado,

Para o Príncipe (1), inexperiente e pouco sofrido,

Dizendo-lhe que re-agrupe o exército espalhado

E que retorne para o campo defendido;

O jovem retorna, pelo velho acompanhado,

Que o faz vencedor, ainda que pareça vencido:

Egas Moniz (2) é como se chama este forte velho,

Exemplo de lealdade e para os outros um espelho.



1- Referência a Dom Afonso Henriques, o “jovem Príncipe”.

2- Egas Moniz: veja notas nas estrofes 36 e 38 do 3o Canto.



«Vê-lo cá vai cos filhos a entregar-se,

A corda ao colo, nu de seda e pano,

Porque não quis o Moço sujeitar-se,

Como ele prometera, ao Castelhano.

Fez com siso e promessas levantar-se

O cerco, que já estava soberano.

Os filhos e mulher obriga à pena:

Pera que o senhor salve, a si condena.



14o Veja ali, que com seus filhos vai entregar-se,

Já com a corda no pescoço, nu de enfeite ou pano,

Porque o jovem Dom Afonso não quis sujeitar-se,

Como ele havia prometido, ao rei Castelhano (1).

Com a sua credibilidade fez com que se adiasse

O ataque espanhol que já era soberano,

Agora, os filhos, a mulher e a si oferece-se à pena,

Para que o Rei se salve, a si e aos seus, se condena.



1-Rei Castelhano: Dom Afonso VII, rei de Castela, região da Espanha.



«Não fez o Cônsul tanto que cercado

Foi nas Forcas Caudinas, de ignorante,

Quando a passar por baxo foi forçado

Do Samnítico jugo triunfante.

Este, pelo seu povo injuriado,

A si se entrega só, firme e constante;

Estoutro a si e os filhos naturais

E a consorte sem culpa, que dói mais.



15o Não foi tão heróico aquele Cônsul que cercado

Nas “Forcas Caudinas” (1) por ser ignorante

Dos perigos do desfiladeiro; e que se viu forçado

A passar pelo domínio Samnitico (2) triunfante.

O cônsul, para salvar o seu povo derrotado,

Rendeu-se só, com bravura constante;

Porém, Egas (3) entregou a si, os filhos naturais

E a amada esposa, o que dói mais.





1-Forcas Caudinas: símbolo da humilhação. Desfiladeiro junto a Caudio, onde dois cônsules romanos, vencido pelos Samnitas, foram obrigados a passar sob jugo.

2-Samnitico: relativo aos Samnitas, povo inimigo de Roma.

3-Egas: Ver notas na estrofe 12 do Canto I



«Vês este que, saindo da cilada,

Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?

Já o Rei tem preso e a vila descercada;

Ilustre feito, dino de Mavorte!

Vê-lo cá vai pintado nesta armada,

No mar também aos Mouros dando a morte,

Tomando-lhe as galés, levando a glória

Da primeira marítima vitória:



16o Tu vês este outro, que escapando da cilada,

Avança sobre o rei inimigo que cerca a vila forte?

Veja que logo prende o inimigo e deixa a vila libertada;

Um feito tão ilustre que é digno do deus Mavorte (1).

Veja-o pintado naquela poderosa armada,

Quando, também no mar, aos mouros dava a morte,

Tomando-lhes as embarcações e ficando com a glória

Daquela que foi, no mar, a nossa primeira vitória.



1- Mavorte: outro nome do deus Marte, da guerra.



É Dom Fuas Roupinho, que na terra

E no mar resplandece juntamente,

Co fogo que acendeu junto da serra

De Ábila, nas galés da Maura gente.

Olha como, em tão justa e santa guerra,

De acabar pelejando está contente.

Das mãos dos Mouros entra a felice alma,

Triunfando, nos Céus, com justa palma.



17o É Dom Fuás Roupinho (1), que tanto na terra,

Quanto no mar resplandece simultaneamente;

Tanto com as vitórias que conquistou na serra

De Abila (2), como sobre as naus da Moura gente.

Veja como, em tão justa e santa guerra,

Sempre lutando, ele morre contente.

Assassinado pelos mouros, a sua feliz alma

Entra no Céu, levando da vitória a justa palma.



1- Dom Fuás Roupinho que venceu, entre outras, os mouros em Porto de Mós e foi morto numa batalha naval quando regressava de Ceuta.

2- Abila: ou ABMA, região próxima a Ceuta.



«Não vês um ajuntamento, de estrangeiro

Trajo, sair da grande armada nova,

Que ajuda a combater o Rei primeiro

Lisboa, de si dando santa prova?

Olha Heurique, famoso cavaleiro,

A palma que lhe nasce junto à cova.

Por eles mostra Deus milagre visto;

Germanos são os Mártires de Cristo.



18o E ali, tu vês um grupo com estrangeiro

Uniforme saindo da armada grande e nova

E que vem ajudar a vencer ao rei forasteiro (1),

E na retomada de Lisboa mostra valor, na santa prova?

Olhe o alemão chamado Henrique (2), famoso cavaleiro,

E olhe para a palma que nasce junto da sua cova.

Através dele, Deus mostra um milagre pouco visto

Revelando que os alemães são mártires de Cristo.



1- Rei forasteiro: o rei mouro.

2- Henrique de Bonn: cruzado alemão que morreu no cerco a Lisboa. Conta a tradição que junto do seu tumulo nasceu espontâneamente uma palma milagrosa.



«Um Sacerdote vê, brandindo a espada

Contra Arronches, que toma, por vingança.

De Leiria, que de antes foi tomada

Por quem por Mafamede enresta a lança:

É Teotónio Prior. Mas vê cercada

Santarém, e verás a segurança

Da figura nos muros que, primeira

Subindo, ergueu das Quinas a bandeira.



19o Agora veja aquele sacerdote manejando a espada

Em Arronches, a qual retoma por vingança

Da conquista de Leiria, que antes fora dominada

Pelos mouros, que por Mafamede (1) arremessam a lança:

Chamava-seTeotônio Prior (2). Mas veja que está cercada,

A cidade de Santarém e veja também a segurança

Daquela outra pessoa, que nos muros, foi a primeira

A subir e hastear as Quinas (3) da lusa bandeira.



1- Mafamede: Maomé.

2- Teotônio: Prior de Santa Cruz de Coimbra, que auxiliou Dom Afonso Henrique combatendo os mouros de armas na mão.

3- Quinas: referência aos cinco escudos que figuram no brasão de Portugal.



Vê-lo cá, donde Sancho desbarata

Os Mouros de Vandália em fera guerra;

Os imigos rompendo, o alferes mata

E Hispálico pendão derriba em terra:

Mem Moniz é, que em si o valor retrata

Que o sepulcro do pai cos ossos corra.

Dino destas bandeiras, pois sem falta

A contrária derriba e a sua exalta.



20o Veja-o ali, onde Sancho (1) desbarata,

Os bárbaros da Vandália (2) em feroz guerra;

Irrompendo o alferes (3) fere e mata,

E a bandeira espanhola derruba por terra.

Chama-se Mem Moniz (4) e fielmente retrata;

O valor pai, cujos ossos um túmulo encerra.

É digno desta bandeira, pois sem falta

Derruba a bandeira inimiga e à sua exalta.



1- Sancho: Dom Sancho I, segundo rei e filho de Dom Afonso Henriques.

2- Vandália: a região da Andaluzia, na Espanha, assim chamada por ter sido, por muito tempo, dominada pelos Vândalos, povos bárbaros do norte da Europa.

3- Alferes: equivalente a tenente.

4- Mem Moniz: filho de Egas Moniz (veja notas nas estrofes 36 e 38 do 3o Canto) foi um dos cavaleiros de mais valor na tomada de Santarém.



«Olha aquele que dece pela lança,

Com as duas cabeças dos vigias,

Ande a cilada esconde, com que alcança

A cidade, por manhas e ousadias.

Ela por armas toma a semelhança

Do cavaleiro que as cabeças frias

Na mão levava (feito nunca feito!):

Giraldo Sem Pavor é o forte peito.



21o Olha aquele outro, que decepa com a lança

As cabeças dos dois inimigos vigias,

Com elas forja a cilada com que alcança

Adentrar na cidade com artimanha e ousadias.

Com as armas ele a conquista, a semelhança

Do que já fizera com as cabeças degoladas e frias

Que na mão levava (um ato nunca feito!).

Geraldo Sem Pavor (1) o guerreiro desse feito.



1- Geraldo sem Pavor, herói português na luta contra os mouros. Segundo a tradição, em 1.166, sozinho tomou a cidade de Elvas.



«Não vês um Castelhano, que, agravado

De Afonso nono, Rei, pelo ódio antigo

Dos de Lara, cos Mouros é deitado,

De Portugal fazendo-se inimigo?

Abrantes vila toma, acompanhado

Dos duros Infiéis que traz consigo;

Mas vê que um Português com pouca gente

O desbarata e o prende ousadamente.



22o E ali, não vês um castelhano que incitado

Pelo rei Afonso IX (1) e pelo ódio antigo

Dos da casa de Lara (2), que com os mouros foi jogado

Para fora de Portugal, tornando-se um inimigo?

E nesta condição ele conquista Abrantes, acompanhado

Pelos terríveis mouros que traz consigo.

Mas veja que um português, com pouca gente,

Derrota-o e o prende corajosamente.



1- Afonso IX: rei de Castela, na Espanha.

2- Lara: nobre clã espanhol ao qual pertencia D.Mafalda, mulher de Dom Afonso Henriques. Durante as lutas contra os Mouros, essa dinastia aliou-se aos maometanos e, como eles, acabou sendo expulsa de Portugal, daí a razão de se tornarem inimigos.



. «Martim Lopes se chama o cavaleiro

que destes levar pode a palma e o louro.

Mas olha um Eclesiástico guerreiro,

Que em lança de aço torna o bago de ouro.

Vê-lo, entre os duvidosos, tão inteiro

Em não negar batalha ao bravo Mouro;

Olha o sinal no Céu, que lhe aparece,

Com que nos poucos seus o esforço crece



23o Martins Lopes é o nome deste cavaleiro,

Que dentre tantos pode levar a coroa de louro.

Mas veja, agora, aquele eclesiástico guerreiro,

Que em lança de aço transforma o terço de ouro.

Veja-o, entre os indecisos, seguindo altaneiro,

Para enfrentar as batalhas contra o feroz mouro?

Repare no sinal do Céu que lhe aparece

Com o qual, o ânimo dos soldados se fortalece.



1- Martim Lopes: herói português que venceu e aprisionou Dom Pedro Fernando de Castro que se aliara aos mouros para combater os portugueses.



. «Vês, vão os Reis de Córdova e Sevilha

Rotos, cos outros dous, e não de espaço;

Rotos? Mas antes mortos: maravilha

Feita de Deus, que não de humano braço.

Vês? Já a vila de Alcácere se humilha,

Sem lhe valer defesa ou muro de aço,

A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,

Que a coroa de palma ali coroa.



24o Note ali, os reis de Córdova (1) e o de Sevilha (2)

Esfarrapados, junto com outros dois, num curto espaço.

Esfarrapados? Não, melhor dizer, mortos! Uma maravilha

Feita por Deus e não pelo humano braço.

Vês? Logo a vila de Alcácere se humilha,

Sem que lhe valer as defesas ou o muro de aço,

Para Dom Mateus (3), o bispo de Lisboa,

Que com a palma da vitória a coroa.



1- Córdova: cidade espanhola e antiga capital da dinastia árabe dos Omíadas.

2- Sevilha: cidade espanhola na Andaluzia.

3-Dom Mateus: o bispo de Lisboa que combateu os mouros chamava-se Dom Sueiro Viegas e não Dom Mateus, como cita Camões.



«Olha um Mestre que dece de Castela,

Português de nação, como conquista

A terra dos Algarves, e já nela

Não acha que por armas lhe resista.

Com manha, esforço e com benigna estrela,

Vilas, castelos, toma à escala vista.

Vês Tavila tomada aos moradores,

Em vingança dos sete caçadores?



25o Repare num Mestre que desce de Castela,

Português de nascimento, que conquista

A terra do Algarves (1) e nela

Não deixa restar quem lhe resista.

Com artimanha, esforço e boa estrela,

Toma os castelos e todas as vilas que avista.

Vês Tavila (1), que foi tomada de seus moradores,

Como vingança pela morte dos sete caçadores?



1- Algarves: a região litorânea ao sul de Portugal.

2- Tavila: Tavira, cidade portuguesa situada no Algarves. O episódio citado por Camões é obscuro, mas se presume que sete caçadores portugueses foram selvagemente executados pelos moradores do Algarves, no que resultou a vingaça citada.



«Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha

Silves, que ele ganhou com força ingente:

É Dom Paio Correia, cuja manha

E grande esforço faz enveja à gente.

Mas não passes os três que em França e Espanha

Se fazem conhecer perpètuamente

Em desafios, justas e tornéus,

Nelas deixando públicos troféus.



26o Veja que com astúcia, dos mouros ele ganha

Silves (1), que fora tomada com força surpreendente.

Este é Dom Paio Correia (2), cuja artimanha

E grande talento, causa inveja a muita gente.

E não pule os três, que na França e na Espanha,

Fizeram-se conhecidos eternamente,

Nos desafios, nos duelos e nos torneios,

Onde sempre conquistaram os maiores prêmios.



1- Silves: cidade portuguesa.

2- Dom Paio Correa: cavaleiro português que em 1.242 tomou as cidades de Tavira e Silves, dos mouros.



«Vê-los co nome vêm de aventureiros

A Castela, onde o preço sós levaram

Dos jogos de Belona verdadeiros,

Que com dano de alguns se exercitaram.

Vê mortos os soberbos cavaleiros

Que o principal dos três desafiaram,

Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,

Que pode não temer a lei Leteia.



27o Veja que com o adjetivo de aventureiros

Eles chegaram a Castela, para onde só levaram

Seu valor nas guerras de Belona (1), nos verdadeiros

Combates, em que causaram danos e se exercitaram.

Veja que estão mortos os arrogantes cavaleiros

Castelhanos, que ao luso principal desafiaram.

De Gonçalo Ribeiro se nomeia,

Aquele que já não precisa temer a lei Letéia (2).



1- Belona: a deusa da guerra.

2- A lei Letéia: referência ao lendário rio Letes, cuja água causava o esquecimento. Isto é: ele já não precisaria temer o esquecimento que a morte ocasiona em virtude da fama que conquistou.



«Atenta num que a fama tanto estende

Que de nenhum passado se contenta;

Que a Pátria, que de um fraco fio pende,

Sobre seus duros ombros a sustenta.

Não no vês tinto de ira, que reprende

A vil desconfiança, inerte e lenta,

Do povo, e faz que tome o doce freio

De Rei seu natural, e não de alheio?



28o Repare nesse, cuja fama a tanto se estende

Que com nenhum herói do passado se aparenta;

Pois quando a Pátria em fino fio pende

São seus valorosos ombros o que a sustenta.

Vês, vermelho de ira, quando repreende

A vil indecisão do povo, inerte e lenta,

E quando faz aquela gente aceitar o justo freio

De seu próprio rei, mas não o do rei alheio?



«Olha: por seu conselho e ousadia,

De Deus guiada só e de santa estrela,

Só, pode o que impossíbil parecia:

Vencer o povo ingente de Castela.

Vês, por indústria, esforço e valentia,

Outro estrago e vitória, clara e bela,

Na gente, assi feroz como infinita,

Que entre o Tarteso e Guadiana habita?



29o Veja que através do seu incentivo e ousadia,

Guiado por Deus e pela santa estrela,

Ele, sozinho, conseguiu o que impossível parecia:

Pois venceu o imenso exército de Castela.

Podes ver, que com criatividade, determinação e valentia,

Provocou grandes estragos e teve a vitória final, clara e bela,

Sobre aquela gente feroz e infinita,

Que entre o Tarteso (1) e o Guadiana (2) habita?



1- Tarteso: rio espanhol, atualmente chamado de Guadalquibir.

2- Guadiana: rio espanhol e português que em certos trechos delimita a fronteira entre os dois paises. A “gente feroz” seriam os espanhóis.



«Mas não vês quási já desbaratado

O poder Lusitano, pela ausência

Do Capitão devoto, que, apartado,

Orando invoca a suma e trina Essência?

Vê-lo com pressa já dos seus achado,

Que lhe dizem que falta resistência

Contra poder tamanho, e que viesse

Por que consigo esforço aos fracos desse.



30o E ali, tu vês que já está quase acabado

O valoroso ânimo lusitano, pela ausência

Do grande Comandante, das lutas estava afastado

Para orar à Trindade (1), que de tudo é a essência.

Mas veja com que pressa ele é chamado,

E como lhe dizem que falta forte resistência

Contra o duro inimigo e que logo ele viesse

Para que motivação e força, aos fracos, desse.

1-Trindade – a Sagrada Trindade dos Cristãos, ou seja, o “Pai, o Filho e o Espirito Santo”.



«Mas olha com que santa confiança,

Que «inda não era tempo» respondia,

Como quem tinha em Deus a segurança

Da vitória que logo lhe daria.

Assi Pompílio, ouvindo que a possança

Dos imigos a terra lhe corria,

A quem lhe a dura nova estava dando,

«Pois eu (responde) estou sacrificando.»



31o Mas veja, também, com que crédula confiança,

Ele respondia que ainda não era a hora e o dia,

Como acontece com quem em Deus tem a segurança

Da vitória que em breve Ele lhe daria.

Igual fez Pompílio (1), quando ouviu sobre a pujança

Dos inimigos que a sua terra percorria,

E que respondeu àquele que a má noticia estava lhe dando,

- Verei isto depois, pois agora, aos deuses, estou sacrificando.



1) Pompílio: segundo rei de Roma, que enfrentando um duro inimigo, para certificar-se da proteção dos deuses, ofereceu- lhes primeiro um sacrifício, atrasando, com isso, a batalha.



«Se quem com tanto esforço em Deus se atreve

Ouvir quiseres como se nomeia,

«Português Cipião» chamar-se deve;

Mas mais de «Dom Nuno Álvares» se arreia.

Ditosa pátria que tal filho teve!

Mas antes, pai! que, enquanto o Sol rodeia

Este globo de Ceres e Neptuno,

Sempre suspirará por tal aluno.



32o Se dele, que confiante em Deus a tanto se atreve

Tu quiseres saber como se nomeia

Digo que lhe chamar de “Cipião (1) português” se deve,

Dom Nuno Álvares (2) a chama que tudo incendeia.

Feliz foi Portugal que tal filho teve

Ou melhor, tal Pai teve, pois enquanto o sol rodeia

Por este mundo de Ceres (3) e de Netuno (4)

Sempre se suspirará por tal aluno (5).



1- Cipião: referência a Públio Cornélio Cipião, general romano que venceu o cartaginês Aníbal.

2- Dom Nuno Álvares: condestável de Portugal. Nascido em1360 e falecido em 1431, foi um grande herói português nas batalhas contra Castela.

3- Ceres: deusa da agricultura.

4- Netuno: deus do mar.

5- Aluno: no português arcaico tem o significado de natural, nascido, filho etc.



«Na mesma guerra vê que presas ganha

Estoutro Capitão de pouca gente;

Comendadores vence e o gado apanha

Que levavam roubado ousadamente;

Outra vez vê que a lança em sangue banha

Destes, só por livrar, co amor ardente,

O preso amigo, preso por leal:

Pero Rodrigues é do Landroal.



33o Vê que nesta mesma guerra, uma rica presa foi ganha

Por outro comandante, também com pouquíssima gente;

Até aos Comendadores ele vence e o gado apanha

Que eles haviam roubado desavergonhadamente.

Veja-o de novo, quando sua lança ele banha

No sangue dos inimigos, libertando com ardente

Fraternidade o amigo que fora preso por ser leal;

O seu nome é Pero Rodrigues, do Landroal (1).



1- Pero Rodrigues: cavaleiro português, Alcaíde de Alandroal, no Alentejo. Partidário do mestre de Aviz foi quem libertou o seu amigo, Álvaro Gonçalves Coitado, preso pelos lusos que eram partidários de Castela.



«Olha este desleal e como paga

O perjúrio que fez e vil engano;

Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga

E faz vir a passar o último dano:

De Xerez rouba o campo e quási alaga

Co sangue de seus donos Castelhano.

Mas olha Rui Pereira, que co rosto

Faz escudo às galés, diante posto.



34o Note o quanto este desleal (1) sofre e paga

Pelo perjúrio que fez e pelo vil engano;

Gil Fernandes (2), de Elvas (3) é quem o estraga

E o faz sofrer o extremo e último dano:

De Xeres (4) conquista o campo e quase o alaga

Com o sangue do seu dono castelhano.

Veja Rui Pereira (4) que com o próprio rosto

Faz-se de escudo ante a Armada, valente e disposto.



1- Referência a Paio Rodrigues Marinho, alcaide de Campo Maior, que se aliou aos castelhanos, aprisionou Dom Gil Fernandes e só o soltou mediante o pagamento em dinheiro. Posteriormente, Gil Fernandes o derrota. Paio Rodrigues acaba sendo morto por um escudeiro.

2- Gil Fernandes: cavaleiro português, de Elvas, partidário do mestre de Aviz.

3- Elvas: cidade portuguesa, situada no Alentejo.

4- Xeres: cidade espanhola na região da Estremadura.

5- Rui Pereira: cavaleiro português que em 1.383 atacou os navios castelhanos na entrada do rio Tejo para proteger a esquadra portuguesa e morreu nesse combate.



«Olha que dezessete Lusitanos,

Neste outeiro subidos, se defendem

Fortes, de quatrocentos Castelhanos,

Que em derredor, pelos tomar, se estendem;

Porém logo sentiram, com seus danos,

Que não só se defendem, mas ofendem.

Dino feito de ser, no mundo, eterno,

Grande no tempo antigo e no moderno!



35o Veja aqui, que apenas dezessete lusitanos,

Subidos neste monte se defendem

De quatrocentos castelhanos,

Que os cercando se estendem;

Mas logo os lusos sentiram, que seus danos

Não só os defendem, mas ferem e ofendem.

Feito tão grandioso que é digno de ser eterno,

Pois é valoroso no tempo antigo e no moderno.



«Sabe-se antigamente que trezentos

Já contra mil Romanos pelejaram,

No tempo que os viris atrevimentos

De Viriato tanto se ilustraram,

E deles alcançando vencimentos

Memoráveis, de herança nos deixaram

Que os muitos, por ser poucos, não temamos;

Que despois mil vezes amostramos.



36o Sabe-se que na antiguidade trezentos

Corajosos lusos contra mil romanos lutaram,

Na época dos ousados e duros enfrentamentos

Que ao pastor e herói Viriato (1) tanto afamaram,

Na época dos grandes triunfos e merecimentos

Os quais, como herança, eles nos deixaram.

Esta coragem é que faz que a inimigos não temamos;

Como, em mil situações já demonstramos.



1- Viriato: pastor e depois chefe militar que impôs severas derrotas à Roma.



«Olha cá dons Infantes, Pedro e Henrique,

Progénie generosa de Joane;

Aquele faz que fama ilustre fique

Dele em Germânia, com que a morte engane;

Este, que ela nos mares o pubrique

Por seu descobridor, e desengane

De Ceita a Maura túmida vaidade,

Primeiro entrando as portas da cidade.



37o Veja os dois Infantes, Pedro (1) e Henrique (2),

Valorosa descendência do nobre Joane (3);

Pedro fez com que a sua ilustre fama fique

Para sempre na Alemanha; e que engane

Até a morte; Henrique fez com se publique

Seu nome pelo mar que abriu; e que se desengane,

Em Ceita (4), a moura e inchada vaidade,

Pois ele que arrombou as portas da cidade.



1- Pedro: o infante Dom Pedro, filho de Dom João I, que viveu muitos anos longe de Portugal, principalmente na Alemanha.

2- Henrique: o infante Dom Henrique, filho de Dom João I, foi o grande incentivador das navegações. Foi também o conquistador de Ceuta.

3- Joane: Dom João I.

4- Ceita: ou Ceuta, cidade marroquina que pertenceu aos portugueses.



«Vês o Conde Dom Pedro, que sustenta

Dous cercos contra toda a Barbaria.

Vês, outro Conde está, que representa

Em terra Marte, em forças e ousadia;

De poder defender se não contenta

Alcácere, da ingente companhia;

Mas do seu Rei defende a cara vida,

Pondo por muro a sua, ali perdida.



38o Podes ver o Conde Dom Pedro (1) que sustenta

Dois cercos contra toda a Barbaria (2)?

E este outro conde, que representa

O próprio Marte na Terra, em força e em valentia.

Repare que ele não se contenta

Em defender Alcácere (3), da vil companhia;

E defende o seu Rei com a sua valorosa vida,

A qual, nos combates, tristemente foi perdida.



1- Dom Pedro de Meneses, governador de Ceuta.

2- Barbaria: região da África do norte.

3 - Alcácere: cidade marroquina, tomada dos mouros em outubro de 1458, por D.Afonso V.



«Outros muitos verias, que os pintores

Aqui também por certo pintariam;

Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores:

Honra, prémio, favor, que as artes criam.

Culpa dos viciosos sucessores,

Que degeneram, certo, e se desviam

Do lustre e do valor dos seus passados,

Em gostos e vaidades atolados.



39o Muitos outros verias, que os pintores,

Certamente, aqui também pintariam;

Mas lhes faltam pincel e vivas cores:

E as honras que as artes propiciam (1).

Culpa dos viciados sucessores,

Que diminuem e se desviam,

Do brilho dos seus antepassados,

Em fúteis vaidades, sempre atolados.



1-novamente Camões tece criticas à falta de uma Política de valorização das Artes em Portugal.



«Aqueles pais ilustres que já deram

Princípio à geração que deles pende,

Pela virtude muito antão fizeram

E por deixar a casa que descende.

Cegos, que, dos trabalhos que tiveram,

Se alta fama e rumor deles se estende,

Escuros deixam sempre seus menores,

Com lhe deixar descansos corrutores!



40o Aqueles antecessores ilustres que deram

O inicio à geração que deles pende,

Pelas suas virtudes muito já fizeram

Ao deixar-lhes a casa da qual se descende.

Mas os cegos filhos não veem as lutas tiveram,

E se a fama deles em muito se estende,

Os herdeiros não as tornam maiores,

E até maculam as memórias, com atos piores.



«Outros também há grandes e abastados,

Sem nenhum tronco ilustre donde venham:

Culpa de Reis, que às vezes a privados

Dão mais que a mil que esforço e saber tenham.

Estes os seus não querem ver pintados,

Crendo que cores vãs lhe não convenham,

E, como a seu contrairo natural,

A pintura que fala querem mal.



41o Também existem outros, grandes e abastados,

Sem que de nenhuma família nobre provenham.

Culpa dos reis, que às vezes, a alguns afiliados

Favorecem mais que aos que saber e talento tenham.

Os descendentes destes não os querem retratados

Pois acham que tais frivolidades não lhes convenham,

E como se lhes fosse um inimigo natural,

À pintura narrativa querem muito mal.



«Não nego que há, contudo, descendentes

Do generoso tronco e casa rica,

Que, com costumes altos e excelentes,

Sustentam a nobreza que lhe fica;

E se a luz dos antigos seus parentes

Neles mais o valor não clarifica,

Não falta, ao menos, nem se faz escura;

Mas destes acha poucos a pintura.»



42o Contudo, não nego que há descendentes,

De nobres dinastias e de casa rica,

Que com hábitos superiores e excelentes,

Sustentam a nobreza que lhes fica;

Alguns, se o brilho dos seus ilustres parentes

Não reproduzem e nem outro valor se lhes verifica,

Pelo menos não tornam as suas estirpes obscuras.

Mas destes, encontram-se poucas pinturas.







Assi está declarando os grandes feitos

O Gama, que ali mostra a vária tinta

Que a douta mão tão claros, tão perfeitos.

Do singular artífice ali pinta.

Os olhos tinha prontos e direitos

O Catual na história bem distinta;

Mil vezes perguntava e mil ouvia

As gostosas batalhas que ali via.



43o Assim ia relatando os grandes feitos

Paulo da Gama, como mostrava a variada tinta,

Nos belos quadros, claros e perfeitos,

Que a hábil mão do artista pinta.

Com os olhos atentos e direitos

O Catual ouvia e via a história bem distinta;

Perguntava mil coisas e mil respostas ele ouvia

Sobre as vitoriosas batalhas que ali se via.



Mas já a luz se mostrava duvidosa,

Porque a alâmpada grande se escondia

Debaxo do Horizonte e, luminosa,

Levava aos Antípodas o dia,

Quando o Gentio e a gente generosa

Dos Naires da nau forte se partia,

A buscar o repouso que descansa

Os lassos animais, na noite mansa.



44o Mas a luz do dia já se mostrava duvidosa,

Porque a grande lâmpada (1) já se escondia

Debaixo do horizonte e sempre luminosa,

Levava ao outro lado do Mundo o claro dia.

Foi quando o pagão e a companhia numerosa

Dos Naires, da forte Armada (2) partia,

Em busca do repouso que descansa

Os fatigados corpos, na noite mansa.



1- Grande lâmpada: o Sol.

2- Armada: o conjunto de naus, ou navios.



Entretanto, os arúspices famosos

Na falsa opinião, que em sacrifícios

Antevêm sempre os casos duvidosos

Por sinais diabólicos e indícios,

Mandados do Rei próprio, estudiosos,

Exercitavam a arte e seus ofícios,

Sobre esta vinda desta gente estranha,

Que às suas terras vem da ignota Espanha.



45o Enquanto isso os Arúspices (1), famosos

Pelas falsas adivinhações, e que com sacrifícios

Dizem prever os casos duvidosos

Através de sinais diabólicos e outros indícios,

Mandados pelo próprio rei, rápidos e prestimosos

Exercitavam a sua arte e o seu oficio,

Tentando decifrar aquela gente estranha,

Que chegara da desconhecida Espanha (2).



1- Arúspices: sacerdotes que consultavam as vísceras dos mortos para fazerem suas previsões.

2- Espanha: neste contexto, leia-se a Península Ibérica.



Sinal lhe mostra o Demo, verdadeiro,

De como a nova gente lhe seria

Jugo perpétuo, eterno cativeiro,

Destruição de gente e de valia.

Vai-se espantado o atónito agoureiro

Dizer ao Rei (segundo o que entendia)

Os sinais temerosos que alcançara

Nas entranhas das vítimas que oulhara.



Creu que o Demônio lhe deu um sinal verdadeiro

De que aquela gente que chegara, seria

Um jugo perpétuo e um eterno cativeiro,

A destruição de todos e de tudo que lhes valia.

Alarmado e rapidamente o feiticeiro

Vai dizer ao rei (conforme o que entendia),

Sobre os sinistros sinais que alcançara

Quando as vísceras de suas vitimas consultara.



A isto mais se ajunta que um devoto

Sacerdote da lei de Mafamede,

Dos ódios concebidos não remoto

Contra a divina Fé, que tudo excede,

Em forma do Profeta falso e noto

Que do filho da escrava Agar procede,

Baco odioso em sonhos lhe aparece,

Que de seus ódios inda se não dece.



47o À má visão juntou-se o acontecido a um devoto

Sacerdote da religião de Mafamede (1),

Cujo ódio aos Cristãos é sabido e não remoto

E que a qualquer outro ódio excede;

Na figura do Profeta Maomé, falso e maroto,

Que do filho da escrava Agar (2) procede,

O odioso Baco em sonhos lhe aparece,

Pois o ódio daquele deus não arrefece.



1- Mafamede: Maomé.

2- Maomé descenderia de Ismael, filho de Abrão com a sua escrava Agar. Atente-se para os duros e ofensivos termos que Camões empregou, o quê na sua época era aceitável, mas que hoje é considerado um insulto.



E diz-lhe assi: - «Guardai-vos, gente minha,

Do mal que se aparelha pelo imigo

Que pelas águas húmidas caminha,

Antes que esteis mais perto do perigo!»

Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,

Espantado do sonho; mas consigo

Cuida que não é mais que sonho usado;

Torna a dormir, quieto e sossegado.



48o E diz-lhe assim: - se acautelem gente minha,

Do mal que lhes é preparado pelo inimigo

Que pelas úmidas vias caminha,

Antes que estejam mais próximos do perigo.

Isto dito, o mouro acorda, pois o terror se avizinha,

Espantado com o sonho: porém, consigo

Mesmo pensa que é apenas um sonho inapropriado.

E volta a dormir calmo e sossegado.





Torna Baco dizendo: - «Não conheces

O grão legislador que a teus passados

Tem mostrado o preceito a que obedeces,

Sem o qual fôreis muitos baptizados?

Eu por ti, rudo, velo, e tu adormeces?

Pois saberás que aqueles que chegados

De novo são, serão mui grande dano

Da Lei que eu dei ao néscio povo humano.

49o Mas Baco insiste dizendo: - não reconheces

O grande legislador que aos teus antepassados

Mostrou os regulamentos a que tu obedeces,

Salvando-se de noutras crenças ser batizado?

Eu cuido e velo por ti e tu só adormeces?

Pois saiba que aqueles que são chegados

Há pouco tempo, farão um grande dano

Na religião que dei ao ignorante humano.



«Enquanto é fraca a força desta gente,

ordena como em tudo se resista;

Porque, quando o Sol sai, fàcilmente

Se pode nele pôr a aguda vista;

Porém, despois que sobe claro e ardente.

Se agudeza dos olhos o conquista,

Tão cega fica, quanto ficareis

Se raízes criar lhe não tolheis.»



50o Enquanto é fraca a força desta gente,

Ordena que de toda forma se lhes resista,

Pois é igual quando o sol nasce e facilmente

Pode-se vê-lo sem danos para a vista;

Mas quando ele sobe e já está ardente,

Se alguém mirá-lo, ó que triste conquista,

Cego ficará como vós outros ficarão,

Se não cortarem já a causa da destruição.



Isto dito, ele e o sono se despede

Tremendo fica o atónito Agareno;

Salta da cama, lume aos servos pede,

Lavrando nele o férvido veneno.

Tanto que a nova luz que ao Sol precede

Mostrara rosto angélico e sereno,

Convoca os principais da torpe seita,

Aos quais do que sonhou dá conta estreita.



51o Após Baco ter dito isto, se despede

Do sono o trêmulo e perplexo Agareno (1);

Salta da cama e uma lamparina aos servos pede,

Pois nele, já operava o tórrido veneno.

Assim, tão logo surge a luz que ao sol antecede,

Com o seu tom angelical e sereno,

Ele convoca os principais lideres da suja Seita (2),

Aos quais relata seu sonho, de forma curta e estreita.



1- Agareno: os mouros de descendiam da escrava Agar.

2- Seita: o maometismo. Note-se que novamente usa de termos duros para qualificar o Islã.



Diversos pareceres e contrários

Ali se dão, segundo o que entendiam;

Astutas traições, enganos vários,

Perfídias, inventavam e teciam;

Mas, deixando conselhos temerários,

Destruição da gente pretendiam,

Por manhas mais sutis e ardis milhores,

Com peitas adquirindo os regedores.



52o Diversos pareceres contrários

Aconteciam, conforme o que entendiam;

Astutas traições, estratagemas vários,

Era o que inventavam e teciam;

Mas, descartando os atos temerários,

A destruição dos lusos que pretendiam

Teria que ter armadilhas e traidores,

E para tanto subornariam os Regedores (1).



1- Regedores: no contexto, as Autoridades laicas, não religiosas.



Com peitas, ouro e dádivas secretas

Conciliam da terra os principais;

E com razões notáveis e discretas

Mostram ser perdição dos naturais,

Dizendo que são gentes inquietas,

Que, os mares discorrendo Ocidentais,

Vivem só de piráticas rapinas,

Sem Rei, sem leis humanas ou divinas.



53o Suborno em ouro e dádivas secretas

Corrompem aos lideres mais ativos;

E com belas argumentações, ainda que discretas,

Convencem-lhes que os lusos destruirão os nativos

Da Índia; pois são gentes inquietas,

Que nos mares ocidentais, sempre nocivos,

Vivem de piratarias e de outras rapinas,

Sem governo e sem leis humanas e divinas.



Oh, quanto deve o Rei que bem governa

De olhar que os conselheiros ou privados

De consciência e de virtude interna

E de sincero amor sejam dotados!

Porque, como estê posto na superna

Cadeira, pode mal dos apartados

Negócios ter notícia mais inteira

Do que lhe der a língua conselheira.



54o Oh! Como é preciso que o rei que bem governa

Escolha seus Conselheiros com cuidado,

E ouça apenas aos que de consciência, virtude interna

E de muita sinceridade seja dotado!

Porque senão será como este, que na cadeira suprema,

Em relação aos assuntos dos quais está mais afastado,

Nunca tem uma narrativa real e verdadeira,

Pois escuta apenas a má língua conselheira.



Obs. Alguns estudiosos acreditam que nesta estrofe e nas seguintes, Camões faz uma critica velada aos Conselheiros do Rei de Portugal.



Nem tão-pouco direi que tome tanto

Em grosso a consciência limpa e certa,

Que se enleve num pobre e humilde manto,

Onde ambição acaso ande encoberta. .

E, quando um bom em tudo é justo e santo,

E em negócios do mundo pouco acerta;

Que mal co eles poderá ter conta

A quieta inocência, em só Deus pronta.



55o Também é importante que o Rei não tenha tanto

Apego a uma pessoa que lhe pareça limpa e certa,

E que nem se encante pela aparência de um pobre manto,

Pois nele, é possível, que a ganância ande encoberta

E mesmo aquele que é, realmente, bom e santo,

Em negócios do mundo pouco acerta;

Pois neles o mal pode ter uma ponta,

Pois a bondade suprema, só em Deus está pronta.



Mas aqueles avaros Catuais

Que o Gentílico povo governavam,

Induzidos das gentes infernais,

O Português despacho dilatavam.

Mas o Gama, que não pretende mais,

De tudo quanto os Mouros ordenavam,

Que levar a seu Rei um sinal certo

Do mundo que deixava descoberto,



56o Mas aqueles sórdidos Catuais,

Que aos pagãos governavam,

Foram induzidos pelos mouros infernais,

E o acordo com os lusos sempre adiavam.

Mas o Gama queria obter o acordo e nada mais,

E atendia a tudo que os mouros lhe ordenavam,

Para levar ao seu rei um sinal certo,

Daquele mundo que havia descoberto,



Nisto trabalha só; que bem sabia

Que despois, que levasse esta certeza,

Armas e naus e gentes mandaria

Manuel, que exercita a suma alteza,

Com que a seu jugo e Lei someteria

Das terras e do mar a redondeza;

Que ele não era mais que um diligente

Descobridor das terras do Oriente.



57o Apenas nisto se ocupava; pois sabia

Que depois que levasse essa certeza,

Armas, navios e tropas o rei Manuel mandaria.

Ele, que está no comando da suprema alteza,

E que ao seu domínio e sua religião submeteria

Aquela terra, aquele mar e toda a redondeza;

Pois ele, Vasco da Gama, era apenas um diligente,

Descobridor das terras do Oriente.



Falar ao Rei gentio determina,

Por que com seu despacho se tornasse,

Que já sentia em tudo da malina

Gente impedir-se quanto desejasse.

O Rei, que da notícia falsa e indina

São era de espantar se s'espantasse,

Que tão crédulo era em seus agouros,

E mais sendo afirmados pelos Mouros,



58o Decide falar com o rei pagão de forma benigna

E findar a espera; e, de posse do acordo, pudesse

Retornar, pois já pressentia a influência maligna

Dos mouros, que impediam o rei, de o acordo assinar.

O rei, que já tinha ouvido a versão falsa e indigna,

Ficou espantado e temeroso, como era de se esperar,

Pois acreditava firmemente nos sortilégios e nos agouros,

E, principalmente neste, que era confirmado pelos mouros.



Este temor lhe esfria o baixo peito.

Por outra parte, a força da cobiça,

A quem por natureza está sujeito,

Um desejo imortal lhe acende e atiça:

Que bem vê que grandíssimo proveito

Fará, se, com verdade e com justiça,

O contrato fizer, por longos anos,

Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.



59o Este temor lhe congela o sórdido peito,

Mas por outro lado a força da cobiça,

A que naturalmente estava sujeito,

Acende-lhe o desejo e a ganância lhe atiça,

Ao imaginar o grande proveito

Que terá se com lealdade e justiça

Fizer o contrato, por longos anos,

Que lhe oferecia o rei dos lusitanos.



Sobre isto, nos conselhos que tomava,

Achava mui contrários pareceres;

Que naqueles com quem se aconselhava

Executa o dinheiro seus poderes.

O grande Capitão chamar mandava,

A quem chegado disse:- «Se quiseres

Confessar-me a verdade limpa e nua,

Perdão alcançarás da culpa tua.



60o Sobre os lusos, nos conselhos que tomava,

Encontrava vários e diferentes pareceres;

Pois naqueles com quem se aconselhava

A força do dinheiro já exercia os seus poderes.

Por fim, chamar ao Capitão mandava,

A quem, logo que chegou, disse: - se quiseres

Confessar-me à verdade limpa e nua,

Eu o perdoarei da culpa sua.



«Eu sou bem informado que a embaxada

Que de teu Rei me deste, que é fingida;

Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada,

Mas vagabundo vás passando a vida.

Que quem da Hespéria última alongada,

Rei ou senhor de insânia desmedida,

Há-de vir cometer, com naus e frotas,

Tão incertas viagens e remotas?



61o Estou bem informado que a embaixada

Que tu, em nome do teu rei, me deste é fingida;

Porque tu não tens nem rei, nem pátria amada,

E que é um vagabundo, que vai levando a vida.

Pois quem da Hespéria tão distanciada,

Seja rei ou nobre, teria a loucura desvairada,

De enfrentar com naus e frotas,

Tão difícieis e incertas rotas?



«E se de grandes Reinos poderosos

O teu Rei tem a Régia majestade,

Que presentes me trazes valerosos,

Sinais de tua incógnita verdade?

Com peças e dões altos, sumptuosos,

Se lia dos Reis altos a amizade;

Que sinal nem penhor não é bastante

As palavras dum vago navegante.



62o E, se de reinos tão poderosos

O seu rei tem, de fato, a régia majestade,

O que me trazes de presentes valiosos

Que comprovariam tua duvidosa verdade?

Com peças e com presentes suntuosos,

É que os reis se aliam e selam a amizade;

Pois um mero sinal ou penhor não é o bastante

Para que eu creia num simples navegante.



«Se porventura vindes desterrados,

Como já foram homens d'alta sorte,

Em meu Reino sereis agasalhados,

Que toda a terra é pátria pera o forte;

Ou se piratas sois, ao mar usados

Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,

Que, por se sustentar, em toda idade

Tudo faz a vital necessidade.»



63o Se aqui chegaram como exilados,

Como tantos outros, de igual sorte,

No meu reino serão hospedados,

Pois esta terra é pátria para quem é forte;

Ou se são piratas, aos mares acostumados,

Diga-me sem temer castigos ou a morte,

Que lhes acolheremos até a avançada idade,

E lhe supriremos em toda necessidade.



Isto assi dito, o Gama, que já tinha

Suspeitas das insídias que ordenava

O Mahomético ódio, donde vinha

Aquilo que tão mal o Rei cuidava,

Cüa alta confiança, que convinha,

Com que seguro crédito alcançava,

Que Vénus Acidália lhe influía,

Pais palavras do sábio peito abria:



64o Isto sendo dito, o Gama que já tinha

Suspeitas das intrigas que insuflava

O ódio Mahomético (1), soube donde provinha,

Aquelas infâmias que o rei falava.

Com a segurança que no momento convinha,

Logo a confiança do rei ele reconquistava,

Pois a Vênus Acidália (1) nisso influía

Dando-lhe sábias palavras, que todo coração abria.



1-Mahomético: o ódio dos maometanos.

2- Vênus Acidália: a deusa Vênus, assim chamada em função duma fonte na Beócia, onde suas filhas, as Graças, brincavam.



- «Se os antigos delitos que a malícia

Humana cometeu na prisca idade

Não causaram que o vaso da nequícia,

Açoute tão cruel da Cristandade,

Viera pôr perpétua inimicícia

Na geração de Adão, co a falsidade,

Ó poderoso Rei, da torpe seita,

Não conceberas tu tão má suspeita.





65o - Se os antigos pecados que a malicia

Do Homem cometeu no inicio da humanidade

Não tivessem originado tanta maldade

Inexistiria esse castigo para a Cristandade;

Pois colocando uma eterna e dura inimizade

Entre os filhos de Adão, os sujeitou a tanta falsidade

Que até tu, Ó rei poderoso, crê na suja Seita (1),

E acreditas nas intrigas que levam à suspeita.



1-Novamente Camões usa termos ofensivos para se referir aos muçulmanos.



«Mas, porque nenhum grande bem se alcança

Sem grandes opressões, e em todo o feito

Segue o temor os passos da esperança,

Que em suor vive sempre de seu peito,

Me mostras tu tão pouca confiança

Desta minha verdade, sem respeito

Das razões em contrário que acharias

Se não cresses a quem não crer devias.



66o Mas porque nada se alcança,

Sem grandes dificuldades e em todo feito,

O medo segue junto com a esperança,

Estremecendo até ao mais forte peito,

Entendo o porquê da tua desconfiança

Sobre minha versão; ouves opiniões de respeito

E argumentos contrários, mas tu acharias

A verdade se não confiasse em quem não devias.



«Porque, se eu de rapinas só vivesse,

Undívago ou da pátria desterrado,

Como crês que tão longe me viesse

Buscar assento incógnito e apartado?

Por que esperanças, ou por que interesse

Viria exprimentando o mar irado,

Os Antárticos frios e os ardores

Que sofrem do Carneiro os moradores?



67o Porque, veja, se eu só de pilhagens vivesse,

Se fosse vagabundo, ou de minha pátria exilado,

Como pôde acreditar que a tão longe eu viesse,

Em busca de um abrigo incerto e distanciado?

Por qual esperança ou por qual interesse,

Eu teria enfrentado o mar sempre tão irado,

O congelado e sombrio Ártico e o imenso calor

Que fere quem na zona do Carneiro (1) é morador.



1- Carneiro: constelação do hemisfério boreal e um dos doze signos zodiacais. Camões refere-se aos habitantes da zona Equatorial, pois a constelação corta a linha do Equador num certo ponto.



«Se com grandes presentes d'alta estima

O crédito me pedes do que digo,

Eu não vim mais que a achar o estranho clima

Onde a Natura pôs teu Reino antigo;

Mas, se a Fortuna tanto me sublima,

Que eu torne à minha pátria e Reino amigo,

Então verás o dom soberbo e rico

Com que minha tornada certifico.



68o Quanto ao presente de grande valorização,

Que tu me pedes como prova do que eu digo,

Não o trago porque só vim procurar a região,

Onde a natureza colocou o teu reino antigo;

Mas, se o Destino me permitir voltar ao meu torrão,

E se dele o teu reino for sincero amigo,

Terás, então, o presente soberbo e rico,

Com o qual, de minha sinceridade eu te certifico.



«Se te parece inopinado feito

Que Rei da última Hespéria a ti me mande,

O coração sublime, o régio peito,

Nenhum caso possíbil tem por grande.

Bem parece que o nobre e grão conceito

Do Lusitano espírito demande

Maior crédito e fé de mais alteza,

Que creia dele tanta fortaleza



69o Se a ti parece um extraordinário feito

Que o rei da Hespéria ao teu reino me mande,

Saiba que para ele, de sublime coração e forte peito,

Nenhuma dificuldade é intransponível ou grande.

Porém, parece-me que o nobre e grande conceito

Da coragem e do valor dos lusitanos demande

De maior visibilidade e de mais certeza,

Para que todos saibam de nossa fortaleza.





«Sabe que há muitos anos que os antigos

Reis nossos firmemente propuseram

De vencer os trabalhos e perigos

Que sempre às grandes cousas se opuseram;

E, descobrindo os mares inimigos

Do quieto descanso, pretenderam

De saber que fim tinham e onde estavam

As derradeiras praias que lavavam.



70o Saiba que há muitos anos os nossos antigos

Reis, sólida e firmemente se propuseram

A vencer as grandes dificuldades e os perigos

Que sempre às grandes conquistas se opuseram;

E foram desbravar os mares; pois sendo inimigos

Da futilidade não se acomodaram e pretenderam

Saber onde os mares acabavam e onde estavam

As últimas praias que eles lavavam.





«Conceito dino foi do ramo claro

Do venturoso Rei que arou primeiro

O mar, por ir deitar do ninho caro

O morador de Abila derradeiro;

Este, por sua indústria e engenho raro,

Num madeiro ajuntando outro madeiro,

Descobrir pôde a parte que faz clara

De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.



71o Desfruta de muita fama a dinastia aclarada,

Do corajoso rei que singrou pela primeira

Vez o mar feroz para expulsar da terra amada

O mouro de Abila (1), cuja tropa era a derradeira;

Ele, com criatividade e de hábil maneira,

Numa madeira juntou outra madeira,

E assim pôde descobrir a região que fica clara,

Com o brilho de Argos, Hidra, Lebre e Ara (2).



1-Abila: a região no norte da África.

2- Argos, Hidra e Ara: constelações do hemisfério sul. Lebre: pequena constelação vizinha da Ursa Maior.



«Crescendo cos sucessos bons primeiros

No peito as ousadias, descobriram,

Pouco e pouco, caminhos estrangeiros,

Que, uns sucedendo aos outros, prosseguiram.

De África os moradores derradeiros

Austrais, que nunca as Sete Flamas viram,

Foram vistos de nós, atrás deixando

Quantos estão os Trópicos queimando.



72o Crescendo, com os bons resultados pioneiros,

A ousadia nos corações, eles descobriram

Pouco a pouco, os caminhos estrangeiros,

E uns após outros, com as descobertas prosseguiram.

Na África, descobriram até o reino derradeiro

E as regiões do sul, que nunca as Sete Flamas (1) viram,

Por nós, agora, foram vistas, quando para trás foi ficando,

A região dos Trópicos aonde o Sol a tudo vai queimando.



1- As “Sete Flamas”, ou as “sete chamas” é uma referência à bandeira portuguesa.



«Assi, com firme peito e com tamanho

Propósito vencemos a Fortuna,

Até que nós no teu terreno estranho

Viemos pôr a última coluna.

Rompendo a força do líquido estanho,

Da tempestade horrífica e importuna,

A ti chegámos, de quem só queremos

Sinal que ao nosso Rei de ti levemos.



73o Assim, com o coração determinado e com tamanho

Arrojo, nós vencemos a má sorte,

Até que chegamos ao teu país estranho (1),

Aonde vim colocar o nosso último suporte.

Atravessando a força do liquido estanho,

Que caía junto com a tempestade horrível e forte,

A ti chegamos e de vós só queremos,

Um sinal do teu Reino, para que ao nosso rei levemos.



1-Estranho: nesse contexto, sinônimo de estrangeiro.



«Esta é a verdade, Rei; que não faria

Por tão incerto bem, tão fraco prémio,

Qual, não sendo isto assi, esperar podia,

Tão longo, tão fingido e vão proémio;

Mas antes descansar me deixaria

No nunca descansado e fero grémio

Da madre Tétis, qual pirata inico,

Dos trabalhos alheios feito rico.



74o Essa é a pura verdade, ó rei; pois eu não faria,

Por tão incerto Bem e tão medíocre prêmio;

O qual, mesmo que não fosse, assim eu acharia,

Tão longo, tão falso e tão inútil proêmio (1);

Ao contrário, descansando eu ficaria,

No sempre agitado e feroz reino

De Téthis (2), igual a um pirata iníquo,

Que com o trabalho alheio fica rico.



1) Proêmio: prefácio, introdução. Nesse contexto, discurso.

2) Téthis: a deusa do mar.



«Assi que, ó Rei, se minha grão verdade

Tens por qual é, sincera e não dobrada,

Ajunta-me ao despacho brevidade,

Não me impidas o gosto da tornada;

E, se inda te parece falsidade,

Cuida bem na razão que está provada,

Que com claro juízo pode ver-se,

Que fácil é a verdade d'entender-se.»



75o Assim sendo, ó rei, se na minha verdade

Tu acreditas, pois ela é sincera e não corrompida,

Dê-me o acordo com a maior brevidade,

Para que eu não adie mais a minha partida;

Mas, se ainda achas que aquilo que digo é falsidade,

Reflita e veja que a minha boa intenção está provada,

Pois com o raciocínio claro pode-se ver

Que a verdade é muito fácil de entender.



A tento estava o Rei na segurança

Com que provava o Gama o que dizia;

Concebe dele certa confiança,

Crédito firme, em quanto proferia;

Pondera das palavras a abastança,

Julga na autoridade grão valia,

Começa de julgar por enganados

Os Catuais corrutos, mal julgados.



76o O rei estava atento na segurança

Com que o Gama provava tudo o que dizia,

Via que dele exalava muita confiança,

Enquanto seu argumento proferia;

Então pondera sobre a abastança,

Que o comércio a todos traria,

E já começa a julgar que estavam errados

Os Catuais, corrompidos e mal informados.



Juntamente, a cobiça do proveito

Que espera do contrato Lusitano

O faz obedecer e ter respeito.

Co Capitão, e não co Mauro engano.

Enfim ao Gama manda que direito

As naus se vá e, seguro dalgum dano,

Possa a terra mandar qualquer fazenda

Que pela especiaria troque e venda.



77o E foi justamente a cobiça pelo proveito,

Que teria no contrato com o rei lusitano,

Que o faz atender e ter mais respeito

Ao Capitão, desconsiderando o mouro engano.

Por fim, ordena ao Gama, de ilustre peito,

Que para as naus e que seguro contra dano,

Mande para a terra a sua riqueza,

E a troque pela especiaria que deseja.



Que mande da fazenda, enfim, lhe manda

Que nos Reinos Gangéticos faleça,

S'algüa traz idónea lá da banda

Donde a terra se acaba e o mar começa.

Já da real presença veneranda

Se parte o Capitão, pera onde peça

Ao Catual que dele tinha cargo,

Embarcação, que a sua está de largo.



78o Que mande algo de valor e que se queira.

Alguns produtos de que o seu reino careça,

Desde que tivesse trazido algo útil, lá da beira

De onde a terra acaba e o mar começa.

Dada a ordem pela real presença veneranda,

O Capitão parte e dirige-se para onde peça

Ao Catual que dele tinha o encargo,

Um bote para ir à Armada, que estava ao largo.

Embarcação que o leve às naus lhe pede,

Mas o mau Regedor, que novos laços

Lhe maquinava, nada lhe concede,

Interpondo tardanças e embaraços.

Co ele parte ao cais, por que o arrede

Longe quanto puder dos régios paços,

Onde, sem que seu Rei tenha notícia

Faça o que lhe ensinar sua malícia.



79o Vasco pede o bote que a nau o leve,

Mas o sujo ministro, armadilhas e laços

Preparava-lhe e nenhum bote lhe cede,

Fingindo dificuldades e embaraços.

Finge que vai para o cais, como se deve,

Mas o que quer é ir para longe dos Paços

Reais, aonde, sem que o rei tenha noticia,

Ele execute a sua suja malicia.



Lá bem longe lhe diz que lhe daria

Embarcação bastante em que partisse,

Ou que pera a luz crástina do dia

Futuro, sua partida diferisse.

Já com tantas tardanças entendia

O Gama que o Gentio consentisse

Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,

O que dele até'li não entendera.



80o Diz ao capitão que noutro cais lhe daria

Embarcações suficientes para que partisse;

Ou dizia que se deveria esperar até o dia

Seguinte, que a ida adiasse, que esperasse.

Mas pelos empecilhos, o Capitão já entendia

Que aquele pérfido pagão compactuasse

Com a má intenção dos mouros, sórdida e rasteira,

A qual, completamente, ele ainda não entendera.





Era este Catual um dos que estavam

Corrutos pela Maumetana gente,

O principal por quem se governavam

As cidades do Samorim potente.

Dele sòmente os Mouros esperavam

Efeito a seus enganos torpemente;

Ele, que no concerto vil conspira,

De suas esperanças não delira.



81o Este Catual era um dos que estavam

Corrompidos pela maometana gente.

Era o principal, dentre os que governavam,

As cidades do rei Samorim potente.

Apenas dele, os mouros esperavam

As ciladas armadas maldosamente.

Ele, que no vil estratagema conspira,

Um grande suborno aspira.



O Gama com instância lhe requer

Que o mande pôr nas naus, e não lhe val;

E que assi lho mandara, lhe refere,

O nobre sucessor de Perimal.

Por que razão lhe impede e lhe difere

A fazenda trazer de Portugal?

Pois aquilo que os Reis já têm mandado

Não pode ser por outrem derrogado.



82o Com insistência o Gama lhe pedia

Os botes, mas nada adiantava e tal

Era sua maldade que ao Rei não obedecia,

Desdenhando do nobre sucessor de Perimal.

Vasco lhe perguntava por que impedia

Que aportasse as riquezas de Portugal?

Pois aquilo que por um rei é ordenado

Não pode ser contrariado.



Pouco obedece o Catual corruto

A tais palavras; antes, revolvendo

Na fantasia algum sutil e astuto

Engano diabólico e estupendo,

Ou como banhar possa o ferro bruto

No sangue avorrecido, estava vendo,

Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,

Por que nenhüa à pátria mais tornasse.



83o Pouca atenção o Catual corrupto

Dá a estas palavras; pois vai revolvendo,

Na imaginação, algum sutil e astuto

Estratagema diabólico e horrendo.

Como poderia banhar seu punhal bruto,

No sangue que lhe enojava e perto estava vendo,

Ou como fazer para que às naus incendiasse,

E nenhuma delas à pátria retornasse.



Que nenhum torne à pátria só pretende

O conselho infernal dos Maumetanos,

Por que não saiba nunca onde se estende

A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.

Não parte o Gama, enfim, que lho defende

O Regedor dos Bárbaros profanos;

Nem sem licença sua ir-se podia,

Que as almadias todas lhe tolhia.



84o Que nenhum à pátria volte, é o que pretende

O infernal e pérfido grupo maometano,

Para que nunca se saiba até onde se estende

A terra oriental e dela nada saiba o rei lusitano.

O Gama, de fato, não parte, pois não lhe atende

O Catual, governador do bárbaro povo profano,

Que lhe avisou que sem sua licença ele não podia

Sair, pois todas as almadias (1) ele lhe negaria.



1- Almadias: embarcações utilizadas na África e na Ásia. Muito comprida e estreita é geralmente feita com apenas um tronco. Serviria de transporte entre o cais e a Armada.



Aos brados e razões do Capitão

Responde o Idolátra, que mandasse

Chegar à terra as naus, que longe estão,

Por que milhor dali fosse e tornasse.

- «Sinal é de inimigo e de ladrão

Que lá tão longe a frota se alargasse,

(Lhe diz), porque do certo e fido amigo

É não temer do seu nenhum perigo.»



85o Aos pedidos e argumentações do Capitão,

O Idólatra respondia que ele mandasse

A frota aproximar-se, pois muito longe estão

E que isto facilitaria que as naus ele visitasse;

E também que era sinal de inimigo ou de ladrão,

Que a frota tão longe do porto ficasse,

E dizia, cinicamente, que o verdadeiro amigo,

Não devia temer qualquer outro perigo.

Nestas palavras o discreto Gama

Enxerga bem que as naus deseja perto

O Catual, por que com ferro e flama

Lhas assalte, por ódio descoberto.

Em vários pensamentos se derrama;

Fantasiando está remédio certo

Que desse a quanto mal se lhe ordenava;

Tudo temia, tudo, enfim, cuidava.



86o Nessas falsas palavras o astuto Gama

Percebia que o Catual desejava as naus por perto

Para que com armas e com a inflamada chama

As assaltasse, com seu ódio já a descoberto.

Em mil alternativas o seu pensamento se esparrama;

Pensando em tudo e buscando o procedimento certo

Que os livrasse do mal que se lhes preparava.

A tudo previa e em tudo pensava.



Qual o reflexo lume do polido

Espelho de aço ou de cristal fermoso,

Que, do raio solar sendo ferido,

Vai ferir noutra parte, luminoso,

E, sendo da ouciosa mão movido

Pela casa, do moço curioso,

Anda pelas paredes e telhado

Trémulo, aqui e ali, e dessossegado:



87o Igual o reflexo do sol no polido

Espelho de aço ou de cristal formoso,

Os quais, sendo pelo raio solar ferido,

Vão ferir outro lugar com o raio luminoso,

E sendo pela mão ociosa movido

Por toda a casa do jovem curioso,

Sobe pelas paredes e no telhado,

Brilhando aqui e ali, desorientado.





Tal o vago juizo fluctuava

Do Gama preso, quando lhe lembrara

Coelho, se por acaso o esperava

Na praia cos batéis, como ordenara.

Logo secretamente lhe mandava

Que se tornasse à frota, que deixara,

Não fosse salteado dos enganos

Que esperava dos feros Maumetanos.



88o Era como a imaginação do Gama voava;

Estando embaraçado pelo Catual, lembrara

Que Coelho, com os botes, lhe esperava

Na praia, conforme ele lhe ordenara,

E disto lembrando, rapidamente lhe mandava,

Discretos sinais para voltar às naus que deixara.

E com essa manobra evitasse ser assaltado

Pelo maligno bando do mouro desvairado.



Tal há-de ser quem quer, co dom de Marte,

Imitar os Ilustres e igualá-los:

Voar co pensamento a toda parte,

Adivinhar perigos e evitá-los,

Com militar engenho e sutil arte,

Entender os imigos e enganá-los,

Crer tudo, enfim; que nunca louvarei

O capitão que diga: «Não cuidei.»



89o Assim deve ser nas guerras de Marte

Quem imita os heróis ilustres e os iguala:

Voar com o pensamento para toda parte,

Adivinhar os perigos e evitá-los com gala.

Com talento militar e sutil e refinada arte,

Compreender os inimigos e ludibriá-los.

Pensar em tudo; pois eu nunca louvarei

Quem diga: “Ah. . . Nisto eu não pensei”.



Insiste o Malabar em tê-lo preso

Se neo manda chegar a terra a armada;

Ele, constante e de ira nobre aceso,

Os ameaços seus não teme nada;

Que antes quer sobre si tomar o peso

De quanto mal a vil malícia ousada

Lhe andar armando, que pôr em ventura

A frota de seu Rei, que tem segura.



90o O malabar insiste em mantê-lo preso

Se ele não aproximar da terra toda a Armada.

Contudo, o Capitão firme e com o ânimo aceso,

Das ameaças do Catual, não teme nada;

Pois prefere tomar para si o peso

De todo o Mal que a vil malicia ousada

Preparava, que arriscar a uma desventura,

A frota que seu Rei pensava estar segura.



Aquela noite esteve ali detido

E parte do outro dia, quando ordena

De se tornar ao Rei; mas impedido

Foi da guarda que tinha, não pequena.

Comete-lhe o Gentio outro partido,

Temendo de seu Rei castigo ou pena

Se sabe esta malícia, a qual asinha

Saberá, se mais tempo ali o detinha.



91o Durante a noite o Capitão ficou retido,

E em parte do dia seguinte, até que decide,

Ir ao palácio e falar com o rei, mas é impedido

Pela guarda, não pequena, que ali o prende.

O pagão coloca-lhe novo obstáculo fingido,

Pois temia que o Rei o castigasse com severidade,

Se soubesse de sua má ação; da qual, em breve

Saberia se não liberasse o Gama, como deve.





Diz-lhe que mande vir toda a fazenda

Vendíbil que trazia, pera a terra,

Pera que, devagar, se troque e venda;

Que, quem não quer comércio, busca guerra.

Posto que os maus propósitos entenda

O Gama, que o danado peito encerra,

Consente, porque sabe por verdade

Que compra co a fazenda a liberdade.



92o Diz-lhe que mande vir toda mercadoria,

Que fosse vendável e que a deixasse em terra,

Onde, devagar a trocaria ou venderia;

Pois se não quer comércio, quer a guerra.

O Gama compreende a má intenção e a patifaria,

Que o danado pagão no peito encerra,

Mas consente, pois sabe, que na verdade,

Com as riquezas comprará sua liberdade.





Concertam-se que o Negro mande dar

Embarcações idóneas com que venha;

Que os seus batéis não quer aventurar

Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha.

Partem as almadias a buscar

Mercadoria Hispana que convenha;

Escreve a seu irmão que lhe mandasse

A fazenda com que se resgatasse.



93o Combinam que o mouro mande dar

Botes para que a mercadoria venha,

Pois o esperto Gama não quer arriscar

Que tomem os seus botes ou os detenha.

Logo, as embarcações vão buscar

O rico produto que lhes convenha.

Vasco escreve a Paulo que a mandasse,

Para que ele pudesse libertar-se.



Vem a fazenda a terra, aonde logo

A agasalhou o infame Catual;

Co ela ficam Álvaro e Diogo,

Que a pudessem vender pelo que val.

Se mais que obrigação, que mando e rogo,

No peito vil o prémio pode e val,

Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,

Pois o Gama soltou pela fazenda.



94o Assim os produtos chegam a terra; e logo

O infame Catual deles se apodera; seguiam

Com os produtos os bravos Álvaro e Diogo,

Para que pudessem vendê-los pelo que valiam.

Vê-se que mais que um dever, ou ordem ou rogo,

No coração do Catual, as mercadorias despertavam

A má cobiça, como é claro para quem o entenda,

Pois logo soltou o Gama em troca daquela prenda.



Por ela o solta, crendo que ali tinha

Penhor bastante, donde recebesse

Interesse maior do que lhe vinha

Se o Capitão mais tempo detivesse.

Ele, vendo que já lhe não convinha

Tornar a terra, por que não pudesse

Ser mais retido, sendo às naus chegado

Nelas estar se deixa descansado.



95o Pois acreditava que ali tinha

Um grande valor e que se o recebesse

Maior seria o ganho em comparação ao que vinha,

Se por mais tempo ao Capitão ali detivesse.

O Capitão vendo que já não lhe convinha

Retornar àquela terra infame, onde corresse

O risco de ser preso de novo; na nau, chegado,

Suspirou e descansou muito aliviado.



Nas naus estar se deixa, vagaroso,

Até ver o que o tempo lhe descobre;

Que não se fia já do cobiçoso

Regedor, corrompido e pouco nobre.

Veja agora o juízo curioso

Quanto no rico, assi como no pobre,

Pode o vil interesse e sede imiga

Do dinheiro, que a tudo nos obriga.



96o Nas naus ficou pensando vagaroso,

Até que com o correr do tempo descobre;

Que já não podia confiar no ambicioso

Catual, corrompido e pouco nobre.

E fixava na mente o pensamento curioso

De que tanto no rico quanto no pobre,

O vil interesse muito pode; e como é inimiga

A ganância, que a tudo nos obriga.



A Polidoro mata o Rei Treício,

Só por ficar senhor do grão tesouro;

Entra, pelo fortíssimo edifício,

Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;

Pode tanto em Tarpeia avaro vício

Que, a troco do metal luzente e louro,

Entrega aos inimigos a alta torre,

Do qual quási afogada em pago morre.



97o Polidoro (1) é morto pelo rei Treício (2),

Apenas para ficar com o seu grande tesouro;

Entra pelo fortificado e grande edifício,

Com a filha de Acriso (3) uma chuva de ouro;

Com a jovem Tarpéia (4), a ganância em vício

Tanto pôde, que em troca do reluzente ouro,

Entrega aos inimigos a alta torre da cidade,

E afogada morre pela deslealdade.



1- Polidoro: filho do rei Príamo, de Tróia, que foi morto por Polimnestor, rei da Trácia, que queria apoderar-se do ouro do troiano.

2- Rei Treício: vide notas acima.

3- Acriso: rei de Tebas, que foi morto por Perseu, seu neto. Perseu era filho de Júpiter e de Dânae, a filha de Acriso, que foi encarcerada pelo seu pai numa torre, para que não se cumprisse o oráculo que previa que o seu filho o mataria. Todavia, Perseu metamorfoseado numa chuva de ouro, entrou no palácio e matou Acriso.

4- Tarpéia: jovem romana, filha de Tarpeu, governador da fortaleza de Roma. Ela, para receber os braceletes de ouro que os sabinos usavam, abriu- lhes a porta da cidadela.



Este rende munidas fortalezas;

Faz trédoros e falsos os amigos;

Este a mais nobres faz fazer vilezas,

E entrega Capitães aos inimigos;

Este corrompe virginais purezas,

Sem temer de honra ou fama alguns perigos;

Este deprava às vezes as ciências,

Os juízos cegando e as consciências.



98o A ganância destrói poderosas fortalezas,

Transformando em traidores os que eram amigos;

Impele os Homens mais nobres a cometerem vilezas,

E a entregar os seus comandantes aos inimigos;

A ganância corrompe virginais purezas,

Sem temer expor a honra e a fama a vários perigos;

Por vezes, deprava até as ilustradas ciências,

Embaralha os raciocínios e cega as consciências.



Este interpreta mais que sutilmente

Os textos; este faz e desfaz leis;

Este causa os perjúrios entre a gente

E mil vezes tiranos torna os Reis.

Até os que só a Deus omnipotente

Se dedicam, mil vezes ouvireis

Que corrompe este encantador, e ilude;

Mas não sem cor, contudo, de virtude!



99o Por ganância, uns interpretam maliciosamente

Os textos, outros fazem e desfazem as leis,

E outro, causa a intriga entre a honrada gente,

E por mil vezes, em tiranos, transforma os Reis.

E até mesmo daquele que só a Deus onipotente

Dedica-se, em mil ocasiões ouvireis,

Que é um corruptor, um ilusionista que apenas ilude;

Que embora pareça generoso é carente de virtude.