segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto VI

Notas à Edição


1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios. Essa adaptação não é uma tradução, até porque o idioma é único. Destarte, o leitor notará que as estrofes adaptadas não brilham pela perfeição da métrica ou do sistema rimático. E se tal não se dá o motivo é simples: é impossível copiar a genialidade do bardo, sendo, pois, a proposta dessa obra a de ser mero instrumento para auxiliar a compreensão do Épico de Camões.

2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.

3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.

4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer à perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.

5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.


Dedicado aos Poetas Portugueses

Inês Dupas e Giraldoff


Canto VI


NÃO sabia em que modo festejasse

O Rei Pagão os fortes navegantes,

Pera que as amizades alcançasse

Do Rei Cristão, das gentes tão possantes.

Pesa-lhe que tão longe o apousentasse

Das Europeias terras abundantes

A ventura, que não no fez vizinho

Donde Hércules ao mar abriu o caminho.



1o O rei pagão já nem sabia como festejar

Aos novos amigos, aos fortes navegantes,

Para que a amizade do luso rei pudesse alcançar

O regente de pessoas tão possantes;

Aborrece-lhe que tão longe o colocasse

Das européias terras abundantes

O Destino, que não o fez ser vizinho

De onde (1) Hércules abriu o caminho.



1- O Estreito de Gibraltar.



Com jogos, danças e outras alegrias,

A segundo a polícia Melindana,

Com usadas e ledas pescarias,

Com que a Lageia António alegra e engana,

Este famoso Rei, todos os dias

Festeja a companhia Lusitana,

Com banquetes, manjares desusados,

Com frutas, aves, carnes e pescados.



2o Com jogos, danças e outras alegrias,

Inerentes à cultura Melindana (1),

Ou com longas e alegres pescarias,

Iguais as de Cleópatra (2) para Antonio (3) a quem alegra e engana,

Este generoso rei, todos os dias,

Festeja a companhia lusitana,

Com banquetes refinados

De frutas, aves, carnes e pescados.



1-Melindana: relativo a Melinde, cidade e reino na Costa Oriental da África.

2- Cleópatra: também chamada de Lagéia, por ser da dinastia dosLágidas, fundada por Lago.

3- Marco Antonio: triúnviro romano e amante de Cleópatra.



Mas vendo o Capitão que se detinha

Já mais do que devia, e o fresco vento

O convida que parta e tome asinha

Os pilotos da terra e mantimento,

Não se quer mais deter, que ainda tinha

Muito pera cortar do salso argento.

Já do Pagão benigno se despede,

Que a todos amizade longa pede.



3o Mas o Capitão vendo que já se detinha

Além do que devia e que o fresco vento

Convida-lhe a partir e que tome asinha (1),

Aceita agradecido o piloto e o suprimento

E determina que partam logo, pois ainda tinha

Muito que navegar no mar argento (2).

Do rei pagão e tão benigno se despede

O qual, só uma longa amizade lhe pede.



1- Asinha: palavra oriunda do Latim vulgar: “Agina”, ou seja, com brevidade. Depressa.

2- Argento: prateado.



Pede-lhe mais que aquele porto seja

Sempre com suas frotas visitado,

Que nenhum outro bem maior deseja

Que dar a tais barões seu reino e estado;

E que, enquanto seu corpo o esprito reja,

Estará de contino aparelhado

A pôr a vida e reino totalmente

Por tão bom Rei, por tão sublime gente.



4o Também pede que o seu porto sempre seja

Pelos navios portugueses, conhecido e visitado,

Pois nada mais espera e deseja

Que oferecer aos fidalgos o seu Reino dedicado;

E diz-lhes que enquanto estiver lúcido e reja,

Estará continuamente preparado

Para por à disposição a vida e o Reino totalmente

Por tão ilustre rei e a tão sublime gente.



Outras palavras tais lhe respondia

O Capitão, e logo, as velas dando,

Pera as terras da Aurora se partia,

Que tanto tempo há já que vai buscando.

No piloto que leva não havia

Falsidade, mas antes vai mostrando

A navegação certa; e assi caminha

Já mais seguro do que dantes vinha.



5o Com sinceros agradecimentos lhe respondia

O capitão, e logo, as velas soltando,

Para as terras do Oriente partia,

As quais há tanto tempo vinha buscando.

No piloto que o rei lhe enviara não havia

Maldade ou falsidade e ele vai mostrando

A rota certa; assim o nobre Vasco caminha,

Muito mais confiante do que antes vinha.



As ondas navegavam do Oriente,

Já nos mares da Índia, e enxergavam

Os tálamos do Sol, que nace ardente;

Já quási seus desejos se acabavam;

Mas o mau de Tioneu, que na alma sente

As venturas que então se aparelhavam

À gente Lusitana, delas dina,

Arde, morre, blasfema e desatina.



6o Logo já navegavam no Oriente,

Nos mares da Índia, e enxergavam

Os leitos do sol, que nasce ardente;

Quase que os seus desejos já se acabavam.

Mas o perverso Tioneu (1), que na alma sente

As glórias que se preparavam

Para a gente lusitana, que delas era digna,

Arde, morre, blasfema e desatina.



1- Tioneu: o sobrenome de Baco, por ser filho de Tione, nome divino de Sêmele.



Via estar todo o Céu determinado

De fazer de Lisboa nova Roma;

Não no pode estorvar, que destinado

Está doutro Poder que tudo doma.

Do Olimpo dece enfim, desesperado;

Novo remédio em terra busca e toma:

Entra no húmido reino e vai-se à corte

Daquele a quem o mar caiu em sorte.



7o Via que todo o Olimpo estava determinado

A fazer de Lisboa uma nova Roma;

E como não se muda o que está destinado

Pelo supremo Poder que a tudo doma,

Finalmente, do Olimpo desce desesperado

E nova resolução na terra busca e toma:

Entra no reino do Oceano e vai até à corte

Em busca de (1) quem o Mar coube por sorte.



1- Referência a Poseidon (Netuno), deus do Mar.



No mais interno fundo das profundas

Cavernas altas, onde o mar se esconde,

Lá donde as ondas saem furibundas

Quando às iras do vento o mar responde,

Neptuno mora e moram as jocundas

Nereidas e outros Deuses do mar, onde

As águas campo deixam às cidades

Que habitam estas húmidas Deidades.



8o Na parte mais interna das escondidas

Cavernas marítimas, onde o mar se esconde,

E de onde as ondas saem enfurecidas,

Quando às fúrias dos ventos o mar responde,

Mora Netuno (1) junto com as atrevidas

Nereidas (2) e outros deuses do mar, onde

As águas deixam espaço para as cidades

Habitadas por estas úmidas divindades.



1- Netuno: deus do mar e da navegação.

2- Nereidas: ninfas do mar.



Descobre o fundo nunca descoberto

As areias ali de prata fina;

Torres altas se vêem, no campo aberto,

Da transparente massa cristalina;

Quanto se chegam mais os olhos perto

Tanto menos a vista determina

Se é cristal o que vê, se diamante,

Que assi se mostra claro e radiante.



9o Ali, Baco avista o que nunca foi descoberto:

As areias da prata mais bela e fina;

As altíssimas torres no campo aberto,

Feitas de uma massa muito cristalina;

Das quais, quanto mais se olha de perto,

Menos a vista enxerga e determina

Se seriam de cristais ou de diamantes,

De tão claras, reluzentes e brilhantes.



As portas d'ouro fino, e marchetadas

Do rico aljôfar que nas conchas nace,

De escultura fermosa estão lavradas,

Na qual do irado Baco a vista pace;

E vê primeiro, em cores variadas,

Do velho Caos a tão confusa face;

Vêm-se os quatro Elementos trasladados,

Em diversos ofícios ocupados.



10o E nas portas de fino ouro e ornamentadas

Com a rica pérola miúda que nas conchas nasce,

Formam-se belas esculturas, com arte lavradas;

Nessas esculturas, que aos deuses enaltece,

Baco vê primeiro, em cores variadas,

Do antigo deus Caos (2) a tão confusa face;

E vislumbra os quatro Elementos modificados,

Que em diversas tarefas se mostram ocupados.



1- Baco: deus do vinho.

2-Caos: divindade primitiva que representava o vácuo anterior à formação do universo.



Ali, sublime, o Fogo estava em cima,

Que em nenhüa matéria se sustinha;

Daqui as cousas vivas sempre anima,

Despois que Prometeu furtado o tinha.

Logo após ele, leve se sublima

O invisíbil Ar, que mais asinha

Tomou lugar e, nem por quente ou frio,

Algum deixa no mundo estar vazio.



11o Ali, sublime, o Fogo, estava acima,

Mas sobre nenhuma matéria ele se mantinha;

Dali, a todos os seres vivos ele sempre anima,

Desde que Prometeu (1) furtado o tinha.

Logo depois dele, leve se sublima

O invisível Ar, que de tudo se avizinha,

E que ocupa todos os lugares, pois quente ou frio,

Não deixa lugar algum vazio.



1- Prometeu: filho do Titã Japeto, ele fez uma estátua de barro à qual deu vida com o fogo que roubou do Céu. Júpiter o puniu acorrentando-o num monte do Cáucaso onde um abutre devorava o seu fígado.



Estava a Terra em montes, revestida

De verdes ervas e árvores floridas,

Dando pasto diverso e dando vida

Às alimárias nela produzidas.

A clara forma ali estava esculpida

Das Águas, entre a terra desparzidas,

De pescados criando vários modos,

Com seu humor mantendo os corpos todos.



12o Por montanhas a terra estava revestida,

Com verdes ervas e árvores floridas,

Sendo um pasto generoso e dando vida

Às todas as criaturas que nela são produzidas.

De forma clara, ali estava esculpida

A água, que entre as terras são repartidas,

Criando os peixes de vários modos

E com o seu corpo liquido sustentando a todos.



Noutra parte, esculpida estava a guerra

Que tiveram os Deuses cos Gigantes;

Está Tifeu debaixo da alta serra

De Etna, que as flamas lança crepitantes.

Esculpido se vê, ferindo a Terra,

Neptuno, quando as gentes, ignorantes,

Dele o cavalo houveram, e a primeira

De Minerva pacífica ouliveira.



13o Em outra parte estava esculpida a guerra

Que os deuses tiveram com os Gigantes (1);

Tifeu (2) está debaixo da alta serra

Do Etna (3), que lança chamas crepitantes.

Também se vê esculpido, e ferindo a Terra,

Netuno (4), quando os povos ignorantes,

Roubaram-lhe o cavalo consagrado; e a primeira,

E consagrada a Minerva (5), árvore de oliveira.



1- Gigantes: os Titãs, filhos da Terra, que tentaram atingir o Olimpo, sendo derrotados por Júpiter que os soterrou sob as montanhas que usavam como escada para chegarem ao Olimpo.

2- Tifeu: um dos Gigantes.

3- Etna: o vulcão Etna.

4- Netuno: deus do mar.

5- Minerva: deusa da sabedoria, inteligência e das artes. A árvore de Oliveira era-lhe consagrada.



Pouca tardança faz Lieu irado

Na vista destas cousas, mas entrando

Nos paços de Neptuno, que, avisado

Da vinda sua, o estava já aguardando,

Às portas o recebe, acompanhado

Das Ninfas, que se estão maravilhando

De ver que, cometendo tal caminho,

Entre no reino d'água o Rei do vinho



14o Mas pouco se demora o Lieu (1) irado

Apreciando estas coisas, e vai entrando

Nos paços de Netuno, que tendo sido avisado,

De sua vinda, já o estava aguardando.

Nas portas o recebe, acompanhado

Pelas ninfas, que estavam se deslumbrando

Por ver que, percorrendo seu caminho,

No reino da águas está o deus do vinho.



1- Lieu: o outro nome de Baco.



- «Ó Neptuno (lhe disse) não te espantes

De Baco nos teus reinos receberes,

Porque também cos grandes e possantes

Mostra a Fortuna injusta seus poderes.

Manda chamar os Deuses do mar, antes

Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;

Verão da desventura grandes modos:

Ouçam todos o mal que toca a todos.»



15o Oh Netuno! Disse Baco, não te espantes

Por em teu suntuoso Reino me receberes,

Porque também com os grandes e possantes

O destino injusto mostra seus poderes.

Mas, chame os deuses do mar antes

Que eu prossiga, se me escutar tu quiseres.

Verão a desgraça de várias maneiras

E ouvirão o mal que atinge nossas fileiras.



Julgando já Neptuno que seria

Estranho caso aquele, logo manda

Tritão, que chame os Deuses da água fria

Que o mar habitam düa e doutra banda.

Tritão, que de ser filho se gloria

Do Rei e de Salácia veneranda,

Era mancebo grande, negro e feio,

Trombeta de seu pai e seu correio.



16o Netuno prejulgando que seria

Um acontecimento sério, logo manda

Tritão (1) chamar os deuses da água fria,

Que no mar habitam numa e noutra banda.

Tritão, que por ser filho de rei se vangloria,

E por descender da Salácia (2) veneranda,

Era um mancebo grande, negro e feio,

Reles arauto do pai era também o seu correio.



1- Tritão: deus marinho, filho de Netuno e de Anfitrite.

2- Salácia: divindade do mar e associada a Netuno. Personifica a “água salgada” e é a mãe de Tritão. Às vezes é identificada como Anfitrite.



Os cabelos da barba e os que decem

Da cabeça nos ombros, todos eram

Uns limos prenhes d'água, e bem parecem

Que nunca brando pêntem conheceram.

Nas pontas pendurados não falecem

Os negros mexilhões, que ali se geram.

Na cabeça, por gorra, tinha posta

üa mui grande casca de lagosta.



17o Os pêlos da barba e os cabelos, que descem

Da cabeça até aos ombros, eram

Um lodo cheio de água e bem parecem

Que um bom pente nem conhecem.

Nas pontas dos mesmos vivem e crescem

Negros mexilhões, que ali proliferam.

Na cabeça, como um chapéu, tinha posta

Uma grande e suja casca de lagosta.



O corpo nu, e os membros genitais,

Por não ter ao nadar impedimento,

Mas porém de pequenos animais

Do mar todos cobertos, cento e cento:

Camarões e cangrejos e outros mais,

Que recebem de Febe crecimento;

Ostras e birbigões, do musco sujos,

Às costas co a casca os caramujos.



18o O seu corpo, até nos órgãos genitais,

É despido, para não atrapalhar o movimento

Ao nadar, mas de pequenos animais

É recoberto, o que lhe causa certo impedimento.

Ali vivem camarões, caranguejos e outros mais,

Que de Febe (1) recebem energia para o crescimento;

Ostras e mexilhões, cobertos de lodo e muito sujos

Habitam suas costas, assim como os caramujos.



1- Febe: A lua.



Na mão a grande concha retorcida

Que trazia, com força já tocava;

A voz grande, canora, foi ouvida

Por todo o mar, que longe retumbava.

Já toda a companhia, apercebida,

Dos Deuses pera os paços caminhava

Do Deus que fez os muros de Dardânia,

Destruídos despois da Grega insânia.



19o A grande e potente concha retorcida,

Que trazia na mão e que fortemente tocava,

Como uma ordem indeclinável foi ouvida

Por todo o mar, pois até muito longe ecoava.

Logo toda a companhia dos deuses foi avisada

E para o palácio de Netuno se encaminhava,

Onde reina o deus que fez os muros de Dardânia (1)

Que depois foram destruídos pela grega insânia.



1- Dardânia: antigo nome de Tróia, cujos muros teriam sido erguidos por Netuno e depois destruídos pelos gregos na guerra de Tróia.



Vinha o padre Oceano, acompanhado

Dos filhos e das filhas que gerara;

Vem Nereu, que com Dóris foi casado,

Que todo o mar de Ninfas povoara.

O profeta Proteu, deixando o gado

Marítimo pacer pela água amara,

Ali veio também, mas já sabia

O que o padre Lieu no mar queria.



20o Vinha o pai Oceano (1), acompanhado

Por todos os filhos e filhas que gerara;

Também vem Nereu (2), que com Doris (3) era casado,

E com quem, de ninfas, todo o mar povoara.

O profeta Proteu (4), deixou o gado

Marinho pastando pela água que lhes era cara,

E rapidamente também veio, mas já sabia

O que o pai Lieu (5), do Reino do Mar queria.



1- Oceano: o mais velho dos Titãs. Personificava o mar. Os seus filhos eram todos os rios do mundo e as Oceânides.

2- Nereu: deus marinho, pai das Nereidas.

3- Doris: filha de Oceano e Tétis. Casada com Nereu e mãe das cinqüenta Nereidas.

4- Proteu: filho de Oceano e Tétis era o pastor do gado marinho do pai e tinha o dom da profecia.

5- Lieu: outro nome de Baco.



Vinha por outra parte a linda esposa

De Neptuno, de Celo e Vesta filha,

Grave e leda no gesto, e tão fermosa

Que se amansava o mar, de maravilha.

Vestida üa camisa preciosa

Trazia, de delgada beatilha,

Que o corpo cristalino deixa ver-se,

Que tanto bem não é pera esconder-se.



21o De outro lugar chegava a linda esposa

De Netuno (1). De Celo (2) e de Vesta (3) era filha

E mesmo com o rosto sério era tão formosa

Que até o mar se acalmava ante tal maravilha.

Vinha vestida com uma camisa preciosa

E com uma belíssima e fina malharia,

Que o corpo cristalino deixa ver-se,

Pois tal beleza não é para esconder-se.



1- Netuno: deus do mar e da navegação.

2- Celo: o Céu, aqui tomado como divindade. Pai de Tétis.

3- Vesta: deusa do lar. Camões a chama de mãe de Tétis, o que não é correto.



Anfitrite, fermosa como as flores,

Neste caso não quis que falecesse;

O delfim traz consigo que aos amores

Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.

Cos olhos, que de tudo são senhores,

Qualquer parecerá que o Sol vencesse

Ambas vêm pela mão, igual partido,

Pois ambas são esposas dum marido.



22o Anfitrite (1), bela como as flores,

Não quis que sua presença faltasse;

Traz consigo o delfim, conselheiro nos amores

Que lhe disse que a Netuno obedecesse.

Seus belos olhos, que de tudo são senhores,

Têm tanta luz, como se neles o sol ardesse.

Ambas (2) partiram no mesmo horário e sentido,

Pois as duas são esposas do mesmo marido.



1- Anfitrite: originalmente era a personificação feminina do mar. Uma das Nereidas, filha de Nereu e de Doris. Diz a lenda que Netuno a amava há muito tempo, mas ela o recusava por pudor e refugiou-se na profundeza do Oceano, depois das Colunas de Hercules. Então Netuno mandou que os delfins a encontrassem e eles a localizaram e a entregaram ao seu rei. Desde então ela tornou-se a rainha do mar.

2- Tétis e Anfitrite são esposas de Netuno.



Aquela que, das fúrias de Atamante

Fugindo, veio a ter divino estado,

Consigo traz o filho belo infante,

No número dos Deuses relatado;

Pela praia brincando vem, diante,

Com as lindas conchinhas, que o salgado

Mar sempre cria; e às vezes pela areia

No colo o toma a bela Panopeia.



23o Ino (1), que fugindo da fúria de Atamante (2),

Foi protegida por Vênus e adquiriu o divino estado,

Traz consigo o filho Melicerta, um belo infante,

Para juntar-se ao Conselho dos deuses, já relatado.

Pela praia o menino vem brincando e mais adiante

Recreia-se com as lindas conchas, que o salgado

Mar sempre cria; e às vezes na areia

É levado ao colo pela bela Panopeia (3).



1- Ino: esposa de Atamante.

2- Atamante: rei dos Orcomenos, na antiga Beócia. Perseguido pela colera da deusa Nefeléia, que abandonara para casar-se com Ino, Atamante enlouqueceu, matou o seu filho Learco. Assistiram tal morte, Melicerta e Ino sendo ambos expulsos do reino. Por pedido de Vênus, Ino e Melicerta foram transformados em divindades marinhas.

3- Panopeia: uma das Nereidas.



E o Deus que foi num tempo corpo humano

E por virtude da erva poderosa,

Foi convertido em pexe, e deste dano

Lhe resultou Deidade gloriosa,

Inda vinha chorando o feio engano

Que Circes tinha usado co a fermosa

Scila, que ele ama, desta sendo amado,

Que a mais obriga amor mal empregado.



24o Chega o deus Glauco (1) que era humano

E que em virtude de uma erva poderosa

Foi transformado em peixe e deste dano

Resultou-lhe a divindade gloriosa.

Ainda chorava o triste engano

Que Circe (2) tinha usado na formosa

Cila (3), a quem ama e por quem é amado,

Pois a isso o obriga o amor prejudicado.



1- Glauco: era um pescador em Antédon. Comeu por acaso uma erva mágica que o tornou imortal. As deusas do mar o purificaram e lhe deram a forma de um peixe e o dom da profecia.

2- Circe: filha do sol, feiticeira que desempenha papel importante na “Odisséia” de Homero. Transformou em monstro a ninfa Cila, que posteriormente personificou o famoso rochedo da Sicília, que junto com Caridibis constituía grande perigo para a navegação.

3- Cila: monstro marinho. Era uma bela ninfa por quem o deus marinho Glauco se apaixonou. Glauco então pediu a Circe uma porção mágica que fizesse com que o seu amor fosse correspondido. Porém Circe o amava e para vingar-se da rival transformou-a em um monstro de seis cabeças e trazendo na cintura seis cães ferozes.



Já finalmente todos assentados

Na grande sala, nobre e divinal,

As Deusas em riquíssimos estrados,

Os Deuses em cadeiras de cristal,

Foram todos do Padre agasalhados,

Que co Tebano tinha assento igual;

De fumos enche a casa a rica massa

Que no mar nace e Arábia em cheiro passa.



25o Finalmente todos estavam assentados

Na grande sala, nobre e divinal,

As deusas em riquíssimos estrados,

Os deuses em cadeiras de cristal,

Todos sendo, por Netuno hospedados;

Junto dele, Baco, ocupava um assento central.

Enche a sala uma perfumada e rica massa

Que nasce no mar e pela Arábia (1) passa.



1- Arábia: península, na parte oeste da Ásia menor.



Estando sossegado já o tumulto

Dos Deuses e de seus recebimentos,

Começa a descobrir do peito oculto

A causa o Tioneu de seus tormentos;

Um pouco carregando-se no vulto,

Dando mostra de grandes sentimentos,

Só por dar aos de Luso triste morte

Co ferro alheio, fala desta sorte:



26o Já estando sossegado o tumulto

Que os deuses fizeram com os seus cumprimentos,

Começa a revelar o quê no peito trazia oculto

O Tioneu (1); e que era a causa de seus tormentos.

Tinha o semblante sério, como se estivesse de luto,

E dava demonstrações de grandes ressentimentos;

Visava, pois, dar aos portugueses uma triste morte

E para usar as armas alheias, fala dessa sorte:



1- Tioneu: outro nome de Baco.



- «Príncipe, que de juro senhoreias,

Dum Pólo ao outro Pólo, o mar irado,

Tu, que as gentes da Terra toda enfreias,

Que não passem o termo limitado;

E tu, padre Oceano, que rodeias

O Mundo universal e o tens cercado,

E com justo decreto assi permites

Que dentro vivam só de seus limites;



27o Príncipe Netuno, que por direito tem o poderio,

De um Pólo ao outro, do mar irado,

Tu, que em toda gente da Terra, coloca o freio,

Para que não ultrapassem o limite demarcado;

E, tu, pai Oceano, cujo ilustre seio

Abrange todo o mundo, o qual, por ti é cercado,

E no qual só se pode ir até o limite,

Que a vossa isenta justiça permite;





«E vós, Deuses do Mar, que não sofreis

Injúria algüa em vosso reino grande,

Que com castigo igual vos não vingueis

De quem quer que por ele corra e ande:

Que descuido foi este em que viveis?

Quem pode ser que tanto vos abrande

Os peitos, com razão endurecidos

Contra os humanos, fracos e atrevidos?



28o E vós, deuses do mar, que não sofreis

Afronta alguma em vosso reino belo e grande,

Sem que com severos castigos vos vingueis

Daquele que em seus domínios corra ou ande;

Como explicam a inércia que atualmente viveis?

Quem é que tem tanto poder que até vos abrande

Os ferozes corações, justificadamente endurecidos,

Contra os Seres Humanos; frágeis, mas atrevidos?



«Vistes que, com grandíssima ousadia,

Foram já cometer o Céu supremo;

Vistes aquela insana fantasia

De tentarem o mar com vela e remo;

Vistes, e ainda vemos cada dia,

Soberbas e insolências tais, que temo

Que do Mar e do Céu, em poucos anos,

Venham Deuses a ser, e nós, humanos.



29o Já vistes, que com enorme ousadia,

Eles foram afrontar até o Céu supremo;

Também vistes aquela demente fantasia

De enfrentarem o mar com vela e remo;

Vistes, e ainda vemos todo dia,

Suas arrogâncias e insolências e eu temo

Que no mar e nos céus, em poucos anos,

Eles sejam os deuses, e nós, simples humanos.



«Vedes agora a fraca geração

Que dum vassalo meu o nome toma,

Com soberbo e altivo coração

A vós e a mi e o mundo todo doma.

Vedes, o vosso mar cortando vão,

Mais do que fez a gente alta de Roma;

Vedes, o vosso reino devassando,

Os vossos estatutos vão quebrando.



30o Vejam que agora, uma pequena nação,

Cujo nome (1) de um servo meu toma,

Afronta, com arrogante e altivo coração,

A vós, a mim e ao Mundo, que conquista e doma.

Vejam que cortando os vossos mares eles vão,

Além do que já foi a ilustre gente de Roma;

Olhem como o vosso reino eles estão devassando

E os seus regulamentos estão quebrando.



1- Referência a Lusitânia, derivada de Luso, vassalo de Baco. Alguns eruditos afirmar que Luso seria filho de Baco.



«Eu vi que contra os Mínias, que primeiro

No vosso reino este caminho abriram

Bóreas, injuriado, e o companheiro

Áquilo e os outros todos resistiram.

Pois se do ajuntamento aventureiro

Os ventos esta injúria assi sentiram,

Vós, a quem mais compete esta vingança,

Que esperais? Porque a pondes em tardança?



31o Vi que contra os Mínias (1), os primeiros

Que em vosso reino esses caminhos abriram,

O enfurecido Bóreas (2) e seus companheiros,

Como o Áquilo (3) e todos os outros, resistiram.

Pois se da afronta daquele bando aventureiro

Os ferozes ventos se ressentiram,

Por que vós, a quem compete à justa vingança,

Tanto esperam? Por que a deixam em tardança?



1- Mínias: os argonautas da “Odisséia” de Homero. Assim chamados por descenderem do rei Mínias, da Tessália.

2- Bóreas: o vento do norte.

3- Áquilo: idem.



«E não consinto, Deuses, que cuideis

Que por amor de vós do Céu deci,

Nem da mágoa da injúria que sofreis,

Mas da que se me faz também a mi;

Que aquelas grandes honras que sabeis

Que no mundo ganhei, quando venci

As terras Indianas do Oriente,

Todas vejo abatidas desta gente.



32o E não quero deuses, que pensem

Que por amor a vós, do Céu eu vim,

Nem pela mágoa da ofensa que sofrem,

Embora esta também afete a mim;

Vim porque as honras, que vocês sabem,

Eu ganhei em todo mundo, quando venci

As nações dos povos indianos do Oriente,

Estão para serem ofuscadas pela lusa gente.



«Que o grão Senhor e Fados, que destinam,

Como lhe bem parece, o baxo mundo,

Famas, mores que nunca, determinam

De dar a estes barões no mar profundo.

Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam

O mal também a Deuses; que, a segundo

Se vê, ninguém já tem menos valia

Que quem com mais razão valer devia.



33o Que o Pai Supremo e o Grande Destino,

Governem como bem lhes parece, o baixo Mundo,

Mas que neguem a grande fama, o louvor e o hino,

A estes fidalgos que navegam no mar profundo.

Vereis, aqui, ó deuses, como pode ser cruel e ferino,

O Mal que também nos atinge, pois segundo

Já se vê ninguém tem mais valia

Do que eu; mas não sou louvado como deveria.



«E por isso do Olimpo já fugi,

Buscando algum remédio a meus pesares,

Por ver o preço que no Céu perdi, e por

dita acharei nos vossos mares.»

Mais quis dizer, e não passou daqui,

Porque as lágrimas já, correndo a pares,

Lhe saltaram dos olhos, com que logo

Se acendem as Deidades d'água em fogo.



34o É por isso que do Olimpo eu desci,

Buscando alguma solução para os meus pesares;

Para ver se o valor que no Céu eu perdi,

Acharei, por sorte, nos vossos mares.

Baco queria prosseguir, mas não passou dali,

Porque lágrimas escorrendo aos pares,

Brotavam dos seus olhos, fazendo com que logo

Os irados deuses passassem da água para o fogo.



A ira com que súbito alterado

O coração dos Deuses foi num ponto,

Não sofreu mais conselho bem cuidado

Nem dilação nem outro algum desconto:

Ao grande Eolo mandam já recado,

Da parte de Neptuno, que sem conto

Solte as fúrias dos ventos repugnantes,

Que não haja no mar mais navegantes!



35o A ira, com que de súbito foi alterado

O coração dos deuses atingiu o máximo ponto,

Não atendendo a conselho ponderado

Nem aceitando qualquer outro desconto.

Ao grande Eolo (1) já mandam o recado,

Netuno, para que sem limites e com mal intento,

Solte as fúrias dos ventos repugnantes,

E que não restem quaisquer navegantes.



1- Eolo: o deus dos ventos.



Bem quisera primeiro ali Proteu

Dizer, neste negócio, o que sentia;

E, segundo o que a todos pareceu,

Era algüa profunda profecia.

Porém tanto o tumulto se moveu,

Súbito, na divina companhia,

Que Tétis, indinada, lhe bradou:

- «Neptuno sabe bem o que mandou!»





36o Bem que quisera o equilibrado Proteu (1),

Falar sobre aquela situação e o que sentia;

E em seguida dizer, o que o fato lhe pareceu

E rematar com uma correta e séria profecia.

Porém não pôde, pelo tanto que o tumulto cresceu,

E também porque, na divina companhia,

Téthis (2), que era sua mãe, indignada lhe bradou:

- Ora, Netuno sabe o que faz! E o que ordenou!



1- Proteu: deus marinho. Tinha o dom da adivinhação.

2- Téthis: deusa do mar.



Já lá o soberbo Hipótades soltava

Do cárcere fechado os furiosos

Ventos, que com palavras animava

Contra os varões audaces e animosos.

Súbito, o céu sereno se obumbrava,

Que os ventos, mais que nunca impetuosos,

Começam novas forças a ir tomando,

Torres, montes e casas derribando.



37o Já o arrogante Hipótades (1) soltava

Do cárcere fechado os furiosos

Ventos, aos quais, com palavras incitava

Contra os lusos, audazes e corajosos.

Subitamente, o céu sereno se nublava,

Pois os ventos, mais que nunca, impetuosos,

Novas e maiores forças vão tomando,

E torres, montes e casas vão derrubando.



1- Hipótades: Eolo, deus dos ventos. Assim chamado por ser neto de Hípotas, rei de Tróia.



Enquanto este conselho se fazia

No fundo aquoso, a leda, lassa frota

Com vento sossegado prosseguia,

Pelo tranquilo mar, a longa rota.

Era no tempo quando a luz do dia

Do Eóo Hemispério está remota;

Os do quarto da prima se deitavam,

Pera o segundo os outros despertavam.



38o Enquanto a reunião dos deuses acontecia

No fundo das águas; a fatigada frota

Com ventos tranqüilos prosseguia

Pelo mar calmo, na sua longa rota.

Era a estação em que a luz do dia

No Eôo (1) hemisfério está mais remota;

E já os marujos do primeiro turno se deitavam

Passando o encargo para os que despertavam.





1-Eôo: oriental. O hemisfério oriental.



Vencidos vêm do sono e mal despertos;

Bocijando, a miúdo se encostavam

Pelas antenas, todos mal cobertos ontra os

agudos ares que assopravam;

Os olhos contra seu querer abertos;

Mas estregando, os membros estiravam.

Remédios contra o sono buscar querem,

Histórias contam, casos mil referem.



39o Estes, vinham sonolentos e mal despertos;

Bocejando constantemente se encostavam

Nas vigas, enregelados e mal cobertos

Contra os frios ventos que sopravam;

Os olhos, a muito custo, mantinham abertos

E espreguiçando-se os membros alongavam.

Remédio contra o sono é o que mais querem

E, então, relembram as historias que preferem.



- «Com que milhor podemos (um dizia)

Este tempo passar, que é tão pesado,

Senão com algum conto de alegria,

Com que nos deixe o sono carregado?»

Responde Leonardo, que trazia

Pensamentos de firme namorado:

- «Que contos poderemos ter milhores,

Pera passar o tempo, que de amores?»



40o – O que podemos fazer, um deles dizia,

Para melhor passar este tempo embaçado,

Se não for contar uma historia de alegria,

Que nos desperte deste sono carregado?

Responde-lhe Lionardo (1), que trazia

Sentimentos de firme namorado:

- Que histórias serão melhores,

Para passar o tempo, que as de amores?



1- Lionardo: membro da expedição de Vasco da Gama.



- «Não é (disse Veloso) cousa justa

Tratar branduras em tanta aspereza,

Que o trabalho do mar, que tanto custa,

Não sofre amores nem delicadeza;

Antes de guerra, férvida e robusta

A nossa história seja, pois dureza

Nossa vida há-de ser, segundo entendo,

Que o trabalho por vir mo está dizendo.»



41o Não é, disse Veloso (1), coisa certa e justa,

Falarmos do suave amor em meio a tanta aspereza,

Pois no trabalho no mar, que tanto custa,

Não há nem amores e nem delicadeza;

Mais apropriado é que da guerra tórrida e robusta

A história seja, pois uma constante dureza,

Há de ser a nossa vida, conforme a entendo,

E como os presságios vivem nos dizendo.



1-Veloso: Fernão Veloso, membro da expedição.



Consentem nisto todos, e encomendam

A Veloso que conte isto que aprova.

- «Contarei (disse) sem que me aprendam

De contar cousa fabulosa ou nova;

E por que os que me ouvirem daqui reprendam ,

A fazer feitos grandes de alta prova,

Dos nacidos direi na nossa terra,

E estes sejam os Doze de Inglaterra.



42o Todos concordam com isto e encomendam

A Veloso que conte tal historia, se lhe aprova.

- Contarei, disse, sem que me repreendam

Por contar uma simples fábula ou uma historia nova.

E para que os que aqui me ouvirem aprendam

A fazer proezas a toda prova,

Falarei sobre os patrícios de nossa terra,

Chamados de “Os Doze da Inglaterra”.





«No tempo que do Reino a rédea leve,

João, filho de Pedro, moderava,

Despois que sossegado e livre o teve

Do vizinho poder, que o molestava,

Lá na grande Inglaterra, que da neve

Boreal sempre abunda, semeava

A fera Erínis dura e má cizânia,

Que lustre fosse a nossa Lusitânia.



43o No tempo do rei João (1), filho de Pedro (2), que com leve

Rédea o nosso amado Portugal governava;

Depois que pacificado e livre o país teve

Uma grande paz com Castela, que tanto o molestava;

Lá na grande Inglaterra onde a neve

Boreal sempre abunda, a feroz Erínis (3) semeava

Uma dura, triste e terrível cizânia,

A qual tornou ilustre a nossa Lusitânia.



1-Dom João I, o “Príncipe de Boa Memória”.

2-Dom Pedro I, o “Justiceiro”.

3-Erínis: uma das Fúrias. Camões parece confundi-la com Eris, que personificava a discórdia. Era um gênio feminino e alado.



«Entre as damas gentis da corte Inglesa

E nobres cortesãos, acaso um dia

Se levantou discórdia, em ira acesa

(Ou foi opinião, ou foi porfia).

Os cortesãos, a quem tão pouco pesa

Soltar palavras graves de ousadia,

Dizem que provarão que honras e famas

Em tais damas não há pera ser damas;



44o Entre as gentis damas da corte inglesa

E os nobres cortesãos, num certo dia,

Levantou-se uma discórdia e uma ira acesa

(Por questão de opinião ou por porfia).

Os cortesãos, para quem pouco pesa

Dizer grave palavra de ousadia,

Afirmam que provarão que honras e famas

Não existem e nem as consideram damas.



«E que se houver alguém, com lança e espada,

Que queira sustentar a parte sua,

Que eles, em campo raso ou estacada,

Lhe darão feia infâmia ou morte crua.

A feminil fraqueza, pouco usada,

Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua

De forças naturais convenientes,

Socorro pede a amigos e parentes.



45o E que se houver quem, com lança e espada,

Queira defender a parte delas,

Eles, em campo aberto ou em Estacada (1),

Darão tristes derrotas ou mortes nada belas.

A fragilidade feminina pouco acostumada

As ofensas e afrontas tão brutais quanto aquelas,

Viram que precisavam de confiáveis e urgentes

Auxílios, mas não os acharam em amigos, ou parentes.



1- Estacada: local onde se travam torneios e duelos.



«Mas, como fossem grandes e possantes

No reino os inimigos, não se atrevem

Nem parentes, nem férvidos amantes,

A sustentar as damas, como devem.

Com lágrimas fermosas, e bastantes

A fazer que em socorro os Deuses levem

De todo o Céu, por rostos de alabastro,

Se vão todas ao Duque de Alencastro.



46o Pois os detratores eram fortes e possantes,

E no reino da Inglaterra ninguém se atreve

A enfrentá-los; nem os parentes e nem os amantes,

E as damas ficaram indefesas, mas por um tempo breve.

Com lágrimas sentidas e abundantes,

Capazes de fazer que o Supremo Céu leve

Os deuses em sua defesa e pálidas como o alabastro (1),

Vão pedir auxilio ao Duque de Alencastro (2).



1- Alabastro: neste contexto, alvo, branco.

2- Duque de Alencastro: Dom João de Gaunt, filho de Eduardo III, rei da Inglaterra.



«Era este Ingrês potente e militara

Cos Portugueses já contra Castela,

Onde as forças magnânimas provara

Dos companheiros, e benigna estrela.

Não menos nesta terra exprimentara

Namorados afeitos, quando nela

A filha viu, que tanto o peito doma

Do forte Rei que por mulher a toma.



47o Ele era um inglês poderoso e já lutara

Junto dos portugueses contra Castela,

Onde a magnífica força aprovara

Daqueles companheiros, bem como sua boa estrela.

Não menos, em Castela, também observara,

Que eram namorados de respeito, quando nela,

A sua filha (1) conquistou o coração e a alma,

Do forte rei luso, que como esposa a toma.



1- A filha do Duque de Alencastro era Dona Filipa, que se casou com Dom João I, rei de Portugal.



«Este, que socorrer-lhe não queria

Por não causar discórdias intestinas,

Lhe diz: - «Quando o direito pretendia

Do Reino lá das terras Iberinas,

Nos Lusitanos vi tanta ousadia,

Tanto primor e partes tão divinas,

Que eles sós poderiam, se não erro,

Sustentar vossa parte a fogo e ferro;

48o Socorrer as damas o Duque não queria,

Para não causar uma guerra civil e ferina,

Assim, ele lhes diz: - quando eu defendia

Os direitos do Reino na terra Iberina (1),

Eu vi nos lusitanos muita valentia,

Muito vigor e uma honra que me pareceu divina;

E acredito que apenas eles, se não cometo erro,

Poderão desagravá-las com o fogo e com o ferro.



1- Iberina: a Península Ibérica.



«E se, agravadas damas, sois servidas,

Por vós lhe mandarei embaixadores,

Que, por cartas discretas e polidas,

De vosso agravo os façam sabedores;

Também, por vossa parte, encarecidas

Com palavras d~ afagos e d, amores

Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio

Que ali tereis socorro e forte esteio. »



49o E se vós, ultrajadas damas, quiserdes,

Eu lhes mandarei embaixadores,

E através de cartas discretas e polidas,

De vossos ultrajes eles serão sabedores.

Relataremos os insultos e a elas serão acrescidas

Doces palavras de afagos e amores,

E também as vossas lágrimas, pois eu creio,

Que neles encontrarão socorro e forte esteio.



«Destarte as aconselha o Duque experto

E logo lhe nomeia doze fortes;

E por que cada dama um tenha certo,

Lhe manda que sobre eles lancem sortes,

Que elas só doze são; e descoberto

Qual a qual tem caído das consortes,

Cad'~ ua escreve ao seu, por vários modos,

E todas a seu Rei, e o Duque a todos.



50o Dessa forma lhes aconselha o Duque esperto

Em seguida cita os nomes de doze cavaleiros fortes;

E para que cada dama tenha um deles, como certo,

Pede-lhes que sobre eles, lancem as sortes,

Pois também são doze; e após terem descoberto

Os seus respectivos defensores e consortes,

Cada uma escreve ao seu, de vários modos,

E juntas ao rei luso; já o Duque escreve a todos.



«Já chega a Portugal o mensageiro,

Toda a corte alvoroça a novidade;

Quisera o Rei sublime ser primeiro,

Mas não lho sofre a régia Majestade.

Qualquer dos cortesãos aventureiro

Deseja ser, com férvida vontade,

E só fica por bem-aventurado

Quem já vem pelo Duque nomeado.

51o Logo chega a Portugal o mensageiro;

E toda a corte se alvoroça com a novidade;

O sublime rei quisera ser o primeiro,

Mas os encargos de governo e a majestade

Não lhe permitem; todo cortesão aventureiro,

Quer ir ao chamado, com fervorosa vontade,

Mas só foram escolhidos e enviados

Os que pelo Duque foram escalados.



«Lá na leal cidade donde teve

Origem (como é fama) o nome eterno

De Portugal, armar madeiro leve

Manda o que tem o leme do governo.

Apercebem-se os doze, em tempo breve,

D'armas e roupas de uso mais moderno,

De elmos, cimeiras, letras e primores,

Cavalos, e concertos de mil cores.



52o Na tradicional cidade (1) onde teve

Origem (segundo a fama) o nome eterno

De Portugal, prepara-se um barco leve,

Conforme fora ordenado pelo governo.

Os escolhidos preparam-se em tempo breve,

Com armas e trajes do modelo mais moderno;

Elmos (2) com cimeiras, versos e primores,

E belos cavalos enfeitados com várias cores.



1- Referência à cidade de Lisboa, cujo nome deriva de Lisa, e deste, o nome de Lusitânia.

2- Elmos: capacetes.



«Já do seu Rei tomado têm licença,

Pera partir do Douro celebrado,

Aqueles que escolhidos por sentença

Foram do Duque Inglês exprimentado.

Não há na companhia diferença

De cavaleiro, destro ou esforçado;

Mas um só, que Magriço se dizia,

Destarte fala à forte companhia:



53o O rei luso já concedia a devida licença,

Para partirem do Douro (1) afamado,

Aqueles que foram escolhidos por sentença

Do duque inglês experimentado.

Naquela companhia não há diferença

Sendo cada qual muito capaz e ousado;

Mas apenas um, que “Magriço” (2) se dizia,

Deste modo, fala para a forte companhia:



1- Douro: região norte de Portugal, banhada pelo rio homônimo.

2- Magriço: Apelido de Álvaro Gonçalves Coutinho, um dos “Doze da Inglaterra”.



- «Fortíssimos consócios, eu desejo

Há muito já de andar terras estranhas,

Por ver mais águas que as do Douro e Tejo,

Várias gentes e leis e várias manhas.

Agora que aparelho certo vejo,

(Pois que do mundo as cousas são tamanhos)

Quero, se me deixais, ir só por terra,

Porque eu serei convosco em Inglaterra.



54o Fortíssimos companheiros, eu desejo

Há muito tempo andar por terras estranhas,

Ver as outras águas além das do Douro e do Tejo,

Outras gentes, costumes e artimanhas.

Agora, que bem preparado me vejo,

Para enfrentar as coisas do Mundo, que são tamanhas,

Quero, se me permitem ir sozinho e por terra,

Para encontrar-me convosco na Inglaterra.



«E quando caso for que eu, impedido

Por Quem das cousas é última linha,

Não for convosco ao prazo instituído,

Pouca falta vos faz a falta minha:

Todos por mi fareis o que é devido.

Mas, se a verdade o esprito me adivinha,

Rios, montes, Fortuna ou sua enveja

Não farão que eu convosco lá não seja.»



55o E se por acaso eu for impedido

Pela morte, que para todos é a ultima linha,

E não estiver convosco no prazo instituído,

Pouca falta lhes fará a ausência minha:

Pois todos farão por mim o que é devido.

Mas, se o meu espírito a verdade adivinha,

Rios, montes, Destino ou a inveja

Não me impedirão de que convosco lá eu esteja.





«Assi diz e, abraçados os amigos

E tomada licença, enfim se parte.

Passa Lião, Castela, vendo antigos

Lugares que ganhara o pátrio Marte;

Navarra, cos altíssimos perigos

Do Perineu, que Espanha e Gália parte.

Vistas, enfim, de França as cousas grandes,

No grande empório foi parar de Frandes.



56o Assim diz, e abraça afetuosamente aos amigos

E com a sua licença, finalmente, ele parte.

Passa por Leão e Castela (1) vendo os antigos

Lugares onde os lusos venceram as guerras de Marte;

Passa por Navarra (1), enfrentando sérios perigos

E nos Pirineus, que a Espanha e a França reparte.

Por fim vê na França as coisas valiosas e grandes,

E só pára no grande mercado de Frandes (2).



1-Leão, Castela e Navarra: regiões da Espanha.

2-Frandes: região entre a França e a Bélgica, importante entreposto comercial à Época.



«Ali chegado, ou fosse caso ou manha,

Sem passar se deteve muitos dias.

Mas dos onze a ilustríssima companha

Cortam do Mar do Norte as ondas frias;

Chegados de Inglaterra à costa de estranha,

Pera de Londres já fazem todos vias;

Do Duque são com festas agasalhados

E das damas servidos e amimados.



57o Ali chegando, por acaso ou por artimanha,

Deteve-se por mais alguns dias.

Enquanto isso, os onze seguem para a campanha,

Singrando o Mar do Norte e as suas ondas frias;

Chegados à costa da Inglaterra que lhes é estranha,

Seguem prestos para Londres através da longa via.

Pelo Duque Alencastro são festivamente hospedados

E pelas damas que defenderão, são servidos e mimados.



«Chega-se o prazo e dia assinalado

De entrar em campo já cos doze Ingleses,

Que pelo Rei já tinham segurado;

Armam-se d'elmos, grevas e de arneses.

Já as damas têm por si, fulgente e armado,

O Mavorte feroz dos Portugueses;

Vestem-se elas de cores e de sedas,

De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.



58o Finalmente chega o dia marcado,

Para irem a campo contra os doze ingleses,

Conforme o rei tinha aprovado;

Arma-se com elmos (1), grevas (2) e arneses (3),

Para defender as damas ultrajadas, o ousado

Espírito feroz dos guerreiros portugueses;

Elas se vestem de várias cores e de sedas variadas

E com ricas jóias de ouro estão enfeitadas.



1- Elmo: capacete.

2- Grevas: parte da armadura que cobre a perna.

3- Arneses: armadura completa.



«Mas aquela a quem fora em sorte dado

Magriço, que não vinha, com tristeza

Se veste, por não ter quem nomeado

Seja seu cavaleiro nesta empresa;

Bem que os onze apregoam que acabado

Será o negócio assi na corte Inglesa,

Que as damas vencedoras se conheçam,

Posto que dous e três dos seus faleçam.



59o Mas aquela, para quem fora sorteado

O “Magriço”, que ainda não viera, com tristeza

Veste-se e se adorna, por não ter chegado

Quem que seria seu cavalheiro naquela empresa;

Os onze cavaleiros restantes avisam que acabado,

De qualquer forma, será o trabalho na corte inglesa,

E que as damas se consolem e não se entristeçam

Mesmo que dentre eles, dois ou três faleçam.



«Já num sublime e púbrico teatro

Se assenta o Rei Inglês com toda a corte:

Estavam três e três e quatro e quatro,

Bem como a cada qual coubera em sorte;

Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,

De força, esforço e d'ânimo mais forte,

Outros doze sair, como os Ingleses,

No campo. contra os onze Portugueses.



60o Num esplêndido e público teatro

Assenta-se o rei inglês com toda a corte.

Estavam divididos em três ou em quatro,

Conforme a cada um coubera em sorte;

Sob o sol nunca se viu desde, o Tejo até o Batro (1)

Força, determinação e ânimo mais forte

Que o daqueles doze cavaleiros ingleses,

Que duelaria na arena contra os portugueses.



1-Rio Bactro; rio que banhava a Bactriana, no Afeganistão atual.

1-

«Mastigam os cavalos, escumando,

Os áureos freios, com feroz sembrante;

Estava o Sol nas armas rutilando,

Como em cristal ou rígido diamante;

Mas enxerga-se, num e noutro bando,

Partido desigual e dissonante

Dos onze contra os doze; quando a gente

Começa a alvoroçar-se geralmente.



61o Os cavalos mastigam, espumando,

Os dourados freios, com feroz semblante;

O sol, nas armas, estava brilhando,

Como se fosse um cristal ou um diamante;

Porém, via-se, num e noutro bando,

Um número de combatentes desigual e dissonante

Pois eram doze contra onze; até que de repente,

Começa a inquietar-se toda aquela gente.



«Viram todos o rosto aonde havia

A causa principal do reboliço:

Eis entra um cavaleiro, que trazia

Armas, cavalo, ao bélico serviço;

Ao Rei e às damas fala e logo se ia

Pera os onze, que este era o grão Magriço;

Abraça os companheiros, como amigos ,

A quem não falta, certo nos perigos.



62o Todos viram o rosto para onde havia

A principal causa do alvoroço e do reboliço;

Eis que ali entra um cavaleiro que trazia

Armas e cavalo prontos para o guerreiro serviço;

Fala com o rei e com as damas e logo vai

Para junto dos onze, pois era o “Magriço”.

Abraça os companheiros e amigos

A quem, certamente, não faltaria nos perigos.





«A dama, como ouviu que este era aquele

Que vinha a defender seu nome e fama,

Se alegra e veste ali do animal de Hele,

Que a gente bruta mais que virtude ama.

Já dão sinal, e o som da tuba impele

Os belicosos ânimos, que inflama;

Picam d'esporas, largam rédeas logo,

Abaxam lanças, fere a terra fogo;



63o A dama quando ouviu que era aquele

Que vinha para defender o seu nome e sua fama,

Alegra-se e se veste com a pele do animal de Hele (1),

Que a pessoa rude, mais até que a virtude, tanto ama.

Logo soa o sinal e o som da trombeta impele

O ânimo guerreiro, que logo se inflama;

Espetam as esporas, largam as rédeas logo,

Abaixam as lanças e a terra é ferida com o fogo.



1- Referência ao carneiro com lã de ouro que transportava Hele em sua fuga, até que caiu e morreu no Estreito de Quersoneso.



«Dos cavalos o estrépito parece

Que faz que o chão debaixo todo treme;

O coração no peito que estremece

De quem os olha, se alvoroça e teme.

Qual do cavalo voa, que não dece;

Qual, co cavalo em terra dando, geme;

Qual vermelhas as armas faz de brancas;

Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.



64o O estrépito que os cavalos fazem parece

Que revolve o chão, que se abala e treme,

O coração do público, ali presente, estremece,

Pois quem vê tal combate se alvoroça e teme.

Um, voa do cavalo e não apenas desce;

Outro, com o cavalo caindo por terra, geme;

E outro, torna vermelhas as armas brancas;

Outro, com os penachos do elmo, surra as ancas.



«Algum dali tomou perpétuo sono

E fez da vida ao fim breve intervalo;

Correndo, algum cavalo vai sem dono,

E noutra parte o dono sem cavalo.

Cai a soberba Inglesa de seu trono,

Que dous ou três já fora vão do valo.

Os que de espada vêm fazer batalha,

Mais acham já que arnês, escudo e malha.



65o Um dos cavaleiros recebeu, ali, o perpétuo sono,

E para o fim da vida foi um breve intervalo;

Um cavalo dispara correndo sem o dono,

E noutra parte é o dono que corre sem o cavalo.

A arrogância inglesa cai do seu trono,

Pois uns dois ou três logo vão para o valo.

Aqueles que com a espada vieram fazer a batalha,

Nos lusos acharam mais que simples armadura e malha.



«Gastar palavras em contar extremos

De golpes feros, cruas estocadas,

É desses gastadores, que sabemos,

Maus do tempo, com fábulas sonhadas.

Basta, por fim do caso, que entendemos

Que com finezas altas e afamadas,

Cos nossos fica a palma da vitória

E as damas vencedoras e com glória.



66o Mas gastar tempo com detalhes extremos,

Sobre o furor dos golpes e das estocadas,

É próprio desses contadores, que conhecemos,

Perdulários do tempo e suas fábulas desvairadas.

Basta que simplesmente nós contemos

Que graças a proezas valentes e arriscadas,

Com os nossos patrícios ficou a vitória,

As damas vencedoras, a honra e a glória.



«Recolhe o Duque os doze vencedores

Nos seus paços, com festas e alegria;

Cozinheiros ocupa e caçadores,

Das damas e fermosa companhia,

Que querem dar aos seus libertadores

Banquetes mil, cada hora e cada dia,

Enquanto se detêm em Inglaterra,

Até tornar à doce e cara terra.



67o O duque acolhe os doze vencedores

No seu palácio, com festas e com muita alegria;

Ocupa os cozinheiros e os caçadores

E das damas requer a formosa companhia,

As quais querem dar aos seus libertadores

Banquetes e festas a toda hora e todo dia,

Enquanto eles permanecem na Inglaterra,

Antes de retornarem à doce e cara terra.



«Mas dizem que, contudo, o grão Magriço,

Desejoso de ver as cousas grandes,

Lá se deixou ficar, onde um serviço

Notável à Condessa fez de Frandes;

E, como quem não era já noviço

Em todo trance onde tu, Marte, mandes,

Um Francês mata em campo, que o destino

Lá teve de Torcato e de Corvino.



68o Contudo, dizem que o grande “Magriço”,

Ansioso por proezas perigosas e grandes,

Por lá se deixou ficar, onde fez um serviço

Notável à condessa de Frandes (1).

E como já não era apenas um noviço

Vai para todas as guerras que se lhe demande;

Vence um francês no campo, onde quis o Destino,

Que lá também estivessem Torcato (2) e Corvino (3).



1- Frandes: região entre a França e a Bélgica.

2- Torcato: epíteto de Tito Mânlio, general romano que matou um gaulês gigantesco em duelo, passando a adornar-se com o colar (torques) do adversário.

3- Corvino: Marco Valério, assim chamado porque um corvo o auxiliou num duelo contra um gaulês.



«Outro também dos doze em Alemanha

Se lança e teve um fero desafio

Cum Germano enganoso, que, com manha

Não devida, o quis pôr no extremo fio.»

Contando assi Veloso, já a companha

Lhe pede que não faça tal desvio

Do caso de Magriço e vencimento,

Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.



69o Outro dos “Doze da Inglaterra”, na Alemanha,

Arrisca-se e enfrenta um duro desafio

Contra um alemão enganoso, que, com artimanha,

Quis derrotá-lo e cortar de sua vida, o precioso fio.

Assim ia falando Veloso sobre aquela campanha,

Mas os marujos lhe pedem que não faça desvio

Do caso do “Magriço” e do seu merecimento,

Porém, sem deixar o da Alemanha, no esquecimento.



Mas neste passo, assi prontos estando,

Eis o mestre, que olhando os ares anda,

O apito toca: acordam, despertando,

Os marinheiros düa e doutra banda.

E, porque o vento vinha refrescando,

Os traquetes das gáveas tomar manda.

- «Alerta (disse) estai, que o vento crece

Daquela nuvem negra que aparece! »



70o Mas nesse momento, com todos escutando,

O mestre, que olhando os ares anda,

Toca o apito e saltam despertando,

Os marinheiros duma e doutra banda.

E, como o vento vinha esfriando,

Que subam para as gáveas o mestre manda

E que fiquem alertas, disse, pois o vento cresce,

Vindo daquela nuvem negra, segundo lhe parece.



Não eram os traquetes bem tomados,

Quando dá a grande e súbita procela.

- «Amaina (disse o mestre a grandes brados),

Amaina (disse), amaina a grande vela!»

Não esperam os ventos indinados

Que amainassem, mas, juntos dando nela,

Em pedaços a fazem cum ruído

Que o Mundo pareceu ser destruído!



71o Nem bem os traquetes (1) eram tomados,

Quando chega a grande e inesperada procela (2).

- Recolham, grita o mestre em altos brados,

Recolham, insistia, a grande vela!

Mas não esperaram os ventos insuflados

Que a recolhessem e todos juntos sopram nela,

Fazendo-a em pedaços com tanto ruído

Que parecia que o Mundo estava sendo destruído.



1- Traquetes: vela redonda no pé do mastro.

2- Procela: violenta tempestade marítima.



O céu fere com gritos nisto a gente,

Cum súbito temor e desacordo;

Que, no romper da vela, a nau pendente

Toma grão suma d'água pelo bordo.

- «Alija (disse o mestre rijamente),

Alija tudo ao mar, não falte acordo!

Vão outros dar à bomba, não cessando;

À bomba, que nos imos alagando!»



72o O Céu era ferido pelos gritos da gente,

Assolada por súbito temor e muito desacordo;

Pois, com a quebra da vela, a nau ficou pendente

Recebendo muita água a bombordo.

Joguem, disse o mestre energicamente,

Joguem tudo ao mar, façam tudo de acordo!

Ordena também que usem a bomba e não parando

Ele dizia: rápido! Rápido! Pois estamos afundando.



Correm logo os soldados animosos

A dar à bomba; e, tanto que chegaram,

Os balanços que os mares temerosos

Deram à nau, num bordo os derribaram.

Três marinheiros, duros e forçosos,

A menear o leme não bastaram;

Talhas lhe punham, düa e doutra parte,

Sem aproveitar dos homens força e arte.



73o Logo vão alguns marujos valorosos

Para as bombas; mas logo que chegaram,

Os balanços do mar ficaram tão poderosos

Que balançando toda a nau, os derrubaram.

Três marinheiros, rijos e corajosos,

Para guiar o leme não bastaram;

Obstáculos surgiam numa e noutra parte,

Tornando insuficientes as humanas força e arte.



Os ventos eram tais que não puderam

Mostrar mais força d'ímpeto cruel,

Se pera derribar então vieram fortíssima

Torre de Babel, os altíssimos mares, que creceram,

A pequena grandura dum batel

Mostra a possante nau, que move espanto,

Vendo que se sustém nas ondas tanto.



74o Os ventos eram tão fortes que não puderam

Mostrar mais força e ímpeto cruel,

Nem mesmo quando vieram

Para derrubar a Torre de Babel.

Nas altíssimas ondas, que mais cresceram,

Parecia-se com um minúsculo batel (1)

A possante nau e o que causava espanto,

É que ainda assim, agüentasse tanto.



1- Batel: pequeno barco. Bote.



A nau grande, em que vai Paulo da Gama,

Quebrado leva o masto pelo meio,

Quási toda alagada; a gente chama

Aquele que a salvar o mundo veio.

Não menos gritos vãos ao ar derrama

Toda a nau de Coelho, com receio,

Conquanto teve o mestre tanto tento

Que primeiro amainou que desse o vento.



75o A grande nau, em que vai Paulo da Gama,

Tinha o mastro quebrado ao meio

E quase toda alagada; a tripulação já clama

Por Jesus, que para salvar o Mundo veio.

Não são menores os gritos que esparrama

A tripulação da nau de Coelho, cheia de receio.

Embora, nela, o mestre sábio e atento,

Tivesse recolhido as velas, antes do vento.



Agora sobre as nuvens os subiam

As ondas de Neptuno furibundo;

Agora a ver parece que deciam

As íntimas entranhas do Profundo.

Noto, Austro, Bóreas, Áquilo, queriam

Arruinar a máquina do Mundo;

A noite negra e feia se alumia

Cos raios em que o Pólo todo ardia!



76o Numa hora parece que nas nuvens subiam,

Empurrados pelas ondas de Netuno (1) furibundo;

Noutra hora, parece que eles desciam

Até as entranhas do Inferno Profundo.

O Noto, o Austro, o Bóreas e o Áquilo (2) queriam

Destruir os lusitanos e o resto do Mundo;

A noite escura e feia só era iluminada

Pelos raios no céu, parecendo uma tocha inflamada.



1 – Netuno: o deus do Mar. Aqui, a personificação do próprio Mar.

2 – Noto, Austro, Bóreas, Áquilo: os ventos.



As Alciónias aves triste canto

Junto da costa brava levantaram,

Lembrando-se de seu passado pranto,

Que as furiosas águas lhe causaram.

Os delfins namorados, entretanto,

Lá nas covas marítimas entraram,

Fugindo à tempestade e ventos duros,

Que nem no fundo os deixa estar seguros.



77o As Alciônias (1), aves de triste canto,

Da costa assolada se levantaram,

Lembrando de seu passado pranto,

Que outras águas furiosas lhes causaram.

Os amáveis golfinhos deixaram aquele canto

E nas cavernas marítimas entraram,

Fugindo da tempestade e dos ventos duros,

Mas nem ali eles se sentiam seguros.



1- Alciônias: ave marinha, também chamada de maçarico ou pica-peixe.



Nunca tão vivos raios fabricou

Contra a fera soberba dos Gigantes

O grão ferreiro sórdido que obrou

Do enteado as armas radiantes;

Nem tanto o grão Tonante arremessou

Relâmpados ao mundo, fulminantes,

No grão dilúvio donde sós viveram

Os dous que em gente as pedras converteram.



78o Raios tão ferozes, Vulcano nunca fabricou

Contra a arrogância dos Gigantes (1);

O grande Deus ferreiro (2) nunca preparou,

Para o seu enteado (3), armas mais possantes;

Nem o Tonante (4) tantos raios nunca arremessou

No mundo como os de agora, poderosos e fulminantes;

Nem no grande Dilúvio, quando só dois sobreviveram, (5)

Os quais (5), em gente, as pedras converteram.



1- Gigantes: filhos da Terra que tentaram chegar ao Olimpo.

2-Ferreiro: Vulcano deus dos metais e do fogo.

3- Enteado: Aquiles, filho de Peleu e de Tétis.

4- Tonante: Júpiter.

5- Deucalião e Pirra: Zeus quis destruir os homens da idade de bronze, pois eles estavam perdidos em vícios. Assim, enviou um grande dilúvio, que deveria poupar apenas dois justos: Deucalião e Pirra. A conselho de Prometeu o casal construiu uma arca onde durante nove dias e nove noites flutuaram sobre as águas do dilúvio. Acabaram por encalhar nas montanhas da Tessália. Terminada a inundação, Zeus enviou-lhes Hermes e lhes concedeu a satisfação de um desejo. Deucalião desejou companheiros e lhe foi ordenado que atirasse para trás, por sobre os ombros, os ossos de sua mãe. Pirra se horrorizou com essa impiedade, mas Deucalião compreendeu que se tratava das pedras, os ossos da

Terra, que é a mãe universal. Atiraram as pedras e das que Decalião atirou nasceram os Homens e das que Pirra atirou as mulheres. Ambos viveram por muitos anos e tiveram vários descendentes. O Dilúvio Bíblico, para vários eruditos, é uma mera cópia dessa história.



Quantos montes, então, que derribaram

As ondas que batiam denodadas!

Quantas árvores velhas arrancaram

Do vento bravo as fúrias indinadas!

As forçosas raízes não cuidaram

Que nunca pera o céu fossem viradas

Nem as fundas areias que pudessem

Tanto os mares que em cima as revolvessem.



79o Vários montes as ondas derrubaram

Ao baterem nos rochedos, loucas e desvairadas!

Velhas árvores as fúrias dos ventos arrancaram

Com as suas forças terríveis e tresloucadas!

As poderosas raízes nunca imaginaram

Que um dia, para o céu, fossem viradas,

E nem as areias do fundo do mar que pudessem

Ser remexidas; e que tais poderes as ondas tivessem.



Vendo Vasco da Gama que tão perto

Do fim de seu desejo se perdia,

Vendo ora o mar até o Inferno aberto,

Ora com nova fúria ao Céu subia,

Confuso de temor, da vida incerto,

Onde nenhum remédio lhe valia,

Chama aquele remédio santo e forte

Que o impossíbil pode, desta sorte:



80o Vasco da Gama, vendo que tão perto

De se concretizar o seu projeto se perdia,

Pois ora descia com o mar até o Inferno aberto,

Ora, com a fúria do mar, até ao céu subia,

Confuso e amedrontado, de viver incerto,

Pois nenhuma outra ajuda lhe valia,

Chama aquele auxilio santo e forte

Que tudo pode, clamando alto e forte:



- «Divina Guarda, angélica, celeste,

Que os céus, o mar e terra senhoreias:

Tu, que a todo Israel refúgio deste

Por metade das águas Eritreias;

Tu, que livraste Paulo e defendeste

Das Sirtes arenosas e ondas feias,

E, guardaste, cos filhos, o segundo

Povoador do alagado e vácuo mundo:



81o – Guarda Divina, angelical e celeste,

Que tudo rege com sábio conselho:

Tu, que ao povo de Israel refúgio deste,

Abrindo-lhes as águas do Mar Vermelho;

Tu, que livrastes Paulo (1) e o defendeste

Das Sirtes (2) cruel armadilha e aparelho,

E guardaste, junto de seus filhos, o segundo

Povoador (3) do inundado e vazio Mundo:



1- Paulo: São Paulo, apóstolo dos gentios, que quando vinha preso de Jerusalém para Roma, sofreu com grandes tempestades no mar.

2- Sirtes: perigosos bancos de areia para a navegação, situados na costa de Tunes e de Trípoli.

3- Referência a Noé.



«Se tenho novos medos perigosos

Doutra Cila e Caríbdis já passados,

Outras Sirtes e baxos arenosos,

Outros Acroceráunios infamados;

No fim de tantos casos trabalhosos,

Porque somos de Ti desempatados,

Se este nosso trabalho não te ofende,

Mas antes teu serviço só pretende?



82o Se tanto temor e lugares perigosos,

De outras Cila (1) e Caridbis (1) tenho passado,

E enfrentado outras Sirtes (2) e bancos arenosos,

Outro Acroceráunio (3) tristemente lembrado,

Por que no fim de tantos fatos trabalhosos,

Por ti nós somos desamparados?

Veja: esta nossa expedição não te ofende,

Pois só servir ao teu Santo Nome pretende?



1- Cila e Caríbdis: monstros que simbolizavam os perigos que as naus enfrentam.

2- Sirtes: bancos de areia perigosos para a navegação, situados na Costa de Tunes e de Trípoli.

3- Acroceráunios: montes do Epiro que terminam no Cabo Acroceráunio, famosos pelos perigos que representam para a navegação.



«Oh ditosos aqueles que puderam

Entre as agudas lanças Africanas

Morrer, enquanto fortes sustiveram

A santa Fé nas terras Mauritanas;

De quem feitos ilustres se souberam,

De quem ficam memórias soberanas,

De quem se ganha a vida com perdê-la,

Doce fazendo a morte as honras dela!»



83o Oh! Felizes foram aqueles que puderam

Entre as afiadas lanças africanas

Morrer, enquanto corajosamente mantiveram

A fé cristã nas terras Maometanas!

Deles, as ilustres proezas todos souberam,

As quais ficaram as memórias soberanas,

Como ocorre quando se enobrece a vida ao perdê-la,

Tornando doces a morte e as honras dela.



Assi dizendo, os ventos, que lutam

Como touros indómitos, bramando,

Mais e mais a tormenta acrecentavam,

Pela miúda enxárcia assoviando.

Relâmpados medonhos não cessavam,

Feros trovões, que vêm representando

Cair o Céu dos eixos sobre a Terra,

Consigo os Elementos terem guerra.



84o Enquanto ia dizendo, os ventos que lutavam

Como indomáveis touros, urrando,

Continuamente as tormentas aumentavam,

E atravessavam pelas cordas assoviando.

Relâmpagos medonhos não cessavam,

Ferozes trovões iam representando

Que o céu caia de seus eixos sobre a terra,

E que os Elementos, entre si, travavam guerra.



Mas já a amorosa Estrela cintilava

Diante do Sol claro, no horizonte,

Mensageira do dia, e visitava

A terra e o largo mar, com leda fronte.

A Deusa que nos Céus a governava,

De quem foge o ensífero Orionte,

Tanto que o mar e a cara armada vira,

Tocada junto foi de medo e de ira.



85o Porém, a formosa Estrela (1) já cintilava

Na frente do claro Sol, no horizonte,

Pois sendo a mensageira do dia, visitava

A terra e o vasto mar, com a feliz fronte.

A deusa (2) que no céu a governava,

De quem se afasta o ensífero Orionte (3),

A terrível violência do mar assistira

E acorreu apressada, com medo e ira.



1- A Estrela Dalva. Na verdade, o planeta Vênus, que aparece no nascente, pouco antes do amanhecer.

2- Deusa: Vênus, deusa da beleza e do amor. Nos Lusíadas, é a protetora dos portugueses.

3- Orionte: constelação do hemisfério Sul (Órion). É representada por um homem com uma espada, daí o “ensífero”.



- «Estas obras de Baco são, por certo

(Disse), mas não será que avante leve

Tão danada tenção, que descoberto

Me será sempre o mal a que se atreve.»

Isto dizendo, dece ao mar aberto,

No caminho gastando espaço breve,

Enquanto manda as Ninfas amorosas

Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.



86o Estas tempestades são de Baco, por certo,

Disse; mas não permitirei que avante leve

A sua malévola intenção, pois descoberto

Será todo o mal a que ele se atreve.

Isto dizendo, desce para o mar aberto

Com tal rapidez que chega em breve,

E manda que as ninfas amorosas

Ornem-se com as grinaldas de rosas.



Grinaldas manda pôr de várias cores

Sobre cabelos louros a porfia.

Quem não dirá que nacem roxas flores

Sobre ouro natural, que Amor enfia?

Abrandar determina, por amores,

Dos ventos a nojosa companhia,

Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,

Que mais fermosas vinham que as estrelas.



87o E que ponham grinaldas de várias cores

Sobre os seus louros cabelos e sigam para a porfia,

E quem dirá que não nascem rubras flores

No dourado, se é o próprio Cupido que as enfia?

A deusa Vênus quer abrandar com amores,

A imensa força das ondas e a horrível ventania,

Contando para isso com as suas ninfas, tão belas

Quanto as mais formosas e brilhantes estrelas.





Assi foi; porque, tanto que chegaram

À vista delas, logo lhe falecem

As forças com que dantes pelejaram,

E já como rendidos lhe obedecem;

Os pés e mãos parece que lhe ataram

Os cabelos que os raios escurecem.

A Bóreas, que do peito mais queria,

Assi disse a belíssima Oritia:



88o E assim aconteceu; pois tão logo chegaram,

Ao vê-las, os ventos enfraqueceram;

E as forças com que antes pelejaram,

Já não mais lhes obedeceram.

Pareceu-lhes que os pés e as mãos as ninfas lhes amarraram

Com os seus lindos cabelos, que até aos raios escureceram.

Ao vento Bóreas, que de coração era quem mais a queria,

Assim disse a belíssima princesa Oritia (1):



1- Oritia: filha de um rei de Atenas, raptada pelo vento Bóreas.



- «Não creias, fero Bóreas, que te creio

Que me tiveste nunca amor constante,

Que brandura é de amor mais certo arreio

E não convém furor a firme amante.

Se já não pões a tanta insânia freio,

Não esperes de mi, daqui em diante,

Que possa mais amar-te, mas temer-te;

Que amor, contigo, em medo se converte.»



89o Não acredites feroz Bóreas, que eu creio

Que sempre me tiveste amor constante,

Pois a suavidade no amor é o mais certo esteio

E não convém tanto furor para um amante.

Se tu não puseres a essa loucura imediato freio,

Não espere de mim, daqui para adiante,

Que eu possa te amar, mas apenas temer-te;

Pois o meu amor para ti, em medo se converte.





Assi mesmo a fermosa Galateia

Dizia ao fero Noto, que bem sabe

Que dias há que em vê-la se recreia,

E bem crê que com ele tudo acabe.

Não sabe o bravo tanto bem se o creia,

Que o coração no peito lhe não cabe;

De contente de ver que a dama o manda,

Pouco cuida que faz, se logo abranda.



90o O mesmo dizia a bela Galateia (1)

Ao feroz vento Noto, pois bem sabe

Que só por vê-la, o seu coração se recreia,

E teme que este grande prazer se acabe.

Ele, que não sabia que ela lhe queria, agora receia

Magoar-lhe, pois o seu apaixonado coração mal cabe

No peito e só lhe importa o amor que ela lhe manda,

E assim abandona o que fazia e logo se abranda.



1- Galatéia: Nereida amada por Polifemo, o gigante ludibriado por Ulisses, na “Odisséia” de Homero. Em “Os Lusíadas”, Camões estende esse amor ao vento Noto.







Desta maneira as outras amansavam

Subitamente os outros amadores;

E logo à linda Vénus se entregavam,

Amansadas as iras e os furores.

Ela lhe prometeu, vendo que amavam,

Sempiterno favor em seus amores,

Nas belas mãos tomando-lhe homenagem

De lhe serem leais esta viagem.



91o E deste modo, também os outros amansavam.

Rapidamente os ventos ameaçadores

À linda deusa Vênus se entregavam,

Mansos e dóceis, sem iras ou furores;

Ela lhes prometeu, vendo o quanto amavam

As ninfas, favores eternos em seus amores,

E eles prestaram-lhe sincera homenagem,

Prometendo favores aos lusos durante viagem.





Já a manhã clara dava nos outeiros

Por onde o Ganges murmurando soa,

Quando da celsa gávea os marinheiros

Enxergaram terra alta, pela proa.

Já fora de tormenta e dos primeiros

Mares, o temor vão do peito voa.

Disse alegre o piloto Melindano:

- «Terra é de Calecu, se não me engano.



92o Já a clara manhã iluminava os outeiros

Por onde, murmurando, o rio Ganges ecoa,

Quando da elevada gávea os marinheiros

Enxergaram altas terras, pela proa.

Já livres da tormenta e dos primeiros

Mares, o inútil temor do peito voa.

Alegremente disse o piloto melindano (1):

- Aquela é Calecu (2), se não me engano.



1- Melindano: natural de Melinde, na costa oriental da África.

2- Calecu: cidade na costa ocidental da Índia. A primeira em que Vasco da Gama desembarcou em 20 de maio de 1498.







«Esta é, por certo, a terra que buscais

Da verdadeira Índia, que aparece;

E se do mundo mais não desejais,

Vosso trabalho longo aqui fenece.»

Sofrer aqui não pôde o Gama mais,

De ledo em ver que a terra se conhece;

Os giolhos no chão, as mãos ao Céu,

A mercê grande a Deus agardeceu.



93o Certamente é esta a terra que buscais,

A verdadeira Índia que nos aparece;

E se do Mundo nada mais desejais,

Aqui, o vosso sofrimento desaparece.

Vasco da Gama não pôde suportar mais,

De tão feliz, pela a terra que ainda desconhece:

Dobra os joelhos e ergue as mãos para o céu

Por aquela enorme graça; e a Deus agradeceu.



As graças a Deus dava, e razão tinha,

Que não somente a terra lhe mostrava

Que, com tanto temor, buscando vinha,

Por quem tanto trabalho exprimentava,

Mas via-se livrado, tão asinha,

Da morte, que no mar lhe aparelhava

O vento duro, férvido e medonho,

Como quem despertou de horrendo sonho.



94o Dava graças a Deus e isso bem convinha,

Pois Ele, não só a terra lhe mostrava,

A qual, com tanto temor, buscando vinha,

E pela qual tanta dificuldade enfrentava,

Como também o salvara da vizinha

Morte que o mar há pouco lhe preparava,

Com ondas colossais e um vento medonho.

Aliviado, como quem acorda de horrível sonho.



Por meio destes hórridos perigos,

Destes trabalhos graves e temores,

Alcançam os que são de fama amigos

As honras imortais e graus maiores;

Não encostados sempre nos antigos

Troncos nobres de seus antecessores;

Não nos leitos dourados, entre os finos

Animais de Moscóvia zibelinos;



95o Por meio de terríveis perigos,

De dificuldades, origem de tantos temores,

Alcançam fama quem dos desafios são amigos,

Bem como honras imortais, fortunas e amores;

Nunca se acomodam, nem se encostam aos antigos

Êxitos de seus antepassados ou antecessores;

Nem nos dourados leitos, entre os grã-finos

Inúteis, com suas peles dos animais zibelinos.



1- Zibelinos: uma espécie de Marta, animal do norte da Europa e da Ásia, produtora de uma das mais valiosas peles.



Não cos manjares novos e esquisitos,

Não cos passeios moles e ouciosos,

Não cos vários deleites e infinitos,

Que afeminam os peitos generosos;

Não cos nunca vencidos apetitos,

Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,

Que não sofre a nenhum que o passo mude

Pera algüa obra heróica de virtude;



96o Não são com manjares novos e esquisitos,

Nem com passeios suaves e ociosos,

Sequer com deleites variados e infinitos

Que afeminam os corações pouco corajosos,

Nem com os apetites, sórdidos e malvistos,

Que a sorte sempre tem como graciosos,

Que se deve esperar que a atitude mude

E que surja alguma proeza de real virtude:





Mas com buscar, co seu forçoso braço,

As honras que ele chame próprias suas;

Vigiando e vestindo o forjado aço,

Sofrendo tempestades e ondas cruas,

Vencendo os torpes frios no regaço

Do Sul, e regiões de abrigo nuas,

Engolindo o corrupto mantimento

Temperado com um árduo sofrimento;



97o Mas sim com a busca e com o valioso braço,

É que se conquistam as honras, realmente suas;

Sempre atento e disposto a vestir o duro aço,

Enfrentando as tempestades e as ondas cruas,

Vencendo o congelante frio no sombrio regaço

Do sul, e as regiões que de abrigos são nuas;

Engolindo o deteriorado alimento

Temperado com árduo sofrimento;



E com forçar o rosto, que se enfia,

A parecer seguro, ledo, inteiro,

Pera o pelouro ardente que assovia

E leva a perna ou braço ao companheiro.

Destarte o peito um calo honroso cria,

Desprezador das honras e dinheiro,

Das honras e dinheiro que a ventura

Forjou, e não virtude justa e dura.



98o É oferecendo o bravo o rosto, que desafia,

Parecendo estar seguro, alegre e inteiro,

À bomba ardente que passa e que assovia

E arranca a perna ou o braço do companheiro.

Assim, no coração, um calo honroso se cria,

Que o faz desprezar honras e dinheiro,

Bens fortuitos que a sorte e não a aventura

Forjou; falsos, por não virem da virtude pura.



Destarte se esclarece o entendimento,

Que experiências fazem repousado,

E fica vendo, como de alto assento,

O baxo trato humano embaraçado.

Este, onde tiver força o regimento

Direito e não de afeitos ocupado,

Subirá (como deve) a ilustre mando,

Contra vontade sua, e não rogando.

99o Dessa forma se esclarece o bom entendimento,

De porque tais experiências fazem o herói sossegado.

Apenas vendo, como se estivesse num elevado assento,

O medíocre comportamento humano, tão embaraçado.

Este Ser evoluído, onde quer que haja o sentimento

Da virtude real e não o do engodo apressado,

Subirá (como deve) ao ilustre comando,

Mesmo contra vontade e sem ficar rogando.