sábado, 5 de maio de 2012

Filosofia Moderna e Contemporânea - MULHERES e a Filosofia - Julia Kristeva, Marta Naussbaum, Hèléne Cixoux e Ain Radn.,


MULHERES e a FILOSOFIA – A Feminilidade e o Feminismo – Julia Kristeva, Marta Naussbaum e Hèléne Cixoux, Ain Rand.

Há uma censura recorrente feita às Antologias sobre Filosofia acerca da ausência das mulheres filósofas. De fato, é uma ausência marcante, mas, como no caso presente, o motivo não vem de uma eventual misoginia dos autores, mas de uma ausência do sexo feminino nessa área.

Claro que não por lhes faltar inteligência para desenvolver o tema, mas talvez um distanciamento pela aridez da matéria e por imposição de um modelo machista de literatura que as distanciou das lides filosóficas nos anos mais recentes, assim como na Antiguidade. Certamente que os donos do Poder temiam que ao avanço no estudo e no desenvolvimento do Pensamento Filosófico correspondesse à indagação e o questionamento sobre o motivo de serem elas tratadas como Seres secundários.

Felizmente esse obscuro hiato está terminado e o que se vê é o desejável avanço de mulheres extremamente cultas e inteligentes que não se furtam de militar nas hostes do Pensamento Superior e de buscar a felicidade para O Homem, independente do seu gênero.

Não cometeremos injustiça ao citarmos Simone de Beauvoir como a iniciadora dessa escalada filosófica feminina. Autora do importantíssimo “O Segundo Sexo”, de 1941, coube à Existencialista francesa resgatar às mulheres a condição de agente do pensamento, que mentes obscuras lhes surrupiaram desde os princípios dos tempos. A ela dedicamos um capítulo especial em nosso trabalho e, aqui, renovamos nossa homenagem por sua inteligência, cultura e arrojo.

No presente Ensaio destacaremos os Pensamentos de quatro Pensadoras, cuja temática pode parecer repetitiva à primeira vista, mas que quando olhada com mais cuidado revela toda uma gama de pensamentos que extravasam em muito os assuntos que originariamente os misóginos de todos os tempos poderiam esperar. Vale a pena conhecê-las.

AYN RAND – o OBJETIVISMO
1905 – 1982

Russa por nascimento e estadunidense por opção desde 1926, a filosofa e escritora Ayn Rand através de seu Romance “A Nascente”, de 1943, tornou célebre as suas indagações filosóficas.

Pode-se, inclusive, dizer que foi de sua autoria o “Sistema Filosófico” chamado de “Objetivismo” onde ela contesta a ideia de “dever moral”, (ou seja, de que o Homem vive para promover o bem-estar do próximo; que sua existência só é considerada moralmente correta se ele dedicar seu tempo e seus melhores esforços para promover o progresso e a felicidade do outro) como a liga que permite a convivência em Sociedade e o objetivo superior, ou filosófico, que todos devem buscar. Embora seja uma ideia cara aos Cristãos (ama o próximo como a ti mesmo) e a alguns Socialistas utópicos, a realidade demonstra a distância que há entre esta utopia e a crua realidade do cotidiano. E é, justamente esse realismo, que AIN utiliza para desenvolver o seu Sistema. Desse modo, podemos resumir o OBJETIVISMO conforme as suas seguintes afirmativas:

1º - o Objetivo Moral de cada um é atingir a sua própria felicidade; e só não se avança sobre Direitos alheios por temor às Leis, já que as punições interfeririam na felicidade buscada.

2º - A Realidade, o Mundo Físico, existe independente da Consciência do Homem; e este tem contato direto com essa realidade através de seus Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) e da Formação de Conceitos oriundos da Lógica Dedutiva e Indutiva.

3º - Um Sistema Social que sempre deverá ser buscado será o que premie a Propriedade, a Liberdade, o Respeito às Leis etc., o seja o Capitalismo (laissez-faire) com respeito aos Direitos do Homem.

4º - a função da Arte, no capitulo da Estética, é transformar as Ideias Metafísicas e Abstratas em formas que sejam reconhecíveis e inelegíveis.

Através de resumo, o leitor (a) viu que grande parte de seu Pensamento encontra parentesco com afirmativas do Materialismo, do Pragmatismo, do Utilitarismo e de outras formas que o Pensamento estadunidense geralmente assume. Alguns eruditos, inclusive, negam-lhe qualquer originalidade por conta dessas semelhanças, mas o fato é que ele os colocou em um Sistema fechado e próprio e tornou-se, por isso, a justa autora do mesmo.


MARTA NAUSSBAUM
1947

Nova-iorquina, Marta ostenta o honroso titulo de ERNST FREUND DISTINGUISHED SERVICE PROFESSOR OF LAW AND ETHICS na Universidade de Chicago. Um justo reconhecimento pelo seu apaixonado liberalismo e pelo alto rigor ético com que conduz suas pesquisas sobre a Moral e a Ética na Grécia Clássica e o Ativismo Político.

Em 1986, Marta publicou sua obra mais importante até o momento, a “Fragilidade da Bondade”, a qual lhe deu celebridade nacional e internacional. Suas outras pesquisas sobre a Filosofia Política e sobre a Ética renderam outras inúmeras publicações que acrescentaram vigor ao reconhecimento que lhe é prestado.

Suas atuações nas questões Feministas, onde atua com grande viés liberal, também são aclamadas pela Critica e pelo Público, particularmente por sua defesa serena, mas firme, da necessidade de alterações radicais nas relações familiares, mormente nas existentes entre homens e mulheres.

Todavia, a par das aclamações a que faz jus, a filósofa encontra alguma resistência em setores sérios do Pensamento que criticam a posição que lhe deram (ou que ela se deu), de ser a “pioneira” na união entre a Filosofia Clássica e o Ativismo e Engajamento Político, com o qual se propôs a criar um novo padrão do que é “certo ou errado” em termos de comportamento, pensamento e ação. Um “novo politicamente correto”. Talvez mais erudito que o outro, mas tão tolo quanto.

Seus críticos atacam justamente essa pretensão de estipular normas como se pudesse ter em si o completo discernimento do que é virtuoso, ou não. E de buscar mudar o Mundo a todo custo, fazendo desse desejo a desculpa para sua “arrogância” em determinar os caminhos a serem seguidos.

Nada, contudo, que apague o brilho de quem produziu a quantidade e a qualidade das obras com que brindou a Cultura do Mundo.


JULIA KRISTEVA
1941
Quem representa Deus no Feminismo de Hoje?

No século XVIII, mais precisamente em 1792, Mary Wollstonecraft, iniciou um sério debate sobre os papéis que as mulheres estavam (e ainda estão) condicionadas a prestar na Sociedade.

Na ocasião o tema não teve grande apelo popular e quase que houve um acomodamento na questão, por conta daqueles que associaram as funções consideradas “femininas” com supostas características físicas e emocionais da “mulher padrão”. Assim, não faltaram, por exemplo, as “enfermeiras” que o eram por conta da “natural inclinação feminina para cuidar do próximo”. Ou “donas-de-casa” que, assim realizavam o “atávico desejo feminino de cuidar da toca, da caverna”. Várias outras sandices poderiam ser citadas aqui, mas seria um desperdício de tempo. O fato é que, aparentemente e por certo tempo, pensou-se resolvida a questão.

Porém, com o advento da 1ª Guerra e, principalmente, com o da 2ª Guerra, essa falácia de “papéis naturais” soçobrou e voltaram a serem colocados em evidência os legítimos anseios das mulheres de se realizarem profissionalmente e pessoalmente, da maneira que melhor lhes aprouvesse. E essa nova bandeira foi erguida pelo novo Feminismo que emergiu com vigor e aparentemente de forma definitiva, ainda que surjam focos de dissidências e de resistências em algumas Sociedades.

Contudo, mesmo naquelas onde a opressão à mulher é mais incisiva e escandalosa, já se assiste algum progresso e certa liberalização de costumes que seriam impensáveis há poucos anos atrás. As cenas de mulheres vestindo véus e/ou burkas obrigatórias e disputando uma partida de futebol, ou dirigindo um táxi ilustram bem esse momento. E talvez a perenidade do Movimento.

Em 1949, Simone de Beauvoir publicou “O Segundo Sexo” e a erudição do texto, aliada à popularidade da Filósofa Existencialista, tornou-o o livro basilar do Movimento Feminista que veio eclodir com maior magnitude nas décadas de 1960 e 1970.
Nele, e talvez o mais importante, foi a denúncia que fez a autora sobre o erro brutal de ter-se eleito um gênero, o Masculino, como o padrão a ser seguido. Como o paradigma perfeito. E desse equivoco ter-se avançado diretamente para o erro naturalmente sucessivo de se “conceder liberdade” apenas às mulheres que adotassem o comportamento masculino.

Seguindo uma Linha de Pensamento que apresenta algumas semelhanças com Beauvoir, na atualidade encontramos Julia Kristeva, cujo temor explícito é que o Feminismo adote algum, ou todos os erros do Machismo, que Simone apontou.

Filósofa e Psicanalista, nascida na Bulgária, Kristeva é frequentemente considerada uma das principais vozes do atual Feminismo francês e, por extensão, Mundial. Contudo, e paradoxalmente, não são poucos os que questionam se ela é, de fato, uma Pensadora Feminista. Ou qual é o formato do seu feminismo.

Tal questionamento, em verdade, não deixa de ser alimentado pela própria Julia, haja vista suas próprias dúvidas sobre a noção de Feminismo. A seu ver, o que é esse Movimento que repete as péssimas práticas do seu oposto, o Machismo?

O Feminismo, como se sabe, surgiu do conflito que as mulheres tiveram com as estruturas associadas ao domínio masculino. Por causa dessas raízes, segundo a filósofa, adotou algumas pressuposições de antes, só que agora invertidas para dar às Mulheres o predomínio que antes era dos Homens. Mas ao fazer isso, o Movimento não faz revolução alguma, limitando-se apenas a mudar os atores para representarem os mesmos papéis surrados de Dominantes e Subalternos.

Nota do Autor – não deixa de ser verdade que o Feminismo contribuiu efetivamente para dar voz e novas oportunidades às mulheres. Mas, historicamente isso é pouco se olharmos a existência de antigas colônias matriarcais ao longo da História que já cumpriram tarefas similares. O que talvez desperte a ira de Kristeva seja a ineficácia nos meios de luta e até a falta de visão estratégica que dê ao Movimento Feminista a busca por objetivos mais amplos e generosos, como o de promover a libertação efetiva de todas as mulheres e não apenas das “brancas europeias ou estadunidenses bem nascidas”. Que lutasse e vencesse práticas e crendices caducas e cruéis como, por exemplo, a extirpação forçada e a sangue-frio dos clitóris das meninas africanas, ou a obrigatoriedade do uso de véus e burkas no mundo islâmico, ou a prostituição de meninas no Brasil etc.

Kristeva, em sua militância, acredita que o Feminismo deveria submeter-se a uma severa e honesta autocrítica para justificar a legitimidade do seu anseio de ser o porta-voz do gênero feminino. É parte presente de seu discurso o temor, de que ao lutar contra o chamado “Principio do Poder Masculino” o Movimento cesse sua luta e se contente em promover apenas outra forma de Principio. Para ela, o Feminismo para alcançar a verdadeira emancipação feminina deve questionar constantemente a sua relação com o Poder masculino já instituído, e com o feminino, que deseja o mesmo, e se necessário for renunciar a crença na sua própria identidade; ou seja, deixar de se propor como o “libertador das mulheres”.

A opção por essa falta de autocrítica e de ajuste de rumo levará, segundo teme Julia, o Movimento a se transformar apenas noutra tendência, ou Corrente, no atual jogo de Poder, sem que nada o eleve do rés do chão onde rasteja a política miúda de Partidos, Sindicatos, Associações e similares.


HELENE CIXOUS
1937
Os Pensamentos em Oposição.

Em 1967 o controverso filósofo francês Jacques Derrida publicou sua obra principal, Gramatologia, onde expôs suas teses sobre o Movimento de Desconstrução que, segundo ele, poderia clarear os Conceitos e os seus inversos que formam o Pensamento e a Sociedade Humana. Alguns anos antes, o antropólogo francês Claude Lévi Strauss já apontava a existência das Oposições Binárias que permeiam as Culturas de todos os povos. Desde os intelectualizados nórdicos aos indígenas bororos brasileiros.

Em 1975 a poeta, romancista, filósofa e dramaturga francesa Hélène Cioux escreveu “Sorties” (Saídas) em que se valeu das Teorias de Lévi Strauss e de Derrida para compor sua influente versão sobre as Oposições que frequentemente são usadas para se pensar o Mundo. Para ela, uma linha que atravessa os séculos é a nossa tendência de agruparmos elementos do Mundo em pares opostos (dia/noite; razão/emoção; claro/escuro etc.) que são classificados hierarquicamente, sendo que um dos elementos é dado como Dominante, Ativo, Superior (e associado com a Masculinidade), enquanto o outro é tido como Passivo, Subalterno, Inferior (e relacionado à Feminilidade).

São modos de pensar tão inseridos no Cotidiano que acabaram ganhando status de “Verdadeiros”, “Naturais” etc. Mas essa falsa condição começou a ser Desconstruída com o surgimento do Movimento Feminista, nas décadas de 1960 e 1970, principalmente.

Nota do Autor – observe-se aqui um dado importante. Apesar de seus equívocos e limitações, essa eclosão do Feminismo teve, por si, o mérito de balançar estruturas que se imaginavam petrificadas.

Cioux acredita que a autoridade, que a validade desse padrão dicotômico “Superior = masculino/Inferior = feminino”, começou a ser desacreditado com o inicio do Movimento de Emancipação, mas ao invés de traçar uma hipótese, uma tese sobre o desenvolvimento futuro e o resultado final desse Processo ainda em andamento, ela apenas coloca dúvidas sobre o desfecho final. Sobre quais serão as consequências para os Sistemas Filosóficos, Culturais e Políticos desse embate. As resultantes dessa desconstrução de pseudo verdades.

Coerente com suas ideias ela se recusou a persistir na dualidade e, por isso, não tornou a cometer a falácia de apontar um conjunto de “Vencidos e Vencedores”. Ao contrário, ela criou a genial figura metafórica de “bilhões de marmotas, ou toupeiras, até agora desconhecidas, roendo os alicerces de vetustos edifícios”.

Desnecessário dizer que as criticas e censuras que lhe são dirigidas concentram-se nesse ponto. Afinal, de todos os hábitos que o Pensamento Humano conserva, um dos mais arraigados é o de esperar por respostas prontas.

Todavia, espera-se que, como os outros, esse costume acabe em certo momento e quando as soluções forem personalizadas e, portanto, saudavelmente relativas, o esquema de “Pensamento por Oposição” e as tantas crendices, injustiças e opressões que sempre embasou, terminem em conjunto, permitindo que os Seres Humanos busquem juntos a felicidade. Independente de terem nascidos homens ou mulheres.

São Paulo, 28 de Abril de 2012.