sexta-feira, 15 de julho de 2011

Gregas Tragédias - 14 - DIONISIACAS (bacantes)

Eurípedes – 485/406 aC.

Cenário – túmulo de Sêmele, o Palácio real e as montanhas ao redor de Tebas.

Época da ação – idade da Grécia lendária.

A 1ª apresentação em – 405 em Atenas

Personagens:

1 - Cadmo – rei de Tebas.

2 - Dionísio – Baco, em latim. O deus do vinho e da alegria.

3 - Penteu – neto e sucessor de Cadmo no trono de Tebas.

4 - Sêmele – filha de Cadmo e mãe de Dionísio.

5 - Tirésias – o adivinho.

As festas em honra ao deus Dionísio (do vinho, da alegria, da anarquia, da criatividade, da irreverência) foram as primeiras representações teatrais. Dionísio, o deus boêmio, ensejava o movimento, a alegria, a fantasia, a paixão de seus devotos; os quais, guiados por seus sacerdotes, organizavam festas ao ar-livre com danças, vinhos, mulheres na intenção de instaurar o delírio anárquico e criador, que é o principal atributo do deus da alegria desenfreada.

Entre interjeições e gritos de gozo e de celebração, flautas e cantos confusos, a multidão vestia a fantasia e brincava de ser a “corte” do deus, em seu reino de prazeres hedonistas. Desses “coros” nasceram as “Comédias” e as “Tragédias”, que descrevem o protagonista e o espectador das mesmas: o homem. Tanto os da antiguidade, quanto os da atualidade.

Seguindo essa característica, Eurípedes foca prioritariamente o Homem e não os deuses, ao contrário dos outros dois gigantes do gênero: Ésquilo e Sófocles. Aqui, Dionísio enlouquece as mulheres para vingar a memória ultrajada de sua mãe, a mortal Sêmele. Humanas e protagonistas. Penteu, também humano, enfrenta o divino Dionísio e se tem, então, a luta da Razão contra a tirania dos mitos divinos. E o divino, o mitológico só vence a disputa por intermédio de baixa astúcia e não por ter mais poder. Paradoxalmente, o mortal sobrevive, ao cabo. É a criação de Eurípedes: o Homem como deveria ser.

A encenação começa com uma cena estática: no poente, uma figura se posta ante o túmulo de Sêmele, a bela filha de Cadmo, o rei de Tebas. Sêmele, a virgem de beleza estonteante que conquistou o coração de Zeus, que a arrebatou para com ela gerar Dionísio. Sêmele que não viu o filho nascer, pois antes da efeméride, foi fulminada por um raio disparado por Hera, a ciumenta esposa e irmã do Pai dos Deuses (outra vertente diz que Sêmele morreu ao vislumbrar o esplendor de Zeus, quando ele satisfez seu desejo de ver toda sua gloria).

Figura vultosa à beira do túmulo. E a primeira vista, indefinida. Se seus louros cabelos e suas longas vestes sugerem uma dama, um segundo olhar mais atento notará que o poderoso punho que segura um Tirso1, revestido de Hera, é, seguramente, de um homem; ou melhor, de um deus. Com efeito, ali está Dionísio, vindo da Ásia e disfarçado de mulher. Para Tebas veio com dupla missão: introduzir o seu culto e vingar as ofensas que sua mãe sofreu.

1 – Tirso – cajado feito de madeira sólida e resistente. Usualmente vinha adornado com folhas de Hera.

Tão logo chegou à cidade, dirigiu-se ao túmulo da mãe para prestar-lhe as devidas honras. Nela, ele foi gerado e dela ele foi retirado tão logo ela morreu. Zeus, seu pai, introduziu o feto em sua coxa e ali o gestou pelo tempo restante. Agora, ali, observa os negros cachos de uvas que cintilam sobre o mármore gélido e enquanto pensa, sente a chama da ira crescer em seu peito e refletir em seus olhos sombrios.

Sim, ele diz para si próprio, eu irei reinar aqui. Na cidade que foi de sua mãe. Destronaria, de qualquer modo, o jovem Penteu, neto e sucessor de Cadmo. Outras caluniadoras de sua mãe, como as suas tias maternas, AGAVA, INO e ANTÔNOE, ele já punira. Custou-lhes caro a inveja que tinham de Sêmele; e a calúnia que diziam ao afirmar que ele, Dionísio, não era filho de Zeus. Enlouquecê-las-á com o impiedoso ataque da mosca da sandice. Insanas, elas foram para as ruas e para as montanhas seminuas, pois apenas uma pele de cabra cobria-lhes os quadris, e vagavam sem descanso e sem abrigo por entre os espinheiros que lhes dilaceravam os corpos e desgrenhavam os cabelos.

Atrás delas, outras tebanas seguiram levadas por furor invencível. Fugiram dos homens que procuravam detê-las e reuniram-se em tal quantidade que a montanha parecia tremer com seus gritos, suas danças e seus cantos selvagens. Frenesi igual nunca se vira antes na “Tebas das Sete Portas” e aos anciãos só restou o consolo de se resignarem com “a vontade divina”.

E, de fato, era a vontade de um deus a causa da convulsão. Ele, Dionísio, transformara as pacatas e recatadas mulheres de Tebas em loucas dionisíacas (bacantes) sem pudor e sem freio. Assim era sua vingança contra quem destratara sua mãe.

- Evoé! Evoé1!

1 – Evoé – do grego EUOT, pelo latim Evoé – interjeição ritualística que servia para evocar Dionísio durante as orgias. Talvez seja a raiz arcaica do verbo “evocar”.

Brado que repercutia nos bosques, nas montanhas e na própria cidade. A esse chamado respondia um insano delírio que a todos tomava. Nas ruas, os homens aguçavam os ouvidos para escutarem as mulheres. Mãos semi conscientes tocavam os tambores em ritmo sincopado que estremecia os corações. Jovens dançavam malgrado não quisessem. Velhos sacudiam as alvas cabeças como se estivessem embriagados. O vinho jorrava farto das crateras (um tipo de taça) para as gargantas, que nunca se saciavam.

Nesse ponto da encenação, toma o centro da ribalta o velho Cadmo, acompanhado pelo adivinho Tirésias. Ambos, recobertos de peles de cabras, batem cadenciadamente seus tirsos com heras, enquanto descem de mãos dadas às escadarias do Palácio para ganhar a rua e se juntar à multidão delirante. Descem ligeiros, pois lhes urge seguirem para as montanhas das dionisíacas, junto com os embriagados foliões do povo. Porém, no momento em que se afastam um homem jovem lhes interrompe o caminho. É Penteu que os admoesta com severidade: ó pai de minha mãe! Que pensas fazer? Aonde vais com esses trajes? Será que tu também resolveste adorar esse “falso deus” a quem chamam de Dionísio? Divindade boa, se tanto, apenas para os rudes bárbaros e não para homens ajuizados. Foi para te entregares a esse festejo sensual e vulgar que tu, meu querido avô, entregou-me o comando da Cidade? Largue esse Tirso, essa Hera, essas peles. Dá-os aos homens vulgares de nossa pátria. Voltes ao Palácio, Cadmo. Logo eu restabelecerei a ordem nas ruas e nos lares. Esse outro que se diz filho de Sêmele, tua filha, e de Zeus há de pagar por sua impostura. Já prendemos várias de suas adoradoras ensandecidas que estavam prestes a se reunirem com as tantas outras espalhadas pelos bosques e pelas montanhas (no Citério). Logo acabarei com essas ofensas aos antigos deuses. Esse Dioniso é um impostor! Disso eu sei através do que minha mãe contava, antes de sucumbir à loucura que a levou. Prosseguindo, Penteu diz ao adivinho:

E tu Tirésias? Tu queres introduzir nova divindade em Tebas, para aumentar sua renda com novos sacrifícios e rituais? Oh, se tu não fosses um velho cego e inválido eu te daria uma lição que tu não esquecerias.

O velho profeta interrompe o jovem rei dizendo: não blasfemes! Não trate Dionísio dessa maneira! Tu não sabes o tamanho que o seu culto alcançará. Na Ásia ele já é deveras cultuado, mas somos nós que temos a honra de sabê-lo conterrâneo. Pertence à Tebas, muito mais que a qualquer outra pátria. Guarde teu sorriso de escárnio e sua incredulidade. Achas que o raio que matou Sêmele também o matou, mas eu afirmo que não! Afirmo que Zeus o gestou em sua coxa quando a mãe morreu; e que foi esse mesmo pai que o escondeu no Olimpo, a salvo dos ciúmes vingativos de Hera. E Dionísio viveu para nossa felicidade. Junto a Deméter (Ceres, em latim) que alimenta os homens por ser a deusa da agricultura, está Dionísio que os alegra com o suco das uvas. O vinho que traz a alegria, o esquecimento, a paz e o sono aos Homens, é o seu presente ao Mundo. Glória a Dionísio que faz os tímidos serem audazes, os covardes serem valentes; e felizes, todos eles.

Cadmo toma a palavra e insiste na apologia ao novo deus dizendo: meu filho deixe teu ciúme mesquinho e orgulhe-se por ser da mesma estirpe do deus que tanto fará para a Humanidade. Ande, por favor, coloque os adereços e festeje. Não te oponhas à alegria como se fosse um déspota irascível. Cultue conosco o “Imortal” mais humano de todos.

Penteu, tomado pela fúria, vocifera em resposta: insensatos! Não me contaminem com vossa loucura. O impostor será desmascarado. Prenderei seus sacerdotes e acólitos. A começar por esse estrangeiro que vaga pela cidade seduzindo as mulheres com seu cabelo perfumado. Devolverei a ordem à Tebas.

Que os deuses não te castiguem, diz-lhe Cadmo. Em seguida o velho herói convida Tirésias e ambos seguem o cortejo dionisíaco dizendo: deixemos esse moço com sua luta vã e ímpia (desrespeitosa à religião) contra os deuses. Eu temo pela sua sorte, mas nada podemos fazer para demovê-lo de sua intransigência. Vamos Tirésias, honrar Dionísio!

Enquanto os anciãos partem, Penteu reflete que poderia abrandar sua raiva se mandasse seus soldados revirar a casa de Tirésias, ou determinar outras medidas que acabassem com a ruidosa manifestação de anarquia que lhe chega da rua, não obstante a severidade com que os soldados tratam os populares foliões. Mas não dá seguimento ao seu mau pensamento em razão da chegada de uma patrulha que escolta Dionísio preso. O cativo, não obstante o peso das correntes que o manietam, aparenta tal calma e tanta segurança que são os guardas que se mostram atônitos e inseguros. Por fim, o líder militar diz a Penteu: ó rei, eis aquele que tu nos mandaste aprisionar. Ele não nos ofereceu resistência e nos acompanhou como se estive indo a uma festa. Quanto às mulheres que prendemos antes, as noticias não são tão boas. Inexplicavelmente os grilhões e as grades que as prendiam abriram-se milagrosamente e elas fugiram. Todas as testemunhas do fato dizem que esse acontecimento foi feito pelo estranho que aqui está. Ademais, muitos outros milagres estão sendo-lhe creditado, de modo que nem nós temos certeza se ele é, efetivamente, um deus, ou um impostor. Diga-nos tu, ó ilustre rei, o que devemos fazer com ele?

Note-se que a metáfora colocada por Eurípedes vai além da crença na divindade de Dionísio. O dramaturgo coloca duas visões da realidade: a defesa do Cosmos organizado, previsível, burocrático e, talvez, sem criatividade e sem atrativos; contra o Caos rompedor da antiga ordem, dos antigos valores e exterminador da resignação ou submissão à vontade dos deuses (ou de Deus para as religiões instituídas). O Caos que enseja criatividade e que á atrativo para as mentes e almas mais bem aparelhadas de conhecimentos e inteligência.

Essa segunda visão é a do “Homem Dionisíaco”, que será o modelo a ser seguido, conforme a concepção de Nietzsche. É o Homem que mata Deus, ou seja, o homem que mata a subserviência dos judeus, cristãos, muçulmanos e outras religiões. É o Homem que mata as velhas crenças, as velhas estruturas sócio-políticas e a antiga Moral.

- Quem tu és? O que tu vieste fazer em Tebas, pergunta Penteu?

- Introduzir o culto ao deus Dionísio. O deus do vinho e da alegria. E nada, aviso-lhe, poderá impedir-me, responde a divindade, ainda disfarçada.

- Mesmo que eu te prenda?

Vão guardas! Não se impressionem com os seus falsos milagres. Prendam-no! Amanhã ordenarei o seu suplicio.

Dionísio olha com sarcasmo para o jovem rei e murmura: pobre louco. Pagará caro o peso dessas correntes. Em seguida diz aos seus carcereiros indecisos: vamos, cumpram a ordem que receberam de vosso rei. Eu quero ser preso.

Aturdidos, os guardas levam o prisioneiro para uma escura masmorra. Nela, Dionísio fica aguardando a hora que se auto determinou. Chegado o momento, sua voz ressoa por toda cidade: Eia! Eia! Dionisíacas, ouvi-me! Aqui está vosso deus, filho de Sêmele e de Zeus. Vejam! A gruta se fende, a porta da masmorra se abre e os guardas são sugados pelo chão. Olhem! O Palácio do tirano Penteu se desmorona. Evoé! As paredes ardem. Oh Mênades (mulheres possuídas, epíteto dado às dionisíacas) prostem-se ante o filho de Zeus!

A cena muda para as ruínas do Palácio onde Dionísio surge resplandecente, enquanto os Coros (no sentido de procissão) femininos enchem a noite com seus gritos anárquicos.

Eia! Eia! Vamos! Ele nos chama! Adoremo-no!

Penteu, pasmo, contempla seu ex-prisioneiro. O incêndio fora tão rápido e brutal que ele só salvara a própria pele. Seus imensos tesouros foram devorados pelas chamas em pouco tempo. Porém, nem a libertação miraculosa de Dionísio, nem a devastação de seus bens, foram capazes de vencer sua incredulidade. Foram suficientes para torná-lo mais humilde. Teimava que os acontecimentos não eram miraculosos e deliberou agravar a repressão ao culto dionisíaco ordenando que seus guardas atacassem impiedosamente as mulheres na montanha do Citério (de Citerão, o conjunto de montanhas que separam a Beócia de Megaris e da Ática. Tais montanhas eram consagradas a Dionísio e às Musas) e trouxessem vivas ou mortas, todas as devotas do novo deus. Sua própria mãe, AGAVE, deveria ser a primeira, tanto para dar o exemplo, como para punir a sua desobediência à ordem de seu rei e por não atender ao apelo de seu filho. Todavia, os guardas da primeira carga logo voltaram derrotados e apavorados com o que tinham visto e sentido. As devotas atacaram-nos com furor selvagem e parecia não sentir os golpes que eles lhes aplicavam. Diante desse relato, Penteu decidiu ir pessoalmente para o combate.

- Acautele-se, ó rei. Quem nos derrotou não foram as mulheres, mas um deus.

- Qual? Covardes! Vocês se auto flagelaram para me convencer. Eu e meus leais cavaleiros esvaziaremos as montanhas.

Nisso, Dionísio aproxima-se do rei e lhe diz: sê prudente, ó rei. Não levantes tuas armas contra um deus. Ele te impedirá de capturar as suas devotas. Penteu ruge em resposta: cuide-se tu, impostor. Posso prendê-lo em uma cadeia inescapável. Tu não passas de um bufão sem graça.

Dionísio apenas o fitou e, mentalmente, o condenou à morte. Em seguida diz-lhe: tu não conseguirás dominar as dionisíacas. Queres um conselho?

- Como tu ousas oferecer-me um conselho. Não vês que és o meu inimigo?

Dionísio sorriu e embora lhe fosse custoso mentir, sabia que deveria agir com toda astúcia que o momento exigia e que era necessária ao seu intento; assim, disse ao rei: mesmo que não queiras, eu te darei uma sugestão. Veste-te como mulher e assim disfarçado conseguirá se infiltrar entre as devotas com segurança. Então, estando entre elas, use toda sua eloqüência para convencê-las a voltarem para suas rotinas. Desse modo nenhum sangue será derramado e tu poderás manter-se no Poder.

Penteu hesitou, mas a contragosto teve que admitir que a sugestão era boa e sensata. E também porque Dionísio – que confunde o intelecto das pessoas, como se fosse ele mesmo um bom vinho tomado em excesso – enviava-lhe eflúvios de suave desvario, semelhantes ao da embriaguês. Destarte, em pouco tempo, Penteu deixou de ver no deus um ferrenho inimigo e se mostrou aberto ao conselho divino. Abandonou sua Razão e se deixou levar pelo deus mais forte e mais terrível, dentre os considerados benfazejos.

Nesse último trecho é clara a metáfora que Eurípedes faz com os efeitos da embriaguês sobre os Homens. É o “deus poderoso”, ou o “vicio poderoso” que faz os alcoólicos abandonarem o bom-senso, a racionalidade, a temperança para agirem como irresponsáveis, ladrões, assassinos e toda sorte de comportamento anti-social.

A idéia do disfarce não chocou a Razão de Penteu, pois como se viu, ele já estava sob domínio de um tipo de embriaguês. Porém, um resto de racionalidade ainda vigorava e considerava que o fato do rei ter que atravessar a cidade, o sujeitaria ao escárnio e à zombaria do povo, com resultados catastróficos. Logo ele, famoso pelos seus “decretos severíssimos”. A multidão, iluminada pelos archotes que levava, não deixaria de ver na sua transfiguração uma confissão de derrota e de fim de governo. Não restariam dúvidas de que a Anarquia fora efetivamente instaurada. Mas esse impasse íntimo não se prolongou, pois as ordens de Dionísio prevaleceram e o rei se pôs a fantasiar-se de dama. E, logo depois, já transfigurado, teve que suportar os olhares de curiosidade e de espanto dos próprios guardas e servos e uma ou outra piada. Era, de fato, muito parecido a qualquer uma das filhas de Cadmo.

- Maravilhoso, disse Dionísio sem se dar ao trabalho de sufocar o riso, como fizeram os outros. Disse ainda: está uma verdadeira mulher; e que assim seja, pois esta é a única forma de adentrar ao grupo das dionisíacas que celebram os “mistérios do deus do vinho”. Penteu, semi- inconsciente, ofendeu-se como o riso e com as palavras jocosas do deus e usando um tom irônico pergunta: será que assim eu conseguirei trazer nos ombros o monte Citério e as devotas que lá estão?

Dionísio, também com certa ironia, responde que sim, desde que quisesse. Na seqüência oferece-lhe o braço e o convida a iniciar a caminhada que o levará através da cidade até a montanha, dizendo que todos o admirarão. Devolve-lhe, então, o sarcasmo.

- Tu és cruel, estrangeiro. Mas não tenho escolha, resigna-se Penteu. Vamos. Faremos as dionisíacas envergonharem-se de seus modos, de suas bebedeiras. Oh, bêbadas vadias!

- Vamos, rei. Caminhemos, ordena o deus da alegria. Entre risos, danças, vinhos e orgias os dois caminham com pressa e logo chegam ao sopé do Citério.

Já não estavam em território tebano. Cá estamos, murmura Dionísio. Vamos com cuidado para que os nossos passos não nos denunciem. Olhe ali: vê a multidão? Veja que algumas saltam como corças, outras dançam, algumas fazem coroas de Hera e aquelas outras brincam como se fossem crianças. Estão felizes, livres do jugo dos homens. Diga-me rei, como Dionísio – que as tornou livres – não poderia ser o seu deus favorito?

Aqui Eurípedes antecipa-se às hodiernas feministas, pregando a libertação feminina. Aliás, esse tema já pode ser visto em outras “Tragédias” e/ou “Comédias”.

Penteu, porém, diz que nada enxerga, sem desconfiar da armadilha que Dionísio lhe prepara. Esse último, então, diz-lhe: vou colocar-te noutra posição para que tu possas ver-lhes. Em seguida, estendeu o braço e puxou o ramo principal de um pinheiro. Curvando a árvore até o chão, colocou o pescoço do semi-inconsciente Penteu na mais alta forquilha. Depois deixou o pinheiro voltar lentamente à sua posição original e com a sua voz retumbante gritou: eia! Eia! Mulheres vejam. Olhem o espião que traiçoeiramente queria sondar os mistérios das celebrações a Dionísio. Notem que está preso na armadilha que lhe armei. Observem! Aquele que antes zombava de mim e da devoção de vós outras. Eia! Eia!

Em seguida apontou para o Céu e vários relâmpagos iluminaram Penteu. Ensandecidas, as mulheres cercaram o pinheiro com a intenção de matar o espião. Primeiro tentaram acertá-lo com pedras, mas em vão. Nesse ínterim, lúcido novamente, Penteu vê o destino que lhe aguarda e grita desesperadamente pelo socorro de sua mãe, mas sua voz foi abafada pelo alarido das dionisíacas, que urravam de raiva e exigiam vingança contra quem maltratara seu deus amado.

Agave, a mãe de Penteu, era a mais excitada e por obra dos sortilégios do deus, ao invés do corpo do filho, via o corpo de um feroz leão.

- É o leão, irmãs, que está acabando com nossos rebanhos. Matemo-no sem piedade e libertemos a cidade desse flagelo.

E novas pedras voaram, mas como foram tão inúteis como as primeiras, as mulheres decidiram arrancar a árvore e assim o fizeram. Ferido, Penteu não pôde levantar-se e, malgrado suas súplicas, recebeu no coração o potente tirso de Agave que julgava estar matando o leão. O restante de seu corpo foi despedaçado pelas demais, incitadas pelo cheiro de sangue e pela loucura do momento. Por fim, Agave espetou a cabeça do rei em seu Tirso enquanto urrava: vejam o focinho da fera, minhas irmãs. Agora eu vou receber as condecorações em Tebas pelo meu heróico feito. Um longo cortejo logo se formou de volta à cidade, em meio a hinos e louvores ao deus do vinho.

À porta de Tebas, dois homens o detiveram. Eram Cadmo e Tirésias.

- Aonde vai Agave, minha filha? O que tu levas como troféu, bradou Cadmo?

- A cabeça do leão que eu matei.

Cadmo, desesperado, exclamou: ó dor sem fim! Ai de mim! Ó deuses, como curvais os homens que tem a insolência de lhes olhar face a face e comparar-se a vós. Vejo que me tirastes meu herdeiro. Este menino que eu nunca mais verei. Enquanto se lamentava, quedou-se abatido pela imensa dor. Lágrimas abundantes correm por suas faces. Agave, com os olhos dilatados, contempla o vácuo sem enxergar a realidade; sem ver a cabeça do próprio filho. Alheia a tudo que se passava. Dionísio, impassível, apoiava-se serenamente em seu Tirso e mostra a Cadmo e a Agave a longa e sofrida via em que caminharão doravante. Sêmele estava vingada.

Nessa peça, Eurípides inicia um novo gênero na literatura: a fábula, cujo elemento marcante é a lição de moral que encerra o texto, quase sempre condenando as atitudes contrárias à Moral da época em que foi escrita e conclamando a todos para que busquem os caminhos da virtude vigente.

Aqui, não é difícil perceber a censura subliminar ao desregramento cometido a partir da perda de lucidez, da Razão. Tanto por efeito do consumo exagerado de vinho, quanto por efeito do abandono das regras sociais que norteavam a comunidade. A morte de Penteu é, também, a morte da Sociedade Organizada segundo os ditames da racionalidade, em constante luta contra o império das sensações. O que substituirá aquela ordem estabelecida? Qual será o futuro de Tebas?

Rio, 07/07/2011