sábado, 6 de abril de 2013

HÉCUBA - Gregas Tragédias, resenha.


HÉCUBA
Eurípedes - (485/406)
  
Cenário – praia do Quersoneso Trácio (península a oeste do Helesponto), vizinho à Tróia, onde as naus gregas se detiveram  para cumprir o sacrifício exigido pelo espírito de Aquiles.Fundo as tendas das troianas feitas escravas, ao lado a tenda de Agamêmnon e no alto, com o uso de cordas, o espírito de Polidoro.

Época da Ação – Final da Guerra de Tróia.

Personagens:
Agamêmnon – chefe supremo das forças gregas.
Coro – das mulheres troianas, escravizadas pelos gregos. Escrava.
Hécuba – viúva de Príamo, o rei de Tróia.
Odisseu – rei de Ítaca e um dos chefes gregos. Ulisses, em latim.
Polidoro – fantasma – filho de Hécuba e de Príamo.
Poliméstor – rei do Quersoneso da Trácia, nas cercanias de Tróia.
Políxena – filha de Hécuba e de Príamo.
Taltíbio – arauto dos gregos.

Sinônimos:
1. Gregos = helenos, aqueus e argivos.
2. Troianos = frígios
3. Tróia = Ilíon (donde Ilíada, de Homero) e Frigia.

Há alguns anos, montou-se uma encenação dessa Tragédia que percorreu grande parte do Brasil. Após a excelente representação, abria-se o debate entre platéia, mediadores, atores, atrizes e diretores sobre a questão: vingança ou justiça. E muita conversa se viu, sem que se chegasse a um denominador comum. Afinal, na ótica de muitos (inclusive desse escrevinhador) usar eufemisticamente o termo “justiça” para acobertar o desejo por vingança é apenas uma das hipocrisias que permeiam nossa sociedade.

“Justiça” representa a equidade, o equilíbrio. “Vingança”, o desejo de revanche. Coisas diferentes, como são os sentimentos que ambos representam.

E foi vingança o que Hécuba pediu, mostrando o que somos. O que, ainda somos.

O livro ou a peça começa com o monólogo do espectro de Polidoro, que entre lamentos conta sua curta vida e sua recém morte: quando Príamo viu que Tróia poderia cair, mandou seu filho mais novo, Polidoro, para viver em refúgio na corte de Poliméstor, na vizinha Trácia, a quem julgava seu amigo. Junto mandou um vasto tesouro para que sua estirpe sobrevivesse e tivesse uma vasta fortuna para amparar seu novo crescimento e pudesse recuperar a Casa Real de Tróia.

Enquanto as forças troianas, lideradas por Heitor, enfrentavam com êxito as tropas gregas, Polidoro foi bem tratado por seu anfitrião, mas bastou Príamo e Tróia caírem para que fosse assassinado pelo mesmo, interessado em seu tesouro.

Insepulto Polidoro, sua alma vagava sem descanso. E foi nessa condição que ele se apresentava em sonhos à Hécuba e só após muito rogar, é que conseguiu a anuência do deus Hefesto para apresentar seu corpo mutilado à mãe no intuito de que lhe fossem dados os ritos necessários à sua passagem definitiva para o Hades, onde descansaria enfim.

Prossegue Polidoro narrando o fato dos gregos ainda estarem em Tróia para atender ao desejo de Aquiles, de ser homenageado com o sacrifício de uma jovem virgem troiana. No caso, sua irmã Políxena, em pira fúnebre. Sacrifício a ser exe-cutado no mesmo dia em que daria à praia os restos mortais do narrador. Dupla e excruciante dor para Hécuba, que cho-rará a morte de mais dois filhos.

Hécuba, nesse momento conclama outras troianas a lhe ajudarem a erguer-se, enquanto chora a baixa condição a que foi lançada: de rainha à escrava. Lamenta-se e suplica a Zeus que afaste os pesadelos a que vem tendo com Polidoro, à derradeira esperança de um dia a Casa Real de Príamo ser restaurada.

Ainda ignorando o assassinato do filho, roga que Poliméstor zele por ele. Também pede ao “Pai dos Deuses” que interceda a favor de Políxena e conta como se acelera o coração, oprimindo-a junto com a má intuição de novas desgraças. Lamenta que Cassandra e Heleno, seus filhos capazes de profetizar, esteja mortos ou inacessíveis, pois eles poderiam decifrar os maus agouros que a perseguem.

NOTA do AUTOR - sabe-se que Cassandra foi tomada como concubina por Agamêmnon. Sobre Heleno, sabe-se que foi aprisionado pelos gregos após ter lutado com valentia, tomando o lugar que fora de Heitor. Ambos receberam de Apolo o dom das profecias, mas as feitas por Cassandra não eram acreditadas, como castigo por ela ter-se recusado ao deus Sol.

Na seqüência o Coro, formado pelas mulheres troianas, toma a cena e conta a Hécuba o que ouviram nas tendas de seus novos Amos: depois de acirrado debate entre os mesmos, ficou decidido sacrificar uma jovem à memória de Aquiles, cujo espectro controlou os ventos impedindo que as naus zarpassem antes de cumprir o que ele exigia.

Graças a Odisseu, que desempatara o pleito, convencendo a todos com sua proverbial habilidade, a escolhida foi Políxena, pois segundo ele, só uma jovem de alta estirpe estaria à altura de um herói como Aquiles. Contra o sacrifício estava Agamêmnon - talvez por influência de Cassandra – e a favor do mesmo estavam os filhos de Teseu, Acamas e Domofon.

Assim, mãe Hécuba, dizem-lhe, agarre-se aos joelhos de Agamêmnon e lhe peça que não permita o sacrifício de sua bela filha. E implore aos deuses e até aos entes infernais, que não deixem tal horror acontecer. Vá, rainha, não demorará para Odisseu vir para arrebatar-lhe a filha querida. Vá Hécuba!

Atônita, desesperada, ferida, Hécuba clama a sua impotência, seu desamparo. O horror do seu cativeiro, de sua solidão. Morto o marido, mortos os filhos, derrotados os súditos e distantes os deuses; quem a defenderá?

Trôpega, cambaleante, sob o peso de tantas desgraças, dirige-se à tenda de Políxena que a atende trêmula e temerosa. Indaga da mãe o que a traz naquele estado, por que tamanho desespero? Hécuba vê no temor da menina uma intuição sobre a desgraça porvir, mas Políxena diz que seu medo e seu pranto são motivados pela vida miserável que a mãe agora leva e não por ela mesma.

E Hécuba retruca o mesmo: chora por Políxena, sua filha imaculada. Políxena então lhe pede que diga a verdade sem rodeios, pois sente seu medo crescer com o silêncio da mãe e Hécuba lhe fala que os gregos decidiram que a sacrificarão sobre o túmulo de Aquiles.

Após ouvir os terríveis detalhes de sua execução, Políxena tenta consolar a mãe, lamentando tão duro fim de vida. Sobre a sua própria morte, não se queixa, pois a prefere ao invés de uma vida de escravidão.
Pouco depois, o Coro as alerta sobre a chegada de Odisseu, que logo se dirige a Hécuba informando-a que levará Políxena para ser sacrificada no túmulo de Aquiles, por Neoptólemo, o filho do herói. Aconselha-lhe a não se rebelar, pois em sua mísera condição tal reação seria insensata e inútil.

Entre lamentos por ter sobrevivido aos filhos e por ser alvo de tantas desgraças, Hécuba invoca o direito dos escravos fazerem perguntas aos Amos. Após a concordância de Odisseu, indaga-lhe se ele recorda-se de quando veio espionar Tróia e ela, apesar de ele ter sido reconhecido por Helena sob os andrajos do disfarce, deixou-o ir, salvando-lhe a vida? E lhe indaga-lhe se não se considera um malvado que só faz o máximo de mal.

- Tu, prossegue, és um Sofista e como os outros, atrás das belas palavras só a Maldade traz. Porque veja, o que haverá de útil para os gregos no assassinato de minha filha? Não seria possível sacrificar um boi? Será Aquiles quem pede o sangue de quem o matou? Mas, se é assim, por que matar essa inocente, que nem participou da guerra? Por que não sacrificar Helena, a verdadeira culpada pelo conflito? Seja justo Odisseu! Lembra-te que já tocastes minha mão pedindo clemência. Agora sou eu quem te pede indulgência, que cobra a bondade que tive contigo. Não me tires Políxena, pois ela é a alegria que me restou. É o meu consolo, o meu bastão de apoio. Convence aos outros gregos da improprieda-de de assassinar uma inocente.

O Corifeu, representando a líder das troianas, dirige-se a ex-rainha e busca consolar-lhe dizendo que Odisseu atenderá suas súplicas.

Mas Odisseu toma a palavra e diz a Hécuba que não pode alterar o que antes já estava decidido: uma princesa troiana seria sacrificada em honra do herói incomum; e justamente por ser incomum, o maior guerreiro grego, é que ao grande Aquiles o sacrifício não poderia ser vulgar, igual ao que é dado a qualquer medíocre. E se assim não fosse feito, como se iria, no Futuro, conseguir reunir novas tropas em caso de necessida-de? Quem se disporia a morrer pela pátria, ou por seu rei, sabendo que sua valentia, que seu denodo não seria convenientemente reconhecido? Ele mesmo não se incomoda com uma vida frugal, mas deseja no seu túmulo todas as honras, pois são essas as perenes.

Por fim, diz a Hécuba que dor como a sua, mães, pais e esposas gregas estão sofrendo, pois este é o verdadeiro preço da guerra.

Após rápida lamentação do Coro, Hécuba diz a Políxena que seus pedidos foram inúteis e que ela deveria pedir clemência a Odisseu, pois talvez ele se condoa de sua sorte. Mas ela diz a Odisseu que sossegue, pois não lhe pedirá a salvação. Diz que deseja a morte, preferível aos horrores da servidão. Que aceita seu Destino e se livra das acusações de covardia que alguns poderiam impingir-lhe (censura à Hécuba?). Que morrerá feliz, ante a possibilidade de se tornar uma reles escrava. Ela, que já foi uma das mais desejadas princesas de Tróia e prometida a tantos Príncipes poderosos não consegue admitir que doravante seja obrigada a amassar o pão, varrer o chão, deitar-se com um homem que não deseja. Não! Que lhe matem, pois já não há felicidade em sua vida.

Na seqüência, Políxena dirige-se à mãe e lhe pede que não tente demover-lhe do desejo de morrer, pois tudo que disse ao carrasco grego não poderia ser refutado por ninguém. Nem por Hécuba.
O Corifeu entendendo que ela preferia a honra a uma vida abjeta saúda sua nobreza de caráter.

Hécuba retoma a palavra e também elogia o nobre discurso da filha, mas ainda roga a Odisseu que lhe mate em lugar da menina, pois ela também seria uma vitima importante na medida em que foi de si que nasceu Páris, o matador de Aquiles.

Mas Odisseu reafirma que o fantasma do herói exigia o sacrifício da filha e não o da mãe; e como Hécuba insiste para que lhe matem junto, o rei de Ítaca contra-argumenta dizendo que o derramamento de sangue seria excessivo, pois até a morte da Princesa lhe é indesejável.


Hécuba, em desespero, tenta agarrar-se à filha e persiste na negativa de vê-la caminhar para a morte. Mas a própria Políxena lhe pede que cesse seu arroubo, pois é inútil e só retarda o inevitável. Que Hécuba mantenha a compostura e se despeça de modo suave, pacificador. Que não lhe dê mais esse desgosto na hora de morrer.

E saem Políxena, Odisseu e os soldados. Resta Hécuba caída ao solo. Entre as lamúrias que chora, não deixa de maldizer a Helena, a quem debita a culpa exclusiva, segundo ela, de tanta dor.

Raiva compreensível, mas talvez injusta. Se Helena errou ao trair o marido, se Páris errou por tê-la levado para Tróia, também erraram todos eles que permitiram a situação.

Mesmo Hécuba é grande culpada na medida em que: se foi desinteressada em defender Páris quando ele foi condenado à morte, enquanto bebê, por seu marido e pai do menino, nada justifica que ela o tenha defendido em adulto e em falta evidente, cujo resultado nefasto para todos os troianos inocentes poderia ser esperado.

O Coro, agora representando todas as cativas troianas, entoa triste lamento por Políxena e pela longa viagem que farão até as casas de seus novos Senhores. 
Entre os tristes cantos, adentra à cena Taltíbio, o arauto grego, que pergunta por Hécuba. Espantado pela prostração da mesma, horroriza-se ainda mais com seu aspecto deplorável. Dirige-lhe um pedido enérgico para que mantenha alguma dignidade e a anciã, sem lhe conhecer, indaga-lhe quem é; por que interrompeu suas tristes lamentações. 
Responde-lhe Taltíbio anunciando uma nova ordem de Agamêmnon para levá-la à sua tenda. Crente que seria para executá-la, Hécuba apressa-se em ir, bendizendo aquela ordem, mas ante a tácita negativa do arauto ela lhe pede que conte como se deu o sacrifício da filha. E ele conta da altiva coragem mostrada pela menina ante a morte, o quê comoveu até aos gregos que lhe prestaram homenagens dignas dos campeões. 
Também Hécuba elogia a altivez da Princesa, dizendo que sua atitude chega a lhe suavizar a dor pela perda. 
Em seguida pede ao arauto que diga aos gregos que se afastem do corpo de Políxena, pois ela é quem fará suas exéquias. Que não a profanem e se afastem do local para que más intenções não se sobreponham à decência. Taltíbio parte para executar o pedido que lhe foi dado quase que em tom de ordem. 
Prossegue Hécuba seu discurso dizendo em tom imperativo a uma ex-escrava que apanhe água no mar para purificar o cadáver e fazer as libações. Diz que tudo fará para lhe dar os melhores adornos e pede às mulheres que furtem de seus Senhores gregos tudo que puderem para ornamentar Políxena. Na seqüência volta a lamentar a perda de seu Palácio e de suas riquezas.
O Coro assume a cena e chora o fato de que um julgamento fútil entre três deusas (sobre quem seria a mais bela), feito por um mero pastor (Páris antes de ser reconhecido por Príamo e agraciado com o amor da mais bela mulher do Mundo, Helena) resultasse na queda de Tróia, na matança dos troianos e na escravização das troianas. E, também, em tanto luto entre as gregas que perderam maridos, filhos, irmãos.

Nesse momento a ex-escrava volta à cena puxando um cadáver encoberto. Titubeante, mostra o corpo de Polidoro; Hécuba se prostra ante a nova e inesperada tragédia; transtornada clama aos Céus e em seu desespero interroga ao falecido quem o matou, como se ele pudesse responder.

A ex-escrava conta que retirou o corpo do mar quando buscava a água necessária para os ritos a Políxena. Informação que serve para confirmar à troiana a validade dos pesadelos a que vinha tendo com o filho mais novo. E também para lhe assegurar que o assassino fora Poliméstor que assim se apoderava do tesouro troiano.

Suas tristes lamentações são interrompidas pela chegada de Agamêmnon que lhe indaga sobre o motivo de ainda não ter sepultado o corpo de Políxena, vez que suas solicitações foram atendidas.

A resposta, contudo, ele logo adivinha ao ver o corpo de Polidoro. Centrada em sua dor, Hécuba continua o monólogo sobre suas desgraças enquanto analisa a conveniência de pedir a Agamêmnon que vingue a morte de Polidoro.

E quando o Atrida faz menção de se retirar, ela decide arriscar o pedido, pois ele é sua única esperança de revanche. Invocando a mão direita, o joelho e o queixo do grego (como era o hábito da época) ela faz o pedido por vingança, desdenhando até da liberdade que Agamêmnon sugere poder lhe dar.

Prosseguindo, Hécuba conta-lhe a história de Polidoro e o Argivo lamenta com sinceridade os sofrimentos da anciã que reafirma suas súplicas, alegando inclusive que o concubinato dele com sua filha, fazem-no uma espécie de “cunhado” do falecido.

Nisso o Corifeu comenta que as “Leis Divinas (ou da Natureza)” reduzem os atos e as disposições dos Homens a nada. Ante tais “Leis Superiores” inimigos se juntam para combater um terceiro, provando que o Homem não passa de mero fantoche dos deuses (ou do Destino, ou das circunstâncias).

Agamêmnon reafirma sua pena por Hécuba, mas pondera que o rei Trácio é visto como amigo pelos outros gregos, enquanto que seu filho, troiano, é visto como inimigo por seu exército. Desse modo não poderia executar a vingança sem se indispor com suas tropas. E também por temer ser acusado de tendencioso, por vingar o irmão de sua concubina.

Hécuba lhe pede então que apenas se omita sobre os fatos futuros. Ela entende as suas razões, pois sabe que nenhum mortal é verdadeiramente livre; suas vontades e atitudes são sempre limitadas pela conjuntura dos fatos. Na seqüência responde à pergunta de Agamêmnon explicando-lhe como executará sua vingança contra Poliméstor, confiante que as mulheres troianas unidas terão força suficiente para tal feito.

Enfim, pede-lhe que garanta a ida de uma de suas auxiliares para chamar o rei, dizendo-lhe que tem um assunto a tratar com o próprio e que será de seu interesse; e que garanta a chegada deste, ao acampamento das cativas; também lhe pede que aguarde um pouco mais para o funeral de Políxena, já que ela quer enterrar seus dois filhos juntos. O Atrida consente e autoriza seu desejo.

O Coro assume a cena e canta como foi a noite em que os gregos adentraram a cidade, através do Cavalo de Madeira, mataram os troianos e aprisionaram as troianas. Ao lamento se junta o ressentimento contra Helena e Páris, acusados de serem os culpados pela queda de Tróia.

Nisso chega Poliméstor, com seus dois filhos e com sua escolta, atendendo ao chamado de Hécuba. Ignorando que o assassinato de Polidoro já era sabido pela troiana, ele saúda a ex-rainha como se ainda fossem amigos e deplora cinicamente sua triste condição.

Hécuba mantém a farsa e diz que se sente constrangida por sua miséria, não conseguindo sequer fitá-lo. Pergunta-lhe o rei sobre o assunto que a fez chamá-lo e ela diz que é restrito a ele e aos seus filhos e lhe pede que dispense a escolta, no que é atendida prontamente. Em seguida, pergunta-lhe sobre seu filho que está aos cuidados do Trácio e ele responde hipocritamente que está em excelente condição, assim como a integridade do tesouro. Hécuba ainda prossegue a farsa aludindo a um eventual tesouro escondido em local secreto, mas que ele terá acesso, pois é de confiança. Também diz que lhe dará suas riquezas pessoais, escondidas em sua tenda, e a ganância do rei incumbe-se de levá-lo, e os filhos, para o interior da morada.

Pouco depois se escutam os gritos pavorosos de Poliméstor que se queixa de ter sido cegado, enquanto seus filhos eram assassinados. Brada o mutilado rei que lutará contra suas ofensoras com o máximo denodo possível, mas o Coro conclama as outras mulheres troianas a se juntarem às que estavam na tenda, para auxiliarem Hécuba a escapar da cega fúria do Trácio. E Hécuba sai para evitar um golpe dado ao acaso pelo rei e incita às mulheres a terminarem o que começou. Que o massacre dos Príncipes fosse completado.

Poliméstor, cego, sai tateando o caminho e Hécuba dirige-se ao Coro confirmando a mutilação no rei e a morte de seus filhos. Resta ao rei lamentar-se e com o tato buscar uma trilha que o leve às troianas e à vingança. Ao ouvir passos se prepara para saltar sobre as inimigas, mas a lembrança dos corpos dos filhos o detém, pois ele teme que se abandoná-los as troianas irão desmembrá-los e dar os restos aos cães. Tenta voltar à tenda e grita por socorro ao seu exército e ao exército grego, mas não tem nenhuma resposta de imediato.

Na seqüência, Agamêmnon volta à cena com sua escolta, dizendo ter ouvido os gritos de Poliméstor. Tão altos que se as muralhas de Tróia já não estivessem caídas ele temeria novo ataque dos frigios. O Trácio reconhece sua voz e conta-lhe que ao entrarem na tenda foram ludibriados pelas mulheres que com falsidade seduziram seus filhos até os matarem; enquanto ele teve os olhos perfurados pelos alfinetes de suas túnicas.

Agamêmnon dirige-se à Hécuba, que estava nas proximidades, censurando-lhe a ousadia de ter cometido tais crimes. Poliméstor, ao saber de sua proximidade, tenta feri-la, mas em vão. Agamêmnon lhe pede que abandone seus bárbaros costumes de vingança e escute antes de agir, pois ele irá ouvir as duas partes para julgar corretamente a questão.

Diz-lhe Poliméstor que matou Polidoro por temer que ele se tornasse poderoso e recriasse a grandeza de Tróia. Com isso, talvez, tentasse vingar-se dos gregos, os quais, por sua vez, poderiam retornar à região exaurindo seu País novamente, através dos sucessivos saques em suas plantações e rebanhos para alimentar os exércitos, tal como fizeram nas duas expedições contra Tróia.

Ou, mesmo que Polidoro não buscasse vingança, poderia ser alvo dos gregos que temeriam deixar viver um descendente de Príamo, causando os atos nefastos, que expôs acima, aos vizinhos de Tróia, com nova guerra.

Hécuba toma a palavra e se dirige a Poliméstor dizendo que sua versão é falsa, pois se ele queria prestar um serviço aos gregos, por que ele não matou o menino enquanto Príamo e Heitor ainda viviam? Sua covardia não lhe permitiu? O real motivo foi mesmo a sua cobiça pelo ouro que Polidoro guardava. E se ele fosse tão leal aos gregos, como disse, por que não dividiu ou ofertou esse ouro aos seus ditos amigos?

Dirigindo-se a Agamêmnon, Hécuba continua seu arrazoado dizendo que se o Atrida apoiar o assassino será considerado malévolo, pois apoiaria quem foi infiel aos deveres dos anfitriões e desprezou a Justiça dos deuses e dos Homens.

Agamêmnon retoma a palavra dizendo da dificuldade de avaliar os erros alheios, mas que julgaria atos tão extremos. A Poliméstor diz que não acredita em sua versão e crê que seu motivo era mesmo só a ganância. Também lhe diz que faltar aos deveres dos anfitriões é um crime grave na Grécia, não podendo ser perdoado.

Poliméstor lamenta sua decisão e o fato de ter sido vencido por uma mulher reduzida à escravidão e diz que chora pelos seus olhos e por seus filhos perdidos.

Hécuba replica que também chora seus filhos mortos, mas que se alegra por sua vingança ter atingido quem lhe fez tamanho ultraje.

A altercação entre ambos prossegue e Poliméstor profetiza que ela nem chegará à Grécia, pois antes, o deus Dionísio a transformará em cadela. Também profetiza que Cassandra morrerá em breve, como predisse o Oráculo do deus citado. A Agamêmnon, o Oráculo diz que morrerá tão logo chegue à casa pelas mãos da própria esposa.

Agamêmnon invoca a proteção dos deuses, enquanto o Trácio continua com seus vaticínios irritando o chefe grego. Ultrajado, o Aqueu manda seus soldados levarem-no para algum lugar deserto. E ordena que Hécuba sepulte seus filhos e se apronte, pois como o Coro, ela deverá se apresentar ao seu Amo, já que o vento favorece a partida rumo à Grécia.

Tróia deixa de existir. A dor de mãe Hécuba, não.


NOTA do AUTOR - Em 1870, Henrich Schiemann dirigiu-se à Turquia atual e através dos relatos de Homero, na Ilíada, iniciou uma escavação que resultou na descoberta das ruínas de Ilion e do tesouro de Príamo. Por ter cometido erros metodológicos, a descoberta de Schiemann recebeu criticas de vários eruditos, mas é inegável que a cidade de Tróia não é uma fantasia do poeta grego. Em relação à Guerra, acredita-se numa licença poética de Homero.

Rio, 17/03/2011

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Idealismo - Filosófico e Político


IDEALISMO – do Latim tardio “IDEALIS”.

O termo “IDEALISMO” abarca várias Correntes do Pensamento Filosófico que tem em comum o fato de interpretarem a Realidade Material do Mundo conforme a personalidade do individuo que faz essa interpretação; ou seja,  o Mundo Material, que os Sentidos (tato, audição, visão paladar, olfato) levam ao cérebro do Individuo, é TRANSFORMADO conforme os seus pontos de vista, conforme seus juízos, SUAS IDÉIAS, conforme a sua subjetividade.

A seguir abordaremos algumas dessas Correntes Filosóficas:

1. O IDEALISMO PLATÔNICO - Com Platão, após Sócrates, é que “Idéia” passou a ter uma existência efetiva, embora em um sentido diferente do comum. Não se trata, pois, de noções, imagens, representações intelectuais etc. Alguns eruditos até discordam de que seu Sistema Filosófico seja rotulado como “Idealista”, pois argumentam que a sua Filosofia, na verdade, deve ser considerada como um “Realismo das Idéias” já que para o Mestre, as Idéias (mal comparando: os projetos, os desenhos que devem ser copiados para a confecção do objeto correspondente) formam outra “Realidade”, ou a “Verdadeira Realidade”. É um Mundo - o “Mundo das Idéias” - que pode ser parcialmente acessado pela Inteligência, pelo Raciocínio (ou pela Razão) e que existe por si mesmo, não necessitando que o Homem o conheça ou o reconheça. Está além do humano e do material; e é nele que estão os modelos para todas as coisas.

2. O IDEALISMO IMATERIALISTA – é uma Tendência que tem em BERKELEY (1685/1753, Irlanda) seu expoente. Para ele, e seus adeptos, os Objetos Materiais NÃO existem de fato; mas apenas como representações ou imagens, ou Idéias no intelecto, na mente dos Homens. E na mente de Deus, o criador do próprio Homem, o qual, segundo o seu Sistema, também não existe de fato, mas é apenas uma representação, uma imagem na Mente Divina. Essa sua forma de pensar permitiu-lhe emitir o célebre enunciado: SER, É SER PERCEBIDO; ou seja, só existe aquilo que se percebe de algum modo. Pergunte-se caro (a) leitor (a) se você existe para o Sr. Ming que habita na China e nunca soube de sua existência? E o inverso?

3. IDEALISMO TRANSCENDENTAL – doutrina de KANT (1724/1804, Alemanha) que alguns chamam de “Idealismo Critico”. Através desse Sistema o filósofo considerava que os Objetos que estão em nosso cotidiano e que percebemos pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar, olfato) estão inserido no Espaço/Tempo e devem ser considerados apenas como fenômenos (a aparência, o exterior perceptível de uma Essência) e por isso serem diferenciados ou distinguidos de suas Essências ou “Coisa em Si”. Logo, se podemos perceber apenas o fenômeno, a “Realidade Verdadeira” é incognoscível, isto é, está além da nossa capacidade intelectual de compreensão. Dessa forma, qualquer Objeto só existe em uma “RELAÇÃO de CONHECIMENTO”; ou seja, o Objeto só existe a partir do instante que o Individuo o perceba, ou o conheça. Aqui, a frase de BEKERLEY – ser, é ser percebido - citada acima, pode ser aplicada novamente, posto que o Objeto só “È” enquanto alguém o percebe. Kant dizia: “chamo de Idealismo Transcendental” de todos os fenômenos A DOUTRINA que nos leva a considerar que esses mesmos fenômenos são simples representações, ou imagens que formamos em nosso cérebro. Ou seja, “Idealismo Transcendental” é apenas o TITULO de um de seus estudos. 

4. IDEALISMO ALEMÃO PÓS-KANTIANO – é o desenvolvimento da doutrina de Kant, principalmente, por FICHTE (1762/1814, Alemanha) e pelo sábio SCHELLING (1775/1854, Alemanha). Todavia, ambos abrandaram a noção de Kant sobre a “Coisa em Si”, dando à Doutrina uma interpretação em que a visão subjetiva (ou segundo o ponto de vista de cada individuo) ganhou mais importância. Consideravam, pois, que o Real ou a Realidade é formada, ou constituída, pela Consciência de cada um. De novo, aplica-se a noção de que “O Mundo não é como é, mas sim como é visto ou percebido por cada um dos Homens.”

5. IDEALISMO ABSOLUTO – é o termo usado por Hegel (1770/1831, Alemanha) para demonstrar a sua noção de Metafísica (do que está além do físico, o sobrenatural). Segundo o filósofo, o Real (ou a Realidade) “È” a IDÉIA, mas NÃO em sentido subjetivo ou individual; porém em sentido absoluto. Para Hegel tudo que está “abaixo” da Metafísica, ou seja, o material, concreto, físico é apenas uma ilusão, mas que deve ser considerada; a partir daí é que Hegel propôs uma espécie de “Monismo” onde Essência e Fenômeno formam uma única coisa. Um único ente. E como ele afirmava que o Real (ou a Realidade) é Racional (isto é, pode ser atingida através da Razão), Essência e Fenômeno são, conseqüentemente, compreensíveis pelo Raciocínio, que constrói de ambos uma representação, uma Idéia. Por isso, o “seu” Idealismo é Absoluto. É o “Idealismo Total” que abarca tanto o interior quanto o exterior de qualquer Coisa ou Ser.

Na tradição filosófica, o Idealismo combate, é claro, as Doutrinas Materialistas na medida em que para o Idealismo o Universo é um conjunto de mínimo dois elementos ou princípios: Matéria e Pensamento. Ou de um só: o Pensamento e a matéria mera representação mental.

Atualmente, no campo do Marxismo, o “Idealismo” passou a significar algo bom, excelente, mas utópico e irrealizável. Especialmente no Campo da Moral, onde não são raras as ótimas, generosas e altruístas intenções que nunca se realizam, principalmente em razão da natureza humana (ou seja da forma que o Homem é), que ainda rasteja no terreno da pura competição.

No campo do Conhecimento, o Idealismo acarreta um efeito indesejável, pois ao tornar o “Objeto do Conhecimento” – aquilo que se está estudando – o próprio “Individuo Conhecedor”, estuda “apenas” o Individuo e a sua forma de analisar e compreender qualquer Coisa que se estude. Pouco importa as características, as qualidades, os atributos da Coisa, do Objeto; pois o que importa (sic) é a maneira de como esse processo está sendo executado pelo Individuo que estuda aquela Coisa. Qual é, pois, A IDEIA que o Sujeito faz do Objeto; e NÃO o quê o Objeto realmente É. Perde-se toda objetividade em favor da excessiva subjetividade.

No campo da Ontologia (ver adendo) tudo é reduzido a Pensamento, Idéia ou “Espírito”. A Matéria “Só Existe”, porque dela se faz uma Idéia. O Mundo NÃO é como é, mas sim conforme a Idéia de que dele se faça.

Em extremo, o Idealismo leva ao Solipsismo*, que é o isolamento do Individuo em si mesmo. A introspecção excessiva com característica de enfermidade psicológica ou psiquiátrica. No tópico sobre o Solipsismo, entraremos em mais detalhes sobre essa questão.


ADENDO


Como adendo a esse tópico, faremos na seqüência breves explanações acerca do termo raiz: a Idéia, conforme o celebre Dicionário Aurélio.

EM TERMOS COLOQUIAIS:

1.Representação mental de algo concreto ou abstrato, imagem.
2.Elaboração intelectual, concepção, projeto, plano
3.Invenção, criação
4.Opinião, conceito, juízo
5.Visão imaginaria, irreal, quimera
6.Mente, Pensamento
7.Conhecimento, memória, lembrança
8.Tino, juízo, responsabilidade

EM TERMOS DE FILOSOFIA:

1. Como já se citou, em Platão, o Termo “Idéia” tem o significado de Modelo, Padrão, segundo o qual a respectiva Coisa é construída. Assim, por exemplo, existe a “Idéia Gato”, e todos os gatos existentes são feitos conforme aquele “molde”, malgrado as diferenças entre os indivíduos, pois a “Idéia” refere-se à Espécie ou à Classe e não aos Seres ou às Coisas individualmente. Para Platão, o “Mundo das Idéias” é transcendente à matéria, ou seja, “fica”, “localiza-se” além do que se pode perceber. Claro que para ele o termo não tinha o significado de “Pensamento”, “imagem mental” etc. Aliás, essa concepção, ou noção, só posteriormente apareceu na Filosofia e já como “A Essência” da Realidade. No tópico dedicado ao Platonismo*, voltaremos ao assunto.

2. Para Descartes (1596/1650), as Idéias são representações mentais produzidas pela consciência; e definida, por ele, como aquilo que a Mente percebe diretamente; isto é, se as Idéias foram fabricadas diretamente pela Mente ou pelo Cérebro é obvio que ela a perceba ou reconheça imediatamente; ao contrário do que ocorre quando há uma percepção pelos Sentidos sobre algum objeto e essa percepção tem que chegar ao cérebro, ou à mente, e ali ser processada para só então ser devidamente conceituada. Descartes diferencia três tipos de Idéias:
a. INATAS – que são produzidas pelo próprio cérebro, ou mente, sem que haja necessidade de antes ter havido qualquer Experiência Empírica (aquela que consiste na percepção dos dados ou características do objeto estudado, através do que foi captado pelos Sentidos; ie. audição, visão, tato, olfato, paladar). Nesse tipo, ele inclui a Idéia de “um Deus perfeito”, a Idéia da “Substância Pensante (a Razão, os Pensamentos, a Mente, o “Espírito”)” e a Idéia da Matéria Extensa (o corpo físico).
b. FACTICIAS (Fictícias?)– as Idéias produzidas pela Imaginação e que se relacionam com uma Realidade imaginária, como, por exemplo, a Idéia de uma Sereia, a de um Monstro etc.
c. ADVENTÍCIAS – as Idéias que são formadas pelo Cérebro ou Mente a partir “do advento” ou do acontecimento de uma Experiência.
Para o filósofo, o Homem pode conhecer as “Idéias Inatas” – que são a base de todo Saber – voltando-se para seu interior, através de profunda meditação e reflexão.

3. Para os adeptos do Empirismo*, as Idéias são elementos mentais que resultam do processo de abstração (alheamento da realidade física, meditação, reflexão) sobre um Objeto que foi percebido ou captado pelos Sentidos (tato, visão, audição ...).

4. Para Kant (1724/1804) as Idéias são Conceitos ou Definições que “administram ou regulamentam” o funcionamento do Raciocínio, ou Razão. São imprescindíveis e com formas ou formatos que não tem correspondentes no Mundo Físico. As Idéias da RAZÃO PURA (ou do Raciocínio que não sofreu influências de nenhuma percepção captada pelos Sentidos) são aquelas que não tem qualquer associação com o Objetivo (ou material, físico, concreto), mas que são indispensáveis para que a Razão (ou Raciocínio, ou Consciente) funcione corretamente. Pode-se citar das mesmas os seguintes exemplos: a Idéia de Deus; a Idéia da Alma, a Idéia do Mundo Exterior etc.

5. Para Hegel, a “Idéia Absoluta” é a “Verdade Plena do SER”. A unificação do Conceito (ou Noção) com a Realidade é a confirmação de que “Toda a Realidade (ou Real) é uma Idéia”. Veja-se acima “Idealismo Absoluto”.

Por fim, vale citar alguns Conceitos exarados pelos filósofos sobre o termo “Idéia”.

a. Descartes – pela palavra Idéia, entendo tudo o que pode estar em nosso Pensamento.

b. Hume (1711/1776, Escócia) – por Idéias , entendo as imagens enfraquecidas das Impressões no Pensamento e no Raciocínio.

c. Kant – entendo por Idéia, um conceito racional necessário (indispensável) ao qual nenhum objeto que lhe corresponde pode ser dado (ou captado) nos Sentidos.



Fonte: FILOSOFIA SEM MISTÉRIOS - DICIONÁRIO SINTÉTICO, por Fabio Renato Villela - Ed. Seven System, Biblioteca 24x7, a venda nas Lojas da Livraria Cultura, em todo Brasil, ou no Site: www.amazon.com

quarta-feira, 3 de abril de 2013

SHIVA (XIVA) – O “Grande Senhor da Meditação e do Yôga"


Aquilo que para nós, ocidentais, pode parecer apenas miséria, inação ou simples preguiça, tem outro sentido para os milhares de homens indianos que vagam pelas florestas, totalmente despidos e carregando apenas uma vasilha para água. Com os cabelos compridos e desgrenhados, mendigam sua comida e praticam a filosofia e as posturas da YOGA. Alguns os chamam de “Homens Santos”; pessoas que renunciaram ao Mundo, às ambições e às preocupações terrenas para seguirem o ensinamento do Deus da Meditação, o “Lorde” SHIVA.
Buscam pelo ascetismo a Sabedoria e a Iluminação. Seguem o estilo de vida que julgam ser o adotado e pregado por esse deus, que é um dos mais poderosos e seguidos pelos hindus. SHIVA abriga sob a sua filosofia todos aqueles que abdicam de uma vida social para se dedicar apenas ao espírito. É o deus dos humildes, protetor dos mendigos e dos miseráveis. Dentro da TRIMURTI*, cabe-lhe o papel de “Destruidor da Criação”, o que pode ser entendido como a eliminação das excessivas preocupações com a matéria que, por si, é corruptível. Todavia, seus seguidores rejeitam essa função dada a SHIVA; pois acham que ela o associa a uma imagem negativa, o que não condiz com a sua importância. Para eles, SHIVA é o “Deus Supremo”. Uma das formas de BRAHMAN* em sua totalidade. E assim sendo, os SHIVAÍSTAS* veneram-no com exclusividade. Baseiam-se no fato de SHIVA ser muito mais antigo que os outros deuses do panteão; e historiadores corroboram esta tese, pois SHIVA já era um importante deus na Era Pré Védica (anterior à invasão ARIANA), sendo admitido no panteão BRAMÂNICO devido a sua imensa popularidade na época. Suas primeiras representações datam do Período Neolítico (c. 4000 aC.) quando era chamado de PASHUPATI*, o “Senhor dos Animais”, meditando em uma floresta, rodeado de feras que lhe eram dóceis. O SHIVAÍSMO* é essencialmente uma religião da natureza, onde se afirma que os seres humanos não devem ater-se às Normas Humanas, mas sim às da Natureza, na qual os Homens – como todos os outros seres – estão submetidos. Por isto, os sacrifícios e outros rituais – encarados com desdém e repugnância por outras correntes – são naturalmente aceitos pelos seguidores de SHIVA. Esse fato, aliás, é que pode ter contribuído para a má fama da divindade, que em geral é associada a sacrifícios sangrentos, automutilações, ascetismo exacerbado, rituais mágicos e quejandos. Por esse conjunto, o culto a SHIVA encontrou forte resistência doutros ramos do HINDUISMO, principalmente entre os seguidores de BRAHMA* que o consideram anti-social. SHIVA é o deus das montanhas, o símbolo do ascetismo e enquanto é o deus do povo mais humilde, BRAHMA é o das elites. Destarte, SHIVA foi acusado (sic) de repassar os ensinamentos sagrados ao povo e aos delinqüentes que zombam dos valores da sociedade. (Aqui cabe o registro: similar ao que aconteceu com a Igreja Católica pré Reforma que estabelecia que apenas os Sacerdotes (= BRÂMANES) deveriam conhecer as Escrituras. Também se pode relacionar esse temor à popularização dos Conhecimentos, ao medo que as Elites sentiam de perder um potente instrumento de subjugação do povo. Ou, ainda, ao mito grego de PROMETEU, que roubou o fogo (a luz, o esclarecimento) dos deuses e o entregou aos humanos; ao ainda à condenação de Sócrates, acusado de deturpar a juventude, etc.). Porém, dentre todas as perseguições, o golpe mais forte que o SHIVAÍSMO* sofreu veio do ISLAMISMO que invadiu o norte da Índia em várias ocasiões, o que, aliás, foi a principal razão da diáspora dos SHIVAÍSTAS* por todo o país, especialmente rumo ao sul. Seguindo o modelo de SHIVA, seus adeptos espalham em seus corpos, cinzas oriundas das cremações de cadáveres ou fazem riscos horizontais na testa para simbolizar o total desprendimento do mundo material. A simbologia das cinzas relaciona-se com a tese de que o corpo humano está destinado à morte e que, portanto, não vale atender às suas necessidades mundanas. O que importa é o espírito, o autoconhecimento e não a devoção ao físico que é apenas temporário. SHIVA é particularmente venerado, todos os meses, na noite anterior ao dia da lua nova. Além disso, anualmente, no mês de MAGHA (fevereiro/março), um dia e uma noite são devotados ao deus. São datas em que os fieis reservam horas para as orações e rituais. Quando SHIVA é venerado em templos, normalmente é representado sob a forma de um LINGA* (uma espécie de estatueta em forma de falo), que depois do MANTRA “OM”, é o símbolo mais poderoso e popular do HINDUISMO. A forma de falo simboliza o poder da criação de Deus (após a destruição da matéria). A energia masculina que dá origem ao Universo. A base da estatueta representa a genitália feminina, demonstrando que a criação só acontece com a união entre o feminino e o masculino. O LINGA é um amuleto que remonta à Era Pré Védica e ainda hoje muitos o mantém em casa e/ou levam-nos pendurados no pescoço. O formato e a simbologia do LINGA fizeram com que o deus SHIVA, também fosse associado ao sexo e à sensualidade e para os SHIVAÍSTAS*, o prazer obtido com o sexo é uma forma de aproximação com o divino; uma maneira de realizar-se espiritualmente. Porém, a principal veneração não acontece nos templos, festivais ou festas. A YOGA* e a Meditação são os principais caminhos para se encontrar SHIVA. O culto é individual, sendo que cada um deve representá-lo dentro de si e descobrir sua própria natureza interior. Quanto às figurações acerca de SHIVA, pode-se afirmar que as imagens mais populares retratam-no quase sempre meditando, envolto por serpentes e vestindo peles de tigres. Atrás dele aparece o seu fiel companheiro NANDI*, o touro branco. Ao montá-lo, SHIVA domina a violência mundana carregando em uma de suas quatro mãos um tridente com que destrói a natureza brutal dos humanos. Outra famosa representação é o SHIVA DANÇARINO, onde aparece dançando graciosamente dentro de um círculo de fogo. Nela, SHIVA segura um tambor, uma chama e se apóia em um anão, que simboliza o demônio da ignorância humana. É por meio dessa dança que SHIVA mantém a Criação para destruí-la depois. Tudo nasce e tudo morre. Com o tambor em forma de ampulheta, ele marca o ritmo do mundo e o compasso de sua dança. As chamas ao redor do circulo simbolizam a transformação e a destruição (purificadora) do Universo. Além destas figurações, SHIVA é retratado como: asceta extremado; o matador de demônios, envolvido por serpentes e com uma coroa de crânios na cabeça; como um falo, o LINGA*; com quatro braços, sendo que dois são de sua consorte PARVATI*. Esta profusão de representações, por si, indica que muito mais que as outras divindades, SHIVA é uma mistura de cultos, crenças, mitos e deuses que vêem desde a pré história, anterior aos VEDAS. No panteão indiano, como já se escreveu, representa o arquétipo do Asceta, o Deus da libertação, o YOGUE dos YOGUIS; o destruidor da ilusão material e da ignorância humana que anseia pelos bens terrenos. É a terceira divindade da TRIMURTI* e, conforme a tradição vive no monte KAILASA*, no Himalaia, absorto em profunda e continua meditação. Aliás, a ligação de SHIVA com a meditação é absoluta, tanto na Índia quanto noutros lugares. Não se têm certeza sobre a origem dessa conjunção, mas sabe-se que provém de crenças ancestrais. Dos tempos em que ainda era chamado de PASHUPATI*. Por fim, cabe o registro que SHIVA DANÇARINO é epônimo de um importante templo situado na cidade de CIDAMBARAM*.


Para Priscila.

FONTE - Deusas e Deuses Hindus - Fabio Renato Villela - Biblioteca 24x7 Seven System - a venda nas Livrarias CULTURA, em todo Brasil.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Gargalo


É tempo da vida
ser tomada no gargalo.
As taças que já existiram
foram se perdendo
em porres e sarjetas
e os poemas já não
brotam das gavetas.

Aonde eu fiquei?
Que rua eu não atravessei?
Quem é esse que recobre no espelho
a alma que um dia eu fui.
Donde veio esse rosto embaçado
de quem não quer ser notado?

As "Causas" já não são incisivas
e nem as "Massas" são pobres cativas
que alguma Revolução manteria vivas.
Em qual dentada
eu cuspi a derradeira ironia?
E quando foi o último coquetel
contra a "Mais Valia"?

Agora só há
essa dor que me alucina.
Essa tristeza que me cobre
como fria neblina,
essa angústia que me isola
como Muralha da China
e essa vontade
de que não haja
a próxima esquina.

domingo, 31 de março de 2013

Cantos Findos


As águas do São Francisco
já não molham o areal.
Cessou o canto das lavadeiras
e a reza das benzedeiras.
Os pescadores emudeceram
e são inúteis os labores,
as mandingas e os tambores.
o Rio é quietude
e só prenúncio de ataúde.

Estão silenciadas as Árias
e todos os Cantares são párias.
Quebraram-se as penas
e exilaram-se os temas.

A melancolia do cinza invade a cidade
e o grafite só cobre a metade.
As sortes foram lançadas
e as taças foram tombadas.

O arame da gaiola
prende o canto do passarinho.
O Canto de liberdade
morre no próprio ninho.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Soneto Lirico


As luzes que um anjo
acende no Céu
iluminam os sonhos
que o Sereno semeia no Mundo.

Amanhã brotarão os girassóis
e os caminhos estarão livres
para a procissão de
palavras e rimas.

Solene passará a segunda quadra,
e presto aportará
a terceira esquadra

e dentre mastros e bandeiras
logo se verá a Estrela acendida.
São os olhos da Musa escolhida.


                         

segunda-feira, 25 de março de 2013

31 de Março

Quantos dos nossos, agora estão contigo,
doce guerreira?
Ainda doem as feridas que te feriram
e a dignidade que te roubaram?
Ainda tens o mesmo o brilho nos olhos
 de quando fazíamos o Brasil livre
e a esperança de que se vive?
Tuas mãos ainda guardam os carinhos
que te eram fartos e generosos
e ainda é a mesma
a coragem com que tu empunhavas
a bandeira da brava gente?
Tu ainda cantas os Cantos de independência
e ainda ouve o choro dos desvalidos?
Ainda insistes para que se ergam
e espantem a falsa Redentora
que prende, tortura e mata?


Aqui, minha doce guerreira,
ainda há muito que caminhar.
Ainda há tanto porque lutar,
mas eu sinto, companheira,
que alguma semente se pôs a germinar.
É preciso que a tua doce bravura
não nos falte,
pois bem sabemos
que o justo não se abate.
Por ti, por Miraflores, por Carlos,
por Maurício, por Lavínia e
por tantos e tantas,
creia,
todas as lutas serão santas.
Sempre se revestirão da pureza
dos bem intencionados,
do vigor dos determinados
e da revolta dos injustiçados.
Tua luta será sempre viva
e tua chama sempre renovada.
A liberdade que te custou a vida
não haverá nunca de ser esquecida.

Por isso, companheira, aquiete a alma
e descanse do Mundo. Descanse dos homens.
O chão do Brasil te abriga.
Que a tua dor adube a terra manchada.
Dela, nascerão novos tempos
e, neles, o justo esquecimento
daquela noite de tanto tormento.


                     Para Bete. Saudades.

domingo, 24 de março de 2013

Poesia, rima e vida.





A poesia ficou rala
e o amor nada fala.
Restou a rua e a mala;
sou eu e o quarto sem sala.

A rima ficou pobre e rara.
A vida me custa os olhos da cara.
Maldição do bruxo canalha
e da Morfina que sempre falha.

"Cest la vie..."
Perpétuo "Dejá Vú...".
A náusea, o horror que já senti.

Mas ainda bebo esperança,
afago a noite criança
e ando nova andança.

Fartos e Doces Frutos


Doces e fartos serão os frutos
na próxima messe.
Conosco, os amigos festejarão
o cumprimento da Promessa
e a realização imodesta
dos designeos da bela Vesta.

Por isso, que cantem os Menestréis
as cores que adornam o Poente.
Eis que celebraremos o triunfo da vida.

É chegado o tempo da concórdia,
essa suave e triunfante rapsódia.
Saibamos ouvi-la, pois eis que traz
em seus compassos e acordes
o Belo que se julgava perdido
e a Arte que se pensava esquecida.
Ouçamos suas flautas e clarins.
Soarão sem a andrajosa opulência
dos vazios vestidos de aparência.
Soarão sem a arrogância
dos Profetas da ganância.
Saibamos ouvi-la, pois será então
o tempo do homem dispensar
o sádico exercício do não.

Eis que celebraremos o triunfo do amor.
Eis-nos, Princesa amada,
a caminho da nova florada.
Que sejam livres os colibris
e que dourem os Girassóis do dia.
Breve, o Devir Eterno trará
a luz das estrelas
e o milagre de poder vê-las.
Que sejam generosas as carícias,
os corpos e os desejos.
Que se proclame o amor
em cada gesto
e que o orgasmo da bem-aventurança,
aconteça conforme a nossa imagem e semelhança.

                               

sábado, 23 de março de 2013

Realejo do Alentejo



O homem do realejo
toca a nostalgia da inocência
sem prever o fim da clemência.

Mas em tudo há uma sensação
de crime cometido,
de pecado consentido
e de desejo proibido.
Bêbadas almas delirantes
dançam em umbrais degradantes
e enlouquecidas por paixões escaldantes
clamam por devassos impérios
e sórdidos mistérios.
Os puros amores foram traídos
e d'alguma cumplicidade honesta
pouco mais resta.
Apenas a hipocrisia
de certa promessa vazia
e a cínica máscara de falsa Santidade
dos inglórios Pastores da castidade.

E, no entanto, o homem do realejo
insiste nos fados do Alentejo
e anuncia a chegado do
novo tempo e destino
em que o amor não é clandestino.

Figura - tela de de Djanira da Mota Silva, via Web.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Outono




O homem recolhe
as folhas caídas
no chão burocrático
Quem fará igual
com as nossas almas?

É chegado o Outono nas almas,
o tédio das águas calmas.
O manso morrer do viço,
o triste morrer do sofrer mortiço.

Prenúncio do Inverno, enquanto ainda os há.
Sem Arco-Iris, deixado em Shangrilá.
Poucas cores que se vão sumindo,
projetos que se vão resumindo.

Frio vento. Silêncio e desalento.
Folhas que voam num só momento.
Idéias que voam num só lamento.

A rua deserta,
o silêncio que grita.
Tantas ausências...

domingo, 17 de março de 2013

A Terra Seca de Deus e do Diabo


De novo está seca a terra
que Deus e o Diabo queimam de Sol.
Tua poesia não bastou, irmão
"ideias na cabeça e câmera na mão".

Os homens ainda vivem da morte
e a bala só não mata a fome
que campeia feito rês fantasma
em cada légua de caminho seco.
O espinho de Mandacaru
fere o corpo curtido da gente fiapo
dopada pelo pó marrom.
Gente suja, feia, rota, desgrenhada
que perambula no chão partido
em busca de tudo.
Em busca de pouco.

Em busca do milagre do Conselheiro
que o Governo matou.
De Canudos apenas restou
a sede perene dos ressacados
e a esperança que não vingou.
 
De novo está a seca
a Terra de Deus e do Diabo.
E Gláuber se foi ou morreu
n'algum pau-de-arara
de tortura, morte ou exílio.
E já nem há "Padim Ciço"
a quem pedir auxílio.


     Homenagem pouca ao gênio de Gláuber Rocha.

sábado, 16 de março de 2013

A Musa


- Por que sempre há a Musa
em teu Canto, poeta?
- Porque ela é o próprio cantar...

Porque é o brilho de seu olhar
que ilumina a Arte que tento
e é na saudade que lhe sinto
que as palavras ganham alento.

Porque nela a vida acontece
e os adjetivos adornam os substantivos
enquanto os verbos se realizam
e as poesias se eternizam.

Porque nela eu deposito o meu sonho maduro
e a esperança de que no tempo futuro
sempre exista a sutil urgência do desejo
e, depois, a placidez do amor que se fez.

Por isso, assim o meu Canto
para a Musa se faz.
Canto o amor e a paz
que apenas ela me traz.

         

quinta-feira, 14 de março de 2013

Drama e Intensidade

O drama e a intensidade de um puro amor marginal
explode em bofetões na mesa ao lado.
Exilados em qualquer botequim da Boca do Lixo,
personagens vestem essa noite de pré Outono
que a garoa fria anuncia nos corpos seminus.

São figuras que rodam pelas páginas desse folhetim
sem que exista algum Thiago de Melo* para cantar
a crua beleza do instante que se cristaliza em vermelho.

Choram os olhos da moça traída
pela má sorte e pela má vida.
Úmidos, assistem o amado seguir
a puta que não deveria existir.
Eram olhos que acreditavam que os Destinos se alteram.
Paixão, ódio e amor escorrem junto ao rímel.
Pranto miúdo, abafado.
Desses, que quase não se percebe
e do qual logo se esquece,
pois basta um violão e um instante
para que a dor que bebe comigo,
reviva a saudade da Musa Amada.
Reviva a inutilidade e o despropósito
de quando a vida é só depósito.

No fim, no palco, um poeta mambembe declama versos desconexos.
Sei-me livro a recolher os escritos do Mundo.
E a sonhar o dourado
que só se avista nos Poentes de Florença.


                         

quarta-feira, 13 de março de 2013

Tempo Tempestade


O mênstruo da tempestade
revela os pecados da cidade.
"Bocas de lobo" regurgitam
os crimes não digeridos
e os corpos corrompidos.

O vento açoita meu rosto
e sinto o arroto, escroto, esgoto
donde transbordam os rancores.
É suja a enxurrada que arrasta
as crenças derradeiras
das mulheres carpideiras.


Os rugidos da celeste besta-fera
condenam os pecadores
e as blasfêmias que lhes são devolvidas
são caladas pelo vento navalha
nas mãos do pastor canalha.

Estão úmidos os olhos do Mundo.
Choram os erros
e temem os castigos.
Danaram-se os abrigos
e nos afogam
as águas de Jobim.
As águas do fim.

terça-feira, 12 de março de 2013

Doces e Fartos

Doces e fartos serão os frutos
na próxima messe.
Conosco, os amigos festejarão
o cumprimento da Promessa
e a realização imodesta
dos designeos da bela Vesta.

Por isso, que cantem os Menestréis
as cores que adornam o Poente.
Eis que celebraremos o triunfo da vida.

É chegado o tempo da concórdia,
essa suave e triunfante rapsódia.
Saibamos ouvi-la, pois eis que traz
em seus compassos e acordes
o Belo que se julgava perdido
e a Arte que se pensava esquecida.
Ouçamos suas flautas e clarins.
Soarão sem a andrajosa opulência
dos vazios vestidos de aparência.
Soarão sem a arrogância
dos Profetas da ganância.
Saibamos ouvi-la, tempo será
do homem dispensar então,
o sádico exercício do não.

Eis que celebraremos o triunfo do amor.
Eis-nos, Princesa amada,
a caminho da nova florada.
Que sejam livres os colibris
e que dourem os Girassóis do dia.
Breve, o Devir Eterno trará
a luz das estrelas
e o milagre de poder vê-las.
Que sejam generosas as carícias,
os corpos e os desejos.
Que se proclame o amor
em cada gesto
e que o orgasmo da bem-aventurança,
seja à nossa imagem e semelhança.

                             

segunda-feira, 11 de março de 2013

Onde


Poeta, onde está o amor?
Onde sempre esteve, moça morena.
Está no caminho que andamos,
no Canto que cantamos,
nos verso que declamamos,
no pranto que choramos
e no riso que sempre buscamos.
Está em cada cor e em todo som.
Em cada luz e em todo tom.
Está em cada partida
e em cada chegada.
Em cada carícia trocada,
em cada mão estendida
e em toda cama amanhecida.
Está, moça do Rio,
no novo livro de Thyago,
o anjo que Deus me deu.
Está na voz dea minha eterna certeza.
Está na saudade que sinto de Cecilia,
a filha bem amada, ainda que não revelada.
Está em Kris, em Lúcia, em Maísa, em Emilia...
Está em Filipi, em Evan, em Rosmary...

E em tudo mais, moça bonita,
está o amor.
Só é preciso "Olhos de Ver",
pois ei-lo em todo amanhecer.

                     Aos amores citados,

sábado, 9 de março de 2013

Teme-se


Há um abuso de silêncio
na dor que a gente sente
quando o Sol deixa a Enseada.
Teme-se que a Lua não venha,
que a amada se esqueça
e que tudo nos entristeça.
Teme-se que tudo seja um engano,
ao alcance da primeira garra do cotidiano.
Teme-se a guerra,
e a vingança da Mãe-Terra
Teme-se o fim de um jardim
a morte de uma sabiá
e o plágio de um jasmim.
Teme-se o fantasma branco
da noiva de Minas,
que assombra as esquinas.
Teme-se o fim da cachaça,
o recomeço da mordaça
e o Congresso trapaça.
Teme-se a perenidade
desse quarto de hotel
e o terror de não se ter
para onde voltar.

E, por fim, teme-se o escuro da cena
e que este seja
o último poema.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Estrela do Mar

No mar em que
eu pescava as Estrelas
e pecava ao perdê-las,
agora existe um labirinto
onde as virgens esperanças,
findam-se em brancas danças.

Resta raivoso,
o espumoso Netuno.
Monstro soturno
que ruge ao longe
a prece do perdido Monge.
Ficaram omissas,
as Sacras premissas
e se perderam nas tortas vias
as outras certezas vazias.

Resta o fero covil,
a porta que não se abriu,
a amada que partiu
e a lembrança do sonho
que ninguém mais viu.

      

quinta-feira, 7 de março de 2013

Homenagem ao "Dia Internacional das Mulheres" - REPUBLICADO


BEAUVOIR, SIMONE – a Mulher e o Feminismo.
1908/1986

“O homem é definido como “Ser Humano” e a mulher como fêmea”.

Em sua obra mais célebre, O Segundo Sexo, a filósofa francesa argumenta que no correr do tempo, o paradigma do que entendemos como Humano – tanto em termos filosóficos, quanto gerais – é sempre uma visão masculina.

Alguns filósofos, como Aristóteles chegaram a igualar Humanidade com Masculinidade. Outros, não ousaram tanto, mas não titubearam em elevar o masculino como o padrão segundo o qual a humanidade deve ser julgada; ou seja, toda ação ou pensamento feminino seria tão insignificante que não entraria na equação de erros e acertos do Ser Humano. Tudo seria condenado ou absolvido conforme o ponto de vista masculino.

Essa visão acabou confundindo inclusive o que se entendia como “libertação feminina” e Beauvoir tinha entre suas preocupações o fato de que as mulheres são tratadas com relativa igualdade apenas se agirem como homens.

NOTA do AUTOR – essa lógica torta, talvez também explique o porquê de a homossexualidade feminina ser mais tolerada que a masculina. Para os valores equivocados da sociedade, o homossexual masculino desceu à condição de mulher; enquanto a homossexual feminina subiu à condição de homem.

Para Simone, mesmo aqueles que lutam pela igualdade de Direitos, fazem-no imaginando (ainda que de boa-fé) que Igualdade significa que as mulheres podem fazer as mesmas coisas que os homens, como, por exemplo, votar e ser votada, dirigir um automóvel, não usar o lenço na cabeça, ter prazer sexual etc.

Mas essa é uma visão totalmente errada, segundo Simone, já que não leva em consideração que os dois gêneros são diferentes física e emocionalmente. Portanto, o “bom combate” será aquele que exija os mesmos Direitos Civis, Políticos, Profissionais etc., mas sem a contrapartida de que para “merecê-los (sic) a mulher tenha que se masculinizar. Sem que ela tenha que pensar e agir como se fosse um homem.

Destarte, o objetivo a ser alcançado é a conquista da plena cidadania, com o devido respeito à sua maneira de Ser, de Sentir, de “estar no Mundo”.

Ter o Direito de ser diferente do homem, sem que isso implique em diminuição em suas prerrogativas de cidadã.

Simone teve formação filosófica na área da Fenomenologia que, como se sabe, é o Estudo sobre como as Coisas (objetos, seres, etc.) se manifestam à nossa Consciência.

Esse ideário sustenta que cada indivíduo constrói o Mundo a partir de sua própria perspectiva; organiza as Coisas e os seus sentidos (seus significados) a partir do que lhe acontece.

A partir dessa constatação, Simone tornou-se uma Existencialista – no sentido de que a Existência como Mulher é que formava a sua Essência.

Ao trazer a concepção Existencialista para a condição de mulher, Simone buscou a separação entre o Ente biológico, a forma corporal com a qual as mulheres nascem, e a “Feminilidade”, que é apenas uma Construção Social (um esquema construindo segundo os costumes, as normas da sociedade. Uma invenção dos Seres Humanos).

Assim, a partir da premissa de que qualquer Construção Social está aberta a modificações e a diferentes interpretações, admite-se a possibilidade de “ser mulher” de várias maneiras diferentes e de se fazer uma “Escolha Existencial”, pois, segundo ela, “já que nos exortam a sermos mulheres, a tornamo-nos mulheres” isso sinaliza que “nem todo Ser Humano do sexo feminino é mulher (sic)”. “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Tornemo-nos, então!”.

Para Beauvoir, as mulheres devem se libertar da ideia de que necessitam ser como os homens as imaginam; e da passividade que lhes é atribuída. E, por consequência, da servilidade a que foram condenadas pela Sociedade.

Viver uma “Vida Autêntica”, mais reflexiva e acima dos padrões e valores habituais (ser magra, bela, desejável etc. com interesses miúdos em roupas, joias e similares, visando, ao final, agradar aos Homens e assim perpetuar a servidão) é, certamente, mais penoso do que levar uma vida de frívola existência.

Contudo, é justamente a “Vida Autêntica”, com sua rejeição aos valores burgueses e sexistas, que garantirá a igualdade enquanto cidadã e o direito a ser diferente enquanto mulher.


                                           Dedicado à todas...

terça-feira, 5 de março de 2013

Mãos Maduras

As mãos que no maduro amor
buscam o calor de outras mãos
já carregaram filhos, altares e utopias.

Mãos que já carregaram dores, cores e todos os rumores.
Mãos que já carregaram o Mundo
e se purificaram dos rancores.

Mãos que agora só procuram
a calma dos carinhos seguros
e a ternura que os ventos espalharam.

Mãos que no maduro amor
percorrem corpos de encabuladas idades
e alisam as faces que dos anos restaram.

Mãos que agora se entrelaçam
como se assim impedissem
o momento de ir.
Como se segurassem
um renovado existir.

domingo, 3 de março de 2013

O Bruto Concreto da Periféria


Há tanto concreto bruto
que nem o som alto
nos velhos carros
consegue abafar os ruídos
dessa pegajosa miséria marrom.
Tão poucos são os jardins,
tão poucas são as estrelas
e são tantas as ruas estreitas,
as vidas estreitas,
que nem sempre se cobre a cicatriz
de quem vive por um triz.

Na ponta de uma escada sem fim
uma moça de poucos dentes
e exagerado vermelho batom
chora a banalidade de outro abandono
e a vulgaridade da miséria de sempre.
Um jovem de pele manchada,
de dedos tatuados e cabelos alourados
ajeita o capuz de tecido ordinário.
Outros iguais repetem frases feitas
e lugares-comuns num arremedo de música,
enquanto sonham periféricas soluções,
mágicas poções e redentoras rebeliões.
Num canto da viela que sobe,
um homem traja um terno indevido.
Ao lado, uma mulher de longos cabelos
acompanha-lhe na melopeia dos versículos
que não leram, tampouco entenderam.
Alguém os insulta. Outrem os reverencia.
Indiferentes, seguem resolutos esse caminho
de Calvários compartilhados.
O trem de Morato apita na curva,
mas não espanta os "nóias".
Carrega marmitas
e os homens
que as consomem.
Carrega bolsas, meias-calças
e uns sonhos que sobraram.
Anda e sacoleja no trilho de sempre.
Na vida de sempre.
O lúcido bêbado louco
proclama o Fim dos Tempos
e a inutilidade do Poeta Simbolista,
pois eis que os Anjos lhe contaram
que o esplendor de uma samambaia
não mais viria despejar a verde esperança
na árida nudez
das paredes desiludidas...

sábado, 2 de março de 2013

Blues

O homem negro insiste com o trompete.
A branca mulher geme em falsete.
Espalha-se o "blues"
em leves acordes azuis.
Balança um copo solitário
na mão do homem vazio.
Alguém se queixa de frio,
da solidão e do próprio desvario.
Um sax chega aos sustenidos.
A mulher retoma os gemidos
e sonha desejos proibidos.
Sente-se o visco do mormaço,
a angústia por tanto espaço
e o simples desejo de um só abraço.