segunda-feira, 12 de março de 2012

Filosofia Moderna e Contemporânea - CAMUS, Albert - O Mito de Sísifo

CAMUS, ALBERT
1913/1960

Camus nasceu em 1913, na Argélia, que à época era uma colônia francesa. Antes de completar um ano de vida perdeu o pai, morto em combate na 1ª Guerra Mundial. Criado apenas pela mãe teve uma infância extremamente pobre, mas ainda assim conseguiu se formar em Filosofia na Universidade de Argel. Aos 25 anos mudou-se para a França e se uniu ao Partido Comunista Francês de onde foi expulso em 1937, dois anos após a sua filiação. Durante a 2ª Guerra atuou no Movimento de Resistência Francesa editando um jornal clandestino e escrevendo alguns de seus romances, que, posteriormente, fizeram-no famoso. Além dos Romances, escreveu Ensaios e Peças Teatrais, colocando em cada trabalho a porção de Filosofia que importasse ao texto. Em 1957, recebeu o Nobel de Literatura e em 1960 morreu, vitima de um acidente de carro.

Para Camus, temos Consciência, ie, a Racionalidade que tenta enquadrar tudo em um tipo de esquema que lhe possa parecer lógico, racional.  E, por isso, “sentimos, queremos crer, ou aceitamos a hipótese” de que a Vida tem “Sentido (ou algum significado). Porém, “sabemos” que o Universo como um Todo NÃO tem Sentido, Propósito e que a nossa vida é uma contradição. Um combate entre o “sentir” e o “saber”.

RECORTE - o propósito, a finalidade, o sentido da vida a que Camus se refere está no rol daquele que podemos captar e racionalizar. Com efeito, se analisarmos friamente todos os trabalhos, as preocupações e até as alegrias do Homem veremos que são irrelevantes em relação ao Universo, ao “Todo”. Se eu, por exemplo, não escrevesse este Ensaio, em nada mudaria o curso do Cosmo. Se um cirurgião salva um paciente, na verdade, apenas adiou o momento final do mesmo. As alegrias das conquistas são passageiras e tão logo cesse a endorfina que jogou em nosso cérebro, também cessa o entusiasmo pela mesma. A este tipo de Sentido, de Significado é que o filosofo se referia, pois aquele outro, o Metafísico (que está além da nossa realidade) não nos é cognoscível e, no caso de Camus, por ser Existencialista, nem existe.

Logo, para “viver bem” precisamos superar essa contradição. E para tanto será preciso aceitar a “Falta de Sentido” da Existência. Ou, não se limitar por rigidas normas vazias, que foram criadas arbitrariamente imaginando-se que a Vida exigiria esse tipo de comportamento, por ter algum Significado. Significado que poderia ser de ordem Espiritual, Celestial, Ecológica, Filosófica etc.

Fazendo uma abstração, tentemos imaginar o que pensava Sísifo* quando descia do Monte para empurrar a pedra novamente. Achava-se “livre” naquele momento? Pensava que o trabalho do Homem é tão repetitivo e sem Sentido como o dele? Que, como ele, o Homem luta e luta, para só no fim descobrir que tudo que fez foi rolar inutilmente a mesma pedra morro acima? Pensava Sísifo que o Homem é ele?

*Sísifo foi um rei grego que em certo momento tornou-se desagradável aos deuses que, então, o condenaram a uma pena crudelíssima que o obrigava a rolar uma pedra enorme até o pico de um monte, de onde ela rolava em seguida até o solo, obrigando-o a reiniciar eternamente o trabalho sem propósito, sem finalidade, sem sentido.

Alguns eruditos (e outros nem tanto) afirmam que a função da Filosofia é buscar o “Significado, o Propósito, o Sentido” da Vida. Para Camus, não. Julgava o filósofo e romancista que à Filosofia só cabe reconhecer que a Vida é SEM Sentido. Exatamente o contrário. Em principio sua posição parece extremamente pessimista, mas este juízo não é verdadeiro, pois Camus acreditava que se adotarmos, ou nos resignarmos a essa ausência de propósito, tornamo-nos aptos para viver o mais plenamente possível. Se inexistir um significado, uma justificativa, uma recompensa futura para os sofrimentos do Homem, que ele, Homem, seja o mais feliz possível naqueles momentos em que desce do Monte para rolar a Pedra novamente. Ou seja, que nos intervalos em que se livra das obrigações vazias a que está condenado, que ele experimente o prazer de aceitar a Irracionalidade de tudo e só faça o que lhe der prazer, sem temer a cobrança do Futuro. Sem temer os castigos Metafísicos que o deus judaico-cristão está sempre pronto a lhe infligir.

O leitor (a) que comparar o Pensamento de Camus com os antigos Ceticismo e Hedonismo, passando pelo Niilismo de Nietzsche, mais o sempre presente Materialismo não estará totalmente errado, porém, será preciso ver que em Camus a busca pelo prazer é bem mais que uma simples busca pelo gozo físico. Situa-se um pouco além. No terreno em que tal “desejo insolente” toma ares de revolta contra o Sistema Colonialista, contra o absurdo das Guerras que presenciou, contra a hipocrisia da sociedade em que estava e contra a manipuladora fantasia da religião. Camus era um homem que viveu no período do Existencialismo e como Existencialista escreveu e filosofou.

Quando afirmava a desimportância, a insignificância e a falta de Sentido em tudo que o Homem faz, destilava uma sutil amargura pela patética imagem do Indivíduo que acredita na ilusão de que sua vida tem uma finalidade, um objetivo. Patética ilusão que o leva, na falta de um significado palpável, a criar um significado indireto a quem chama de “Deus”, “Outra Vida” etc. Patética ilusão que não lhe deixa entender que se há algum objetivo, algum cabimento, algum sentido na vida, esse cabimento está apenas em sua Mente, em sua crença, pois o Universo como um Todo, não tem Sentido, nem Propósito. Ele simplesmente É. Existe. E se existe por algum motivo, este móvel está muito além da nossa capacidade de compreendê-lo.

Mas, prossegue Camus, por termos Consciência, ou predisposição a sermos Racionais, diferentemente dos outros Seres, tornamo-nos o “SER” que encontra Sentido, Significado para tudo; por mais fantástico e absurdo que o mesmo possa Ser. Como a invenção dos deuses, acima citada. Necessitamos da ilusão, da quimera de que existe um Objetivo (maior? Mais sublime? Incognoscível?) que compensará o vazio dos nossos cotidianos, ainda que tal dia-a-dia seja recheado de pseudos alegrias, sinceras bondades ou meros entretenimentos, como o dinheiro, o luxo, o sexo, as realizações etc.

Aliás, “Absurdo” (ou irracional, ilógico), para Camus seria o nome da nossa predisposição em pensar que há um o Propósito, ou Sentido para nossa vida. E por ser Absurdo - contrário às regras da matéria, da objetividade – só pode existir abstratamente em nossa imaginação, em nossa Mente. Apenas em nossa Consciência é que existe algum Significado para a rotina inútil da vida.

Sentimento de Absurdo que resulta da nossa percepção acerca da contradição entre o fato de que “gostamos de crer” que há algum Propósito na vida e o nosso Conhecimento intuitivo e mais verdadeiro, de que o Universo é carente de Sentido, de Significado.

Camus explorou o que é viver sob essa contradição. E ante a inexorabilidade do fato, propôs o já citado acomodamento à situação para vivermos dentro do contentamento possível. Em suas palavras: “devemos abraçar o Absurdo”. Aceitar o fato de que a vida é Absurda. Porém, ao abraçar o “Absurdo” nossa vidas se tornam, paradoxalmente, uma constante revolta contra o Universo sem Sentido e é desse litigo que nos provém à única vivência livre das amarras metafísicas, religiosas, ou filosóficas, que anteriormente nos pressionavam como se fossem ameaças reais, constantes.

Essa idéia foi desenvolvida posteriormente pelo filósofo THOMAS NAGEL que afirmou ser o “Absurdo da Vida” que está na natureza, ou no modo de ser, da Consciência; porque, por mais seriamente que encaremos a vida, sempre sobra em nossa Mente uma dúvida se tal seriedade não seria questionável. Se, de fato, seria justificável agir como se houvesse algum Sentido, quando não há Sentido nenhum?

Como se pode depreender do que se colocou neste Ensaio, Camus é um Niilista que nega os Valores sócio-religiosos que acobertam o vácuo existente. E por sua grandeza e honestidade intelectual, paga o preço por ostentar verdades que incomodam. Assim, antes de julgá-lo com severidade, será justo que ponderemos em que época ele viveu. Permeada por guerras, colonialismos tardios e o “Existencialismo” como Filosofia preponderante, foi um tempo que encaminhou sua inteligência para o estudo mais profundo do ato de viver. Portanto, se olhada sem preconceitos, é possível ver o quanto foi acertada sua tese.

São Paulo, 11/Março/2012.

Bibliografia Consultada e Recomendada:

  1. Dicionário de Filosofia – Nicola Abbagno Ed. Mestre Jou – São Paulo, capital. Tradução – Alfredo Bosi.
  1. O Livro da Filosofia – Anna Hall, editora de projeto e Sam Atkinson, editor Sênior – Londres, Grã Bretanha. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier.