quinta-feira, 22 de março de 2012

Filosofia Contemporânea - FEUERBACK, L. Andreas - O Ateísmo, o Agnosticismo e o Deísmo

FEUERBACK, Ludwig Andreas.
1804/1872
O Ateísmo e o Agnosticismo.

Segundo o Dicionário “Aurélio” o termo Ateísmo significa a “doutrina que dispensa a ideia, ou a intuição, (de que há) da divindade”. Seja no campo teórico, quanto no prático. No primeiro caso, a “Ideia Deus” não é utilizada para reforçar, ou justificar uma tese. No segundo caso, negando que uma eventual existência da divindade tenha qualquer influência na conduta humana.

Existem pessoas que só concordam parcialmente com essa tese, pois acreditam que Deus não influencia diretamente a vida humana e nem é útil para reforçar uma opinião. Porém, acham, supõe que exista um Deus, mas totalmente diferente daquele que as religiões propõem. Pessoas que comungam essa opinião são chamadas de Deístas. O Deus que aceitam é totalmente isento dos atributos e do antropomorfismo que as Igrejas lhe emprestam.

Além desse, citaremos o grupo de indivíduos chamados de “Agnósticos” que em termos de Filosofia só aceitam como verdadeira a tese que seja logicamente, racionalmente evidente. Agnósticos são as pessoas adeptas da “Agnosia (do grego Agnosia = ignorância)”, que é o desconhecimento assumido sobre determinado assunto, principalmente metafísico (ou seja, os assuntos que estão além da Física, do Concreto, do Material).  Logo, Agnósticos são aqueles que Não sabem se Deus existe.

Em resumo, teremos o seguinte quadro:

Ateu – não crê que Deus exista.

Deísta – aceita que Deus exista, mas que é totalmente diferente daquele proposto pelas religiões.

Agnóstico – aquele que “não sabe” se Deus existe.

Como se sabe, já em seu declínio o Império Romano, através de Constantino, elevou o Cristianismo à condição de “Religião Oficial” do Império; e que no “Concilio de Trento” um grupo de Teólogos sistematizou e decidiu o que seria a religião Católica, a qual imperou absoluta durante quase toda “Idade das Trevas (o epíteto não é fortuito)”. E assim foi, até que alguns de seus fundamentos (ou o mau uso que se fazia desses fundamentos) foram questionados e contestados pela Reforma Protestante de Lutero e de Calvino.

Contudo, não obstante as divisões havidas, a Religião (a Religação de Deus com o Homem) consolidou-se de tal forma que seus dogmas não eram sequer discutidos. Eram tidos como “Verdades Absolutas”, mesmo antes da “Santa (sic) Inquisição”. Duvidar de tais “Verdades” era uma prova de coragem extrema, ou de ingenuidade completa, pois, além de ser considerada uma blasfêmia que seria punida no além-túmulo por toda Eternidade; era tida como um crime hediondo, ou então, um sinal inequívoco de “Possessão Satânica” que só seria “curada” através de torturas no corpo físico do “endemoniado”. Em alguns casos, após esse “tratamento”, o indivíduo ainda era banido e excomungado e se tornava pária de uma Sociedade que lhe era de fundamental importância, inclusive por questões de segurança física. Ou, então, era queimado vivo.

No Oriente, o Islã cumpria a mesma tarefa, talvez com menos violência. Assim como as Religiões e Filosofias no Extremo Oriente. Em todo mundo, era absolutamente proibido Não acreditar em Deus, ou crer num Deus que não “fosse religioso”, ou Não saber se Deus existiria mesmo.

Apenas no Renascimento, dúvidas como essas ganharam relativa liberdade, mas só a partir do século XVII é que o assunto ganhou músculos com o surgimento dos grandes Pensadores e dos grandes Sistemas Filosóficos. De certa forma o Homem ganhou (ou conquistou) o direito de perguntar se foi Deus quem o inventou o Homem, ou se foi o Homem quem inventou a divindade?

Esse tipo de questionamento, abafado pelas trevas da Idade Média e pela ignorância que permeou e permeia as outras Eras (inclusive a atual), já percorria a Filosofia desde os “Pré Socráticos”, quando, por exemplo, Tales, em c. 600 AEC, negou que o Universo fora criado por algum tipo de Deus. Mais recentemente, em c. 400 AEC, o grego Diágoras de Melo, propôs um Sistema que argumentava em defesa do Ateísmo.

E ao longo do tempo, a Filosofia sempre acomodou as tendências a favor ou contra a existência da Divindade, ou como a mesma poderia ser. Filósofos do porte de Voltaire, Spinoza e mais recentemente, Karl Marx e Freud debruçaram-se sobre o tema e cada qual, junto com tantos outros, deixaram valiosas colaborações para o acervo intelectual da Humanidade.

O certo é que Deus é mais Objeto de Fé (ou seja, é alguma coisa que existe apenas por que se acredita que exista. Não há meio lógicos, racionais para comprovar tal existência), do que de Raciocínio Lógico, como bem nos demonstrou o Mestre ECKHART (c.1260/1327) ao dizer que: “Creio porque é Absurdo”, afinal eu só posso Crer, já que Deus é Absurdo (no sentido de ser Metafísico, Sobrenatural, além da Lógica) e, portanto, imensurável, incognoscível. Se Ele Não fosse Absurdo (ie, se Ele fosse mensurável, captável pelos Sentidos [tato, olfato, visão, audição, paladar]) eu Não precisaria apenas Crer. Eu poderia Conhecê-lo racionalmente.

Assim, por ser Objeto da Fé Irracional e não do Raciocínio Lógico, a existência ou não de Deus é um assunto que provoca debates acesos e até insultos e/ou agressões físicas. Por isso, e por ser a minoria, haja vista que desde cedo o indivíduo é treinado para acreditar em um “Ser Superior”, os Ateus, os Deístas e os Agnósticos só nos tempos de agora é que podem assumir a sua condição. A sua descrença; embora, ainda lhes seja imputados adjetivos negativos que vão de “adoradores de Satã (sic)” aos tristemente famosos “comunistas devoradores de criancinhas”. Não faltam, claro, outras “preciosidades” que geralmente frequentam as mentes incultas e manipuláveis.

Feita essa explanação, abordaremos a seguir o ideário de FEUERBACK, que para muitos é o autor do comentário mais lúcido sobre o tema.

Filósofo alemão do século XIX, FEUERBACK é mais conhecido pela obra “A Essência do Cristianismo”, de 1841, que lhe serviu de base teórica para contestar o próprio Cristianismo. Suas ideias inspiraram Pensadores Revolucionários como Marx e Engels.

Nessa sua obra, FEUERBACK abraça muitos pontos do Sistema de Hegel, porém com a seguinte ressalva: enquanto Hegel propunha a existência de um “Espírito Absoluto”, de uma “Idéia Total” que abrigaria em seu SER tudo que existe – tanto material quanto intelectual, emocional, espiritual – e seria a “Força Guia” operando na Natureza (nas árvores, nos animais, nas plantas, no Mundo, no Universo etc.) FEUERBACK propôs que a Experiência Humana (a História do que o Homem já fez, mais o relato do que faz) é o suficiente para explicar a Existência.

Para ele, os Humanos Não são projeções (formas externas, externalizadas) de algum “Espírito Absoluto” como o proposto por Hegel. Os Homens seriam, em verdade, o contrário disso. Para o filósofo, é o Homem quem cria a noção de que existe o referido “Espírito Absoluto, ou Maior, ou Deus”, a partir de seus próprios desejos, valores, opiniões e aspirações.

Sugere FEUERBACK que na nossa aspiração de que tudo que existe de melhor na Humanidade (compaixão, solidariedade, bondade* etc.) está concentrada num único SER, está a gênese do divino. Ou seja, pensamos que todas as boas qualidades que gostaríamos de ver nos indivíduos, é um atributo natural desse SER que chamamos de Deus. Assim o geramos.

*Mas o que são a bondade, a solidariedade, a compaixão? Serão iguais para todos e em todas as épocas? No final do presente Ensaio discorreremos sobre a Relatividade desses Conceitos.

A partir, então, do fato de que Deus é uma invenção do Homem, FEUERBACK afirma que a Teologia (Teo = deus + logia = estudo) é, na realidade, apenas uma Antropologia (o estudo sobre a Humanidade). Ao se estudar Deus, o que se estuda, de fato, é o Homem. Suas necessidades, suas carências, suas soluções etc.

Também, segundo FEUERBACK, não só nos iludimos ao pensar que Deus (ou deuses, ou seres divinos) existe como nos esquecemos, ou renunciamos ao que somos. Deixamos de ver que aquelas Virtudes que emprestamos ao divino, já existem em nós mesmos, com as obvias diferenças de indivíduo para indivíduo. Alguns as têm em maior grau, outros em menor escala e até mesmo aqueles considerados perversos, de algum modo trazem alguma virtude.

Por tudo isso, para FEUERBACK, deveríamos focar nossos maiores e melhores esforços nas virtudes da Humanidade, e não na retidão, na “bondade divina”. São as pessoas, nesta vida, nesta Terra que merecem a atenção integral.

ADENDO – FEUERBACK versus HEGEL – o Ateísmo.

Para FEUERBACK, Hegel abandonou um dos pilares da boa filosofia ao não adentrar mais profundamente nos Conceitos de Bom e Mal, que são essencialmente relativos e concordes com a sua época. É o caso clássico, por exemplo, da Escravidão que no Passado era considerada “boa” e no Presente é taxada de “má”.

Assim, dizia o filósofo, o Deus ou o “Espírito” de Hegel é equivocado, pois ao incorporar as “boas qualidades” que os humanos deveriam possuir, fê-lo sem questionar o que seriam essas “boas qualidades” já que as mesmas mudam conforme as condições sociais em que são evocadas. O que são o Bom, o Mal, o Feio, o Belo, a Verdade, a Mentira? Aquilo que é consenso para a maioria? Talvez, mas ainda assim seria um juízo relativo, pois o que é Belo para fulano, será Feio para sicrano. Nunca haverá uma unanimidade que torne tais Conceitos como Absolutos. Tudo é relativo. Tudo, pois, que forma Deus é relativo; logo, Deus é Relativo! É, portanto, apenas uma fantasia humana, sem qualquer característica efetiva que o diferencie dos Homens.

Ao principio tende-se a concordar com FEUERBACK. Contudo, para vários Pensadores, num segundo momento, numa reflexão mais acurada, vê-se que faltou argúcia para o filósofo; pois Hegel ao estipular que tudo é formado pelo “Movimento Dialético”, já embutira ali o “Relativismo das Coisas e Conceitos”. Senão vejamos: como se sabe, para Hegel uma Idéia, ou uma noção é composta por uma Tese (que afirma alguma coisa) confrontada por sua própria Antítese (que nega aquela mesma Coisa, ou parte da mesma, inclusive por não estar de acordo com a Moral da época). Desse confronto surgirá uma Síntese (que é aquela Coisa aprimorada e atualizada seguindo o padrão do momento). Dessa forma o Conceito, a Idéia ou a Noção de “Bom”, por exemplo, é Absoluto ou Imutável, pois Relativos são os componentes que formam esse “Bom”, os quais, como se disse, são atualizados conforme a época. Voltando ao exemplo da Escravidão, veremos que “Bom”, hoje, É a ausência de escravidão.

Note-se que o significado mais profundo da Noção de “Bom” não foi alterado. Continua a ser aquilo que agrada aos costumes, hábitos e moralidade da época. Logo, se o “Espírito” de Hegel é formado por essas Noções, digamos, Maiores e por esses “Conceitos Absolutos”, ele só pode ser “Absoluto”. Portanto, bem mais que uma fantasia.

Note-se, por fim, que a existência ou não de Deus, aqui tratada, obedece apenas ao plano da reflexão filosófica superior. A existência ou a inexistência baseada apenas na Fé foge ao objetivo dessa discussão e não foi abordada, justamente, por não ter nascido da Razão, do Raciocínio filosófico.

São Paulo, 21 de Março de 2012.

Bibliografia Consultada e Recomendada:
Dicionário de Filosofia – 6ª Edição
Nicola Abbagnano
Tradução – Alfredo Bosi e Ivone Castilho Benedetti
Ed. VMF – Martins Fontes SP.

O Livro da Filosofia – Anna Hall, editora de projeto e Sam Atkinson, editor Sênior – Londres, Grã Bretanha.
Tradução de Rosemarie Ziegelmaier.

Pequeno Dicionário de Filosofia Contemporânea – Oswaldo Giacoia Junior – Ed. Publi Folha.