Como se o Céu tivesse outra camada,
vê-se o voo da passarada
ao Arco-Iris da chegada.
Impera soberano
o cheiro de terra molhada
e se sente a querência
do amor primeiro,
após o uísque terceiro.
E tudo mais se fez
sob o vermelho-dourado chinês.
Paixões do Estio,
a espada e o fio.
E tudo vai até as águas de Jobim*.
Meio não há,
só começo e fim.
* As águas de Março, de Antonio Carlos Jobim.
Chegastes suave como o orvalho e então eu soube que tu eras o jasmim recém colhido, que o Rouxinol anunciara no canto primeiro da aurora.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
Luluzinha Vegetariana e os Micróbios
“é que fornecerei, depois de morto, alimento aos animais que me nutriram...” Sófocles, em FILOCTETES.
CRÔNICA DISTINGUIDA COM "MENÇÃO HONROSA" COM XV CONCURSO INTERNACIONAL DE LITERATURA DA ALPAS XXI - PORTO ALEGRE RS. 30/04/2011
Em defesa do bem estar animal.
Nota Legal - Texto ficcional, qualquer semelhança com fatos ou com pessoas será mera coincidência.
Luluzinha, menininha adolescentezinha, fragilzinha, mas revoltadinha, certo dia cansou de ser “Animal Pessoa” e quis sair da Natura.
— Não sou onívora como a natureza me fez, sou vegetariana como o senso me fez.
E se recusou a comer outro bichinho. Definhou, emagreceu e pensou que um animal talvez salvasse. Talvez dois, ou talvez três, ou talvez uma salva... E assim pensava:
Se João Antonio e Antonio João dizem que sou gostosinha, vou “tc” com minhas amiguinhas para contar que embarcarei na boleia de um caminhão da CEAGESP e só pararei em Porto Seguro do agreste. (Do agreste?!) A passagem para o bruto ela pagaria com seu corpinho nas mãos do caminhoneiro. Poderiam comê-la, pois ela era Safadinha (sem ser Bruninha), mas ela não comeria mais nenhum bichinho, que é tão fofinho. Ela não era mais da mamãe. Nem da biológica, nem da telúrica. Era da Supernatura.
Por que cismou que a morte da planta é menor que a do bicho? Quem lhe garantiu que planta não sente?
Sente sim! Piriripimpim! Notou o Micro bufão e chinfrim.
– E ademais, falou o Micro sagaz, As duas mortes já estão com ela. No seu rímel, no seu perfume, no seu sapato e noutros quetais. Quetais?!
E a magrela, falou o Micro Requenguela, é insolente, pois se acha melhor que a gente.
O estranho é que aquela cabeça, donde nada saía, firmou pé na resolução e nada comia, e emagreceu, e definhou, e quase morreu, enquanto pensava no animal que salvava. Aliás, pensou (para espanto geral) salvei um, dois, três salamê mínguê. Salvou, talvez, uma salva. Mas isto não pensou, porque ela não sabia que “salva” era coletivo, o qual MODUS OPERANDI, ELEMENTO, não era só o “busão”.
Tornaram a lhe perguntar: quem lhe dissera que a plantinha não sente dodói quando é arrancada, triturada, refogada, assada e comida? Bobinha... Amanhã mesmo, em Harvard, Princeton, Yale e na Faculdade que não gosta de vestidinho curtinho, um sábio dirá que: Sim! Sente, sim! PIRiripim... (foi bom ter-lhe olhado com a cara feia).
No caminho leitoso da Galáxia, instaurou-se RIGOROSO INQUÉRITO para descobrir o que pretendia A ELEMENTO LULUZINHA. Trovões de Zeus cortaram os Céus e as peles zimbelinas; e o balacobaco chegou de vez...
- Oui, oui, disse o Micro francês.
E naquela algazarra pós-incipiente e pré-deprimente; naquele caleidoscópio com jeitão de Falópio, o burburinho do “little Joe”, ou “Zé Povinho”, foi calado pelo ilustre Micro Filósofo, que ordenou:
— Pulemos, para a próxima sub-partícula!
O Pseudomicro Pseudopoeta atendeu-lhe enquanto chupava uma bala toffee.
Continuou o Micro Filósofo:
— Companheiros e Companheiras (antes da Presidenta, vou tomar a saideira) Micros e Bac. (Hã? Bac? Bacteriazinhas patricinhas) nada tem de suave esse momento tão grave. Estalou os olhos e disse PERGUNTO: quem fez o transunto? (hã?). PERGUNTO: Lulu tem boa intenção ao massacrar uma forma de vida em beneficio de outra? Será? Ou não? Será apenas comodismo, ou modismo, ou avançado estudo do simbolismo russo?
— HÃ?
— Ou estará brincando de ser pobre? Sempre à beira do abismo?
— Pero, poco importa, disse o mano HERMANO, és todo lo mismo!
— O diabo (Ave Maria, cruz credo), falou o Micro Filósofo que não acreditava em Deus; (e no Diabo, só depois de conhecer a terra do Tiago); é que ela deixará de alimentar milhões, bilhões, trilhões de nano-animais quando chegar a hora de seu abate.
— SIM! Piriripimpim! Disse o Micro Bufão (e chato). Onde terá ficado a carne que deveria ser dela e nossa?
— Não sei, retrucou o Micro Sagaz.
— Não, não sabe, resmungou o Micro Requenguela, mirando o “buraco negro” de sua panela.
E volta o Micro Filósofo dos Micros Poderes de Foucault:
— É certo que não temos o garbo de um boi pardo.
— Mas bicho é “gente humana”, falou a Bac cigana.
— Somos bichos também, gemeu o Micro Ghost do Além.
— Até Camões já nos citou, disse o Micro Letrado no Pelô.
— Não temos culpa de sermos como somos (isso amiga! Tenha atitude!)
A palavra volta ao Micro Sagaz:
— Por mim tanto faz! Mas se pudesse eu lhe diria: não há Lulu, como sair dessa Roda que a Natureza cria. A minha morte (malditos antibióticos) manter-te-á viva.
— Manter-te-á? Oh! Que lindo! Urrou a turma do “vamos indo”.
— Mas a tua morte, retornou o Sagaz, alimentaria trilhões de pequenos animaizitos. Aliás, tais animaizitos são teus ancestrais, como bem dizem os cabedais.
Retornou o Filósofo que era mais que o Sagaz, embora isso lhe custasse a paz:
— Não te importe só com a altura do decote. Veja Pequena Soraia (ouvira isso de um apresentador de programa policial, mas como era Filósofo de Lei, só assistia escondido na TV do Warley).
— Hã, hã! Fez-se silêncio para a fala do Micro Sábio, do astrolábio e do alfarrábio:
— Não te importes se somos microscópicos. Existimos. Mormente nos Trópicos. Cuide de nós. De todos nós. Isso sim!
— SIM! SIM! PIRIRIPIMPIM! (chega, cale-se!).
— Não suporte, pequena Soraia Sereia (caraca, isso é cristal na veia), que os bípedes nos maltratem. Prenda o “Bípede Domador” na jaula; faça o “Bípede Latifundiário” refazer o pré-primário; ordene que o “Bípede Torturador dos Rodeios” vá para a Escola dos Sacos Cheios. Faça o “Bípede Caçador” endoidecer da caraminhola de tanto cheirar cola. E faça que todos os outros “Bípedes Covardes” puxem carroças pelas manhãs e pelas tardes.
— Como assim? Falou Luluzinha Pequena Soraia.
—Burra! Quando você mata e come um bicho, só está seguindo o que a Natureza te obriga a fazer. Outros bichos farão o mesmo contigo. Tal como eles, você não está além da Natura.
—Como assim?
—Estúpida e Patética (eles acham que patética é sinônimo de deplorável, ah, ah, ah, não ria, isso é sério). Você já viu os Leões obrigarem os Cervos a serem servos? Já os viu combinando uma tortura institucionalizada chamada “Rodeio” ou “Farra do Boi”? Já viu a lagartixa, o besouro e os outros vermes que comerão teu corpo, torturar antes as suas refeições? Você já viu um pobre animal obrigar um “Bípede” a saltar entre arcos de fogo? Dizer-lhe que o montará (opa!)?
— Como assim? Insistiu a pequena Soraia-Lulu
—Faça "Serzinho Inteligente", que a Vida e a Morte do irmão- bicho seja de tal sorte que ele desfrute da Primeira e seja respeitado na Segunda. Que sua dor seja leve e sua agonia seja breve. Mas ao comer a carne do irmão-bicho não se ache atroz. Nem superior se não o fizer; pois tu, eu e o irmão-bicho somos da mesma matéria e escravos de uma mãe comum. Nossas vidas se alimentam de nossas mortes. Até as das irmãs-plantas. É a Mandala da Natureza. Nós somos a Natureza! Aceite-a, você não está acima dela. Alimente-se sem hipocrisia, pois a Vida não tem hierarquia. Só nós é que temos essa mania. Também há morte em cada prato de Alface mandado para o Sumano...
— Humano?
—Não! Esquece.
—De morte se faz a comida. Quer vegetal, quer animal. Todos morreram para te alimentar. Não se furte da nobre missão de saber que leva no teu corpo o alimento para milhões de animais que só esperam a tua hora. E lembre-se que nem por isso eles te maltratarão, torturarão, escravizarão e usarão para compensar suas pequenas medidas...
—Quais medidas?
—Preciso dizer?
Não se furte de transportar a energia das vidas que acabaram para preservar a tua. Toda morte só se justifica no seu oposto. Repasse a Vida. Todas as vidas.
—Como assim?
CRÔNICA DISTINGUIDA COM "MENÇÃO HONROSA" COM XV CONCURSO INTERNACIONAL DE LITERATURA DA ALPAS XXI - PORTO ALEGRE RS. 30/04/2011
Em defesa do bem estar animal.
Nota Legal - Texto ficcional, qualquer semelhança com fatos ou com pessoas será mera coincidência.
Quente
Calor das monções,
das últimas sessões,
dos último serões
e dos eternos senões.
Nada brota da caneta,
como se vazia paleta
de inútil madrugada
pintasse a terra ressecada.
Não há verso nascido,
só um tiro e o estampido
da morte sem alarido.
Calíope está muda,
distante como o colibri
que às vezes pousava aqui.
das últimas sessões,
dos último serões
e dos eternos senões.
Nada brota da caneta,
como se vazia paleta
de inútil madrugada
pintasse a terra ressecada.
Não há verso nascido,
só um tiro e o estampido
da morte sem alarido.
Calíope está muda,
distante como o colibri
que às vezes pousava aqui.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Branca Lua
Uma Lua insistente,
dessas que comovem a gente,
branqueia ruas impensadas
que relutam ser águas passadas.
Mas são passados águas e tempo,
nessa mandala que percorro
em busca de divino socorro,
ou só o de algum Santo
a quem nunca pedi tanto.
Tudo em vão branca Lua
de noites não pensadas.
O verbo está no Passado,
o Santo é de mau-olhado
e o socorro divino
ficou no meu tempo de menino.
Hoje, o escuro que me espreita
é quem comigo se deita
nessa cama desfeita
e que só de não, se enfeita.
dessas que comovem a gente,
branqueia ruas impensadas
que relutam ser águas passadas.
Mas são passados águas e tempo,
nessa mandala que percorro
em busca de divino socorro,
ou só o de algum Santo
a quem nunca pedi tanto.
Tudo em vão branca Lua
de noites não pensadas.
O verbo está no Passado,
o Santo é de mau-olhado
e o socorro divino
ficou no meu tempo de menino.
Hoje, o escuro que me espreita
é quem comigo se deita
nessa cama desfeita
e que só de não, se enfeita.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Ana Poema
Os negros olhos de Ana
desvendam os enigmas
e acendem outras luzes
nesse Oceano de cruzes.
Ana Terena,
Ana Poema.
Versos de Ana,
rude e lirico verbo
que traça as cicatrizes
de todos os deslizes.
Paixão e drama,
desejo e chama,
nos ecos murmurados
dos orgamos sussurrados.
desvendam os enigmas
e acendem outras luzes
nesse Oceano de cruzes.
Ana Terena,
Ana Poema.
Versos de Ana,
rude e lirico verbo
que traça as cicatrizes
de todos os deslizes.
Paixão e drama,
desejo e chama,
nos ecos murmurados
dos orgamos sussurrados.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Verão ao fim
Não floriram as quaresmeiras esse ano,
nem sorriram as velhas mulheres
em aviso de dano.
Vai se findando o Verão
como se passasse
sem que o sentissimos.
Talvez seja o "Aquecimento Global"
ou algum outro mal.
O Mundo ainda gira,
mas se antes era grande
e longe,
ficou perto
e breve,
como inusitada neve.
E já quase não se vê
o que foi feito da Vida
e da quaresmeira florida.
nem sorriram as velhas mulheres
em aviso de dano.
Vai se findando o Verão
como se passasse
sem que o sentissimos.
Talvez seja o "Aquecimento Global"
ou algum outro mal.
O Mundo ainda gira,
mas se antes era grande
e longe,
ficou perto
e breve,
como inusitada neve.
E já quase não se vê
o que foi feito da Vida
e da quaresmeira florida.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Quadros
No quadro de fotos,
o homem colou pedaços
de como a vida deveria ser:
ali, um casamento;
lá, um passeio;
acolá, um jardim de Paris...
É bom ver suas felicidades
taparem suas realidades.
Também queria quadro igual.
Bons momentos
sobre meus tormentos.
Doces leviandades
sobre minhas verdades.
Trocar esse vazio
pelas estrelas do meu Rio.
Riscar as megeras
e arriscar as quimeras...
Alguma fotografia
que outro Fabio consolaria...
o homem colou pedaços
de como a vida deveria ser:
ali, um casamento;
lá, um passeio;
acolá, um jardim de Paris...
É bom ver suas felicidades
taparem suas realidades.
Também queria quadro igual.
Bons momentos
sobre meus tormentos.
Doces leviandades
sobre minhas verdades.
Trocar esse vazio
pelas estrelas do meu Rio.
Riscar as megeras
e arriscar as quimeras...
Alguma fotografia
que outro Fabio consolaria...
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Recomeços
São eternos os recomeços
em teu sorriso que amanheço.
E porque em ti a luz se perpetua,
sabe-se que a claridade é tua.
Se mais nada prevejo,
em ti eu vejo
que a vida é mais que um lampejo.
Sei-te a mulher
que a vida mostra,
qual flor que se posta
em desusada serenata
que o dia não resgata,
mas que a noite retrata.
Sei-te a última
a vagar em minha vida.
A sempre pretendida
e só agora colhida.
em teu sorriso que amanheço.
E porque em ti a luz se perpetua,
sabe-se que a claridade é tua.
Se mais nada prevejo,
em ti eu vejo
que a vida é mais que um lampejo.
Sei-te a mulher
que a vida mostra,
qual flor que se posta
em desusada serenata
que o dia não resgata,
mas que a noite retrata.
Sei-te a última
a vagar em minha vida.
A sempre pretendida
e só agora colhida.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Nós
Tudo somos nós.
Desertamos da primeira pessoa,
pois o sino já ressoa
anunciando que todo conjugar
será plural em cada amar.
E, então, como somos dois,
deixemos o medo para depois.
Caminhemos o velho jardim,
entulhado de sim.
Tudo somos nós.
E secretos nós
prendamos a vida
com corda estendida.
Equilibremo-nos no arame
até que nova paixão nos chame,
ou a vida nos derrame.
Para a poetiza Susan. Com carinho.
Desertamos da primeira pessoa,
pois o sino já ressoa
anunciando que todo conjugar
será plural em cada amar.
E, então, como somos dois,
deixemos o medo para depois.
Caminhemos o velho jardim,
entulhado de sim.
Tudo somos nós.
E secretos nós
prendamos a vida
com corda estendida.
Equilibremo-nos no arame
até que nova paixão nos chame,
ou a vida nos derrame.
Para a poetiza Susan. Com carinho.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Cantar
Canta-se o que há de vir.
Canta-se o perpétuo Devir,
o mistico existir,
o contínuo fluir
e o eterno parir
da Gaia materna
em cada eco de caverna.
Talvez a Esperança de Pandora
preceda a Aurora
e não chegue em má hora,
pois entre o sonho encerrado
e o novo salto tentado
vive-se o momento
em que cessa o lamento.
Canta-se um Futuro,
canta-se o fim de um escuro
e a queda de outro muro.
Canta-se por ser humano,
porque haverá novo ano
e existirá outro plano.
Canta-se pelo fim sabido,
pois dele, novo ramo terá surgido
antes que o velho seja esquecido.
Canta-se o perpétuo Devir,
o mistico existir,
o contínuo fluir
e o eterno parir
da Gaia materna
em cada eco de caverna.
Talvez a Esperança de Pandora
preceda a Aurora
e não chegue em má hora,
pois entre o sonho encerrado
e o novo salto tentado
vive-se o momento
em que cessa o lamento.
Canta-se um Futuro,
canta-se o fim de um escuro
e a queda de outro muro.
Canta-se por ser humano,
porque haverá novo ano
e existirá outro plano.
Canta-se pelo fim sabido,
pois dele, novo ramo terá surgido
antes que o velho seja esquecido.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Três Horas
Três horas e minuto e meio.
Perdi o sono, algum devaneio
e o Poema não veio.
Sei-me saudoso de alguém,
mas não sei de quem.
Seria bom, talvez,
um horoscopo chinês,
alguma sensatez
e alguém que ouvisse
meu rosário de tolice.
Fumo outro cigarro
nesse tempo bizarro.
A roda da noite parece emperrada,
pois a ausência de tudo e de nada
é só o que recheia essa madrugada.
O ponteiro inerte
apenas reflete
o verso sumido
e o Canto desaparecido.
E ainda são três, no relógio espremido.
O costumeiro Dienpax
não me trouxe a "romana pax".
Tento um escrito notório,
Mas só consigo a mesmice de Cartório.
Combate inglório
do pseudo poeta finório.
As três da matina,
nada se aproxima.
Quero subornar o sono,
mas outrem já se lhe diz o dono.
Perdi o sono, algum devaneio
e o Poema não veio.
Sei-me saudoso de alguém,
mas não sei de quem.
Seria bom, talvez,
um horoscopo chinês,
alguma sensatez
e alguém que ouvisse
meu rosário de tolice.
Fumo outro cigarro
nesse tempo bizarro.
A roda da noite parece emperrada,
pois a ausência de tudo e de nada
é só o que recheia essa madrugada.
O ponteiro inerte
apenas reflete
o verso sumido
e o Canto desaparecido.
E ainda são três, no relógio espremido.
O costumeiro Dienpax
não me trouxe a "romana pax".
Tento um escrito notório,
Mas só consigo a mesmice de Cartório.
Combate inglório
do pseudo poeta finório.
As três da matina,
nada se aproxima.
Quero subornar o sono,
mas outrem já se lhe diz o dono.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Soldado Criança
Espectro diluído
de corpo dissolvido.
Morto insepulto,
desfila em Maputo*.
Jovem mal amado,
guri bem armado
matou sem vacilo
o que lhe foi empecilho.
Joana não lhe foi é a única Heroína.
Roubou-lhe a cena a nova Cocaína.
Mas essa é fina iguaria para poucos
e não para o seu rebanho de loucos.
Esses ficam com o Crack,
despojo do último saque.
Soldado criança perambula.
Um tiro o cessará,
mas a miséria ficará.
* Nome aleatório, sem correlação geográfica.
de corpo dissolvido.
Morto insepulto,
desfila em Maputo*.
Jovem mal amado,
guri bem armado
matou sem vacilo
o que lhe foi empecilho.
Joana não lhe foi é a única Heroína.
Roubou-lhe a cena a nova Cocaína.
Mas essa é fina iguaria para poucos
e não para o seu rebanho de loucos.
Esses ficam com o Crack,
despojo do último saque.
Soldado criança perambula.
Um tiro o cessará,
mas a miséria ficará.
* Nome aleatório, sem correlação geográfica.
sábado, 8 de janeiro de 2011
O Cachê
Marshall Macluhan, sociólogo canadense, cunhou, entre outras, duas expressões que ganharam o Mundo e acabaram sendo tidas e havidas como verdades absolutas. O primeiro neologismo foi: “Aldeia Global” e o segundo: “os 15 minutos de fama que todos terão”. Quanto à primeira expressão, a chegada e a consolidação da Internet não deixa dúvida de seu acerto. Em relação ao segundo conceito, sente-se que cada vez mais rápido ele também se aproxima de ser uma verdade indiscutível. A própria Internet, aliás, proporciona essa “fama” como bem demonstram os “Website” de ex-anônimos que mesmo não tendo qualquer talento que os diferencie dos demais, conseguem uma imensa legião de seguidores que nem sabem o porquê lhe acompanham.
Puristas, ou só insolentes, dirão que tais figuras e seus seguidores são desqualificados por lhes faltar estudo e cultura. Porém, aqueles despidos de preconceitos já começam a notar que os “15 minutos de fama” vão se imiscuindo por todas as classes sócio-econômicas e é aqui que entra o objeto de nossas reflexões nesse texto. Enquanto tal “fama” fica entre os classificados como “inferiores”, o prejuízo que podem causar é pequeno, se pequeno for considerado o desserviço à Cultura. De todo modo, não se corre risco de morte pelo fato deles existirem. O problema cresce quando Classes Profissionais cujo erro ou acerto redundam em saúde, doença ou morte sujeitam-se a esse esquema. Têm-se, então, os seguintes fatos:
1º Fato – busca-se a “Fama” ao custo de qualquer preço. E se tal busca é questionada ou criticada, a resposta padrão é: não estou nem aí. Ganhei meu cachê. Saque rápido, como os dos antigos “cowboys”. E por ser rápido e de “cowboys” quase sempre é desprovido de qualquer valor intelectual, lógico ou ético. Pouco importa. Estou ganhando?
2º Fato – ganhando o quê? E a troco de quê? O que há de tão interessante em receber um reles cachê?
3º Fato – o que acontece com a auréola de respeitabilidade que certas profissões exigem? Onde ficou a dignidade cerimoniosa de “doutores”? Alguns dirão que tais “dignidades e cerimônias” são valores caducos. Outros, com mais discernimento, dirão que não, pois ao se procurar alguém para solucionar um problema que lhe aflige o doente não busca alguém como ele, mas sim alguém que lhe seja “superior” e o livre de seu mal. Ou não? Quando me doem os dentes, procurarei outro Fabio qualquer, ou buscarei um “Doutor” Dentista? Penso que é desnecessário responder.
4º Fato – novos cursos, forjando novos e muitos “Doutores”, acirraram a concorrência de tal maneira que desprezar valores passou a ser uma necessidade? Talvez. E um triste exemplo disso é o que se vê em anúncios publicitários, como o descrito na seqüência:
“... filmado de costas, enquanto um locutor canta as virtudes de um produto, um senhor de seus 30 anos, cujo nome e número de registro profissional aparecem na legenda, vira-se com a boca cheia e tenta expressar alguma coisa. Mas de sua feição e de toda cena, só se apreende que ele é péssimo ator; e que, talvez, também não seja um prócere em sua profissão, pois se fosse não se permitiria a esse papel. Mas ele, diga-se, não está só nessa enxurrada. Vários outros a isso também se prestam, modificando-se apenas cenários e produtos.
Porém como sou apenas um humilde escrevinhador, sem competência para longas, profundas e corretas apreciações sociológicas, antropológicas, econômicas etc. não devo alongar-me nesse terreno pantanoso. O diabo é que sinto medo, pois em momentos de maior fragilidade – quando adoeço – eu corro o risco de ser (mal) tratado por atores canastrões e profissionais de baixa qualidade. Outros sentirão? Quase certo que sim. Pagamos a conta dos efeitos colaterais do acerto de Macluhan.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Vazio
Na beira do edificio
o passarinho desdenha a queda.
Não lhe existe o vazio.
Reina no meu impossível,
reduzindo o quê me pensei
e fazendo o que eu só sonhei.
Desliza caminhos
em espaços só seus.
Passeia sua independência
e cala minha insolência.
Preso ao chão
rastejo multidão.
Longe do Rei,
que um dia me achei.
o passarinho desdenha a queda.
Não lhe existe o vazio.
Reina no meu impossível,
reduzindo o quê me pensei
e fazendo o que eu só sonhei.
Desliza caminhos
em espaços só seus.
Passeia sua independência
e cala minha insolência.
Preso ao chão
rastejo multidão.
Longe do Rei,
que um dia me achei.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Rude
Dura verdade crua,
dura face nua
que sempre se mostra
como vontade oposta.
Desenha a caneta,
outra calva careta.
Fez-se a russa roleta
da morte na sargeta.
Choro por instinto.
Bacante suco tinto
que confunde o que sinto.
Vida que minto,
pois me sei extinto
em porre de absinto.
Chamaram-no as Parcas.
Em baús e arcas
guardaram o pouco que viveu.
Resta-nos esse breu.
Para Wesley, que hoje faria seis anos.
dura face nua
que sempre se mostra
como vontade oposta.
Desenha a caneta,
outra calva careta.
Fez-se a russa roleta
da morte na sargeta.
Choro por instinto.
Bacante suco tinto
que confunde o que sinto.
Vida que minto,
pois me sei extinto
em porre de absinto.
Chamaram-no as Parcas.
Em baús e arcas
guardaram o pouco que viveu.
Resta-nos esse breu.
Para Wesley, que hoje faria seis anos.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Água
Na morna banheria
revejo uma vida inteira.
Desde o primeiro começo,
até o último tropeço.
A água morna
é bálsamo que adorna;
lava minha dor
e afasta o conhecido terror.
Mas lhe falta uma Serena Sereia,
cujo canto tudo incendeia
como se fosse paixão e meia.
Agora sei, é tempo doutro Mar,
de outro ir e vir
e de inútil prosseguir.
Tempo de olvidar o homem havido,
seu queixume indevido
e seu desejo indeferido.
Tempo de esquecer
a dura e fria verdade
do amor já não ser uma possibilidade
revejo uma vida inteira.
Desde o primeiro começo,
até o último tropeço.
A água morna
é bálsamo que adorna;
lava minha dor
e afasta o conhecido terror.
Mas lhe falta uma Serena Sereia,
cujo canto tudo incendeia
como se fosse paixão e meia.
Agora sei, é tempo doutro Mar,
de outro ir e vir
e de inútil prosseguir.
Tempo de olvidar o homem havido,
seu queixume indevido
e seu desejo indeferido.
Tempo de esquecer
a dura e fria verdade
do amor já não ser uma possibilidade
domingo, 2 de janeiro de 2011
Assim é...
Vejo a estranha forma
em que a fumaça se transforma.
Assopro cinza
na patrulha ranzinza.
-Isto haverá de te matar...
-Apenas isso? Todo resto não pode me findar?
Como seria a solidão sem ele?
Dizem-me que ela é, só por ele.
Que todo resto nem pensaria em me deixar.
Simplórios pensamentos
de simplório sargentos.
A vida lhes é rotina.
Previsível rotina,
até como termina.
Creem na televisão,
ou noutro charlatão.
São retilíneos obedientes
de planos dementes,
como vacas enfileiradas
prestes a serem assassinadas.
Comerão sua carne
no churrasco de sempre.
Também comerão outro corpo eunuco,
no Templo de um Guru maluco.
Assim vivem
os esteios da sociedade
e títeres da sobriedade.
Dormem às vezes, após o frio sexo.
E acordam novo dia sem nexo.
Assim vivem
os expoentes sociais,
os considerados normais...
Dormem, acordam.
Acordam, trabalham
e dormem sem sonhos.
É pouco o que tem do Mundo,
e que ocupam no Espaço.
Do Tempo nada tem,
pois vendem-no ao relógio
até que lhes chegue o necrológio.
Dizem bravatas por futebol,
masturbam-se por revistas
e enquanto sonham com carros,
planejam a troca do assoalho
e gargalham pelo baralho.
Assim vivem.
Talvez gostem...
em que a fumaça se transforma.
Assopro cinza
na patrulha ranzinza.
-Isto haverá de te matar...
-Apenas isso? Todo resto não pode me findar?
Como seria a solidão sem ele?
Dizem-me que ela é, só por ele.
Que todo resto nem pensaria em me deixar.
Simplórios pensamentos
de simplório sargentos.
A vida lhes é rotina.
Previsível rotina,
até como termina.
Creem na televisão,
ou noutro charlatão.
São retilíneos obedientes
de planos dementes,
como vacas enfileiradas
prestes a serem assassinadas.
Comerão sua carne
no churrasco de sempre.
Também comerão outro corpo eunuco,
no Templo de um Guru maluco.
Assim vivem
os esteios da sociedade
e títeres da sobriedade.
Dormem às vezes, após o frio sexo.
E acordam novo dia sem nexo.
Assim vivem
os expoentes sociais,
os considerados normais...
Dormem, acordam.
Acordam, trabalham
e dormem sem sonhos.
É pouco o que tem do Mundo,
e que ocupam no Espaço.
Do Tempo nada tem,
pois vendem-no ao relógio
até que lhes chegue o necrológio.
Dizem bravatas por futebol,
masturbam-se por revistas
e enquanto sonham com carros,
planejam a troca do assoalho
e gargalham pelo baralho.
Assim vivem.
Talvez gostem...
sábado, 1 de janeiro de 2011
Vinho
Amores que retornam
são vinhos que entornam
na rotina das mesas postas.
Amores de antes,
já quase esquecidos,
são convivas atrevidos
em jantares repetidos.
Saudade de um bem,
memória de alguém.
Coloco mais um prato
para o rosto do retrato.
Lágrimas derramadas
em toalhas maculadas.
Sirvo-me de lembrança
e duma fatia de esperança.
são vinhos que entornam
na rotina das mesas postas.
Amores de antes,
já quase esquecidos,
são convivas atrevidos
em jantares repetidos.
Saudade de um bem,
memória de alguém.
Coloco mais um prato
para o rosto do retrato.
Lágrimas derramadas
em toalhas maculadas.
Sirvo-me de lembrança
e duma fatia de esperança.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
M...
Pressinto nova querência.
De novo, essa urgência.
Esse sonhar, esse querer
e o medo de não acontecer.
Há música em seu nome
e luz em seu riso.
Cor e som,
como promessa de Réveillon.
De onde veio essa moça
de riso farto e olhos negros?
De que noite restou essa estrela
que agora brilha
em minha trilha?
Andaremos a mesma estrada?
Ou desse pré devaneio
só ficará o quase nada
doutro poema na madrugada?
Para M...
De novo, essa urgência.
Esse sonhar, esse querer
e o medo de não acontecer.
Há música em seu nome
e luz em seu riso.
Cor e som,
como promessa de Réveillon.
De onde veio essa moça
de riso farto e olhos negros?
De que noite restou essa estrela
que agora brilha
em minha trilha?
Andaremos a mesma estrada?
Ou desse pré devaneio
só ficará o quase nada
doutro poema na madrugada?
Para M...
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
A Vida é...
O vento do sudeste
que expulsa a inocência agreste.
O amor de Alceste,
expresso na morte e na peste.
A fruta carnuda
e a mulher que se desnuda.
É a orgia dos sentidos,
na tortura dos inqueridos.
São Sereias, Ninfas e Faunos
nas covas de sete palmos.
São as Deusas e os Deuses,
que no Oráculo de Elêusis,
vociferam avisos
sobre o fim dos Paraísos.
E tudo que gira,
já que a vida é lira
nas mãos de Caligula.
Loucos somos todos
enquanto dançamos
nos incêndios que ateamos.
Evoé! Gritam velhas Bacantes
para as novas debutantes.
Gozem esses instantes,
pois já se aproxima
nova bomba de Hiroshima.
A vida é cisma...
que expulsa a inocência agreste.
O amor de Alceste,
expresso na morte e na peste.
A fruta carnuda
e a mulher que se desnuda.
É a orgia dos sentidos,
na tortura dos inqueridos.
São Sereias, Ninfas e Faunos
nas covas de sete palmos.
São as Deusas e os Deuses,
que no Oráculo de Elêusis,
vociferam avisos
sobre o fim dos Paraísos.
E tudo que gira,
já que a vida é lira
nas mãos de Caligula.
Loucos somos todos
enquanto dançamos
nos incêndios que ateamos.
Evoé! Gritam velhas Bacantes
para as novas debutantes.
Gozem esses instantes,
pois já se aproxima
nova bomba de Hiroshima.
A vida é cisma...
domingo, 26 de dezembro de 2010
A Ceia
Tanto tempo já passou
entre quem senta à mesa.
Cinquentões, como disse Drumonnd*.
Espetam as carnes
e os sonhos que não se fizeram.
E sorriem de si e do que não tiveram...
Tanto já houve
entre o peru e a couve:
amores vividos,
desejos partidos
nos bons (?) tempos idos.
Ri-se da realidade que ficamos,
das lágrimas que secamos
e das utopias que abandonamos...
Assados, bebidos,
tristes, desiludidos
fazemos o arremedo
de quem já quis tudo
e hoje se queda mudo.
A crianças viraram o que fomos
e repetem a velha pantomima
da extinta Minas com rima:
Sonhos calados
e engolidos aos bocados,
com os presuntos
dos que não são mais juntos.
Mágoas sufocadas
chegam com as sobremesas.
Logo o sono dos embriagados
apagará os certos e os errados...
*Inspirado em "A Mesa" de Carlos Drumonnd de Andrade.
entre quem senta à mesa.
Cinquentões, como disse Drumonnd*.
Espetam as carnes
e os sonhos que não se fizeram.
E sorriem de si e do que não tiveram...
Tanto já houve
entre o peru e a couve:
amores vividos,
desejos partidos
nos bons (?) tempos idos.
Ri-se da realidade que ficamos,
das lágrimas que secamos
e das utopias que abandonamos...
Assados, bebidos,
tristes, desiludidos
fazemos o arremedo
de quem já quis tudo
e hoje se queda mudo.
A crianças viraram o que fomos
e repetem a velha pantomima
da extinta Minas com rima:
Sonhos calados
e engolidos aos bocados,
com os presuntos
dos que não são mais juntos.
Mágoas sufocadas
chegam com as sobremesas.
Logo o sono dos embriagados
apagará os certos e os errados...
*Inspirado em "A Mesa" de Carlos Drumonnd de Andrade.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Monção
A chuva transborda
o dia que não acorda.
Quantas rosas nuas dançarão
na marítima monção?
Cheiro de terra molhada
e de paixão insaciada,
nessa noite aumentada
pela ausência indesejada.
Que caminho tomou Lilian?
Que secreto jardim
guarda seu riso carmim?
Em qual Oceano
direi que a amo?
Será o Atlântico Mar
que a fará chegar?
o dia que não acorda.
Quantas rosas nuas dançarão
na marítima monção?
Cheiro de terra molhada
e de paixão insaciada,
nessa noite aumentada
pela ausência indesejada.
Que caminho tomou Lilian?
Que secreto jardim
guarda seu riso carmim?
Em qual Oceano
direi que a amo?
Será o Atlântico Mar
que a fará chegar?
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Paragem
Cansei-me da viagem
por esse rio sem margem.
Esmaga-me a bagagem
e se esvaie um resto de coragem.
Suga-me a moagem,
peça da engrenagem
vivo minha personagem.
Busco outra paragem,
mas a rigidez da friagem
impedem-me nova hospedagem.
Cerradas, as portas da Estalagem
indicam-me um leito de serragem
para buscar outra miragem.
Tosca e sem forragem,
qual espinheira selvagem
embalada em saco de aniagem
por esse rio sem margem.
Esmaga-me a bagagem
e se esvaie um resto de coragem.
Suga-me a moagem,
peça da engrenagem
vivo minha personagem.
Busco outra paragem,
mas a rigidez da friagem
impedem-me nova hospedagem.
Cerradas, as portas da Estalagem
indicam-me um leito de serragem
para buscar outra miragem.
Tosca e sem forragem,
qual espinheira selvagem
embalada em saco de aniagem
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Esquecer
Choremos toda morte,
fado da má sorte
que subtraí o Homem,
seu tempo e seu norte.
Choremos em cada ausência,
o fim d'alguma essência.
São elos partidos
em tempos perdidos.
De tudo só restará
uma frágil lembrança,
uma trêmula esperança
de que outra vida nascerá.
Mas ainda que nova vida
justifique a morte havida,
que não seja esquecida
a última lágrima sofrida.
fado da má sorte
que subtraí o Homem,
seu tempo e seu norte.
Choremos em cada ausência,
o fim d'alguma essência.
São elos partidos
em tempos perdidos.
De tudo só restará
uma frágil lembrança,
uma trêmula esperança
de que outra vida nascerá.
Mas ainda que nova vida
justifique a morte havida,
que não seja esquecida
a última lágrima sofrida.
Natal em Mandarim
O holofote me seduz
como quem oferta luz,
ou só outra fuga
da realidade que se aluga.
Delicia que degusto
antes do próximo susto.
É hora de levantar
para outro dia em vão.
O corpo não está são,
nem a Mente está sâ,
nessa hora vã.
São apêndice que carrego,
cartas que não entrego
nesse chão em que escorrego.
O Natal se aproxima,
Berra o camelô da esquina.
Estou cercado,
qual leitão a ser ceiado
pela fome do rejeitado.
Vermelho e dourado dominam.
Mandarins predominam.
Dourado e Vermelho,
Vermelho e Dourado,
como se o riso fosse dado
como quem oferta luz,
ou só outra fuga
da realidade que se aluga.
Delicia que degusto
antes do próximo susto.
É hora de levantar
para outro dia em vão.
O corpo não está são,
nem a Mente está sâ,
nessa hora vã.
São apêndice que carrego,
cartas que não entrego
nesse chão em que escorrego.
O Natal se aproxima,
Berra o camelô da esquina.
Estou cercado,
qual leitão a ser ceiado
pela fome do rejeitado.
Vermelho e dourado dominam.
Mandarins predominam.
Dourado e Vermelho,
Vermelho e Dourado,
como se o riso fosse dado
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto X - 2ª Parte
Notas à Edição
1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios. Essa adaptação não é uma tradução, até porque o idioma é único. Destarte, o leitor notará que as estrofes adaptadas não brilham pela perfeição da métrica ou do sistema rimático. Aliás, sobre as rimas vale uma observação: praticamente todas as estrofes adaptadas foram rimadas, porém algumas rimas atendem ao Português falado em Portugal onde algumas sílabas são abertas enquanto que no Brasil são fechadas; ou vice-versa. O autor conta com a indulgência dos leitores para esses fatos.
2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.
3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.
4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer no quesito da perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.
5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.
Dedicado aos Poetas Portugueses
Inês Dupas e Filipe Campos Melo
Canto X
80o Aqui vês a engrenagem do Universo e do Mundo,
Etérea, com os Quatro Elementos (1) foi fabricada
Pelo “Saber Divino” mais alto e profundo
Que é sem principio e de existência ilimitada.
Quem abraça este redondo Universo e esse Mundo
E a sua superfície tão bela e polida
É Deus, mas o quê é Deus ninguém entende,
Pois a tanto, o raciocínio humano não compreende.
1-Quatro Elementos: água, ar, fogo e terra.
«Este orbe que, primeiro, vai cercando
Os outros mais pequenos que em si tem,
Que está com luz tão clara radiando
Que a vista cega e a mente vil também,
Empíreo se nomeia, onde logrando
Puras almas estão daquele Bem
Tamanho, que ele só se entende e alcança,
De quem não há no mundo semelhança.
81o Esse primeiro Globo que vai cercando
Os menores, os quais em si próprio contém,
E que está com essa clara luz brilhando,
Que cega à vista e as más intenções também,
Chama-se Empíreo (1), onde vivem desfrutando,
As almas puras, desse supremo Bem.
Pois só este tipo de alma é que entende e alcança
Tal Paraíso, do qual, nada na Terra tem semelhança.
1- Empíreo: a parte mais elevada do céu, habitada pelas almas puras.
«Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
82o Ali estão apenas os verdadeiros e gloriosos
Santos Divinos; porque eu, Saturno, Jano,
Júpiter e Juno somos só imaginários e fabulosos,
Criados pelos mortais, num tolo engano.
Só para ilustrar versos primorosos
É que servimos; e se algo mais o ser humano
Pôde nos dar, foi colocar o nome nosso
N’algumas estrelas, conforme o entendimento vosso.
«E também, porque a santa Providência,
Que em Júpiter aqui se representa,
Por espíritos mil que têm prudência
Governa o Mundo todo que sustenta
(Ensina-lo a profética ciência,
Em muitos dos exemplos que apresenta);
Os que são bons, guiando, favorecem,
Os maus, em quanto podem, nos empecem;
83o Essas almas puras auxiliam a Divina Providência,
Que Júpiter, Pai e Senhor dos deuses, representa.
Através de mil almas de muita luz e prudência
Governa todo o Universo, ao qual, Ele sustenta.
(Ensina-nos a profética ciência,
Em muitos dos exemplos que apresenta,
Que os bons tais almas guiam e favorecem,
Mas aos maus, como podem, sempre aborrecem).
«Quer logo aqui a pintura que varia
Agora deleitando, ora ensinando,
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
A seus Deuses já dera, fabulando;
Que os Anjos de celeste companhia
Deuses o sacro verso está chamando,
Nem nega que esse nome preminente
Também aos maus se dá, mas falsamente.
84o Aqui a representação varia,
Ora divertindo, ora ensinando:
Dá-se aos Puros, nomes que a antiga poesia
Aos deuses já dera, quando as lendas iam-se criando;
São eles os anjos da Celeste companhia,
Conforme as Sagradas Escrituras vão lhes chamando;
Contudo, não se nega que esse nome proeminente,
Também se dá aos Maus, mas erroneamente.
«Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
Causas obra no Mundo, tudo manda.
E tornando a contar-te das profundas
Obras da Mão Divina veneranda,
Debaxo deste círculo onde as mundas
Almas divinas gozam, que não anda,
Outro corre, tão leve e tão ligeiro
Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.
85o Enfim, vê-se que o Supremo Deus, através de segundas
Santidades, opera no Universo e em tudo manda.
Mas devo voltar a falar-te das profundas
Obras e mistérios da Mão Divina veneranda:
Saiba que abaixo desse círculo, onde as mundanas
Almas tornadas divinas vivem e que não gira e não anda,
Outro círculo existe, correndo tão sutil e tão ligeiro,
Que não se vê e que é chamado de Móbile Primeiro (1).
1- Móbile Primeiro; círculo celeste que segundo os astrônomos antigos envolvia e dava movimento, do Oriente para o Ocidente, aos outros círculos.
«Com este rapto e grande movimento
Vão todos os que dentro tem no seio;
Por obra deste, o Sol, andando a tento,
O dia e noite faz, com curso alheio.
Debaxo deste leve, anda outro lento,
Tão lento e sojugado a duro freio,
Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
Duzentos cursos faz, dá ele um passo.
86o Com este rápido e grande movimento,
O Móbile arrasta os Mundos, em seu seio;
Por causa desse movimento, o Sol atento
Traz dia e noite, conforme cada Globo desse meio.
Abaixo deste, gira outro círculo que é muito lento,
Tão vagaroso e submetido a um tão duro freio,
Que enquanto o Sol, que de luz nunca é escasso,
Faz duzentos giros, ele move apenas um passo.
«Olha estoutro debaxo, que esmaltado
De corpos lisos anda e radiantes,
Que também nele tem curso ordenado
E nos seus axes correm cintilantes.
Bem vês como se veste e faz ornado
Co largo Cinto d, ouro, que estelantes
Animais doze traz afigurados,
Apousentos de Febo limitados.
87o Olha esse outro mais abaixo, de giro enfeitado
Pelos seus Globos lisos e radiantes,
Os quais seguem o rumo por ele determinado
E nos seus eixos correm cintilantes.
Veja bem como ele se veste e se faz ornamentado
Com o largo cinto de ouro, no qual, estrelantes
Signos, em número de doze, são afigurados
E aos aposentos de Febo estão limitados.
«Olha por outras partes a pintura
Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:
Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;
Vê de Cassiopeia a fermosura
E do Orionte o gesto turbulento;
Olha o Cisne morrendo que suspira,
A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.
88o Olhe nessas outras partes, a figura
Que as brilhantes estrelas vão fazendo;
Olhe a Carreta (1); observe a Cinosura (2),
Em Andrômeda (3) e o pai; no Dragão (4) horrendo.
Repare na Cassiopéia (5), de tanta formosura;
E no Orionte (6) note o semblante turbulento;
Olha o Cisne (7), que morrendo suspira,
A Lebre (8), os Cães (9), a Nau (10) e a suave Lira (11).
1- Carreta: a constelação da Ursa Maior.
2- Cinosura: a constelação da Ursa Menor.
3- Andrômeda: filha de Cefeu, rei da Etiópia, e de Cassiopéia. Perseu salvou-a quando ia ser sacrificada em conseqüência do orgulho de sua mãe, que desafiara as nereidas, num concurso de beleza. Constelação no hemisfério boreal.
4- Drago: constelação do hemisfério boreal composta por oitenta estrelas.
5- Cassiopéia: constelação perto do Pólo Norte, que se acha sempre em oposição à Grande Ursa.
6- Orionte: constelação do hemisfério sul. Também conhecida por Órion.
7- Cisne: constelação no hemisfério norte.
8- Lebre: pequena constelação, vizinha da Ursa Maior.
9- Cães: constelações dos hemisférios norte e sul: “Cão Maior e Cão Menor”.
10- A nau: constelação do Hemisfério Norte.
11- Lira: constelação do hemisfério norte, entre Hércules e o Cisne.
«Debaxo deste grande Firmamento,
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
O claro Olho do céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo;
Mercúrio, de eloquência soberana;
Com três rostos, debaxo vai Diana.
89o Abaixo deste grande Firmamento,
Veja o céu de Saturno (1), deus do povo antigo;
Depois está Júpiter (2), que faz o seu movimento,
Mais abaixo está Marte (3), guerreiro inimigo;
O límpido “olho do céu”, no quarto assento,
É Vênus (4), que os amores traz consigo;
Depois está Mercúrio (5), de grandeza soberana,
E abaixo, com três faces diferentes, está Diana (6).
1) Saturno: filho do Céu e da Terra. Pai de Júpiter, de Netuno, de Plutão e de Juno. O sexto planeta em relação ao sol.
2) Júpiter: pai e senhor dos deuses. O maior planeta do sistema solar.
3) Marte: o deus da guerra. O quarto planeta no sistema solar e o mais parecido com a Terra.
4) Vênus: a deusa do amor e da beleza. O mais brilhante dos planetas, cuja órbita situa-se entre a de Mercúrio e a da Terra.
5) Mercúrio: deus do comércio e mensageiro dos deuses. O planeta mais próximo do Sol.
6) Diana: a deusa da caça. Nesta estrofe representa a Lua, pois dispunha de três personalidades: na terra era Diana, no inferno era Hecate e no céu era Febe, a Lua.
«Em todos estes orbes, diferente
Curso verás, nuns grave e noutros leve;
Ora fogem do Centro longamente,
Ora da Terra estão caminho breve,
Bem como quis o Padre omnipotente,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Os quais verás que jazem mais a dentro
E tem co Mar a Terra por seu centro.
90o Em todos esses planetas, diferentes
Rumos verás: aqui mais intenso, ali mais leve;
Ora fogem do centro (1) longamente,
Ora ficam da Terra, por um espaço breve,
Pois assim quis o Pai onipotente,
Que criou o fogo, o ar, o vento e a neve.
Tu verás que eles ficam mais para dentro
E tem o mar e a Terra como o seu centro.
1-Como se sabe, na época de Camões julgava-se que a Terra fosse o centro do universo.
«Neste centro, pousada dos humanos,
Que não somente, ousados, se contentam
De sofrerem da terra firme os danos,
Mas inda o mar instábil exprimentam,
Verás as várias partes, que os insanos
Mares dividem, onde se apousentam
Várias nações que mandam vários Reis,
Vários costumes seus e várias leis.
91o Neste centro, que é a morada dos humanos,
Homens ousados não se contentam
De sofrer apenas com os terríveis danos
Da terra e a fúria do mar instável enfrentam.
Tu verás as diversas regiões que os Oceanos
Dividem; e onde ficam e se assentam,
Variadas nações, governadas por vários Reis,
De variados costumes, religiões e outras leis.
«Vês Europa Cristã, mais alta e clara
Que as outras em polícia e fortaleza.
Vês África, dos bens do mundo avara,
Inculta e toda cheia de bruteza;
Co Cabo que até’aqui se vos negara,
Que assentou pera o Austro a Natureza.
Olha essa terra toda, que se habita
Dessa gente sem Lei, quási infinita.
92o Veja a Europa cristã, mais elevada e clara
Que as outras, tanto em cultura quanto em fortaleza.
Veja a África, a qual dos “bens do mundo” é ávara,
Por isso é selvagem, inculta e cheia de rudeza;
Veja o Cabo (1) que ao vosso conhecimento se negara,
E que no extremo sul foi assentado pela natureza.
Olha também esta terra toda, na qual habita
Esta gente sem religião e que é quase infinita.
1-Cabo: o “Cabo da Boa Esperança”, antes “Cabo das Tormentas”.
«Vê do Benomotapa o grande império,
De selvática gente, negra e nua,
Onde Gonçalo morte e vitupério
Padecerá, pola Fé santa sua.
Nace por este incógnito Hemispério
O metal por que mais a gente sua. .
Vê que do lago donde se derrama
O Nilo, também vindo está Cuama.
93o Veja o Benomotapa (1) que é um grande império,
Habitado por gente selvagem, negra e nua;
É onde o padre Gonçalo (2) a morte e o vitupério
Padecerá por ter uma Religião, igual a tua.
Nasce neste desconhecido hemisfério,
O rico metal pelo qual mais se trabalha e mais se sua (3)
Veja ainda, que do lago donde se derrama
O rio Nilo (4) também mina o rio Cuama (5).
1- Benomotapa: império africano que abrangia a região onde atualmente se situa Manica e Sofala.
2- Gonçalo: Gonçalo da Silveira, missionário jesuíta que foi martirizado no império Monomotapa, em Moçambique, na África.
3- Nilo: o rio Nilo, do Egito.
4- Cuama: o atual rio Zambeze, na África.
«Olha as casas dos negros, como estão
Sem portas, confiados, em seus ninhos,
Na justiça real e defensão
E na fidelidade dos vizinhos;
Olha deles a bruta multidão,
Qual bando espesso e negro de estorninhos,
Combaterá em Sofala a fortaleza, Que
defenderá Nhaia com destreza.
94o Repare como as casas dos negros estão
Sem as portas, pois confiam em seus ninhos,
Na justiça de seu País, na real proteção
E na fidelidade dos seus vizinhos;
Olha a imensa e brutal multidão
Qual bando de negros estorninhos (1),
Que atacará em Sofala a grande fortaleza,
Que por Nhaya (2) será defendida com destreza.
1- Estorninhos: passarinhos de cor negra, naturais da África.
2- Nhaya: Pero de Nhaia, castelhano a serviço do rei de Portugal que construiu uma fortaleza em Sofala e repeliu poderosos ataques das forças africanas.
«Olha lá as alagoas donde o Nilo
Nace, que não souberam os antigos;
Vê-lo rega, gerando o crocodilo,
Os povos Abassis, de Crista amigos;
Olha como sem muros (novo estilo)
Se defendem milhor dos inimigos;
Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,
Que ora dos naturais Nobá se chama.
95o Olhe as lagoas onde nasce o rio Nilo,
Que eram desconhecidas dos antigos;
Veja que ele rega, gerando o crocodilo (1),
Os povos abassis (2), que de Cristo são amigos;
Repare que sem muralhas (num novo estilo),
Eles se defendem melhor dos seus inimigos.
Veja Méroe (3), que já foi uma ilha de muita fama,
E que agora de Nobá se chama.
1-Crocodilo: a inclusão desse animal no verso parece atender mais uma necessidade de rima, do que uma alusão à fertilidade do Nilo, sugerida pelo fato de que gera e sustenta tanto a vida natural, quanto a humana.
2- Abassis: abexins, abissínios. Naturais da abássia ou Abissínia. Camões quase sempre a chama por Etiópia.
3- Méroe: região da África oriental, banhada pelo rio Nilo e que antigamente era conhecida como se fosse uma ilha.
«Nesta remota terra um filho teu
Nas armas contra os Turcos será claro;
Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;
Mas contra o fim fatal não há reparo.
Vê cá a costa do mar, onde te deu
Melinde hospício gasalhoso e caro;
O Rapto rio nota, que o romance
Da terra chama Obi; entra em Quilmance.
96o Nessa terra distante um filho teu,
Contra os Turcos, terá um renome raro;
Dom Cristóvão (1) será o nome seu;
Mas contra o fim fatal não há reparo.
Veja aqui a costa de mar, onde te deu,
O reino de Melinde (2) abrigo nada ávaro.
Note que o rio Rapto (3), que o romance (4)
Da terra chama de Obi (5), entra por Quilmance (6).
1- Cristovão da Gama, filho de Vasco da Gama. Foi aprisionado e degolado pelo xeque de Zeila.
2- Melinde: cidade e reino na costa oriental da África.
3- Rio Rapto: rio da África oriental.
4- Romance: neste contexto, o mesmo que dialeto, ou linguajem vulgar, popular.
5- Obi: rio da África oriental.
6- Quilmance: vila situada no curso inferior do rio Obi, perto de Melinde.
«O Cabo vê já Arómata chamado,
E agora Guardafú, dos moradores,
Onde começa a boca do afamado
Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
Este como limite está lançado
Que divide Asia de Africa; e as milhores
Povoações que a parte Africa tem
Maçuá são, Arquico e Suaquém.
97o Veja o Cabo que de Arômata (1) já foi chamado;
Agora, de Guardafuié é intitulado pelos moradores.
Ali tem inicio a boca do afamado
Mar Vermelho, que do seu leito toma as cores.
Este mar é usado como fronteira, pois está situado
Entre a Ásia e a África; Também veja as melhores
Povoações que o Continente Africano tem:
Maçuá (2), Arquico (3) e Suaquém (4).
1- Cabo Arômata: ou Cabo Guardafui, situado na Somália, África Ocidental. Era assim chamado porque dele partiam os perfumes que abasteciam a Europa.
2- Maçuá: cidade do litoral do Mar Vermelho.
3- Arquico: porto da África Ocidental.
4- Suaquém: porto do Mar Vermelho, na costa da Núbia.
«Vês o extremo Suez, que antigamente
Dizem que foi dos Héroas a cidade
(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente
Tem das frotas do Egipto a potestade.
Olha as águas nas quais abriu patente
Estrada o grão Mousés na antiga idade.
Ásia começa aqui, que se apresenta
Em terras grande, em reinos opulenta.
98o Veja o Extremo de Suez (1), que antigamente,
Segundo dizem, foi dos Héroas (2) a cidade,
(Outros que foi de Arsínoe [3]) e que no presente
A frota do Egito a tem como sua propriedade.
Olhe as águas revoltas onde o potente
Moisés (4) abriu uma estrada na Antiguidade.
A Ásia começa aqui e se apresenta
Grande em terras; e, em Reinos, opulenta.
1- Extremo de Suez: porto no Mar Vermelho. A antiga Arsínoe.
2- Héroas: Heroópolis (Heroon Oppidum) cidade situada a noroeste de Suez.
3- Arsínoe: cidade junto a Suez, fundada por Ptolomeu Filadelfo.
4- Moisés: referência ao célebre episódio bíblico.
«Olha o monte Sinai, que se ennobrece
Co sepulcro de Santa Caterina;
Olha Toro e Gidá, que lhe falece
Água das fontes, doce e cristalina;
Olha as portas do Estreito, que fenece
No reino da seca Ádem, que confina
Com a serra d’Arzira, pedra viva,
Onde chuva dos céus se não deriva.
99o Olha o Monte Sinai (1) que mais se enobrece
Por abrigar o túmulo de Santa Catarina (2);
Olha Toro (3) e Gidá (4) que carece
Das águas das fontes, doce e cristalina;
Olha a entrada do Estreito (5) que fenece
No reino ressecado de Aden (6) que termina
Na serra de Arzira (7), uma pedra viva,
Pois a chuva, do Céu não deriva.
1- Monte Sinai: onde Moises recebeu as tábuas sagradas, situado na península do Sinai.
2- Santa Catarina: padroeira de Goa, na Índia. Foi mãe do imperador Constantino que colocou o Cristianismo como Religião oficial do Império romano. Catarina era devota extremada e fez várias excursões ao Oriente em busca de relíquias religiosas. Pediu para ser sepultada no Monte Sinai, o que de fato aconteceu, daí a alusão de Camões.
3- Toro: porto na costa ocidental da península do Sinai.
4- Gidá: o outro nome de Judá, cidade e porto no Mar Vermelho.
5- Estreito: o Estreito de Djibouti.
6- Aden: cidade no sul da Arábia Saudita.
7- Arzira: serra da Arábia.
«Olha as Arábias três, que tanta terra
Tomam, todas da gente vaga e baça,
Donde vêm os cavalos pera a guerra,
Ligeiros e feroces, de alta raça;
Olha a costa que corrre, até que cera
Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
O Cabo que co nome se apelida
Da cidade Fartaque, ali sabida.
100o Olha as três Arábias (1), que tanta terra
Ocupam com sua gente ociosa e baça (2),
Dali provém os cavalos para a guerra,
Ligeiros e ferozes, de alta raça;
Olha a Costa que percorre, até que se encerra
Num outro Estreito, o da Pérsia (3), que roça
Com o Cabo que se chama ou apelida
De Fartaque (4), graças à cidade ali estabelecida.
1- Arábias: as três Arábias situavam-se na parte oeste da Ásia Meridional. Camões refere-se a “Arábia Três” que são as seguintes regiões: Pétrea, Feliz e Deserta.
2- Baça: opaca, sem brilho.
3- Estreito da Pérsia: o atual Estreito de Ormuz.
4- Fartaque: Cabo e cidade no sul da Arábia.
«Olha Dófar, insigne porque manda
O mais cheiroso incenso pera as aras;
Mas atenta: já cá destoutra banda
De Roçalgate, e praias sempre avaras,
Começa o reino Ormuz, que todo se anda
Pelas ribeiras que inda serão claras
Quando as galés do Turco e fera armada
Virem de Castelbranco nua a espada.
101o Olha Dófar (1), célebre porque manda
Os mais perfumados incensos para as aras (2);
Mas, repare: aqui nessa outra banda,
Onde fica o Cabo Roçalgante (3), de praias raras,
Começa o reino de Ormuz (4), no qual, se anda
Pelas margens que ainda serão claras
Quando as Galés do Turco (5) e sua feroz Armada
Sentirem do Ibérico, a brava espada.
1- Dófar: cidade na costa sul da Arábia.
2- Aras: altares sagrados.
3- Cabo Roçalgante: o Cabo da Arábia, na entrada do Golfo de Omã.
4- Ormuz: ilha e cidade na entrada do Golfo Pérsico.
5- Turco: neste contexto, o mesmo que Mouro.
«Olha o Cabo Asaboro, que chamado
Agora é Moçandão, dos navegantes;
Por aqui entra o lago que é fechado
De Arábia e Pérsias terras abundantes.
Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado
Tem das suas perlas ricas, e imitantes
A cor da Aurora; e vê na água salgada
Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.
102o Olhe o Cabo Asaboro (1), agora chamado
De Moçandão, pelos bravos navegantes.
Por ali começa o lago (2) que é cercado
Pela Pérsia (3) e Arábia (3), de terras abundantes.
Observe a ilha de Barém (4), cujo fundo do Mar é ornado
Com ricas pérolas, que são imitantes
Da cor da Aurora; e veja que na água salgada
Os rios Tigre e Eufrates (5) têm uma entrada.
1) Asaboro: Cabo na entrada do Golfo Pérsico. Aqui Camões o identifica como o Cabo Moçandão.
2) Na verdade, Camões refere-se ao Golfo Pérsico, e não lago.
3) As atuais Arábia Saudita e o Irã.
4) Barém: arquipélago no Golfo Pérsico, famoso pela produção de pérolas.
5) Rio Tigre: grande rio na Ásia que nasce no Tauro Armênio e deságua no Golfo Pérsico, junto com o rio Eufrates.
«Olha da grande Pérsia o império nobre,
Sempre posto no campo e nos cavalos,
Que se injuria de usar fundido cobre
E de não ter das armas sempre os calos.
Mas vê a ilha Gerum, como descobre
O que fazem do tempo os intervalos,
Que da cidade Armuza, que ali esteve,
Ela o nome despois e a glória teve.
103o Veja a Pérsia (1), Império grande e nobre,
Sempre a postos nos campos e nos cavalos,
Embore a difamem por não usar o fundido cobre
E por não ter, do manejo constante da armas, os calos.
Mas veja também a ilha de Gerum (2) que descobre
As medidas do tempo e os seus intervalos;
E que, da cidade de Armuza (3), que ali esteve,
A glória e o renome ela reteve.
1) Pérsia: o atual Irã.
2) Gerum: a ilha onde fica situada Ormuz. Nela se concentrava um núcleo de estudo sobre o Tempo, suas divisões, variáveis etc.
3) Armusa: o mesmo que Ormuz.
«Aqui de Dom Filipe de Meneses
Se mostrará a virtude, em armas clara,
Quando, com muito poucos Portugueses,
Os muitos Párseos vencerá de Lara.
Virão provar os golpes e reveses
De Dom Pedro de Sousa, que provara
Já seu braço em Ampaza, que deixada
Terá por terra, à força só de espada.
104o Ali, o emérito Dom Felipe de Menezes (1)
Mostrará sua virtude na guerra de forma clara,
Quando com pouquíssimos portugueses,
Vencer aos muitos soldados persas de Lara (2).
Os quais também sofrerão os golpes e os reveses
De Dom Pedro de Souza (3), que já provara
A força do braço em Ampaza (4), deixada
Destruída apenas pela força de sua espada.
1- Dom Felipe de Menezes: comandante português de Ormuz, que venceu os persas de Lara.
2- Lara: cidade persa situada no Laristão.
3- Dom Pedro de Souza: comandante de Ormuz, antes de Dom Felipe de Menezes.
4- Ampaza: cidade da Pérsia ou da Índia. A sua localizaçã exata é discutida.
«Mas deixemos o Estreito e o conhecido
Cabo de Jasque, dito já Carpela,
Com todo o seu terreno mal querido
Da Natura e dos dões usados dela;
Carmânia teve já por apelido.
Mas vês o fermoso Indo, que daquela
Altura nace, junto à qual, também
Doutra altura correndo o Gange vem?
105o Mas deixemos o Estreito e o conhecido
Cabo de Jasque (1), que já foi chamado de Carpela,
Com o seu território mal abastecido
Pela natureza, que nele sonegou sua dádiva bela.
De Carmânia (2) já foi chamada, seu ex-apelido.
E ali, tu vês o formoso rio Indo (3), que naquela
Altura nasce? Junto dele corre o Ganges, porém
De qual nascente, o rio Sagrado vem?
1- Cabo Jasque: Cabo na entrada do Golfo de Ormuz, cujo nome em latim era Carpela.
2- Carmânia: região da Pérsia. Atual Quirman.
3- Rio Indo: rio indiano.
4- Ganges: o rio sagrado da Índia. Segundo a lenda nascia no Paraíso, donde a pergunta de Camões: onde estará sua nascente?
«OIha a terra de Ulcinde, fertilíssima,
E de Jáquete a íntima enseada;
Do mar a enchente súbita, grandíssima,
E a vazante, que foge apressurada.
A terra de Cambaia vê, riquíssima,
Onde do mar o seio faz entrada;
Cidades outras mil, que vou passando,
A vós outros aqui se estão guardando.
106o Olha a terra de Ulcinde (1), que é fertilíssima;
E veja em Jáquete (2) a encravada enseada;
Repare que a súbita enchente do Mar é violentíssima
E veja a vazante, que corre apressada.
Observe a terra de Cambaia (3), que é riquíssima
E onde o seio do mar faz uma entrada.
E outras mil cidades que vou repassando
A vós outros, que nesta área vão se infiltrando.
1) Ulcinde: a fértil região no delta do rio Indo.
2) Jáquete: golfo da Índia. Atual Katch.
3) Cambaia: reino e cidade da Índia.
«Vês corre a costa célebre Indiana
Pera o Sul, até o Cabo Comori,
Já chamado Cori, que Taprobana
(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
Por este mar a gente Lusitana,
Que com armas virá despois de ti,
Terá vitórias, terras e cidades,
Nas quais hão-de viver muitas idades.
107o Veja ali a célebre Costa indiana
Que no rumo sul vai até ao Cabo Comorim (1),
Que já foi chamado de Cori e que a Taprobana (2)
(Que agora se chama Ceilão) tem diante de si.
Por este Mar a potente gente lusitana
Com poderosas armas virá, depois de ti,
E conquistará vitórias, terras e cidades,
Nas quais viverão até as avançadas idades.
1- Cabo Comorim: situado no sul da Índia, chamado de “Cori” pela geografia ptolemaica.
2- Taprobana: ilha ao sul da Índia que já foi chamada de Ceilão. O atual Sri Lanka.
«As províncias que entre um e o outro rio
Vês, com várias nações, são infinitas:
Um reino Mahometa, outro Gentio,
A quem tem o Demónio leis escritas.
Olha que de Narsinga o senhorio
Tem as relíquias santas e benditas
Do corpo de Tomé, barão sagrado,
Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.
108o Vê as províncias que há entre um e outro rio,
Com várias nações são quase infinitas:
Um é o reino Mahometa (1) e o outro o Gentio (2),
A quem o demônio deixou leis escritas.
Observe que o reino de Narsinga (3) tem o poderio
Das relíquias santas e benditas
Do corpo de Tomé (4), apóstolo sagrado,
Por ter Jesus Cristo ao seu lado.
1- Mahometa; seguidores de Maomé, muçulmanos.
2- Gentio: os nativos pagãos, cujos deuses eram os animais e outros “falsos” ídolos.
3- Narsinga: antigo reino do Decão, na Índia.
4- Tomé: o apostolo São Tomé famoso por seu ceticismo.
«Aqui a cidade foi que se chamava
Meliapor, fermosa, grande e rica;
Os Ídolos antigos adorava
Como inda agora faz a gente inica.
Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
Tomé vinha prègando, e já passara
Províncias mil do mundo, que ensinara.
109o Ali existiu a cidade que se chamava
Meliapor (1), formosa, grande e rica;
E que aos antigos ídolos adorava,
Como, ainda agora, faz a gente iníqua.
Naquela época, longe do mar ela estava,
E a fé cristã, que no mundo se publica,
São Tomé vinha pregando; ele, que já passara
Por mil lugares do Mundo, que já catequizara.
1- Meliapor: cidade da península hindustânica, na atual região de Madrasta.
«Chegado aqui, pregando e junto dando
A doentes saúde, a mortos vida,
Acaso traz um dia o mar, vagando,
Um lenho de grandeza desmedida.
Deseja o Rei, que andava edificando,
Fazer dele madeira; e não duvida
Poder tirá-lo a terra, com possantes
Forças d’ homens, de engenhos, de alifantes.
110o Ali chegando, ficou pregando e dando
Saúde aos doentes e aos mortos nova vida;
Até que num certo dia, no mar vagando,
Chegou uma madeira de grandeza desmedida.
O rei da cidade a deseja, pois estava edificando,
E na obra a utilizaria; e não duvida
Que poderá levá-la para a terra, com as possantes
Forças dos homens, das roldanas e dos elefantes.
«Era tão grande o peso do madeiro
Que, só pera abalar-se, nada abasta;
Mas o núncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negócio gasta:
Ata o cordão que traz, por derradeiro,
No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta
Pera onde faça um sumptuoso templo
Que ficasse aos futuros por exemplo.
111o Porém, era tão pesado aquele madeiro
Que só para abalá-lo, não há o que basta;
Mas o embaixador do Cristo Verdadeiro,
Para movê-lo, nenhum esforço gasta.
Amarra o cordão que traz, por derradeiro,
No tronco e facilmente o arrasta
Para onde faria um suntuoso templo
Que ficasse para os futuros, como exemplo.
«Sabia bem que se com fé formada
Mandar a um monte surdo que se mova,
Que obedecerá logo à voz sagrada,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
A gente ficou disto alvoraçada;
Os Brâmenes o têm por cousa nova;
Vendo os milagres, vendo a santidade,
Hão medo de perder autoridade.
112o Pois ele sabia, que com fé formada,
Se mandasse a um Monte que se mova,
Ele logo obedecerá à voz sagrada,
Como Cristo ensinou e como agora, comprova.
A população, ao saber do fato, ficou alvoroçada;
Os Brâmenes (1) já o viam como ameaça nova;
E vendo aquele milagre e aquela santidade,
Sentem medo de perder a sua autoridade.
1- Brâmenes: ou Brâmanes, sacerdotes que oficiavam os sacrifícios dos Vedas. Membros da mais alta classe ou casta dos hindus.
«São estes sacerdotes dos Gentios
Em quem mais penetrado tinha enveja;
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
O principal, que ao peito traz os fios,
Um caso horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga não há, tão dura e fera,
Como a virtude falsa, da sincera.
113o São nesses sacerdotes dos Gentios
Que mais tinha penetrado a inveja:
Buscam, então, mil maneiras e desvios,
De desacreditar Tomé, ou para que morto seja.
O principal, dentre eles, que manipula os fios,
Faz uma trama horrível, para que todo mundo veja
Que não há uma inimiga tão dura e feroz
Da verdadeira Virtude como a falsidade atroz.
«Um filho próprio mata, e logo acusa
De homicídio Tomé, que era inocente;
Dá falsas testemunhas, como se usa;
Condenaram-no a morte brevemente.
O Santo, que não vê milhor escusa
Que apelar pera o Padre omnipotente,
Quer, diante do Rei e dos senhores,
Que se faça um milagre dos maiores.
114o Ele mata o próprio filho e logo acusa
O Santo Apóstolo, que era inocente;
Dando falsas testemunhas, como se usa:
Condenaram Tomé à morte, rapidamente.
O Santo, que não vê melhor escusa
Que apelar ao Pai Onipotente,
Pede-lhe que diante do Rei e doutros senhores,
Aconteça um dos milagres comovedores.
«O corpo morto manda ser trazido,
Que res[s]ucite e seja perguntado
Quem foi seu matador, e será crido
Por testemunho, o seu, mais aprovado.
Viram todos o moço vivo, erguido,
Em nome de Jesu crucificado:
Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
E descobre seu pai ser homicida.
115o E roga a Deus que seja ressuscitado
O jovem e que lhe seja perguntado
Quem foi o assassino; pois será acreditado
Esse seu testemunho, que é o mais provado.
E todos, então viram o rapaz ser acordado
Pela graça do Santíssimo Jesus Crucificado.
Agradece a Tomé, que o trouxe novamente à vida,
E conta que o seu pai era o verdadeiro homicida.
«Este milagre fez tamanho espanto
Que o Rei se banha logo na água santa,
E muitos após ele; um beija o manto,
Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
Com seu veneno os morde enveja tanta,
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Determinam matá-lo, em fim de tudo.
116o Este milagre causou tamanho espanto
Que o Rei logo foi banhar-se na água santa
E vários foram, depois dele; um beija o manto,
Outro, ao Deus de São Tomé, louvor canta.
Mas os Brâmenes se encheram de tanto
Ódio venenoso e de inveja tanta,
Que persuadindo o povo rude ao mal,
Decidem matar Tomé no final.
«Um dia que pregando ao povo estava,
Fingiram entre a gente um arruído.
(Já Cristo neste tempo lhe ordenava
Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
A multidão das pedras que voava
No Santo dá, já a tudo oferecido;
Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Com crua lança o peito lhe atravessa.
117o Num dia, em que pregando ao povo estava,
Simularam na multidão um tumulto de grande alarido.
E também porque nessa época, Cristo já ordenava
Que se Tomé padecesse, fosse ao Céu erguido,
Foi que entre as pedras que voavam,
Tomé é atingido e resignado à morte vai oferecido.
Um, para saciar a sua ira mais depressa,
Com a dura lança, o coração lhe atravessa.
«Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
Chorou-te toda a terra que pisaste;
Mais te choram as almas que vestindo
Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Te recebem na glória que ganhaste.
Pedimos-te que a Deus ajuda peças
Com que os teus Lusitanos favoreças.
118o Choraram-te Tomé, os rios Ganges e Indo;
Assim como em toda a terra que pisaste;
E mais ainda, as almas que já iam vestindo
O manto da Santa Fé, que ensinaste.
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Recebem-te na glória que ganhaste.
Agora te rogamos que a ajuda de Deus
Peças, em beneficio dos lusos teus.
«E vós outros que os nomes usurpais
De mandados de Deus, como Tomé,
Dizei: se sois mandados, como estais
Sem irdes a pregar a santa Fé?
Olhai que, se sois Sal e vos danais
Na pátria, onde profeta ninguém é,
Com que se salgarão em nossos dias
(Infiéis deixo) tantas heresias?
119o E vós que o nome usurpam
De embaixadores Divinos, igual foi Tomé,
Digam: se são embaixadores, por que ficam
Aí parados, sem irem pregar a Santa Fé?
Se forem o “Sal da Terra” e vos danam
Na própria Pátria, onde profeta ninguém é,
Como é que purificarão, em nossos dias,
(Aos infiéis deixo) tantas heresias?
«Mas passo esta matéria perigosa
E tornemos à costa debuxada.
Já com esta cidade tão famosa
Se faz curva a Gangética enseada;
Corre Narsinga, rica e poderosa;
Corre Orixa, de roupas abastada;
No fundo da enseada, o ilustre rio
Ganges vem ao salgado senhorio;
120o Mas deixo esta conversa perigosa
E retornemos à Costa, ali pintada;
Veja esta cidade tão famosa,
Onde se torna curva a Gangética (1) enseada.
Ali, percorre a Narsinga (2), rica e poderosa;
Acolá, percorre Orixá (3), que de tecidos é abastada;
No fundo da enseada, o ilustre rio
Ganges entrega-se ao salgado poderio.
1- Referência a enseada onde o rio Ganges deságua.
2- Narsinga: antigo reino do Decão, na Índia.
3- Orixá: reino da Índia, no litoral de Bengala.
«Ganges, no qual os seus habitadores
Morrem banhados, tendo por certeza
Que, inda que sejam grandes pecadores,
Esta água santa os lava e dá pureza.
Vê Catigão, cidade das milhores
De Bengala província, que se preza
De abundante. Mas olha que está posta
Pera o Austro, daqui virada, a costa.
121o Ganges (1), no qual, os seus moradores
Banham-se para morrer, com a certeza
De que mesmo que sejam grandes pecadores,
Essa água santa os lava e lhes dá pureza.
Agora veja Catigão (2), uma das melhores
Cidades de Bengala, província que se preza
Por ser próspera. Observe que ela está posta
Virada para o sul, dali, girando a Costa.
1- Rio Ganges: do qual a lenda diz que nasce no Paraíso e que suas águas purificam os pecados. A cidade de Varanasi, em suas margens é um ponto tradicional de peregrinos à beira da morte que ali querem se purificar.
2- Catigão: cidade e porto da província de Bengala. Atual Chitagong.
«Olha o reino Arracão; olha o assento
De Pegu, que já monstros povoaram,
Monstros filhos do feio ajuntamento
Düa mulher e um cão, que sós se acharam.
Aqui soante arame no instrumento
Da geração costumam, o que usaram
Por manha da Rainha que, inventando
Tal uso, deitou fora o error nefando.
122o Olha o reino Arracão (1), veja o assento
E o de Pegu (2), onde os monstros já povoaram,
Os quais eram gerados pelo sujo acasalamento
Duma mulher e um cão, que a sós se encontraram.
Ali usam um pequeno sino, sonoro instrumento,
Nos órgãos genitais, ao que se acostumaram,
Desde que a rainha esse hábito foi impondo,
E com ele exterminando aquele vício nefando.
1- Arracão: antigo reino, junto a Bengala.
2- Pegu: reino indiano, na costa do golfo de Bengala.
«Olha Tavai cidade, onde começa
De Sião largo o império tão comprido;
Tenassari, Quedá, que é só cabeça
Das que pimenta ali têm produzido.
Mais avante fareis que se conheça
Malaca por empório ennobrecido,
Onde toda a província do mar grande
Suas mercadorias ricas mande.
123o Observe a cidade de Tavai (1), onde começa
O vasto reino do Sião (2), tão comprido;
Tenassari (3) e Quedá (4) que é a cabeça
Das pimentas que ali se tem colhido.
Mais adiante é oportuno que se conheça
Malaca (5) e seu grande mercado; conhecido
Por todas as províncias do Mar grande,
Cujas mercadorias ele demande.
1- Tavai: cidade do reino de Pegu, na Birmânia.
2- Sião: reino da Índia. A Tailândia atual.
3- Tenassari: cidade da península de Malaca.
4- Quedá: idem.
5- Malaca: península da Índia e importante entreposto comercial na época da expedição de Vasco da Gama.
«Dizem que desta terra co as possantes
Ondas o mar, entrando, dividiu
A nobre ilha Samatra, que já d’antes
Juntas ambas a gente antiga viu.
Quersoneso foi dita; e das prestantes
Veias d’ouro que a terra produziu,
'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;
Alguns que fosse Ofir imaginaram.
124o Dizem sobre esta terra que as possantes
Ondas do mar foram-lhe entrando e a dividiu
Da nobre ilha de Samatra (1), com a qual, antes
Era unida; segundo o povo antigo que assim as viu.
Já foi chamada de Quersoneso (2); e pelasbrilhantes
Veias de ouro que a terra produziu,
O adjetivo de Áurea lhe juntaram;
Pensaram que fosse a Ofir (3) que imaginaram.
1- Samatra: ilha do arquipélago de Sonda.
2- Quersoneso: a “Áurea Quersoneso” ou “Península de Ouro” seria a península de Malaca.
3- Ofir: região lendária situada no Oriente. Segundo a Bíblia as riquezas de Salomão, em ouro e prata, provinham desta região.
«Mas, na ponta da terra, Cingapura
Verás, onde o caminho às naus se estreita;
Daqui tornando a costa à Cinosura,
Se encurva e pera a Aurora se endireita.
Vês Pam, Patane, reinos, e a longura
De Sião, que estes e outros mais sujeita;
Olha o rio Menão, que se derrama
Do grande lago que Chiamai se chama.
125o Repare no extremo da Terra e veja Cingapura (1),
Onde o caminho dos navios se estreita.
Dali, retornando à Costa, no rumo da Cinosura (2),
Entorta-se e no rumo da Aurora (Oriente) se endireita.
Vês os reinos de Pam (3) e Patane (4) e a grande largura
Do reino de Sião (5), que a esses e a muitos outros sujeita?
Olha o rio Menão (6) que se derrama
Do grande lago que Chiamai (7) se chama.
1- Cingapura: região situada na península de Malaca.
2- Cinosura: a constelação da Ursa Menor.
3- Pam: reino indiano na costa oriental da península de Malaca.
4- Patane: idem.
5- Sião: reino da índia. A atual Tailândia.
6- Rio Menão: rio da Indochina que nasceria num suposto lago chamado de Chiamai e que deságua no golfo de Sião.
7- Chiamai: Há uma cidade na China (atual Chieng Moi) na margem do rio Menão, mas o lago é inexistente.
Vês neste grão terreno os diferentes
Nomes de mil nações, nunca sabidas:
Os Laos, em terra e número potentes;
Avás, Bramás, por serras tão compridas;
Vê nos remotos montes outras gentes,
Que Gueos se chamam, de selvages vidas;
Humana carne comem, mas a sua
Pintam com ferro ardente, usança crua.
126o Veja neste grande território os diferentes
Nomes de mil nações, até então, desconhecidas:
O Laos (1) de terras e população muito potentes;
Avás (2), Bramás (3), com suas terras tão compridas;
Veja naqueles montes distantes as outras gentes
Que se chamam Gueos (4) e vivem selvagens vidas.
Comem a carne humana dos inimigos e à sua
Tatuam com ferro em brasa, de maneira crua.
1- Laos: país vizinho ao Vietnã.
2- Avás: povo do interior da Birmânia.
3- Bramás: um dos povos da Índia.
4- Gueos: povo do Sião, que segundo Camões praticava a antropofagia e a tatuagem. Não há comprovação cientifica dessa prática de canibalismo.
«Vês, passa por Camboja Mecom rio,
Que capitão das águas se interpreta;
Tantas recebe d’ outro só no Estio,
Que alaga os campos largos e inquieta;
Tem as enchentes quais o Nilo frio;
A gente dele crê, como indiscreta,
Que pena e glória têm, despois de morte,
Os brutos animais de toda sorte.
127o Veja que pelo Camboja (1) passa o Mecom (2) rio,
Um comandante das águas, papel que bem interpreta,
Pois recebe tantos afluentes, só no Estio (3),
Que transborda e aos campos alaga e inquieta
(Como as enchentes iguais do rio Nilo frio).
Os ribeirinhos acreditam em magias secretas,
E que castigo ou prêmio, depois da morte,
Até os ferozes animais recebem, de toda sorte.
1- Camboja: o reino da Indochina.
2- Rio Mecom: grande rio da Ásia que nasce no Tibet, banha o Camboja e deságua no Mar da China.
3- Estio: Verão.
«Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os Cantos que molhados
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.
128o Quase o Mecom receberia, plácido e brando,
No seu regaço este Poema, que todo molhado,
Vem de um naufrágio triste e miserando,
De furiosas tempestades marítimas, refugiado,
Assim como da fome e de grandes perigos, quando
O injusto castigo for executado,
Naquele (1) cuja poesia sonorosa,
Será mais afamada do que generosa.
1- Aqui, Camões refere-se a si próprio, quando sofreu um naufrágio. Enquanto ele trabalhava na China como “Provedor dos mortos e ausentes” foi acusado de algumas irregularidades e estava sendo levado para a Índia para ser julgado quando aconteceu o naufrágio no rio Mecom que quase lhe custou a vida e o manuscrito dos “Lusíadas”. Note-se que profeticamente Camões diz que “Os Lusíadas” lhe trará mais fama que prêmios materiais, o que de fato ocorreu, sendo que o fim de sua vida foi passado em extrema miséria. Segundo contam, vivia das esmolas que seu escravo javanês conseguia.
«Vês, corre a costa que Champá se chama,
Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
Vês Cauchichina está, de escura fama,
E de Ainão vê a incógnita enseada;
Aqui o soberbo Império, que se afama
Com terras e riqueza não cuidada,
Da China corre, e ocupa o senhorio
Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.
129o Veja ali a Costa que Champá (1) se chama,
Sua mata, de madeira perfumada é ornada;
Repare na Cauchichina (2), de obscura fama,
E na ilha de Ainão (3) veja a desconhecida Enseada.
Ali o soberbo império, que se afama
Por suas terras e pela riqueza nunca imaginada,
Chama-se China, cujo imenso poderio
Vai do Trópico de Câncer até ao Cinturão frio (4).
1- Champá: antigo reino, situado junto do Camboja e da Conchichina.
2- Cauchichina: a antiga Conchichina.
3- Ainão: ilha e cidade na costa sul da China.
4- O Cinturão frio: o norte do hemisfério.
«Olha o muro e edifício nunca crido,
Que entre um império e o outro se edifica,
Certíssimo sinal, e conhecido,
Da potência real, soberba e rica.
Estes, o Rei que têm, não foi nacido
Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
Mas elegem aquele que é famoso
Por cavaleiro, sábio e virtuoso.
130o Veja a Grande Muralha e o edifício desconhecido,
Que une o Império, enquanto o solidifica;
É um claro sinal e como tal é reconhecido,
Do grande poderio desta terra, soberba e rica;
Ali, os reis não chegam ao trono por terem nascido
Príncipes e nem o cargo do pai aos filhos fica;
O povo elege aquele que é famoso
Por ser valente, sábio e virtuoso.
«Inda outra muita terra se te esconde
Até que venha o tempo de mostrar-se;
Mas não deixes no mar as Ilhas onde
A Natureza quis mais afamar-se:
Esta, meia escondida, que responde
De longe à China, donde vem buscar-se, ,
É Japão, onde nace a prata fina,
Que ilustrada será co a Lei divina.
131o Ainda existe muita terra que se esconde,
Até que chegue a época certa de mostrar-se.
Mas não deixe de notar no Mar, as ilhas onde
A natureza mais quis afamar-se:
Veja aquela um pouco oculta, que corresponde
Paralelamente com a China, donde veio originar-se
É o Japão, onde nasce a prata fina
E que será iluminada (1) com a Lei Divina.
1- Camões refere-se ao apostolado de São Francisco Xavier neste país.
«Olha cá pelos mares do Oriente
Ás infinitas Ilhas espalhadas:
Vê Tidore e Ternate, co fervente
Cume, que lança as flamas ondeadas.
As árvores verás do cravo ardente,
Co sangue Português inda compradas.
Aqui há as áureas aves, que não decem
Nunca à terra e só mortas aparecem.
132o Observe que pelos mares do Oriente
Inúmeras ilhas estão espalhadas:
Veja Tidore (1) e Ternate (2), com o fervente
Cume que lança as chamas ondeadas.
Verás as árvores do cravo (3) ardente,
Que com o sangue dos lusos, ainda são compradas.
Ali existem as aves douradas, que nunca descem
À terra e só depois de mortas é que aparecem (4).
1-Tidore: ilha do arquipélago das Molucas.
2- Ternate: idem. Ambas vulcânicas.
3- Cravo: especiaria. O cravo da Índia.
4- Alusão às chamadas “Aves do Paraíso”, cuja beleza é de tal ordem que por muito tempo se acreditou que fosse Angelicais. Para contribuir com essa lenda e enganar os Ocidentais, os nativos amputavam as patas dos pássaros para “mostrar” que eles nem poderiam descer à Terra por não terem como andar. Atualmente essa crueldade é menor, mas ainda persiste em certas regiões.
«Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam ,
Da vária cor que pinta o roxo fruto;
Às aves variadas, que ali saltam,
Da verde noz tomando seu tributo.
Olha também Bornéu, onde não faltam
Lágrimas no licor coalhado e enxuto
Das árvores, que cânfora é chamado
Com que da Ilha o nome é celebrado.
133o Olhe as ilhas de Banda (1), que se enfeitam
De cores variadas e do rubro fruto;
Observe a variedade de aves que ali saltam,
Retirando da verde fruta o seu tributo.
Olhe também a ilha de Bornéu (2), onde não faltam
Sofrimentos no líquido coalhado e quase enxuto
Que é retirado das árvores. De Cânfora é chamado
Tornando o nome dessa ilha muito afamado.
1- Banda:arquipélago nas Molucas, famosa pela produção de noz-moscada.
2- Bornéu: ilha do arquipélago de Sunda, sendo a segunda maior ilha do Mundo, atrás apenas da Austrália. Famosa pela produção de Cânfora.
«Ali também Timor, que o lenho manda
Sândalo, salutífero e cheiroso;
Olha a Sunda, tão larga que üa banda
Esconde pera o Sul dificultoso;
A gente do Sertão, que as terras anda,
Um rio diz que tem miraculoso,
Que, por onde ele só, sem outro, vai,
Converte em pedra o pau que nele cai.
134o Ali também fica o Timor (1), que manda
A madeira do sândalo, salutar e cheiroso.
Olha Sunda (2), tão larga que uma das bandas
Esconde-se no sul dificultoso;
O povo selvagem que em suas terras anda,
Diz que existe um rio miraculoso
Que por onde corre, nenhum outro vai
E que transforma em pedra, a madeira que nele cai.
1- Timor: ilha do arquipélago de Sonda.
2- Sunda: parte oriental da ilha de Java. Atualmente se designa como Sonda a todo o arquipélago a que Java pertence.
«Vê naquela que o tempo tornou Ilha,
Que também flamas trémulas vapora,
A fonte que óleo mana, e a maravilha
Do cheiroso licor que o tronco chora,
- Cheiroso, mais que quanto estila a filha
De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
E vê que, tendo quanto as outras têm,
Branda seda e fino ouro dá também.
135o Veja a terra, que o tempo transformou em ilha,
Nela, também, a trêmula chama evapora;
Observe a fonte que mina óleo e a maravilha
De líquido cheiroso que do tronco da árvore chora;
É mais perfumado que aquele que destila a filha
De Ciniras (1) na Arábia, onde mora;
E veja que ela possui tudo que as outras têm,
A suave seda e o refinado ouro também.
1- Ciniras: rei de Chipre que cometeu incesto com a sua filha de nome Mirra, a qual foi transformada na árvore que leva o seu nome. Dela se usa a resina para a fabricação de incensos, perfumes, ungüentos e etc. Mirra teria sido um dos presentes dados a Jesus Cristo bebê, por um dos três Reis Magos, como acreditam os cristãos. Aqui, Camões coloca o perfurme da árvore de que faz referencia como superior ao da Mirra.
«Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
Os naturais o têm por cousa santa,
Pola pedra onde está a pegada humana.
Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
No profundo das águas, soberana,
Cujo pomo contra o veneno urgente
É tido por antídoto excelente.
136o Note que no Ceilão o Monte tanto se levanta
Que ultrapassa as nuvens, ou é a vista que nos engana;
Os nativos o têm como se fosse uma Montanha Santa,
Pois nela, uma pedra foi marcada por pegada humana.
Nas ilhas de Maldiva (1) é que nasce a planta,
Nas profundezas de suas águas, soberana,
Cujo fruto, para os venenos de perigo iminente,
É tido como um antídoto excelente.
1- Maldivas: as ilhas Maldivas constituem um arquipélago situado a sudoeste do Ceilão (atual Sri Lanka), no Oceano Indico.
«Verás defronte estar do Roxo Estreito
Socotorá, co amaro aloé famosa;
Outras ilhas, no mar também sujeito
A vós, na costa de África arenosa,
Onde sai do cheiro mais perfeito
A massa, ao mundo oculta e preciosa.
De São Lourenço vê a Ilha afamada,
Que Madagáscar é dalguns chamada.
137o Ali tu verás, em frente ao Rubro Estreito (1),
A Socotorá (2), com a sua amarga aloé (3) famosa;
E muitas outras ilhas, naquele Mar que já está sujeito
Ao vosso domínio, na costa da África arenosa,
Donde se extrai a base do perfume mais perfeito,
Que ao resto do mundo é oculta e preciosa.
Veja a ilha de São Lourenço (4), tão afamada,
A qual, por alguns, de Madagáscar é chamada.
1- O Roxo Estreito: O Estreito de Babelmândeb, na entrada do Mar Vermelho.
2- Socotorá: ilha situada no Oceano Índico, em frente do Cabo de Guardafui.
3- Aloé: planta medicinal. A babosa.
4- Ilhas de São Lourenço ou ilha de Madagáscar, situadas junto à costa Oriental da África, da qual é separada pelo canal de Moçambique.
«Eis aqui as novas partes do Oriente
Que vós outros agora ao mundo dais,
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Que com tão forte peito navegais.
Mas é também razão que, no Ponente,
Dum Lusitano um feito inda vejais,
Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
Caminho há-de fazer nunca cuidado.
138o Aqui estão as novas regiões do Oriente,
Que vós, agora, ao Mundo entregas,
Abrindo as portas do mar, furioso e potente,
Que com tanta coragem navegas.
Mas também é oportuno que no Ocidente,
As proezas de outro lusitano (1) tu vejas,
Pois sentido que é pelo seu Rei injustiçado,
Achará um novo caminho, nunca antes imaginado.
1- Referência a Fernão de Magalhães que descobriu a passagem entre o Atlântico e o Pacífico e realizou a primeira viagem de circunavegação a serviço do rei da Espanha.
«Vedes a grande terra que contina
Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
Que soberba a fará a luzente mina
Do metal que a cor tem do louro Apolo.
Castela, vossa amiga, será dina
De lançar-lhe o colar ao rudo colo.
Varias províncias tem de várias gentes,
Em ritos e costumes, diferentes.
139o Veja a grande extensão de terra contínua (1),
Que vai da Constelação de Calisto até ao oposto Pólo;
E que é majestosa com a reluzente mina
De ouro, que tem a cor do louro Apolo (2).
Castela (3), vossa amiga, será a conquistadora digna,
Que lhe colocará o forte laço em seu rude colo,
Dominando as várias províncias e variadas gentes,
Que em ritos e costumes são tão diferentes.
1- Referência às terras da América Latina.
2- Referência ao deus Apolo, deus do sol.
3 – Castela: aqui Camões cita o reino de Castela como se fosse a Espanha toda, a dominadora da América Latina, com excessão do Brasil, sob o jugo português.
«Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
Parte também, co pau vermelho nota;
De Santa Cruz o nome lhe poreis;
Descobri-la-á a primeira vossa frota.
Ao longo desta costa, que tereis,
Irá buscando a parte mais remota
O Magalhães, no feito, com verdade,
Português, porém não na lealdade.
140o Todavia, onde mais se alarga a terra tereis
Grande parte, rica em pau vermelho (1) como se nota;
De “Santa Cruz”, a nova província chamareis,
A qual será descoberta pela vossa primeira frota,
Que ao longo dessa Costa, dos lusos Reis,
Irá procurando a sua parte mais remota:
O Estreito que Magalhães descobrirá na posteridade,
Mesmo sem ser um português com lealdade.
1- As árvores de Pau-Brasil. Aqui ocorre a única menção que Camões faz ao Brasil, na época, considerado uma conquista menor quando comparado com a exuberância da Índia, da China e doutras localidades do Oriente.
«Dês que passar a via mais que meia
Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
Düa estatura quási giganteia
Homens verá, da terra ali vizinha;
E mais avante o Estreito que se arreia
Co nome dele agora, o qual caminha
Pera outro mar e terra que fica onde
Com suas frias asas o Austro a esconde.
141o Depois que ultrapassar mais que meia
Via, que do Pólo Antártico vai até a Linha (1),
Com uma bela estatura gigantesca (2),
Verás os homens que habitam a terra, dali vizinha.
E mais adiante está o Estreito que agora se nomeia
Com o nome de Magalhães, no qual se caminha
Para o outro mar e para a terra que se situa onde
As frias asas do vento Austro lhe esconde.
1- Referência a Linha do Equador.
2 – alusão aos chamados “Indios Gigantes da Pagônia”, tribo que passou para a lenda como “gigante”, mas que na verdade era constituída por pessoas cuja altura era maior que a da média.
«Até’aqui Portugueses concedido
Vos é saberdes os futuros feitos
Que, pelo mar que já deixais sabido,
Virão fazer barões de fortes peitos.
Agora, pois que tendes aprendido
Trabalhos que vos façam ser aceitos
As eternas esposas e fermosas,
Que coroas vos tecem gloriosas,
142o Até aqui, portugueses, lhes foi concedido,
Saberdes as futuras proezas e os grandes feitos,
Que pelos mares que vós já deixam conhecido,
Virão fazer os ilustres varões de fortes peitos.
E agora que as dificuldades já têm vencido
E se tornaram dignos de serem aceitos
Pelas eternas esposas ninfas formosas,
Que já tecem as suas coroas gloriosas,
«Podeis-vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo, pera a pátria amada.»
Assi lhe disse; e logo movimento
Fazem da Ilha alegre e namorada.
Levam refresco e nobre mantimento;
Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
143o Podem embarcar, pois tendes vento
E mar tranqüilo; sigam para a pátria amada,
A deusa disse: e eles já fazem o movimento
De partida daquela ilha alegre e namorada.
Levam refrescos e nobres alimentos;
E levam também a companhia desejada
Das ninfas (2), que serão suas eternamente,
Por mais que o Sol ao mundo esquente (1).
1- Isto é: eternamente.
2- Ou seja, as glórias que as Ninfas simbolizavam.
Assi foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que naceram, sempre desejado.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E à sua pátria e Rei temido e amado
O prémio e glória dão por que mandou,
E com títulos novos se ilustrou.
144o E assim foram singrando o mar sereno,
Com o vento sempre manso e nunca irado,
Até que certo dia avistaram o amado terreno
Em que nasceram, o torrão natal desejado.
Entraram pela foz do rio Tejo, sempre ameno,
E à sua pátria e ao seu rei, respeitado e amado,
Deram o prêmio e a glória para quem os comandou
E que com mais esses novos títulos se consagrou.
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Düa austera, apagada e vil tristeza.
145o Mas... Não mais, Musa. A inspiração que tenho
Está confusa e a minha voz está enrouquecida,
E não por tanto cantar, mas por ver que venho
Cantando para uma gente surda e endurecida.
O estímulo com que se inflama o engenho
A pátria não me dá, pois está comprometida
Com o gosto da cobiça e na rudeza
De uma austera, apagada e vil tristeza.
E não sei por que influxo de Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
146o E não sei por qual desígnio do Destino
Assim está; sem alegre orgulho e gosto,
Que levanta os ânimos de modo contínuo
Para se enfrentar a Vida com um feliz rosto.
Mas vejas, ó sublime Rei, que por Divino
Mandado está no Real Trono posto,
Que sois (compare com as outras gentes)
O soberano só de súditos excelentes.
Olhai que ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes liões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolátras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo.
147o Olhe que eles vão felizes, por várias vias,
Iguais a leões rompedores e aos bravos touros,
Cedendo o corpo às fomes, às exaustivas vigias,
Enfrentam o ferro, o fogo, as flechas e os pelouros (1),
Suportando as regiões quentes e as terras frias,
Expondo-se aos golpes dos pagãos e dos mouros,
Arriscando-se aos desconhecidos perigos do Mundo,
Aos naufrágios, aos peixes e ao Mar profundo.
1- Pelouros: bombas.
Por vos servir, a tudo aparelhados;
De vós tão longe, sempre obedientes;
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar reposta, prontos e contentes.
Só com saber que são de vós olhados,
Demónios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido
Que vencedor vos façam, não vencido.
148o Para vos servir, em tudo estão preparados;
E mesmo estando longe, são sempre obedientes
A quaisquer dos vossos duros comandos,
Sem retrucar, atendem prontos e muito contentes.
Apenas por saber que por vós são observados,
Aos demônios infernais, negros e ardentes,
Enfrentam com valentia e arte e não duvido
Que vos faça sempre vencedor e nunca vencido.
Favorecei-os logo, e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade;
De rigorosas leis desalivai-os,
Que assi se abre o caminho à santidade.
Os mais exprimentados levantai-os,
Se, com a experiência, têm bondade
Pera vosso conselho, pois que sabem
O como, o quando, e onde as cousas cabem.
149o Favorecei-os logo Senhor e alegrai-os
Com a vossa presença e alegre humanidade;
Das leis rigorosas e muito severas aliviai-os,
Pois é assim o caminho para a Santidade.
Aos mais experientes buscai e levai-os,
Se com a experiência tiverem bondade,
Para o vosso Ministério, pois eles sabem
Onde todas as coisas e situações cabem.
Todos favorecei em seus ofícios,
Segundo têm das vidas o talento;
Tenham Religiosos exercícios
De rogarem, por vosso regimento,
Com jejuns, disciplina, pelos vícios
Comuns; toda ambição terão por vento,
Que o bom Religioso verdadeiro
Glória vã não pretende nem dinheiro.
150o Favorecei a todos em seus ofícios,
Pois cada um tem o seu talento;
Faça que os Padres (1) cumpram os exercícios
De rogarem pelo vosso bom regimento
Com jejuns e disciplinas, pois os vícios
São comuns; que sua ambição o vento
Leve para longe, pois o Padre, bom e verdadeiro,
Não procura a fútil glória e nem o dinheiro.
1- Camões chama os Padres católicos de “Religiosos”. Manteremos essa identificação porque à época não existiam outras Religiões permitidas.
Os Cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não sòmente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preminente.
Pois aqueles que a tão remoto clima
Vos vão servir, com passo diligente,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
151o Pelos cavaleiros tende muita estima,
Pois com sangue intrépido e fervente,
Eles estendem não apenas a Lei Divina,
Mas também ao vosso império proeminente.
Os que vão às terras distantes e adverso clima
Vão para te servir, com passo diligente,
A dois inimigos vencem: aos adversários vivos,
E (o que é mais) aos transtornos excessivos.
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d’exprimentados
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe.
Mais em particular o experto sabe.
152o Faça Senhor, que não digam os admirados
Alemães, Franceses, Italianos e Ingleses,
Que os lusos nasceram para serem mandados,
Pois é uma insolente infâmia aos portugueses.
Aceite só os conselhos dos experimentados,
Que já viveram muitos anos e muitos meses,
Pois, se nos eruditos muito “Saber” cabe,
No particular, é o experiente que mais sabe.
De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Anibal escarnecia,
Quando das artes bélicas, diante
Dele, com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.
153o Veja Formião (1), o filósofo elegante,
E como o grande Aníbal (2) dele escarnecia,
Quando sobre as guerreiras artes, diante
Dele, com a voz alterada, falava e lia.
A disciplina militar estrita e prestante,
Não se aprende nos livros ou na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Exige que o discípulo a aprenda lutando.
1- Formião: filósofo grego que discorreu certo dia, de forma disparatada sobre a arte militar diante de Aníbal.
2- Anibal: General Cartaginês que enfrentou com sucesso a poderosa Roma,
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado.
Tem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
154o Mas eu que falo humilde, baixo e quase mudo,
Por vós não sou conhecido ou sequer imaginado?
Da boca dos humildes, eu sei, contudo,
Que às vezes o louvor é mais elaborado.
Nem me falta, na vida, um sério estudo,
Com a minha longa experiência misturado,
Mais a criatividade, que aqui vereis presente;
Qualidades que juntas, encontram-se raramente.
Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pres[s]aga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina,
155o Para os combates, meu braço está afeito;
Para louvar-te, a minha mente às Musas foi dada;
Apenas me falta ser por vós aceito,
Pois a sua nobreza deve ser prezada.
E se isto o céu me concede e o vosso peito
Praticar as proezas que mereçam ser exaltadas,
Como a profética mente vaticina
Olhando para a sua inclinação divina,
Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante,
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter enveja.
156o E o farei de tal modo, que mais que a da Medusa (1),
A sua figura cause temor no monte Atlante (2),
Ou rompendo pelos campos de Ampelusa (3)
Contra os muros de Marrocos (4) e Trudante (5).
Sobre vós, com a minha estimada e alegre Musa
Cantarei, para que todo Mundo de ti se encante.
E de tal maneira, que Alexandre (6) em vós se veja,
Pois a grandeza de Aquiles (7), em ti mais viceja.
1- Medusa: uma das três Górgonas. Era muito bela, mas ofendeu Minerva que transformou os seus cabelos em serpentes e deu ao seu olhar o poder de petrificar quem a fitasse.
2- Atlante: rei da Mauritânia, filho de Júpiter. Perseu, a quem ele recusou hospitalidade obrigou-o a olhar para a Medusa e assim o transformou numa montanha, situada no norte da África, e o condenou a sustentar o Céu com os ombros.
3- Ampelusa: o Cabo Espartel, a norte do Marrocos.
4- Marrocos: país da África do Norte, fronteiriço com a Península Ibérica.
5- Trudente: cidade situada em Marrocos.
6- Alexandre: Alexandre Magno, rei da Macedônia e conquistador da Pérsia
e da Índia.
7- Aquiles: herói grego, filho de Peleu e de Tétis.
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