sábado, 8 de janeiro de 2011

O Cachê

Marshall Macluhan, sociólogo canadense, cunhou, entre outras, duas expressões que ganharam o Mundo e acabaram sendo tidas e havidas como verdades absolutas. O primeiro neologismo foi: “Aldeia Global” e o segundo: “os 15 minutos de fama que todos terão”. Quanto à primeira expressão, a chegada e a consolidação da Internet não deixa dúvida de seu acerto. Em relação ao segundo conceito, sente-se que cada vez mais rápido ele também se aproxima de ser uma verdade indiscutível. A própria Internet, aliás, proporciona essa “fama” como bem demonstram os “Website” de ex-anônimos que mesmo não tendo qualquer talento que os diferencie dos demais, conseguem uma imensa legião de seguidores que nem sabem o porquê lhe acompanham.

Puristas, ou só insolentes, dirão que tais figuras e seus seguidores são desqualificados por lhes faltar estudo e cultura. Porém, aqueles despidos de preconceitos já começam a notar que os “15 minutos de fama” vão se imiscuindo por todas as classes sócio-econômicas e é aqui que entra o objeto de nossas reflexões nesse texto. Enquanto tal “fama” fica entre os classificados como “inferiores”, o prejuízo que podem causar é pequeno, se pequeno for considerado o desserviço à Cultura. De todo modo, não se corre risco de morte pelo fato deles existirem. O problema cresce quando Classes Profissionais cujo erro ou acerto redundam em saúde, doença ou morte sujeitam-se a esse esquema. Têm-se, então, os seguintes fatos:

1º Fato – busca-se a “Fama” ao custo de qualquer preço. E se tal busca é questionada ou criticada, a resposta padrão é: não estou nem aí. Ganhei meu cachê. Saque rápido, como os dos antigos “cowboys”. E por ser rápido e de “cowboys” quase sempre é desprovido de qualquer valor intelectual, lógico ou ético. Pouco importa. Estou ganhando?

2º Fato – ganhando o quê? E a troco de quê? O que há de tão interessante em receber um reles cachê?

3º Fato – o que acontece com a auréola de respeitabilidade que certas profissões exigem? Onde ficou a dignidade cerimoniosa de “doutores”? Alguns dirão que tais “dignidades e cerimônias” são valores caducos. Outros, com mais discernimento, dirão que não, pois ao se procurar alguém para solucionar um problema que lhe aflige o doente não busca alguém como ele, mas sim alguém que lhe seja “superior” e o livre de seu mal. Ou não? Quando me doem os dentes, procurarei outro Fabio qualquer, ou buscarei um “Doutor” Dentista? Penso que é desnecessário responder.

4º Fato – novos cursos, forjando novos e muitos “Doutores”, acirraram a concorrência de tal maneira que desprezar valores passou a ser uma necessidade? Talvez. E um triste exemplo disso é o que se vê em anúncios publicitários, como o descrito na seqüência:

“... filmado de costas, enquanto um locutor canta as virtudes de um produto, um senhor de seus 30 anos, cujo nome e número de registro profissional aparecem na legenda, vira-se com a boca cheia e tenta expressar alguma coisa. Mas de sua feição e de toda cena, só se apreende que ele é péssimo ator; e que, talvez, também não seja um prócere em sua profissão, pois se fosse não se permitiria a esse papel. Mas ele, diga-se, não está só nessa enxurrada. Vários outros a isso também se prestam, modificando-se apenas cenários e produtos.

Porém como sou apenas um humilde escrevinhador, sem competência para longas, profundas e corretas apreciações sociológicas, antropológicas, econômicas etc. não devo alongar-me nesse terreno pantanoso. O diabo é que sinto medo, pois em momentos de maior fragilidade – quando adoeço – eu corro o risco de ser (mal) tratado por atores canastrões e profissionais de baixa qualidade. Outros sentirão? Quase certo que sim. Pagamos a conta dos efeitos colaterais do acerto de Macluhan.