sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto X - 2ª Parte

Notas à Edição


1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios. Essa adaptação não é uma tradução, até porque o idioma é único. Destarte, o leitor notará que as estrofes adaptadas não brilham pela perfeição da métrica ou do sistema rimático. Aliás, sobre as rimas vale uma observação: praticamente todas as estrofes adaptadas foram rimadas, porém algumas rimas atendem ao Português falado em Portugal onde algumas sílabas são abertas enquanto que no Brasil são fechadas; ou vice-versa. O autor conta com a indulgência dos leitores para esses fatos.

2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.

3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.

4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer no quesito da perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.

5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.



Dedicado aos Poetas Portugueses

Inês Dupas e Filipe Campos Melo

Canto X


 
80o Aqui vês a engrenagem do Universo e do Mundo,
Etérea, com os Quatro Elementos (1) foi fabricada
Pelo “Saber Divino” mais alto e profundo
Que é sem principio e de existência ilimitada.
Quem abraça este redondo Universo e esse Mundo
E a sua superfície tão bela e polida
É Deus, mas o quê é Deus ninguém entende,
Pois a tanto, o raciocínio humano não compreende.

1-Quatro Elementos: água, ar, fogo e terra.


«Este orbe que, primeiro, vai cercando

Os outros mais pequenos que em si tem,

Que está com luz tão clara radiando

Que a vista cega e a mente vil também,

Empíreo se nomeia, onde logrando

Puras almas estão daquele Bem

Tamanho, que ele só se entende e alcança,

De quem não há no mundo semelhança.


81o Esse primeiro Globo que vai cercando
Os menores, os quais em si próprio contém,
E que está com essa clara luz brilhando,
Que cega à vista e as más intenções também,
Chama-se Empíreo (1), onde vivem desfrutando,
As almas puras, desse supremo Bem.
Pois só este tipo de alma é que entende e alcança
Tal Paraíso, do qual, nada na Terra tem semelhança.

1- Empíreo: a parte mais elevada do céu, habitada pelas almas puras.



«Aqui, só verdadeiros, gloriosos

Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,

Júpiter, Juno, fomos fabulosos,

Fingidos de mortal e cego engano.

Só pera fazer versos deleitosos

Servimos; e, se mais o trato humano

Nos pode dar, é só que o nome nosso

Nestas estrelas pôs o engenho vosso.



82o Ali estão apenas os verdadeiros e gloriosos
Santos Divinos; porque eu, Saturno, Jano,
Júpiter e Juno somos só imaginários e fabulosos,
Criados pelos mortais, num tolo engano.
Só para ilustrar versos primorosos
É que servimos; e se algo mais o ser humano
Pôde nos dar, foi colocar o nome nosso
N’algumas estrelas, conforme o entendimento vosso.

«E também, porque a santa Providência,

Que em Júpiter aqui se representa,

Por espíritos mil que têm prudência

Governa o Mundo todo que sustenta

(Ensina-lo a profética ciência,

Em muitos dos exemplos que apresenta);

Os que são bons, guiando, favorecem,

Os maus, em quanto podem, nos empecem;



83o Essas almas puras auxiliam a Divina Providência,

Que Júpiter, Pai e Senhor dos deuses, representa.

Através de mil almas de muita luz e prudência

Governa todo o Universo, ao qual, Ele sustenta.

(Ensina-nos a profética ciência,

Em muitos dos exemplos que apresenta,

Que os bons tais almas guiam e favorecem,

Mas aos maus, como podem, sempre aborrecem).



«Quer logo aqui a pintura que varia

Agora deleitando, ora ensinando,

Dar-lhe nomes que a antiga Poesia

A seus Deuses já dera, fabulando;

Que os Anjos de celeste companhia

Deuses o sacro verso está chamando,

Nem nega que esse nome preminente

Também aos maus se dá, mas falsamente.



84o Aqui a representação varia,

Ora divertindo, ora ensinando:

Dá-se aos Puros, nomes que a antiga poesia

Aos deuses já dera, quando as lendas iam-se criando;

São eles os anjos da Celeste companhia,

Conforme as Sagradas Escrituras vão lhes chamando;

Contudo, não se nega que esse nome proeminente,

Também se dá aos Maus, mas erroneamente.



«Enfim que o Sumo Deus, que por segundas

Causas obra no Mundo, tudo manda.

E tornando a contar-te das profundas

Obras da Mão Divina veneranda,

Debaxo deste círculo onde as mundas

Almas divinas gozam, que não anda,

Outro corre, tão leve e tão ligeiro

Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.



85o Enfim, vê-se que o Supremo Deus, através de segundas

Santidades, opera no Universo e em tudo manda.

Mas devo voltar a falar-te das profundas

Obras e mistérios da Mão Divina veneranda:

Saiba que abaixo desse círculo, onde as mundanas

Almas tornadas divinas vivem e que não gira e não anda,

Outro círculo existe, correndo tão sutil e tão ligeiro,

Que não se vê e que é chamado de Móbile Primeiro (1).



1- Móbile Primeiro; círculo celeste que segundo os astrônomos antigos envolvia e dava movimento, do Oriente para o Ocidente, aos outros círculos.



«Com este rapto e grande movimento

Vão todos os que dentro tem no seio;

Por obra deste, o Sol, andando a tento,

O dia e noite faz, com curso alheio.

Debaxo deste leve, anda outro lento,

Tão lento e sojugado a duro freio,

Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,

Duzentos cursos faz, dá ele um passo.



86o Com este rápido e grande movimento,

O Móbile arrasta os Mundos, em seu seio;

Por causa desse movimento, o Sol atento

Traz dia e noite, conforme cada Globo desse meio.

Abaixo deste, gira outro círculo que é muito lento,

Tão vagaroso e submetido a um tão duro freio,

Que enquanto o Sol, que de luz nunca é escasso,

Faz duzentos giros, ele move apenas um passo.

«Olha estoutro debaxo, que esmaltado

De corpos lisos anda e radiantes,

Que também nele tem curso ordenado

E nos seus axes correm cintilantes.

Bem vês como se veste e faz ornado

Co largo Cinto d, ouro, que estelantes

Animais doze traz afigurados,

Apousentos de Febo limitados.



87o Olha esse outro mais abaixo, de giro enfeitado

Pelos seus Globos lisos e radiantes,

Os quais seguem o rumo por ele determinado

E nos seus eixos correm cintilantes.

Veja bem como ele se veste e se faz ornamentado

Com o largo cinto de ouro, no qual, estrelantes

Signos, em número de doze, são afigurados

E aos aposentos de Febo estão limitados.





«Olha por outras partes a pintura

Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:

Olha a Carreta, atenta a Cinosura,

Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;

Vê de Cassiopeia a fermosura

E do Orionte o gesto turbulento;

Olha o Cisne morrendo que suspira,

A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.



88o Olhe nessas outras partes, a figura

Que as brilhantes estrelas vão fazendo;

Olhe a Carreta (1); observe a Cinosura (2),

Em Andrômeda (3) e o pai; no Dragão (4) horrendo.

Repare na Cassiopéia (5), de tanta formosura;

E no Orionte (6) note o semblante turbulento;

Olha o Cisne (7), que morrendo suspira,

A Lebre (8), os Cães (9), a Nau (10) e a suave Lira (11).



1- Carreta: a constelação da Ursa Maior.

2- Cinosura: a constelação da Ursa Menor.

3- Andrômeda: filha de Cefeu, rei da Etiópia, e de Cassiopéia. Perseu salvou-a quando ia ser sacrificada em conseqüência do orgulho de sua mãe, que desafiara as nereidas, num concurso de beleza. Constelação no hemisfério boreal.

4- Drago: constelação do hemisfério boreal composta por oitenta estrelas.

5- Cassiopéia: constelação perto do Pólo Norte, que se acha sempre em oposição à Grande Ursa.

6- Orionte: constelação do hemisfério sul. Também conhecida por Órion.

7- Cisne: constelação no hemisfério norte.

8- Lebre: pequena constelação, vizinha da Ursa Maior.

9- Cães: constelações dos hemisférios norte e sul: “Cão Maior e Cão Menor”.

10- A nau: constelação do Hemisfério Norte.

11- Lira: constelação do hemisfério norte, entre Hércules e o Cisne.



«Debaxo deste grande Firmamento,

Vês o céu de Saturno, Deus antigo;

Júpiter logo faz o movimento,

E Marte abaxo, bélico inimigo;

O claro Olho do céu, no quarto assento,

E Vénus, que os amores traz consigo;

Mercúrio, de eloquência soberana;

Com três rostos, debaxo vai Diana.



89o Abaixo deste grande Firmamento,

Veja o céu de Saturno (1), deus do povo antigo;

Depois está Júpiter (2), que faz o seu movimento,

Mais abaixo está Marte (3), guerreiro inimigo;

O límpido “olho do céu”, no quarto assento,

É Vênus (4), que os amores traz consigo;

Depois está Mercúrio (5), de grandeza soberana,

E abaixo, com três faces diferentes, está Diana (6).



1) Saturno: filho do Céu e da Terra. Pai de Júpiter, de Netuno, de Plutão e de Juno. O sexto planeta em relação ao sol.

2) Júpiter: pai e senhor dos deuses. O maior planeta do sistema solar.

3) Marte: o deus da guerra. O quarto planeta no sistema solar e o mais parecido com a Terra.

4) Vênus: a deusa do amor e da beleza. O mais brilhante dos planetas, cuja órbita situa-se entre a de Mercúrio e a da Terra.

5) Mercúrio: deus do comércio e mensageiro dos deuses. O planeta mais próximo do Sol.

6) Diana: a deusa da caça. Nesta estrofe representa a Lua, pois dispunha de três personalidades: na terra era Diana, no inferno era Hecate e no céu era Febe, a Lua.



«Em todos estes orbes, diferente

Curso verás, nuns grave e noutros leve;

Ora fogem do Centro longamente,

Ora da Terra estão caminho breve,

Bem como quis o Padre omnipotente,

Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,

Os quais verás que jazem mais a dentro

E tem co Mar a Terra por seu centro.



90o Em todos esses planetas, diferentes

Rumos verás: aqui mais intenso, ali mais leve;

Ora fogem do centro (1) longamente,

Ora ficam da Terra, por um espaço breve,

Pois assim quis o Pai onipotente,

Que criou o fogo, o ar, o vento e a neve.

Tu verás que eles ficam mais para dentro

E tem o mar e a Terra como o seu centro.



1-Como se sabe, na época de Camões julgava-se que a Terra fosse o centro do universo.



«Neste centro, pousada dos humanos,

Que não somente, ousados, se contentam

De sofrerem da terra firme os danos,

Mas inda o mar instábil exprimentam,

Verás as várias partes, que os insanos

Mares dividem, onde se apousentam

Várias nações que mandam vários Reis,

Vários costumes seus e várias leis.



91o Neste centro, que é a morada dos humanos,

Homens ousados não se contentam

De sofrer apenas com os terríveis danos

Da terra e a fúria do mar instável enfrentam.

Tu verás as diversas regiões que os Oceanos

Dividem; e onde ficam e se assentam,

Variadas nações, governadas por vários Reis,

De variados costumes, religiões e outras leis.



«Vês Europa Cristã, mais alta e clara

Que as outras em polícia e fortaleza.

Vês África, dos bens do mundo avara,

Inculta e toda cheia de bruteza;

Co Cabo que até’aqui se vos negara,

Que assentou pera o Austro a Natureza.

Olha essa terra toda, que se habita

Dessa gente sem Lei, quási infinita.





92o Veja a Europa cristã, mais elevada e clara

Que as outras, tanto em cultura quanto em fortaleza.

Veja a África, a qual dos “bens do mundo” é ávara,

Por isso é selvagem, inculta e cheia de rudeza;

Veja o Cabo (1) que ao vosso conhecimento se negara,

E que no extremo sul foi assentado pela natureza.

Olha também esta terra toda, na qual habita

Esta gente sem religião e que é quase infinita.



1-Cabo: o “Cabo da Boa Esperança”, antes “Cabo das Tormentas”.



«Vê do Benomotapa o grande império,

De selvática gente, negra e nua,

Onde Gonçalo morte e vitupério

Padecerá, pola Fé santa sua.

Nace por este incógnito Hemispério

O metal por que mais a gente sua. .

Vê que do lago donde se derrama

O Nilo, também vindo está Cuama.



93o Veja o Benomotapa (1) que é um grande império,

Habitado por gente selvagem, negra e nua;

É onde o padre Gonçalo (2) a morte e o vitupério

Padecerá por ter uma Religião, igual a tua.

Nasce neste desconhecido hemisfério,

O rico metal pelo qual mais se trabalha e mais se sua (3)

Veja ainda, que do lago donde se derrama

O rio Nilo (4) também mina o rio Cuama (5).



1- Benomotapa: império africano que abrangia a região onde atualmente se situa Manica e Sofala.

2- Gonçalo: Gonçalo da Silveira, missionário jesuíta que foi martirizado no império Monomotapa, em Moçambique, na África.

3- Nilo: o rio Nilo, do Egito.

4- Cuama: o atual rio Zambeze, na África.



«Olha as casas dos negros, como estão

Sem portas, confiados, em seus ninhos,

Na justiça real e defensão

E na fidelidade dos vizinhos;

Olha deles a bruta multidão,

Qual bando espesso e negro de estorninhos,

Combaterá em Sofala a fortaleza, Que

defenderá Nhaia com destreza.



94o Repare como as casas dos negros estão

Sem as portas, pois confiam em seus ninhos,

Na justiça de seu País, na real proteção

E na fidelidade dos seus vizinhos;

Olha a imensa e brutal multidão

Qual bando de negros estorninhos (1),

Que atacará em Sofala a grande fortaleza,

Que por Nhaya (2) será defendida com destreza.



1- Estorninhos: passarinhos de cor negra, naturais da África.

2- Nhaya: Pero de Nhaia, castelhano a serviço do rei de Portugal que construiu uma fortaleza em Sofala e repeliu poderosos ataques das forças africanas.



«Olha lá as alagoas donde o Nilo

Nace, que não souberam os antigos;

Vê-lo rega, gerando o crocodilo,

Os povos Abassis, de Crista amigos;

Olha como sem muros (novo estilo)

Se defendem milhor dos inimigos;

Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,

Que ora dos naturais Nobá se chama.



95o Olhe as lagoas onde nasce o rio Nilo,

Que eram desconhecidas dos antigos;

Veja que ele rega, gerando o crocodilo (1),

Os povos abassis (2), que de Cristo são amigos;

Repare que sem muralhas (num novo estilo),

Eles se defendem melhor dos seus inimigos.

Veja Méroe (3), que já foi uma ilha de muita fama,

E que agora de Nobá se chama.



1-Crocodilo: a inclusão desse animal no verso parece atender mais uma necessidade de rima, do que uma alusão à fertilidade do Nilo, sugerida pelo fato de que gera e sustenta tanto a vida natural, quanto a humana.

2- Abassis: abexins, abissínios. Naturais da abássia ou Abissínia. Camões quase sempre a chama por Etiópia.

3- Méroe: região da África oriental, banhada pelo rio Nilo e que antigamente era conhecida como se fosse uma ilha.



«Nesta remota terra um filho teu

Nas armas contra os Turcos será claro;

Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;

Mas contra o fim fatal não há reparo.

Vê cá a costa do mar, onde te deu

Melinde hospício gasalhoso e caro;

O Rapto rio nota, que o romance

Da terra chama Obi; entra em Quilmance.



96o Nessa terra distante um filho teu,

Contra os Turcos, terá um renome raro;

Dom Cristóvão (1) será o nome seu;

Mas contra o fim fatal não há reparo.

Veja aqui a costa de mar, onde te deu,

O reino de Melinde (2) abrigo nada ávaro.

Note que o rio Rapto (3), que o romance (4)

Da terra chama de Obi (5), entra por Quilmance (6).



1- Cristovão da Gama, filho de Vasco da Gama. Foi aprisionado e degolado pelo xeque de Zeila.

2- Melinde: cidade e reino na costa oriental da África.

3- Rio Rapto: rio da África oriental.

4- Romance: neste contexto, o mesmo que dialeto, ou linguajem vulgar, popular.

5- Obi: rio da África oriental.

6- Quilmance: vila situada no curso inferior do rio Obi, perto de Melinde.



«O Cabo vê já Arómata chamado,

E agora Guardafú, dos moradores,

Onde começa a boca do afamado

Mar Roxo, que do fundo toma as cores;

Este como limite está lançado

Que divide Asia de Africa; e as milhores

Povoações que a parte Africa tem

Maçuá são, Arquico e Suaquém.



97o Veja o Cabo que de Arômata (1) já foi chamado;

Agora, de Guardafuié é intitulado pelos moradores.

Ali tem inicio a boca do afamado

Mar Vermelho, que do seu leito toma as cores.

Este mar é usado como fronteira, pois está situado

Entre a Ásia e a África; Também veja as melhores

Povoações que o Continente Africano tem:

Maçuá (2), Arquico (3) e Suaquém (4).



1- Cabo Arômata: ou Cabo Guardafui, situado na Somália, África Ocidental. Era assim chamado porque dele partiam os perfumes que abasteciam a Europa.

2- Maçuá: cidade do litoral do Mar Vermelho.

3- Arquico: porto da África Ocidental.

4- Suaquém: porto do Mar Vermelho, na costa da Núbia.



«Vês o extremo Suez, que antigamente

Dizem que foi dos Héroas a cidade

(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente

Tem das frotas do Egipto a potestade.

Olha as águas nas quais abriu patente

Estrada o grão Mousés na antiga idade.

Ásia começa aqui, que se apresenta

Em terras grande, em reinos opulenta.



98o Veja o Extremo de Suez (1), que antigamente,

Segundo dizem, foi dos Héroas (2) a cidade,

(Outros que foi de Arsínoe [3]) e que no presente

A frota do Egito a tem como sua propriedade.

Olhe as águas revoltas onde o potente

Moisés (4) abriu uma estrada na Antiguidade.

A Ásia começa aqui e se apresenta

Grande em terras; e, em Reinos, opulenta.



1- Extremo de Suez: porto no Mar Vermelho. A antiga Arsínoe.

2- Héroas: Heroópolis (Heroon Oppidum) cidade situada a noroeste de Suez.

3- Arsínoe: cidade junto a Suez, fundada por Ptolomeu Filadelfo.

4- Moisés: referência ao célebre episódio bíblico.



«Olha o monte Sinai, que se ennobrece

Co sepulcro de Santa Caterina;

Olha Toro e Gidá, que lhe falece

Água das fontes, doce e cristalina;

Olha as portas do Estreito, que fenece

No reino da seca Ádem, que confina

Com a serra d’Arzira, pedra viva,

Onde chuva dos céus se não deriva.



99o Olha o Monte Sinai (1) que mais se enobrece

Por abrigar o túmulo de Santa Catarina (2);

Olha Toro (3) e Gidá (4) que carece

Das águas das fontes, doce e cristalina;

Olha a entrada do Estreito (5) que fenece

No reino ressecado de Aden (6) que termina

Na serra de Arzira (7), uma pedra viva,

Pois a chuva, do Céu não deriva.



1- Monte Sinai: onde Moises recebeu as tábuas sagradas, situado na península do Sinai.

2- Santa Catarina: padroeira de Goa, na Índia. Foi mãe do imperador Constantino que colocou o Cristianismo como Religião oficial do Império romano. Catarina era devota extremada e fez várias excursões ao Oriente em busca de relíquias religiosas. Pediu para ser sepultada no Monte Sinai, o que de fato aconteceu, daí a alusão de Camões.

3- Toro: porto na costa ocidental da península do Sinai.

4- Gidá: o outro nome de Judá, cidade e porto no Mar Vermelho.

5- Estreito: o Estreito de Djibouti.

6- Aden: cidade no sul da Arábia Saudita.

7- Arzira: serra da Arábia.



«Olha as Arábias três, que tanta terra

Tomam, todas da gente vaga e baça,

Donde vêm os cavalos pera a guerra,

Ligeiros e feroces, de alta raça;

Olha a costa que corrre, até que cera

Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça

O Cabo que co nome se apelida

Da cidade Fartaque, ali sabida.



100o Olha as três Arábias (1), que tanta terra

Ocupam com sua gente ociosa e baça (2),

Dali provém os cavalos para a guerra,

Ligeiros e ferozes, de alta raça;

Olha a Costa que percorre, até que se encerra

Num outro Estreito, o da Pérsia (3), que roça

Com o Cabo que se chama ou apelida

De Fartaque (4), graças à cidade ali estabelecida.



1- Arábias: as três Arábias situavam-se na parte oeste da Ásia Meridional. Camões refere-se a “Arábia Três” que são as seguintes regiões: Pétrea, Feliz e Deserta.

2- Baça: opaca, sem brilho.

3- Estreito da Pérsia: o atual Estreito de Ormuz.

4- Fartaque: Cabo e cidade no sul da Arábia.



«Olha Dófar, insigne porque manda

O mais cheiroso incenso pera as aras;

Mas atenta: já cá destoutra banda

De Roçalgate, e praias sempre avaras,

Começa o reino Ormuz, que todo se anda

Pelas ribeiras que inda serão claras

Quando as galés do Turco e fera armada

Virem de Castelbranco nua a espada.



101o Olha Dófar (1), célebre porque manda

Os mais perfumados incensos para as aras (2);

Mas, repare: aqui nessa outra banda,

Onde fica o Cabo Roçalgante (3), de praias raras,

Começa o reino de Ormuz (4), no qual, se anda

Pelas margens que ainda serão claras

Quando as Galés do Turco (5) e sua feroz Armada

Sentirem do Ibérico, a brava espada.



1- Dófar: cidade na costa sul da Arábia.

2- Aras: altares sagrados.

3- Cabo Roçalgante: o Cabo da Arábia, na entrada do Golfo de Omã.

4- Ormuz: ilha e cidade na entrada do Golfo Pérsico.

5- Turco: neste contexto, o mesmo que Mouro.



«Olha o Cabo Asaboro, que chamado

Agora é Moçandão, dos navegantes;

Por aqui entra o lago que é fechado

De Arábia e Pérsias terras abundantes.

Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado

Tem das suas perlas ricas, e imitantes

A cor da Aurora; e vê na água salgada

Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.



102o Olhe o Cabo Asaboro (1), agora chamado

De Moçandão, pelos bravos navegantes.

Por ali começa o lago (2) que é cercado

Pela Pérsia (3) e Arábia (3), de terras abundantes.

Observe a ilha de Barém (4), cujo fundo do Mar é ornado

Com ricas pérolas, que são imitantes

Da cor da Aurora; e veja que na água salgada

Os rios Tigre e Eufrates (5) têm uma entrada.



1) Asaboro: Cabo na entrada do Golfo Pérsico. Aqui Camões o identifica como o Cabo Moçandão.

2) Na verdade, Camões refere-se ao Golfo Pérsico, e não lago.

3) As atuais Arábia Saudita e o Irã.

4) Barém: arquipélago no Golfo Pérsico, famoso pela produção de pérolas.

5) Rio Tigre: grande rio na Ásia que nasce no Tauro Armênio e deságua no Golfo Pérsico, junto com o rio Eufrates.



«Olha da grande Pérsia o império nobre,

Sempre posto no campo e nos cavalos,

Que se injuria de usar fundido cobre

E de não ter das armas sempre os calos.

Mas vê a ilha Gerum, como descobre

O que fazem do tempo os intervalos,

Que da cidade Armuza, que ali esteve,

Ela o nome despois e a glória teve.



103o Veja a Pérsia (1), Império grande e nobre,

Sempre a postos nos campos e nos cavalos,

Embore a difamem por não usar o fundido cobre

E por não ter, do manejo constante da armas, os calos.

Mas veja também a ilha de Gerum (2) que descobre

As medidas do tempo e os seus intervalos;

E que, da cidade de Armuza (3), que ali esteve,

A glória e o renome ela reteve.



1) Pérsia: o atual Irã.

2) Gerum: a ilha onde fica situada Ormuz. Nela se concentrava um núcleo de estudo sobre o Tempo, suas divisões, variáveis etc.

3) Armusa: o mesmo que Ormuz.



«Aqui de Dom Filipe de Meneses

Se mostrará a virtude, em armas clara,

Quando, com muito poucos Portugueses,

Os muitos Párseos vencerá de Lara.

Virão provar os golpes e reveses

De Dom Pedro de Sousa, que provara

Já seu braço em Ampaza, que deixada

Terá por terra, à força só de espada.



104o Ali, o emérito Dom Felipe de Menezes (1)

Mostrará sua virtude na guerra de forma clara,

Quando com pouquíssimos portugueses,

Vencer aos muitos soldados persas de Lara (2).

Os quais também sofrerão os golpes e os reveses

De Dom Pedro de Souza (3), que já provara

A força do braço em Ampaza (4), deixada

Destruída apenas pela força de sua espada.



1- Dom Felipe de Menezes: comandante português de Ormuz, que venceu os persas de Lara.

2- Lara: cidade persa situada no Laristão.

3- Dom Pedro de Souza: comandante de Ormuz, antes de Dom Felipe de Menezes.

4- Ampaza: cidade da Pérsia ou da Índia. A sua localizaçã exata é discutida.

«Mas deixemos o Estreito e o conhecido

Cabo de Jasque, dito já Carpela,

Com todo o seu terreno mal querido

Da Natura e dos dões usados dela;

Carmânia teve já por apelido.

Mas vês o fermoso Indo, que daquela

Altura nace, junto à qual, também

Doutra altura correndo o Gange vem?



105o Mas deixemos o Estreito e o conhecido

Cabo de Jasque (1), que já foi chamado de Carpela,

Com o seu território mal abastecido

Pela natureza, que nele sonegou sua dádiva bela.

De Carmânia (2) já foi chamada, seu ex-apelido.

E ali, tu vês o formoso rio Indo (3), que naquela

Altura nasce? Junto dele corre o Ganges, porém

De qual nascente, o rio Sagrado vem?



1- Cabo Jasque: Cabo na entrada do Golfo de Ormuz, cujo nome em latim era Carpela.

2- Carmânia: região da Pérsia. Atual Quirman.

3- Rio Indo: rio indiano.

4- Ganges: o rio sagrado da Índia. Segundo a lenda nascia no Paraíso, donde a pergunta de Camões: onde estará sua nascente?



«OIha a terra de Ulcinde, fertilíssima,

E de Jáquete a íntima enseada;

Do mar a enchente súbita, grandíssima,

E a vazante, que foge apressurada.

A terra de Cambaia vê, riquíssima,

Onde do mar o seio faz entrada;

Cidades outras mil, que vou passando,

A vós outros aqui se estão guardando.



106o Olha a terra de Ulcinde (1), que é fertilíssima;

E veja em Jáquete (2) a encravada enseada;

Repare que a súbita enchente do Mar é violentíssima

E veja a vazante, que corre apressada.

Observe a terra de Cambaia (3), que é riquíssima

E onde o seio do mar faz uma entrada.

E outras mil cidades que vou repassando

A vós outros, que nesta área vão se infiltrando.



1) Ulcinde: a fértil região no delta do rio Indo.

2) Jáquete: golfo da Índia. Atual Katch.

3) Cambaia: reino e cidade da Índia.



«Vês corre a costa célebre Indiana

Pera o Sul, até o Cabo Comori,

Já chamado Cori, que Taprobana

(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.

Por este mar a gente Lusitana,

Que com armas virá despois de ti,

Terá vitórias, terras e cidades,

Nas quais hão-de viver muitas idades.



107o Veja ali a célebre Costa indiana

Que no rumo sul vai até ao Cabo Comorim (1),

Que já foi chamado de Cori e que a Taprobana (2)

(Que agora se chama Ceilão) tem diante de si.

Por este Mar a potente gente lusitana

Com poderosas armas virá, depois de ti,

E conquistará vitórias, terras e cidades,

Nas quais viverão até as avançadas idades.



1- Cabo Comorim: situado no sul da Índia, chamado de “Cori” pela geografia ptolemaica.

2- Taprobana: ilha ao sul da Índia que já foi chamada de Ceilão. O atual Sri Lanka.



«As províncias que entre um e o outro rio

Vês, com várias nações, são infinitas:

Um reino Mahometa, outro Gentio,

A quem tem o Demónio leis escritas.

Olha que de Narsinga o senhorio

Tem as relíquias santas e benditas

Do corpo de Tomé, barão sagrado,

Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.



108o Vê as províncias que há entre um e outro rio,

Com várias nações são quase infinitas:

Um é o reino Mahometa (1) e o outro o Gentio (2),

A quem o demônio deixou leis escritas.

Observe que o reino de Narsinga (3) tem o poderio

Das relíquias santas e benditas

Do corpo de Tomé (4), apóstolo sagrado,

Por ter Jesus Cristo ao seu lado.



1- Mahometa; seguidores de Maomé, muçulmanos.

2- Gentio: os nativos pagãos, cujos deuses eram os animais e outros “falsos” ídolos.

3- Narsinga: antigo reino do Decão, na Índia.

4- Tomé: o apostolo São Tomé famoso por seu ceticismo.



«Aqui a cidade foi que se chamava

Meliapor, fermosa, grande e rica;

Os Ídolos antigos adorava

Como inda agora faz a gente inica.

Longe do mar naquele tempo estava,

Quando a Fé, que no mundo se pubrica,

Tomé vinha prègando, e já passara

Províncias mil do mundo, que ensinara.



109o Ali existiu a cidade que se chamava

Meliapor (1), formosa, grande e rica;

E que aos antigos ídolos adorava,

Como, ainda agora, faz a gente iníqua.

Naquela época, longe do mar ela estava,

E a fé cristã, que no mundo se publica,

São Tomé vinha pregando; ele, que já passara

Por mil lugares do Mundo, que já catequizara.



1- Meliapor: cidade da península hindustânica, na atual região de Madrasta.



«Chegado aqui, pregando e junto dando

A doentes saúde, a mortos vida,

Acaso traz um dia o mar, vagando,

Um lenho de grandeza desmedida.

Deseja o Rei, que andava edificando,

Fazer dele madeira; e não duvida

Poder tirá-lo a terra, com possantes

Forças d’ homens, de engenhos, de alifantes.



110o Ali chegando, ficou pregando e dando

Saúde aos doentes e aos mortos nova vida;

Até que num certo dia, no mar vagando,

Chegou uma madeira de grandeza desmedida.

O rei da cidade a deseja, pois estava edificando,

E na obra a utilizaria; e não duvida

Que poderá levá-la para a terra, com as possantes

Forças dos homens, das roldanas e dos elefantes.





«Era tão grande o peso do madeiro

Que, só pera abalar-se, nada abasta;

Mas o núncio de Cristo verdadeiro

Menos trabalho em tal negócio gasta:

Ata o cordão que traz, por derradeiro,

No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta

Pera onde faça um sumptuoso templo

Que ficasse aos futuros por exemplo.



111o Porém, era tão pesado aquele madeiro

Que só para abalá-lo, não há o que basta;

Mas o embaixador do Cristo Verdadeiro,

Para movê-lo, nenhum esforço gasta.

Amarra o cordão que traz, por derradeiro,

No tronco e facilmente o arrasta

Para onde faria um suntuoso templo

Que ficasse para os futuros, como exemplo.



«Sabia bem que se com fé formada

Mandar a um monte surdo que se mova,

Que obedecerá logo à voz sagrada,

Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.

A gente ficou disto alvoraçada;

Os Brâmenes o têm por cousa nova;

Vendo os milagres, vendo a santidade,

Hão medo de perder autoridade.



112o Pois ele sabia, que com fé formada,

Se mandasse a um Monte que se mova,

Ele logo obedecerá à voz sagrada,

Como Cristo ensinou e como agora, comprova.

A população, ao saber do fato, ficou alvoroçada;

Os Brâmenes (1) já o viam como ameaça nova;

E vendo aquele milagre e aquela santidade,

Sentem medo de perder a sua autoridade.



1- Brâmenes: ou Brâmanes, sacerdotes que oficiavam os sacrifícios dos Vedas. Membros da mais alta classe ou casta dos hindus.



«São estes sacerdotes dos Gentios

Em quem mais penetrado tinha enveja;

Buscam maneiras mil, buscam desvios,

Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.

O principal, que ao peito traz os fios,

Um caso horrendo faz, que o mundo veja

Que inimiga não há, tão dura e fera,

Como a virtude falsa, da sincera.



113o São nesses sacerdotes dos Gentios

Que mais tinha penetrado a inveja:

Buscam, então, mil maneiras e desvios,

De desacreditar Tomé, ou para que morto seja.

O principal, dentre eles, que manipula os fios,

Faz uma trama horrível, para que todo mundo veja

Que não há uma inimiga tão dura e feroz

Da verdadeira Virtude como a falsidade atroz.



«Um filho próprio mata, e logo acusa

De homicídio Tomé, que era inocente;

Dá falsas testemunhas, como se usa;

Condenaram-no a morte brevemente.

O Santo, que não vê milhor escusa

Que apelar pera o Padre omnipotente,

Quer, diante do Rei e dos senhores,

Que se faça um milagre dos maiores.



114o Ele mata o próprio filho e logo acusa

O Santo Apóstolo, que era inocente;

Dando falsas testemunhas, como se usa:

Condenaram Tomé à morte, rapidamente.

O Santo, que não vê melhor escusa

Que apelar ao Pai Onipotente,

Pede-lhe que diante do Rei e doutros senhores,

Aconteça um dos milagres comovedores.



«O corpo morto manda ser trazido,

Que res[s]ucite e seja perguntado

Quem foi seu matador, e será crido

Por testemunho, o seu, mais aprovado.

Viram todos o moço vivo, erguido,

Em nome de Jesu crucificado:

Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,

E descobre seu pai ser homicida.



115o E roga a Deus que seja ressuscitado

O jovem e que lhe seja perguntado

Quem foi o assassino; pois será acreditado

Esse seu testemunho, que é o mais provado.

E todos, então viram o rapaz ser acordado

Pela graça do Santíssimo Jesus Crucificado.

Agradece a Tomé, que o trouxe novamente à vida,

E conta que o seu pai era o verdadeiro homicida.





«Este milagre fez tamanho espanto

Que o Rei se banha logo na água santa,

E muitos após ele; um beija o manto,

Outro louvor do Deus de Tomé canta.

Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,

Com seu veneno os morde enveja tanta,

Que, persuadindo a isso o povo rudo,

Determinam matá-lo, em fim de tudo.



116o Este milagre causou tamanho espanto

Que o Rei logo foi banhar-se na água santa

E vários foram, depois dele; um beija o manto,

Outro, ao Deus de São Tomé, louvor canta.

Mas os Brâmenes se encheram de tanto

Ódio venenoso e de inveja tanta,

Que persuadindo o povo rude ao mal,

Decidem matar Tomé no final.



«Um dia que pregando ao povo estava,

Fingiram entre a gente um arruído.

(Já Cristo neste tempo lhe ordenava

Que, padecendo, fosse ao Céu subido);

A multidão das pedras que voava

No Santo dá, já a tudo oferecido;

Um dos maus, por fartar-se mais depressa,

Com crua lança o peito lhe atravessa.



117o Num dia, em que pregando ao povo estava,

Simularam na multidão um tumulto de grande alarido.

E também porque nessa época, Cristo já ordenava

Que se Tomé padecesse, fosse ao Céu erguido,

Foi que entre as pedras que voavam,

Tomé é atingido e resignado à morte vai oferecido.

Um, para saciar a sua ira mais depressa,

Com a dura lança, o coração lhe atravessa.



«Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;

Chorou-te toda a terra que pisaste;

Mais te choram as almas que vestindo

Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.

Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,

Te recebem na glória que ganhaste.

Pedimos-te que a Deus ajuda peças

Com que os teus Lusitanos favoreças.



118o Choraram-te Tomé, os rios Ganges e Indo;

Assim como em toda a terra que pisaste;

E mais ainda, as almas que já iam vestindo

O manto da Santa Fé, que ensinaste.

Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,

Recebem-te na glória que ganhaste.

Agora te rogamos que a ajuda de Deus

Peças, em beneficio dos lusos teus.



«E vós outros que os nomes usurpais

De mandados de Deus, como Tomé,

Dizei: se sois mandados, como estais

Sem irdes a pregar a santa Fé?

Olhai que, se sois Sal e vos danais

Na pátria, onde profeta ninguém é,

Com que se salgarão em nossos dias

(Infiéis deixo) tantas heresias?



119o E vós que o nome usurpam

De embaixadores Divinos, igual foi Tomé,

Digam: se são embaixadores, por que ficam

Aí parados, sem irem pregar a Santa Fé?

Se forem o “Sal da Terra” e vos danam

Na própria Pátria, onde profeta ninguém é,

Como é que purificarão, em nossos dias,

(Aos infiéis deixo) tantas heresias?



«Mas passo esta matéria perigosa

E tornemos à costa debuxada.

Já com esta cidade tão famosa

Se faz curva a Gangética enseada;

Corre Narsinga, rica e poderosa;

Corre Orixa, de roupas abastada;

No fundo da enseada, o ilustre rio

Ganges vem ao salgado senhorio;



120o Mas deixo esta conversa perigosa

E retornemos à Costa, ali pintada;

Veja esta cidade tão famosa,

Onde se torna curva a Gangética (1) enseada.

Ali, percorre a Narsinga (2), rica e poderosa;

Acolá, percorre Orixá (3), que de tecidos é abastada;

No fundo da enseada, o ilustre rio

Ganges entrega-se ao salgado poderio.



1- Referência a enseada onde o rio Ganges deságua.

2- Narsinga: antigo reino do Decão, na Índia.

3- Orixá: reino da Índia, no litoral de Bengala.



«Ganges, no qual os seus habitadores

Morrem banhados, tendo por certeza

Que, inda que sejam grandes pecadores,

Esta água santa os lava e dá pureza.

Vê Catigão, cidade das milhores

De Bengala província, que se preza

De abundante. Mas olha que está posta

Pera o Austro, daqui virada, a costa.



121o Ganges (1), no qual, os seus moradores

Banham-se para morrer, com a certeza

De que mesmo que sejam grandes pecadores,

Essa água santa os lava e lhes dá pureza.

Agora veja Catigão (2), uma das melhores

Cidades de Bengala, província que se preza

Por ser próspera. Observe que ela está posta

Virada para o sul, dali, girando a Costa.



1- Rio Ganges: do qual a lenda diz que nasce no Paraíso e que suas águas purificam os pecados. A cidade de Varanasi, em suas margens é um ponto tradicional de peregrinos à beira da morte que ali querem se purificar.

2- Catigão: cidade e porto da província de Bengala. Atual Chitagong.





«Olha o reino Arracão; olha o assento

De Pegu, que já monstros povoaram,

Monstros filhos do feio ajuntamento

Düa mulher e um cão, que sós se acharam.

Aqui soante arame no instrumento

Da geração costumam, o que usaram

Por manha da Rainha que, inventando

Tal uso, deitou fora o error nefando.



122o Olha o reino Arracão (1), veja o assento

E o de Pegu (2), onde os monstros já povoaram,

Os quais eram gerados pelo sujo acasalamento

Duma mulher e um cão, que a sós se encontraram.

Ali usam um pequeno sino, sonoro instrumento,

Nos órgãos genitais, ao que se acostumaram,

Desde que a rainha esse hábito foi impondo,

E com ele exterminando aquele vício nefando.



1- Arracão: antigo reino, junto a Bengala.

2- Pegu: reino indiano, na costa do golfo de Bengala.



«Olha Tavai cidade, onde começa

De Sião largo o império tão comprido;

Tenassari, Quedá, que é só cabeça

Das que pimenta ali têm produzido.

Mais avante fareis que se conheça

Malaca por empório ennobrecido,

Onde toda a província do mar grande

Suas mercadorias ricas mande.



123o Observe a cidade de Tavai (1), onde começa

O vasto reino do Sião (2), tão comprido;

Tenassari (3) e Quedá (4) que é a cabeça

Das pimentas que ali se tem colhido.

Mais adiante é oportuno que se conheça

Malaca (5) e seu grande mercado; conhecido

Por todas as províncias do Mar grande,

Cujas mercadorias ele demande.



1- Tavai: cidade do reino de Pegu, na Birmânia.

2- Sião: reino da Índia. A Tailândia atual.

3- Tenassari: cidade da península de Malaca.

4- Quedá: idem.

5- Malaca: península da Índia e importante entreposto comercial na época da expedição de Vasco da Gama.



«Dizem que desta terra co as possantes

Ondas o mar, entrando, dividiu

A nobre ilha Samatra, que já d’antes

Juntas ambas a gente antiga viu.

Quersoneso foi dita; e das prestantes

Veias d’ouro que a terra produziu,

'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;

Alguns que fosse Ofir imaginaram.



124o Dizem sobre esta terra que as possantes

Ondas do mar foram-lhe entrando e a dividiu

Da nobre ilha de Samatra (1), com a qual, antes

Era unida; segundo o povo antigo que assim as viu.

Já foi chamada de Quersoneso (2); e pelasbrilhantes

Veias de ouro que a terra produziu,

O adjetivo de Áurea lhe juntaram;

Pensaram que fosse a Ofir (3) que imaginaram.



1- Samatra: ilha do arquipélago de Sonda.

2- Quersoneso: a “Áurea Quersoneso” ou “Península de Ouro” seria a península de Malaca.

3- Ofir: região lendária situada no Oriente. Segundo a Bíblia as riquezas de Salomão, em ouro e prata, provinham desta região.



«Mas, na ponta da terra, Cingapura

Verás, onde o caminho às naus se estreita;

Daqui tornando a costa à Cinosura,

Se encurva e pera a Aurora se endireita.

Vês Pam, Patane, reinos, e a longura

De Sião, que estes e outros mais sujeita;

Olha o rio Menão, que se derrama

Do grande lago que Chiamai se chama.



125o Repare no extremo da Terra e veja Cingapura (1),

Onde o caminho dos navios se estreita.

Dali, retornando à Costa, no rumo da Cinosura (2),

Entorta-se e no rumo da Aurora (Oriente) se endireita.

Vês os reinos de Pam (3) e Patane (4) e a grande largura

Do reino de Sião (5), que a esses e a muitos outros sujeita?

Olha o rio Menão (6) que se derrama

Do grande lago que Chiamai (7) se chama.

1- Cingapura: região situada na península de Malaca.

2- Cinosura: a constelação da Ursa Menor.

3- Pam: reino indiano na costa oriental da península de Malaca.

4- Patane: idem.

5- Sião: reino da índia. A atual Tailândia.

6- Rio Menão: rio da Indochina que nasceria num suposto lago chamado de Chiamai e que deságua no golfo de Sião.

7- Chiamai: Há uma cidade na China (atual Chieng Moi) na margem do rio Menão, mas o lago é inexistente.



Vês neste grão terreno os diferentes

Nomes de mil nações, nunca sabidas:

Os Laos, em terra e número potentes;

Avás, Bramás, por serras tão compridas;

Vê nos remotos montes outras gentes,

Que Gueos se chamam, de selvages vidas;

Humana carne comem, mas a sua

Pintam com ferro ardente, usança crua.



126o Veja neste grande território os diferentes

Nomes de mil nações, até então, desconhecidas:

O Laos (1) de terras e população muito potentes;

Avás (2), Bramás (3), com suas terras tão compridas;

Veja naqueles montes distantes as outras gentes

Que se chamam Gueos (4) e vivem selvagens vidas.

Comem a carne humana dos inimigos e à sua

Tatuam com ferro em brasa, de maneira crua.



1- Laos: país vizinho ao Vietnã.

2- Avás: povo do interior da Birmânia.

3- Bramás: um dos povos da Índia.

4- Gueos: povo do Sião, que segundo Camões praticava a antropofagia e a tatuagem. Não há comprovação cientifica dessa prática de canibalismo.



«Vês, passa por Camboja Mecom rio,

Que capitão das águas se interpreta;

Tantas recebe d’ outro só no Estio,

Que alaga os campos largos e inquieta;

Tem as enchentes quais o Nilo frio;

A gente dele crê, como indiscreta,

Que pena e glória têm, despois de morte,

Os brutos animais de toda sorte.



127o Veja que pelo Camboja (1) passa o Mecom (2) rio,

Um comandante das águas, papel que bem interpreta,

Pois recebe tantos afluentes, só no Estio (3),

Que transborda e aos campos alaga e inquieta

(Como as enchentes iguais do rio Nilo frio).

Os ribeirinhos acreditam em magias secretas,

E que castigo ou prêmio, depois da morte,

Até os ferozes animais recebem, de toda sorte.



1- Camboja: o reino da Indochina.

2- Rio Mecom: grande rio da Ásia que nasce no Tibet, banha o Camboja e deságua no Mar da China.

3- Estio: Verão.



«Este receberá, plácido e brando,

No seu regaço os Cantos que molhados

Vêm do naufrágio triste e miserando,

Dos procelosos baxos escapados,

Das fomes, dos perigos grandes, quando

Será o injusto mando executado

Naquele cuja Lira sonorosa

Será mais afamada que ditosa.



128o Quase o Mecom receberia, plácido e brando,

No seu regaço este Poema, que todo molhado,

Vem de um naufrágio triste e miserando,

De furiosas tempestades marítimas, refugiado,

Assim como da fome e de grandes perigos, quando

O injusto castigo for executado,

Naquele (1) cuja poesia sonorosa,

Será mais afamada do que generosa.



1- Aqui, Camões refere-se a si próprio, quando sofreu um naufrágio. Enquanto ele trabalhava na China como “Provedor dos mortos e ausentes” foi acusado de algumas irregularidades e estava sendo levado para a Índia para ser julgado quando aconteceu o naufrágio no rio Mecom que quase lhe custou a vida e o manuscrito dos “Lusíadas”. Note-se que profeticamente Camões diz que “Os Lusíadas” lhe trará mais fama que prêmios materiais, o que de fato ocorreu, sendo que o fim de sua vida foi passado em extrema miséria. Segundo contam, vivia das esmolas que seu escravo javanês conseguia.



«Vês, corre a costa que Champá se chama,

Cuja mata é do pau cheiroso ornada;

Vês Cauchichina está, de escura fama,

E de Ainão vê a incógnita enseada;

Aqui o soberbo Império, que se afama

Com terras e riqueza não cuidada,

Da China corre, e ocupa o senhorio

Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.



129o Veja ali a Costa que Champá (1) se chama,

Sua mata, de madeira perfumada é ornada;

Repare na Cauchichina (2), de obscura fama,

E na ilha de Ainão (3) veja a desconhecida Enseada.

Ali o soberbo império, que se afama

Por suas terras e pela riqueza nunca imaginada,

Chama-se China, cujo imenso poderio

Vai do Trópico de Câncer até ao Cinturão frio (4).



1- Champá: antigo reino, situado junto do Camboja e da Conchichina.

2- Cauchichina: a antiga Conchichina.

3- Ainão: ilha e cidade na costa sul da China.

4- O Cinturão frio: o norte do hemisfério.



«Olha o muro e edifício nunca crido,

Que entre um império e o outro se edifica,

Certíssimo sinal, e conhecido,

Da potência real, soberba e rica.

Estes, o Rei que têm, não foi nacido

Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,

Mas elegem aquele que é famoso

Por cavaleiro, sábio e virtuoso.



130o Veja a Grande Muralha e o edifício desconhecido,

Que une o Império, enquanto o solidifica;

É um claro sinal e como tal é reconhecido,

Do grande poderio desta terra, soberba e rica;

Ali, os reis não chegam ao trono por terem nascido

Príncipes e nem o cargo do pai aos filhos fica;

O povo elege aquele que é famoso

Por ser valente, sábio e virtuoso.



«Inda outra muita terra se te esconde

Até que venha o tempo de mostrar-se;

Mas não deixes no mar as Ilhas onde

A Natureza quis mais afamar-se:

Esta, meia escondida, que responde

De longe à China, donde vem buscar-se, ,

É Japão, onde nace a prata fina,

Que ilustrada será co a Lei divina.



131o Ainda existe muita terra que se esconde,

Até que chegue a época certa de mostrar-se.

Mas não deixe de notar no Mar, as ilhas onde

A natureza mais quis afamar-se:

Veja aquela um pouco oculta, que corresponde

Paralelamente com a China, donde veio originar-se

É o Japão, onde nasce a prata fina

E que será iluminada (1) com a Lei Divina.



1- Camões refere-se ao apostolado de São Francisco Xavier neste país.



«Olha cá pelos mares do Oriente

Ás infinitas Ilhas espalhadas:

Vê Tidore e Ternate, co fervente

Cume, que lança as flamas ondeadas.

As árvores verás do cravo ardente,

Co sangue Português inda compradas.

Aqui há as áureas aves, que não decem

Nunca à terra e só mortas aparecem.



132o Observe que pelos mares do Oriente

Inúmeras ilhas estão espalhadas:

Veja Tidore (1) e Ternate (2), com o fervente

Cume que lança as chamas ondeadas.

Verás as árvores do cravo (3) ardente,

Que com o sangue dos lusos, ainda são compradas.

Ali existem as aves douradas, que nunca descem

À terra e só depois de mortas é que aparecem (4).



1-Tidore: ilha do arquipélago das Molucas.

2- Ternate: idem. Ambas vulcânicas.

3- Cravo: especiaria. O cravo da Índia.

4- Alusão às chamadas “Aves do Paraíso”, cuja beleza é de tal ordem que por muito tempo se acreditou que fosse Angelicais. Para contribuir com essa lenda e enganar os Ocidentais, os nativos amputavam as patas dos pássaros para “mostrar” que eles nem poderiam descer à Terra por não terem como andar. Atualmente essa crueldade é menor, mas ainda persiste em certas regiões.



«Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam ,

Da vária cor que pinta o roxo fruto;

Às aves variadas, que ali saltam,

Da verde noz tomando seu tributo.

Olha também Bornéu, onde não faltam

Lágrimas no licor coalhado e enxuto

Das árvores, que cânfora é chamado

Com que da Ilha o nome é celebrado.



133o Olhe as ilhas de Banda (1), que se enfeitam

De cores variadas e do rubro fruto;

Observe a variedade de aves que ali saltam,

Retirando da verde fruta o seu tributo.

Olhe também a ilha de Bornéu (2), onde não faltam

Sofrimentos no líquido coalhado e quase enxuto

Que é retirado das árvores. De Cânfora é chamado

Tornando o nome dessa ilha muito afamado.



1- Banda:arquipélago nas Molucas, famosa pela produção de noz-moscada.

2- Bornéu: ilha do arquipélago de Sunda, sendo a segunda maior ilha do Mundo, atrás apenas da Austrália. Famosa pela produção de Cânfora.



«Ali também Timor, que o lenho manda

Sândalo, salutífero e cheiroso;

Olha a Sunda, tão larga que üa banda

Esconde pera o Sul dificultoso;

A gente do Sertão, que as terras anda,

Um rio diz que tem miraculoso,

Que, por onde ele só, sem outro, vai,

Converte em pedra o pau que nele cai.



134o Ali também fica o Timor (1), que manda

A madeira do sândalo, salutar e cheiroso.

Olha Sunda (2), tão larga que uma das bandas

Esconde-se no sul dificultoso;

O povo selvagem que em suas terras anda,

Diz que existe um rio miraculoso

Que por onde corre, nenhum outro vai

E que transforma em pedra, a madeira que nele cai.



1- Timor: ilha do arquipélago de Sonda.

2- Sunda: parte oriental da ilha de Java. Atualmente se designa como Sonda a todo o arquipélago a que Java pertence.



«Vê naquela que o tempo tornou Ilha,

Que também flamas trémulas vapora,

A fonte que óleo mana, e a maravilha

Do cheiroso licor que o tronco chora,

- Cheiroso, mais que quanto estila a filha

De Ciniras na Arábia, onde ela mora;

E vê que, tendo quanto as outras têm,

Branda seda e fino ouro dá também.



135o Veja a terra, que o tempo transformou em ilha,

Nela, também, a trêmula chama evapora;

Observe a fonte que mina óleo e a maravilha

De líquido cheiroso que do tronco da árvore chora;

É mais perfumado que aquele que destila a filha

De Ciniras (1) na Arábia, onde mora;

E veja que ela possui tudo que as outras têm,

A suave seda e o refinado ouro também.



1- Ciniras: rei de Chipre que cometeu incesto com a sua filha de nome Mirra, a qual foi transformada na árvore que leva o seu nome. Dela se usa a resina para a fabricação de incensos, perfumes, ungüentos e etc. Mirra teria sido um dos presentes dados a Jesus Cristo bebê, por um dos três Reis Magos, como acreditam os cristãos. Aqui, Camões coloca o perfurme da árvore de que faz referencia como superior ao da Mirra.



«Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta

Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;

Os naturais o têm por cousa santa,

Pola pedra onde está a pegada humana.

Nas ilhas de Maldiva nace a pranta

No profundo das águas, soberana,

Cujo pomo contra o veneno urgente

É tido por antídoto excelente.



136o Note que no Ceilão o Monte tanto se levanta

Que ultrapassa as nuvens, ou é a vista que nos engana;

Os nativos o têm como se fosse uma Montanha Santa,

Pois nela, uma pedra foi marcada por pegada humana.

Nas ilhas de Maldiva (1) é que nasce a planta,

Nas profundezas de suas águas, soberana,

Cujo fruto, para os venenos de perigo iminente,

É tido como um antídoto excelente.



1- Maldivas: as ilhas Maldivas constituem um arquipélago situado a sudoeste do Ceilão (atual Sri Lanka), no Oceano Indico.



«Verás defronte estar do Roxo Estreito

Socotorá, co amaro aloé famosa;

Outras ilhas, no mar também sujeito

A vós, na costa de África arenosa,

Onde sai do cheiro mais perfeito

A massa, ao mundo oculta e preciosa.

De São Lourenço vê a Ilha afamada,

Que Madagáscar é dalguns chamada.



137o Ali tu verás, em frente ao Rubro Estreito (1),

A Socotorá (2), com a sua amarga aloé (3) famosa;

E muitas outras ilhas, naquele Mar que já está sujeito

Ao vosso domínio, na costa da África arenosa,

Donde se extrai a base do perfume mais perfeito,

Que ao resto do mundo é oculta e preciosa.

Veja a ilha de São Lourenço (4), tão afamada,

A qual, por alguns, de Madagáscar é chamada.





1- O Roxo Estreito: O Estreito de Babelmândeb, na entrada do Mar Vermelho.

2- Socotorá: ilha situada no Oceano Índico, em frente do Cabo de Guardafui.

3- Aloé: planta medicinal. A babosa.

4- Ilhas de São Lourenço ou ilha de Madagáscar, situadas junto à costa Oriental da África, da qual é separada pelo canal de Moçambique.



«Eis aqui as novas partes do Oriente

Que vós outros agora ao mundo dais,

Abrindo a porta ao vasto mar patente,

Que com tão forte peito navegais.

Mas é também razão que, no Ponente,

Dum Lusitano um feito inda vejais,

Que, de seu Rei mostrando-se agravado,

Caminho há-de fazer nunca cuidado.



138o Aqui estão as novas regiões do Oriente,

Que vós, agora, ao Mundo entregas,

Abrindo as portas do mar, furioso e potente,

Que com tanta coragem navegas.

Mas também é oportuno que no Ocidente,

As proezas de outro lusitano (1) tu vejas,

Pois sentido que é pelo seu Rei injustiçado,

Achará um novo caminho, nunca antes imaginado.



1- Referência a Fernão de Magalhães que descobriu a passagem entre o Atlântico e o Pacífico e realizou a primeira viagem de circunavegação a serviço do rei da Espanha.



«Vedes a grande terra que contina

Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,

Que soberba a fará a luzente mina

Do metal que a cor tem do louro Apolo.

Castela, vossa amiga, será dina

De lançar-lhe o colar ao rudo colo.

Varias províncias tem de várias gentes,

Em ritos e costumes, diferentes.



139o Veja a grande extensão de terra contínua (1),

Que vai da Constelação de Calisto até ao oposto Pólo;

E que é majestosa com a reluzente mina

De ouro, que tem a cor do louro Apolo (2).

Castela (3), vossa amiga, será a conquistadora digna,

Que lhe colocará o forte laço em seu rude colo,

Dominando as várias províncias e variadas gentes,

Que em ritos e costumes são tão diferentes.



1- Referência às terras da América Latina.

2- Referência ao deus Apolo, deus do sol.

3 – Castela: aqui Camões cita o reino de Castela como se fosse a Espanha toda, a dominadora da América Latina, com excessão do Brasil, sob o jugo português.



«Mas cá onde mais se alarga, ali tereis

Parte também, co pau vermelho nota;

De Santa Cruz o nome lhe poreis;

Descobri-la-á a primeira vossa frota.

Ao longo desta costa, que tereis,

Irá buscando a parte mais remota

O Magalhães, no feito, com verdade,

Português, porém não na lealdade.



140o Todavia, onde mais se alarga a terra tereis

Grande parte, rica em pau vermelho (1) como se nota;

De “Santa Cruz”, a nova província chamareis,

A qual será descoberta pela vossa primeira frota,

Que ao longo dessa Costa, dos lusos Reis,

Irá procurando a sua parte mais remota:

O Estreito que Magalhães descobrirá na posteridade,

Mesmo sem ser um português com lealdade.



1- As árvores de Pau-Brasil. Aqui ocorre a única menção que Camões faz ao Brasil, na época, considerado uma conquista menor quando comparado com a exuberância da Índia, da China e doutras localidades do Oriente.



«Dês que passar a via mais que meia

Que ao Antártico Pólo vai da Linha,

Düa estatura quási giganteia

Homens verá, da terra ali vizinha;

E mais avante o Estreito que se arreia

Co nome dele agora, o qual caminha

Pera outro mar e terra que fica onde

Com suas frias asas o Austro a esconde.



141o Depois que ultrapassar mais que meia

Via, que do Pólo Antártico vai até a Linha (1),

Com uma bela estatura gigantesca (2),

Verás os homens que habitam a terra, dali vizinha.

E mais adiante está o Estreito que agora se nomeia

Com o nome de Magalhães, no qual se caminha

Para o outro mar e para a terra que se situa onde

As frias asas do vento Austro lhe esconde.



1- Referência a Linha do Equador.

2 – alusão aos chamados “Indios Gigantes da Pagônia”, tribo que passou para a lenda como “gigante”, mas que na verdade era constituída por pessoas cuja altura era maior que a da média.



«Até’aqui Portugueses concedido

Vos é saberdes os futuros feitos

Que, pelo mar que já deixais sabido,

Virão fazer barões de fortes peitos.

Agora, pois que tendes aprendido

Trabalhos que vos façam ser aceitos

As eternas esposas e fermosas,

Que coroas vos tecem gloriosas,



142o Até aqui, portugueses, lhes foi concedido,

Saberdes as futuras proezas e os grandes feitos,

Que pelos mares que vós já deixam conhecido,

Virão fazer os ilustres varões de fortes peitos.

E agora que as dificuldades já têm vencido

E se tornaram dignos de serem aceitos

Pelas eternas esposas ninfas formosas,

Que já tecem as suas coroas gloriosas,



«Podeis-vos embarcar, que tendes vento

E mar tranquilo, pera a pátria amada.»

Assi lhe disse; e logo movimento

Fazem da Ilha alegre e namorada.

Levam refresco e nobre mantimento;

Levam a companhia desejada

Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,

Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.



143o Podem embarcar, pois tendes vento

E mar tranqüilo; sigam para a pátria amada,

A deusa disse: e eles já fazem o movimento

De partida daquela ilha alegre e namorada.

Levam refrescos e nobres alimentos;

E levam também a companhia desejada

Das ninfas (2), que serão suas eternamente,

Por mais que o Sol ao mundo esquente (1).



1- Isto é: eternamente.

2- Ou seja, as glórias que as Ninfas simbolizavam.



Assi foram cortando o mar sereno,

Com vento sempre manso e nunca irado,

Até que houveram vista do terreno

Em que naceram, sempre desejado.

Entraram pela foz do Tejo ameno,

E à sua pátria e Rei temido e amado

O prémio e glória dão por que mandou,

E com títulos novos se ilustrou.



144o E assim foram singrando o mar sereno,

Com o vento sempre manso e nunca irado,

Até que certo dia avistaram o amado terreno

Em que nasceram, o torrão natal desejado.

Entraram pela foz do rio Tejo, sempre ameno,

E à sua pátria e ao seu rei, respeitado e amado,

Deram o prêmio e a glória para quem os comandou

E que com mais esses novos títulos se consagrou.



Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

Düa austera, apagada e vil tristeza.



145o Mas... Não mais, Musa. A inspiração que tenho

Está confusa e a minha voz está enrouquecida,

E não por tanto cantar, mas por ver que venho

Cantando para uma gente surda e endurecida.

O estímulo com que se inflama o engenho

A pátria não me dá, pois está comprometida

Com o gosto da cobiça e na rudeza

De uma austera, apagada e vil tristeza.



E não sei por que influxo de Destino

Não tem um ledo orgulho e geral gosto,

Que os ânimos levanta de contino

A ter pera trabalhos ledo o rosto.

Por isso vós, ó Rei, que por divino

Conselho estais no régio sólio posto,

Olhai que sois (e vede as outras gentes)

Senhor só de vassalos excelentes.



146o E não sei por qual desígnio do Destino

Assim está; sem alegre orgulho e gosto,

Que levanta os ânimos de modo contínuo

Para se enfrentar a Vida com um feliz rosto.

Mas vejas, ó sublime Rei, que por Divino

Mandado está no Real Trono posto,

Que sois (compare com as outras gentes)

O soberano só de súditos excelentes.



Olhai que ledos vão, por várias vias,

Quais rompentes liões e bravos touros,

Dando os corpos a fomes e vigias,

A ferro, a fogo, a setas e pelouros,

A quentes regiões, a plagas frias,

A golpes de Idolátras e de Mouros,

A perigos incógnitos do mundo,

A naufrágios, a pexes, ao profundo.



147o Olhe que eles vão felizes, por várias vias,

Iguais a leões rompedores e aos bravos touros,

Cedendo o corpo às fomes, às exaustivas vigias,

Enfrentam o ferro, o fogo, as flechas e os pelouros (1),

Suportando as regiões quentes e as terras frias,

Expondo-se aos golpes dos pagãos e dos mouros,

Arriscando-se aos desconhecidos perigos do Mundo,

Aos naufrágios, aos peixes e ao Mar profundo.



1- Pelouros: bombas.



Por vos servir, a tudo aparelhados;

De vós tão longe, sempre obedientes;

A quaisquer vossos ásperos mandados,

Sem dar reposta, prontos e contentes.

Só com saber que são de vós olhados,

Demónios infernais, negros e ardentes,

Cometerão convosco, e não duvido

Que vencedor vos façam, não vencido.



148o Para vos servir, em tudo estão preparados;

E mesmo estando longe, são sempre obedientes

A quaisquer dos vossos duros comandos,

Sem retrucar, atendem prontos e muito contentes.

Apenas por saber que por vós são observados,

Aos demônios infernais, negros e ardentes,

Enfrentam com valentia e arte e não duvido

Que vos faça sempre vencedor e nunca vencido.



Favorecei-os logo, e alegrai-os

Com a presença e leda humanidade;

De rigorosas leis desalivai-os,

Que assi se abre o caminho à santidade.

Os mais exprimentados levantai-os,

Se, com a experiência, têm bondade

Pera vosso conselho, pois que sabem

O como, o quando, e onde as cousas cabem.



149o Favorecei-os logo Senhor e alegrai-os

Com a vossa presença e alegre humanidade;

Das leis rigorosas e muito severas aliviai-os,

Pois é assim o caminho para a Santidade.

Aos mais experientes buscai e levai-os,

Se com a experiência tiverem bondade,

Para o vosso Ministério, pois eles sabem

Onde todas as coisas e situações cabem.



Todos favorecei em seus ofícios,

Segundo têm das vidas o talento;

Tenham Religiosos exercícios

De rogarem, por vosso regimento,

Com jejuns, disciplina, pelos vícios

Comuns; toda ambição terão por vento,

Que o bom Religioso verdadeiro

Glória vã não pretende nem dinheiro.



150o Favorecei a todos em seus ofícios,

Pois cada um tem o seu talento;

Faça que os Padres (1) cumpram os exercícios

De rogarem pelo vosso bom regimento

Com jejuns e disciplinas, pois os vícios

São comuns; que sua ambição o vento

Leve para longe, pois o Padre, bom e verdadeiro,

Não procura a fútil glória e nem o dinheiro.



1- Camões chama os Padres católicos de “Religiosos”. Manteremos essa identificação porque à época não existiam outras Religiões permitidas.



Os Cavaleiros tende em muita estima,

Pois com seu sangue intrépido e fervente

Estendem não sòmente a Lei de cima,

Mas inda vosso Império preminente.

Pois aqueles que a tão remoto clima

Vos vão servir, com passo diligente,

Dous inimigos vencem: uns, os vivos,

E (o que é mais) os trabalhos excessivos.



151o Pelos cavaleiros tende muita estima,

Pois com sangue intrépido e fervente,

Eles estendem não apenas a Lei Divina,

Mas também ao vosso império proeminente.

Os que vão às terras distantes e adverso clima

Vão para te servir, com passo diligente,

A dois inimigos vencem: aos adversários vivos,

E (o que é mais) aos transtornos excessivos.



Fazei, Senhor, que nunca os admirados

Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,

Possam dizer que são pera mandados,

Mais que pera mandar, os Portugueses.

Tomai conselho só d’exprimentados

Que viram largos anos, largos meses,

Que, posto que em cientes muito cabe.

Mais em particular o experto sabe.



152o Faça Senhor, que não digam os admirados

Alemães, Franceses, Italianos e Ingleses,

Que os lusos nasceram para serem mandados,

Pois é uma insolente infâmia aos portugueses.

Aceite só os conselhos dos experimentados,

Que já viveram muitos anos e muitos meses,

Pois, se nos eruditos muito “Saber” cabe,

No particular, é o experiente que mais sabe.



De Formião, filósofo elegante,

Vereis como Anibal escarnecia,

Quando das artes bélicas, diante

Dele, com larga voz tratava e lia.

A disciplina militar prestante

Não se aprende, Senhor, na fantasia,

Sonhando, imaginando ou estudando,

Senão vendo, tratando e pelejando.



153o Veja Formião (1), o filósofo elegante,

E como o grande Aníbal (2) dele escarnecia,

Quando sobre as guerreiras artes, diante

Dele, com a voz alterada, falava e lia.

A disciplina militar estrita e prestante,

Não se aprende nos livros ou na fantasia,

Sonhando, imaginando ou estudando,

Exige que o discípulo a aprenda lutando.



1- Formião: filósofo grego que discorreu certo dia, de forma disparatada sobre a arte militar diante de Aníbal.

2- Anibal: General Cartaginês que enfrentou com sucesso a poderosa Roma,



Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,

De vós não conhecido nem sonhado?

Da boca dos pequenos sei, contudo,

Que o louvor sai às vezes acabado.

Tem me falta na vida honesto estudo,

Com longa experiência misturado,

Nem engenho, que aqui vereis presente,

Cousas que juntas se acham raramente.



154o Mas eu que falo humilde, baixo e quase mudo,

Por vós não sou conhecido ou sequer imaginado?

Da boca dos humildes, eu sei, contudo,

Que às vezes o louvor é mais elaborado.

Nem me falta, na vida, um sério estudo,

Com a minha longa experiência misturado,

Mais a criatividade, que aqui vereis presente;

Qualidades que juntas, encontram-se raramente.





Pera servir-vos, braço às armas feito,

Pera cantar-vos, mente às Musas dada;

Só me falece ser a vós aceito,

De quem virtude deve ser prezada.

Se me isto o Céu concede, e o vosso peito

Dina empresa tomar de ser cantada,

Como a pres[s]aga mente vaticina

Olhando a vossa inclinação divina,



155o Para os combates, meu braço está afeito;

Para louvar-te, a minha mente às Musas foi dada;

Apenas me falta ser por vós aceito,

Pois a sua nobreza deve ser prezada.

E se isto o céu me concede e o vosso peito

Praticar as proezas que mereçam ser exaltadas,

Como a profética mente vaticina

Olhando para a sua inclinação divina,





Ou fazendo que, mais que a de Medusa,

A vista vossa tema o monte Atlante,

Ou rompendo nos campos de Ampelusa

Os muros de Marrocos e Trudante,

A minha já estimada e leda Musa

Fico que em todo o mundo de vós cante,

De sorte que Alexandro em vós se veja,

Sem à dita de Aquiles ter enveja.



156o E o farei de tal modo, que mais que a da Medusa (1),

A sua figura cause temor no monte Atlante (2),

Ou rompendo pelos campos de Ampelusa (3)

Contra os muros de Marrocos (4) e Trudante (5).

Sobre vós, com a minha estimada e alegre Musa

Cantarei, para que todo Mundo de ti se encante.

E de tal maneira, que Alexandre (6) em vós se veja,

Pois a grandeza de Aquiles (7), em ti mais viceja.



1- Medusa: uma das três Górgonas. Era muito bela, mas ofendeu Minerva que transformou os seus cabelos em serpentes e deu ao seu olhar o poder de petrificar quem a fitasse.

2- Atlante: rei da Mauritânia, filho de Júpiter. Perseu, a quem ele recusou hospitalidade obrigou-o a olhar para a Medusa e assim o transformou numa montanha, situada no norte da África, e o condenou a sustentar o Céu com os ombros.

3- Ampelusa: o Cabo Espartel, a norte do Marrocos.

4- Marrocos: país da África do Norte, fronteiriço com a Península Ibérica.

5- Trudente: cidade situada em Marrocos.

6- Alexandre: Alexandre Magno, rei da Macedônia e conquistador da Pérsia

e da Índia.

7- Aquiles: herói grego, filho de Peleu e de Tétis.