sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto X - 1ª Parte

Notas à Edição


1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios. Essa adaptação não é uma tradução, até porque o idioma é único. Destarte, o leitor notará que as estrofes adaptadas não brilham pela perfeição da métrica ou do sistema rimático. Aliás, sobre as rimas vale uma observação: praticamente todas as estrofes adaptadas foram rimadas, porém algumas rimas atendem ao Português falado em Portugal onde algumas sílabas são abertas enquanto que no Brasil são fechadas; ou vice-versa. O autor conta com a indulgência dos leitores para esses fatos.

2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.

3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.

4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer no quesito da perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.

5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.


Dedicado aos Poetas Portugueses

Inês Dupas e Giraldoff

Canto X

Mas já o claro amador da Larisseia

Adúltera inclinava os animais

Lá pera o grande lago que rodeia

Temistitão, nos fins Ocidentais;

O grande ardor do Sol Favónio enfreia

Co sopro que nos tanques naturais

Encrespa a água serena e despertava

Os lírios e jasmins, que a calma agrava,


1o Nisto, o conhecido amante (1) da Larisseia (2)

Adúltera já inclinava os fogosos animais

Que movem o carro do Sol para o Mar que rodeia

O Temistitão (3), nos fins das terras ocidentais.

O forte calor do Sol, o vento Favônio (4) freia

Com os seus sopros, que nos lagos naturais,

Encrespava a água serena e despertava

Os lírios e jasmins que a calmaria embalava.





1- Referência a Apolo, deus do Sol.

2- Larisseia: natural de Larissa, na Tessália. Aqui, Camões refere-se à ninfa Corônia, que traiu Apolo.

3- Temistitão: aportuguesamento do nome do México, no idioma asteca.

4- Favônio: o vento suave. O mesmo que Zéfiro.



Quando as fermosas Ninfas, cos amantes

Pela mão, já conformes e contentes,

Subiam pera os paços radiantes

E de metais ornados reluzentes,

Mandados da Rainha, que abundantes

Mesas d’altos manjares excelentes

Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza

Restaurem da cansada natureza.



2o Então, as ninfas formosas e os amantes

Muito apaixonados, satisfeitos e contentes,

Subiram para o palácio de cristais radiantes

Enfeitado de valorosos metais reluzentes,

Ali, a Rainha ordenara que abundantes

Mesas, com manjares finos e excelentes,

Fossem preparadas para que a fraqueza

Fosse restaurada, pois a gente estava cansada.



Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,

Se assentam dous e dous, amante e dama;

Noutras, à cabeceira, d’ouro finas,

Está co a bela Deusa o claro Gama.

De iguarias suaves e divinas,

A quem não chega a Egípcia antiga fama ,

Se acumulam os pratos de fulvo ouro,

Trazidos lá do Atlântico tesouro.



3o Nessas mesas, em ricas cadeiras cristalinas,

Eles se assentam de dois em dois, o amante e a dama;

Na cabeceira, em cadeiras douradas e muito finas,

Sentam-se a bela deusa Téthis e o ilustre Gama.

Com iguarias suaves e divinas,

Superiores aos da antiga Egípcia (1), de tanta fama,

São servidos os pratos de alvo ouro,

Trazidos do Atlântico tesouro.



1- Referência à Cleópatra, cujas festas e celebrações eram tão suntuosas que se tornaram proverbiais.



Os vinhos odoríferos, que acima

Estão não só do Itálico Falerno

Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima

Com todo o ajuntamento sempiterno,

Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,

Crespas escumas erguem, que no interno

Coração movem súbita alegria,

Saltando co a mistura d’água fria.



4o Os vinhos perfumados estão acima

Não só dos italianos Falernos (1),

Como da Ambrósia (2), que Júpiter tanto estima,

Seguido pelo agrupamento dos deuses eternos.

Nos jarros, que nunca são desgastados pela lima,

Crespas espumas se erguem e nos fraternos

Corações causam uma súbita alegria,

Saltitando com a mistura da água fria.



1- Falernos: famoso vinho da Campânia, sempre exaltado pelos poetas latinos.

2- Ambrósia: manjar dos deuses no Olimpo, que dava ou conservava a imortalidade.



Mil práticas alegres se tocavam;

Risos doces, sutis e argutos ditos,

Que entre um e outro manjar se alevantavam,

Despertando os alegres apetitos;

Músicos instrumentos não faltavam

(Quais, no profundo Reino, os nus espritos

Fizeram descansar da eterna pena)

Cüa voz düa angélica Sirena.



5o Mil palavras alegres, entre si, trocavam,

Doces sorrisos, sutil e arguto palpite,

Que entre os manjares se levantava,

Inflamando ainda mais o apetite;

Instrumentos musicais não faltavam

(Iguais aos que no Reino de Dite (1)

Dão algum descanso para a eterna pena)

Com som tão angelical quanto o da Sirena (2).





1) Reino de Dite: O Inferno. O reino dos mortos. Ali, algumas músicas são tocadas, o que alivia o sofrimento eterno.

2) Sirenas: sereia. Ser mitológico, metade mulher e metade peixe, que atraia os navegantes com a voz melodiosa, fazendo-os naufragar.



Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,

Que pelos altos paços vão soando,

Em consonância igual, os instumentos

Suaves vêm a um tempo conformando.

Um súbito silêncio enfreia os ventos

E faz ir docemente murmurando

As águas, e nas casas naturais

Adormecer os brutos animais.



6o A bela ninfa cantava com lindos acentos,

Que por todo o espaço vão ecoando,

Em delicada consonância com os instrumentos

Melodiosos, que lhe vão acompanhando.

Um súbito silêncio freia os ventos

E faz com que, docemente murmurando

As águas corram; e nas cavernas naturais,

Faz com que adormeçam os ferozes animais.



Com doce voz está subindo ao Céu

Altos varões que estão por vir ao mundo,

Cujas claras Ideias viu Proteu

Num globo vão, diáfano, rotundo,

Que Júpiter em dom lho concedeu

Em sonhos, e despois no Reino fundo,

Vaticinando, o disse, e na memória

Recolheu logo a Ninfa a clara história.



7o Com linda voz, a ninfa vai elevando ao Céu

Os ilustres heróis que ainda virão ao Mundo,

Conforme a clara profecia que Proteu

Viu em seu Globo de Cristal rotundo,

Que Júpiter, como um dom, lhe concedeu

Em sonhos e depois no Reino Profundo;

E ele, profetizando, relatou a futura história

Que a ninfa guardou na memória.



Matéria é de coturno, e não de soco,

A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;

Qual Iopas não soube, ou Demodoco,

Entre os Feaces um, outro em Cartago.

Aqui, minha Calíope, te invoco

Neste trabalho extremo, por que em pago

Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,

O gosto de escrever, que vou perdendo.



8o Matéria de muita importância e não é pouco,

O que a Musa aprendeu no imenso e poético lago

Do qual Iopas (1) não soube e nem Demódoco (2);

Um entre os Feáceos (3) e o outro em Cartago (4).

Aqui, minha Calíope, eu de novo te invoco

Para ajudar-me e para que eu seja pago

Com o retorno da inspiração, como pretendo,

Pois sinto que o gosto de escrever, estou perdendo.



1- Iopas: o cantor que abrilhantou o banquete oferecido por Dido, para Enéas.

2- Demódoco: cantor que louvava as proezas do rei de Ítala, na presença de Ulisses.

3- Feáceos: povo da antiguidade, governado pelo rei Alcino e visitado por Ulisses quando voltava de Tróia para Ìtaca.

4- Cartago: cidade na África do Norte fundada por Dido e onde, segundo a lenda, nasceu Iopas.



Vão os anos decendo, e já do Estio

Há pouco que passar até o Outono;

A Fortuna me faz o engenho frio,

Do qual já não me jacto nem me abono;

Os desgostos me vão levando ao rio

Do negro esquecimento e eterno sono.

Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha

Das Musas, co que quero à nação minha!



9o Os anos vão passando e do Estio (1)

Falta pouco para que eu chegue ao Outono;

A má sorte tornou o meu talento frio,

E dele eu já não me orgulho e nem me abono;

Os desgostos estão me levando ao rio

Do negro esquecimento e eterno sono.

Mas fazes com que eu cumpra, ó Rainha

Das musas, o dever de louvar a Pátria minha.



1) Estio: o verão. Forma poética de Camões dizer que sua juventudade estava perto do fim e que logo entraria na maturidade, ou Outono.



Cantava a bela Deusa que viriam

Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,

Armadas que as ribeiras venceriam

Por onde o Oceano Índico suspira;

E que os Gentios Reis que não dariam

A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira

Provariam do braço duro e forte,

Até render-se a ele ou logo à morte.



10o No seu canto, a bela ninfa profetizava que viriam,

Do rio Tejo, pelo caminho do Mar que Vasco abrira,

Fortes esquadras que as dificuldades venceriam

Por onde todo o Oceano Índico suspira (1);

E que aqueles reis pagãos que não dariam

Suas rendições e submissões, o ferro e ira

Sofreriam do braço valente e forte,

Até que encontrassem a morte.



1-alude Camões aos Paises e terras banhadas pelo Oceano ìndico, que em maioria era toda muculmana.



Cantava dum que tem nos Malabares

Do sumo sacerdócio a dignidade,

Que, só por não quebrar cos singulares

Barões os nós que dera d’amizade,

Sofrerá suas cidades e lugares,

Com ferro, incêndios, ira e crueldade,

Ver destruir do Samorim potente,

Que tais ódios terá co a nova gente.



11o Cantava sobre um, que entre os Malabares,

Exercia o Sumo Sacerdócio com muita dignidade,

E que apenas por não quebrar com os invulgares

Lusos os fraternos laços de amizade,

Sofrerá em suas cidades e em todos os lugares,

Com armas, incêndios, ira e crueldade.

Severa punição de outro Samorim potente,

Que odeia os lusos, a quem chama de nova gente.



E canta como lá se embarcaria

Em Belém o remédio deste dano,

Sem saber o que em si ao mar traria,

O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.

O peso sentirão, quando entraria,

O curvo lenho e o férvido Oceano,

Quando mais n’água os troncos que gemerem

Contra sua natureza se meterem.



12o E cantando, relata como é que embarcaria

Lá em Belém, o vingador deste dano;

Sem saber o que o mar lhe traria,

Seguirá o Pacheco (1), o “Aquiles” lusitano.

Logo, com todo seu grande valor entraria,

Com a sua Armada, no tórrido Oceano,

E destruiria os barcos inimigos que aparecerem,

E contra a sua valente natureza se atreverem.



1-Pacheco: autor do “Situ Orbi”, guia de navegação do século XVI e sucessor dos Albuquerques na defesa de Cochim. Camões, aqui, o compara a Aquiles, herói grego.





Mas, já chegado aos fins Orientais

E deixado em ajuda do gentio Rei de

Cochim, com poucos naturais,

Nos braços do salgado e curvo rio

Desbaratará os Naires infernais

No passo Cambalão, tornando frio

D’espanto o ardor imenso do Oriente,

Que verá tanto obrar tão pouca gente.



13o Chegado aos fins dos territórios orientais,

Para socorrer ao rei de Cochim (1), nobre gentio,

Conta com o auxilio de alguns poucos naturais

E nos braços do salgado e curvo rio,

Derrotará os malvados Naires infernais

No território do Cambalão (2), tornando frio,

De tanto espanto, o imenso calor do Oriente,

Que verá tanta proeza feita, por tão pouca gente.



1- Cochim: cidade indiana, situada na costa do Malabar.

2- Cambalão: Estreito entre a ilha do mesmo nome e Cochim, na Índia.



Chamará o Samorim mais gente nova;

Virão Reis [de] Bipur e de Tanor,

Das serras de Narsinga, que alta prova

Estarão prometendo a seu senhor;

Fará que todo o Naire, enfim, se mova

Que entre Calecu jaz e Cananor,

D’ambas as Leis imigas pera a guerra:

Mouros por mar, Gentios pola terra.



14o Mas o Samorim chamará mais gente nova;

Virão reis de Bipur (1), de Tanor (2),

E das serras de Narsinga (3), dispostos à dura prova,

Conforme prometeram ao seu Senhor;

Também fará que todo Naire (4) enfim se mova,

Desde Calecu (5) até o território de Cananor (6),

E ambas as religiões inimigas se unirem para a guerra:

Os mouros pelo mar e os pagãos pela terra.



1- Bipur: reino na costa do Malabar.

2- Tanor: reino na costa do Malabar, na parte ocidental.

3- Narsinga: antigo reino do Decão, na Índia.

4- Naire: chefes militares da Índia.

5- Calecu: cidade na costa ocidental da Índia, a primeira em que Vasco da Gama aportou.

6- Cananor: cidade na Índia.



E todos outra vez desbaratando,

Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,

A grande multidão que irá matando

A todo o Malabar terá admirado.

Cometerá outra vez, não dilatando,

O Gentio os combates, apressado,

Injuriando os seus, fazendo votos

Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.



15o E a todos, canta a Ninfa, vai derrotando,

Por terra e no mar, o grande Pacheco ousado;

E a grande multidão que irá matando,

Deixará todo o Malabar (1) assombrado.

E atacará novamente, não poupando

O povo pagão dos combates; e o povo apressado,

Já criticando seus exércitos vai fazendo inúteis votos

Para os seus deuses surdos, falsos e remotos.

1- Malabar: região da costa ocidental da Índia que se estende de Canará ao Cabo Comorim.



Já não defenderá somente os passos,

Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;

Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos

Aqueles que as cidades fazem rasas,

Fará que os seus, de vida pouco escassos,

Cometam o Pacheco, que tem asas,

Por dous passos num tempo; mas voando

Dum noutro, tudo irá desbaratando.



16o Então, ele já não defenderá apenas os palácios,

Mas destruirá os campos, os templos e as casas;

Cheios de ódio, como demônios, e não vendo cansaços

Nos lusos que destroem e fazem as suas cidades rasas,

Os pagãos, já com os poderes escassos,

Novamente atacam Pacheco, mas ele parece ter asas,

Estando em dois lugares ao mesmo tempo; e voando,

A uns e aos outros irá derrotando.







Virá ali o Samorim, por que em pessoa

Veja a batalha e os seus esforce e anime;

Mas um tiro, que com zunido voa,

De sangue o tingirá no andor sublime.

Já não verá remédio ou manha boa

Nem força que o Pacheco muito estime;

Inventará traições e vãos venenos,

Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.



17o Ali virá o próprio Samorim, para que em pessoa,

Assista a batalha e aos seus soldados incentive e anime;

Mas um tiro, que zunindo voa,

Com o seu sangue tingirá o seu andor sublime.

Então verão que não há solução ou artimanha boa,

Nem força bruta, que a Pacheco vença e subestime;

Ainda inventarão traições e inúteis venenos,

Mas (o céu querendo), tudo será de menos.



Que tornará a vez sétima (cantava)

Pelejar co invicto e forte Luso,

A quem nenhum trabalho pesa e agrava;

Mas, contudo, este só o fará confuso.

Trará pera a batalha, horrenda e brava,

Máquinas de madeiros fora de uso,

Pera lhe abalroar as caravelas,

Que até’li vão lhe fora cometê-las.



18o Porém, pela sétima vez retornará (a ninfa cantava)

Para guerrear contra o invencível e forte luso,

A quem nenhuma dificuldade atrapalha ou agrava;

Mas novamente será derrotado e muito confuso

Retira o que trouxe para a batalha horrível e brava:

Umas máquinas antigas e já fora de uso,

Com as quais pretendeu atacar as caravelas,

Sem, contudo, lograr êxito em acometê-las.



Pela água levará serras de fogo

Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;

Mas a militar arte e engenho logo

Fará ser vã a braveza com que venha.

- «Nenhum claro barão no Márcio jogo,

Que nas asas da Fama se sustenha,

Chega a este, que a palma a todos toma.

E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.



19o Pelo mar ele levará armas de fogo,

Para incendiar todas as naus que o luso tenha;

Mas o talento militar e a criatividade logo

Fará ser inócua a fúria com que o pagão venha.

Nenhum outro ilustre herói, no guerreiro jogo,

Cuja fama o seu renome mantenha,

Compara-se ao luso, que a palma da vitória toma

Dos antigos heróis das ilustres Grécia e Roma.



«Porque tantas batalhas, sustentadas

Com muito pouco mais de cem soldados,

Com tantas manhas e artes inventadas,

Tantos Cães não imbeles profligados,

Ou parecerão fábulas sonhadas,

Ou que os celestes Coros, invocados,

Decerão a ajudá-lo e lhe darão

Esforço, força, ardil e coração.



20o Pois só ele pôde nas batalhas enfrentadas,

Tendo um pouco mais que cem soldados,

Com geniais artimanhas e estratégias bem elaboradas,

A tantos cães mouros deixar inertes e derrotados;

Proezas que parecerão fábulas imaginadas,

Ou então, que Socorros Celestes foram invocados

E desceram para ajudá-lo; e sempre renovarão

A sua força, inteligência e o valente coração.



«Aquele que nos campos Maratónios

O grão poder de Dário estrui e rende,

Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,

O passo de Termópilas defende,

Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,

Que com todo o poder Tusco contende

Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,

Foi como este na guerra forte e sábio.»



21o Nem aquele que nos campos Maratônios (1),

Enfrentou o poder de Dário (2), a quem destrói e rende;

Ou, nem aquele que com quatro mil espartanos,

Lutou no desfiladeiro das Termópilas (3) e o defende,

Nem o jovem Cocles (4), dos romanos,

Que contra todo o exército etrusco contende

Para defender a ponte; e nem o Quinto Fabio (5)

Igualar-se-á a este luso na guerra, forte e sábio.





1) Maratônios: os campos de Maratona, na Atica, célebres pela batalha travada entre atenienses e persas em 490 AC.

2) Dário: rei da Pérsia, que foi vencido por Milcíades na batalha de Maratona.

3) Termópilas: desfiladeiro da Tessália, onde Leônidas com trezentos espartanos tentou deter o grande exército de Xerxes. Camões aumenta arbitrariamente o número para quatro mil.

4) Cocles: guerreiro romano que defendeu sozinho uma ponte no rio Tibre, atacada pelos etruscos.

5) Quinto Fabio: cônsul romano que, com hábeis manobras, conseguiu enfraquecer o exército de Aníbal.



Mas neste passo a Ninfa, o som canoro

Abaxando, fez ronco e entristecido,

Cantando em baxa voz, envolta em choro,

O grande esforço mal agardecido.

- «Ó Belisário (disse) que no coro

Das Musas serás sempre engrandecido,

Se em ti viste abatido o bravo Marte,

Aqui tens com quem podes consolar-te!



22o Mas nisto, a ninfa, o som canoro

Foi baixando, ficando rouco e entristecido,

E cantando com voz baixa, envolta em choro,

Lamentou que o esforço não fosse reconhecido.

Ó Belizário (1), disse, que no coro

Das musas será sempre engrandecido,

Se em ti fraquejou o bravo Marte,

A ingratidão com este luso, talvez possa consolar-te.





1- Belizário: general de Justiniano, no tempo do império bizantino. Segundo a tradição ficou cego no fim da vida e embora tenha prestado grandes serviços ao império, ficou reduzido à miséria. Camões retoma as criticas feita ao povo e aos governantes por não reconhecerem os heróis lusitanos.



«Aqui tens companheiro, assi nos feitos

Como no galardão injusto e duro;

Em ti e nele veremos altos peitos

A baxo estado vir, humilde e escuro.

Morrer nos hospitais, em pobres leitos,

Os que ao Rei e à Lei servem de muro!

Isto fazem os Reis cuja vontade

Manda mais que a justiça e que a verdade.



23o Aqui tens amigas sinceras, tanto nos altos feitos,

Quanto no cruel esquecimento, injusto e duro;

Em ti e nele sempre veremos nobres peitos,

Mesmo numa humilde condição e estado obscuro

Vindo morrer em tristes hospitais de pobres leitos;

Ingratidão com quem ao Rei e à Religião servem de muro!

Mas é o que fazem os Reis que acham que a sua vontade

Prepotente está acima da justiça e da verdade.



«Isto fazem os Reis quando embebidos

Nüa aparência branda que os contenta

Dão os prémios, de Aiace merecidos,

À língua vã de Ulisses, fraudulenta.

Mas vingo-me: que os bens mal repartidos

Por quem só doces sombras apresenta,

Se não os dão a sábios cavaleiros,

Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.



24o E fazem isso quando estão iludidos

Por uma aparência falsa, mas que os contenta:

E dão os prêmios, que por Aiace (1) são merecidos,

Para a eloqüência de Ulisses, inútil e fraudulenta.

Mas eu lhes vingo: pois os louvores são indevidos

Quando vão para quem só uma simulação representa;

Eu os canto, se os Reis não glorificam os nobres cavaleiros,

E apenas o fazem para os reles lisonjeiros.



1- Aiace: ou Ájax, herói grego durante a guerra de Tróia. Embora fosse considerado mais valoroso que Ulisses, este obteve mais fama graças à sua eloqüência.



«Mas tu, de quem ficou tão mal pagado

Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,

Se não és pera dar-lhe honroso estado,

É ele pera dar-te um Reino rico.

Enquanto for o mundo rodeado

Dos Apolíneos raios, eu te fico

Que ele seja entre a gente ilustre e claro,

E tu nisto culpado por avaro.



25o Mas tu, cujo vassalo ficou tão mal recompensado,

Ó rei, apenas neste assunto fostes iníquo;

Ele merecia ter sido elevado a um alto estado,

Pois foi ele quem te deu um reino rico.

Mas enquanto o Mundo for rodeado

Pelos raios de Apolo (1) eu o glorifico

No grupo de heróis, ilustre e preclaro,

E neste assunto, a ti, de mesquinho e avaro.



1- Apolo: o deus do sol.



«Mas eis outro (cantava) intitulado

Vem com nome real e traz consigo

O filho, que no mar será ilustrado,

Tanto como qualquer Romano antigo.

Ambos darão com braço forte, armado,

A Quíloa fértil, áspero castigo,

Fazendo nela Rei leal e humano,

Deitado fora o pérfido tirano.



26o Mas eis outro (1) (a musa voltava a cantar) intitulado

De Vice-Rei que chega e traz consigo

O seu nobre filho, que no mar será tão celebrado,

Quanto qualquer herói romano antigo.

Pai e filho darão, com braço forte e bem armado,

Na fértil Quíloa (2), um duro castigo,

Colocando nela, um rei leal e humano,

Após terem expulsado o cruel tirano.



1- Referência a Dom Francisco de Almeida, 1o Vice-Rei das Índias e a seu filho Dom Lourenço.

2- Quíloa: ilha da costa oriental da África.



«Também farão Mombaça, que se arreia

De casas sumptuosas e edifícios,

Co ferro e fogo seu queimada e feia,

Em pago dos passados malefícios.

Despois, na costa da Índia, andando cheia

De lenhos inimigos e artifícios

Contra os Lusos, com velas e com remos

O mancebo Lourenço fará extremos.



27o Em Mombaça (1) que se vangloria da poderosa

Fortaleza de suas instalações e de seus edifícios,

Com ferro e fogo farão uma destruição horrorosa,

Como castigo pelos passados malefícios.

Depois, na costa da Índia, que estará cheia

De barcos inimigos e de bélicos artifícios

Contra os lusos, com velas e com remos,

O valor do jovem Lourenço chegará aos extremos.



1) Mombaça: cidade na costa oriental da África.



«Das grandes naus do Samorim potente,

Que encherão todo o mar, co a férrea pela,

Que sai com trovão do cobre ardente,

Fará pedaços leme, masto, vela.

Despois, lançando arpéus ousadamente

Na capitaina imiga, dentro nela

Saltando o fará só com lança e espada

De quatrocentos Mouros despejada.



28o Dos grandes navios do Samorim potente,

Que encherão o Mar, armados com férrea péla (1),

Que explodem como trovão de cobre ardente,

O jovem luso fará sucata de mastros, leme e vela.

Depois, com ganchos de abordagem, corajosamente,

Na nau capitânia inimiga saltará, e dentro dela,

Usando apenas a sua lança e a sua espada

Expulsará quatrocentos mouros da nau desejada.



1- Péla: bolas: nesse contexto, bolas de ferro.



«Mas de Deus a escondida providência

(Que ela só sabe o bem de que se serve)

O porá onde esforço nem prudência

Poderá haver que a vida lhe reserve.

Em Chaúl, onde em sangue e resistência

O mar todo com fogo e ferro ferve,

Lhe farão que com vida se não saia

As armadas de Egipto e de Cambaia.





29o Mas os desígnios de Deus, a divina Providência,

(Que apenas Ela sabe os caminhos de que se serve),

O colocará onde nem a coragem ou a prudência,

Por maiores que sejam, a vida lhe preserve.

Em Chaul (1), onde em sangue e em resistência

Todo o mar, com o ferro e com o fogo ferve,

Os inimigos não deixarão que com vida ele saia,

Atingido pelas bombas do Egito e de Cambaia (2).



1) Chaul: cidade situada ao sul de Bombaim, na costa ocidental da Índia.

2) Cambaia: reino e cidade da Índia.



«Ali o poder de muitos inimigos

(Que o grande esforço só com força rende),

Os ventos que faltaram, e os perigos

Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.

Aqui ressurjam todos os Antigos,

A ver o nobre ardor que aqui se aprende:

Outro Ceva verão, que, espedaçado,

Não sabe ser rendido nem domado.



30o Ali, o poder de inúmeros inimigos,

(Pois só com força o luso perde, mas não se rende),

A falta dos ventos favoráveis e os perigos

Do mar, conspirarão contra ele, e tudo lhe ofende.

Mas, que ali renasçam os heróis antigos,

Para verem o grande valor que ali se aprende:

Verão outro Ceva (1), que mesmo mutilado,

Não admite ser rendido ou dominado.



1- Ceva: centurião do exercito romano, celebre pelo heroísmo na batalha contra Pompeu.



«Com toda üa coxa fora, que em pedaços

Lhe leva um cego tiro que passara,

Se serve inda dos animosos braços

E do grão coração que lhe ficara.

Até que outro pelouro quebra os laços

Com que co alma o corpo se liara:

Ela, solta, voou da prisão fora

Onde súbito se acha vencedora.



31o Sem toda uma coxa, que em pedaços

Foi arrancada por um tiro que passara,

Ele, ainda, se serve dos poderosos braços

E do valente coração que lhe restara.

Até que outro tiro quebra os laços

Com que a sua alma, ao corpo se juntara.

A alma liberta voará para fora

Da prisão e verá que é a vencedora.



«Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,

Na qual tu mereceste paz serena!

Que o corpo, que em pedaços se apresenta,

Quem o gerou, vingança já lhe ordena:

Que eu ouço retumbar a grão tormenta,

Que vem já dar a dura e eterna pena,

De esperas, basiliscos e trabucos,

A Cambaicos cruéis e Mamelucos.



32o Vai-te alma em paz, da guerra turbulenta,

Na qual tu mereceste a paz serena;

Pois o teu corpo, que em pedaços se apresenta,

Será vingado por teu pai, que isso já ordena:

Já ouço retumbar a grande tormenta,

Que virá para dar a dura e eterna pena,

Com ciladas, basiliscos (1) e trabucos,

Aos cruéis Cambaios e aos Mamelucos (2).



1- Basiliscos: antigos canhões de bronze, que atiravam pesadas bolas de ferro.

2- Mamelucos: nesta estrófe, o mesmo que egípcios. Originalmente eram soldados de uma milícia turco-egipicia. Inicialmente formada por escravos chegou a dominar o Egito.



«Eis vem o pai, com ânimo estupendo,

Trazendo fúria e mágoa por antolhos,

Com que o paterno amor lhe está movendo

Fogo no coração, água nos olhos.

A nobre ira lhe vinha prometendo

Que o sangue fará dar pelos giolhos

Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,

Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.



33o Eis que logo vem o pai, com vigor estupendo,

Trazendo fúria e mágoa nos antolhos (1),

Pois é o amor paterno que lhe está movendo;

Assim, com fogo no coração e lágrimas nos olhos.

Com nobre e justa ira vinha prometendo

Banhar de sangue, até a altura dos joelhos,

As naus inimigas; senti-lo-á o rio Nilo,

O rio Indo poderá vê-lo e o rio Ganges poderá ouvi-lo.



1- Antolhos: protetor para os olhos.



«Qual o touro cioso, que se ensaia

Pera a crua peleja, os cornos tenta

No tronco dum carvalho ou alta faia

E, o ar ferindo, as forças experimenta:

Tal, antes que no seio de Cambaia

Entre Francisco irado, na opulenta

Cidade de Dabul a espada afia,

Abaxando-lhe a túmida ousadia.



34o Igual ao touro furioso, que ensaia

Para a dura luta, e os chifres experimenta

No tronco dum carvalho ou numa alta faia (1),

E ferindo o ar, a grande força ostenta:

Assim, antes que no território de Cambaia

Adentre o furioso Francisco (2), na opulenta

Cidade de Dabul (3) a espada ele afia,

Abaixando-lhe a insolente ousadia.



1- Faia: árvore européia, alta e ramosa.

2- Francisco: Francisco de Almeida, Vice-Rei da Índia.

3- Dabul: povoação ao sul de Chaul, na Cambaia.



«E logo, entrando fero na enseada

De Dio, ilustre em cercos e batalhas,

Fará espalhar a fraca e grande armada

De Calecu, que remos tem por malhas.

A de Melique Iaz, acautelada,

Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,

Fará ir ver o frio e fundo assento,

Secreto leito do húmido elemento.



35o Logo depois, entrando feroz na enseada

De Dio (1), famosa pelos cercos e batalhas,

Fará com que se espalhe a grande Armada

De Calecu, de tantos remos como se fossem malhas.

A do Melique Iaz (2), bombardeada,

Com os artefatos que tu, Vulcano, espalhas,

Ele mandará para o frio e fundo assento,

O secreto leito no liquido Elemento (3).



1- Dio: cidade na Índia, situada no golfo de Omã, na península de Guzarate.

Era uma fortaleza portuguesa e sofreu dois cercos em 1.538 e em 1.547.

2- Melique Iaz: governador ou príncipe Iaz. Melique é titulo nobiliárquico na

Índia.

3-Liquido Elemento: a água, o fundo do Mar.



«Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,

A fúria esperará dos vingadores,

Verá braços e pernas ir nadando

Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.

Raios de fogo irão representando,

No cego ardor, os bravos domadores.

Quanto ali sentirão olhos e ouvidos

É fumo, ferro, flamas e alaridos.



36o À esquadra de Mir Hócem (1) irá abalroando,

Despejando-lhe a fúria dos lusitanos vingadores;

Ver-se-á braços e pernas irem boiando

No mar, sem os corpos dos seus senhores.

Raios de fogo irão representando,

No cego ardor, os bravos conquistadores.

E tudo que ali sentirão os olhos e os ouvidos

Serão a fumaça, as chamas e os alaridos.



1- Mir Hócem: o Emir, ou o nobre Hócem, comandante da frota do Sultão do Egito.



«Mas ah, que desta próspera vitória,

Com que despois virá ao pátrio Tejo,

Quási lhe roubará a famosa glória

Um sucesso, que triste e negro vejo!

O Cabo Tormentório, que a memória

Cos ossos guardará, não terá pejo

De tirar deste mundo aquele esprito,

Que não tiraram toda a Índia e Egipto.



37o Mas ah! Após esta grande vitória,

Decide vir ao pátrio rio Tejo,

Mas quase lhe roubará a fama e a glória

Um acontecimento triste e obscuro, como eu prevejo.

O Cabo Tormentório (1), que guardará a memória

Do grande herói, junto com seus ossos, não terá pejo (2)

De tirar deste mundo aquele grande espírito,

Que não foi derrotado pela Índia e nem pelo Egito.



1- Cabo Tormentório, depois rebatizado de Cabo da Boa Esperança, onde Dom Francisco, 1o Vice-Rei da Índia morreu em luta contra os cafres, quando voltava para Portugal.

2- Pejo: pudor.



«Ali, Cafres selvagens poderão

O que destros imigos não puderam;

E rudos paus tostados sós farão

O que arcos e pelouros não fizeram.

Ocultos os juízos de Deus são;

As gentes vãs, que não nos entenderam,

Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,

Sendo só providência de Deus pura.



38o Ali, os selvagens cafres conseguirão,

O que os poderosos inimigos não puderam;

E apenas toscos paus queimados farão

O que os arcos, as flechas e as bombas não fizeram.

Os desígnios de Deus, ocultos são;

As pessoas tolas, que não os entenderam,

Chamam-lhes de mau destino, sorte escura,

Mas, na verdade, é apenas a Providência Pura.



«Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto

(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)

Lá no mar de Melinde, em sangue tinto

Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,

Pelo Cunha também, que nunca extinto

Será seu nome em todo o mar que lava

As ilhas do Austro, e praias que se chamam

De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!



39o Mas oh! Que luz tamanha se abrindo eu sinto,

(A ninfa ao dizer isso, a voz levantava),

Lá no mar de Melinde (1), glorificado com o sangue tinto,

Das cidades de Lamo (2), de Oja (3) e de Brava (4),

É o ilustre Cunha (5), de quem nunca será extinto

O renome, em todo o mar que a Asia lava.

E nas ilhas do sul e nas praias que se chamam

São Lourenço (6) e que, em todo mar, se afamam.



1) Melinde: cidade e reino na costa oriental da África.

2) Lamo: cidade na costa oriental da África, ao norte de Melinde.

3) Oja: localidade na costa oriental da África.

4) Brava: cidade africana ao norte de Melinde.

5) Cunha: Tristão da Cunha, navegador português, descobridor das Ilhas que tem o seu nome. Foi na sua armada que Afonso de Albuquerque seguiu para a Índia. A ilhas com o seu nome ficam ao sul, próxima da latitude 40, quase paralela com a África do Sul.

6) Ilhas de São Lourenço: atualmente chamada de ilha de Madagascar, junto da costa oriental da África, da qual é separada pelo canal de Moçambique.



«Esta luz é do fogo e das luzentes

Armas com que Albuquerque irá amansando

De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,

Que refusam o jugo honroso e brando.

Ali verão as setas estridentes

Reciprocar-se, a ponta no ar virando

Contra quem as tirou; que Deus peleja

Por quem estende a fé da Madre Igreja.



40o Esta é a luz do fogo e das reluzentes

Armas com que Albuquerque (1) irá amansando

Os persas de Ormuz (2), religiosos e valentes,

Que recusam o domínio luso, honroso e brando.

Ali verão as suas flechas estridentes

Voltar-lhes, com as pontas no ar revirando

Contra eles que as atiraram; pois Deus peleja,

Ao lado daquele que dilata a fé na Santa Igreja.



1- Albuquerque: Afonso de Albuquerque, Vice-Rei na Índia, entre 1.453 e 1.515.

2- Ormuz: ilha e cidade situada na entrada do golfo pérsico. Segundo a lenda, as flexas disparadas pelos persas, magicamente voltavam contra os próprios atiradores.



«Ali do sal os montes não defendem

De corrupção os corpos no combate,

Que mortos pela praia e mar se estendem

De Gerum, de Mazcate e Calaiate;

Até que à força só de braço aprendem

A abaxar a cerviz, onde se lhe ate

Obrigação de dar o reino inico

Das perlas de Barém tributo rico.



41o Ali, os montes de sal não defendem

Contra a putrefação, os corpos que no combate

Caíram e que pela praia e pelo mar se estendem

Desde Gerum (1), de Mazcate (2) até Calaiate (3);

Mas enfim, com a força do braço luso aprendem

Abaixar o pescoço, onde se lhe amarre e ate

A obrigação daquele sórdido reino iníquo,

Pagar com pérolas de Barém, um tributo rico.



1) Gerum: a ilha onde fica situada Ormuz.

2) Mazcate: cidade na costa da Arábia, atacada por Afonso de Albuquerque em 1.507.

3) Calaiate: cidade na costa sudoeste da Arábia.

4) Barém: arquipélago do golfo pérsico famoso pela produção de pérolas e aljôfar.



«Que gloriosas palmas tecer vejo

Com que Vitória a fronte lhe coroa,

Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,

Toma a ilha ilustríssima de Goa!

Despois, obedecendo ao duro ensejo,

A deixa, e ocasião espera boa

Com que a torne a tomar, que esforço e arte

Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.



42o Que gloriosas palmas eu o vejo

Tecer pelas vitórias; e a testa lhe coroa,

Quando sem sombra de medo ou de pejo,

Ele conquista a famosa ilha de Goa (1)!

Depois, em função de um duro ensejo,

Abandona-a e espera uma ocasião boa

Para retomá-la, pois o ânimo e a guerreira arte,

Vencerão a má sorte e o próprio deus Marte.



1- Goa: cidade da Índia, tomada pela primeira vez por Afonso de Albuquerque em 1.510 e depois de várias vicissitudes, tornou-se a sede da ocupação portuguesa.



«Eis já sobr’ela torna e vai rompendo

Por muros, fogo, lanças e pelouros,

Abrindo com a espada o espesso e horrendo

Esquadrão de Gentios e de Mouros.

Irão soldados ínclitos fazendo

Mais que liões famélicos e touros,

Na luz que sempre celebrada e dina

Será da Egípcia Santa Caterina.





43o Eis que logo retorna os muros vai rompendo,

Com bombas, fogo, lanças e pelouros (1);

Com a espada abre o espesso e horrendo

Esquadrão de pagãos e de mouros.

Os ilustres soldados irão fazendo

Mais que leões famintos ou ferozes touros,

Com a proteção da sempre celebrada e digna

Padroeira de Goa, a egipcia Santa Catarina (2).



1- Pelouros: bombas.

2-Santa Catarina: padroeira de Goa, na Índia. Esta cidade foi retomada por D.Afonso em 25 de novembro de 1.510, dia da padroeira.



«Nem tu menos fugir poderás deste,

Posto que rica e posto que assentada

Lá no grémio da Aurora, onde naceste,

Opulenta Malaca nomeada.

As setas venenosas que fizeste,

Os crises com que já te vejo armada,

Malaios namorados, Jaus valentes,

Todos farás ao Luso obedientes.»



44o E nem tu poderás fugir deste,

Ainda que sejas rica, poderosa e situada

Lá longe, perto da Aurora, onde nasceste,

E que de opulenta Malaca (1) é chamada.

As flechas envenenadas que fizeste,

As tensões com que já te vejo armada,

Serão inúteis, Malaios (2) e Javaneses (3) valentes,

Pois todos, aos lusos, serão obedientes.



1) Malaca: península na Índia e importante entreposto comercial no tempo da expedição de Vasco da Gama.

2) Malaios: naturais de Malaca. Camões deixa nas entrelinhas que seriam covardes.

3) Javaneses ou Jaús: naturais de Java, no arquipélago de Sonda. Para Camões, valentes guerreiros, mas isso não será o suficiente para impedir o domínio luso em toda a área.



Mais estanças cantara esta Sirena

Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,

Mas alembrou-lhe üa ira que o condena,

Posto que a fama sua o mundo cerque.

O grande Capitão, que o fado ordena

Que com trabalhos glória eterna merque,

Mais há-de ser um brando companheiro

Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.



45o Mais versos cantaria esta Sirena (1)

Em louvor do ilustre Albuquerque,

Quando se lembrou da fúria injusta (2) que o condena,

Ainda que a sua fama, ao Mundo todo cerque.

O grande comandante a quem o Destino ordena,

Que com grandes proezas, a glória eterna marque,

Deveria ter sido mais brando com um companheiro

E não um juiz tão severo e inteiro.



1- Sirena: sereia. Neste contexto, a ninfa cantora.

2- Albuquerque, num acesso de fúria mandou enforcar um fidalgo que mantinha relações com uma jovem refém muçulmana, que era destinada aos serviços da rainha de Portugal.



Mas em tempo que fomes e asperezas,

Doenças, frechas e trovões ardentes,

A sazão e o lugar, fazem cruezas

Nos soldados a tudo obedientes,

Parece de selváticas brutezas,

De peitos inumanos e insolentes,

Dar extremo suplício pela culpa

Que a fraca humanidade e Amor desculpa.



46o Contudo, em tempos de fome e doutras rudezas,

De doenças, flechas e bombardeios ardentes,

A ocasião e o lugar farão surgir essas malvadezas

Nos soldados, que de resto, em tudo são excelentes;

Parece que as selvagens e brutas vilezas,

Típicas de corações desumanos e prepotentes,

Afloram e acham justo o extremo suplicio por uma culpa

Que a piedade humana, em nome do amor, desculpa.



Não será a culpa abominoso incesto

Nem violento estupro em virgem pura,

Nem menos adultério desonesto,

Mas cüa escrava vil, lasciva e escura.

Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,

Ou de usado a crueza fera e dura,

Cos seus üa ira insana não refreia,

Põe na fama alva noda negra e feia.



47o Não será a culpa abominável de um incesto,

Nem a de um violento estupro de uma virgem pura,

Nem a de um adultério desonesto;

Mas a culpa de vil sensualidade escura;

Se o coração, por ser cuidadoso ou por ser modesto,

Ou por ser habituado à crueldade feroz e dura,

Maltrata os subordinados e a fúria insana não refreia,

Colocará na límpida fama, uma mancha escura e feia.



Viu Alexandre Apeles namorado

Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,

Não sendo seu soldado exprimentado,

Nem vendo-se num cerco duro e urgente.

Sentiu Ciro que andava já abrasado

Araspas, de Panteia, em fogo ardente,

Que ele tomara em guarda, e prometia

Que nenhum mau desejo o venceria;



48o Alexandre (1) quando viu que Apeles (2) estava apaixonado

Por Campaspe (3), que era sua amante, cedeu-a alegremente,

Mesmo não sendo Apeles um soldado experimentado,

E sem que fosse pressionado por uma situação grave e urgente.

Também fez Ciro (4), quando viu que Araspas (5) estava abrasado

Por Pantéia (6) num imenso fogo ardente;

Pantéia, a quem jurou guardar e a quem prometia

Que nenhuma má intenção o venceria.



1- Alexandre Magno.

2- Apeles: pintor grego.

3- Campaspe: cortesã grega, amante de Alexandre Magno. O pintor Apeles se apaixonou por ela e Alexandre não se opôs a este amor.

4- Ciro: fundador do império persa, no século IV aC.

5- Araspas: soldado persa que se apaixonou por Pantéia, esposa do rei da Susiana, aprisionada pelo exercito de Ciro. O rei primeiramente o castigou, mas depois lhe deu o perdão.

6- Pantéia: mulher do rei Abradates, confiada por Ciro a Araspas.



Mas, vendo o ilustre Persa que vencido

Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,

Levemente o perdoa, e foi servido

Dele num caso grande, em recompensa.

Per força, de Judita foi marido

O férreo Balduíno; mas dispensa

Carlos, pai dela, posto em causas grandes,

Que viva e povoador seja de Frandes.



49o Mas, o ilustre persa vendo que Araspas fora vencido

Pelo amor, contra o qual não existe defesa,

Suavemente o perdoa e por ele foi servido

Numa grande dificuldade, com muita nobreza.

Tomada pela força, Judita (1) teve como marido

O feroz Balduíno, que apesar da vileza,

Do rei Carlos (3), seu sogro, atento em grandes coisas,

Recebeu o domínio e o governo da região de Frandes.



1) Judita: ou Judite, filha do rei da França, Carlos o Calvo, que foi raptada por Balduíno, com quem se casou.

2) Balduíno: chamado de “Braço de Ferro”, um dos nove condes de Flandres.



Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,

De Soares cantava, que as bandeiras

Faria tremular e pôr espanto

Pelas roxas Arábicas ribeiras:

- «Medina abominábil teme tanto,

Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras

Praias de Abássia; Barborá se teme

Do mal de que o empório Zeila geme.



50o A ninfa vai prosseguindo com o longo canto,

E agora sobre Soares (1), que as bandeiras

Faria tremular e causaria espanto

Nas rubras Arábicas (2) ribeiras.

A abominável Medina (3) treme tanto

Quanto Meca (4) e Gidá (5), e as derradeiras

Praias da Abássia (6); Barborá (7); também teme

Aquele terror, de cujo efeito Zilá (8) ainda geme.





1- Soares: Lopo de Soares Albergaria, terceiro governador da Índia.

2-Arábicas: as praias (ou ribeiras) do Mar Vermelho, pertencente aosárabes.

3-Medina: cidade sagrada dos árabes, onde fica o túmulo de Maomé.

4- Meca: cidade natal de Maomé.

5- Gidá: outro nome da cidade de Judá; cidade e porto no Mar Vermelho.

6- Abássia: a Abissínia, país africano.

7- Barborá: cidade na África oriental, na atual Somália.

8- Zilá ou Zeila: cidade africana situada no golfo de Aden. Na época era um famoso centro comercial, donde o “empório” citado por Camões.



«A nobre ilha também de Taprobana,

Já pelo nome antigo tão famosa

Quanto agora soberba e soberana

Pela cortiça cálida, cheirosa,

Dela dará tributo à Lusitana

Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,

Vencendo se erguerá na torre erguida,

Em Columbo, dos próprios tão temida.



51o Também a nobre ilha da Taprobana (1),

Que pelo antigo nome já é tão famosa,

E mais agora, soberba e soberana

Pela produção da cortiça leve e cheirosa,

Da qual pagará tributo à lusitana

Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,

Após a vitória, for hasteada na torre erguida

Em Columbo (2), tornando-a muito temida.



1- Taprobana: ilha do Ceilão. Atual Sri Lanka, ao sul da Índia.

2- Columbo: cidade e porto no Ceilão. Atual Colombo.



«Também Sequeira, as ondas Eritreias

Dividindo, abrirá novo caminho

Pera ti, grande Império, que te arreias

De seres de Candace e Sabá ninho.

Maçuá, com cisternas de água cheias

Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;

E fará descobir remotas Ilhas,

Que dão ao mundo novas maravilhas.



52o O notável Sequeira (1), a água Eritréia (2)

Irá dividindo e abrirá um novo caminho

Para um grande império, que a nada receia,

Pois é de Candance (3) e de Sabá (4), o ninho.

Verá Maçuá (5), com a sua cisterna cheia,

E o porto Arquico (6), que dali é vizinho;

E descobrirá longínquas ilhas,

Que dão ao mundo novas maravilhas.



1- Sequeira: Diogo Lopes de Sequeira, Vice-Rei da Índia , sucessor de Lopo Soares de Albergaria.

2- Eritréia: o Mar Vermelho.

3- Candance: Rainha da Etiópia. Para alguns, um nome próprio, para outros o título do cargo.

4- Sabá: referência a rainha de Sabá, chamada Belkiss. Segundo a tradição, Belkiss teria visitado o rei Salomão em Jerusalém e dele teve um filho, o qual seria o ascendente dos reis etíopes.

5- Maçuá: cidade no litoral do Mar Vermelho, na África Oriental.

6- Arquico: porto da África Ocidental.



«Virá despois Meneses, cujo ferro

Mais na Africa, que cá, terá provado;

Castigará de Ormuz soberba o erro,

Com lhe fazer tributo dar dobrado.

Também tu, Gama, em pago do desterro

Em que estás e serás inda tornado,

Cos títulos de Conde e d’honras nobres

Virás mandar a terra que descobres.



53o Depois virá Meneses (1), cujo ferro

Será mais usado na África do que neste lado;

Ele castigará a arrogância de Ormuz, que pelo seu erro,

Será obrigada a pagar um tributo dobrado.

Também tu, nobre Gama, como recompensa pelo desterro

Em que está, para cá, novamente será enviado,

Com o titulo de Conde e com outras honras nobres,

Para governar esta terra, que agora descobres.



1- Meneses: Dom Duarte de Meneses, quinto governador da Índia. Suas bélicas ações concentraram-se mais na África que na Índia, onde desfrutou de um vice-reinado tranqüilo.



«Mas aquela fatal necessidade

De quem ninguém se exime dos humanos,

Ilustrado co a Régia dignidade,

Te tirará do mundo e seus enganos.

Outro Meneses logo, cuja idade

É maior na prudência que nos anos,

Governará; e fará o ditoso Henrique

Que perpétua memória dele fique.



54o Mas a morte, aquela fatal necessidade,

Da qual ninguém escapa entre os humanos,

Celebrado com real dignidade,

Levar-te-á deste Mundo cheio de enganos.

Logo, outro Meneses (1), de pouca idade,

Governará com prudência, apesar dos poucos anos;

E tanto fará o generoso Henrique

Que a sua memória para sempre fique.



1- Meneses: Dom Henrique de Meneses, sétimo governador da Índia.



«Não vencerá somente os Malabares,

Destruindo Panane com Coulete,

Cometendo as bombardas, que, nos ares,

Se vingam só do peito que as comete;

Mas com virtudes, certo, singulares,

Vence os imigos d’alma todos sete;

De cobiça triunfa e incontinência,

Que em tal idade é suma de excelência.



55o Ele não vencerá apenas aos Malabares,

Destruindo Panane (1) e Coulete (2),

E enfrentando as bombas, que, nos ares,

Voltam e destroem àquele que as remete (3);

Mas com virtudes corretas e singulares,

Ele vence os Pecados Capitais, que são sete;

Triunfa sobre a cobiça e sobre a incontinência,

O que, nesta idade, é de suprema excelência.



1- Panane: cidade do reino de Calecu, na costa do Malabar.

2- Coulete: idem.

3- Note-se que Camões relata novamente o episódio onde os artifícios lançados contra os lusos, milagrosamente voltam para atingir quem os lançou. Antes foram as flexas, agora as bombas.



«Mas, despois que as Estrelas o chamarem,

Sucederás, ó forte Mascarenhas;

E, se injustos o mando te tomarem,

Prometo-te que fama eterna tenhas.

Pera teus inimigos confessarem

Teu valor alto, o fado quer que venhas

A mandar, mais de palmas coroado,

Que de fortuna justa acompanhado.



56o Depois que as estrelas o chamarem,

Suceder-lhe-a o forte Mascarenhas (1);

E se alguns injustos, o poder lhe tomarem,

Prometo-te que fama eterna tu tenhas

Para os inimigos reconhecerem

O teu alto valor; o Destino quer que venhas,

Com as palmas das vitórias mais coroado,

Do que pela boa sorte sendo acompanhado.



1- Mascarenhas: Pedro Mascarenhas assumiu o Governo aos 62 anos e não teve forças para consertar os desmandos existentes que iam das péssimas condições das Fortalezas e outras edificações, à ganância ostensiva de todos que tinham alguma influência. Ademais, sofreu com as intrigas de religiosos e com o não atendimento aos seus pedidos a Portugal por mais reforços militares. O rei luso, Dom João V, era fanático religioso e priorizava a “salvação espiritual” em detrimento das realizações materiais. Em sua gestão, perderam-se várias regiões e até uma Armada, tomada pelo pirata chamado Angriá. Esse conjunto levou-o a deixar o cargo ao seu sucessor, com quem manteve acirrada disputa pelo poder, até que o perdeu definitivamente.



«No reino de Bintão, que tantos danos

Terá a Malaca muito tempo feitos,

Num só dia as injúrias de mil anos

Vingarás, co valor de ilustres peitos.

Trabalhos e perigos inumanos,

Abrolhos férreos mil, passos estreitos,

Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:

Tudo fico que rompas e sometas.



57o No reino de Bintão (1), que tantos danos

Tem causado a Malaca (2), com vários malfeitos,

Num só dia, as injúrias de mil anos

Serão vingadas, com o valor de ilustres peitos.

Dificuldades e perigos sobre-humanos,

Mil espinhos férreos, caminhos estreitos,

Trincheiras, fortificações, lanças e setas:

Este luso vence todas as ações abjetas.



1- Bintão: ilha no Estreito de Singapura, ao sul de Malaca.

2- Malaca; península da Índia e importante entreposto comercial na época da expedição de Vasco da Gama.



«Mas na Índia, cobiça e ambição,

Que claramente põem aberto o rosto

Contra Deus e Justiça, te farão

Vitupério nenhum, mas só desgosto.

Quem faz injúria vil e sem razão,

Com forças e poder em que está posto,

Não vence; que a vitória verdadeira

É saber ter justiça nua e inteira.



58o Mas, na Índia, a cobiça e a ambição,

Claramente mostrarão o desnudado rosto

Contra Deus e contra a justiça; e se não trarão

Nenhuma derrota, causar-te-ão muito desgosto.

Pois quem faz a vil injúria, sem nenhuma razão,

Com as forças e o poder inerentes ao seu posto,

É apenas um falso vencedor; pois a vitória verdadeira

É saber praticar a justiça pura e inteira.



«Mas, contudo, não nego que Sampaio

Será, no esforço, ilustre e assinalado,

Mostrando-se no mar um fero raio,

Que de inimigos mil verá coalhado.

Em Bacanor fará cruel ensaio

No Malabar, pera que, amedrontado,

Despois a ser vencido dele venha

Cutiale, com quanta armada tenha.



59o Contudo, não nego que Sampaio (1)

Será determinado, ilustre e esforçado,

Mostrando-se no mar como um feroz raio,

O qual, de mil inimigos estará lotado.

Em Bacanor (2) fará um cruel ensaio

Nos Malabares, para que, amedrontado

E depois derrotado, em tal condição venha,

O cruel Cutiale (3), com as Armadas que tenha.



1) Sampaio: Lopo Vaz de Sampaio, governador da Índia após ter usurpado o cargo de Pêro de Mascarenhas.

2) Bacanor: cidade na costa ocidental da Índia entre Batecalá e Mangalor, no reino de Narsinga.

3) Cutiale: Comandante da Armada muçulmana que foi derrotada por Sampaio.



«E não menos de Dio a fera frota,

Que Chaúl temerá, de grande e ousada,

Fará, co a vista só, perdida e rota,

Por Heitor da Silveira e destroçada;

Por Heitor Português, de quem se nota

Que na costa Cambaica, sempre armada,

Será aos Guzarates tanto dano,

Quanto já foi aos Gregos o Troiano.



60o E não fará menos em Dio (1) e com a sua a feroz frota,

Também será muito temido em Chaul (2), já apavorada

Apenas por prever que estará perdida e rota;

E por Heitor da Silveira, de fato, será destroçada.

Pelo “Heitor Português” (3) de quem se nota

Que na costa Cambaica (4) sempre armada,

Trará aos Guzarates (5) tanto dano

Quanto os gregos fizeram ao ilustre troiano (6).



1- Dio: cidade da Índia, no golfo de Omã, península de Guzarate. Era uma das fortalezas portuguesas e sofreu dois cercos em 1538 e em 1547.

2- Chaul: cidade situada ao sul de Bombaim, na costa ocidental da Índia.

3- Heitor da Silveira: capitão português que derrotou a frota de Dio, aprisionando grande número de barcos.

4- Cambaica: o litoral de Cambaia.

5- Guzarates: naturais de Guzarate, nas costa de Cambaia.

6- Referência a Heitor, ilustre príncipe de Tróia. Camões compara o luso Heitor a ele.



«A Sampaio feroz sucederá

Cunha, que longo tempo tem o leme:

De Chale as torres altas erguerá,

Enquanto Dio ilustre dele treme;

O forte Baçaim se lhe dará,

Não sem sangue, porém, que nele geme

Melique, porque à força só de espada

A tranqueira soberba vê tomada.



61o Cunha (1), ao bravo Sampaio sucederá

E por longo tempo ficará no cargo e no leme;

Em Chalé (2), altas torres ele erguerá,

Enquanto a ilustre Dio (3), de medo treme;

Ao forte Baçaim (4) ele tomará,

Com muito sangue, porque nele geme

O Melique (5); mas só com a força da espada,

Ele fará com que a arrogante seja conquistada.



1- Cunha: Nuno da Cunha, filho de Tristão da Cunha. Governou a Índia entre 1529 a 1538. 2- Chalé: povoação a trinta quilômetros de Calecu, onde os portugueses construíram uma fortaleza.

3- Dio: cidade da Índia, no golfo de Omã, península de Guzarate. Era uma das fortalezas portuguesas.

4- Baçaim: praça forte indiana, entre Chaul e Dio, ao norte de Cambaia. Nela ficava o Melique da região, o que a tornava mais bem defendida.

5- Melique: Príncipe ou governador. Título nobiliárquico na Índia.



«Trás este vem Noronha, cujo auspício

De Dio os Rumes feros afugenta;

Dio, que o peito e bélico exercício

De António da Silveira bem sustenta.

Fará em Noronha a morte o usado ofício,

Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta

No governo do Império, cujo zelo

Com medo o Roxo Mar fará amarelo.



62o Depois dele virá Noronha (1), cujo talento,

Os ferozes Rumes (2), de Dio afugenta;

Dio voltará a atacar, mas o mal intento,

Antonio da Silveira (3) suporta e agüenta.

Depois que Noronha, na morte, fizer seu passamento,

Um descendente teu, ó Gama, é que experimenta

O governo desse Império e o fará com tanto zelo

Que de tanto medo, o Mar Vermelho ficará Amarelo.



1- Noronha: Garcia de Noronha, décimo governador da Índia e terceiro Vice-Rei.

2- Rumes: maometanos da Grécia e da Turquia.

3- Antonio da Silveira: comandante português que resistiu ao cerco em Dio.



«Das mãos do teu Estêvão vem tomar

As rédeas um, que já será ilustrado

No Brasil, com vencer e castigar

O pirata Francês, ao mar usado.

Despois, Capitão-mor do Índico mar,

O muro de Damão, soberbo e armado,

Escala e primeiro entra a porta aberta,

Que fogo e frechas mil terão coberta.



63o Sucedendo ao teu Estevão (1) vem tomar

As rédeas do governo, outro (2) já afamado

No Brasil, por vencer e duramente castigar

O pirata francês, que ao mar é acostumado.

Depois, como Capitão-Mor no Índico Mar,

As muralhas de Damão (3), arrogante e bem armado,

Servem-lhe de escada para ele deixar a porta aberta,

A qual, por mil flechas e por pesado fogo era coberta.



1- Estevão: Estevão da Gama, segundo filho de Vasco e governador da Índia entre 1540 e 1542.

2-Referência a Martim Afonso de Souza, fundador de São Vicente, no Brasil.

3- Damão: cidade na costa ocidental da Índia, ocupada em 1534.



«A este o Rei Cambaico soberbíssimo

Fortaleza dará na rica Dio,

Por que contra o Mogor poderosíssimo

Lhe ajude a defender o senhorio.

Despois irá com peito esforçadíssimo

A tolher que não passe o Rei gentio

De Calecu, que assi com quantos veio

O fará retirar, de sangue cheio.



64o A Martim Afonso, o rei cambaico, soberbíssimo,

Pedirá ajuda para defender a rica cidade de Dio

Contra o Mogor (1), império poderosíssimo.

Ele o ajuda a defender o senhorio

E depois irá com o coração determinadíssimo,

Impedir que ultrapassasse Calecu, o rei gentio;

O qual, com a corte e as tropas com que veio,

Retira-se amargando o insucesso feio.



1- Mogor: o império do Grão Mongol, fundado por um descendente de Tamerlão.



«Destruirá a cidade Repelim,

Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;

E despois, junto ao Cabo Comorim,

üa façanha faz esclarecida:

A frota principal do Samorim,

Que destruir o mundo não duvida,

Vencerá co furor do ferro e fogo;

Em si verá Beadala o Márcio jogo.



65o Também destruirá a cidade de Repelim (1),

Pondo o Rei, e muitos outros, em disparada corrida;

E depois, junto ao Cabo Comorim (2),

Realizará outra proeza, que será muito conhecida:

À frota principal do Samorim,

De cujo imenso poder não se duvida,

Ele vencerá, com a fúria do ferro e do fogo;

E Beadala (3) também sofrerá com o bélico jogo.



1) Repelim: cidade indiana, na costa da província de Malabar.

2) Comorim: Cabo ao sul da Índia.

3) Beadala: cidade indiana, a nordeste de Tuticorim.



«Tendo assi limpa a Índia dos imigos,

Virá despois com ceptro a governá-Ia

Sem que ache resistência nem perigos,

Que todos tremem dele e nenhum fala.

Só quis provar os ásperos castigos

Baticalá, que vira já Beadala.

De sangue e corpos mortos ficou cheia

E de fogo e trovões desfeita e feia.



66o Assim, limpado a Índia de todos os inimigos,

Voltará, depois, para governá-la,

Sem encontrar resistência ou outros perigos,

Pois todos o temerão e de guerras nem se fala.

Exceto Batecalá (1) que recebeu duros castigos,

Iguais aos que já tinha experimentado Beadala,

Que de sangue e de cadáveres ficou cheia,

E por bombas e fogo viu-se destruída e feia.



1- Batecalá: cidade indiana, na costa do Malabar, destruída e saqueadapor Martim Afonso de Souza.



«Este será Martinho, que de Marte

O nome tem co as obras derivado;

Tanto em armas ilustre em toda parte,

Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.

Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte

Português terá sempre levantado,

Conforme sucessor ao sucedido,

Que um ergue Dio, outro o defende erguido.



67o Este será Martinho (1), que do deus Marte,

Pelas suas proezas, tem o nome derivado;

Tanto por ser ilustre na guerra, em toda parte,

Como por ser sábio e equilibrado.

Castro (2) lhe sucederá e o estandarte

Português manterá sempre levantado,

Honrando o sucessor ao sucedido:

Um conquista Dio, o outro o tem bem defendido.



1- Martinho: abreviatura de Martim Afonso de Souza, que governou a Índia entre 1542 a 1545.

2- Castro: Dom João de Castro, Vice-Rei da Índia e uma das figuras mais importantes nas lutas dos portugueses na Índia.



«Persas feroces, Abassis e Rumes,

Que trazido de Roma o nome têm,

Vários de gestos, vários de costumes

(Que mil nações ao cerco feras vêm),

Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes

Porque uns poucos a terra lhe detêm.

Em sangue Português, juram, descridos,

De banhar os bigodes retorcidos.



68o Ferozes persas, abassis (1) e rumes (2),

Cujo nome deriva de Roma, em grande número vem;

São vários os tipos e variados os costumes

(Pois várias nações o feroz cerco mantém),

E todas farão ao céu inúteis queixumes,

Pois só uns poucos lusos a terra lhes detém.

E juram que em sangue português, confiantes,

Banharão os seus bigodes arrogantes.



1- Abassis: abexins, abissínios. Naturais da Abássia.

2- Rumes: maometanos da Grécia e da Turquia. Atualmente alguns ciganos da Europa do Leste são chamados de Rumes, mas não se tem certeza de serem descendentes daqueles primeiros.



«Basiliscos medonhos e liões,

Trabucos feros, minas encobertas,

Sustenta Mascarenhas cos barões

Que tão ledos as mortes têm por certas;

Até que, nas maiores opressões,

Castro libertador, fazendo ofertas

Das vidas de seus filhos, quer que fiquem

Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.



69o Com basiliscos (1) medonhos como leões,

Trabucos ferozes e bombas encobertas,

Luta Mascarenhas (2) junto de seus varões,

Que resignados, encaram suas mortes como certas;

Mas eis que, quando eram maiores as pressões,

Surge Castro (3) como libertador, fazendo ofertas

Das vidas dos próprios filhos, para que fiquem

Com a fama eterna e por Deus se sacrifiquem.



1) Basiliscos: antigos canhões de bronze.

2) Mascarenhas: Capitão-Mor de Dio, no segundo cerco da cidade.

3) Castro: Dom João de Castro, Vice-Rei na Índia entre 1500 e 1548 e uma das principais figuras dos portugueses nas lutas da Índia.



«Fernando, um deles, ramo da alta pranta,

Onde o violento fogo, com ruido,

Em pedaços os muros no ar levanta,

Será ali arrebatado e ao Céu subido.

Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta

E tem o caminho húmido impedido,

Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,

Os ventos e despois os inimigos.



70o Fernando (1), ramo daquela nobre planta,

Onde o fogo violento, de horrível ruído,

A muralha despedaçada no ar levanta,

Sucumbirá e ao céu será erguido.

Álvaro (2), contra o Inverno que a todos espanta,

E com o caminho do mar semi-impedido,

Conseguirá vencer as ondas, os perigos,

Os ventos e depois, os inimigos.



1- Fernando: Fernando de Castro, filho de Dom João de Castro.

2- Álvaro: Álvaro de Castro, filho de Dom João de Castro, conseguiu socorrer Dio apesar da adversidade do clima, em pleno e rigoroso inverno.



«Eis vem despois o pai, que as ondas corta

Co restante da gente Lusitana,

E com força e saber, que mais importa,

Batalha dá felice e soberana.

Uns, paredes subindo, escusam porta;

Outros a abrem na fera esquadra insana.

Feitos farão tão dinos de memória

Que não caibam em verso ou larga história.



71o Logo depois vem o pai, que as ondas corta

Com o restante da leal tropa lusitana;

E com força e saber, o que mais importa,

Lança-se na dura batalha dacroniana.

Alguns sobem pelas paredes e dispensam a porta;

Outros abrem brechas na feroz esquadra profana.

Ali os lusos farão proezas tão dignas de memória,

Que não caberão em versos nem numa vasta história.



«Este, despois, em campo se apresenta,

Vencedor forte e intrépido, ao possante

Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta

Da fera multidão quadrupedante.

Não menos suas terras mal sustenta

O Hidalcão, do braço triunfante

Que castigando vai Dabul na costa;

Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.



72o A seguir, Dom João de Castro se apresenta,

Como vencedor forte e intrépido, ao possante

Rei de Cambaia e lhe amedronta

Com a sua feroz tropa galopante.

Também a sua terra mal sustenta

O Hidalcão (1), contra o luso triunfante,

Que segue castigando Dabul (2), na Costa,

E até Pondá (3), que no sertão está exposta.



1) Hidalcão: Hidal-Cão, chefe indiano que combateu os portugueses e foi vencido por Dom João.

2) Dabul: povoado ao sul de Chaul, na Cambaia.

3) Pondá: cidade e fortaleza indiana a nordeste de Goa.



«Estes e outros Barões, por várias partes,

Dinos todos de fama e maravilha,

Fazendo-se na terra bravos Martes,

Virão lograr os gostos desta Ilha,

Varrendo triunfantes estandartes

Pelas ondas que corta a aguda quilha;

E acharão estas Ninfas e estas mesas,

Que glórias e honras são de árduas empresas.»



73o Estes e tantos outros lusos, em toda parte,

São dignos de fama por terem feito essa maravilha,

Fazendo-se na Terra bravos guerreiros, como Marte,

E também virão gozar os prazeres desta nossa ilha;

Chegarão ostentando os triunfantes estandartes

Pelas ondas do mar, cortado pela aguda quilha (1);

E como vós, encontrarão as ninfas e estas mesas,

Recompensa, glórias e honras por suas árduas empresas.



1- Quilha: peça de madeira resistente, que se estende da proa à popa do navio, na parte inferior.



Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,

Com sonoroso aplauso, vozes davam,

Com que festejam as alegres vodas

Que com tanto prazer se celebravam.

- «Por mais que da Fortuna andem as rodas

(Nüa cônsona voz todas soavam),

Não vos hão-de faltar, gente famosa,

Honra, valor e fama gloriosa.»



74o Assim cantava a ninfa; e as outras todas,

Com aplausos, as vozes também elevavam:

Festejavam aquelas alegres bodas

Que com tanto prazer celebravam.

Por mais que girem as Rodas

(Em uníssona voz cantavam),

Da Sorte, não lhes faltarão, ó gente famosa,

Muita honra, muito valor e fama gloriosa.



Despois que a corporal necessidade

Se satisfez do mantimento nobre,

E na harmonia e doce suavidade

Viram os altos feitos que descobre,

Tétis, de graça ornada e gravidade,

Pera que com mais alta glória dobre

As festas deste alegre e claro dia,

Pera o felice Gama assi dizia:



75o E depois que a corporal necessidade

Saciou-se do alimento nobre;

E depois que previram com suavidade,

As grandes proezas que lhes releva e descobre

Téthis, relatadas com graça e seriedade,

Buscam novos motivos para que a glória dobre,

E continuam as festas nesse claro e alegre dia;

E para o feliz Gama, a deusa, assim dizia:



- «Faz-te mercê, barão, a Sapiência

Suprema de, cos olhos corporais,

Veres o que não pode a vã ciência

Dos errados e míseros mortais.

Sigue-me firme e forte, com prudência,

Por este monte espesso, tu cos mais.»

Assi lhe diz e o guia por um mato

Árduo, difícil, duro a humano trato.



76o Concedeu-lhe uma graça, ó Gama, a Sapiência (1)

Suprema ao permitir que com os teus olhos corporais,

Tu vejas aquilo que não pode ser visto pela inútil ciência

Dos tolos Homens, frágeis mortais.

Siga-me, firme e forte, mas com prudência,

Por esse monte espesso, junto com os demais.

Assim lhe diz e o conduz por um mato

Cerrado, áspero e difícil ao humano contacto.



1-Suprema Sapiência: Deus.



Não andam muito que no erguido cume

Se acharam, onde um campo se esmaltava

De esmeraldas, rubis, tais que presume

A vista que divino chão pisava.

Aqui um globo vêm no ar, que o lume

Claríssimo por ele penetrava,

De modo que o seu centro está evidente,

Como a sua superfícia, claramente.



77o Não andam muito e logo no alto cume

Chegaram, onde um campo se enfeitava

Com esmeraldas e rubis, como presume

A vista, de quem o divino chão pisava.

Ali, avistam um globo no ar, no qual, o lume

Claríssimo no seu interior penetrava

De tal modo, que o seu centro era tão evidente,

Quanto à superfície e a ambos se via claramente.



Qual a matéria seja não se enxerga,

Mas enxerga-se bem que está composto

De vários orbes, que a Divina verga

Compôs, e um centro a todos só tem posto.

Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,

Nunca s’ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto

Por toda a parte tem; e em toda a parte

Começa e acaba, enfim, por divina arte,



78o De qual matéria o globo é feito não se enxerga,

Mas se vê muito bem que é composto

Pelos vários Mundos criados pela Divina Verga

E que há um centro para todos, como Deus deixou posto.

Revirando-o, ou quer se abaixe ou quer se erga,

O globo nunca se mexe e um mesmo rosto

Por todos os ângulos apresenta; e em toda parte,

Começa e acaba, pois é fabulosa a Divina Arte.



Uniforme, perfeito, em si sustido,

Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.

Vendo o Gama este globo, comovido

De espanto e de desejo ali ficou.

Diz-lhe a Deusa: - «O transunto, reduzido

Em pequeno volume, aqui te dou

Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas

Por onde vás e irás e o que desejas.



79o Uniforme, perfeito e auto-sustentado,

Igual ao arquétipo (1) que o modelou.

O Gama, vendo este globo, deslumbrado

De espanto e desejando melhor conhecer, ali ficou.

A deusa lhe diz: - é o retrato fiel e reduzido,

Que em pequeno volume aqui eu te dou,

É o universo, para que tu vejas,

Ande vais e por onde irás, e o que mais desejas.



1- Arquétipo: modelo, exemplo. No contexto, o Pensamento de Deus.



«Vês aqui a grande máquina do Mundo,

Etérea e elemental, que fabricada

Assi foi do Saber, alto e profundo,

Que é sem princípio e meta limitada.

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo e sua superfícia tão limada,

É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,

Que a tanto o engenho humano não se estende.


Obs: as estrofes que tratam desse tema tornaram-se célebres pela sua perfeição e alguns eruditos as citam como as melhores de todos os tempos. O erudito Antonio José Saraiva diz textualmente: é um dos sucessos de Camões. “As esferas são transparentes, luminosas, veem-se todas ao mesmo tempo com igual nitidez; movem-se e o movimento...” conseguir traduzir isto por meio da “pintura que fala” é atingir um dos cumes da literatura universal.