sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto IX

Notas à Edição


1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios. Essa adaptação não é uma tradução, até porque o idioma é único. Destarte, o leitor notará que as estrofes adaptadas não brilham pela perfeição da métrica ou do sistema rimático. E se tal não se dá o motivo é simples: é impossível copiar a genialidade do bardo, sendo, pois, a proposta dessa obra a de ser mero instrumento para auxiliar a compreensão do Épico de Camões.

2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.

3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.

4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer à perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.

5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.


Dedicado aos Poetas Portugueses

Inês Dupas e Giraldoff

Canto IX


Tiveram longamente na cidade,
Sem vender-se, a fazenda os dous feitores,
Que os Infiéis, por manha e falsidade,
Fazem que não lha comprem mercadores;
Que todo seu propósito e vontade
Era deter ali os descobridores
Da Índia tanto tempo que viessem
De Meca as naus, que as suas desfizessem.


1o Estiveram por muito tempo na cidade,
Sem conseguir vender as mercadorias, os dois feitores,
Pois os Mouros, com artimanhas e com falsidade,
Articularam para que não a comprasse os seus mercadores;
Pois tinham o intento e era a sua vontade
Que ali ficassem retidos os ilustres descobridores
Do Império da Índia, pois logo chegariam
De Meca (1) as suas naus e, então, eles os atacariam.


1- Meca: cidade sagrada para os árabes e a terra natal do profeta Maomé. Situada atualmente na Arábia Saudita.



Lá no seio Eritreu, onde fundada

Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu

(Do nome da irmã sua assi chamada,

Que despois em Suez se converteu),

Não longe o porto jaz da nomeada

Cidade Meca, que se engrandeceu

Com a superstição falsa e profana

Da religiosa água Maumetana.



2o Na costa do Mar Vermelho, onde foi fundada,

A cidade de Arsínoe (1) pelo egípcio Ptolomeu (2),

(Cidade que com o nome de sua irmã era chamada,

Mas que depois em “Cidade de Suez” se converteu),

Próximo dessa ilustre cidade e porto fica a afamada

Localidade de Meca que muito se engrandeceu

Com a falsa superstição e a fé profana

Da Sarracena religião Maometana.



1- Arsínoe: cidade junto de Suez, fundada por Ptolomeu Filadelfo.

2- Ptolomeu: rei do Egito no século III AC que desposou a Arsínoe, sua própria irmã.



Gidá se chama o porto aonde o trato

De todo o Roxo Mar mais florecia,

De que tinha proveito grande e grato

O Soldão que esse Reino possuía.

Daqui aos Malabares, por contrato

Dos Infiéis, fermosa companhia

De grandes naus, pelo Índico Oceano,

Especiaria vem buscar cada ano.



3o No porto chamado Gidá (1) ocorria o Tratado

Comercial que em todo Mar Vermelho mais crescia,

E que gerava um proveito grande e avantajado

Para o Soldão (2) que este reino possuía.

Dali, os malabares, conforme era contratado

Com os mouros, recebiam uma grande companhia

De naus, vindas pelo Índico Oceano,

Para adquirir especiarias, a cada ano.



1- Gidá: Outro nome de Judá, cidade e porto no Mar Vermelho.

2- Soldão: sultão. Governante hindu.



Por estas naus os Mouros esperavam,

Que, como fossem grandes e possantes,

Aquelas que o comércio lhe tomavam,

Com flamas abrasassem crepitantes.

Neste socorro tanto confiavam

Que já não querem mais dos navegantes

Senão que tanto tempo ali tardassem

Que da famosa Meca as naus chegassem.



4o Desses navios os maometanos esperavam,

Por serem armados, grandes e possantes,

Que os dos lusos, que o comércio lhes tomavam,

Destruíssem com fogo crepitante.

Neste socorro tanto confiavam,

Que só queriam que os lusos navegantes

Por muito tempo, ali, esperassem,

Até que os maometanos de Meca chegassem.





Mas o Governador dos Céus e gentes,

Que, pera quanto tem determinado,

De longe os meios dá convenientes

Por onde vem a efeito o fim fadado,

Influiu piadosos acidentes

De afeição em Monçaide, que guardado

Estava pera dar ao Gama aviso

E merecer por isso o Paraíso.



5o Mas Deus, que governa o Céu e as gentes,

Conforme já tinha pré-determinado

Há muito tempo, dá os meios convenientes

Para que se cumpra o que estava destinado.

Influencia para que ocorram benignos acidentes,

E que Monçaide, afeiçoado aos lusos, fique preparado

Para lhes dar o necessário aviso

Tornando-se, assim, merecedor do Paraíso.



Este, de quem se os Mouros não guardavam

Por ser Mouro como eles (antes era

Participante em quanto maquinavam),

A tenção lhe descobre torpe e fera.

Muitas vezes as naus que longe estavam

Visita, e com piedade considera

O dano sem razão que se lhe ordena

Pela maligna gente Sarracena.



6o Monçaide, em quem os mouros confiavam,

Pois também ele, mouro era

(Observando o que planejavam),

Descobriu-lhes a intenção suja e fera.

Muitas vezes, as naus que longe estavam,

Ele visitara e com piedade considera,

Que não havia motivos para tanta condenação,

Como planejavam os adoradores do Alcorão.



Informa o cauto Gama das armadas

Que de Arábica Meca vem cad'ano,

Que agora são dos seus tão desejadas,

Pera ser instrumento deste dano;

Diz-lhe que vêm de gente carregadas

E dos trovões horrendos de Vulcano,

E que pode ser delas oprimido,

Segundo estava mal apercebido.



7o Monçaide fala ao Gama a respeito das Armadas,

Que de Meca, na Arábia, chegam a cada ano,

As quais, agora, pelos malabares são muito desejadas,

Pois com elas, eles esperam causar-lhes um grande dano.

Diz-lhe que com muitos soldados elas estão equipadas

E que são armadas com os terríveis canhões de Vulcano (1),

E que, por elas, os lusos poderão ser derrotados,

Pois estavam mal preparados.



1- Vulcano: deus do fogo e o armeiro dos deuses.



O Gama, que também considerava

O tempo que pera a partida o chama,

E que despacho já não esperava

Milhor do Rei, que os Maumetanos ama,

Aos feitores que em terra estão, mandava

Que se tornem às naus; e, por que a fama

Desta súbita vinda os não impida,

Lhe manda que a fizessem escondida.



8o O Gama, que também já achava

Que era tempo para a partida que o chama,

E que pelo acordo já não mais esperava,

Pois via que o Samorim aos mouros ama.

Aos lusos que estavam na terra mandava

Que retornem às naus e para que a fama (1)

Dessa súbita partida não lhes impeça,

Ordena-lhes que saiam escondidos a toda pressa.



1-Fama: no contexto, o boato, ou a noticia.



Porém não tardou muito que, voando,

Um rumor não soasse, com verdade:

Que foram presos os feitores, quando

Foram sentidos vir-se da cidade.

Esta fama as orelhas penetrando

Do sábio Capitão, com brevidade

Faz represária nuns que às naus vieram

A vender pedraria que trouxeram.



9o Porém, não tardou para que voando

O rumor se espalhasse pela cidade,

E os mercadores lusos são presos, quando

Os mouros souberam que sairiam da localidade.

Mas a notícia dessa prisão logo foi chegando

Aos ouvidos do sábio Gama, que, com brevidade,

Fez a represália em alguns mouros que às naus vieram

Para venderem as jóias que trouxeram.



Eram estes antigos mercadores

Ricos em Calecu e conhecidos;

Da falta deles, logo entre os milhores

Sentido foi que estão no mar retidos.

Mas já nas naus os bons trabalhadores

Volvem o cabrestante e, repartidos

Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,

Outros quebram co peito duro a barra,



10o Esses mouros eram antigos mercadores

Em Calecu, muito ricos e muito conhecidos.

A falta desses ilustres e afamados senhores,

Logo foi sentida e soube-se estavam detidos.

Enquanto isso, nas naus, os bons trabalhadores,

Já acionavam o cabestrante (1) e, divididos,

Executavam várias funções; alguns puxavam a amarra,

Outros, remando, venciam os perigos da barra.



1- Cabestrante: máquina destinada a içar a âncora.



Outros pendem da verga e já desatam

A vela, que com grita se soltava,

Quando, com maior grita, ao Rei relatam

A pressa com que a armada se levava.

As mulheres e filhos, que se matam,

Daqueles que vão presos, onde estava

O Samorim se aqueixam que perdidos

Uns têm os pais, as outras os maridos.



11o Outros já sobem pelos mastros e desatam

A vela, que em meio da gritaria, se soltava.

Nisso, os indianos alvoroçados ao seu rei relatavam,

A pressa com que a Armada lusa se preparava.

As mulheres e filhos dos hindus quase se matavam

De pavor por lhes ver aprisionados e vão onde estava

O Samorim e com ele se queixam que estão perdidos

Os pais de alguns e de outras, os maridos.



Manda logo os feitores Lusitanos

Com toda sua fazenda, livremente,

Apesar dos imigos Maumetanos,

Por que lhe torne a sua presa gente.

Desculpas manda o Rei de seus enganos;

Recebe o Capitão de melhormente

Os presos que as desculpas e, tornando

Alguns negros, se parte, as velas dando.



12o O Samorim logo ordena que os lusitanos,

Com toda a sua mercadoria, sigam livremente,

Apesar de com isso contrariar aos maometanos,

Pois o que lhe interessava era resgatar a sua gente.

Pede desculpas ao Capitão por seus enganos;

Mas Vasco de Gama recebe mais contente

Os seus marujos que as desculpas e, liberando

Alguns prisioneiros, logo estão navegando.



Parte-se costa abaxo, porque entende

Que em vão co Rei gentio trabalhava

Em querer dele paz, a qual pretende

Por firmar o comércio que tratava;

Mas como aquela terra, que se estende

Pela Aurora, sabida já deixava,

Com estas novas torna à pátria cara,

Certos sinais levando do que achara.



13o Segue pela Costa abaixo porque entende

Que inutilmente com o rei Pagão tratava,

Que seria em vão esperar a paz, como pretende

Para confirmar o acordo comercial que buscava.

Contundo aquela terra imensa, que se estende

Por toda a região da Aurora, ele já deixava

Descoberta; e com essa boa notícia volta à cara

Pátria, levando claros sinais do que encontrara.



Leva alguns Malabares, que tomou

Per força, dos que o Samorim mandara

Quando os presos feitores lhe tornou;

Leva pimenta ardente, que comprara;

A seca flor de Banda não ficou;

A noz e o negro cravo, que faz clara

A nova ilha Maluco, co a canela

Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.

14o Leva alguns malabares que aprisionou,

Dentre aqueles que o Samorim mandara,

Quando aos seus tripulantes liberou;

Também a ardida pimenta que comprara;

A seca flor de Banda (1) também levou,

Assim como o cravo e a noz, tão rara;

E da Ilha Maluco (2), recém descoberta, leva a canela;

Produto que a torna, como o Ceilão, ilustre e bela.



1- Banda: arquipélago nas ilhas Molucas, famosas por sua produção de noz moscada.

2- Maluco: arquipélago da Oceania. As atuais Ilhas Molucas.

3- Ceilão: o atual Sri Lanka, ao sul da Índia.



Isto tudo lhe houvera a diligência

De Monçaide fiel, que também leva,

Que, inspirado de Angélica influência,

Quer no livro de Cristo que se escreva.

Oh, ditoso Africano, que a clemência

Divina assi tirou de escura treva,

E tão longe da pátria achou maneira

Pera subir à pátria verdadeira!



15o Produtos que conseguira graças à diligência

Do fiel Monçaide, a quem também leva,

O qual, inspirado por angelical influência,

Torna-se cristão e Livro de Cristo se inscreve.

Oh! Abençoado africano, que a clemência

Divina, dessa forma, libertou da escura treva,

E que, tão longe da terra natal, encontrou a maneira

De adentrar no Céu, que é a pátria verdadeira.



Apartadas assi da ardente costa

As venturosas naus, levando a proa

Pera onde a Natureza tinha posta

A meta Austrina da Esperança Boa,

Levando alegres novas e reposta

Da parte Oriental pera Lisboa,

Outra vez cometendo os duros medos

Do mar incerto, tímidos e ledos.



16o Já distanciados da tórrida costa

As aventureiras naus inclinam a proa

Para o lado onde a natureza deixa exposta,

O limite ao sul do Cabo “Esperança Boa (1)”.

Levando boas novidades e a positiva resposta

Sobre as terras do Oriente, vão para a amada Lisboa.

Seguem, enfrentando os perigos horrorosos

Do o mar incerto; alegres, mas temerosos.



1- O Cabo da Boa Esperança, junto à África do Sul. Camões usa o artifício de inverter partes do nome para atingir a rima exigida.



O prazer de chegar à pátria cara,

A seus penates caros e parentes,

Pera contar a peregrina e rara

Navegação, os vários céus e gentes;

Vir a lograr o prémio que ganhara,

Por tão longos trabalhos e acidentes:

Cada um tem por gosto tão perfeito,

Que o coração para ele é vaso estreito.



17o O prazer de chegar à pátria cara,

Aos seus Penates (1) e aos seus parentes,

Poder contar-lhes a peregrina e rara

Navegação e sobre os céus e as gentes;

Receber o prêmio que se ganhara,

Por tantos trabalhos e acidentes;

Cada qual, antevendo um prazer tão perfeito,

Sentia tal emoção que o coração lhe era estreito.



1- Penates: os deuses familiares. Mas neste contexto significa a casa paterna.



Porém a Deusa Cípria, que ordenada

Era, pera favor dos Lusitanos,

Do Padre Eterno, e por bom génio dada,

Que sempre os guia já de longos anos,

A glória por trabalhos alcançada,

Satisfação de bem sofridos danos,

Lhe andava já ordenando, e pretendia

Dar-lhe nos mares tristes, alegria.



18o Porém, a deusa Cípria (1), que fora designada

Para interceder pelos bravos lusitanos

Pelo Padre Eterno (2); e por ser ao Bem inclinada

Continuou a guiá-los, como faz há muitos anos.

E pelo trabalho perfeito, pela glória alcançada

Como recompensa pelos duros danos,

Já lhes preparava, como pretendia,

Dar-lhes, nos tristes mares, uma grande alegria.



1- Deusa Cípria: Vênus, assim chamada por ser adorada em Chipre.

2-Padre Eterno: Zeus ou Jupíter o Pai (padre) dos Deuses.



Despois de ter um pouco revolvido

Na mente o largo mar que navegaram,

Os trabalhos que pelo Deus nascido

Nas Anfiónias Tebas se causaram,

Já trazia de longe no sentido,

Pera prémio de quanto mal passaram,

Buscar-lhe algum deleite, algum descanso,

No Reino de cristal, líquido e manso;



19o Após algum tempo e depois de ter revivido

Na mente o vasto mar que o bravo Luso navegou,

E as dificuldades que o deus Baco, nascido

Nas Anfionéias Tebas (1) lhes causou,

Trouxe do fundo da mente e deixou decidido

Que como recompensa por tudo que se passou,

Ela lhes daria algumas delícias e algum descanso,

Naquele mar de cristal, líquido e manso;



1- Anfionéias Tebas: referência a Anfion, filho de Júpiter e de Antíopa que construiu os muros de Tebas apenas tocando a sua Lira, cujo som atraia as pedras que se ordenavam sozinhas.



Algum repouso, enfim, com que pudesse

Refocilar a lassa humanidade

Dos navegantes seus, como interesse

Do trabalho que encurta a breve idade.

Parece-lhe razão que conta desse

A seu filho, por cuja potestade

Os Deuses faz decer ao vil terreno

E os humanos subir ao Céu sereno.



20o Algum repouso, para que finalmente pudesse

Restaurar-se a fatigada comunidade

Dos seus navegantes prediletos, cujo interesse

Pelo trabalho era tanto que encurtavam a vida na jovem idade.

Pareceu-lhe, então, que seria bom que comunicasse

Ao seu filho (1) esse intento, pois ele, com a sua capacidade,

Fazia com que até os deuses descessem ao vil plano terreno

E elevava os Homens ao Olimpo sereno.



1- O filho de Vênus é Cupido, o deus do amor.



Isto bem revolvido, determina

De ter-lhe aparelhada, lá no meio

Das águas, algüa ínsula divina,

Ornada d'esmaltado e verde arreio;

Que muitas tem no reino que confina

Da primeira co terreno seio,

Afora as que possui soberanas

Pera dentro das portas Herculanas.



21o Isto estando definido, logo determina

Que lhe seja preparada, no centro

Daquelas águas, uma linda ilha divina,

Enfeitada com o colorido e verde ornamento;

Pois ela tem várias destas no mar que confina

A Terra, a mãe primeira do humano agrupamento;

Além das que possui, belas e soberanas,

No interior das portas Herculanas (1).



1-Herculanas: referência às colunas de Hércules. O Estreito de Gibraltar.



Ali quer que as aquáticas donzelas

Esperem os fortíssimos barões

(Todas as que têm título de belas,

Glória dos olhos, dor dos corações)

Com danças e coreias, porque nelas

Influirá secretas afeições,

Pera com mais vontade trabalharem

De contentar a quem se afeiçoarem.



22o Na ilha deseja que oceânicas donzelas,

Recepcionem os corajosos varões

(Que todas sejam classificadas como belas,

Que encham os olhos e sensibilizem os corações)

Com lindos bailados e belas flores, porque nelas,

Insuflará imensas e secretas paixões,

Para que com mais vontade recepcionem,

E mais alegrias deem àqueles que se afeiçoem.

Tal manha buscou já pera que aquele

Que de Anquises pariu, bem recebido

Fosse no campo que a bovina pele

Tomou de espaço, por sutil partido.

Seu filho vai buscar, porque só nele

Tem todo seu poder, fero Cupido,

Que, assi como naquela empresa antiga

A ajudou já, nestoutra a ajude e siga.



23o Essa artimanha já usou para que aquele

Seu outro filho (1) fosse bem recebido

No país de Dido (2) (que no inicio media uma pele

De touro) e por sua rainha fosse querido.

Segue em busca de seu filho porque só nele

Está todo o seu poder: o feroz Cupido.

E que ele, como naquela ocasião antiga,

Ajude-a e permita que o plano prossiga.



1- Referência a Enéas.

2- Referência ao País de Dido, irmã fugitiva de Pigmalião. O seu País, no inicio, era da extensão que um couro de touro poderia cercar. Dido apaixonou-se por Enéas, mas ele lhe abandonou e ela, então, suicidou-se.



No carro ajunta as aves que na vida

Vão da morte as exéquias celebrando,

E aquelas em que já foi convertida

Perístera, as boninas apanhando;

Em derredor da Deusa, já partida,

No ar lascivos beijos se vão dando;

Ela, por onde passa, o ar e o vento

Sereno faz. com brando movimento



24o No seu carro junta as aves (1) que na vida

As cerimônias da morte vão celebrando

E aquelas em que foi convertida

Perístera (2) enquanto a flores estava apanhando.

Ao redor da deusa, já de partida,

Enquanto voam, lascivos beijos vão trocando;

Vênus, por onde passa, torna o ar e o vento

Muito serenos, com o seu gentil movimento.



1- As aves: seriam os cisnes.

2- Perístera: certo dia, Afrodite e Eros apostaram quem colheria mais flores. A ninfa Perístera, dissimulada entre os arbustos, ajudou Afrodite que venceu a disputa. Eros, como castigo a transformou numa pomba.



Já sobre os Idálios montes pende,

Onde o filho frecheiro estava então,

Ajuntando outros muitos, que pretende

Fazer üa famosa expedição

Contra o mundo revelde, por que emende

Erros grandes que há dias nele estão,

Amando cousas que nos foram dadas,

Não pera ser amadas, mas usadas.



25o Vênus ruma para os montes Idálios (1), onde,

O seu filho flecheiro (2) estava então;

Ajuntando muitos outros deuses, ele pretende

Fazer uma grande e punitiva expedição

Contra o rebelde povo, para que se emende

Dos erros em que por muito tempo estão:

Veneram as coisas que lhes foram dadas

Para uso (3) e não para serem adoradas.



1- Montes Idálios: situados em Chipre.

2- Filho flecheiro: O Cupido.

3- Esta veneração pode ser entendida como o Animismo, em que objetos são deificados e então se veneram as frutas, os animais, as rochas etc.



Via Actéon na caça tão austero,

De cego na alegria bruta, insana,

Que, por seguir um feio animal fero,

Foge da gente e bela forma humana;

E por castigo quer, doce e severo,

Mostrar-lhe a fermosura de Diana.

(E guarde-se não seja inda comido

Desses cães que agora ama, e consumido).



26o Como exemplo via Acteon (1), na caça tão atroz,

Tão cego naquela alegria bruta e insana,

Que para perseguir um feio animal feroz,

Foge das pessoas e da figura humana;

E para castigá-lo, num misto de doce e severo,

Mostra-lhe a divina beleza de Diana.

(E que ele se cuide para que não seja comido

Pelos cães que ama e por quem será consumido).

1) Acteon: o caçador que surpreendeu a deusa Diana no banho e foi transformado em cervo, sendo, então, devorado pelos cães. Geralmente interpreta-se esta passagem como uma alusão ao fato de Dom Sebastião relutar em casar-se e ser um grande entusiasta da caça. Os cães da fábula seriam os cortesãos que aconselhavam mal ao rei.



E vê do mundo todo os principais

Que nenhum no bem púbrico imagina;

Vê neles que não têm amor a mais

Que a si somente, e a quem Filáucia ensina;

Vê que esses que frequentam os reais

Paços, por verdadeira e sã doutrina

Vendem adulação, que mal consente

Mondar-se o novo trigo florecente.



27o Também vê que em todo Mundo os líderes principais

Não se preocupam com o bem estar público, como se imagina;

Vislumbra que todos eles não têm amor a mais

Nada que não seja a si próprio; a eles o egoísmo fascina;

Vê, ainda, que esses (1) que freqüentam os reais

Palácios, e como se fosse uma saudável doutrina,

Oferecem uma reles adulação, que mal consente

Que seja bem moldado o futuro rei, ainda adolescente.



1- Na estrofe 27 e mais algumas a seguir, Camões continua a tecer críticas, com esta metáfora, aos conselheiros do rei Dom Sebastião, ao clero e à nobreza em geral.



Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino, e ao povo caridade,

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade;

Da feia tirania e de aspereza

Fazem direito e vã severidade;

Leis em favor do Rei se estabelecem,

As em favor do povo só perecem.



28o Vê que quem mais deve aos que vivem na pobreza,

Uma divina piedade e a todos uma sincera caridade,

Buscam apenas o poder e a riqueza,

Simulando que praticam a justiça e a integridade.

Transformam a cruel tirania e a malvadeza

Em Direito e em inútil severidade.

Ditam leis que só aos reis e nobres favoreçam;

Enquanto que as do povo deixam que pereçam.

Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,

Senão o que somente mal deseja.

Não quer que tanto tempo se releve

O castigo que duro e justo seja.

Seus ministros ajunta, por que leve

Exércitos conformes à peleja

Que espera ter co a mal regida gente

Que lhe não for agora obediente.



29o Finalmente observa que ninguém ama aquilo que deve,

Mas idolatram apenas aquilo que o poder do Mal deseja.

E agora, farto dessas iniqüidades, não quer se releve

O castigo para esses e que o mesmo, duro e justo seja.

Junta os seus vários aliados, para que leve

Um exército compatível com o tamanho da peleja

Que travará contra essa desvairada gente,

Se doravante ela não lhe for obediente.



Muitos destes mininos voadores

Estão em várias obras trabalhando:

Uns amolando ferros passadores,

Outros hásteas de setas delgaçando.

Trabalhando, cantando estão de amores,

Vários casos em verso modulando;

Melodia sonora e concertada,

Suave a letra, angélica a soada.



30o Muitos desses anjos voadores

Estão em vários serviços trabalhando:

Uns estão amolando os ferros passadores

E outros as flechas estão afiando.

Enquanto trabalham cantam os amores,

E vários casos vão versificando

Numa melodia sonora e afinada,

De letra suave e angelical toada.



Nas fráguas imortais onde forjavam

Pera as setas as pontas penetrantes,

Por lenha corações ardendo estavam,

Vivas entranhas inda palpitantes;

As águas onde os ferros temperavam,

Lágrimas são de míseros amantes;

A viva flama, o nunca morto lume,

Desejo é só que queima e não consume.



31o Nas fornalhas eternas onde forjavam

As pontas das setas penetrantes,

Como lenha, corações estavam,

Vividas entranhas ainda palpitantes.

As águas onde os aços eles temperavam

Eram as lágrimas de sofridos amantes;

A viva chama, o eterno lume,

O desejo que queima, mas não consome.



Alguns exercitando a mão andavam

Nos duros corações da plebe ruda;

Crebros suspiros pelo ar soavam

Dos que feridos vão da seta aguda.

Fermosas Ninfas são as que curavam

As chagas recebidas, cuja ajuda

Não somente dá vida aos mal feridos,

Mas põe em vida os inda não nascidos.



32o Alguns, exercitando a mão, já disparavam

Setas nos corações da plebe rude e surda;

Freqüentes suspiros pelo ar ecoavam,

Dos que foram feridos pela seta aguda;

Formosas ninfas é que curavam

As feridas recebidas e essa ajuda,

Não apenas dá vida aos mal feridos,

Como dá à luz os não nascidos.



Fermosas são algüas e outras feias,

Segundo a qualidade for das chagas,

Que o veneno espalhado pelas veias

Curam-no às vezes ásperas triagas.

Alguns ficam ligados em cadeias

Por palavras sutis de sábias magas;

Isto acontece às vezes, quando as setas

Acertam de levar ervas secretas.



33o Algumas feridas são belas e outras feias,

Conforme for o tipo das chagas,

Cujo veneno, espalhado pelas veias,

Às vezes são curados por amargas triagas (1).

Alguns amantes ficam atados em duras cadeias

Pelas hábeis palavras de sábias feiticeiras e magas.

Isto acontece às vezes, quando as setas

Levam ao alvo, as ervas secretas (2).



1- Triagas: remédio de composição complicada que antigamente se aplicava contra a mordida de qualquer animal venenoso.

2- Ervas secretas: os filtros de amor. Poções para se conquistar o amado.



Destes tiros assi desordenados,

Que estes moços mal destros vão tirando,

Nascem amores mil desconcertados

Entre o povo ferido miserando;

E também nos heróis de altos estados

Exemplos mil se vêm de amor nefando.

Qual o das moças Bíbli e Cinireia,

Um mancebo de Assíria, um de Judeia.



34o Desses arremessos desordenados,

Que os inábeis jovens Cupidos vão atirando,

É que nascem os amores mal arranjados

Entre os plebeus e o povo miserando;

E também entre os heróis de altos estados

Avistam-se mil exemplos desse amor nefando,

Como o daquelas moças Bíbli (1) e Ciniréia (2),

Que se apaixonaram por homens da Assíria e da Judéia.



1- Bíbli: filha de Mileto e de Ciane, que se apaixonou pelo seu irmão Cauno e foi, por isso, transformada em fonte.

2- Ciniréia: também chamada de Smirna e Mirra, que cometeu incesto com o pai.



E vós, ó poderosos, por pastoras

Muitas vezes ferido o peito vedes;

E por baixos e rudos, vós, senhoras,

Também vos tomam nas Vulcâneas redes.

Uns esperando andais nocturnas horas,

Outros subis telhados e paredes;

Mas eu creio que deste amor indino

É mais culpa a da mãe que a do minino.



35o E vós, poderosos, que por simples pastoras

Em muitas vezes o coração ferido vedes;

E por homens sórdidos e rudes, ó vós, senhoras (1),

Também são aprisionadas nas férreas redes.

Alguns caminham até chegar as noturnas horas,

Outros escalam telhados e paredes;

Mas eu creio que deste amor indigno

Mais culpada é Vênus e não o Cupido menino.



1-aqui é necessário a pronúncia fechada - “Senhôra” - que se usa em Portugal para se atingir a rima desejada.



Mas já no verde prado o carro leve

Punham os brancos cisnes mansamente;

E Dione, que as rosas entre a neve

No rosto traz, decia diligente.

O frecheiro que contra o Céu se atreve

A recebê-la vem, ledo e contente;

Vêm todos os Cupidos servidores

Beijar a mão à Deusa dos amores.



36o Mas já, no verdejante campo, o carro leve

Os cisnes brancos desciam suavemente;

E Vênus, que traz os tons rosados entre a neve

Do seu alvo rosto, descia diligente.

O Cupido flecheiro, que até contra os deuses se atreve,

Vem recebê-la alegre e contente,

Junto dele também vem os Cupidos servidores,

Para beijar as mãos da deusa dos amores.



Ela, por que não gaste o tempo em vão

Nos braços tendo o filho, confiada

Lhe diz: - «Amado filho, em cuja mão

Toda minha potência está fundada;

Filho, em quem minhas forças sempre estão,

Tu, que as armas Tifeias tens em nada,

A socorrer-me a tua potestade

Me traz especial necessidade.



37o Para não desperdiçar tempo em vão,

Ela abraça-se ao filho e confiada

Diz: - Amado filho, em cuja mão

Toda a minha potência está apoiada;

Filho, em quem as minhas forças sempre estão,

Tu, para quem as armas Tiféias (1) não valem nada,

Venha socorrer-me com a tua capacidade

Pois tenho uma especial necessidade.



1- Tiféias: os raios que Júpiter utilizou para exterminar a Tifeu durante a guerra contra os Gigantes.

«Bem vês as Lusitânicas fadigas,

Que eu já de muito longe favoreço,

Porque das Parcas sei, minhas amigas,

Que me hão-de venerar e ter em preço.

E porque tanto imitam as antigas

Obras de meus Romanos, me ofereço

A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,

A quanto se estender o poder nosso.



38o Veja que lusos estão esgotados pelas fadigas,

E como tu sabes, sempre os favoreço

Porque sei, através das Parcas (1) amigas,

Que me venerarão sempre com muito apreço.

E também porque revivem as antigas

Proezas dos amados romanos, é que me ofereço,

Para lhes dar toda a ajuda que posso,

Até o limite do poder nosso.



1- Parcas: seres infernais, senhoras da vida humana.



«E porque das insídias do odioso

Baco foram na India molestados,

E das injúrias sós do mar undoso

Puderam mais ser mortos que cansados,

No mesmo mar, que sempre temeroso

Lhe foi, quero que sejam repousados,

Tomando aquele prémio e doce glória

Do trabalho que faz clara a memória.



39o E porque com as ciladas do odioso

Baco, na Índia, eles foram molestados,

E porque com as dificuldades do mar raivoso

Quase foram mortos e estão mais do que cansados,

Neste mesmo mar, que sempre lhes foi perigoso,

É que quero que sejam recompensados,

Recebendo o prêmio e a doce glória

Pela proeza que fizeram, digna de eterna memória.



«E pera isso queria que, feridas

As filhas de Nereu no ponto fundo,

D'amor dos Lusitanos incendidas

Que vêm de descobrir o novo mundo,

Todas nüa ilha juntas e subidas,

(Ilha que nas entranhas do profundo

Oceano terei aparelhada,

De dões de Flora e Zéfiro adornada);



40o E para isso eu queria que fossem feridas

As filhas de Nereu (1), habitantes do mar profundo,

E que de amor aos lusitanos elas fossem acendidas

Para amarem aos descobridores do novo mundo.

Todas juntas, numa ilha que foi especialmente criada

Nas entranhas do misterioso e fundo

Oceano e que será belissimamente enfeitada,

Pelas plantas de Ceres (2) e por Zéfiro (3) refrescada;



1- As filhas de Nereu: as Nereidas. Ninfas do mar.

2- Ceres: deusa da agricultura, dos frutos.

3- Zéfiro: personificação mitológica do vento suave. Era o marido de Flora, a deusa das flores, a quem havia raptado.



«Ali, com mil refrescos e manjares,

Com vinhos odoríferos e rosas,

Em cristalinos paços singulares,

Fermosos leitos, e elas mais fermosas;

Enfim, com mil deleites não vulgares,

Os esperem as Ninfas amorosas,

D'amor feridas, pera lhe entregarem

Quanto delas os olhos cobiçarem.



41o Ali, com mil refrescos e manjares,

Com vinho perfumado e com rosas,

Em claros terrenos singulares,

Em belos leitos, elas estejam muito formosas;

Para que com mil prazeres invulgares,

Esperem pelos lusos, lindas e amorosas,

E por ti Cupido feridas, para lhes entregarem

Tudo aquilo, que delas, eles cobiçarem.



«Quero que haja no reino Neptunino,

Onde eu nasci, progénie forte e bela;

E tome exemplo o mundo vil, malino,

Que contra tua potência se rebela,

Por que entendam que muro Adamantino

Nem triste hipocrisia val contra ela;

Mal haverá na terra quem se guarde

Se teu fogo imortal nas águas arde.»



42o Quero que exista no reino Netunino (1)

Onde nasci uma descendência forte e bela;

Que sirva de exemplo ao Mundo vil e maligno,

Que contra o teu poder do amor se rebela.

Que todos entendam que nem muro ferino,

Nem feias hipocrisias possam contra ela.

E que mal haverá na Terra quem se guarde,

Quando a ira eterna, dessa geração, arde.



1- Reino Netunino: o mar do deus Netuno.



Assi Vénus propôs; e o filho inico,

Pera lhe obedecer, já se apercebe:

Manda trazer o arco ebúrneo rico,

Onde as setas de ponta de ouro embebe.

Com gesto ledo a Cípria, e impudico,

Dentro no carro o filho seu recebe;

A rédea larga às aves cujo canto

A Faetonteia morte chorou tanto.



43o Vênus assim propôs; e o seu filho iníquo,

Para obedecer-lhe, logo se prepara,

Ordena que se lhe traga o arco liso e rico,

Com o qual, a seta de ponta de ouro, dispara.

A deusa Cípria (1) com o rosto alegre e impudíco,

No seu carro ao filho recebe e apara;

Com as rédeas aciona as aves, cujo canto,

A Faetontéia (2) morte chorou tanto.



1-Deusa Cípria: a deusa Vênus, assim chamada por ser celebrada em Chipre.

2- Faetontéia: referência a morte de Fáeton, muito chorada por Cicno, rei da Ligúria, que foi transformado em cisne e ganhou uma voz melodiosa.



Mas diz Cupido que era necessária

üa famosa e célebre terceira,

Que, posto que mil vezes lhe é contrária,

Outras muitas a tem por companheira:

A Deusa Giganteia, temerária,

Jactante, mentirosa e verdadeira,

Que com cem olhos vê, e, por onde voa,

O que vê, com mil bocas apregoa.



44o Mas o Cupido diz que seria necessária

A ajuda da famosa e célebre deusa terceira (1).

Ainda que em muitas vezes ela lhe fosse contrária,

Em muitas outras situações, ela foi leal companheira.

A deusa Gigantéia (1) temerária,

Jactante, mentirosa ou verdadeira,

Que com cem olhos a tudo vê e por onde voa,

Aquilo que viu, com mil bocas apregoa.



1- Deusa Terceira ou a Gigantéia: a deusa Fama. Irmã dos Gigantes que afrontaram o Olimpo.



Vão-a buscar e mandam-a diante,

Que celebrando vá com tuba clara

Os louvores da gente navegante,

Mais do que nunca os d'outrem celebrara.

Já, murmurando, a Fama penetrante

Pelas fundas cavernas se espalhara;

Fala verdade, havida por verdade,

Que junto a Deusa traz Credulidade.



45o Vão buscá-la e mandam que vá adiante,

Para que vá louvando, com a trombeta clara,

As glórias daquele povo navegante,

Mais do que a de qualquer outro já se louvara.

Logo, murmurando, a deusa Fama, penetrante,

Pelas fundas cavernas já se espalhara;

Fala a verdade e só a verdade,

Pois consigo traz a deusa Credulidade (1).



1- Credulidade: divindade romana que nesta estrófe, Camões apresenta como acompanhante da deusa Fama.



O louvor grande, o rumor excelente,

No coração dos Deuses que indinados

Foram por Baco contra a ilustre gente,

Mudando, os fez um pouco afeiçoados.

O peito feminil, que levemente

Muda quaisquer propósitos tomados,

Já julga por mau zelo e por crueza

Desejar mal a tanta fortaleza.



46o O grande louvor, o rumor excelente,

Chega aos deuses do Mar; antes influenciados

Por Baco contra a ilustre gente,

Agora vão se tornando mais afeiçoados.

O coração feminino, que levemente

Oscila entre os juízos já formados,

Já julgava que era errado e de muita malvadeza,

Querer mal àquele povo que tinha tanta grandeza.



Despede nisto o fero moço as setas,

üa após outra: geme o mar cos tiros;

Direitas pelas ondas inquietas

Algüas vão, e algüas fazem giros;

Caem as Ninfas, lançam das secretas

Entranhas ardentíssimos suspiros;

Cai qualquer, sem ver o vulto que ama,

Que tanto como a vista pode a fama.



47o Nisto, o feroz Cupido dispara as setas,

Uma após a outra e o mar geme com esses tiros;

Agumas retas e certeiras, pelas ondas inquietas

Vão, enquanto que outras fazem curvas e giros,

Mas todas atingem as ninfas que lançam das secretas

Cavernas, ardentíssimos suspiros;

Caem todas, mesmo sem terem visto o vulto de quem ama,

Pois tem tanto poder quanto a vista, a deusa Fama.



Os cornos ajuntou da ebúrnea Lüa,

Com força, o moço indómito, excessiva,

Que Tétis quer ferir mais que nenhüa,

Porque mais que nenhüa lhe era esquiva.

Já não fica na aljava seta algüa,

Nem nos equóreos campos Ninfa viva;

E se, feridas, inda estão vivendo,

Será pera sentir que vão morrendo.



48o Até as hastes da alva Lua,

O indomável Cupido juntou, com força excessiva;

Mas Téthis (1) não quer que fira a mais nenhuma,

Até porque, mais nenhuma já era esquiva.

Também já não resta, na aljava, seta alguma,

E no Oceano não há nenhuma ninfa viva;

E aquelas feridas, que ainda estão vivendo,

Será apenas para sentirem que estão morrendo.





1- Téthis: a deusa do mar.



Dai lugar, altas e cerúleas ondas,

Que, vedes, Vénus traz a medicina,

Mostrando as brancas velas e redondas,

Que vêm por cima da água Neptunina.

Pera que tu recíproco respondas,

Ardente Amor, à flama feminina,

É forçado que a pudicícia honesta

Faça quanto lhe Vénus amoesta.



49o Cedam o lugar, altas e azuladas ondas,

Pois Vênus traz, para o mal do amor, a correta medicina,

E veja que vai lhes mostrando as velas brancas e redondas,

Que chegam por cima da água Netunina.

Mas para que tu, bravo luso, respondas

Ao amor e à chama feminina,

É necessário que a sua pudícicia honesta

Seja afastada, como Vênus ao Cupido admoesta.



Já todo o belo coro se aparelha

Das Nereidas, e junto caminhava

Em coreias gentis, usança velha,

Pera a ilha a que Vénus as guiava.

Ali a fermosa Deusa lhe aconselha

O que ela fez mil vezes, quando amava;

Elas, que vão do doce amor vencidas,

Estão a seu conselho oferecidas.



50o Logo o belo grupo de Nereidas já se arrumara;

E sem qualquer demora já se encaminhava,

Dançando gentis bailados, como sempre se usara,

Para a ilha que Vênus lhes indicava.

Ali a formosa deusa lhes prepara

Para agirem como ela, no tempo em que amava.

E elas, que pelo doce amor seguem vencidas,

A esses conselhos se mostram oferecidas.









Cortando vão as naus a larga via

Do mar ingente pera a pátria amada,

Desejando prover-se de água fria

Pera a grande viagem prolongada,

Quando, juntas, com súbita alegria,

Houveram vista da Ilha namorada,

Rompendo pelo céu a mãe fermosa

De Menónio, suave e deleitosa.



51o As naus vão cortando a larga via

Do mar imenso no rumo da Pátria amada,

Mas como desejavam abastecer-se de água fria,

Para aquela viagem dura e prolongada,

Foi que viram com súbita e grande alegria,

A ilha que era chamada de “A Namorada”,

Na hora em que rompia a Aurora, formosa

Mãe de Menônio (1), suave e graciosa.



1- Menônio: ou Mennon, rei da Etiópia, filho da Aurora e de Titão.



De longe a Ilha viram, fresca e bela,

Que Vénus pelas ondas lha levava

(Bem como o vento leva branca vela)

Pera onde a forte armada se enxergava;

Que, por que não passassem, sem que nela

Tomassem porto, como desejava,

Pera onde as naus navegam a movia

A Acidália, que tudo, enfim, podia.



52o De longe avistaram a ilha, fresca e bela,

Que Vênus, pelas ondas, empurrava,

(Como o vento empurrava a branca vela),

Para o lado onde a forte armada estava;

Pois não queria que passassem por ela,

Sem que parassem, como ela desejava,

E assim, para onde as naves iam, a ilha movia

A deusa Vênus de Acidália (1), que tudo podia.



1-Acidália: a deusa Vênus, assim chamada em função da fonte na Beócia onde as suas filhas, as Graças, brincavam.



Mas firme a fez e imóbil, como viu

Que era dos Nautas vista e demandada,

Qual ficou Delos, tanto que pariu

Latona Febo e a Deusa à caça usada.

Pera lá logo a proa o mar abriu,

Onde a costa fazia üa enseada

Curva e quieta, cuja branca areia

Pintou de ruivas conchas Citereia.



53o Porém, fez a ilha imóvel quando viu

Que já tinha sido vista e demandada;

Igual a Delos (1) quando nela pariu

Latona (2), Febo (3) e a deusa da caçada (4).

Para lá logo as proas das naus, o mar abriu

Seguindo para onde a costa fazia uma enseada,

Curva e mansa, cuja branca areia

Era salpicada de rubras conchas pela Citeréia (5).



1- Ilha de Delos: a menor das ilhas Cíclades, onde ficava o mais importante templo de Apolo. Segundo a mitologia, era uma ilha flutuante até que nela,

Latona instalou-se para parir a Apolo e a deusa Diana.

2- Latona: amante de Júpiter e mãe de Apolo e de Diana.

3- Febo: Apolo, deus do Sol.

4- Deusa da caçada: Vênus (Artémis)

5- Citeréia: Vênus, assim chamada por ser celebrada em Citera, atual Cérigo. Na linguagem clássica, Citera é a pátria alegórica dos amores.



Três fermosos outeiros se mostravam,

Erguidos com soberba graciosa,

Que de gramíneo esmalte se adornavam,

Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.

Claras fontes e límpidas manavam

Do cume, que a verdura tem viçosa;

Por entre pedras alvas se deriva

A sonorosa linfa fugitiva.



54o Três belos outeiros se mostravam,

Erguidos com altivez majestosa,

Que de verdejantes gramados se enfeitavam,

Na linda ilha, alegre e prazerosa.

Fontes claras e límpidas minavam

Do alto mantendo a vegetação viçosa;

Por entre brancas pedras escorria

A sonora água que ali corria.





Num vale ameno, que os outeiros fende.

Vinham as claras águas ajuntar-se,

Onde üa mesa fazem, que se estende

Tão bela quanto pode imaginar-se.

Arvoredo gentil sobre ela pende,

Como que pronto está pera afeitar-se,

Vendo-se no cristal resplandecente,

Que em si o está pintando pròpriamente.



55o Num vale ameno, que os montes fende,

As claras águas vinham se juntar,

Formando uma mesa, que muito se estende

E tão bela quanto se pode imaginar.

Um gentil arvoredo, sobre essas águas, pende,

Como se estivesse pronto para se enfeitar,

Refletindo no cristal resplandecente,

Que em si o retrata fielmente.



Mil árvores estão ao céu subindo,

Com pomos odoríferos e belos;

A laranjeira tem no fruito lindo

A cor que tinha Dafne nos cabelos.

Encosta-se no chão, que está caindo,

A cidreira cos pesos amarelos;

Os fermosos limões ali cheirando,

Estão virgíneas tetas imitando.



56o Mil árvores, ao céu, estão subindo,

Com frutos perfumados e belos;

A laranjeira tem no fruto lindo

A mesma cor que Dafne (1) tem nos cabelos.

Encosta-se no chão, já caindo,

A cidreira com os seus frutos amarelos;

Os formosos limões, ali perfumando,

A virginais seios estão imitando.



1- Dafne: ninfa que ao ser perseguida por Apolo invocou a mãe Terra e foi transformada num loureiro.



As árvores agrestes, que os outeiros

Têm com frondente coma ennobrecidos,

Álemos são de Alcides, e os loureiros

Mirtos de Citereia, cos pinheiros

De Cibele, por outro amor vencidos;

Está apontando o agudo cipariso

Pera onde é posto o etéreo Paraíso.



57o As árvores silvestres, que os outeiros

Ostentam com grandes copas, são os enobrecidos

Álamos de Alcides (1) e os loureiros

Que pelo deus louro (2) são amados e queridos;

Mirtos (3) de Citeréia (4) e os pinheiros

De Cibele (5), que por outro amor foram vencidos;

E apontando está, o afinado cipariso (6),

Para o alto, onde fica o Celeste Paraíso.



1- Alcides: Ulisses, assim chamado por ser neto de Alceu.

2- Referência a Apolo.

3- Mirta: ou murta, arbustos pequenos.

4- Citeréia: a deusa Vênus.

5- Cibele: esposa de Saturno. O pinheiro de Cibele simboliza Átis, um pastor por quem a deusa se apaixonou e que a enganou com uma ninfa, sendo, então, por vingança de Cibele, transformado nesta árvore.

6- Cipariso: ciprestes.



Os dões que dá Pomona ali Natura

Produze, diferentes nos sabores,

Sem ter necessidade de cultura,

Que sem ela se dão muito milhores:

As cereijas, purpúreas na pintura,

As amoras, que o nome têm de amores,

O pomo que da pátria Pérsia veio,

Milhor tornado no terreno alheio;



58o As dádivas de Pomona (1) a Natureza

Produz, em diferentes sabores,

Sem a necessidade de cultivo e sem aspereza,

Os quais, desse modo, ficam muito melhores:

As cerejas vermelhas, uma pintura de grandeza,

As amoras, cujo nome deriva de amores,

E o fruto (2) que da distante Pérsia veio,

Ficam ainda melhores naquele território alheio.



1- Pomona: deusa dos pomares e dos jardins.

2- O pêssego.



Abre a romã, mostrando a rubicunda

Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes,

Entre os braços do ulmeiro está a jocunda

Vide, cuns cachos roxos e outros verdes;

E vós, se na vossa árvore fecunda,

Peras piramidais, viver quiserdes,

Entregai-vos ao dano que cos bicos

Em vós fazem os pássaros inicos.



59o A romã se abre mostrando a rubicunda

Cor vermelha, da qual, até tu, rubi, perdes;

Entre os ramos do Olmeiro está a fecunda

Videira com lindos cachos roxos e verdes;

E, vós, se nessas árvores frondosas,

Nos seus pontos mais altos, quiser viver,

Prepara-te para as gentis bicadas

Que pelos lindos pássaros lhe serão aplicadas.



Pois a tapeçaria bela e fina

Com que se cobre o rústico terreno,

Faz ser a de Aqueménia menos dina,

Mas o sombrio vale mais ameno.

Ali a cabeça a flor Cifísia inclina

Sôbolo tanque lúcido e sereno;

Florece o filho e neto de Ciniras,

Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.



60o Como se fosse uma tapeçaria bela e fina,

A grama e as flores cobrem o rústico terreno,

Tão belo que faz a Arquemênia (1) menos digna,

Enquanto faz o ensombrado vale mais ameno.

Ali, a flor Cifísia (2) a cabeça inclina

Sobre o tanque límpido e sereno.

Floresce o filho e neto de Ciniras (3),

Por quem tu, deusa Páfia (4), ainda suspiras;



1- Arquemênia: antigo nome da Pérsia. Os célebres “tapetes persas” seriam inferiores ao gramado criado na ilha.

2- Flor Cifísia: o narciso.

3- Ciniras: referência a Adonis, pois Ciniras cometera incesto com a sua filha Mirra, tornando-se então, pai e avô de Adonis. Mirra foi transformada na planta do mesmo nome, daí a alusão de Camões. Protótipo da beleza masculina, Adônis arranca suspiros das mulheres que o veem.

4- Páfia: a deusa Vênus, a quem era dedicado um importante Templo em Pafos, cidade na ilha de Chipre.



Pera julgar, difícil cousa fora,

No céu vendo e na terra as mesmas cores,

Se dava às flores cor a bela Aurora,

Ou se lha dão a ela as belas flores.

Pintando estava ali Zéfiro e Flora

As violas da cor dos amadores,

O lírio roxo, a fresca rosa bela,

Qual reluze nas faces da donzela;



61o Para julgar muito difícil fora,

Pois se viam no Céu e na Terra as mesmas cores;

Dúvida se quem coloria as flores era a bela Aurora,

Ou se as suas lindas cores é que vinham das flores.

Ali estavam pintando Zéfiro (1) e Flora (2)

As violetas, com a cor dos adoradores,

O lírio roxo e a fresca rosa bela,

Que reluz nas faces da donzela;



1- Zéfiro: a personificação do vento suave. Marido da deusa Flora.

2- Flora: deusa da primavera e das flores.



A cândida cecém, das matutinas

Lágrimas rociada, e a manjerona;

Vêm-se as letras nas flores Hiacintinas,

Tão queridas do filho de Latona.

Bem se enxerga nos pomos e boninas

Que competia Clóris com Pomona.

Pois, se as aves no ar cantando voam,

Alegres animais o chão povoam.



62o A cândida açucena que na matutina

Gota de orvalho é colhida e a bela manjerona.

É possível ver as letras nas flores Hiacintinas (1)

Tão queridas por Apolo, filho de Latona;

Podia-se ver nos frutos e nas boninas (2)

Que competiam Clóris (3) e Pomona (4).

E se as lindas aves, cantando, pelo céu voam,

Belíssimos animais o campo povoam.



1- Flores Hiacintinas: os jacintos. Jacinto era filho do rei Amiclas e de esplêndida beleza. Era amado por Apolo e num dia ambos jogavam discos até que acidentalmente Apolo atingiu a Jacinto que morreu. Do seu sangue nasceu uma flor em cujas pétalas eram traçadas as letras que formam a interjeição de dor.

2- Boninas: uma espécie de flor, também conhecida como “Belas-Margaridas”.

3- Clóris: ou Flora, deusa da primavera e das flores.

4- Pomona: deusa dos pomares e dos frutos.



Ao longo da água o níveo cisne canta;

Responde-lhe do ramo filomela;

Da sombra de seus cornos não se espanta

Acteon n'água cristalina e bela.

Aqui a fugace lebre se levanta

Da espessa mata, ou tímida gazela;

Ali no bico traz ao caro ninho

O mantimento o leve passarinho.



63o Ao longo da água o cisne branco canta,

Responde-lhe o rouxinol que já Filomela (1);

Com a sombra dos chifres o cervo já não se espanta,

Igual Acteon (2) que foi mudado e reflete na água bela;

Ali a belíssima lebre ligeira se levanta,

Ou então quem salta é uma linda gazela;

Acolá, levando no bico ao amado ninho

O precioso alimento se vê o suave passarinho.



1-Filomela: ou Filomena, filha do rei Pandion, de Atenas, que foi transformada em rouxinol pelos deuses.

2- Acteon: o caçador que surpreendeu Diana no banho e foi transformado em cervo, o qual foi devorado pelos cães.



Nesta frescura tal desembarcavam

Já das naus os segundos Argonautas,

Onde pela floresta se deixavam

Andar as belas Deusas, como incautas.

Algüas, doces cítaras tocavam;

Algüas, harpas e sonoras frautas;

Outras, cos arcos de ouro, se fingiam

Seguir os animais, que não seguiam.



64o Nesse paraíso, dos navios já desembarcavam

Os que deviam ser chamados “Segundos Argonautas” (1);

Pelas florestas andavam e lânguidas ficavam

As ninfas, como se fossem ingênuas ou incautas,

Algumas delas, doces cítaras tocavam,

Outras tocavam harpas ou sonoras flautas,

E outras, com belos arcos de ouro fingiam

Que caçavam os animais, mas não os perseguiam.



1- Argonautas: heróis gregos que comandados por Jasão, foram à Cólquida em busca do Velocino de Ouro.



Assi lho aconselhara a mestra experta:

Que andassem pelos campos espalhadas;

Que, vista dos barões a presa incerta,

Se fizessem primeiro desejadas.

Algüas, que na forma descoberta

Do belo corpo estavam confiadas,

Posta a artificiosa fermosura,

Nuas lavar se deixam na água pura.



65o Pois assim lhes aconselhara a mestra esperta:

Que andassem pelos campos bem espalhadas,

Para que vistas pelos varões como presa incerta,

Se tornassem ainda mais desejadas.

Algumas, que na beleza descoberta

De seu lindo corpo estavam confiadas,

Usavam a dengosa formosura

E banhavam-se nuas, na água pura.



Mas os fortes mancebos, que na praia

Punham os pés, de terra cobiçosos

(Que não há nenhum deles que não saia),

De acharem caça agreste desejosos,

Não cuidam que, sem laço ou redes, caia

Caça naqueles montes deleitosos,

Tão suave, doméstica e benina,

Qual ferida lha tinha já Ericina.



66o Porém, os fortes lusos que na praia

Já desciam, para chegarem estavam tão ansiosos

(Que não houve nenhum que não saia);

E como para caçar estavam ainda mais desejosos,

Não percebem que sem laços a caça lhes caía

Muito facilmente, naqueles montes deliciosos.

Caça suave, mansa e benigna,

Por estarem encantadas pela deusa Ericina (1).



1- Ericina: o sobrenome da deusa Vênus, que tinha um templo no monte Érix, na Sicília.







Alguns, que em espingardas e nas bestas

Pera ferir os cervos, se fiavam,

Pelos sombrios matos e florestas

Determinadamente se lançavam;

Outros, nas sombras, que de as altas sestas

Defendem a verdura, passeavam

Ao longo da água, que, suave e queda,

Por alvas pedras corre à praia leda.



67o Alguns, que na espingarda e na besta

Para matar os cervos, confiavam,

Pelo cerrado mato e fechada floresta

Corajosamente adentravam;

Outros, nas sombras, onde o sol não os molesta,

E por elas são protegidos, apenas passeavam,

Ao longo da água, que suave e silenciosa,

Corria por entre as alvas pedras da praia formosa.



Começam de enxergar sùbitamente,

Por entre verdes ramos, várias cores,

Cores de quem a vista julga e sente

Que não eram das rosas ou das flores,

Mas da lã fina e seda diferente,

Que mais incita a força dos amores,

De que se vestem as humanas rosas,

Fazendo-se por arte mais fermosas.



68o Mas logo começam a enxergar, subitamente,

Por entre os verdes ramos, várias outras cores,

Nas quais, a vista vê e o coração sente,

Que não era cor de rosas ou doutras flores,

Mas que era cor de fina lã e seda transparente,

As quais, mais excitam as forças dos amores,

E com as quais se vestiam as humanas rosas,

Tornando-se com essa arte, ainda mais formosas.



Dá Veloso, espantado, um grande grito:

- «Senhores, caça estranha (disse) é esta!

Se inda dura o Gentio antigo rito,

A Deu sas é sagrada esta floresta.

Mais descobrimos do que humano esprito

Desejou nunca, e bem se manifesta

Que são grandes as cousas e excelentes

Que o mundo encobre aos homens imprudentes.



69o Espantado, o bravo Veloso dá um grande grito:

-Senhores, disse, que caça estranha é esta!

Se ainda vigora o antigo e pagão rito,

Deve ser consagrada a alguma deusa esta floresta.

Descobrimos muito mais que o humano espírito

Já desejou, e bem se manifesta,

Oh! Como são grandes e excelentes,

O quê o Mundo esconde dos homens imprudentes.



«Sigamos estas Deusas e vejamos

Se fantásticas são, se verdadeiras.»

Isto dito, veloces mais que gamos,

Se lançam a correr pelas ribeiras.

Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,

Mas, mais industriosas que ligeiras,

Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,

Se deixam ir dos galgos alcançando

70o Sigamos essas deusas e vejamos

Se elas são imaginárias ou verdadeiras.

Assim, mais velozes do que gamos

Correm rápidos pelas ribeiras.

As ninfas fingem que fogem entre os ramos,

Mas, mais dengosas do que ligeiras,

Pouco a pouco, sorrindo e gritando,

Deixam que os lusos vão-lhes alcançando.



De üa os cabelos de ouro o vento leva,

Correndo, e da outra as fraldas delicadas;

Acende-se o desejo, que se ceva

Nas alves carnes, súbito mostradas.

üa de indústria cai, e já releva,

Com mostras mais macias que indinadas,

Que sobre ela, empecendo, também caia

Quem a seguiu pela arenosa praia.



71o De uma, os dourados cabelos o vento leva,

Correndo, de outra, são as vestes delicadas;

Acende-se o desejo, a paixão se eleva,

Nas alvas carnes, que de súbito são mostradas.

Uma, maliciosa, cai e logo revela,

Com demonstrações mais macias que indignadas,

Que quer que sobre ela também caia

Aquele que a seguiu pela arenosa praia.



Outros, por outra parte, vão topar

Com as Deusas despidas, que se lavam;

Elas começam súbito a gritar,

Como que assalto tal não esperavam;

üas, fingindo menos estimar

A vergonha que a força, se lançavam

Nuas por entre o mato, aos olhos dando

O que às mãos cobiçosas vão negando;



72o Outros, em outras partes, vão topar

Com as ninfas despidas, que se lavam;

Elas começam, de súbito, a gritar,

Como se por aquele encontro já não esperavam.

Algumas delas, fingindo estimar

Mais a vergonha do que a força se lançavam

Nuas pelo mato, aos olhos dos varões dando

Aquilo que às suas mãos cobiçosas vão negando.



Outra, como acudindo mais depressa

À vergonha da Deusa caçadora,

Esconde o corpo n'água; outra se apressa

Por tomar os vestidos que tem fora.

Tal dos mancebos há que se arremessa,

Vestido assi e calçado (que, co a mora

De se despir, há medo que inda tarde)

A matar na água o fogo que nele arde.



73o Outra, como se estivesse acudindo depressa

À vergonha da deusa caçadora (1),

Esconde o corpo na água; outra se apressa

Para buscar as vestes que deixou lá fora.

Um dos jovens lusos se arremessa,

Ainda vestido e calçado (pois acha

Que se demorar em se despir já será tarde)

E na água vai matar o fogo que nele arde.



1- Nova referência ao episódio em que Diana foi surpreendida no banho.



Qual cão de caçador, sagaz e ardido,

Usado a tomar na água a ave ferida,

Vendo [ò] rosto o férreo cano erguido

Pera a garcenha ou pata conhecida,

Antes que soe o estouro, mal sofrido Salta

n'água e da presa não duvida,

Nadando vai e latindo: assi o mancebo

Remete à que não era irmã de Febo.



74o Igual a um cão de caçador, sagaz e renhido,

Acostumado a prender na água a ave ferida,

E que ao ver o cano da espingarda sendo erguido,

Para abater a garça ou outra ave conhecida,

Antes que soe o estouro do tiro disparado,

Salta na água e da presa não se olvida,

Enquanto vai latindo e nadando; assim o mancebo

Investe contra a ninfa que não era a irmã (1) de Febo.



1- A irmã de Febo ou Apolo é Diana. Outra alusão ao banho em que a deusa foi surpreendida pelo caçador.



Leonardo, soldado bem disposto,

Manhoso, cavaleiro e namorado,

A quem Amor não dera um só desgosto

Mas sempre fora dele mal tratado,

E tinha já por firme pros[s]uposto

Ser com amores mal afortunado,

Porém não que perdesse a esperança

De inda poder seu fado ter mudança,



75o Lionardo, soldado bem disposto,

Dengoso, cavaleiro e apaixonado,

Para quem o Cupido só dera desgosto

E que sempre, pelo amor, fora maltratado,

Já tinha como um firme pressuposto

Que em matéria de amor era desafortunado,

Porém, ele que não perdesse a esperança

Do Destino ainda operar alguma mudança,



Quis aqui sua ventura que corria

Após Efire, exemplo de beleza,

Que mais caro que as outras dar queria

O que deu, pera dar-se, a natureza.

Já cansado, correndo, lhe dizia:

- «Ó fermosura indina de aspereza,

Pois desta vida te concedo a palma,

Espera um corpo de quem levas a alma!



76o Pois ali, a boa sorte lhe ocorreria.

A ninfa Efire (1), um exemplo de beleza,

Mais bela que as outras, pois assim queria

Que fosse a boa mãe natureza, dele corria

E ele correndo e cansado lhe dizia:

-Ó formosura livre de qualquer rudeza,

Eu, desta vida, te concedo a palma,

Tome o corpo de quem já lhe deu a alma!



1- Efire: ninfa da ilha dos amores, filha de Téthis e de Nereu. O nome dessa ninfa, e de mais algumas, é criação de Camões.



«Todas de correr cansam, Ninfa pura.

Rendendo-se à vontade do inimigo;

Tu só de mi só foges na espessura?

Quem te disse que eu era o que te sigo?

Se to tem dito já aquela ventura

Que em toda a parte sempre anda comigo,

Oh, não na creias, porque eu, quando a cria,

Mil vezes cada hora me mentia.



77o Veja que as outras já pararam Efire pura,

E já se rendem para o inimigo;

Por que apenas tu foges na espessura?

Quem te disse que sou eu quem te sigo?

Se foi a minha triste desventura

Que em todas as partes anda comigo,

Não lhe dê crédito, porque quando nela eu cria,

Por mil vezes, em cada hora, ela me mentia.



«Não canses, que me cansas! E se queres

Fugir-me, por que não possa tocar-te,

Minha ventura é tal que, inda que esperes,

Ela fará que não possa alcançar-te.

Espera; quero ver, se tu quiseres,

Que sutil modo busca de escapar-te;

E notarás, no fim deste sucesso,

'Tra la spica e la man qual muro he messo.'



78o Não te canses mais, porque me cansas; e se queres

Fugir-me para que eu não possa tocar-te,

Sossegue, meu azar é tal que mesmo que esperes,

Minha desventura não me deixará alcançar-te.

Espera; eu quero ver, se tu quiseres,

A sutileza com que tu procuras escapar-te;

E tu notarás, no fim desse processo,

“Tra la spica e la man qual muro he messo (1)”.



1- “Entre a espiga e a mão sempre se levanta um muro”. Isto é, quando tudo parece estar bem sempre surge um obstáculo inesperado.



«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve

Tempo fuja de tua fermosura;

Que, só com refrear o passo leve,

Vencerás da fortuna a força dura.

Que Emperador, que exército se atreve

A quebrantar a fúria da ventura

Que, em quanto desejei, me vai seguindo,

O que tu só farás não me fugindo?



79o Oh! Não me fujas! Assim nunca o breve

Tempo destruirá a tua formosura;

Pois só tu, apenas refreando o passo leve,

É capaz de vencer, da minha má sorte, a força dura.

Que outro imperador, que exército, se atreve

A quebrar a fúria da desventura,

Que quando me apaixono vai me seguindo?

Só tu quebrará se não continuar fugindo.



«Pões-te da parte da desdita minha?

Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.

Levas-me um coração que livre tinha?

Solta-mo e correrás mais levemente.

Não te carrega essa alma tão mesquinha

Que nesses fios de ouro reluzente

Atada levas? Ou, despois de presa,

Lhe mudaste a ventura e menos pesa?



80o Tu te colocas ao lado da infelicidade minha?

Saiba que é uma vileza ajudar ao mais potente.

Tu levas o coração, que liberto eu tinha?

Solte-o e tu poderás correr mais livremente.

Não te sobrecarregue com minha alma mesquinha,

Que nestes fios de ouro reluzentes,

Tu, atada levas! Ou será, que depois de presa,

A má sorte a mudou e por isso menos lhe pesa?



«Nesta esperança só te vou seguindo:

Que ou tu não sofrerás o peso dela,

Ou na virtude de teu gesto lindo

Lhe mudarás a triste e dura estrela.

E se se lhe mudar, não vás fugindo,

Que Amor te ferirá, gentil donzela,

E tu me esperarás, se Amor te fere;

E se me esperas, não há mais que espere.»



81o Por essa esperança eu vou te seguindo:

Ou tu não sofrerás com o peso dela,

Ou em virtude do teu semblante lindo,

Tu conseguirás mudar a triste e dura estrela.

E se de fato a mudares, não continue fugindo,

Pois o Cupido te ferirá, linda donzela,

E então, tu me esperarás, se o amor te fere;

E se me esperas, nada há que eu mais espere.



Já não fugia a bela Ninfa tanto,

Por se dar cara ao triste que a seguia,

Como por ir ouvindo o doce canto,

As namoradas mágoas que dizia.

Volvendo o rosto, já sereno e santo,

Toda banhada em riso e alegria,

Cair se deixa aos pés do vencedor,

Que todo se desfaz em puro amor.



82o A bela ninfa, então já não fugia; tanto

Por ver o rosto triste daquele que a seguia,

Como por ouvir no doce canto,

As apaixonadas palavras que ele lhe dizia.

Voltando-lhe o rosto, sereno e santo,

Toda banhada em risos e alegria,

Deixa-se cair aos pés do vencedor,

Que se derrete em puro amor.



Oh, que famintos beijos na floresta,

E que mimoso choro que soava!

Que afagos tão suaves! Que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

O que mais passam na manhã e na sesta,

Que Vénus com prazeres inflamava,

Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;

Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.



83o Oh! Que famintos beijos na floresta,

E como era gracioso o choro que ecoava!

Que afagos tão suaves, que fúria honesta,

Que em alegres risinhos se transformava!

O que acontecia na manhã e na hora da sesta,

Que Vênus continuamente inflamava,

É melhor experimentar do que imaginar;

Porém, imagine quem que não pôde experimentar.



Destarte, enfim, conformes já as fermosas

Ninfas cos seus amados navegantes,

Os ornam de capelas deleitosas

De louro e de ouro e flores abundantes.

As mãos alvas lhe davam como esposas;

Com palavras formais e estipulantes

Se prometem eterna companhia,

Em vida e morte, de honra e alegria.



84o Finalmente satisfizeram as formosas

Ninfas aos seus amados navegantes,

E passam a enfeitá-los com coroas graciosas

De louros, de ouro e de flores abundantes.

E ofereciam-lhes as alvas mãos como esposas;

Com palavras formais e determinantes

Prometem ser-lhes uma eterna companhia,

Na vida e na morte, com honra e com alegria.



üa delas, maior, a quem se humilha

Todo o coro das Ninfas e obedece,

Que dizem ser de Celo e Vesta Filha,

O que no gesto belo se parece,

Enchendo a terra e o mar de maravilha,

O capitão ilustre, que o merece,

Recebe ali com pompa honesta e régia,

Mostrando-se senhora grande e egrégia.



85o A ninfa mais importante, a quem se humilha

Todas as outras; e cada qual lhe obedece,

Pois de Celo (1) e de Vesta (2) era a filha,

Com quem, de fato, no belo rosto se parece;

Enchendo o ar e a terra de incrível maravilha,

Ao ilustre Capitão, que bem merece,

Recepciona com pompa sincera e régia,

Própria de uma elevada dama egrégia.



1- Celo: o Céu, aqui tomado como divindade e como o pai de Téthis.

2- Vesta: a deusa do lar. Camões a cita como a mãe de Téthis, o que não é correto. Talvez uma licença poética que o bardo usou para ressaltar sua dignidade de Senhora, “acima das ninfas” que se deixaram possuir fisicamente, como se fossem animais. É natural, contudo, se olharmos para o fato de que a obra sofreria a pré censura da Inquisição e Camões quis deixar subentendido que o ato sexual feito a sorrelfa é uma expressão mais apropriada às camadas inferiores, as quais, no contexto, são as Ninfas e os Marujos e não às Classes “mais elevadas moral e reliosamente”. Não se pode esquecer que à época o ato sexual era vinculado diretamente com o Pecado, o que leva Camões a novamente driblar a Censura quando se refere às Ninfas como esposas e não como companheiras fortuitas para um sexo casual.



Que, despois de lhe ter dito quem era,

Cum alto exórdio, de alta graça ornado

Dando-lhe a entender que ali viera

Por alta influïção do imóbil fado,

Pera lhe descobrir da unida esfera

Da terra imensa e mar não navegado

Os segredos, por alta profecia,

O que esta sua nação só merecia,



86o Ela, depois de lhe ter dito quem era,

Com belo preâmbulo, graciosamente falado,

Fê-lo compreender que até ali ela viera

Por influência do Destino, nunca alterado,

Para lhe revelar da Terra, a unida Esfera,

Do imenso Mundo e do mar nunca navegado

Os segredos, através de sublime profecia,

Que apenas a sua Nação, ouvir merecia,



Tomando-o pela mão, o leva e guia

Pera o cume dum monte alto e divino,

No qual üa rica fábrica se erguia,

De cristal toda e de ouro puro e fino.

A maior parte aqui passam do dia,

Em doces jogos e em prazer contino.

Ela nos paços logra seus amores,

As outras pelas sombras, entre as flores.



87o Tomando-o pela mão o leva e o guia

Para o cume de um morro alto e divino,

Onde suntuosa edificação se erguia,

Toda feita de cristal e de puro ouro fino.

Ali passam a maior parte do dia,

Em doces jogos e em prazer contínuo.

Ela, no palácio, desfruta de seus amores,

E as outras o desfrutam entre as flores (1).



1-Esses dois últimos versos ilustram a diferença entre as Classes, segundo Camões, durante o amor físico, conforme nota na 85ª estrofe.



Assi a fermosa e a forte companhia

O dia quási todo estão passando

Nüa alma, doce, incógnita alegria,

Os trabalhos tão longos compensando.

Porque dos feitos grandes, da ousadia

Forte e famosa, o mundo está guardando

O prémio lá no fim, bem merecido,

Com fama grande e nome alto e subido.



88o Assim, a valente e formosa companhia,

Quase o dia todo vai passando,

Com a alma suave e numa rara alegria,

As grandes dificuldades vão compensando.

Porque para os grandes feitos e pela valentia,

Grande e famosa, o Mundo está reservando,

Lá longe, o justo prêmio bem merecido,

De uma grande fama e o nome bem erguido.



Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,

Tétis e a Ilha angélica pintada,

Outra cousa não é que as deleitosas

Honras que a vida fazem sublimada.

Aquelas preminências gloriosas,

Os triunfos, a fronte coroada

De palma e louro, a glória e maravilha,

Estes são os deleites desta Ilha.



89o Pois, as ninfas do Mar, tão formosas,

Téthis e a angelical ilha, ali plantada,

Não são mais do que as deliciosas

Honras que tornam a vida sublimada.

Aquelas deferências gloriosas,

Os desfiles triunfais, a cabeça coroada,

A palma e o louro, a glória e a maravilha:

Estes são os prazeres dessa ilha.



Que as imortalidades que fingia

A antiguidade, que os Ilustres ama,

Lá no estelante Olimpo, a quem subia

Sobre as asas ínclitas da Fama,

Por obras valorosas que fazia,

Pelo trabalho imenso que se chama

Caminho da virtude, alto e fragoso,

Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,



90o Tal foi com os “Imortais” de quem tanto se dizia

Na Antiguidade, que aos ilustres heróis tanto ama;

Lá, ao estrelado Olimpo o Herói subia,

Levado pelas asas da ilustre deusa Fama,

Pelas grandes proezas que fazia,

E pelas generosas obras a que se chama

De caminho da virtude, alto e penoso.

No fim, desfrutava um doce e alegre repouso.



Não eram senão prémios que reparte,

Por feitos imortais e soberanos,

O mundo cos varões que esforço e arte

Divinos os fizeram, sendo humanos.

Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,

Eneas e Quirino e os dous Tebanos,

Ceres, Palas e Juno com Diana,

Todos foram de fraca carne humana.



91o Não eram mais do que prêmios que o Mundo reparte,

Como recompensa pelos feitos imortais e soberanos,

Com que aqueles heróis, com esforço e arte,

Tornaram-se divinos, mesmo sendo humanos.

Pois Júpiter (1), Mercúrio (2), Febo (3), Marte (4),

Enéas (5), Quirino (6), os dois Tebanos (7),

Ceres (8), Palas (9), Juno (10) e Diana (11),

Também são feitos na frágil condição humana.



1-Júpiter: pai e senhor dos deuses. Ele, e os demais citados, segundo Camões são frutos apenas do imaginário humano, não tendo existência fora desses protótipos que simbolizavam as virtudes esperadas dos Homens.

2- Mercúrio: deus do comércio. Mensageiro dos deuses.

3- Febo: ou Apolo, o deus do sol.

4- Marte: o deus da guerra.

5- Enéas: príncipe troiano, filho de Vênus e de Anquises, heróis de Vergílio na “Eneida”.

6- Quirino: sobrenome de Marte que foi atribuído a Rômulo, quando o fundador de Roma foi elevado aos céus.

7- Os dois Tebanos: Baco e Édipo.

8- Ceres: filha de Saturno e de Cibele, deusa da agricultura.

9- Palas: um dos nomes de Minerva, deusa da sabedoria.

10- Juno: filha de Saturno e mulher de Júpiter. Rainha das deusas.

11- Diana: deusa da caça.



Mas a Fama, trombeta de obras tais,

Lhe deu no Mundo nomes tão estranhos

De Deuses, Semideuses, Imortais,

Indígetes, Heróicos e de Magnos.

Por isso, ó vós que as famas estimais,

Se quiserdes no mundo ser tamanhos,

Despertai já do sono do ócio ignavo,

Que o ânimo, de livre, faz escravo.



92o Mas a deusa Fama, tanto os louvou e a obras tais,

Que lhes deu no Mundo nomes estranhos:

Deuses, Semideuses, Imortais,

Homens divinizados, Heróis ou Magnos (1).

Por isso, tu, que a fama buscais,

Se quiserdes ser como eles, de renomes tamanhos,

Desperte já do sono e do ócio destrutivo

Que mudou teu ânimo, passando-o de livre a cativo.



1- Magnos: leia-se “Manhos” para rimar com “estranhos”.



E ponde na cobiça um freio duro,

E na ambição também, que indignamente

Tomais mil vezes, e no torpe e escuro

Vício da tirania infame e urgente;

Porque essas honras vãs, esse ouro puro,

Verdadeiro valor não dão à gente:

Milhor é merecê-los sem os ter,

Que possuí-los sem os merecer.



93o E ponha na maldita cobiça um freio duro,

Assim como na ambição, que indignamente

Usas em mil ocasiões; e no sujo e escuro

Vício da tirania, infame e iminente;

Pois as honras frívolas, esse falso ouro puro,

Não tem valor e nem enobrecem a gente.

É melhor merecê-los e não os ter,

Do que possuí-los sem merecer.



Ou dai na paz as leis iguais, constantes,

Que aos grandes não dêem o dos pequenos,

Ou vos vesti nas armas rutilantes,

Contra a lei dos imigos Sarracenos:

Fareis os Reinos grandes e possantes,

E todos tereis mais e nenhum menos:

Possuireis riquezas merecidas,

Com as honras que ilustram tanto as vidas.



94o Em paz, faças leis justas e constantes,

Que não deixam os grandes tomarem dos pequenos,

Ou, então, empunhe as armas brilhantes,

E combata a falsa religião dos inimigos Sarracenos:

Assim, construirás reinos grandes e possantes,

E todo o povo terá mais, sem ninguém ter menos;

Será dono de uma riqueza merecida,

E das honras que dignificam a vida.



E fareis claro o Rei que tanto amais,

Agora cos conselhos bem cuidados,

Agora co as espadas, que imortais

Vos farão, como os vossos já passados.

Impossibilidades não façais,

Que quem quis, sempre pôde; e numerados

Sereis entre os Heróis esclarecidos

E nesta «Ilha de Vénus» recebidos.



95o E vós fareis ilustre o teu Rei, a quem tanto amais.

Quer oferecendo-lhe conselhos bons e equilibrados,

Quer, servindo-o com a espada; e como “Imortais”,

Vós ficareis, como ficaram os vossos antepassados.

Nas impossibilidades não acreditais,

Pois quem com firmeza quer, conseguirá; e escalados

Sereis entre os heróis sublimes e erguidos,

E em ilhas iguais, serão sempre bem acolhidos.