quinta-feira, 5 de setembro de 2013

NAESS, Arne - Filósofos Modernos e Contemporâneos




NAESS, ARNE
1912 – 2009

O Pensamento pelo futuro tem que ser leal à natureza.
“Pense como uma Montanha”- Aldo Leopold.

O micro-organismo e o homem.

Em c. 1660 o Filósofo ESPINOSA (Holanda, 1632–1677) propôs a sua “Filosofia da Natureza” como uma “Extensão de Deus”. Abusando da “licença literária”, grosso modo, pode-se dizer que ele propôs ser o mundo o “corpo físico” de Deus.

Em 1960, o cientista britânico JAMES LOVELOCK propôs a sua teoria chamada de “Hipótese de Gaia”, na qual defende que a Terra é um “organismo vivo”.

Reutilizando, novamente, a “licença literária” pode-se imaginar, portanto, que o homem é um micróbio, ou uma micro-vida (semelhante aos milhões que habitam o seu próprio corpo) que se hospeda no interior do “Corpo de Deus”, ou no “Organismo Vivo”.

Em suma, o que ambos os estudiosos propuseram é que a presença do homem no planeta Terra é similar à presença de micro-organismos nos corpos dos seres vivos.

Assumindo-se que essas teses estejam corretas, deparamo-nos com um fato aterrador: o “corpo de Deus”, ou o “organismo vivo”, somente sobreviverá se antes eliminar os micro-organismos que lhes são prejudiciais.

Prosseguindo com a analogia, é amplamente sabido que quando os micróbios que habitam o corpo do homem prejudicam a sua saúde e ameaçam a sua vida, são eliminados através do uso das terapias adequadas. Não se sabe, porém, se esses micróbios absorvem o remédio que os eliminará de forma voluntária, ou se apenas por mera ignorância.

Já em relação ao homem, a dúvida se altera, pois ele sabe perfeitamente que as ações deletérias que comete contra o “organismo vivo” que o abriga redundará obrigatoriamente em sua própria aniquilação. O que não se sabe é por que continua a fazê-lo? O porquê de ainda vigorar com tanta ênfase tamanha ignorância, em plena Era do conhecimento?

Por coincidência, enquanto escrevo este ensaio há poucos quilômetros da minha mesa acontece uma reunião (Rio + 20) que deveria discutir e encontrar soluções para os problemas ecológicos que o mundo, ou melhor, que a humanidade enfrenta. Contudo, antes de seu encerramento uma única conclusão já se faz visível: um retumbante fracasso!

Por quê?

Se a maioria das pessoas diz concordar sobre a necessidade de que se façam os ajustes necessários para equilibrar o consumo humano com as possibilidades da Terra, por que não se chega a um acordo?
Por ganância, arrogância, ignorância? Certamente. E mais o que?

Seremos atraídos, seduzidos inexoravelmente para o fim inevitável que a natureza promove quando lhe convém alterar o planeta? Fomos criados especificamente para essa finalidade? Para sermos o agente destruidor de que se vale a natura em seus eternos e incognoscíveis ciclos?

Ou haverá alguma esperança nessa luta que Ecologistas, e/ou apenas cidadãos conscientes desenvolvem com tenacidade?

O Ecologismo

O Ecologismo ganhou vigor a partir dos bombardeios sofridos por Hiroshima e Nagasaki, que obrigaram o Japão a se render no fim da Segunda Guerra Mundial.

Pela primeira vez a humanidade viu o poder que dispunha para exterminar a vida no globo. Os bíblicos cataclismos deixaram a condição de mera hipótese para tornarem-se real possibilidade. O “Fim do Mundo” tornou-se palpável.

E ao medo atômico, não tardou a se juntar a paúra pelo esgotamento dos recursos naturais oriundo da degradação ambiental e climática.

O horror de Malthus*” foi ressuscitado.

NOTA do AUTOR – O Economista Malthus (Thomas Robert, Grã Bretanha 1766 – 1834) ficou conhecido pelo pessimismo que impregnava ao seu pensamento filosófico e foi de sua lavra a trágica equação que previa uma progressão geométrica (2, 4, 8, 16, 32) da população da Terra e apenas uma progressão aritmética (2,3, 4,5) na produção de alimentos. Ou seja, chegaria o dia em que o Planeta não conseguiria sustentar a todos os homens. Até agora a profecia foi afastada, entre outros motivos, pelo avanço tecnológico que permite melhores colheitas e maior produtividade. Contudo a degradação promovida pela humanidade poderá vir a ser um fator não previsto por Malthus, mas que acabará auxiliando para que seu tenebroso vaticínio se cumpra.

E como o medo e a necessidade geram todas as atitudes, no espaço de poucos anos alguns conceitos enraizados foram drasticamente soterrados e o padrão a ser seguido mudou drasticamente. O conceito de Conservacionismo instalou-se definitivamente entre os homens.

Apesar de todos os pesares, a consciência de que os recursos naturais são finitos e de que a biodiversidade é imprescindível para a nossa própria sobrevivência adentrou em mentes e corações, enquanto se invertiam os antigos paradigmas.

A partir de então, o caçador que antes era visto como um sujeito destemido passou a ser visto como um covarde assassino; o lenhador tornou-se um ignóbil predador e pecuarista latifundiário uma praga a ser exterminada.

O desenvolvimento a qualquer preço tornou-se um anátema. E são esses novos conceitos, essas novas posturas, em escalas e intensidades variadas, que desenham o Futuro.

NOTA do AUTOR – recomenda-se a releitura de uma das histórias infantis mais célebres do Mundo – O Chapeuzinho Vermelho – para medir a extensão da inversão referida. Ali, os heróis eram o lenhador e o caçador, enquanto que o vilão era o Lobo. Absolutamente o inverso de hoje.

Alguns rejeitam os supostos excessos dos ecologistas, principalmente quando seus interesses são atingidos, como se verifica com a tristemente famosa bancada ruralista do Congresso brasileiro.
Outros os incentivam e outros, ainda, os praticam. O certo, porém, malgrado as variações, é que o mundo se tornou ecologista e nesse novo tempo determinadas organizações e determinados indivíduos tornaram-se destaques pelo fervor de suas convicções e pelo vigor de suas lutas.

Presidente do GREENPEACE norueguês.

Dentre os grandes nomes da Ecologia atual, brilha com merecido destaque o de ARNE NAESS, em cujo currículo consta, entre outros importantes trabalhos, aquele que ele desenvolveu enquanto ocupou a presidência do GREENPEACE em sua Noruega natal, no final da década de 1980. 

Reconhecido como o principal filósofo norueguês do século XX, NAESS foi o mais jovem professor da universidade de Oslo, sendo que aos vinte e sete anos já lecionava na instituição em que permaneceu até se aposentar em 1970.

Montanhismo e expedições

Paralelamente à carreira acadêmica e adepto do montanhismo, NAESS foi o comandante de uma bem sucedida expedição à Montanha TIRICH MIR, no Paquistão, em 1950 e o responsável por várias outras incursões ao redor do mundo, sempre com destacada atuação como organizador e pesquisador.

Em todas, ele absorveu uma vasta gama de conhecimentos que lhe serviram para ampliar os dotes intelectuais e culturais e para solidificar o amor e o respeito ao meio-ambiente que ele naturalmente sempre teve.

Ativismo

Após se aposentar, NAESS aproveitou o tempo livre para desenvolver seu ativismo e burilar o seu ideário a favor da ecologia.

Participante ativo* de várias campanhas e manifestações, o filósofo sempre pregou a necessidade de se respeitar os limites do planeta, a biodiversidade e a bioesfera, já que a sobrevivência humana é inteiramente dependente dessas circunstâncias.

NOTA do AUTOR – para seus críticos, o Filósofo era até mesmo radical* em certas ocasiões, como quando chegou a se acorrentar às rochas da “Queda Mardalfossen”, na Noruega, para protestar contra a construção de um reservatório.

E a sua luta em favor da Terra e da humanidade recebeu várias honrarias, como aconteceu em 2005 quando em reconhecimento pela excelência de sua luta em prol de uma causa tão nobre, ele recebeu a comenda de “Cavalheiro”.

O ideário – “*Pensar como uma Montanha

Graças a homenagens como esta, ele ganhou novas tribunas e não hesitou em utilizá-las para pregar suas ideias, cuja essência pode ser resumida na sentença “*Pensar como uma Montanha”, ou seja:

1 – Compreender que somos parte e não “Senhores” da Bioesfera.

2 – Entender a nossa responsabilidade em relação aos outros Seres vivos.

3 – Pensar constantemente sobre as necessidades do meio-ambiente como um “todo” e, consequentemente, abandonar a mesquinhez dos desejos individuais e imediatistas.

*NOTA do AUTOR – a expressão “*Pensar como uma Montanha” foi criada em 1949, pelo ecologista estadunidense Aldo Leopold, que após balear covardemente uma loba conscientizou-se de seu crime e passou a atuar em defesa da natureza. A expressão “Pensar como uma Montanha” se tornou direta e intimamente associada ao conceito de “Ecologia Profunda”, criado por NAESS.

A “Ecologia Profunda”

Vimos anteriormente os princípios que regem o pensamento conservacionista de NAESS. De acordo com essas premissas ele consolidou o movimento chamado de Ecologia Profunda, cujas bandeiras principais podem ser expostas em dois tópicos:

1 – Devemos reconhecer que somos “apenas” parte da Natureza e nunca o seu proprietário ou senhor. Compreender que não estamos além, acima, ou separados dela. Sem essa compreensão e aceitação, serão inúteis quaisquer tentativas para salvar a vida humana no planeta.

2 – somos parte da Biodiversidade e dela necessitamos, pois todas as formas de vida são interdependentes. Logo, ao exterminarmos uma espécie, é uma parte de nós mesmos que estamos matando. Portanto, só protegeremos efetivamente o meio-ambiente e a nós mesmos se adotarmos tal concepção de vida.

NAESS conclamou o mundo a ver que não estamos apartados da Terra e que urge acharmos o nosso lugar nessa cadeia de vidas interligadas, reconhecendo em todas elas, o valor insubstituível de cada uma para a subsistência do Todo.

Também se deve a NAESS a criação do conceito Eu Ecológico; ou seja, o percebimento de si próprio como um Ser diretamente ligado a uma comunidade maior que abriga todos os Seres vivos. Desse modo, ampliamos a nossa identificação com o “Mundo dos lobos, dos insetos, das ervas e até das Montanhas”.

E passamos a nos perceber como um Ser que sabe que o “Mundo Natural” não é aquilo que lutamos para subjugar, controlar. Ao contrário, é o conjunto de todas as coisas que sustentam os Seres que compartilham o planeta. É a soma de tudo que existe, inclusive nós. Seres com os mesmos direitos e deveres de todos os outros e que, justamente por isso, não podem extrapolar suas ambições ao ponto de ferir os direitos dos demais.

Seres que reconhecem o “Mundo Natural” como seu próprio lar e sabem que ao destruir o mesmo, automaticamente se condenam à extinção.

A Filosofia Ambiental

A “Ecologia Profunda” de NAESS influiu vigorosamente na “Filosofia Ambiental” e no desenvolvimento do ativismo ecológico. Quase que didaticamente esclareceu e informou como é possível que mesmo os cidadãos das grandes metrópoles conectem-se com o seu “eu ecológico” e tenham um contato mais estreito com a causa, exercendo a partir daí atividades corretas e consistentes em prol de todos.

NAESS reconhece, todavia, que tal apossamento seja difícil em virtude das pressões do meio urbano, mas acredita que não seja de todo impossível levantar a bandeira do movimento e lutar o bom combate se houver firme e convicto desejo do indivíduo, como bem disse o filósofo e “Mestre Zen” ROBERT AITKEN ROSHI em uma palestra realizada em 1984:  

“Quando nós pensamos como uma Montanha, nós também pensamos como um urso negro, de modo que o mel escorre por nossa pele enquanto tomamos o ônibus para o trabalho”.


© Registro na BNRJ/EDA sob nº 605.931 – Lv. 1.161 – Fls. 121.  Proibida qualquer forma de cópia.


Produção e divulgação de TANIA BITENCOURT, rien limitée, de Florianópolis, no inverno de 2013.