segunda-feira, 2 de setembro de 2013

MERLEAU-PONTY, Maurice - Filósofos Modernos e Contemporâneos.



MERLEAU-PONTY, MAURICE
1980/1961

Para vermos o mundo, temos de romper com nossa aceitação habitual a ele. É necessário readquirir o “espanto”, o “deslumbramento”, o “assombro” ante as coisas da vida para poder vê-las em sua plenitude.

Notas biográficas

Nascido em Rochefort-sur-mer, França, MERLEAU-PONTY cursou a célebre “École Normale Supérieure” junto com SARTRE, SIMONE DE BEAUVOIR e outros filósofos de renome.

Graduou-se em Filosofia em 1930 e lecionou em várias escolas até se alistar no exército para lutar na Segunda Guerra Mundial. Em 1945, com o fim do conflito, publicou sua obra mais importante “A Fenomenologia da Percepção” e tornou-se professor na universidade de Lyon.

Após trabalhar algum tempo na imprensa como colaborador da revista de filosofia “Les Temps Moderns”, assumiu em 1952 a cátedra dessa matéria no célebre Collège de France e ali lecionou até falecer em 1961, com apenas 53 anos de idade.

Produção Literária

Sua produção literária foi de suma importância para o pensamento contemporâneo e nela se destacam:

  1. A Estrutura do Comportamento, 1942.
  2. Fenomenologia de Percepção, 1945.
  3. Humanismo e Terror, 1947.
  4. Sentido e Não Sentido, 1948.
  5. As Aventuras da Dialética, 1955.
  6. Os Signos, 1960.
  7. O Visível e o Invisível, publicado postumamente, em 1964, Claude Lefort.
O ideário

A frase em epígrafe: a fim de ver o Mundo, temos de romper com nossa aceitação habitual a ele sintetiza a sua filosofia*, que basicamente consiste em censurar o hábito ou o descaso que nos impede ver a grandeza que existe em cada ato.

Com efeito, a repetição monótona das coisas e dos fatos do cotidiano nos leva a deixar de apreciar a totalidade da vida e do mundo e por isso é necessário romper sistematicamente com essa visão rotineira e burocrática. É necessário readquirir o espanto, o assombro”, odeslumbramento ante as coisas, os Seres e os fatos da vida para poder enxergá-los em sua plenitude.

É preciso ultrapassar a tradição filosófica que estipulou noções*, ou categorias* e fez das mesmas ferramentas obrigatórias para que o homem explicasse (sic) a sua história, a sua arte, a sua linguagem e o seu próprio pensamento; pois, com o tempo, o estudo filosófico se acomodou a essas categorias, habituando-se a limitar a investigação às mesmas.

NOTA do AUTOR – conceitos* ou categorias* como a de “sujeito”, “objeto”, “consciência”, “representação”, “fato”, “conceito” etc.

NOTA do AUTOR – a essa base, MERLEAU acrescentou como objetos de estudos a “educação” e a “psicologia infantil”.

Rompendo com as antigas tradições

Dentre os pensadores de sua geração, MERLEAU-PONTY foi um dos primeiros a compreender a necessidade imperiosa de se romper com as cadeias das antigas concepções para que o desejado conhecimento pudesse ser o mais completo possível. Para que a filosofia pudesse retomar a sua função original de indagar, de exigir respostas, de querer saber até onde seja possível.

Em suas palavras: “a nossa experiência (a aquisição de algum saber, d’algum conhecimento) é cheia de enigmas e de contradições... (mas) as nossas suposições (nossos olhares) diárias nos impedem de ver esses enigmas e contradições... (por isso) devemos abandonar essas suposições (esses olhares rotineiros) cotidianas... e (re) aprender a examinar a nossa experiência para podermos ver (a totalidade de tudo)... Para vermos o Mundo (em sua integridade), temos de romper com nossa aceitação habituação (com o modo rotineiro) a ele...”.

O espanto

A noção de que a filosofia nasceu em razão da nossa capacidade de nos “espantarmos” diante da complexidade do mundo (o qual, não raramente chega até a nos parecer fantasmagórico), teve inicio com ARISTÓTELES, que no século IV AEC fez tal afirmativa, mesmo tendo sido ele um dos que instituíram as categorias como forma de ordenar o pensamento.

Geralmente não atentamos para a grandeza, para o valor que a nossa vida diária mostra. Porém, se quisermos compreender mais profundamente o mundo, teremos de renunciar a aceitação habitual, quase desdenhosa, que damos às Coisas (objetos, seres, fatos etc.) do cotidiano. Teremos, consequentemente, que revalorizar o que nos parecia ordinário, comum, sem importância.

E isso deve acontecer no local mais difícil; ou seja, no campo da experiência, no ato de captar algum saber, algum conhecimento.

Dar a devida consideração aos fatos captados através da “percepção direta”, ou seja, através da “Intuição” que nos leva a “sentir” os objetos, os Seres, os fatos da vida, sem tê-los passado pelo julgamento da Razão, ou do raciocínio lógico.

Olharmos com mais zelo e atenção para o quê os nossos sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) capturam e procurar enxergar aquilo mais que completará o saber que se adquire no momento.

As proposições de MERLEAU- PONTY

Após fazer o diagnóstico do erro que cometemos ao adquirirmos conhecimento, MERLEAU-PONTY decidiu questionar com muita ênfase as pressuposições, os preconceitos, os prejulgamentos e as próprias categorias, enquanto instrumentos únicos e imprescindíveis para o estudo filosófico e terminou por concluir que as mesmas atrapalham a nossa “experiência mais profunda do Mundo”.

Para realizar estes questionamentos, o filósofo se valeu da Fenomenologia* como ferramenta de pesquisa, mas com uma diferença importante: para ele, HUSSERL teria ignorado um fato fundamental em relação à nossa experiência (enquanto aquisição de algum saber), ao considerar que a mesma seria apenas uma “experiência mental”; quando, na verdade, ela é, também, uma “experiência corporal”, já que o saber pode ser adquirido através dos sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato).

A propósito, em sua obra “Fenomenologia da Percepção” MERLEAU-PONTY, baseado nessa conclusão, afirma categoricamente que a mente e o corpo não são Entes separados, conforme se estabelecera desde a filosofia de RENÉ DESCARTES (França, 1596-1650).
Assim sendo, para ele devemos entender (ou aceitar?) que o pensamento, enquanto exercício mental, teórico, abstrato e a percepção, enquanto percebimento através dos sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) são completamente unidos, ligados, incorporados. E que o mundo, a consciência (ou Mente), e o corpo (físico) são todos partes de um único sistema.

Claro que essa sua conclusão não primou pela originalidade, pois vários pensadores e até alguns sistemas religiosos já haviam afirmado essa espécie de Monismo. HEGEL e o Hinduísmo são exemplos dessa tendência unicista.

Todavia, MERLEAU-PONTY foi original ao dar a essa junção de mente e corpo, ou “corpo sujeito”, o papel de protagonista no processo de aprendizado.

E também original por também ter esclarecido que o corpo físico não é um mero fantoche comandado pela mente, pois é através do mesmo que experimentamos ou captamos o mundo e o próprio fato de existirmos.
Ao rejeitar a “dualidade”, ou seja, a visão de que o mundo é composto por dois entes separados, MERLEAU-PONTY reservou ao físico a mesma importância que antes era dada apenas à mente, ressalvando, porém, que tanto quanto naquela, nenhuma informação adquirida pelo corpo físico é capaz de fornecer um saber completo sobre o que foi experimentado ou estudado. Assim sendo, será sempre necessário o emprego de ambos, físico e mente, para que a sabedoria adquirida seja a mais extensa possível.

Os membros-fantasmas

Ao se dedicar a ver o mundo doutra maneira, o filósofo interessou-se por experiências incomuns.
Ele acreditava, por exemplo, que o caso do “membro-fantasma*” confirmava a sua tese de que o corpo físico não é apenas uma máquina, pois, se fosse, não reconheceria mais a parte que lhe foi subtraída.
Para ele, o corpo é, na verdade, um “corpo vivido”, ou seja, que carrega em si as experiências que já viveu como no caso do membro amputado.

NOTA do AUTOR – membro-fantasma* processo mental que leva o individuo vitima de amputação a “sentir” o membro que lhe foi tirado.

Cientistas Cognitivos

A ênfase que MERLEUAU-PONTY deu ao corpo físico e ao papel desempenhado pelo mesmo na aquisição de saber, bem como as suas outras intuições filosóficas sobre a natureza da mente (ie, sobre o que é a Mente) e sobre a sua ligação com o corpo físico, levaram-no a uma retomada de interesse pelos chamados “cientistas cognitivos”, ie, os eruditos que estudam o “processo de aprendizagem”.


E de fato, muitos avanços nessa área confirmaram as validades de suas teses acerca da necessidade de rompermos com a “aceitação habitual” do mundo, e sobre o processo de experimentação ou de aquisição de conhecimentos.

Comprovações que acrescentaram mais brilho ao seu já ilustre renome e contribuíram para que seu trabalho permaneça como um dos mais visitados por todos aqueles que buscam respostas para as grandes questões da vida.


© Registro na BNRJ/EDA sob nº 605.931 – Lv. 1.161 – Fls. 121.  Proibida qualquer forma de cópia.

Produção de divulgação de TAIS ALBUQUERQUE, rien limitée, do Rio de Janeiro, no inverno de 2013.