domingo, 1 de setembro de 2013

KARL, MarxHeinrich - Filósofos Modernos e Contemporâneos

MARX, Karl Heinrich.
1818 – 1883
A história de todas as Sociedades até hoje existentes é a história da luta de Classes. A “Luta de Classes”, “A Dialética Materialista ou o Materialismo Dialético”, “A Mais Valia”, “O Exército de Reserva”, “a Práxis”, “o Manifesto Comunista”, “O Capital (Das Kapital)”.


PREFÁCIO
Antes de tudo, pede-se que o leitor não confunda os conceitos de “meritocracia” com o de “injustiça”, pois se é plenamente aceitável que cada qual ganhe de acordo com seu talento e com seu esforço, é profundamente questionável que alguns vivam nababescamente após terem conseguido a sua fortuna através de meios ilícitos; ou, então, por terem nascido em lares ricos e por isso disputem com injustas vantagens e trunfos indevidos os empregos, as vagas universitárias, as posições sociais etc. com aqueles que por infortúnio foram gerados e criados em lares carentes, perpetuando um trágico “Circulo Vicioso” de exploração, violência e terror.
Note-se, pois, que o conceito de “Injustiça Social” não implica em fazer com que todos sejam nivelados por baixo, mas justamente o contrário. “Justiça Social” é dar oportunidades efetivas para que todos possam buscar a própria realização.
Mas o que vem a ser exatamente essa chamada “Injustiça Social” e qual a sua causa e origem? O que leva o homem a se comportar como um simples animal, cujo interesse é apenas a sua própria satisfação? Provavelmente seja, exatamente, a sua condição de “animal”, já que milênios de civilização não foram suficientes para apagar em nossa psique alguns instintos animalescos. Ainda continuamos a preservar com ferocidade o “nosso espaço”, a “nossa comida” e a satisfação de nossas outras necessidades mais básicas, físicas, materiais.
É certo que tais instintos, por força da repressão social, foram atenuados e que alguns sentimentos mais nobres afloram em algumas ocasiões. Mas no intimo ainda somos escravizados por nossas ambições, por nossa ganância e, principalmente, por nosso medo de sermos rejeitados socialmente se nada possuirmos. Somos, ao cabo, escravizados pelo pavor de nos sabermos frágeis e de que só existimos quando estamos refletidos em posses e propriedades.
A partir, então, dessa constatação é possível ver que a “Justiça Social” nunca poderia ocorrer de forma voluntária, espontânea, pacifica, pois quantos homens se disporiam a abrir mãos de seus bens em favor da coletividade?
Logo, a “Luta de Classes” será perene, pois aqueles que possuem os “Bens Materiais” tudo farão para mantê-los e aumentá-los; enquanto aqueles que não os possuem, tudo farão para conquistá-los.
É como uma sina da humanidade, permeada por violências de toda sorte. Humanidade, que certamente ainda terá um longo caminho a percorrer até que consiga se libertar da bestialidade de seu comportamento atávico.
Alguns otimistas veem, ou querem ver, um abrandamento dessa natureza selvagem. Alguns pessimistas, ou realistas, julgam-na em aumento constante devido ao endeusamento ao “Poder Material” que a cada dia mais se consolida em nossa sociedade. São pontos de vista que derivam e se deixam à escolha, mas o certo é que os motivos de antes ainda estão presentes e atuantes e com isso se vê a atualidade da obra marxista. Aliás, tanto quanto a necessidade de estudá-la sem pré-julgamentos, ou pré-conceitos, pois talvez a apreensão da nossa verdade seja o único caminho que poderá nos oferecer alguma perspectiva positiva.
Por fim, pede-se que quando existirem censuras, explícita ou implícita associadas às citações sobre “Burguesia”, “Elite” ou “Classe Dominante”, tenha-se em mente que a mesma é dirigida àquelas pessoas descritas no inicio e que gozam de luxo e riqueza sem que nada tenham feito para merecê-los.

O autor conta com o discernimento e a compreensão do (a) amável leitor (a).

Já se disse que tudo que se escreveu sobre Filosofia não passaria de simples “notas de rodapé” para os textos que PLATÃO redigiu ao expor o seu ideário. Tirante algum exagero nessa afirmativa, resta a constatação quase unânime acerca da efetiva importância que o sábio grego teve e tem para a cultura do Ocidente.
E ressalvando-se as proporções e as circunstâncias, não será de todo errado dizer o mesmo acerca de KARL MARX, pois se novamente subtrairmos qualquer exagero indevido, vê-se que o seu pensamento embasou o ideário de praticamente todos os pensadores modernos e contemporâneos. Seja como adeptos ou como adversários, todos navegaram em suas águas, ao refletirem, investigarem e analisarem as questões políticas, o Mundo e a própria humanidade.
É inegável, pois, que esse genial alemão, fez-se eterno nos anais da história e, mais importante, nos corações de todos aqueles que insistem em sonhar com um mundo e com uma sociedade mais justa e fraterna.
Afinal, aprendeu-se com ele que o exercício da esperança pode e deve ser estudado com o rigor da ciência e que a mudança está sempre ao alcance daqueles que conseguem libertar-se do egoísmo medíocre que a moral burguesa forjou como padrão a ser seguido.

Notas biográficas

KARL MARX foi o segundo a nascer em uma prole de nove filhos. Veio ao mundo no seio de uma família judaica, de classe média, na cidade Tréveris, na Prússia, então parte do Império Alemão.
HENRIETTE PRESSBURG, sua mãe, era judia holandesa e seu pai, HERSCHEL MARX, descendia de uma linhagem de “Rabinos”, mas teve que abandoná-la e se converter ao Cristianismo em decorrência das restrições que se faziam ao ingresso de hebreus no serviço público, onde ele, advogado por ofício, exerceu o cargo de Conselheiro de Justiça.
Graças a essa apostasia, o cargo permitiu-lhe oferecer boas condições materiais à família e por isso MARX e seus irmãos e irmãs desfrutaram de uma infância confortável e de acesso facilitado às boas escolas.
KARL MARX iniciou os seus estudos no Liceu de FRIEDRICH WILHELM, na cidade natal, no mesmo ano em que eclodiram rebeliões em várias nações europeias. Para alguns, um prenuncio dos movimentos políticos que no Futuro embasariam o cerne de seu pensamento.

Posteriormente, ingressou na universidade de Bonn para estudar Direito, mas logo no ano seguinte transferiu-se para a universidade de Berlim onde teve contato com a Filosofia de HEGEL* que exerceu influência decisiva em seu ideário.

NOTA do AUTOR - Georg W. Friedrich HEGEL, 1770 – 1831 Professor e Reitor da Instituição.

Na sequência analisaremos os diversos temas que compõe o Marxismo, subdividindo-os para facilitar a compreensão, mas enfatizando a complementariedade entre todos.

A troca do Direito pela Filosofia

Posteriormente, ainda na capital alemã, ingressou no “Clube dos Doutores”, liderado por BRUNO BAUER e abandonou definitivamente o estudo das Leis para abraçar o de Filosofia.

Também nessa ocasião participou ativamente de movimentos políticos filosóficos como “Os Jovens Hegelianos” e começou a exercitar de maneira sistemática seus dons literários.

Em 1841, obteve o titulo de “Doutor em Filosofia” após defender a tese sobre As diferenças da ‘Filosofia da Natureza’ em Demócrito e em Epicuro.

Porém, tendo sido impedido de seguir a carreira acadêmica devido ao seu ativismo político, tornou-se em 1842 o Redator-Chefe da “Gazeta Renana”, um pequeno jornal da província de Colônia, Alemanha.

A amizade e a parceria com ENGELS

Também em 1842 conheceu FRIEDRICH ENGELS (Prússia, 1820-1895) com quem manteve fraterna amizade e produtiva parceria política e literária por mais de quatro décadas. Relacionamento, aliás, que chegou a lhe sobreviver, pois foi ENGELS quem se incumbiu de editar postumamente as suas obras.

Ainda sobre a amizade de ENGELS é oportuno que se diga que em várias ocasiões ele atuou como um verdadeiro mecenas ao socorrer MARX que vivia em constantes apuros financeiros. Foi graças à sua generosidade que o brilho maior de MARX não terminou sufocado pelas preocupações menores das  exigências do cotidiano.

Também se deve ventilar que não são poucos os eruditos que lhe creditam um papel essencial no desenvolvimento do Pensamento Marxista, já que além de sua importante colaboração financeira, ele teve efetiva participação no campo teórico e literário, tendo sido inclusive o coautor de vários textos. 

Envolvimento Político e a penúria familiar

Em 1843 a Gazeta Renana foi fechada por ordem do Governo, em represália a uma série de artigos que criticavam duramente a administração prussiana.

Desempregado, MARX e a família que ele iniciara em junho daquele ano ao se casar com JENNY VON WESTPHALEN (filha de um barão prussiano, com quem ele mantivera um noivado secreto em virtude da desaprovação de ambas as famílias), emigraram para a França.

Em Paris, MARX assumiu a direção da revista Anais Franco Alemães e manteve contato com diversas organizações secretas de Socialistas.

A vida pessoal e familiar, primeiro em França e depois em Londres, enfrentavam condições materiais dificílimas e em virtude da penúria recorrente, o casal perdeu quatro, dos sete filhos que gerou.
Outro filho de MARX (fruto de uma relação extraconjugal com uma empregada da casa e militante socialista chamada HELENA DEMUTH) foi assumido por ENGELS, que pagou pensão à criança e a entregou em adoção para uma família proletária londrina.

No terreno da Política, ainda em 1843, MARX fez contato com a Liga dos Justos (depois rebatizada de Liga dos Comunistas); e em 1844 iniciou efetivamente a parceria de trabalho com o amigo ENGELS.    

A adesão ao Socialismo

Também nessa ocasião iniciou uma série de debates com o Filósofo francês PROUDHON (Pierre Joseph, 18909 – 1865) e um proveitoso relacionamento com o Anarquista russo, BAKUNIN (Mikhail Aleksandrovitch, 1814 – 187), ativo militante Socialista que vivia na França, refugiado do Czarismo russo.

Esses encontros, debates e relacionamentos completavam os estudos que MARX realizava continuamente sobre a “Economia Política”, os “Socialistas Utópicos” franceses e a história da França.

E foi desse conjunto de informações e reflexões que nasceu a sua primeira obra de reconhecida importância: Manuscritos de Paris, posteriormente chamados de Manuscritos Econômico Filosóficos.

E, segundo ENGELS, foi também nessa época que MARX consolidou a sua adesão às Ideias Socialistas.

As tribunas na imprensa e as mudanças

Ainda em Paris, MARX ajudou a editar um pequeno jornal – VORWARTS! – cuja linha editorial primava pela critica constante ao Governo alemão. Postura que teve como consequência o revide do Regime e MARX acabou sendo expulso do país em 1845, a pedido da Prússia.

Da França, ele emigrou para a Bélgica e em Bruxelas encontrou-se com ENGELS que também se mudara para lá. Ali, a dupla redigiu o célebre Manifesto Comunista, que traz a essência do ideário Marxista.
Porém, em 1848 o Governo belga também o expulsou juntamente com ENGELS.

Por isso, ele e o amigo mudaram para a cidade de Colônia, Alemanha, onde fundaram um novo jornal – Nova Gazeta Renana – que tinha como linha editorial as mesmas críticas dos jornais anteriores, não poupando de censuras as autoridades locais que em resposta, novamente, os expulsou no ano seguinte, 1949.

A melhora passageira nas finanças pessoais

Na vida pessoal, apesar das mudanças e condenações nos últimos tempos, a maré havia mudado e MARX vinha conseguindo oferecer boas condições materiais para a família graças aos rendimentos que auferia com suas publicações e com as doações que recebia de amigos e aliados, além da herança que recebeu com a morte do pai.

Mas ao deixar Colônia, a penúria voltou a lhe assombrar e só a muito custo a família conseguiu retornar a Paris, onde novamente foi impedida de ficar por ordem do Governo francês.

Foi necessária, inclusive, uma campanha de arrecadação de fundos, promovida por FERDINAND LASSALLE* na Alemanha, para que com os recursos obtidos a família pudesse chegar a Londres onde, enfim, se eles se fixaram em definitivo.

NOTA do AUTOR - FERDINAND LASSALLE*, 1825–1864, considerado o precursor da Social Democracia alemã.

Ali viveram em relativa tranquilidade até que a partir de 1881, já deprimido pela morte da esposa, MARX viu se agravarem os seus problemas de saúde, até que veio a falecer em 1883.

Foi enterrado no cemitério londrino de High Gate, na condição de apátrida.

NOTA do AUTOR - Ironicamente, porém, o fato de lhe terem negado uma nacionalidade fez justiça à universalidade de seu gênio. Com efeito, uma inteligência como a sua não poderia ficar restrita a um só País. Pertence, de fato, a todos os povos.

O Pensamento de MARX e a sua influência

Para não fugir à regra das ideias brilhantes que só fulguram após a morte de quem as teve, às de MARX tiveram pouca repercussão enquanto ele viveu.

O interesse mais significativo ocorreu na Rússia que já vinha experimentando uma série de contestações ao regime monárquico dos Czares, mas sem que houvesse uma ideologia capaz de catalisar todas as insatisfações. E foi em Moscou, em 1872, que se publicou a primeira tradução de O Capital – Tomo I.

Na Alemanha, só em 1879 é que a sua obra começou a ser conhecida graças ao estudioso de Economia Política ADOLPH WAGNER, que comentou o “ideário marxista” ao longo de sua obra, Allgemeine Oder Theoretische Volkswirthschafts Lehre.

Graças a esse impulso inicial, o pensamento marxista ganhou fôlego e pouco após a morte do Filósofo as suas teorias já obtinham crescente influência intelectual e política entre os movimentos operários que ao final do século XIX tinham no “Partido Social Democrático Alemão” o seu principal, e talvez único, canal de expressão.

Influência que também crescia, embora com menos ímpeto, entre os círculos acadêmicos ligados aos estudos das “Ciências Humanas*”, principalmente nas universidades de Viena e de Roma, que foram as pioneiras em ofertar cursos sobre o Marxismo.

NOTA do AUTOR – Ciências Humanas*: Filosofia, Antropologia, Sociologia, Política, História etc.

Hoje, é um consenso que MARX foi um legitimo continuador da grande Filosofia alemã, ombreando com KANT e HEGEL e aproximando-se de pensadores do porte de ARISTÓTELES.

Porém, embora tenha sido um sincero admirador de HEGEL, MARX discordava severamente de sua “Filosofia Idealista”, através da qual se afirmava que da realidade se faz filosofia”, ou seja, que a Filosofia é apenas uma reflexão passiva sobre uma conjuntura colocada.

Para ele, o correto é justamente o inverso, isto é, “a Filosofia deve incidir sobre a Realidade; não basta divagar, ou que se especule, ou que se pense sobre a Realidade.

Para MARX, cabe à filosofia alterar a realidade.

A Práxis como o cerne do Marxismo

E segundo ele, para “mudar o Mundo” é imperioso vincular o Pensamento e a Prática, (o ato de fazer); a Teoria e a Ação Revolucionária (no sentido de mudar drasticamente os valores, os costumes, etc.).
Vinculação que MARX chamou, ou conceituou de Práxis.

Pode-se dizer que a Práxis confunde-se com o cerne de seu sistema filosófico, haja vista que para combater com êxito as injustiças oriundas do Sistema Capitalista será necessária a junção do corpo e da alma, da força e da inteligência.

A partir da definição sobre o quê e quem deverá ser combatido, MARX estabeleceu como condição imprescindível para o sucesso, que se abandonasse qualquer separação entre a Teoria e a Prática, entre o Pensamento e a Realidade, pois essa divisão é uma mera abstração, já que o corpo e a mente estão indissoluvelmente ligados e perfazem uma totalidade complexa. 

Para ele, a Revolução pensada, sonhada e desejada deve ser realizada concretamente, sob a pena de não ter passado de uma tola e infantil bravata.

O historicismo e a rejeição ao Determinismo

Por conta desse apego aos fatores físicos, concretos é que o Marxismo baseia-se na ideia de que a história humana é determinada pelas circunstâncias materiais, físicas, concretas. E não pelo “progresso do espírito”, pela “evolução da mente”, pelo “desenvolvimento do pensamento”, como afirmavam HEGEL e outros pensadores.

Porém, apesar de conceder essa supremacia à matéria, ao físico, em detrimento das ideias, do abstrato, a doutrina Marxista rejeita qualquer noção de Determinismo, que como se sabe é a tendência filosófica que afirma serem os fatos e as circunstâncias prévia e inelutavelmente definidas por “deuses”, “destino”, “Deus” etc. e que acontecem de modo totalmente independente da vontade do homem.

Dessa sorte, para bem se entender os conceitos Marxistas*, deve-se aceitar que o processo histórico é feito pela ação humana, pelo movimento dos fatos e pelas circunstâncias concretas, materiais. Afinal, segundo a sua ótica, as ideias, as divagações ou os conceitos abstratos são apenas o reflexo da realidade física, ou seja, uma “Abstração do Real”.

NOTA do AUTOR – exemplos de conceitos marxistas*: “Força Produtiva”, “Mais-Valia” etc.

O Trabalho

Para MARX, o Trabalho é o centro da atividade humana, independentemente de ser intelectual, braçal, primário, complexo etc.

É a base, a fundação sobre a qual se assenta a própria humanidade, já que é das “Relações de Trabalho”, ou “Relações de Produção”, que surgem todas as outras relações entre os indivíduos, isto é, as “Relações Sociais”, que, por sua vez, embasam todo o processo de formação da humanidade.

A História, portanto e ao cabo, é a narrativa das Relações de Produção, ou de Trabalho, pois é dela que se originam as demais.

A Alienação

E foi a partir da importância dada ao “Trabalho”, que MARX desenvolveu sua tese que identifica a Alienação* no trabalho, como a alienação básica que acontece em todas as outras áreas.

Mas o quem vem a ser exatamente a “alienação”?

Alienação é o nome dado ao processo cujo objetivo é ocultar ou falsificar a relação ou ligação entre “ação e consciência” e com isso fazer parecer que o produto, ou a mercadoria produzida, seja superior, independente, indiferente ao homem que a produziu.

É uma situação característica do Capitalismo, onde o trabalho do homem é tratado de tal modo, que as coisas que ele produz são imediatamente separadas de seus interesses e colocadas além de seu alcance (o operário que produz um carro de luxo é um exemplo clássico dessa situação).

A partir dessa base filosófica, MARX estendeu as suas reflexões para as outras Ciências, cujo estudo, aliás, foi profundamente influenciado pela sua opinião acerca da Realidade ser essencialmente física, concreta, material e determinante das Relações Sociais.

As Influências
Para formatar seu ideário, MARX sorveu partes dos pensamentos de alguns eruditos. Dentre outros, citaremos a seguir aqueles de maior importância:

- A Filosofia alemã de KANT, HEGEL e a dos chamados Neo-Hegelianos, com ênfase em FEUERBACH.
- o Socialismo utópico de SAINT-SIMON, ROBERT OWEN, LOUIS BLANC e PROUDHON.

- a Economia Clássica dos britânicos, ADAM SMITH, DAVID RICARDO e mais alguns.

NOTA do AUTOR – sobre PROUDHON paira a dúvida sobre o acerto de incluí-lo na malta dos “Utópicos”, haja vista sua posição favorável à radicalização política.

Adiante abordaremos estas influências separadamente, embora devam ser compreendidas como complementares na formação de seu sistema.
A Formação das Classes Sociais
Como se disse, a luta entre as Classes Sociais é o pensamento básico da doutrina marxista. Por isso, será oportuna uma breve reflexão sobre a gênese e a natureza das mesmas.
No berço da civilização os indivíduos eram os responsáveis diretos por produzir tudo de que necessitassem para si mesmos e para os seus próximos (comida, roupas, armas, utensílios etc.).
Quando as primeiras sociedades começaram a se organizar, as pessoas passaram a contar com o labor das outras e cada qual passou a fazer aquilo que melhor se lhe adaptava.
Essa estruturação levou ao surgimento do escambo e/ou das barganhas no qual fulano trocava o que produzira, por aquilo de que necessitava e que fora produzido por sicrano.
Uma forma rudimentar de Relações Comerciais que foi magistralmente descrita pelo Economista ADAM SMITH (Escócia, 1723 – 1790).
MARX concordava com a afirmativa do escocês de que foi justamente nesse momento que se iniciou a “Especialização no Trabalho”, mas ressaltava que essa mesma especialização também passou a servir como rótulo, ou classificação. Como escala de importância, credibilidade e atratividade.
Passou a definir as posições dentro do contexto social.
A especialização, ou ocupação, ou profissão do individuo passou a servir como indicativo de como seria a sua vida física, material. Passou a servir para ditar “onde e como” esse indivíduo moraria, o quê comeria, o quê vestiria etc.
 NOTA do AUTOR - e para justificar conceitos e pré-conceitos negativos.
Ademais, impunha com quem o sujeito poderia e deveria se relacionar e compartilhar seus interesses. E contra quem esses seus interesses colidiriam. Passou, ao cabo, a determinar quem seriam os seus aliados e os seus adversários.
Estava, portanto, arquitetado o “Sistema de Classes Socioeconômicas” que é a base de todo Regime Capitalista, onde o que diferencia um indivíduo do outro é a quantidade de Capital que cada qual possui.
NOTA do AUTORCapital que nem sempre tem origem ética, ainda que seja amparada por uma Legislação viciada.
De acordo com MARX, houve quatro estágios na história humana que se vinculam diretamente com as quatro formas diferentes do “Regime de Propriedade”.
 A saber:
1.   Sistema Tribal (a propriedade era comum, da coletividade).
2.   Sistema de Propriedade Comunal e Estatal (onde teve inicio a Propriedade Privada e a Escravidão).
3.   Sistema Feudal de Propriedade (onde a titularidade da propriedade era de um único Senhor).
4.   Sistema Capitalista Moderno (em que a propriedade está concentrada nas mãos de quem detém o Capital).
Cada um desses estágios representou uma forma diferente de “Sistema Econômico”, ou de “Modo de Produção” e as transições entre os mesmos foram marcadas por acontecimentos políticos turbulentos como guerras, revoluções etc. que substituíam as Classes Dominantes a partir do evento.
A Luta de Classes
Desde a época em que o Brasil era dado como “oficialmente descoberto”, que a questão da “Luta de Classes” já era debatida, como se pode observar nos textos do genial Nicólo Maquiavel (1469 – 1527), que narra o quanto o problema permeava as antigas sociedades e, especialmente, a romana, conforme se lê em sua obra “Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio”.
E vários outros exemplos a pena de Maquiavel poderia relatar com facilidade, pois o embate sempre esteve presente em todos os agrupamentos sociais. De um lado a “Classe Dominante” e do outro, a “Classe Explorada”.
Porém, se antes os antagonistas eram variados*, a partir da Revolução Industrial ** os adversários passaram a ser englobados em apenas duas categorias:
  1. Burguesia
  2. Proletariado
NOTAS do AUTOR* – nobres x servos; aristocratas x servos; latifundiários x camponeses etc. ** Iniciada no “Reino Unido” em meados do século XVIII e difundida mundialmente desde o inicio do século XIX.
Hodiernamente várias subcategorias foram estipuladas e outras nomenclaturas foram criadas, mas o fato é que o litígio continua a ser basicamente o mesmo, pois o que o motiva permanece intocado: a “injustiça social”.
Valores da Burguesia
Segundo MARX, além das implicações econômicas oriundas da alteração no regime de propriedade, outro fato marcante ocorreu quando a “burguesia” consolidou-se como vitoriosa na “luta de classes” e estabeleceu que não houvesse mais qualquer ligação entre as pessoas que não fosse ditada pelo “interesse próprio, egoísta e praticado de modo escancarado”.
Instituiu de modo imperativo o egocentrismo absoluto, onde só importa o interesse individual, com o consequente fim de qualquer tipo de vida comunitária, fraternal e quejandos. Estipulou, enfim, a substituição da antiga solidariedade, pela acirrada competição.
Impôs que doravante só existiria o “desumano pagamento em dinheiro”, com o conseguinte fim do escambo, ou da simples troca de favores.
Se, anteriormente as pessoas eram valorizadas e estimadas pelo que eram e pelo que faziam, passaram a ser “queridas” apenas pelo que possuíam.
Se antes o trabalho artesanal era uma das principais fontes de reconhecimento acerca do valor de um individuo, já que a sua habilidade e a serventia de seu oficio garantiam a sobrevivência e a prosperidade do grupo, a partir do aburguesamento da sociedade, tal labor passou a ser execrado sob o argumento de que não produzia riqueza suficiente.
Assim sendo, pelos motivos descritos, com a ascensão burguesa o valor da pessoa reduziu-se a um mero “valor de troca”.
Valores morais, éticos, religiosos e até os sentimentais foram eliminados ou abafados, enquanto ocorria o processo que transformava a todos em simples e anônimos “trabalhadores assalariados” (de Cientistas a Poetas, de Engenheiros a Padres).
Nas palavras de MARX, onde havia “sentimentos religiosos, místicos ou de outras naturezas”, a Burguesia os substituiu com exclusividade pela “exploração descarada, direta, brutal de um homem por outro homem”.
Decretos e Leis que antes protegiam as Liberdades Individuais foram sumariamente atropelados por uma falsa e irracional Liberdade de Mercado, pela noção de Livre Comércio”.
O resgate dos antigos valores
Segundo MARX, para que os antigos valores fossem resgatados e com eles a dignidade humana, a única alternativa seria derrotar a mentalidade burguesa tornando os “Meios de Produção*” propriedade coletiva.
NOTA do AUTOR - Meios de Produção - a terra, as fábricas, as máquinas, as ferramentas, o Capital etc.
Cada indivíduo poderia, então, trabalhar conforme a sua capacidade e habilidade e teria o sagrado direito de consumir conforme a sua real necessidade, sem os penduricalhos fúteis que o Capitalismo torna necessários através da lavagem cerebral que faz por intermédio de sua sórdida publicidade.
Publicidade, aliás, que não se limita em apenas alardear as supostas vantagens de certo produto. A propaganda ganhou terreno inusitado e atualmente dita modas e normas de comportamento sem qualquer lastro cientifico ou pudor ético, fazendo de cada homem um reles consumidor, cujo bem estar físico e espiritual depende das aquisições que consegue fazer.
Não há dúvidas de que nesse procedimento existe também uma maquiavélica intenção de se fixar nas mentes mais humildes a ideologia burguesa, pois ao criar paradigmas ela convence aos menos letrados da importância de seguirem o “rebanho” sem fazerem questionamentos indesejáveis.
Instituições Culturais
Segundo MARX, a análise da “base econômica” de uma sociedade permite observar que quando o “Sistema de Propriedade” da mesma se altera, modifica-se também a Superestrutura* daquele grupo social.
NOTAS do AUTOR - *Superestrutura – a política, as leis, a Filosofia, a arte, a religião etc. O conjunto de elementos e valores abstratos pertencentes e diretivos de uma Sociedade.
Observando-se a substituição dos Nobres pelos Burgueses enquanto “Classe Dominante”, vê-se com clareza esse tipo de alteração, particularmente no campo das Artes.
Nota-se, por exemplo, que enquanto a música da Nobreza caracterizava-se por certo requinte, densidade, elegância e outros atributos considerados superiores, a da Burguesia representada por modas populares ou sertanejas “funks” e coisas do gênero, a indigência intelectual e artística que a falta de educação e de cultura ocasiona no gosto e na sensibilidade das pessoas.
NOTA do AUTOR – ressalva-se, porém, o direito individual de cada qual gostar daquilo que lhe parecer agradável. Aqui não se trata de julgar estilos, mas é indubitável que um compositor como Chopin será sempre mais importante que um mero oportunista que se vale da oferta dos meios de comunicação para atingir o “sucesso”. Conta-se com o discernimento do (a) leitor (a) para entender que não se trata de um mero elitismo pernóstico.
Ainda que tenha se tornado a detentora do poder econômico, a Burguesia não escapa das censuras e das críticas ao seu “mau gosto” e ao sarcasmo habitual daqueles que zombam dos supostos hábitos extravagantes dos considerados novos ricos, ou “sem berço” e outras considerações elitistas.
O Espírito da Época
Como se sabe, a Superestrutura se desenvolve para servir aos interesses da Classe Dominante, promovendo as suas verdades e legitimando as suas aspirações e os seus atos, enquanto desvia a atenção do Proletariado das efetivas questões socioeconômicas.
Todavia, nem mesmo a Classe Dominante é quem de fato determina os acontecimentos ou as próprias instituições de seu tempo. Sua capacidade de formar a “Superestrutura” é, portanto, limitada.
O que efetivamente controla, organiza e determina os acontecimentos de uma época é aquilo que HEGEL chamava de Zeit, ou Espírito da Época, o qual, ao cabo, seria o resultado da soma, ou da média, das ideias individuais dos cidadãos daquele lugar e momento.
MARX concordava parcialmente com a ideia hegeliana, mas onde HEGEL via o Zeitgeist como um Espírito Absoluto”, ou seja, o predomínio hegemônico das ideias, da mente, da abstração, MARX o enxergava como a resultante das relações socioeconômicas existentes entre os indivíduos daquele momento e local.
Para ele, tais relações é que formam efetivamente o ideário daquele momento, ou a consciência (ou conscientização) de indivíduos e sociedades.
Segundo MARX, as pessoas não deixam uma marca pessoal em seu tempo, moldando-o segundo sua vontade. Ao contrário, é o momento, ou a época, que moldam os indivíduos e os grupos sociais.
A influência de FEUERBACH e os mitos divinos
A releitura que MARX fez da Filosofia Hegeliana foi assaz influenciada pelas ideias de outro pensador alemão chamado FEUERBACH (Ludwig, 1804 – 1872), para quem as pessoas criam Deuses ou Deus “à sua imagem e semelhança*” e lhes atribuem as grandes virtudes humanas (generosidade, inteligência, justiça etc.).
NOTA do AUTOR - *a ironia do mesmo não era aleatória
A partir dessa criação, apegam-se a estas Entidades Divinas que inventaram e optam em viver “sonhos, utopias, delírios” ao invés do mundo real, ou físico, concreto, material.

NOTA do AUTORa tese central FEUERBACH consistia na crença de que a “Religião” é uma sórdida farsa, que não pode ser amparada por nenhum Pensamento Lógico Racional, e que contribui decisivamente para manter a miséria humana.

NOTA do AUTOR - outro Filósofo, Nietzsche, sobre essas invenções de deuses, ou de Deus, ou de “Valores Sublimes” disse que eles “são humanos, demasiados humanos”; ou seja, sua gênese nada tem de divina, pois não passam de meras criações da mente humana, cujas origens, com o tempo são esquecidas e, então, atribuídas ao divino. As pessoas se alienam de si mesma por meio de uma comparação sempre desfavorável entre seu próprio “eu” e o “Deus” que elas criaram.
A Influência do Idealismo (ou hegelismo)

Dois pontos na Filosofia hegeliana influenciaram bastante o jovem MARX: a Filosofia da História e a Dialética.

HEGEL, como se sabe, adotava o conceito de Devir, criado pelo filósofo pré-socrático HERÁCLITO, para argumentar em favor de sua tese de que nada no Mundo seria estático, fixo, imóvel. Ao contrário, tudo está em constante movimento, em perpétuo processo de vir-a-ser.

Logo, tudo é “histórico”.

Para HEGEL, o sujeito desse mundo em constante movimento é o Espírito do Mundo (ou a Superalma, ou a Consciência Absoluta), ou seja, a soma ou a média dos pensamentos e sentimentos dos homens.

Ademais, segundo ele, a Consciência Humana Geral, chamada de “Deus” por alguns, é pertencente a todos os indivíduos, pois inobstante as diferenças pontuais, todos os homens possuem uma essência em comum.

Por isso, a história é entendida como o desenvolvimento, ou o progresso das ideias, do espírito, da mente, já que a coisas físicas, concretas são meras projeções do que existe em nível mental.

Na verdade, conforme HEGEL, o desenvolvimento da mente é, ao cabo, o desenvolvimento da Consciência da Liberdade*, já que após percorrer uma trajetória, ou uma história – a “Consciência Individual” liberta-se do jugo da matéria e da servidão ocasionada pela ignorância.

NOTA do AUTOR - Consciência da Liberdade*: a formatação da sociedade em seus aspectos concretos, físicos, materiais, obedece às normas ditadas pelas ideias; ou seja, a Realidade é formada pelas ideias. São as concepções humanas que definem como deve ser a vida em sociedade, numa tentativa de eliminar, ou pelo menos suavizar, o conflito existente entre as ideias de “Liberdade Individual” versus “Coerção Social”. Com isso, o Ser humano liberta-se progressivamente dos baixos instintos animalescos que ainda habitam o seu espírito, graças a um processo de espiritualização, ou de evolução mental. Processo este que se constitui de um conjunto de reflexões filosóficas que leva o individuo a perceber que ele, homem, é o sujeito efetivo da história (ou da realidade, da sua própria existência) e que, portanto, caberá a ele decidir o seu destino.

O rompimento com as ideias de HEGEL

Durante algum tempo, MARX seguiu essa linha de pensamentos e participou do grupo intitulado de “hegelianos de esquerda”, mas acabou por romper com o mesmo e efetuou uma severa revisão em seus conceitos baseados nessa teoria. Foi então que se aproximou das teses de FEUERBACH que gozava de muita popularidade entre os intelectuais contemporâneos.

Em 1841, FEUERBACH publicou o livro “Essência do Cristianismo” e com ele aumentou consideravelmente a influência sobre MARX, ENGELS e outros “jovens hegelianos”.

Nessa obra, suas criticas contundentes ao ideário de HEGEL e sua afirmativa de que a religião não passaria de uma projeção dos desejos humanos e de uma forma de alienação, foram de encontro ao que MARX já intuía e lhe deu o amparo teórico para prosseguir suas lucubrações com esse viés.

A dialética hegeliana “de cabeça para baixo

Assim sendo, logo MARX concluiu que a “Dialética Hegeliana” estaria de “cabeça para baixo” porque mostrava o “homem como um atributo, ou um produto do pensamento, das ideias”, quando o correto, na verdade, seria inverso, ou seja, ver “o pensamento como um atributo, ou um produto do homem”.

A partir daí, MARX passou a rejeitar peremptoriamente a ideia de que o “Espírito” ou “Mente do Mundo” seja a sua essência, ou o sujeito do mesmo. Contudo, conservou de HEGEL a concepção de que a “história é uma marcha”, uma “caminhada dialética”, já que o Mundo está em movimento contínuo graças aos contínuos atritos entre os opostos (tese x antítese = síntese).

Prosseguindo em sua rejeição, ele passou a afirmar que a origem da Realidade Social* não estaria nas ideias, na consciência que os homens têm dessa realidade. Estaria, na verdade, na ação concreta, física, da humanidade, ou no “trabalho (ação)” do homem.

Afinal, segundo ele, a existência material vem antes de qualquer pensamento e não há a menor possibilidade de se pensar em algo que não existe concretamente.

NOTA do AUTOR – note-se nesse último parágrafo uma das sementes do futuro Existencialismo.

NOTA do AUTOR – alguns discordam dessa afirmativa de que é impossível pensar em algo que não existe concretamente, pois alegam ser viável pensar sobre um sentimento como, por exemplo, a “saudade”. Outros rebatem, dizendo que não se pensa sobre a “saudade em si”, mas apenas sobre quem ou o quê a causou; reflete-se, portanto, sobre um Ser, um Lugar etc. que são físicos, concretos, materiais.

A dialética materialista. O materialismo dialético.

Como se disse anteriormente, MARX disse jocosamente que a Dialética de Hegel estaria de cabeça para baixo e que era necessário inverter-lhe o eixo, colocando na materialidade e não nas ideias a gênese do “movimento histórico” que é a essência do Mundo.

A partir dessa inversão é que se criou um dos conceitos chaves de seu Pensamento: “A Dialética Materialista”, ou “Materialismo Dialético, que seguia parcialmente o figurino hegeliano, mas com a diferença de que no seu caso as teses e antíteses são fatos concretos, materiais e objetivos como, por exemplo, na situação abaixo:

Tese = monarquia X antítese = burguesia

Síntese = socialismo.

A Influência do Socialismo Utópico.

Na época de MARX, costumava-se chamar de Socialismo Utópico o conjunto de doutrinas (algumas antagônicas entre si) que tinham em comum as seguintes premissas:

1 – A base do comportamento humano é determinada pela moral e pela ideologia.

2 – O desenvolvimento da civilização Ocidental já permitiria o aparecimento de uma nova era, na qual imperariam a harmonia e a justiça social.

MARX foi severo em suas censuras aos Socialistas Utópicos em geral e, particularmente em relação aos franceses como o Conde de SAINT-SIMON com quem, aliás, manteve uma acirrada polêmica.

Acusava-os de serem excessivamente ingênuos e românticos. E de serem inertes e omissos, pois pouco ou nada faziam para se ter um estudo sério e profundo sobre a conjuntura social que permitisse, numa segunda etapa, a consequente alteração que fosse necessária.

Segundo ele, os Utópicos eram pródigos em falar sobre como deveria ser a “Sociedade Ideal”, porém, eram mesquinhos em apontar as maneiras efetivas que levassem àquela sociedade harmônica e justa.

Contudo, não obstante as suas criticas, MARX adotou, implícita ou explicitamente, algumas de suas concepções, das quais se pode citar, a ideia de que o aumento na oferta de produtos por obra da “Revolução Industrial” permitiria maior conforto ao homem; ou, a noção de que as “crenças ideológicas do indivíduo” influem em seu comportamento.

A Utopia Marxista
O termo Utopia foi criado por THOMAS MORUS OU MORE (Inglaterra, 1478 – 1535) e aqui será usado com um significado diferente do pretendido original, mas consagrado pelo uso popular.
Originalmente o termo significava “lugar nenhum”, mas o estilo coloquial transformou-o em sinônimo de quimera, ideal, algo extremamente positivo, desejável, embora inatingível.
E para alguns, MARX mostrou-se “utópico” ou ingênuo, ao supor que o homem poderia evoluir de seu egoísmo animal para uma solidariedade angelical, ou pelo menos humanitária, que permitiria o bem-estar geral.
Todavia, essa ingenuidade, para outros, não deve ser vista apenas como algo negativo, pois foi esse “sonho idílico que embalou – e ainda embala – as aspirações de um vasto número de admiradores e de adeptos ao “Ideal Socialista”, permitindo com isso que continue a existir uma alternativa à rudeza do Capitalismo.

E também, apesar de sua insuficiência, por ensejar o avanço em algumas práticas e costumes que tiveram o mérito de suavizar em alguma medida os horrores da miséria em vive o Proletariado sob o jugo da Burguesia.

Um dos exemplos mais recentes dessa suavização pode ser visto no Brasil com a regulamentação da Profissão de Empregados Domésticos, a qual, inobstante seus defeitos, busca tirar desses (as) profissionais o antigo estigma da escravidão.

A Influência da Economia Clássica

Devido à importância que dava ao aspecto material como formador e condicionante das relações entre os membros de um grupo de pessoas, MARX não titubeou em estudar com afinco as teorias econômicas ocidentais (desde as da Grécia antiga até as que lhe eram contemporâneas).

Acertadamente ele intuiu a necessidade de conhecer sobejamente tais fundamentos para, num segundo momento, modifica-los em consonância com o seu ideal de Justiça Socioeconômica.

Dentre outros, mostrou-se admirador dos “Economistas Políticos” britânicos, ADAM SMITH (Escócia, 1723–1790) e DAVID RICARDO (Inglaterra, 1772–1823), a quem, aliás, coube a sua predileção, pois segundo suas palavras, ele seria “o maior dos Economistas clássicos”. Dele, MARX sorveu algumas ideias que posteriormente revisou e reinterpretou.

Dessa reelaboração é que provieram, por exemplo, conceitos como o da “Mais Valia”, do “Fetiche” (ambas oriundas da “Teoria do Valor”, elaborada pelo inglês), da “Divisão Social do Trabalho”, da “Acumulação Primitiva” etc.

Contudo, o grau de influência que ambos, especialmente Ricardo, exerceram sobre o Ideário Marxista nunca encontrou consenso.

Eruditos “neo-Ricardianos” consideram que há uma enorme semelhança entre o pensamento de seu guru e o de MARX, porém, os estudiosos do Marxismo minimizam essa similitude e apontam diferenças cruciais entre os dois sistemas.

Metodologia

Uma critica recorrente que se faz à obra de MARX refere-se ao fato de que ele não criou e tampouco seguiu, é óbvio, um método para expor as suas reflexões sobre seus objetos de estudo; ou seja, sobre as matérias que estudou: Filosofia, Política, História, Sociologia etc.

Com efeito, MARX nunca se preocupou em seguir um roteiro, preferindo consignar suas dispersas reflexões em obras variadas.

Com isso, criou o seu próprio método, tão heterodoxo e singular quanto suas ideias, e foi através do mesmo que elaborou as suas criticas ao “Idealismo especulativo de Hegel”, à “Economia política clássica” e, principalmente, à injusta situação do proletariado.

Método que lhe permitiu sustentar a sua censura a HEGEL e seus seguidores que ao criaram uma “dialética mistificada” cuja intenção era explicar especulativamente* a história mundial, como um exclusivo autodesenvolvimento da “Ideia** Absoluta”, abandonaram o estudo de outros fatores que também seriam significativos para tal explicação.

NOTAS do AUTOR* – “tentaram explicar especulativamente”, ou seja, apenas por meio de ilações, deduções, divagações, reflexões sem quaisquer dados concretos que apoiassem essas “operações mentais”.

NOTAS do AUTOR** – autodesenvolvimento da “ideia absoluta”, ou do exclusivo desenvolvimento mental, espiritual da humanidade.

Método que lhe ensejou a oportunidade de censurar os “Economistas clássicos”, que a seu ver faziam parecer natural e desapegado do curso da história o “Modo de Produção Capitalista”, enxergando-o como se ele fosse uma imposição inquestionável da natureza; assim como a exploração que a burguesia praticava contra o proletariado. Pensadores que se apoiavam em um conceito abstrato e absurdo, denominado de Homo Economicus, eivado de sérios questionamentos acerca de sua correção. Pensadores da Economia clássica que, ademais, recorriam amiúde às famigeradas Robsonadas*” para ilustrarem um suposto primarismo econômico do proletariado, o quê, ao cabo, justificaria a sua exploração** (sic) pelas outras classes sociais.

NOTA do AUTOR* – Robsonadas - neologismo derivado do nome próprio Robson Crusoé e alusiva às suas narrativas sobre o escambo primitivo entre caçadores e pescadores

NOTA do AUTOR** – essa visão de que seria justificável a dominação e a exploração de um homem por outro homem é filha do antigo conceito do “Direito Divino”; ou seja, por razões desconhecidas um suposto “Ser Supremo” escolhe a seu critério um indivíduo, ou um grupo deles, para dominar e explorar os outros Seres, mesmo que os “exploradores escolhidos” não tenham a menor qualificação para tanto. Assim, segundo essa “Lei”, o felizardo não precisaria ser hábil, nem probo, nem inteligente, nem generoso etc. Bastar-lhe-ia ter tido a sorte de nascer na “Classe Social Correta” (sic).

Todavia, inobstante a discordância que mantinha de suas teses, MARX não considerava os “Economistas Clássicos” como pessoas mal intencionadas. Afirmava que a mistificação que faziam era oriunda do “Fetichismo à Mercadoria”, ou seja, da “adoração mística a um produto”. Um comportamento irracional, mas tão atrelado ao espírito humano que acabou sendo considerado normal pela maioria.

E era em oposição a essa irracionalidade que MARX se colocava, enquanto propunha um estudo aprofundado, sério e objetivo sobre a história, ou sobre a trajetória do desenvolvimento das “Formas de Produção” como organizadora das “Relações Sociais”.

Apenas através desse conhecimento sólido e isento de preconceitos, ele acreditava que seria possível alterar o que houvesse de errado e se pudesse atingir a justiça e a harmonia desejada.

A Crítica da Religião

Ao contrário do que se pensa habitualmente, MARX não dedicou grande esforço na censura à Religião. Pode-se até observar que ele a via com mais condescendência que intolerância.

Basicamente ele seguiu de modo mais atenuado, a concepção do Filósofo FEUERBACH para quem a religião não expressaria a vontade, ou a palavra, de nenhum “Deus”, ou de qualquer outro Ser metafísico. Não passaria, portanto, de uma mera criação humana. De uma fábula inventada pelos homens, que, cônscios de sua fragilidade, buscariam no “Sagrado algum consolo para as suas fraquezas e fracassos, bem como “bodes expiatórios” que os isentasse da responsabilidade por seus atos negativos. Afinal, é sempre mais fácil culpar a Vontade de Deus que assumir a própria negligência, ou inércia, ou inabilidade pelos erros cometidos.

Portanto, a ideia difundida de que MARX e os seus seguidores seriam inimigos ferozes dos religiosos deve ser debitada mais à contundência de suas criticas de que à extensão e insistência das mesmas.

Além, é claro, da falaciosa propaganda que a burguesia fez sobre o tema, usando esse “falso perigo” como um instrumento a mais para aterrorizar o inculto populacho que via na religião a sua única “válvula de escape para as frustrações do cotidiano e que por isso temia perdê-la.

Em relação à contundência referida, é possível ver alguns exemplos da mesma no texto denominado Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. É nele que MARX consignou expressões que se tornaram célebres como, por exemplo:

a Religião é o ópio do povo”;é o suspiro da criatura oprimida”; o coração de um Mundo sem coração”; “é o Espírito de uma situação carente de Espírito.
MARX acreditava que as pessoas também se apegam à religião porque desejam um lugar em que o eu não seja desprezado, ou alienado. E nada melhor que um “Deus bondoso” para aceitar esse “eu”, que noutros campos enfrenta continuas restrições por acharem-no “pobre”, “feio”, “medíocre” etc.
Porém, ele alertava que essa fuga é tão inútil, quanto a encontrada na embriaguez, ou com o uso de entorpecentes e similares, haja vista que as restrições que a “Classe Dominante” impõe aos excluídos permanecem inalteradas e a quimera religiosa, ao cabo, acaba servindo apenas para que o proletariado afogue-se cada vez mais em sua ignorância e na resignada miséria que isso lhe acarreta.
Acaba servindo apenas como pretexto para que o indivíduo deixe de lutar para sanar as injustiças, resignando-se a uma falaciosa esperança de felicidade e recompensa no além-túmulo.

Todavia, para ele, o fim puro e simples da religião não seria uma prioridade e nem a resposta efetiva para os problemas sociais. Apenas a mudança total nas questões de ordem social e política é que poderiam elevar as condições de vida e a conscientização do indivíduo, o qual, numa fase posterior e de modo natural passaria a ver a inutilidade daquela crença dogmática e alienante e o quanto ela foi utilizada para conservá-lo cativo da injusta distribuição dos recursos da sociedade.

NOTA do AUTOR – o (a) leitor (a) comprova por essas últimas definições, a sua citada condescendência. Embora ele visse a religião como uma reles e tola fantasia, podia compreender a necessidade humana que a faz existir.

A Revolução

Apesar de ter recebido o epíteto de “Teórico da Revolução”, MARX não consignou em suas obras qualquer definição, ou conceito, especifico sobre o tema.

Ofereceu apenas descrições e considerações acerca das Revoluções Francesa, Inglesa e Estadunidense, bem como projeções e prognósticos para as eventuais revoluções futuras.

E um claro exemplo desses “Prognósticos Históricos” pode ser encontrado em sua obra intitulada “Contribuição para a Crítica da Economia Política”, onde ele afirma que: “numa certa etapa do seu desenvolvimento, as “Forças Produtivas” da sociedade entram em contradição com as “Relações de Produção” existentes (ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas) e com as “Relações de Propriedade”, pois, estas relações transformam-se em grilhões das primeiras ensejando, então, uma época de revolução social”.

A Revolução e a violência

MARX considerava que o grau e a intensidade da violência ocorrida durante a Revolução, estão sempre em conformidade com a maior ou menor truculência com que o Estado reage contra quem lhe ameaça.

Por isso, segundo sua ótica, a existência da violência decorre mais da reação do Estado do que da natureza em si da revolta. Afinal, o “Estado” é feito e composto por homens, e como já se disse, o instinto animal que nos habita é o que nos força a reagir contra tudo aquilo que nos parece ser uma ameaça. Logo, é totalmente previsível que o Governo use a coerção e a repressão ao máximo possível, para salvaguardar os seus interesses e para manter a organização em que se assenta o seu “Poder Político”.

Dessa sorte, não resta alternativa à insurreição que não seja responder violentamente.

NOTA do AUTOR – e é justamente por conta disso que ocorrem os excessos de ambos os lados.

O “Contrato Social” inexistente e a violência

Para MARX, ao contrário do que imaginavam os Contratualistas, o “poder político do Estado” não provém de um “Contrato Social”. Não emana de um acordo voluntário, ou de um consenso entre os indivíduos de determinado agrupamento.

Na verdade, é uma determinada Classe que o conquista e o mantém através de ardilosidades, de falcatruas e da violência explicita, através da Policia, do Judiciário, das Forças Armadas, milícias semioficiais etc. e da violência camuflada, como regulações absurdas, burocracia sufocante, impostos escorchantes etc. Violências que não hesita em usar contra as “Classes Exploradas”, as quais, por sua vez, quando se rebelam devolvem-na inevitavelmente.

Todavia, para MARX, embora a violência seja indissociável da Revolução, a mesma não deve se transformar em um instrumento de aniquilação total. Não deve ser sinônimo de reconstrução a partir do zero, pois como ele argumenta em sua obra “Crítica ao Programa de Gotha”, a instauração de um novo regime só será possível se ele for sustentado pelas instituições pré-existentes, obviamente que com as devidas correções.

Por isso, a Revolução Proletária ao instaurar um novo “Regime Sem Classes” só poderá lograr êxito se concluir satisfatoriamente um período de transição que ele chamou de Socialismo.

A Crítica ao Anarquismo

Como se sabe, o Anarquismo é um sistema filosófico que prega o fim do Estado e doutras instituições que normatizam a vida do homem, tais como a família, a Igreja, o Partido Político etc. Argumentam seus adeptos, que todas as formas de governo interferem negativamente na liberdade individual e que por isso devem ser substituídas pela cooperação entre os cidadãos.

Para MARX, essa visão ingênua de se acabar com o Estado por decreto não se sustenta por sua própria ingenuidade. Por se imaginar utopicamente que o homem deixe de ser comandado pelo seu egoísmo animal, para se tornar um Ser orientado apenas pelo sentimento fraternal.

Por isso, para ele não se deveria propor o fim do Estado, mas, sim, o fim das iníquas condições socioeconômicas que o fazem ser necessário enquanto instrumento de opressão que a “Classe Dominante” utiliza a seu bel prazer, como ferramenta de pressão e sempre com o intuito final de preservar o poder e as benesses do mesmo.

Para MARX, acabando-se com a injustiça social, o Estado deixará de existir naturalmente.

MARX, PROUDHON e o Anarquismo.

O Filósofo PROUDHON, em defesa do Anarquismo, escreveu uma importante obra intitulada A Filosofia da Miséria”.

Porém, pelas razões expostas, MARX discordou dessa tese e compôs uma antítese que jocosamente chamou de “Miséria de Filosofia” em alusão ao suposto “primarismo intelectual” que norteariam as propostas anarquistas. Nessa obra, MARX, além de censurar o pensamento Anarquista de PROUDHON, também crítica o “Blanquismo*” por sua visão elitista sobre o Partido e, também, por sua tendência autoritária e superada.

NOTA do AUTOR – *Blanquismo, neologismo derivado do nome próprio de LOUIS BLANC, socialista e anarquista francês.

E ainda nessa linha de contraponto, MARX se posiciona a favor do “liberalismo político e econômico”, mas tomando o cuidado de esclarecer que tal regime não seria a solução definitiva para o proletariado, servindo apenas como sustentação para o processo de maturação das Forças Produtivas (ie, os Trabalhadores) e de homogeneização da condição do proletariado em todo o Mundo. Homogeneização, ou uniformização que seria gerada colateralmente pela internacionalização do Capital.

E de fato o seu prognóstico vai se concretizando com a Globalização da Economia e com as empresas Multinacionais que geram a uniformidade no comportamento de seus empregados e de seus clientes nas mais diversas regiões do Globo.

Não é raro, por exemplo, que um trabalhador hindu tenha os mesmos desejos que um brasileiro, ou um estadunidense. E não será raro que num Futuro próximo as demandas dos mesmos sejam tão iguais que não se poderá mais diferenciá-los pela nacionalidade.

Por linhas que talvez não tenham sido previstas pelos “Capitalistas”, vê-se que paulatinamente forma-se uma Consciência de Classe no proletariado internacional.

Como se fosse por ironia da história, observa-se que é o próprio Capital que está promovendo e materializando o slogan marxista: “Trabalhadores do Mundo, uni-vos!”.

A Práxis

Termo oriundo do idioma grego cuja significação original remete à ideia de ação, de fazer, de atividade prática.

No Marxismo, significa o conjunto de ações humanas que tendem a criar as condições indispensáveis para a plena vigência da sociedade, principalmente no que se refere à produção física, material. À atividade concreta.

Destarte, a palavra Práxis se torna o título de um dos fundamentos mais importantes da doutrina de MARX, haja vista que a mesma afirma categoricamente que é a ação humana que cria, ou que produz a história e a base do Marxismo é justamente o argumento de que a historia é materialista e que a realidade não se altera por moto* próprio, ou seja, sem que haja a intervenção do homem para que as mudanças ocorram.

NOTA do AUTOR – “Materialista” porque é feita de fatos concretos, materiais, físicos e não de ideias abstratas.

NOTA do AUTOR - A esse propósito*, ele diz em sua obra “O 18 Brumário de Luís Bonaparte” que: “não é a Realidade que move a si mesma, mas comove os atores (ie. sensibiliza os homens, levando-os à ação). Trata-se sempre de um drama histórico...”.

Mas esse materialismo não deve ser visto como um determinismo* histórico que resulte num materialismo mecânico, ou positivista.

NOTA do AUTOR –Determinismo” no sentido de que algo ou alguém determine que a história aconteça de tal modo

Tal hipótese, em verdade, estaria em completa oposição à concepção Marxista do “materialismo Dialético”, no qual, os atritos entre os fatos materiais, concretos, físicos é que geram as situações políticas (tese x antítese = síntese).

Materialismo dialético ou histórico que também poderia ser entendido como uma “Dialética da Realidade – Idealidade Evolutiva” onde as relações entre a realidade (concreta) e as ideias, ou concepções acontecem e se juntam precisamente na Práxis.

Afinal, sendo a história um produto das ações humanas e sendo as ideias um produto das circunstâncias materiais, a meta a ser atingida é fazer com que a história seja “Lógica e Racional”.

Que as ações humanas sejam coerentes e justas e que por isso criem condições materiais favoráveis, as quais, por sua vez, proporcionarão o surgimento de ideias também “Lógicas, Racionais e Favoráveis”.

Assim, com essas reflexões, MARX encerra suas teses sobre FEUERBACH reafirmando que a sua filosofia não se esgota em interpretar o Mundo, buscando transformá-lo efetivamente.

Afinal, a interpretação ocupa-se apenas de estudar, de pensar, de refletir sobre o Mundo que já existe, enquanto que a pretendida Ação Revolucionária será capaz de produzir a transcendência, ou ultrapassagem desse modelo de Mundo.

A Mais Valia e o Exército de Reserva

O conceito da Mais Valia foi empregado por MARX para explicar a obtenção de lucros espúrios no sistema “Capitalista”.

Vale lembrar que “Mais Valia” é o valor extra da mercadoria, ou seja, a diferença entre o que o empregado produz e o que efetivamente recebe. É aquilo que o patrão deixa de lhe pagar e que ele não cobra, não exige.

Mas por que o proletariado não cobra o que lhe seria de direito?

A resposta a esta indagação vem na forma de um dos outros pontos importantíssimos da doutrina Marxista. Para o filosofo tal cobrança não se efetiva porque o proletário sabe que será prontamente demitido e substituído por um dos desempregados que lotam constantemente as fileiras do chamado “Exército de Reserva”.

Exército de Reserva que nada mais é que um estoque de não de obra ie, um grande contingente de pessoas desempregadas e desesperadas por qualquer emprego e qualquer salário, que a burguesia mantém para usar como instrumento de coação contra aqueles poucos que ousam reclamar da exploração que sofrem.
Como não poderia deixar de acontecer, esse seu argumento encontrou ácidas oposições, dentre as quais a de BENEDETTO CROCE (1866-1952, Itália) que afirmou ser “O Capital” um texto que não poderia ser considerado científico, mas apenas uma obra moral(ou moralista), cujo único objetivo seria caracterizar a “Sociedade Capitalista” como perversa e injusta, ao contrário da “Sociedade Comunista” que concretizaria o ideal de plena justiça social.
Alegava, ainda, que essa carência de “cientificidade” poderia ser observada facilmente só pelo fato de o ideário Marxista não ter qualquer apoio da “racionalidade lógica e cientifica (sic).
GRAMSCI e vários outros eruditos saíram em defesa da tese de MARX afirmando que a opinião de CROCE não passaria de reles sofisma, posto que os conceitos de Mais Valia” e de Valor” são idênticos. Ou seja, ambos denunciam a diferença entre o valor da mercadoria produzida e o valor pago à “mão de obra” que a produziu.
E para consubstanciar essa defesa, eles insistiram em lembrar que a tese de MARX derivava diretamente de uma celebrada teoria do economista DAVI RICARDO (1772-1823, Inglaterra), que não enfrentou qualquer censura ao publicá-la, porque à época ela não representava nenhum perigo à burguesia, já que não havia a menor conscientização entre o proletariado acerca da exploração que sofria.

Aliás, naquela ocasião, a tese de Ricardo foi considerada como uma constatação puramente objetiva e cientifica de uma realidade econômica”. Ou seja, amplamente respaldada pelos rigorosos critérios racionais, lógicos, científicos e positivistas.

Dessa sorte, entre críticas e elogios, a tese passou para a história e se firmou como uma das bases do pensamento Socialista.

O Manifesto Comunista
Enquanto estudava filosofia acadêmica na universidade de Berlim, MARX conheceu FRIEDRICH ENGELS (Prússia, 1820-1895), que além de se tornar um amigo fraterno por toda a vida foi, também, o mecenas e o coautor de vários textos de MARX, dentre os quais, deste que marcou a estreia da dupla junto ao grande público.
As ideias expostas nesse livreto, com cerca de quarenta páginas, já viviam nas mentes dos filósofos desde as décadas de 1830 e 1840 e eram transcritas aleatoriamente por MARX em manuscritos privados. Posteriormente, ambos compilaram-nas e as usaram como a base do texto final de O Manifesto.

Nele, explicitaram os valores, as ideias, os ideais, os conceitos, os planos políticos etc. do Comunismo, sempre com o cuidado de usarem uma linguagem coloquial e pragmática, já que para ambos, como se disse, a função da filosofia não era explicar o mundo, como alegavam os antigos, mas sim reformá-lo e por isso qualquer leitor deveria compreender o que propunham.
NOTA do AUTOR - Comunismo que à época não passava de um sistema proposto e adotado por um reduzido número de pessoas, geralmente oriundas de regimes socialistas radicais, que existiam na Alemanha.
Diz o Manifesto que a sociedade reduzira-se a duas classes socioeconômicas: a burguesia1 e o proletariado2 e que essa estrutura pôde existir com relativa tranquilidade, inobstante a tensão entre as classes e algumas revoltas pontuais, até que os seguintes acontecimentos alterassem a estrutura vigente:
1.   O descobrimento das Américas.
2.   A abertura dos mercados indiano e chinês aos produtos fabricados em série com o advento da Revolução Industrial e o consequente êxodo rural que esvaziou o poder da nobreza feudal e ensejou o surgimento de um proletariado urbano, mais aglomerado e cônscio de sua miséria e de sua capacidade de luta.
3.   O próprio desenvolvimento da Indústria e do Comércio que decretou o fim do trabalho artesanal, já que este não era mais capaz de suprir a demanda sempre crescente. Aliás, como por ironia, esse fim causou a primeira das contradições do Capitalismo, pois ao eliminar a presença do artesão, também eliminou um “Capitalista” (mesmo que de pequenas dimensões), que, a partir de então, tornou-se um simples operário e um membro a mais do proletariado.
Prossegue o “Manifesto” analisando a conjuntura resultante desses fatores e propondo os meios e os métodos para a efetiva vitória do ideal socialista.
Desse modo, graças à Linguagem acessível e à ênfase dada aos assuntos Políticos e Econômicos que atingiam primeiramente os estômagos e só depois os cérebros abstraídos, o Manifesto tornou-se popular em pouco tempo, mas por isso, passou a ser mais valorizado como tratado de Filosofia Política, que como obra de inegável valor literário. Porém, também no aspecto de pura literatura nada fica a dever a seus similares, pois além das teses já citadas, também aborda outros temas com clara e rara erudição.
E o fato de ter tornado acessível ao público em geral ideias que antes ficavam restritas às elites intelectuais e/ou sociais, acrescenta-lhe um brilho especial.
E, mais importante, alerta para a possibilidade de se corrigirem os equívocos e as injustiças, pois não existe nada predeterminado por um suposto Deus, ou por uma suposta “Lei da Natureza”. Demonstra com clareza que a correção das iniquidades depende apenas da ação humana.
Por tudo isso, o “O Manifesto” tornou-se um divisor de águas na cena política do mundo.
Pela primeira vez um texto alardeou de forma clara e direta que a burguesia tinha, sim, que temer “o espectro que avança sobre a Europa”.
E que os antigos conceitos, as velhas noções e os valores do Passado seriam irremediavelmente rompidos.
Popularizando a ideia de que seria possível modificar as Sociedades, alertou que o Sistema Capitalista não é apenas injusto e explorador, mas também inerentemente instável e sujeito a ocorrência de frequentes crises comerciais e financeiras, as quais seriam cada vez mais severas e deletérias para a “Classe Explorada”, a qual, sem alternativa, reagiria com crescente radicalização no ideário da revolução. Que o progressivo empobrecimento da “Força de Trabalho”, ou proletariado, resultará no aumento da agressividade de suas respostas e o configurará como um efetivo segmento social genuinamente revolucionário.
NOTA do AUTOR - aliás, as corriqueiras manchetes dos jornais atuais sobre o desemprego, protestos populares, aumento na violência etc., confirmam novamente o acerto das previsões de MARX. No Brasil atual essa faceta revolucionária ainda não tem qualquer conformação estruturada e se expressa apenas através do aumento crescente no banditismo; mas, já se observa alguns ensaios de organização, ainda que de modo precário, através da criação de grupos como os chamados “Comando Vermelho”, no Rio de Janeiro, “PCC”, em São Paulo, dentre outros.
NOTA do AUTOR: Burguesia1 – palavra derivada do francês “burgeois” e que significa etimologicamente “o habitante do Burgo, ou vila ou cidade”. Em Política passou a significar o indivíduo que é proprietário dos “meios de produção”; ou seja, das máquinas, das terras, das fábricas, do Capital etc. O homem que ascendeu socialmente e passou a ocupar, graças à sua fortuna, o espaço que antes era destinado aos nobres, ao alto clero, à elite militar etc. Proletário2 – etimologicamente significa o indivíduo que gera uma prole. Em Política essa capacidade de gerar filhos passou a significar a capacidade de gerar mais mão de obra, que seria agregada à sua força de trabalho. É o indivíduo que não possui “os meios de produção” que são indispensáveis para se produzir algo e que dispõe apenas de sua “força de trabalho”, ou seja, de sua capacidade de trabalhar, que vende em troca de um salário, ou ordenado.
A Classe Revolucionária como maioria.
MARX também observa outro aspecto que talvez seja decisivo para a vitória Comunista, pois pela primeira vez na história a “Classe Revolucionária” representará a maioria da humanidade.
Se antes a grande “massa de explorados” não podia ter qualquer “consciência revolucionária” em razão das enormes pressões físicas e metafisicas que sofria, o proletariado atual começa a conquistá-la através das brechas que surgem no edifício do Capitalismo.
Brechas que permitem que mais jovens proletários estudem (ainda que em condições inadequadas) e se tornem conscientes; e que continuam, ao propiciar que outros mais vivam por mais tempo graças à abundância propiciada pelo desenvolvimento da tecnologia; bem como, que mais pessoas se informem e se comuniquem graças à popularização dos telefones e da Internet, uniformizando assim as demandas de quase todos os povos da Terra.
Ademais, para o Filósofo, outra motivação para que “classe oprimida” faça a insurreição vem do fato de que a crescente complexidade do processo de produção (à medida que a tecnologia avança) torna o desemprego mais agudo, pois a robótica substitui com vantagens, os antigos trabalhadores que, então, serão forçados a lutarem para sobreviverem.

O Capital – “Das Kapital”

Das Kapital é seguramente a criação máxima de MARX, que para realizá-la contou com a inestimável ajuda de Engels, o coautor dessa obra-prima. Nela, os Filósofos fazem uma extensa, profunda e elaborada análise da sociedade Capitalista.

É predominantemente um livro sobre “Economia Política”, mas a sua abrangência estende-se por outras áreas, quando, então, MARX discorre também sobre a Cultura, a Sociedade, e a Filosofia.

É um trabalho tanto analítico quanto sintético, pois traz análises minuciosas sobre determinados temas, enquanto oferta inspirados resumos sobre outros assuntos, apresentando vários estilos literários. É, simultaneamente, uma obra crítica, descritiva, científica, filosófica e, de certo modo, romântica por embutir entre tantos conceitos técnicos a esperança de se construir um Mundo mais justo e harmônico.

Decerto que a sua leitura é difícil, pois é inegável que a sua linguagem é insípida e complexa, mesmo que não seja tão especulativa e abstrata quanto nas obras de HEGEL. Não é um livro para ser apenas lido. Deve ser visto como um objeto de estudo, cuja recompensa vale à pena, pois a sua compreensão traz um acréscimo de Saber cujo valor é inestimável.

“O Capital” é a principal fonte de estudo para que o proletariado atinja a desejada “Conscientização de Classe”. Só através da análise inovadora, profunda e correta que MARX e ENGELS nele fizeram acerca da realidade da “Classe Subjugada”, é que a mesma poderá enxergar além da ideologia dominante que a Elite lhe impõe.

E só assim é que poderá obter uma base sólida para as suas reivindicações. Para a sua Luta Política.

NOTA do AUTOR - Alphonse de Waelhens (Filósofo belga, 1911 – 1981) afirmou sobre a abordagem que MARX faz acerca dos fatores econômicos para a formação das Sociedades humanas que: “o Marxismo é um esforço para ler, por trás da pseudo-imediaticidade do Mundo econômico reificado (ou coisificado, ie, tudo é tratado como se fosse uma simples coisa, inclusive o Ser Humano), as relações inter-humanas que o edificaram e se dissimularam por trás de sua obra”.

NOTA do AUTOR - apesar do sucesso que alcançou e do prestigio de que ainda goza, “O Capital” é considerada, por alguns puristas, como uma obra incompleta no que tange à autoria de MARX, já que apenas o primeiro volume foi publicado enquanto ele vivia. Os outros Tomos só foram organizados e publicados por ENGELS após a morte do companheiro.

Outras Obras de MARX

Além das obras-primas O Capital e O Manifesto Comunista que vimos com mais acuidade, MARX escreveu outros trabalhos de enorme importância.

Na sequência falaremos brevemente sobre cada um deles. A saber:

A Ideologia Alemã – nele, MARX apresenta com minúcias os pressupostos de seu Sistema Político e Filosófico.

Questão Judaica – onde MARX expõe as suas críticas às religiões, afirmando que não se devem apresentar questões humanas como se fossem teológicas. Deve-se, sim, fazer o contrário, ie, mostrar que as questões teológicas não passam de simples questões humanas. Também afirma que a ótica correta a ser empregada seria ver as religiões como um mero reflexo do pensamento humano sem que exista qualquer coisa de Sagrado, ou de Divino nas mesmas, pois, afinal, elas são apenas e tão somente fantasias que o homem faz de si mesmo, o que, de certo modo, representa a mísera condição a que ele é submetido.

Crítica ao Programa de Gotha – aqui o Filósofo faz uma extensa e sistemática apresentação da sociedade Socialista. Além da excelência literária, é possível notar o esforço que MARX faz para se afastar de qualquer ranço de Futurologia, já que ele não a considerava uma ciência crível.

A Guerra Civil na FrançaMARX ultrapassa nesse texto, as suas tendências “jacobinas” e defende com vigor a tese de que só com o fim do Estado é que o proletariado ofertará a si próprio as condições necessárias para manter-se no “Poder” recém-conquistado. Também afirma que o fim do poder estatal levará à situação do povo em armas, onde a própria população encarrega-se da manutenção da ordem e da segurança pública, pois o “monopólio da violência” que havia sido delegado ao Estado sucumbirá com o mesmo.

 O 18 Brumário de Luís Bonaparte – aqui MARX desenvolve uma profunda análise sobre o “terror da burocracia” e comenta a questão do campesinato como aliado do operariado na revolução comunista (tese que posteriormente, grosso modo, foi adotada por MAO TSÉ TUNG, na Revolução Chinesa). Além disso, faz uma profunda investigação acerca do papel dos Partidos Políticos no âmbito da sociedade e comenta com minúcias a essência do bonapartismo.

Epílogo

Em 1954, o Partido Comunista Britânico construiu uma lápide com o busto de MARX sobre sua tumba, que até então nada tinha como ornamento. Na pedra, além de uma citação de FEUERBACH, escreveram:
Proletários de todos os países, uni-vos!”.

O jargão que se tornou a marca icônica do pensamento de um dos maiores filósofos que o mundo produziu é a síntese perfeita para os sonhos desse gênio alemão que ousou acreditar na humanidade.

© Registro na BNRJ/EDA sob nº 605.931 – Lv. 1.161 – Fls. 121.  Proibida qualquer forma de cópia.

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Produção e divulgação de TANIA ALBUQUERQUE, rien limitée, do Rio de Janeiro, no inverno de 2013