sábado, 14 de maio de 2011

Montevidéu

- Está com dó do cavalo, Salustiano?
- Ele está cansado, doutor. Veio trazendo todo mundo.
- Todo mundo, não. Aqui só tinha um monte daquilo. Passa o chicote...

Por algum motivo eu o vejo parecido com “Carlitos” de Chaplin. Não é sua caricatura e tampouco suas roupas imitam as do inglês, mas a patetice do seu olhar enche-me com a mesma ternura que já tive. Porque eu faço essa associação não sei direito, mas o "Chaplin patético" faz-me recordar a antiga e majestosa Montevidéu. Recorda-me a Montevidéu que agasalhava Miraflores de Ordonez y Cervantes (isso, igual ao escritor). Morena, alta, magra e com longos cabelos pretos. Escuros como os dias. Olhos que escondiam o carinho que os tempos não permitiam.


Ter onze anos é terrível; ainda não se é “rapaz”, mas também já não se é mais criança. O Marcos pôs no fogo os livros e as revistas 'da Rússia que o pai recebia. O velho disse que o Dr. Murilo lhe assegurou que “eles” não invadiriam aqui em casa, mas mesmo assim o Marcos queimou tudo que pudesse servir de prova. É estranho pensar no que mais eles poderiam fazer com ele. Desde que escapou da Ilha Grande que ele não pára de vomitar sangue. Ele diz que é por causa dos cacos de vidros que punham na comida, mas a mãe disse que é por conta dos choques e das bordoadas que ele tomou. O ruim é que a gente vê e não pode fazer nada.


Mas logo o suplicio dos “11 anos” termina. Daqui a dois dias eu farei os sonhados doze e entrarei de vez no “Mundo dos Adultos”; e com essa maturidade e “experiência de vida” o Eduardo me ensinará a fazer “Coquetel Molotov” e me levará na zona, onde eu conhecerei o corpo de uma mulher. Os coquetéis serão meu batismo de fogo na “luta contra os ianques e contra a burguesia”. A “mulher da vida” tirará a minha virgindade. Virgindade, diga-se, que eu já tinha perdido ainda em criança. Anisete, a prima ninfomaníaca, incumbiu-se da tarefa e agora eu temo que a “moça da zona” me machuque como ela fazia. Eu não posso contar para os outros, mas eu tremo só de pensar que essa “moça”, já adulta, me morda o pênis com muito mais força.


O diabo é que parece que o dia 13 chegará, mas não o dia doze. P... Será minha primeira festa de aniversário e eu sei que as meninas já estão fazendo as pizzas de sardinha e os meninos estão tentando empenhar os respectivos relógios para comprarem as bebidas. Teremos, certamente, Rum misturado com Coca Cola, pois, afinal, lutamos por um Brasil e por uma “Cuba Libre”.


Mas aos trancos e barrancos, o dia 12 chegou. E, então, o que começou a demorar foram os segundos, os minutos e as horas. O último adulto já tinha vindo, o “Pão Frito”, que militava com meu pai e estivera preso com ele. Aos poucos as meninas chegaram, logo depois os meninos e a vitrola foi pouca para tantos discos dos Beatles, e claro, música da Guerrilha, de Chico, de Caetano e de tantos outros que emprestaram voz e coragem para combater o monstro, cujo nome não se diz. Mas como tudo que é bom acaba rápido, assim que a Gina pôde dançar comigo eu comecei a ouvir os gritos, as cadeiras arremessadas, os pratos caindo e as pizzas de sardinha voando pelos ares. Demorei alguns segundos para entender o que acontecia, mas logo compreendi que a “Gloriosa” entrava na minha casa, na minha festa e na minha vida. Eram 23h59 do dia 12 de Dezembro de 1968 e um tenente com cara de japonês berrou vivas ao AI5 e por ter estourado o “aparelho” de um bando de perigosos “terroristas”.


Eu só me lembro do cassetete comendo. Minha mãe caída e meu pai algemado. E dos gritos. Muitos gritos. Deles e delas, eu nunca mais tive noticia. Restou um irmão e fui com ele para Goiás. Fui com ele para o “Movimento Armado”. Um bando de malucos que de manhã estudava Marx com obsessão e à tarde treinava tiro. Mas como o único revolver disponível era tão velho quanto o exemplar de “O Capital”, pouco se avançou nessas duas habilidades. Ninguém aprendeu direito essas duas matérias de suma importância para a “Redenção dos Povos Latinos” (meu deus, a gente acreditava nisso...)


O f... É que por não saber a teoria e menos a prática não fui admitido no Movimento de Guerrilha que lutava na Amazônia. Após alguns dias de frustração, decidimos fazer o caminho inverso e rumamos para o Sul e dali, para Montevidéu, foi um pulo.


Montevidéu é apaixonante à primeira vista. E a primeira impressão que tive é que estava em uma São Paulo bem cuidada. Largas avenidas, largos passeios, postes da iluminação pública com lustre em Art’decó, homens de sobretudo 7/8, mulheres de echarpes e a sensação de se estar em plena Europa. Igual a que eu conhecia, através dos livros que o velho tinha e que o Marcos queimou.


Mostrando-nos toda essa beleza, Mira falava em puro “portunhol” e com tal velocidade que me fazia perder quase todo seu discurso. Mas que eu perdesse o discurso e o rumo, pois lá estava Mira. Só ela eu não poderia perder.


A confeitaria na Avenida 8 de Octubre, cuja bomba de creme me faria cantar o “Deus Salve a América”; o vinho na Estacion Lorenzo Carneli e o perfume das rosas no casarão da Av. Batle y Ordônez foram sabores e perfumes que percorri com Mira, cientes de “nossa missão histórica”. Mira dos longos cabelos, que certo dia os encheu com as flores que vicejavam ao lado do campo de tiro e me fez ver como a Primavera em pessoa confirma que a vida existe.


- filho da p..., tu não te lembras que eu joguei no Inter? Eu, Didi da canhota, lembra?


Mira, cujos olhos espelhavam as estrelas quando o sono teimava de não aparecer, pois o que antes era bicho-papão virou “Operação Condor”.


- filho da p... Comunista ordinário, tu lembra agora?


Mira das longas e frias mãos, como se fosse a Isolda desse Continente tão triste. Mira do branco sorriso.

- leva a biscate pra baixo. Vou amolecer primeiro o “carne ruim” e pegar o “filé” depois.
- já ouviu falar dele, comuna? Não quer responder?
- Didi, traz o mata-cavalo!
- Slapt.
- ai
- slapt, slapt, slapt.
- ih, doutor, acho que foi pro saco.

Certo dia o doce olhar de um cavalo, escravizado em uma carroça, deu-me vergonha de ser Homem.

- slapt
- Doutor, acho que deu
- tá com dó?
- não, é que não respira mais.
- leva pra baixo.

Mira, meu primeiro corpo, meu primeiro amor. Pelas velhas ruas do centro de Montevidéu descobrimos cada sentimento escondido, cada medo reprimido e todo grito contido. Mira dos longos cabelos negros e das longas mãos cheias de carinho. Mira, que desapareceu no escuro do corredor. Na sujeira do Mundo.


Chegar à Argélia e ser recebido como “herói latino” encheu minha vida de falso sentido. E dali o tempo passou e a reta burguesia me sugou. Casamento, filho e emprego. Tríade que se consumiu pela lógica da Razão. E, então, eis-me de novo viajando pelo Mundo que não é maior que a caneta que escrevo. Na bolsa carrego um caderno e um lápis e vou escrevendo as banalidades da vida. As crônicas que faço, dão-me uma mesa e uma cama, mas só cantam o de sempre: a maldade do homem, o tempo da Guerrilha, a escravidão do bicho, um ou outro amor que se foi, ou que voltou; uma saudade que ficou, uma música que toca no rádio e no coração, outra assembléia no Partido, que sempre repete Marx redivivo “ad eternum” e sonha ser o que pensávamos ser.


Uma moça pára e fala com o “meu Carlitos”. Ele parece não entender o que ela diz e, então, sorri sem jeito. Logo depois, toca uma música alegre em que todos os instrumentos são utilizados. A moça deixa-lhe uma gorjeta no chapéu e sai insatisfeita. Eu continuo a ouvir-lhe, pois mesmo sem qualquer público ele toca a melodia toda, enquanto suspira por alguma saudade e balbucia "hasta luego".


Vida que segue no rumo conhecido. O câncer não cumpriu a promessa de liberdade e ao contrário do cavalo que a morte libertou, continuo escravo do corpo enquanto minha alma vagueia pela Montevidéu de antes. Montevidéu de Mira.


Personagens e lugares fictícios.Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.
São Paulo 16 de Maio de 2011