sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto I

Notas à Edição


1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios.

2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.

3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.

4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer à perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.

5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.



Dedicado aos Poetas Portugueses



Giraldoff e Inês Dupas


As armas e os Barões assinalados

Que da Ocidental praia Lusitana

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;


1º As proezas militares e os fidalgos celebrados
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares que nunca foram navegados,
Partiram e foram além da Taprobana (1),
Em meio a grandes perigos, mas tão determinados,
Que ultrapassaram a capacidade humana,
E entre povos tão distantes construíram
Um Novo Reino, que tanto dignificaram;

1 - Taprobana: a ilha do Ceilão, atual Sri Lanka, ao sul da Índia.

E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis que foram dilatando

A Fé, o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando,

E aqueles que por obras valiosas

Se vão da lei da Morte libertando,

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


2º E também às memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram aumentando
A Fé Cristã e o Império; e as terras viciosas,
Da África e da Ásia, andaram castigando;
E a todos que por proezas valorosas,
Do esquecimento da morte vão se libertando;
Cantando espalharei suas glórias por toda parte,
Se para tal me ajudarem a criatividade e a arte.


Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.


3o Esqueçam do Sábio Grego (1) e do Troiano (2)
As grandes navegações que fizeram;
Cale-se de Alexandro (3) e de Trajano (4)
A fama que suas conquistas obtiveram;
Pois eu exalto o ilustre arrojo Lusitano,
Ao qual até Netuno (5) e Marte (6) obedeceram.
Pare tudo o que a antiga Musa (7) canta,
Pois outro valor mais alto se levanta.

1 - Sábio Grego: referência a Ulisses, herói grego e protagonista da “Odisséia” de Homero.
2 – Referência à obra “Eneida” de Virgilio, que narra a Guerra de Tróia pela ótica dos vencidos e o périplo de Enéas, o troiano, que após fugir de Tróia teria fundado Roma.
3- Alexandro: Alexandre Magno, rei da Macedônia e conquistador da Pérsia e da Índia, dentre outras terras.
4- Trajano: imperador romano, nascido na Espanha e célebre como conquistador e administrador.
5- Netuno: deus do Mar.
6 - Marte: deus da Guerra.
7 - Musa: referência à antiga poesia épica.


E vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mi um novo engenho ardente,

Se sempre em verso humilde celebrado

Foi de mi vosso rio alegremente,

Dai-me agora um som alto e sublimado,

Um estilo grandíloco e corrente,

Por que de vossas águas Febo ordene

Que não tenham enveja às de Hipocrene.


4o E vós, Tágides (1), que me tendes dado
Essa nova inspiração ardente,
Vereis que os humildes versos em que foi celebrado
O vosso rio que corre alegremente,
Doravante será de alto talento sublimado,
Em grandioso estilo, eloqüente e fluente,
Para que dessa inspiração Febo (2) ordene,
Que não tenham inveja os de Hipocrene (3).


1 - Tágides: as ninfas do rio Tejo.
2 - Febo: outro nome de Apolo, o deus do sol e da poesia.
3 - Hipocrene: fonte consagrada às Musas, situada no monte Helicon, na Beócia. Teria sido originada de um coice do cavalo alado “Pegasus” e as suas águas transformavam em poeta quem delas bebesse. Hipocrene significa “A Fonte do Cavalo”.


Dai-me üa fúria grande e sonorosa,

E não de agreste avena ou frauta ruda,

Mas de tuba canora e belicosa,

Que o peito acende e a cor ao gesto muda;

Dai-me igual canto aos feitos da famosa

Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;

Que se espalhe e se cante no universo,

Se tão sublime preço cabe em verso.


5o Dá-me uma inspiração sonora e vigorosa,

E não as das melancólicas avena (1) ou da flauta rude,

Que seja igual a uma trombeta guerreira e poderosa,

Que inflame os corações e o próprio semblante mude;

Dá-me um canto igual aos que são feitos pela famosa

Gente vossa, que ao deus Marte estimula e ajuda;

Que sejam cantados em todo o Universo,

Se é que tão grande valor cabe em simples verso.

1-Avena: antiga flauta pastoril, feita com talos de aveia.

E, vós, ó bem nascida segurança

Da Lusitana antiga liberdade,

E não menos certíssima esperança E não menos a certíssima esperança

De aumento da pequena Cristandade;

Vós, ó novo temor da Maura lança,

Maravilha fatal da nossa idade,

Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,

Pera do mundo a Deus dar parte grande;

6o E vós, ó nobre Rei (1), que é a segurança

Da antiga independência e de nossa liberdade,

Assim como a certa e eterna esperança

De prosperidade de nossa pequena cristandade (2);

Vós que é o terror dos Mouros (3), uma feroz lança,

Prodígio de nossa época, de tão pouca idade,

Dado ao Mundo por Deus, para que o comande

E converta ao Cristianismo a maior parte grande

1- Referência a Dom Sebastião “O Desejado”. Foi o décimo sexto rei de Portugal. Era filho de Dom João III e de D. Joana da Áustria, filha de Carlos V. Dom Sebastião nasceu em Lisboa em 20/01/1554 e morreu em 04/08/1578. Começou a governar, sob tutela, em l.557 e quando completou quatorze anos assumiu o governo.

2- Camões refere-se a Portugal, de pequenas proporções e cristão.

3- Mouros: Camões usa o termo como um substantivo para designar os muçulmanos. Seriam os guerreiros da Mauritânia, no atual Marrocos.


Vós, tenro e novo ramo florecente

De üa árvore, de Cristo mais amada

Que nenhüa nascida no Ocidente,

Cesárea ou Cristianíssima chamada

(Vede-o no vosso escudo, que presente

Vos amostra a vitória já passada,

Na qual vos deu por armas e deixou

As que Ele pera si na Cruz tomou);


7o Vós, tenro e novo ramo florescente,

Da arvore que por Cristo é a mais amada

Que qualquer outra nascida no Ocidente

Mesmo que de Cristianíssima (1) ou Cesárea (1) seja chamada,

(Veja Cristo (3) no vosso brasão, que no Presente

Mostra-vos a vitória passada,

Na qual Ele vos deu a fé como armas e deixou

As que Ele para si na cruz tomou).



1- Cristianíssima: Cristianíssimo é um adjetivo do reis franceses desde o século XIV e por extensão aplica-se, neste caso, a França.

2- Cesárea: neste caso, uma alusão ao cristianismo praticado na Itália. De “Cesar”.

3- Segundo a lenda Jesus Crucificado apareceu a Dom Afonso Henrique, em Ourique, no Alentejo, antes de uma batalha na qual ele tinha menos poder militar. A aparição teria resultado numa elevação dos ânimos e na vitória contra os mouros.



Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando dece o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco Oriental e do Gentio

Que inda bebe o licor do santo Rio:



8o Vós, poderoso Rei, cujo sublime império

É o que o Sol, ao nascer, vê primeiro;

Também o vê no meio do Hemisfério,

E no poente é o que vislumbra por derradeiro;

Vós, de quem esperamos o domínio e o vitupério

Sobre o Ismaelita (1), sórdido cavaleiro,

Sobre o vil Turco Oriental (2) e sobre o Gentio (3),

Que, insolentemente, bebe a água do Santo Rio (4);





1- Ismaelita: os árabes, descendentes de Ismael, filho de Abraão e de sua escrava Agar. Agar teria sido expulsa da casa onde servia em decorrência do ciúme de Sara e vagou pelo deserto. Após um longo sofrimento, encontrou um lugar propicio para criar o seu filho Ismael, do qual descendeu Maomé e toda a raça árabe.

2- Turco Oriental: para Camões, os representantes do poder muçulmano de Constantinopla.

3- Gentio: os pagãos. Todos os que não adotavam a fé cristã.

4-O santo rio: o rio Ganges, na Índia, que segundo a lenda nascia no Paraíso e, portanto, as suas águas eram sagradas e purificavam os pecados de quem nelas se banhassem. Crença ainda comum entre os adeptos do Hinduísmo.



Inclinei por um pouco a majestade

Que nesse tenro gesto vos contemplo,

Que já se mostra qual na inteira idade,

Quando subindo ireis ao eterno templo;

Os olhos da real benignidade

Ponde no chão: vereis um novo exemplo

De amor dos pátrios feitos valerosos,

Em versos divulgado numerosos.



9o Abaixe um pouco a majestade

Desse jovem semblante, que eu contemplo,

Sábio como se já estivesse na avançada idade,

Quando ireis para o céu, o eterno Templo;

Coloque os olhos de real bondade

No chão: verá um novo exemplo

De como o amor aos grandes feitos dos

Nossos destemidos patrícios valorosos,

Serão divulgados em versos numerosos.





Vereis amor da pátria, não movido

De prémio vil, mas alto e quási eterno;

Que não é prémio vil ser conhecido

Por um pregão do ninho meu paterno.

Ouvi: vereis o nome engrandecido

Daqueles de quem sois senhor superno,

E julgareis qual é mais excelente,

Se ser do mundo Rei, se de tal gente.



10o Verás amor à pátria, que não é movido

Por vil recompensa, só pelo apreço eterno;

Pois não é vileza querer ser reconhecido

Por exaltar as glórias do meu torrão paterno.

Ouça-me: verás o nome engrandecido

Dos súditos de és o senhor superno (1),

E então julgareis o que é mais excelente:

Ser Rei do mundo todo ou se dessa gente.



1- Superno: supremo.



Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,

Fantásticas, fingidas, mentirosas,

Louvar os vossos, como nas estranhas

Musas, de engrandecer-se desejosas:

As verdadeiras vossas são tamanhas

Que excedem as sonhadas, fabulosas,

Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro

E Orlando, inda que fora verdadeiro.





11o Não ouvireis imaginárias façanhas,

Fantásticas, fabulosas e mentirosas,

E seus súditos louvados, como nas estranhas

Poesias estrangeiras, que de seus heróis são zelosas:

As façanhas da vossa gente são reais e tamanhas

Que ultrapassam as histórias imaginadas e fabulosas,

Suplantam a Rodamonte (1) e o frívolo Rugeiro (2)

E a Orlando (3), ainda que ele fosse verdadeiro.



1- Rodamonte: personagem do poema de Mateus Boiardo, “Orlando Inamorato”.

2- Rugeiro: personagem de “Orlando Furioso”, de Ariosto.

3- Orlando: forma italiana de Roland, o herói de “Chanson de Roland”, poema épico francês do século XI.



Por estes vos darei um Nuno fero,

Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,

Um Egas e um Dom Fuás, que de Homero

A cítara par'eles só cobiço;

Pois polos Doze Pares dar-vos quero

Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;

Dou-vos também aquele ilustre Gama,

Que para si de Eneias toma a fama.



12o Para contrapor citarei um Nuno (1) severo,

Que fez ao Rei e ao Reino tantas proezas,

Ou um Egas (2) ou Dom Fuá (3), para os quais, de Homero (4)

Eu só quero a mesma arte para exaltar-lhes as grandezas.

Para contrabalançar “Os Doze Pares (5)” eu quero,

Louvar os “XII da Inglaterra (6)”, o Magriço (7) e suas nobrezas.

Também exaltarei ao ilustre Vasco da Gama (8),

Que para si, de Enéas toma (9) a fama.



1- Nuno: Nuno Álvares Pereira, condestável de Portugal e grande auxiliar do Mestre de Aviz nas lutas contra Castela em defesa da independência portuguesa.

2- Egas Moniz, vassalo de Dom Afonso Henrique. Quando Afonso VII, de Castela, cercou a cidade de Guimarães, Egas Moniz conseguiu que o cerco fosse levantado, comprometendo-se a fazer que o seu rei se rendesse. Porém o rei luso não aceitou as condições do Castelhano e Egas não podendo cumprir o prometido ofereceu-se e a sua família, em sacrifício para o rei espanhol. Mais informações no 3o Canto.

3- Dom Fuás: Dom Fuás Roupinho, que venceu os mouros em Porto de Mós e foi morto numa batalha naval quando regressava de Ceuta.

4 - Homero: poeta grego, autor da “Ilíada” e da “Odisséia”.

5- “Os Doze Pares”: os doze heróis da “Chanson de Geste”. Paladinos de Carlos Magno.

6- “Doze de Inglaterra”: grupo de nobres portugueses que venceram duelos na Inglaterra, onde foram chamados para vingarem algumas damas ultrajadas.

7- Magriço: Álvaro Gonçalves Coutinho, um dos “Doze de Inglaterra”.

8- Vasco da Gama: Nascido em 1468 e falecido em 1524, na cidade de Cochim, na Índia. Foi o capitão mor da Armada que em 1497/1498 descobriu o caminho para o Oriente.

9- Enéas: herói troiano e protagonista em “Eneida”, de Virgilio. Fugindo de sua derrotada Troia, Enéas muito navegou até se fixar na região onde, segundo a lenda, fundaria Roma.



Pois se a troco de (Carlos, Rei de França,

Ou de César, quereis igual memória,

Vede o primeiro Afonso, cuja lança

Escura faz qualquer estranha glória;

E aquele que a seu Reino a segurança

Deixou, com a grande e próspera vitória;

Outro Joane, invicto cavaleiro;

O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.



13o E se de Carlos (1), nobre rei da França,

Ou de César (2), quereis ver uma memória

Igual, vede Afonso I (3), cuja lança,

Encobre qualquer estrangeira glória;

E a memória daquele (4) que ao Reino a segurança

Deixou, com a grande e afortunada vitória;

E o outro Joane (5), invencível cavaleiro,

Ou os Afonsos, quinto (5), quarto (6) e terceiro (7).





1- Carlos: Carlos Magno, rei dos Francos e imperador do ocidente.

2- César: imperador romano.

3- Afonso I: Afonso Henrique, primeiro rei de Portugal, entre 1.128 a 1.165.

4- Dom João I: décimo rei de Portugal, fundador da Dinastia de Aviz.

5- Joane: Dom João II, rei de Portugal entre 1.481 a 1.495. Foi o grande incentivador dos descobrimentos portugueses.

6- Afonso V, de cognome “O Africano”.

7- Afonso IV, rei de Portugal, filho de Dom Dinis e da Rainha Santa Izabel.

8- Afonso III, rei de Portugal que se casou com Dona Beatriz e com isso acrescentou aos seus títulos o de Rei do Algarves.



Nem deixarão meus versos esquecidos

Aqueles que nos Reinos lá da Aurora

Se fizeram por armas tão subidos,

Vossa bandeira sempre vencedora:

Um Pacheco fortíssimo e os temidos

Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,

Albuquerque terríbil, Castro forte,

E outros em quem poder não teve a morte.



14o E os meus versos não deixarão esquecidos

Os que no Oriente, onde nasce a Aurora,

Pela bravura nas batalhas, se fizeram tão erguidos,

E fizeram de nossa bandeira, eterna vencedora;

O fortíssimo Pacheco (1) e os temidos

Almeidas (2), por quem o rio Tejo sempre chora,

O temido Albuquerque (3), Castro valente e forte,

E outros mais, livres do esquecimento da morte.



1- Pacheco: autor de “Situ Orbi” (guia de navegação do século XVI) e sucessor dos Albuquerques na defesa de Cochim.

2- Almeidas: Dom Francisco que foi o primeiro Vice-Rei das Índias e o seu filho, Dom Lourenço. Ambos morreram em expedições militares. O pai, em luta contra os Cafres no Cabo da Boa Esperança, quanto voltava a Portugal e o filho numa batalha naval.

3- Albuquerque: Afonso de Albuquerque, Vice-Rei da Índia entre 1.453 e 1.515.

4- Castro: Dom João de Castro, Vice-Rei da Índia entre 1.500 a 1.548. Uma das principais figuras dos portugueses nas lutas na Índia.



E, enquanto eu estes canto - e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto - ,

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso

(Que polo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras e do Oriente os mares.



15o Enquanto exalto estes heróis, não posso

Louvar-te, sublime Rei, pois não me atrevo a tanto;

Tomai as rédeas e conduza o reino vosso,

Que os teus feitos inspirarão novo canto.

Que todos comecem a sentir o peso grosso

(Que por todo mundo cause espanto)

De suas tropas e feitos invulgares,

Na África, no Oriente e em outros mares.



Em vós os olhos tem o Mouro frio,

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tétis todo o cerúleo senhorio

Tem pera vós por dote aparelhado,

Que, afeiçoada ao gesto belo e tento,

Deseja de comprar-vos pera genro.



16o Em vós olha fixo o Mouro frio,

Em ti vê o seu suplicio configurado;

Só por lhe ver, o bárbaro Gentio (pagão),

Abaixa o pescoço, ao seu domínio, já resignado;

A deusa Téhtis (1) que tem o marítimo poderio,

Já o reservou para seu dote, e o deixa preparado;

Pois, afeiçoada ao seu rosto belo e tenro,

Deseja conquistá-lo como seu genro.





1- Téhtis: deusa do mar, filha do Céu e da Terra.



Em vós se vêm, da Olímpica morada,

Dos dous avós as almas cá famosas;

üa, na paz angélica dourada,

Outra, pelas batalhas sanguinosas.

Em vós esperam ver-se renovada

Sua memória e obras valerosas;

E lá vos têm lugar, no fim da idade,

No templo da suprema Eternidade.



17o Em vós se vêm, da Celeste morada,

As almas de seus avôs (1), aqui tão famosas;

Uma, pela angelical paz assegurada,

A outra, pelas sangrentas batalhas vitoriosas.

Em vós, esperam verem renovadas

Suas memórias e obras valorosas;

E guardam o lugar para quando, em longa idade

A eles se unir, no Templo da Suprema Eternidade.



1- Os dois avôs: Dom João II o “Príncipe Perfeito”, célebre pelas guerras e Dom Manuel I “O Venturoso”, famoso pelo pacifismo e neutralidade nas guerras européias.



Mas, enquanto este tempo passa lento

De regerdes os povos, que o desejam,

Dai vós favor ao novo atrevimento,

Pera que estes meus versos vossos sejam,

E vereis ir cortando o salso argento

Os vossos Argonautas, por que vejam

Que são vistos de vós no mar irado,

E costumai-vos já a ser invocado.





18o Mas enquanto este tempo passa lento,

Em que reinas sobre os povos que o desejam,

Permita-me um novo atrevimento,

Para que esses meus versos, vossos sejam;

E vereis ir cortando o salso argento (1)

Os vossos Argonautas (2), e eles o vejam,

Para irem mais confiantes no mar irado;

Por isso, acostume-se desde já a ser invocado.



1- Salso argento: o salgado e prateado Oceano.

2- Argonautas: heróis gregos que comandados por Jasão foram a Cólquida em busca do Velo de Ouro.



Já no largo Oceano navegavam,

As inquietas ondas apartando;

Os ventos brandamente respiravam,

Das naus as velas côncavas inchando;

Da branca escuma os mares se mostravam

Cobertos, onde as proas vão cortando

As marítimas águas consagradas,

Que do gado de Próteu são cortadas,



19o No vasto oceano os lusos já navegavam,

As ondas inquietas iam apartando;

Brandamente os ventos sopravam,

As côncavas velas das naus inflando;

De brancas espumas os mares se mostravam

Cobertos, aonde as proas vão cortando

As marítimas águas consagradas

Que pelo gado de Proteu (1) são cortadas.



1- Proteu: filho do deus Oceano e da deusa Téhtis. Era o encarregado de pastorear o rebanho marinho de seu pai.





Quando os Deuses no Olimpo luminoso,

Onde o governo está da humana gente,

Se ajuntam em consílio glorioso,

Sobre as cousas futuras do Oriente.

Pisando o cristalino Céu fermoso,

Vêm pela Via Láctea juntamente,

Convocados, da parte de Tonante,

Pelo neto gentil do velho Atlante.



20o Quando os deuses no Olimpo (1) luminoso,

A sede de governo da humana gente,

Reuniram-se num concilio glorioso,

Para decidirem sobre o futuro do Oriente.

Caminhando pelo cristalino céu formoso,

Chegavam pela Via Láctea, simultaneamente,

Convocados por ordem do Tonante (2),

Através do gentil neto de Atlante (3)





1- Olimpo: a residência dos deuses. Segundo a mitologia estava situado numa montanha da Grécia.

2- Tonante: ou Trovejante adjetivo de Júpiter, por ser o deus dos raios e dos trovões.

3- Neto de Atlante: Mercúrio, filho de Maia que era filha de Atlante e neta de Júpiter. Mercúrio é o deus do comercio e o mensageiro dos deuses.





Deixam dos sete Céus o regimento,

Que do poder mais alto lhe foi dado,

Alto poder, que só co pensamento

Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.

Ali se acharam juntos num momento

Os que habitam o Arcturo congelado

E os que o Austro têm e as partes onde

A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.



21o Deixam os Sete Céus (1), cujo regimento,

Pelo mais alto Poder lhes foi dado,

Poder tão grande que só com o pensamento

Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.

Ali estavam juntos, naquele momento,

Os que moram sob o Arcturo (2) congelado,

Aqueles do Sul e os das regiões onde

A aurora nasce e o Sol se esconde.



1- Sete Céus: na época de Camões vigorava o sistema Ptolomaico, que propunha ser a Terra o centro do Universo e que giravam ao seu redor os céus de sete planetas (sic): A Lua (sic), Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter e Saturno.

2- Arcturo: estrela dupla de 1a grandeza, situada na constelação do prolongamento da cauda da Ursa Maior. Neste contexto, os deuses que habitavam na constelação chamada de “Boiadeiro”.



Estava o Padre ali, sublime e dino,

Que vibra os feros raios de Vulcano,

Num assento de estrelas cristalino,

Com gesto alto, severo e soberano;

Do rosto respirava um ar divino,

Que divino tornara um corpo humano:

Com üa coroa e ceptro rutilante,

De outra pedra mais clara que diamante.



22o Ali estava o Pai (1), sublime e digno,

Que arremessa os raios de Vulcano (2),

Num trono de estrelas, muito cristalino,

Com o sério rosto, severo e soberano.

Semblante que exalava um ar divino,

Mesmo em um corpo humano;

Usava coroa e cetro brilhante,

Mais claros que o diamante.



1- Pai: Júpiter, o pai e senhor dos deuses.

2- Vulcano: deus do fogo. Filho de Júpiter e de Juno e marido de Vênus. O “ferreiro dos deuses” era quem fabricava os raios de Júpiter e as armas dos outros deuses.



Em luzentes assentos, marchetados

De ouro e de perlas, mais abaixo estavam

Os outros Deuses, todos assentados

Como a Razão e a Ordem concertavam

(Precedem os antigos, mais honrados,

Mais abaixo os menores se assentavam);

Quando Júpiter alto, assi dizendo,

Cum tom de voz começa grave e horrendo:



23o Em brilhantes tronos adornados

Com ouro e perolas, mais abaixo estavam

Os outros deuses sentados

Conforme a classe e as regras recomendavam.

(Primeiro, os mais antigos e mais honrados,

Mais abaixo os deuses menores ficavam);

Foi então que Júpiter foi dizendo,

Com um tom grave e tremendo:



- «Eternos moradores do luzente,

Estelífero Pólo e claro Assento:

Se do grande valor da forte gente

De Luso não perdeis o pensamento,

Deveis de ter sabido claramente

Como é dos Fados grandes certo intento

Que por ela se esqueçam os humanos

De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.



24o - Eternos moradores da reluzente

Estrela do Pólo e claro assento:

Se do grande valor da forte gente

Vós não desviaram o pensamento,

Devem ter sabido claramente

Que o Destino (1) tem como certo intento

Que pelas proezas dos lusos, os humanos

Esqueçam dos Assírios, Persas, Gregos e Romanos.



1 – Destino: o deus Destino cujo poder era tal que subjugava até Júpiter ou Zeus.



«Já lhe foi (bem o vistes) concedido,

Cum poder tão singelo e ao pequeno,

Tomar ao Mouro forte e guarnecido

Toda a terra que rega o Tejo ameno.

Pois contra o Castelhano ao temido

Sempre alcançou favor do Céu sereno:

Assi que sempre, enfim, com fama e glória.

Teve os troféus pendentes da vitória.



25o Já lhes foi (bem o viste) permitido,

Que mesmo tão modesto e pequeno,

Tomar do Mouro, forte e guarnecido,

A terra banhada pelo Tejo ameno.

E contra o Castelhano (1), tão temido,

Foram favorecidos pelo céu sereno.

E foi assim que, com fama e glória,

Conquistaram os troféus de suas vitórias.



1- Castelhano: aqui Camões emprega o termo como substantivo e representativo das lutas contra os reis de Castela, um dos reinos da Espanha.



«Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,

Que co a gente de Rómulo alcançaram,

Quando com Viriato, na inimiga

Guerra Romana, tanto se afamaram;

Também deixo a memória que os obriga

A grande nome, quando alevantaram

Um por seu capitão, que, peregrino,

Fingiu na cerva espírito divino.

26o Deixo deuses, para trás a fama antiga

Que contra os romanos eles alcançaram,

Quando com o ilustre Viriato (2), na inimiga

Guerra romana tanto se afamaram.

Também deixo a memória que os liga

A um grande nome, o qual levantaram

Como comandante (3), um ilustre peregrino,

Que fingiu estar numa corça o espírito divino.



1- Viriato: pastor dos montes Hermínios, na Lusitânia, que durante quatorze anos desafiou o poderio de Roma na península ibérica.

3- Referência a Ulisses (ou o Odisseu, da Odisséia de Homero) que, segundo a tradição, seria o fundador de Lisboa. Odisseu para não ir à Guerra de Troia tentou se passar por louco e se pôs a arar uma praia marítima, juntar um boi e um burro numa junta e adorar um Cervo dizendo que nele estava um “Espírito Divino”. Tudo em vão, pois seu estratagema foi desmascarado e ele foi à luta onde teve papel fundamental ao imaginar o famoso “Cavalo de Troia”.



«Agora vedes bem que, cometendo

O duvidoso mar num lenho leve,

Por vias nunca usadas, não temendo

de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve:

Que, havendo tanto já que as partes vendo

Onde o dia é comprido e onde breve,

Inclinam seu propósito e perfia

A ver os berços onde nasce o dia.



27o Veja que agora, enfrentando

O incerto mar num barco leve,

Por ignotos caminhos e não temendo

A força do Áfrico (1) e Noto (2), a mais se atreve;

E mesmo já tendo tanto, que estão vendo,

Onde o dia é mais longo e onde é mais breve,

Dirigem a sua vontade e a sua porfia

Para o Oriente, onde nasce o dia.



1- Áfrico: o vento do sudeste.

2- Noto: o vento do sul.



«Prometido lhe está do Fado eterno,

Cuja alta lei não pode ser quebrada,

Que tenham longos tempos o governo

Do mar que vê do Sol a roxa entrada.

Nas águas têm passado o duro Inverno;

A gente vem perdida e trabalhada;

Já parece bem feito que lhe seja

Mostrada a nova terra que deseja.



28o Prometido está, pelo Destino eterno,

Cuja lei não pode ser quebrada,

Que tenham por longo tempo o governo

Do mar, que vê sua ensolarada e rubra chegada.

Nas águas tem passado duro Inverno (1);

A pobre gente está perdida e fatigada;

E já me aparece apropriado que lhes seja

Mostrada a nova terra, que tanto se deseja.



1-Nesse contexto, um duro período de tempo. Um tempo difícil e penoso.



«E porque, como vistes, têm passados

Na viagem tão ásperos perigos,

Tantos climas e céus exprimentados,

Tanto furor de ventos inimigos,

Que sejam, determino, agasalhados

Nesta costa Africana como amigos;

E, tendo guarnecida a lassa frota,

Tornarão a seguir sua longa rota.



29o E porque, como viram, tem passado

Nestas viagens, tão duros perigos,

A tantos climas e céus tem enfrentado,

E sofrido com os ventos inimigos,

Ordeno que sejam abrigados

Nesta costa africana como amigos.

E depois de repousada a esgotada frota,

Que tornem a seguir sua longa rota.



Estas palavras Júpiter dizia,

Quando os Deuses, por ordem respondendo,

Na sentença um do outro diferia,

Razões diversas dando e recebendo.

O padre Baco ali não consentia

No que Júpiter disse, conhecendo

Que esquecerão seus feitos no Oriente

Se lá passar a Lusitana gente.





30o Estas palavras Júpiter (1) dizia,

E os deuses, em ordem, iam respondendo,

A afirmativa de cada um, do outro diferia

E argumentos variados iam trocando.

O deus Baco (2) não consentia

Com o que Júpiter ordenou, sabendo

Que esquecerão suas proezas no Oriente

Se até lá chegar a lusa gente.



1- Júpiter (Zeus): pai e senhor dos deuses.

2- Baco (Dionísio): deus do vinho, filho de Júpiter e de Sêmele. As suas conquistas chegaram até a Índia e nos “Lusíadas” é o deus contrário aos portugueses. Alguns eruditos vem nessa escolha de Camões uma critica ao vinho, às festas, às desordens sociais. Critica, aliás, destinada a agradar aos fiscais da Santa Inquisição, haja vista ser ele mesmo um boêmio contumaz.



Ouvido tinha aos Fados que viria

üa gente fortíssima de Espanha

Pelo mar alto, a qual sujeitaria

Da Índia tudo quanto Dóris banha,

E com novas vitórias venceria

A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.

Altamente lhe dói perder a glória

De que Nisa celebra inda a memória.



31o Já tinha ouvido dos adivinhos que viria

Uma gente fortíssima da Espanha (1)

Pelo alto mar; e que sujeitaria

A Índia e o que o mar de Doris (2) banha,

E com novas vitórias superaria

Sua fama ou a qualquer outra estranha (3).

Muito lhe dói perder a glória

Que Nisa (4) ainda guarda na memória.



1- Espanha: antiga maneira de denominar-se a Península Ibérica, incluindo Portugal.

2- Doris: a deusa que personificava o mar.

3- Estranha: na época de Camões, sinônimo de estrangeira.

4- Nisa: cidade na Índia ou na Arábia, que teria sido fundada por Baco.



Vê que já teve o Indo sojugado

E nunca lhe tirou Fortuna ou caso

Por vencedor da Índia ser cantado

De quantos bebem a água de Parnaso.

Teme agora que seja sepultado

Seu tão célebre nome em negro vaso

D'água do esquecimento, se lá chegam

Os fortes Portugueses que navegam.





32o Vê o território do rio Indo (1) que havia conquistado

E nunca lhe tirou a má sorte ou um mero acaso

A glória de ser o conquistador da Índia, como era louvado,

Por todos os poetas que bebem as águas do Parnaso (2).

Mas, agora teme que seja sepultado

O seu célebre nome no negro vaso

Da água do esquecimento (3), se lá chegam

Os bravos portugueses que já navegam.





1- Rio Indo: grande e importante rio indiano.

2- Parnaso: montanha consagrada às Musas, na qual brotava a fonte Castália, cuja água transformava em poeta quem a bebesse.

3- A água do esquecimento é uma referência ao rio Letes, cujas águas provocavam o esquecimento de todo o passado de quem as bebe.



Sustentava contra ele Vénus bela,

Afeiçoada à gente Lusitana

Por quantas qualidades via nela

Da antiga, tão amada, sua Romana;

Nos fortes corações, na grande estrela

Que mostraram na terra Tingitana,

E na língua, na qual quando imagina,

Com pouca corrupção crê que é a Latina





33o Contra Baco a deusa Vênus (1), a mais bela,

Que era afeiçoada à gente lusitana

Pelas grandes qualidades que via nela;

Iguais à de sua antiga e amada Romana (2);

Nos corações valentes, na grande estrela,

Que mostraram ter na terra Tingitana (3),

E no idioma, no qual, ela imagina,

Ouvir, sem erros, a sua língua latina.



1- Vênus: a deusa do amor e da beleza. No poema é a deusa protetora dos portugueses.

2- Romana: região da Itália. No poema associada a Roma, ao Império Romano.

3- Tingitana: o Tanger, na África do norte. Atual Marrocos.



Estas causas moviam Citereia

E mais, porque das Parcas claro entende

Que há-de ser celebrada a clara Deia

Onde a gente belígera se estende.

Assi que, um, pela infâmia que arreceia,

E o outro, pelas honras que pretende,

Debatem, e na perfia permanecem;

A qualquer seus amigos favorecem.



34o Estas qualidades moviam a Vênus Citeréia (1),

E pelos os sinais das Parcas (2) ela entende,

Que seria celebrada com a mais Clara Déia (3),

Até onde a guerreira gente lusa se estende.

Assim, um deus, pela infâmia que receia,

E a outra, pelas honras que pretende,

Debatem e naquela disputa permanecem;

E a ambos os seus amigos favorecem.



1- Vênus Citeréia: a deusa Vênus, celebrada na Ilha com este nome. A ilha de Citera, atualmente chamada de Cérigo.

2- Parcas: entidades infernais e senhoras da vida humana. Eram três: Cloto, que presidia os nascimentos e segurava a roca em que fiava os fios da vida; Laquésis que maneja a dobadoura e Átropos que cortava o fio da vida.

3- Déia: forma poética da palavra deusa.



Qual Austro fero ou Bóreas na espessura

De silvestre arvoredo abastecida,

Rompendo os ramos vão da mata escura

Com ímpeto e braveza desmedida,

Brama toda montanha, o som murmura,

Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:

Tal andava o tumulto, levantado

Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.





35o Igual a Austro (1) e Bóreas (2), na espessura

De que o silvestre arvoredo é abastecida

E vão rompendo os galhos da mata escura,

Com ímpeto e fúria desmedida;

(Quando a montanha ruge, o monte murmura,

Rompem-se as folhas e treme toda a serra):

Assim estava o tumulto levantado

Pelos deuses, no Olimpo sagrado.



1- Austro: o vento do sul.

2- Bóreas: o vento do norte.





Mas Marte, que da Deusa sustentava

Entre todos as partes em porfia,

Ou porque o amor antigo o obrigava,

Ou porque a gente forte o merecia,

De antre os Deuses em pé se levantava:

Merencório no gesto parecia;

O forte escudo, ao colo pendurado,

Deitando pera trás, medonho e irado;



36o Então Marte (1), que à Vênus apoiava,

Entre as partes envolvidas naquela porfia,

Ou porque o antigo amor ele ainda abrigava,

Ou porque, de fato, o povo luso merecia,

Dentre os deuses, em pé se levantava,

(Melancólico o seu semblante parecia),

Trazia o forte escudo, no colo pendurado,

Um pouco virado para trás, terrível e irado.



1- Marte: deus da guerra e numa certa época amante de Vênus, com quem teve a filha Harmonia.



A viseira do elmo de diamante

Alevantando um pouco, mui seguro,

Por dar seu parecer se pôs diante

De Júpiter, armado, forte e duro;

E dando üa pancada penetrante

Co conto do bastão no sólio puro,

O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,

Um pouco a luz perdeu, como enfiado;



37o A viseira do elmo (capacete) de diamante

Foi levantando um pouco e muito seguro

Expôs seus argumentos; colocando-se diante

De Júpiter, armado, forte e duro

Deu uma pancada tão atordoante

Com seu bastão, que fez o Céu e o trono puro

Tanto tremer que Apolo (1), de tão perturbado,

Ficou parecido com alguém desmaiado.



1- Apolo: do deus do Sol. O sol. Nesse contexto, como se o Sol tivesse perdido seu brilho.



E disse assi:- «Ó Padre, a cujo império

Tudo aquilo obedece que criaste:

Se esta gente que busca outro Hemisfério.

Cuja valia e obras tanto amaste,

Não queres que padeçam vitupério,

Como há já tanto tempo que ordenaste,

Não ouças mais, pois és juiz direito,

Razões de quem parece que é suspeito.



38o E assim disse: - Ó Pai, a cujo império,

Obedece tudo aquilo que criastes:

Se esta gente que busca o outro hemisfério,

Cujo valor e proezas tanto amastes

E não queres que sofram mais vitupério,

Como há tanto tempo ordenaste,

Não ouças mais, pois é um juiz direito,

Os argumentos de Baco que parece ser suspeito.





«Que, se aqui a razão se não mostrasse

Vencida do temor demasiado,

Bem fora que aqui Baco os sustentasse,

Pois que de Luso vêm, seu tão privado;

Mas esta tenção sua agora passe,

Porque enfim vem de estâmago danado;

Que nunca tirará alheia enveja

O bem que outrem merece e o Céu deseja.



39o Pois aqui, se a lógica não tivesse

Sido vencida por um temor demasiado,

Provavelmente até Baco os favorecesse,

Mas ele teme de suas honras ser privado;

Que esse medo agora passe,

Pois é de um espírito amargurado;

Nunca a alheia e pérfida inveja

Encobrirá as honras, se tal o Céu não deseja.



E tu, Padre de grande fortaleza,

Da determinação que tens tomada

Não tornes por detrás, pois é fraqueza

Desistir-se da cousa começada.

Mercúrio, pois excede em ligeireza

Ao vento leve e à seta bem talhada,

Lhe vá mostrar a terra onde se informe

Da Índia, e onde a gente se reforme.»

40o E tu Pai, de grande fortaleza,

Da decisão que já tens tomado

Não volte atrás, pois é uma fraqueza

Abandonar um ato já iniciado.

Diz a Mercúrio (1), que tem mais ligeireza

Que o leve vento e a flecha bem talhada,

Que lhes mostre onde a frota possa ser informada

Sobre o caminho; e a tripulação ser repousada.



1-Mercúrio – o deus Hermes, mensageiro de Zeus.



Como isto disse, o Padre poderoso,

A cabeça inclinando, consentiu

No que disse Mavorte valeroso

E néctar sobre todos esparziu.

Pelo caminho Lácteo glorioso

Logo cada um dos Deuses se partiu,

Fazendo seus reais acatamentos,

Pera os determinados apousentos.


Como isto disse, o Padre poderoso,


A cabeça inclinando, consentiu

No que disse Mavorte valeroso

E néctar sobre todos esparziu.

Pelo caminho Lácteo glorioso

Logo cada um dos Deuses se partiu,

Fazendo seus reais acatamentos,

Pera os determinados apousentos.


41o Isto foi dito e o Pai poderoso,

A cabeça inclinando, consentiu;

Aprovando a fala de Mavorte (1) valoroso,

Néctar (2), sobre os deuses, esparziu.

Pela Via Láctea, caminho glorioso,

Cada um dos deuses logo partiu,

Após seus dignos comprimentos

Para os respectivos aposentos.



1-Mavorte – outra forma de chamar o deus Marte

2-Néctar: a bebida dos deuses. Nesse contexto figura com bênçãos.



Enquanto isto se passa na fermosa

Casa etérea do Olimpo omnipotente,

Cortava o mar a gente belicosa

Já lá da banda do Austro e do Oriente,

Entre a costa Etiópica e a famosa

Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente

Queimava então os Deuses que Tifeu

Co temor grande em pexes converteu.



42o Simultaneamente à Assembléia na formosa

Casa celeste, no Olimpo (1) onipotente;

Já singrava o mar a lusa gente poderosa.

Seguiam pelos lados do sul e do oriente,

Entre a costa Etiópica (2) e a famosa

Ilha de São Lourenço (3); o sol ardente

Queimava até os deuses que Tifeu (4)

Amedrontando-os, em peixes converteu.



1- Olimpo: O Monte Olimpo, a morada dos deuses.

2- Etiópica: o litoral da região que fica ao sul do Egito. Camões também lhe chama-lhe de Abássia.

3- Ilhas de São Lourenço: a atual ilha de Madagáscar, junto à costa oriental da África, em frente ao atual Moçambique.

4- Tifeu: um dos Gigantes que fizeram a guerra contra o Olimpo. Era tão monstruoso que assustou a Vênus e ao Cupido quando eles se banhavam no rio Eufrates, levando-os a se transformarem em peixes para escaparem. Segundo a Mitologia seu hálito de fogo saia pela cratera do vulcão Etna.



Tão brandamente os ventos os levavam

Como quem o Céu tinha por amigo;

Sereno o ar e os tempos se mostravam,

Sem nuvens, sem receio de perigo.

O promontório Prasso já passavam

Na costa de Etiópia, nome antigo,

Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava

Novas ilhas, que em torno cerca e lava.



43o Os ventos brandamente os levavam,

Como acontece com quem do Céu é amigo;

O ar estava sereno e os ares se mostravam,

Sem nuvens ou sinais doutro perigo.

O promontório Prasso (1) já ultrapassavam

Na costa da Etiópia (2), seu nome antigo,

Quando o mar se abrindo, lhes mostrava

Novas ilhas, às quais cerca e lava.



1- Prasso: Cabo na costa de Moçambique, África Oriental.

2- Vide nota 02 na estrofe 42.



Vasco da Gama, o forte Capitão,

Que a tamanhas empresas se oferece,

De soberbo e de altivo coração,

A quem Fortuna sempre favorece,

Pera se aqui deter não vê razão,

Que inabitada a terra lhe parece.

Por diante passar determinava,

Mas não lhe sucedeu como cuidava.



44o Vasco da Gama, o valoroso Capitão,

Que a tamanho desafio se oferece,

Dono de um soberbo e altivo coração,

A quem a boa sorte sempre favorece,

Para se deter ali não vê razão,

Pois inabitada a terra lhe parece.

Assim, seguir em frente determinava,

Mas não aconteceu como ele pensava.





Eis aparecem logo em companhia

Uns pequenos batéis, que vêm daquela

Que mais chegada à terra parecia,

Cortando o longo mar com larga vela.

A gente se alvoroça e, de alegria,

Não sabe mais que olhar a causa dela.

- «Que gente será esta?» (em si diziam)

«Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»



45o Inesperadamente surge-lhe companhia,

Uns pequenos botes vem daquela

Terra que mais próxima lhe parecia,

Cortando o vasto mar com larga vela.

A lusa tripulação se alvoroça de alegria,

A tudo olha sem poder definir a causa dela.

- Que gente será esta? (Para si diziam)

Que costumes, que religião, que Rei teriam?





As embarcações eram na maneira

Mui veloces, estreitas e compridas;

Ás velas com que vêm eram de esteira,

Düas folhas de palma, bem tecidas;

A gente da cor era verdadeira

Que Fáëton, nas terras acendidas,

Ao mundo deu, de ousado e não prudente

(O Pado o sabe e Lampetusa o sente).



46o As embarcações eram feitas de tal maneira

Que ficavam velozes, estreitas e compridas;

As velas que as movem eram de esteira,

De folhas de palma, muito bem tecidas;

Traziam uma gente da cor negra verdadeira,

A qual, Fáeton (1), nas terras muito aquecidas,

Deu ao mundo, por ser imprudente,

Com sabe o Pado (2) e Lampetusa (3) sente.



1- Certo dia, Fáeton quis guiar o carro do Sol. Por ser inexperiente, ousado e imprudente permitiu que o carro se aproximasse muito da Terra, na região da África, onde os seus habitantes ficaram tostados pelo calor intenso. Daí, segundo a lenda, é que se originou a etnia negra. Devido ao fato, Júpiter fulminou Fáeton com um raio fazendo-o cair no rio Pado, o que causou imensa dor em sua irmã Lampetusa.

2- Rio Pado: nome latinizado do Rio Pó, na Itália.

3- Lampetusa: ninfa, filha de Apolo e de Climene. Irmã de Lampécia e de Fáeton.



De panos de algodão vinham vestidos,

De várias cores, brancos e listrados;

Uns trazem derredor de si cingidos,

Outros em modo airoso sobraçados;

Das cintas pera cima vêm despidos;

Por armas têm adagas e tarçados;

Com toucas na cabeça; e, navegando,

Anafis sonorosos vão tocando.



47o Com panos de algodão vinham vestidos,

De várias cores, brancos e listrados;

Alguns os trazem ao redor do corpo cingidos,

Outros, com elegância, aos braços atados;

Da cintura para cima veem despidos;

Como armas usam adagas e os terçados;

Usam gorros na cabeça e navegando,

Sonoros Anafis vão tocando.



1- Adagas: arma branca, punhais curtos.

2- Terçados: espadas curtas. Sabres.

3- Anafis: trombeta mourisca ou mora.



Cos panos e cos braços acenavam

Às gentes Lusitanas, que esperassem;

Mas já as proas ligeiras se inclinavam,

Pera que junto às Ilhas amainassem.

A gente e marinheiros trabalhavam

Como se aqui os trabalhos s'acabassem:

Tomam velas, amaina-se a verga alta,

Da âncora o mar ferido em cima salta.



48o Com panos e os braços acenavam

Para que as naus lusitanas os esperassem;

E estas, as ligeiras proas já viravam,

Para que junto às ilhas ancorassem.

Os soldados e os marinheiros trabalhavam

Como se ali todas as dificuldades acabassem;

Recolhem as velas, abaixa-se a verga (1) alta,

Soltam a âncora e o mar ferido, para cima salta.



1- Verga: madeira atravessada horizontalmente no mastro, onde são presas as velas do navio.



Não eram ancorados, quando a gente

Estranha polas cordas já subia.

No gesto ledos vêm, e humanamente

O Capitão sublime os recebia.

As mesas manda pôr em continente;

Do licor que Lieu prantado havia

Enchem vasos de vidro; e do que deitam

Os de Fáëton queimados nada enjeitam.



49o Nem bem estavam ancorados, e a gente

Africana, pelas cordas, já subia.

Chegam com rostos felizes e bondosamente

O sublime Capitão os recebia.

Manda servir as mesas imediatamente;

Do vinho que Lieu (Baco) plantado havia,

E de tudo mais que lhes é ofertado

Os queimados por Fáeton (1) aceitam e nada é recusado.



1- Vide nota 01 na estrofe 46.



Comendo alegremente, perguntavam,

Pela Arábica língua, donde vinham,

Quem eram, de que terra, que buscavam,

Ou que partes do mar corrido tinham?

Os fortes Lusitanos lhe tornavam

As discretas repostas que convinham:

- «Os Portugueses somos do Ocidente,

Imos buscando as terras do Oriente.



50o Enquanto comiam alegremente, perguntavam

No idioma árabe, de onde os lusos vinham,

Quem eles eram, de qual terra, o que buscavam,

Ou que regiões do mar, percorrido já tinham?

Os bravos lusos retornavam

Com as discretas respostas que convinham:

- Somos portugueses, do Ocidente,

E estamos procurando as terras do Oriente.



«Do mar temos corrido e navegado

Toda a parte do Antártico e Calisto,

Toda a costa Africana rodeado;

Diversos céus e terras temos visto;

Dum Rei potente somos, tão amado,

Tão querido de todos e benquisto,

Que não no largo mar, com leda fronte,

Mas no lago entraremos de Aqueronte.



51o Do mar temos percorrido e navegado

Todo Antártico (1) e a rota iluminada por Calisto (2).

Toda Costa africana já temos rodeado;

E diversos céus e terras temos visto;

Somos súditos de um rei potente e muito amado;

Muito querido, é por todos muito benquisto,

Por ele, não só no mar, com alegre fronte,

Entramos como iríamos até o Aqueronte (3).



1- Antártico: a região próxima ao Pólo Sul.

2- Calisto: uma ninfa que foi amada por Zeus (transfigurado em Apolo) e com quem teve um filho, chamado Árcade. Juno, enciumada, transformou a mãe e o filho em ursos e Apolo os colocou no céu criando as constelações da Ursa Maior e Ursa Menor.

3-Aqueronte: segundo a lenda, um dos rios do Inferno.



«E, por mandado seu, buscando andamos

A terra Oriental que o Indo rega;

Por ele o mar remoto navegamos,

Que só dos feios focas se navega.

Mas já razão parece que saibamos

(Se entre vós a verdade não se nega),

Quem sois, que terra é esta que habitais,

Ou se tendes da Índia alguns sinais?»



52o E por sua ordem real andamos

Em busca da terra oriental que o Indo rega;

Por ele, no distante mar navegamos,

Onde apenas com as feias focas se navega.

Mas, já nos parece oportuno que saibamos,

Se entre vós a verdade não se nega,

Quem são vocês, que terra é esta que habitais,

Ou se da Índia tendes alguns sinais?

- «Somos (um dos das Ilhas lhe tornou)

Estrangeiros na terra, Lei e nação;

Que os próprios são aqueles que criou

A Natura, sem Lei e sem Razão.

Nós temos a Lei certa que ensinou

O claro descendente de Abraão,

Que agora tem do mundo o senhorio;

A mãe Hebreia teve e o pai, Gentio.



53o Somos (um dos visitantes da ilha falou),

Estrangeiros aqui. Diferente é nossa crença e nação;

Os nativos vivem como a Natureza os criou

E ainda não tem religião, nem civilização.

Nós praticamos a religião que nos ensinou

O ilustre descendente de Abraão (1),

Que agora tem do mundo o domínio

(E que teve uma mãe judia e o pai Gentio (2).



1- Abraão: o patriarca bíblico. Maomé seria descendente de Ismael, filho de Abraão e de sua escrava Agar.

2- Gentio: todos os não cristãos. Judeus, muçulmanos etc.



«Esta Ilha pequena, que habitamos,

É em toda esta terra certa escala

De todos os que as ondas navegamos,

De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;

E, por ser necessária, procuramos,

Como próprios da terra, de habitá-la;

E por que tudo enfim vos notifique,

Chama-se a pequena Ilha - Moçambique.



54o Esta pequena ilha que habitamos Em toda esta terra é uma confiável escala,

Para todos nós que navegamos,

Por Quíloa (1), Mombaça (2) e Sofala (3).

E por ser tão necessária é que procuramos,

Junto com os nativos da terra, habitá-la;

E para que de tudo, enfim, eu vos notifique,

Saiba que a ilha se chama Moçambique.



1- Quíloa: ilha da costa oriental da África.

2- Mombaça: cidade na costa oriental da África.

3- Sofala: antigo reino e cidade da África Oriental.

4- Moçambique: ilha da costa oriental da África.



«E já que de tão longe navegais,

Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,

Piloto aqui tereis, por quem sejais

Guiados pelas ondas sàbiamente.

Também será bem feito que tenhais

Da terra algum refresco, e que o Regente

Que esta terra governa, que vos veja

E do mais necessário vos proveja.»



55o E já que de tão longe procura e navegais,

O Indo, o Hidaspe (1) e a terra ardente,

Aqui encontrarás o piloto que desejais

Para guiá-lo pelas ondas, habilmente.

Também será oportuno que tenhais

Provisões da nossa terra e que o Regente

Que governa esta ilha o conheça

Para que tudo que necessitas, ele forneça.



1- Hidaspe: rio afluente do Indo.



Isto dizendo, o Mouro se tornou

A seus batéis com toda a companhia;

Do Capitão e gente se apartou

Com mostras de devida cortesia.

Nisto Febo nas águas encerrou

Co carro de cristal, o claro dia,

Dando cargo à Irmã que alumiasse

O largo mundo, enquanto repousasse.



56o Isto dizendo, o mouro retornou

Aos botes, junto de toda sua companhia;

Do Capitão e da tripulação se separou

Dando mostras de muita cortesia.

Nisto, Febo (1l) nas águas encerrou

Com o carro de cristal, o claro dia,

Deixando que sua Irmã (2) iluminasse

O vasto mundo, enquanto ele repousasse.



1-Apolo: o deus do Sol. Aqui, o próprio Sol.

2-Irmã: Febe, a Lua.



A noite se passou na lassa frota

Com estranha alegria e não cuidada,

Por acharem da terra tão remota

Nova de tanto tempo desejada.

Qualquer então consigo cuida e nota

Na gente e na maneira desusada,

E como os que na errada Seita creram,

Tanto por todo o mundo se estenderam.



57o A noite passou na fatigada frota,

Com uma alegria estranha e não imaginada,

Por acharem, da terra remota,

A noticia que há tanto tempo era desejada.

Cada qual, consigo mesmo, pensa e nota

Naquela gente e na sua maneira desusada,

E como aqueles que na errada Seita (1) creram,

Por todo mundo, tanto se estenderam.



1- Errada Seita: adjetivo pejorativo que Camões usa para se referir ao Islamismo.



Da Lüa os claros raios rutilavam

Polas argênteas ondas Neptuninas;

As Estrelas os Céus acompanhavam,

Qual campo revestido de boninas;

Os furiosos ventos repousavam

Polas covas escuras peregrinas;

Porém da armada a gente vigiava,

Como por longo tempo costumava.



58o Os claros raios da Lua cintilavam,

Pelas prateadas ondas das águas Netuninas;

As estrelas aos céus acompanhavam,

Como um campo repleto de boninas (1);

Os ventos furiosos repousavam

Nas escuras cavernas peregrinas;

Porém, mesmo com tal calma, o luso vigiava,

Pois há muito tempo, a isso se dedicava.



1- Boninas: uma espécie de flor, também conhecidas como “Bela-Margarida”.



Mas, assi como a Aurora marchetada

Os fermosos cabelos espalhou

No Céu sereno, abrindo a roxa entrada

Ao claro Hiperiónio, que acordou,

Começa a embandeirar-se toda a armada

E de toldos alegres se adornou,

Por receber com festas e alegria

O Regedor das Ilhas, que partia.



59o Mas, igual à Aurora enfeitada,

Que o formoso cabelo espalhou

No céu sereno, abrindo a rubra entrada

Ao claro Hiperônio (1) que acordou,

Começa a enfeitar-se toda a Armada

E alegres toldos e bandeiras se adornou,

Para receber com festas e com alegria

O rei daquela ilha, que da terra já partia.



1- Hiperônio: um dos Titãs, pai do Sol. Para Camões é o próprio sol.



Partia, alegremente navegando,

A ver as naus ligeiras Lusitanas,

Com refresco da terra, em si cuidando

Que são aquelas gentes inumanas

Que, os apousentos Cáspios habitando,

A conquistar as terras Asianas

Vieram e, por ordem do Destino,

O Império tomaram a Costantino.



60o E ele partia alegremente navegando,

Para ver as ligeiras naus lusitanas;

Levava alguns presentes da terra e ia pensando,

Sobre quem seria aquela gente sobre-humana,

Que nos territórios Cáspios (1) habitando,

Para conquistar a terra asiana (2)

Vieram e, por ordem do Destino (3),

Tomaram o império de Constantino (4).





1- Cáspios: a região banhada pelo Mar Cáspio. A Europa.

2- Asiana: asiática.

3- Destino: deus mitológico, filho da Noite, que traçava os caminhos dos Homens e dos próprios Deuses.

4- Constantino: Constantino Dragades ultimo imperador de Bizâncio que morreu em 1.453 defendendo a cidade contra Maomé.



Recebe o Capitão alegremente

O Mouro e toda sua companhia;

Dá-lhe de ricas peças um presente,

Que só pera este efeito já trazia;

Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente,

Não usado licor, que dá alegria.

Tudo o Mouro contente bem recebe,

E muito mais contente come e bebe



61o O Capitão recebe alegremente

O mouro e a toda companhia;

Dá-lhe rica peça como presente,

A qual só para esta finalidade trazia;

Dá-lhe doces e conservas e o ardente

E raro vinho, que provoca tanta alegria.

A tudo o contente mouro recebe

E muito mais contente come e bebe.





Está a gente marítima de Luso

Subida pela enxárcia, de admirada,

Notando o estrangeiro modo e uso

E a linguagem tão bárbara e enleada.

Também o Mouro astuto está confuso,

Olhando a cor, o trajo e a forte armada;

E, perguntando tudo, lhe dizia

Se porventura vinham de Turquia.



62o A tripulação do comandante Luso

Pendura-se pela enxárcia (1) e admirada,

E repara no estrangeiro o seu estranho uso,

E na sua linguagem bárbara e emaranhada.

O mouro astuto também está confuso,

Vendo os trajes, as cores e a forte armada;

Sobre tudo pergunta, enquanto lhes dizia

Se por acaso vinham da Turquia?



1- Enxárcia: o conjunto de mastros de um navio.



E mais lhe diz também que ver deseja

Os livros de sua Lei, preceito ou fé,

Pera ver se conforme à sua seja,

Ou se são dos de Cristo, como crê;

E por que tudo note e tudo veja,

Ao Capitão pedia que lhe dê

Mostra das fortes armas de que usavam

Quando cos inimigos pelejavam.



63o E também lhes diz que deseja

Ver os livros de sua religião ou fé,

Para verificar se igual a sua seja,

Ou se são cristãos, como crê;

E, para que tudo conheça e veja,

Ao Capitão pede que lhe dê

Uma amostra das fortes armas que usavam

Quando aos seus inimigos guerreavam.



Responde o valeroso Capitão,

Por um que a língua escura bem sabia:

-«Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação

De mi, da Lei, das armas que trazia.

Nem sou da terra, nem da geração

Das gentes enojosas de Turquia,

Mas sou da forte Europa belicosa;

Busco as terras da Índia tão famosa.



64o Através do interprete responde o Capitão,

Já que a obscura língua não conhecia:

- Dar-te-ei, ilustre senhor, breve descrição

Sobre mim, religião e armas que trazia.

Não sou descendente e nem venho da nação,

Da asquerosa gente e terra da Turquia:

Mas sou da Europa guerreira e poderosa,

E procuro as terras da Índia famosa.



«A Lei tenho d'Aquele a cujo império

Obedece o visíbil e invisíbil,

Aquele que criou todo o Hemisfério,

Tudo o que sente e todo o insensíbil;

Que padeceu desonra e vitupério,

Sofrendo morte injusta e insofríbil,

E que do Céu à Terra enfim deceu,

Por subir os mortais da Terra ao Céu.



65o Como religião sou Daquele a cujo império

Obedece o que é visível e o que é invisível,

Aquele que criou todo o Hemisfério,

E tudo o que sente e tudo o que é insensível;

Que padeceu infâmia e vitupério,

Sofrendo uma morte injusta e horrível

E que, enfim, do céu à Terra desceu

Para que os mortais subissem ao Céu.



«Deste Deus-Homem, alto e infinito,

Os livros que tu pedes não trazia,

Que bem posso escusar trazer escrito

Em papel o que na alma andar devia.

Se as armas queres ver, como tens dito,

Cumprido esse desejo te seria;

Como amigo as verás, porque eu me obrigo

Que nunca as queiras ver como inimigos».



66o Deste Deus-Homem, sublime e infinito,

Os livros que tu me pedes eu não trazia,

Pois posso deixar de trazer em papel escrito,

Aquilo que trago gravado na alma, como devia.

Se as armas tu queres ver, como tens dito,

Atendido este teu desejo seria;

E como amigo as verá, porque eu me obrigo

A mostrá-las, para que não as veja como inimigo.



Isto dizendo, manda os diligentes

Ministros amostrar as armaduras:

Vêm arneses e peitos reluzentes,

Malhas finas e lâminas seguras,

Escudos de pinturas diferentes,

Pelouros, espingardas de aço puras,

Arcos e sagitíferas aljavas,

Partazanas agudas, chuças bravas.



Oficiais mostram suas armaduras:

Os arneses (1), os peitorais (2) e as reluzentes,

Malhas finas (3). E as espadas seguras,

Os escudos de pinturas variadas e diferentes,

Os pelouros (4), as espingardas de aço, puras,

Os arcos e as sagitíferas (5) aljavas (6),

As partazanas (7) agudas e as chuças (8) bravas.





1- Arneses: armadura completa para cavaleiros.

2- Peitorais: protetores de peito feitos em metal.

3- Malhas: redes tecidas com fios metálicos.

4- Pelouros: projétil de ferro ou de pedra.

5- Sagitíferas: sinônimo de flechas, setas. Derivado de Sagitário.

6- Aljava: estojo para as flechas, normalmente levado nos ombros.

7- Partazanas: arma antiga, semelhante a uma lança.

8- Chuças: varas terminadas em finos espetos.



As bombas vêm de fogo, e juntamente

As panelas sulfúreas, tão danosas;

Porém aos de Vulcano não consente

Que dêm fogo às bombardas temerosas;

Porque o generoso ânimo e valente,

Entre gentes tão poucas e medrosas,

Não mostra quanto pode; e com razão,

Que é fraqueza entre ovelhas ser lião.





68o E mostram as bombas de fogo e, juntamente,

As panelas sulfúreas (1), tão danosas;

Porém, os canhões do deus Vulcano não consente

Que disparem as bombas tão temerosas;

Porque o seu caráter generoso e valente,

Para tão poucas pessoas medrosas,

Acha incorreto mostrar todo poder; e com razão:

É fraqueza mostrar-se, entre ovelhas, poderoso leão.



1- Panelas sulfúreas: vasos que continham enxofre fervente e que eram arremessadas para causarem incêndios.



Porém disto que o Mouro aqui notou,

E de tudo o que viu com olho atento,

Um ódio certo na alma lhe ficou,

üa vontade má de pensamento;

Nas mostras e no gesto o não mostrou,

Mas, com risonho e ledo fingimento,

Tratá-los brandamente determina,

Até que mostrar possa o que imagina.



69o Por tudo que o mouro viu e notou,

E no que reparou com olhar atento,

Um grande ódio na alma lhe restou,

E má intenção e terrível pensamento.

Nas maneiras e no rosto não demonstrou,

E com falsos sorrisos e alegre fingimento,

Trata-os como amigos, mas se determina

A causar-lhes o dano que já imagina.





Pilotos lhe pedia o Capitão,

Por quem pudesse à Índia ser levado;

Diz-lhe que o largo prémio levarão

Do trabalho que nisso for tomado.

Promete-lhos o Mouro, com tenção

De peito venenoso e tão danado

Que a morte, se pudesse, neste dia,

Em lugar de pilotos lhe daria.



70o Pilotos, pedia-lhe o ilustre Capitão

Para que o caminho da Índia fosse alcançado;

Disse-lhe que boa recompensa eles ganharão

Pelo trabalho e tempo que lhes for tomado.

Prometeu atendê-lo, mas com a má intenção

Que havia no seu coração envenenado,

Pensa que a morte, se pudesse, neste dia

É o que lhes daria e não o piloto que pedia.



Tamanho o ódio foi e a má vontade

Que aos estrangeiros súpito tomou,

Sabendo ser sequaces da Verdade

Que o filho de David nos ensinou!

Ó segredos daquela Eternidade

A quem juízo algum não alcançou:

Que nunca falte um pérfido inimigo

Àqueles de quem foste tanto amigo!



71o Imenso foi o ódio e a má vontade

Contra os lusos, que lhe assaltou,

Ao saber que eram da Cristã Verdade

Que o filho de Davi (1) nos ensinou.

Ó segredos da Divina Eternidade,

Que nenhum raciocínio nunca desvendou:

Pois nunca falta um pérfido inimigo

Para os cristãos de quem sempre és amigo!



1- Davi: profeta e segundo rei de Israel. Segundo a tradição seria ascendente de Jesus.



Partiu-se nisto, enfim, co a companhia,

Das naus o falso Mouro despedido,

Com enganosa e grande cortesia,

Com gesto ledo a todos e fingido.

Cortaram os batéis a curta via

Das águas de Neptuno; e, recebido

Na terra do obseqüente ajuntamento,

Se foi o Mouro ao cógnito apousento.



72o Por fim partiu com toda a sua companhia.

Deixando as naus, o mouro sórdido e fingido,

Despediu-se com hipócrita cortesia,

Com o semblante alegre e um cinismo atrevido.

Rapidamente seus botes cortaram a curta via

Das águas de Netuno; sendo recebido

Na terra por um servil agrupamento,

Recolheu-se ao seu conhecido aposento.



Do claro Assento etéreo, o grão Tebano,

Que da paternal coxa foi nascido,

Olhando o ajuntamento Lusitano

Ao Mouro ser molesto e avorrecido,

No pensamento cuida um falso engano,

Com que seja de todo destruído;

E, enquanto isto só na alma imaginava,

Consigo estas palavras praticava:



73o No iluminado Olimpo, o grande Tebano (1),

Que na coxa do pai foi gerado e nascido,

Vendo que o contingente lusitano

Ao mouro incomodava e era aborrecido,

Imagina um estratagema e um falso engano,

Para que o luso seja destruído.

E enquanto só nisto pensava,

Consigo mesmo assim falava:



1- Tebano: o deus Baco. Filho de Zeus e de Sêmele, associado à Tebas. Quando Baco estava para nascer a sua mãe pediu a Zeus que lhe mostrasse todo o seu esplendor e o deus a atendeu. Mas, Sêmele não suportou o espetáculo daquela visão e tombou fulminada. Zeus apressou-se em retirar a criança de seu ventre e a introduziu na sua própria perna até que terminasse o prazo de gestação. Desse modo, Baco nasceu forte e saudável.



-«Está do Fado já determinado

Que tamanhas vitórias, tão famosas,

Hajam os Portugueses alcançado

Das Indianas gentes belicosas;

E eu só, filho do Padre sublimado,

Com tantas qualidades generosas,

Hei-de sofrer que o Fado favoreça

Outrem, por quem meu nome se escureça?



74o Já está pelo Destino determinado

Que tamanhas vitórias, tão famosas,

Tenham os portugueses alcançado

Sobre as indianas gentes belicosas.

E só eu, filho do pai Júpiter sublimado,

Com tantas qualidades generosas,

Terei que sofrer para que o Destino favoreça

A quem fará que a minha fama se escureça?



«Já quiseram os Deuses que tivesse

O filho de Filipo nesta parte

Tanto poder que tudo sometesse

Debaixo do seu jugo o fero Marte;

Mas há-se de sofrer que o Fado desse

A tão poucos tamanho esforço e arte,

Qu'eu, co grão Macedónio e Romano,

Dêmos lugar ao nome Lusitano?



75o Já quiseram que o filho de Felipe (1) tivesse

Aqui nas terras do Oriente, nesta parte

Do mundo, tanto poder que submetesse,

Ao seu domínio, até o feroz deus Marte;

Mas terei que sofrer para que o Destino desse

A poucos portugueses tanta coragem e arte,

Que junto com o Macedônio (2) e o Romano (3),

Deixe o meu lugar para o nome lusitano?



1- O filho de Felipe: Alexandre Magno.

2- Macedônio: Alexandre Magno, rei da Macedônia e conquistador da Índia e da Pérsia.

3- Romano: nesta estrofe Camões alude ao imperador Trajano.



«Não será assi, porque, antes que chegado

Seja este Capitão, astutamente

Lhe será tanto engano fabricado

Que nunca veja as partes do Oriente.

Eu decerei à Terra e o indignado

Peito revolverei da Maura gente;

Porque sempre por via irá direita

Quem do oportuno tempo se aproveita.»







76o Não! Não, porque antes que tenha chegado

Este valoroso Capitão, astutamente,

Tantos desvios e obstáculos lhe serão armado

Nunca conseguirá chegar às terras do Oriente.

Eu descerei a Terra e o coração indignado

Dos mouros inflamarei e os incitarei;

Pois sempre está na via certa e direita

Aquele que do tempo bem se aproveita.



Isto dizendo, irado e quási insano,

Sobre a terra Africana descendeu,

Onde, vestindo a forma e gesto humano,

Pera o Prasso sabido se moveu.

E, por milhor tecer o astuto engano,

No gesto natural se converteu

Dum Mouro, em Moçambique conhecido,

Velho, sábio, e co Xeque mui valido.



77o Isto dizendo, irado e quase insano,

Sobre a terra africana desceu,

Onde, transformando-se em ser humano,

Para o promontório Prasso (1) se moveu.

E, para melhor tecer o astuto engano,

Transfigurou-se em nativo e o rosto converteu

Em sábio mouro Moçambiquano, conhecido

E com o Xeque (2) muito envolvido.



1- Promontório Prasso: Cabo na costa de Moçambique.

2- Xeque ou Xeique: entre os árabes, chefe de tribo ou soberano.



E, entrando assi a falar-lhe, a tempo e horas,

A sua falsidade acomodadas,

Lhe diz como eram gentes roubadoras

Estas que ora de novo são chegadas;

Que das nações na costa moradoras,

Correndo a fama veio que roubadas

Foram por estes homens que passavam,

Que com pactos de paz sempre ancoravam.



78o Disfarçado, falou ao rei por várias horas,

Sendo suas falsidades ouvidas e acreditadas.

E ele dizia de como eram roubadoras

As lusitanas gentes de pouco chegadas;

Que das nações e de suas gentes moradoras,

A má fama veio correndo, pois foram roubadas

Por estes homens lusitanos que passavam,

E com falsos pactos de paz ancoravam.



- «E sabe mais (lhe diz), como entendido

Tenho destes Cristãos sanguinolentos,

Que quási todo o mar têm destruído

Com roubos, com incêndios violentos;

E trazem já de longe engano urdido

Contra nós; e que todos seus intentos

São pera nos matarem e roubarem,

E mulheres e filhos cativarem.



79o – E mais lhe diz como se fosse entendido:

Tenho noticias que estes cristãos sanguinolentos,

Quase que todo o mar tem destruído

Com roubos e com incêndios violentos;

E que já trazem de longe o estratagema urdido

Contra nós; e que os seus reais intentos

São os de nos matarem e nos roubarem

E às nossas mulheres e crianças escravizarem.





«E também sei que tem determinado

De vir por água a terra, muito cedo,

O Capitão, dos seus acompanhado,

Que da tenção danada nasce o medo

Tu deves de ir também cos teus armado

Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;

Porque, saindo a gente descuidada,

Caïrão fàcilmente na cilada.



80o E também sei que têm planejado

Vir pela água à nossa terra, logo cedo.

Virá o Capitão, por seus soldados acompanhado,

E é da sua má intenção que me brota o medo.

Tu e os guerreiros também deveis ir armado

E armar-lhes uma cilada, oculto e quedo (1);

Porque, estando a lusa gente descuidada,

Cairá facilmente na tua emboscada.



1- Quedo: quieto, silencioso.





«E se inda não ficarem deste jeito

Destruídos ou mortos totalmente,

Eu tenho imaginada no conceito

Outra manha e ardil que te contente:

Manda-lhe dar piloto que de jeito

Seja astuto no engano, e tão prudente

Que os leve aonde sejam destruídos,

Desbaratados, mortos ou perdidos.»





81º E se ainda não ficarem, desse jeito,

Mortos e destruídos completamente,

Eu já tenho planejado o que deve ser feito,

Faça-lhes outra armadilha que nos contente:

Manda-lhes um piloto que ao mal seja afeito,

Que seja astuto para enganá-los e muito eficiente

Para levá-los aonde sejam destruídos,

Destroçados, mortos ou perdidos.



Tanto que estas palavras acabou

nos tais casos sábio e velho,

Os braços pelo colo lhe lançou,

Agradecendo muito o tal conselho;

E logo nesse instante concertou

Pera a guerra o belígero aparelho,

Pera que ao Português se lhe tornasse

Em roxo sangue a água que buscasse.

82o Tão logo o deus Baco acabou

O sábio mouro, experiente velho,

Abraçou-o e amistosa palavra lhe falou,

Agradecendo muitas vezes o seu conselho;

E no mesmo instante preparou

Para a batalha, seu bélico aparelho,

Visando que ao português se tornasse

Rubra de sangue a água que buscasse.





E busca mais, pera o cuidado engano,

Mouro que por piloto à nau lhe mande,

Sagaz, astuto e sábio em todo o dano,

De quem fiar se possa um feito grande.

Diz-lhe que, acompanhando o Lusitano,

Por tais costas e mares co ele ande,

Que, se daqui escapar, que lá diante

Vá cair onde nunca se alevante.



83o Também procura para o plano,

Um piloto que às naus mande,

Para causar o pretendido dano.

Que fosse capaz da proeza grande,

E vá acompanhando o lusitano,

Pelas costas e mares que ele ande;

Assim se ele escapar daqui, lá adiante

Ele caia e nunca mais se levante.



Já o raio Apolíneo visitava

Os Montes Nabateios acendido,

Quando Gama cos seus determinava

De vir por água a terra apercebido.

A gente nos batéis se concertava

Como se fosse o engano já sabido;

Mas pôde suspeitar-se facilmente,

Que o coração pres[s]ago nunca mente.



84o Já o raio Apolíneo (1) visitava

Os Montes Nabateios (2) acendidos,

Quando Gama a seus oficiais determinava

Que fossem para terra bem prevenidos.

A tripulação, nos botes, se preparava

Como se os ardis fossem conhecidos;

Podiam suspeitar facilmente,

Pois o adivinho coração nunca mente.



1- Raio Apolíneo: os raios de sol.

2- Montes Nabateios: cordilheira da Nabatéia, na região noroeste da Arábia.



E mais também mandado tinha a terra,

De antes, pelo piloto necessário,

E foi-lhe respondido em som de guerra,

Caso do que cuidava mui contrário.

Por isto, e porque sabe quanto erra

Quem se crê de seu pérfido adversário,

Apercebido vai como podia

Em três batéis somente que trazia.



85o Pois quem tinham mandado à terra,

Em busca do piloto que lhes era necessário,

Reportara que ouviu o tom de guerra,

Indicando que ali o povo era adversário;

Por isso e porque sabe o quanto erra

Quem acredita no pérfido contrário,

Seguem tão prevenidos quanto se podia,

E m três botes, dos que a Armada trazia.



Mas os Mouros, que andavam pela praia

Por lhe defender a água desejada,

Um de escudo embraçado e de azagaia,

Outro de arco encurvado e seta ervada,

Esperam que a guerreira gente saia,

Outros muitos já postos em cilada;

E, por que o caso leve se lhe faça,

Põem uns poucos diante por negaça.



86o Nisto, os mouros já andavam pela praia,

Para impedir-lhes o acesso à água desejada

Traziam um escudo no braço e uma azagaia (1),

Outro tinha um arco e flecha envenenada;

Esperando que a guerreira gente lusa saia

Dos botes, outros aguardam em cilada.

E, para que o combate favorável se lhes faça,

Alguns ficam na frente, por pirraça.

1- Azagaia: lança curta.



Andam pela ribeira alva, arenosa,

Os belicosos Mouros acenando

Com a adarga e co a hástea perigosa,

Os fortes Portugueses incitando

Não sofre muito a gente generosa

Andar-lhe os Cães os dentes amostrando;

Qualquer em terra salta, tão ligeiro,

Que nenhum dizer pode que é primeiro:



87o Andam pela margem branca e arenosa,

Os guerreiros mouros acenando

Com a adaga e com a lança perigosa

Aos bravos lusos iam provocando.

Mas não se amedronta a gente poderosa

Pelos cães estarem os dentes mostrando;

Quando chegam todos descem tão ligeiro,

Que é impossível saber qual o primeiro.

Qual no corro sanguino o ledo amante,

Vendo a fermosa dama desejada,

O touro busca e, pondo-se diante,

Salta, corre, sibila, acena e brada,

Mas o animal atroce, nesse instante,

Com a fronte cornígera inclinada,

Bramando, duro corre e os olhos cerra,

Derriba, fere e mata e põe por terra.



88o Como na sangrenta tourada, quando o amante

Alegre avista a formosa dama desejada,

E ao touro procura e coloca-se na sua frente,

E salta, corre, assovia, acena e brada,

Mas o atroz animal nesse instante,

Com a testa de poderosos chifres inclinada,

Ataca, corre e mugindo forte, os olhos cerra,

E o derruba, fere, mata e o põe por terra.



Eis nos batéis o fogo se levanta

Na furiosa e dura artelharia;

A plúmbea péla mata, o brado espanta;

Ferido, o ar retumba e assovia.

O coração dos Mouros se quebranta,

O temor grande o sangue lhe resfria.

Já foge o escondido, de medroso,

E morre o descoberto aventuroso.



89o Logo dos botes o fogo se levanta,

Numa furiosa e dura artilharia,

A plúmbea (1) péla (2) mata, o grito espanta,

O ar, ferido, ressoa e assovia.

A coragem dos mouros se quebranta,

E grande temor o sangue lhes resfria.

Logo foge aquele mais medroso,

E tomba morto o mais corajoso.



1- Plúmbea: da cor do chumbo. Feita de chumbo.

2- Péla: bolas de ferro.



Não se contenta a gente Portuguesa,

Mas, seguindo a vitória, estrui e mata;

A povoação sem muro e sem defesa

Esbombardeia, acende e desbarata.

Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,

Que bem cuidou comprá-la mais barata;

Já blasfema da guerra, e maldizia,

O velho inerte e a mãe que o filho cria.



90o Não se contenta a tropa portuguesa,

E seguindo a vitória, destrói e mata;

À vila moura, sem muros e sem defesa,

Bombardeiam e a tropa incendeia e desbarata.

A aventura ao rei mouro já pesa,

Pois ele a imaginou mais barata;

Já blasfema contra a guerra e a maldizia,

O velho inerte e a mãe que o filho cria.



Fugindo, a seta o Mouro vai tirando

Sem força, de covarde e de apressado,

Apedra, o pau e o canto arremessando;

Dá-lhe armas o furor desatinado.

Já a Ilha, e todo o mais, desemparando,

À terra firme foge amedrontado;

Passa e corta do mar o estreito braço

Que a Ilha em torno cerca em pouco espaço.



91o Fugindo, os Mouros as setas vão atirando,

Mas fracas, pois tem medo e estão apressados;

A pedra e o bastão vai arremessando,

São as armas que lhe dá o furor desatinado.

A ilha e tudo mais ele vai desamparando,

E para o Continente foge amedrontado;

Atravessa ligeiro o estreito marítimo braço

Que cerca a ilha, num curto espaço.



Uns vão nas almadias carregadas,

Um corta o mar a nado, diligente;

Quem se afoga nas ondas encurvadas,

Quem bebe o mar e o deita juntamente.

Arrombam as miúdas bombardadas

Os pangaios sutis da bruta gente.

Destarte o Português, enfim, castiga

A vil malícia, pérfida, inimiga.



92o Alguns fogem nas almadias (1) carregadas,

Um, atravessa a nado, trêmulo e diligente,

Há quem se afoga nas ondas encurvadas,

E quem bebe o mar e o expele simultaneamente.

Arrombam as lusas e pequenas bombardas (2)

Os frágeis pangaios (3) daquela selvagem gente.

Dessa forma, enfim, o português castiga

A vil malícia, pérfida, inimiga.



1- Almadias: pequenos barcos usados pelos habitantes da região, os cafres.

2- Bombardas: pequenos canhões.

3- Pangaios: embarcações velozes de dois mastros, usada na África oriental e na Índia.



Tornam vitoriosos pera a armada,

Co despojo da guerra e rica presa,

E vão a seu prazer fazer aguada,

Sem achar resistência nem defesa.

Ficava a Maura gente magoada,

No ódio antigo mais que nunca acesa;

E, vendo sem vingança tanto dano,

Sòmente estriba no segundo engano.



93o Vitoriosos retornam para a Armada,

Com o despojo de guerra e uma rica presa,

E vão à vontade buscar a água desejada,

Sem encontrarem resistência ou defesa.

A moura gente ressentia-se magoada,

O ódio antigo e a raiva ficaram mais acesa;

Vendo que não se vingaria tanto dano,

Põe a esperança de desforra noutro plano.



Pazes cometer manda, arrependido,

O Regedor daquela inica terra,

Sem ser dos Lusitanos entendido

Que em figura de paz lhe manda guerra;

Porque o piloto falso prometido,

Que toda a má tenção no peito encerra,

Pera os guiar à morte lhe mandava,

Como em sinal das pazes que tratava.



94o Pede a paz, dizendo-se arrependido,

O hipócrita rei daquela malévola terra;

E sem que os lusos tenham pressentido

Não lhes mandou a paz, mas a guerra;

Pois o falso piloto que havia prometido,

Ódio e a raiva no seu coração encerra,

E para levá-los à morte é que o mandava,

Como se fosse de trégua que se tratava.



O Capitão, que já lhe então convinha

Tornar a seu caminho acostumado,

Que tempo concertado e ventos tinha

Pera ir buscar o Indo desejado,

Recebendo o piloto que lhe vinha,

Foi dele alegremente agasalhado,

E respondendo ao mensageiro, a tento,

As velas manda dar ao largo vento.

95o O capitão viu que já convinha

Retornar ao seu caminho acostumado,

Pois tempo e ventos favoráveis já tinha

Para ir ao território indiano tão desejado.

Recebendo o piloto que lhe vinha,

Amistosamente o tratou e bem abrigado,

E atendendo ao mesmo, no qual estava atento,

Ordena que se soltem as velas ao largo vento.



Destarte despedida, a forte armada

As ondas de Anfítrite dividia,

Das filhas de Nereu acompanhada,

Fiel, alegre e doce companhia.

O Capitão, que não caía em nada

Do enganoso ardil que o Mouro urdia,

Dele mui largamente se informava

Da Índia toda e costas que passava.



96o Assim deu-se a partida. A forte Armada

As marítimas ondas de Anfitrite (1) dividia

E pelas filhas de Nereu (2) era acompanhada;

Uma fiel, alegre e doce companhia.

O capitão, que não desconfiava de nada,

Acerca da armadilha que o mouro urdia,

Detalhadamente com ele se informava

Sobre a Índia e a Costa por onde se passava.



1- Anfitrite: a rainha do mar. Filha de Nereu e de Doris e esposa de Netuno.

2- As filhas de Nereu: as Nereidas, as ninfas do mar.



Mas o Mouro, instruído nos enganos

Que o malévolo Baco lhe ensinara,

De morte ou cativeiro novos danos,

Antes que à Índia chegue, lhe prepara.

Dando razão dos portos Indianos,

Também tudo o que pede lhe declara,

Que, havendo por verdade o que dizia,

De nada a forte gente se temia.



97o Mas o piloto o leva a cometer enganos,

Como o maldoso Baco lhe ensinara,

Para lhes causar morte, escravidão e danos;

E antes da Índia, novas armadilhas lhes prepara.

Dando explicações sobre os portos indianos

E para tudo mais em que se repara,

E como se houvesse verdade no que dizia,

Falava que a nada o luso temer devia.



E diz-lhe mais, co falso pensamento

Com que Sínon os Frígios enganou,

Que perto está üa Ilha, cujo assento

Povo antigo Cristão sempre habitou.

O Capitão, que a tudo estava atento,

Tanto co estas novas se alegrou

Que com dádivas grandes lhe rogava

Que o leve à terra onde esta gente estava.



98o E lhe diz, com maldoso pensamento,

Igual o que Sinon (1) contra os frigios (2) usou;

Que próxima está uma ilha, a qual era o assento

De antigo povo cristão, que sempre a habitou.

O capitão, que a tudo estava atento,

Tanto com essa novidade se alegrou

Que prometendo prêmios, ao piloto rogava

Que o levasse a terra onde tal gente estava.



1- Sinon: o grego que durante a guerra de Tróia se deixou aprisionar pelos troianos aos quais convenceu que deviam deixar entrar na cidade o cavalo de madeira. O famoso Cavalo de Tróia. É apresentado por Camões como símbolo da perfídia. Para os gregos é um herói.

2- Frigios: natural da Frigia, região onde ficava Tróia.



O mesmo o falso Mouro determina

Que o seguro Cristão lhe manda e pede;

Que a Ilha é possuída da malina

Gente que segue o torpe Mahamede.

Aqui o engano e morte lhe imagina,

Porque em poder e forças muito excede

À Moçambique esta Ilha, que se chama

Quíloa, mui conhecida pola fama.



99o O falso piloto, sem relutância, termina

Por fazer o que capitão lhe manda e pede;

Era o que queria, pois ilha é regida pela maligna

Gente que segue ao torpe Mahamede (1).

A destruição e a morte o esperam, ele imagina,

Porque ali em força e em poder excede

A Moçambique (2), esta ilha que se chama

Quíloa (3), conhecida por sua grande fama.



1- Mahamede: Maomé. Os habitantes, portanto, eram maometanos ou mouros.

2- Moçambique: a ilha onde anteriormente tiveram o entrevero. Na costa oriental da África.

3- Quíloa: ilha da costa oriental da África.



Pera lá se inclinava a leda frota;

Mas a Deusa em Citere celebrada,

Vendo como deixava a certa rota

Por ir buscar a morte não cuidada,

Não consente que em terra tão remota

Se perca a gente dela tanto amada,

E com ventos contrairos a desvia

Donde o piloto falso a leva e guia.



100o Para lá rumava a alegre frota;

Mas Vênus (1), em Citera (2) celebrada,

Vendo que deixavam a certa rota,

Para encontrarem à morte inesperada,

Não permite que em terra tão remota

Pereça a gente, por ela era tão amada.

E com ventos contrários a desvia

Do perigo armado pelo falso guia.



1- Vênus: a deusa da beleza e do amor. A protetora dos portugueses.

2- Citera: na antiguidade clássica era a ilha dedicada à Vênus. Na linguagem clássica é a pátria alegórica dos amores.



Mas o malvado Mouro, não podendo

Tal determinação levar avante,

Outra maldade inica cometendo,

Ainda em seu propósito constante,

Lhe diz que, pois as águas, discorrendo,

Os levaram por força por diante,

Que outra Ilha tem perto, cuja gente

Eram Cristãos com Mouros juntamente.



101o O malvado mouro, não podendo

Levar este seu projeto avante,

Outra terrível maldade vai cometendo,

Pois é esse o seu propósito constante;

Diz-lhes as Correntes, que ali vão correndo,

Forçaram-no a seguir adiante,

Mas que perto há outra ilha, cuja gente

Cristã convivia os com mouros pacificamente.



Também nestas palavras lhe mentia,

Como por regimento, enfim, levava;

Que aqui gente de Cristo não havia,

Mas a que a Mahamede celebrava.

O Capitão, que em tudo o Mouro cria,

Virando as velas, a Ilha demandava;

Mas, não querendo a Deusa guardadora,

Não entra pela barra, e surge fora.



102o Também com esta estória lhes mentia,

Pois estas eram as instruções que levava;

E o fato real é que ali Cristãos não havia,

Apenas mouros, que a Mahamede adorava.

Crente no mouro, o Capitão a maldade não via,

Manda que virem as velas e para a ilha rumava;

Mas, novamente, a deusa Vênus, sua protetora,

Força-os a não entrar pela barra (1), mas por fora.



1- Barra: entrada do porto.



Estava a Ilha à terra tão chegada

Que um estreito pequeno a dividia;

üa cidade nela situada,

Que na fronte do mar aparecia,

De nobres edifícios fabricada,

Como por fora, ao longe, descobria,

Regida por um Rei de antiga idade:

Mombaça é o nome da Ilha e da cidade.





103o Do continente a ilha estava tão aproximada,

Que apenas um pequeno Estreito (1) as dividia;

Nela, uma grande cidade estava edificada,

A qual, imponente, já na beira-mar se via,

Pois com grandes edifícios era ornada,

Como desde muito longe já se percebia;

Era governada por um rei de avançada idade

Chamado Mombaça (2), como a ilha e a cidade.



1- Estreito: braço de mar.

2- Mombaça: cidade na costa oriental da África.



E sendo a ela o Capitão chegado,

Estranhamente ledo, porque espera

De poder ver o povo baptizado,

Como o falso piloto lhe dissera,

Eis vêm batéis da terra com recado

Do Rei, que já sabia a gente que era;

Que Baco muito de antes o avisara,

Na forma doutro Mouro, que tomara.



104o O capitão, tendo ali chegado,

Mostrava-se muito alegre porque espera

Ver quem no Cristianismo fora batizado,

Conforme o falso piloto lhe dissera;

E logo chega da terra um recado

Do Rei, que já sabia quem aquela gente era;

Já que Baco muito antes o avisara,

Pois de mouro ele se fantasiara.



O recado que trazem é de amigos,

Mas debaxo o veneno vem coberto,

Que os pensamentos eram de inimigos,

Segundo foi o engano descoberto.

Ó grandes e gravíssimos perigos,

Ó caminho de vida nunca certo,

Que aonde a gente põe sua esperança

Tenha a vida tão pouca segurança!





105o O recado que trazem é de amigos,

Mas sob a cortesia o veneno está encoberto,

Pois as reais intenções eram as de inimigos,

Como se viu quando o plano foi descoberto.

Oh! Grandes e gravíssimos perigos,

Oh! Caminho da vida sempre incerto,

Pois aonde a gente deposita mais esperança,

É onde a vida tem mais insegurança!



No mar tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?



106o No mar há tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte é pressentida;

Na terra há tanta guerra, tanto engano,

Tanta dificuldade e necessidade aborrecida!

Onde pode abrigar-se um frágil ser humano,

Onde encontrará segurança na sua curta vida,

Onde é que não se indigne o céu sereno

Contra um bicho da Terra, tão pequeno?


Fim do Canto I