segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Adaptação de "OS LUSÍADAS" ao Português Atual - Canto IV

Notas à Edição

1. Correções ortográficas foram feitas apenas nas Estrofes Adaptadas por motivos óbvios. Essa adaptação não é uma tradução, até porque o idioma é único. Destarte, o leitor notará que as estrofes adaptadas não brilham pela perfeição da métrica ou do sistema rimático. E se tal não se dá o motivo é simples: é impossível copiar a genialidade do bardo, sendo, pois, a proposta dessa obra a de ser mero instrumento para auxiliar a compreensão do Épico de Camões.

2. No texto original, provavelmente escrito em 1556 e publicado pela primeira vez em 1572 (pouco depois do descobrimento do Brasil), Camões emite conceitos e Juízos (ou Julgamentos) que eram apropriados à sua época, mas que atualmente são considerados ofensivos. Por fidelidade ao texto, o autor da Adaptação conta com a compreensão dos (as) leitores (as) por ter transposto alguns desses Conceitos, os quais não são, obviamente, endossados pelo mesmo.

3. Os deuses gregos são chamados pelos seus nomes em latim. Embora incorreto, o autor da adaptação optou por tal modo em vista de estarem mais popularizados dessa maneira.

4. Sugere-se que a Estrofe Adaptada seja lida em primeiro lugar, para que ao se ler a Estrofe Original toda a genialidade de Camões possa ser desfrutada integralmente, quer no tocante ao esquema rimático, quer à perfeição de sua métrica e a todos os outros elementos que o bardo expôs com maestria singular.

5. Por último, o autor dessa Adaptação coloca-se ao inteiro dispor para fazer eventuais e fundamentadas correções, acréscimos ou subtrações, pois o Monumento erguido por Camões merece cuidados que nunca serão excessivos.

Dedicado aos Poetas Portugueses

Inês Dupas e Giraldoff

Canto IV

De[s]pois de procelosa tempestade

Traz a manhã serena claridade,

Esperança de porto e salvamento;

Aparta o Sol a negra escuridade,

Removendo o temor ao pensamento:

Assi no Reino forte aconteceu

Despois que o Rei Fernando faleceu.

Nota – por corrupção do texto original, esta estrofe é composta de apenas sete versos.


1o Depois de extraordinária tempestade
O amanhecer traz uma serena claridade,
Esperança de porto seguro e salvamento.
O sol expulsa a sombria escuridade,
Afastando os temores do pensamento.
E foi assim que no reino aconteceu
Quando o nefasto rei Fernando faleceu.

«Porque, se muito os nossos desejaram

Quem os danos e ofensas vá vingando

Naqueles que tão bem se aproveitaram

Do descuido remisso de Fernando,

Despois de pouco tempo o alcançaram,

Joane, sempre ilustre, alevantando

Por Rei, como de Pedro único herdeiro

(Ainda que bastardo) verdadeiro.

2o E como os lusos muito desejaram,
Os danos e as infâmias foram vingando
Naqueles que muito se aproveitaram
Da inépcia do negligente Fernando.
Pouco depois as desforras começaram,
Até o ilustre Joane (1) ser aclamando
Rei, pois era de Pedro (2) o único herdeiro
(Mesmo sendo bastardo) verdadeiro.

1-Dom João I (O Príncipe da Boa Memória): rei de Portugal
2- Dom Pedro I: rei de Portugal e amante de Inês de Castro.

«Ser isto ordenação dos Céus divina

Por sinais muito claros se mostrou~

Quando em Évora a voz de üa minina,

Ante tempo falando, o nomeou.

E, como causa, enfim, que o Céu destina,

No berço o corpo e a voz alevantou:

- «Portugal, Portugal (alçando a mão,

Disse) polo Rei novo, Dom João!»

3o Que esta coroação foi uma ordem divina,
Por claros sinais logo se verificou,
Quando em Évora (1) a voz de uma menina,
Que precocemente falou e assim proclamou,
E como um prodígio que Deus nos destina,
Estando deitada no berço, a voz elevou:
- Portugal, Portugal – levantando a mão,
Disse, para o novo rei, Dom João.

1- Évora, cidade portuguesa, situada no Alentejo.

«Alteradas então do Reino as gentes

Fabio Renato Villela

Co ódio que ocupado os peitos tinha,

Absolutas cruezas e evidentes

Faz do povo o furor, por onde vinha;

Matando vão amigos e parentes

Do adúltero Conde e da Rainha,

Com quem sua incontinência desonesta

Mais (despois de viúva) manifesta.

4o Alterada, no reino, está toda gente

Cheia do ódio que ocupado os corações tinha;

Crueldades ilimitadas e injustiças evidentes

Contra o povo alimentavam o furor que vinha

Imolar o adúltero Conde (1) e a Rainha (2),

Cuja excessiva sensualidade desonesta,

Após enviuvar, mais ostensivamente manifesta.

1- Conde de Ourem, chamado de Andeiro.

2- Rainha: Dona Leonor de Teles, com a morte de Dom Fernando I, seu marido, assumiu a regência de Portugal. Era amante

há tempos do “Andeiro”, fato que revoltava o povo já sofrido pela inépcia e desmandos de Dom Fernando. Com a morte

deste, o seu relacionamento com o amante tornou-se ostensivo e chegou-se a cogitar numa solução intermediaria casando-a

com o Mestre de Aviz (Dom João I) que era tido na corte como a esperança de salvação nacional. Ela, porém, recusou-se e a

partir daí é que se decidiu pelo assassinato do Conde.

«Mas ele, enfim, com causa desonrado

Diante dela a ferro frio morre,

De outros muitos na morte acompanhado,

Que tudo o fogo erguido queima e corre:

Quem, como Astianás, precipitado,

Sem lhe valerem ordens, de alta torre;

A quem ordens, nem aras, nem respeito;

Quem nu por ruas, e em pedaços feito.

5o Por fim, o Conde, justamente desonrado,

Diante da rainha é atacado e morre,

Sendo por muitos outros, na morte, acompanhado,

Pois a vingança e a fúria tudo destrói e o ódio escorre;

Tal como aconteceu com Astianás (1) que foi jogado,

Sem que os títulos lhe salvassem, da alta torre;

Não lhe valeram os títulos, os altares ou o respeito;

Pois, nu, pelas ruas em pedaços foi feito.

1- Astianás: Ou Astianax, filho de Heitor e de Andrômaca, lançado pelos gregos do alto dos muros de Tróia, não obstante

sua ilustre posição de príncipe de Troia.

«Podem-se pôr em longo esquecimento

As cruezas mortais que Roma viu,

Feitas do feroz Mário e do cruento

Cila, quando o contrário lhe fugiu.

Por isso Lianor, que o sentimento

Do morto Conde ao mundo descobriu,

Faz contra Lusitânia vir Castela,

Dizendo ser sua filha herdeira dela.

6o Pode-se colocar num longo esquecimento

As mortes cruéis em Roma, diante do que se viu,

Mesmo as feitas pelo feroz Mario (1) e pelo violento

Sila (2), quando Mario, seu rival, lhe fugiu.

Por isso Lianor (3), que o amor e o sentimento

Ao conde morto para Mundo todo declarou,

Fez vir contra Portugal o reino de Castela (4),

Alegando que a sua filha (5) era herdeira dela.

1- Mario: Cônsul e general romano que venceu os teutões em Aix, numa batalha em que teriam morrido mais de cem mil

homens, segundo Plutarco.

2- Silas: Rival de Mario, nas guerras civis de Roma.

3- Lianor: Leonor de Teles, viúva de Fernando I, elevada ao governo com a morte do mesmo.

4- Castela: Neste contexto, o principal reino da Espanha e adversário de Portugal.

5- Dona Leonor resistia em entregar o governo e pediu socorro ao seu genro, rei de Castela, casado com Beatriz, sua filha,

a quem dava o direito sobre Portugal.

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

4

«Beatriz era a filha, que casada

Co Castelhano está que o Reino pede,

Por filha de Fernando reputada,

Se a corrompida fama lho concede.

Com esta voz Castela alevantada,

Dizendo que esta filha ao pai sucede,

Suas forças ajunta, pera as guerras,

De várias regiões e várias terras.

7o Chamava-se Beatriz a filha casada

Com o rei de Castela (1). Ela quem pede

O governo de Portugal, pois era a filha declarada

De Fernando e alegava que o Direito lhe concede

Sucedê-lo; Em Castela, após ameaça acalorada,

Julgando-se que a filha ao pai sucede,

Juntam-se suas forças para as guerras,

Buscando recursos em várias terras.

1- Dom João I, rei de Castela, casado com Dona Beatriz, filha do rei de Portugal, Dom Fernando.

«Vêm de toda a província que de um Brigo

(Se foi) já teve o nome derivado;

Das terras que Fernando e que Rodrigo

Ganharam do tirano e Mauro estado.

Não estimam das armas o perigo

Os que cortando vão co duro arado

Os campos Lioneses, cuja gente

Cos Mouros foi nas armas excelente.

8o Chegam de toda a província que do rei Brigo (1)

(Se de fato existiu) teve o nome derivado;

Das terras que Fernando (2) e que Rodrigo (3)

Tomaram do tirano e mouro Estado.

Não avaliam as dificuldades dos combates e o perigo

Aqueles que vão cortando com o duro arado

Os campos leoneses (4), cuja gente,

Nas guerras contra os mouros foi tão valente.

1- Brigo: Lendário rei da Hispânia. O próprio Camões coloca em dúvida sua existência.

2- Fernando, o Católico: rei de Aragão.

3- Rodrigo: Ruy (ou Rodrigo) Diaz de Bivar, o famoso “El Cid”, guerreiro castelhano que reconquistou grande parte da

península Ibérica para o cristianismo.

4- Leoneses: naturais de Leão, província da Espanha.

«Os Vândalos, na antiga valentia

Ainda confiados, se ajuntavam

Da cabeça de toda Andaluzia,

Que do Guadalquibir as águas lavam.

A nobre Ilha também se apercebia

Que antigamente os Tírios habitavam,

Trazendo por insígnias verdadeiras

As Hercúleas colunas nas bandeiras.

9o Os Vândalos (1), na antiga valentia

Ainda confiados, se juntavam

Em todo norte da Andaluzia (2),

Que as águas do rio Guadalquibir lavam.

A nobre ilha (3) também se fortalecia

Onde antigamente os Tirios (4) habitavam,

Trazendo como insígnias verdadeiras

As colunas de Hércules (5) nas bandeiras.

1- Vândalos: Povos da Europa central, que anteriormente tinham ocupado parte de Península Ibérica.

2- Andaluzia: Região do sul da Espanha.

3- Ilha: na verdade, uma península onde fica situada Cádiz, no sul da Espanha.

4- Tirios: natural de Tiro, cidade da Fenícia.

5- As colunas de Hercules: Os montes no Estreito de Gibraltar.

Fabio Renato Villela

«Também vêm lá do Reino de Toledo,

Cidade nobre e antiga, a quem cercando

O Tejo em torno vai, suave e ledo, ,

Que das serras de Conca vem manando.

A vós outros também não tolhe o medo

Ó sórdidos Galegos, duro bando,

Que, pera resistirdes, vos armastes,

Àqueles cujos golpes já provastes.

10o Também chegam do reino de Toledo (1),

Cidade nobre e antiga, a quem vai banhando

O luso/espanhol Tejo (2), suave e ledo,

Que das serras de Conca (3) nasce minando.

Outros também não sentem medo,

Mas, Ó sórdido Galego (4), terrível bando,

Que venham muitíssimo bem armados

Pois outrora a lusa força já os fez derrotados.

1- Toledo: Cidade espanhola na Castela – A – Nova.

2- Tejo: o rio Tejo que também banha certa região da Espanha.

3-Conca: serras espanholas situadas na Castela – A – Nova.

4- Galegos: Naturais da Galizia, região da Espanha, célebres pela ferocidade.

Nesta estrofe, Camões refere-se ao galego Dom Pedro Fernandes de Castro que se aliou aos mouros, invadiu Portugal,

tomou Tomar e Abrantes e depois foi derrotado pelo luso Martim Lopes.

«Também movem da guerra as negras fúrias

A gente Bizcainha, que carece

De polidas razões, e que as injúrias

Muito mal dos estranhos compadece.

A terra de Guipúscua e das Astúrias,

Que com minas de ferro se ennobrece,

Armou dele os soberbos moradores,

Pera ajudar na guerra a seus senhores.

11o Também se movem e soltam as negras fúrias

Das guerras, a gente Biscainha (1) que carece

De mais civilidade, pois das injúrias

Dos estrangeiros nunca se esquece.

Aprontam-se Guipúscia (2) e as Astúrias (3),

Terra que com as minas de ferro se enobrece.

Ferro que armou seus arrogantes moradores,

Para ajudarem na guerra dos seus senhores.

1-Biscainha: natural da Biscaia, província da Espanha.

2- Guipúscia: Província da Espanha, nas Vascongadas.

3- Astúrias: antigo reino da Espanha.

«Joane, a quem do peito o esforço crece,

Como a Sansão Hebreio da guedelha,

Posto que tudo pouco lhe parece,

Cos poucos do seu Reino se aparelha;

E, não porque conselho lhe falece,

Cos principais senhores se aconselha,

Mas só por ver das gentes as sentenças,

Que sempre houve entre muitos diferenças.

12o Joane (1), cujo ânimo não esmorece,

Como se fosse Sansão (2) de longo cabelo,

Sempre acha pouco o obstáculo que aparece,

E assim apronta seu modesto guerreiro aparelho;

E, não que de advertências ele careça,

Pois dos principais senhores tem o conselho,

Mas os escuta apenas para ouvir as sentenças,

Pois entre elas sempre há grandes diferenças.

1- Joane: Dom João I

2- Sansão: juiz hebreu célebre pela força física que estava contida em seus cabelos, segundo a tradição.

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

6

«Não falta com razões quem desconcerte

Da opinião de todos, na vontade;

Em quem o esforço antigo se converte

Em desusada e má deslealdade,

Podendo o temor mais, gelado, inerte,

Que a própria e natural fidelidade.

Negam o Rei e a Pátria e, se convém,

Negarão (como Pedro) o Deus que têm.

13o Não falta aquele que conteste

A determinação alheia e a sua boa vontade;

E aquele em que a antiga coragem se converte

Em sórdida e maligna deslealdade,

Quando o medo se sobrepõe, gelado e inerte,

À esperada e natural fidelidade.

E renegam a pátria e o Rei e se lhes convém,

Negarão como Pedro (1), até ao Deus que tem.

1- O apóstolo Pedro que negou Jesus por três vezes.

«Mas nunca foi que este erro se sentisse

No forte Dom Nuno Álveres; mas antes,

Posto que em seus irmãos tão claro o visse,

Reprovando as vontades inconstantes,

Àquelas duvidosas gentes disse,

Com palavras mais duras que elegantes,

A mão na espada, irado e não facundo,

Ameaçando a terra, o mar e o mundo:

14o Mas esta covardia não houve quem sentisse

Em Álvaro Nuno (1), de coragem e ânimo constantes;

Ainda que em seus irmãos, a traição se visse.

Reprovando as covardias e os ânimos vacilantes,

Daquela gente indecisa ele disse,

Com palavras mais duras que galantes,

Segurando a espada, irado e conciso,

Ameaçando a terra, o mar e a quem fosse preciso:

1- Dom Nuno Álvares, condestável de Portugal, grande auxiliar do mestre de Aviz (Dom João I) nas lutas contra Castela em

defesa da independência portuguesa. Os seus irmãos lutaram ao lado dos castelhanos.

- «Como? Da gente ilustre Portuguesa

Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?

Como? Desta província, que princesa

Foi das gentes na guerra em toda parte,

Há-de sair quem negue ter defesa?

Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte

De Português, e por nenhum respeito

O próprio Reino queira ver sujeito?

15o Como? Entre a ilustre gente portuguesa

Haverá quem recuse o patrício Marte (1)?

Como? Nesta terra, que foi a princesa

Em todas as guerras que tomou parte,

Há quem se negue a lutar em sua defesa?

Que negue Cristo, o amor pátrio, o respeito

E se deixe a outro Rei estar sujeito?

1- Marte: Deus da guerra e uma alusão às tradições guerreiras dos lusos.

«Como? Não sois vós inda os descendentes

Daqueles que, debaixo da bandeira

Do grande Henriques, feros e valentes,

Vencestes esta gente tão guerreira,

Fabio Renato Villela

Quando tantas bandeiras, tantas gentes

Puseram em fugida, de maneira

Que sete ilustres Condes lhe trouxeram

Presos, afora a presa que tiveram?

16o Como? Não são vocês os descendentes

Daqueles que debaixo da bandeira

Do grande Henrique (1), ferozes e valentes,

Venceram a moura gente tão traiçoeira;

Quando tantos exércitos e gentes

Puseram em fuga e de tal maneira

Que sete ilustres Condes prenderam

Além dos ricos despojos que tiveram?

1- Henrique: Dom Afonso, primeiro rei português.

«Com quem foram contino sopeados

Estes, de quem o estais agora vós,

Por Dinis e seu filho sublimados,

Senão cos vossos fortes pais e avôs?

Pois se, com seus descuidos ou pecados,

Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,

Torne-vos vossas forças o Rei novo,

Se é certo que co Rei se muda o povo.

17o Quem manteve esses castelhanos refreados,

Os quais agora tentam reprimir a vós,

A Dinis (1) e ao seu filho sublimado,

Não foram os vossos fortes pais e avós?

Pois, se com a sua tibieza ou pecado,

Fernando (2) tanta covardia vos pôs,

Que lhes restitua a coragem o Rei Novo,

Se for certo que com o Rei se muda o Povo.

1- Dinis: Sexto rei de Portugal e pai de Afonso IV.

2- Fernando: nono rei de Portugal, célebre pela covardia e indolência.

«Rei tendes tal que, se o valor tiverdes

Igual ao Rei que agora alevantastes,

Desbaratareis tudo o que quiserdes,

Quanto mais a quem já desbaratastes.

E se com isto, enfim, vos não moverdes

Do penetrante medo que tomastes,

Atai as mãos a vosso vão receio,

Que eu só resistirei ao jugo alheio.

18o Tendes um rei de muito valor e se tiverdes

A sua coragem, que há pouco tempo aclamastes,

Derrotareis a tudo o que quiserdes,

Principalmente os espanhóis a quem já derrotastes.

Mas, se nem assim vós não se moverdes

E se libertarem do medo que vos tomastes,

Juntem as suas inúteis mãos vosso receio,

Que sozinho enfrentarei o perigo alheio.

«Eu só, com meus vassalos e com esta

(E dizendo isto arranca meia espada),

Defenderei da força dura e infesta

A terra nunca de outrem sojugada.

Em virtude do Rei, da pátria mesta,

Da lealdade já por vós negada,

Vencerei não só estes adversários,

Mas quantos a meu Rei forem contrários!»

19o Apenas eu, com meus vassalos e com esta

(E dizendo isso saca meia espada),

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

8

Defenderei da força dura e funesta

A terra que por ninguém foi subjugada.

Para a glória real, da pátria e da gente honesta

Com a lealdade que por vós é negada,

Vencerei não só a estes adversários,

Mas todos que ao meu rei forem contrários.

«Bem como entre os mancebos recolhidos

Em Canúsio, relíquias sós de Canas,

Já pera se entregar quási movidos

À fortuna das forças Africanas,

Cornélio moço os faz que, compelidos

Da sua espada, jurem que as Romanas

Armas não deixarão, enquanto a vida

Os não deixar ou nelas for perdida:

20o Igual ao ocorrido com os soldados escondidos

Em Canússio (1), sobreviventes da batalha em Canas,

E que já se sentiam derrotados e impelidos

A entregar-se à sorte na mão das forças africanas;

E foram pela espada de Cornélio (2), ameaçados

Para se reanimarem e jurarem que as romanas

Armas não entregariam; e que enquanto a vida

Neles existisse a luta não seria perdida:

1- Canússio: Lugar na Apúlia (região da Itália) para onde fugiram os sobreviventes do exército romano derrotado por Aníbal

em Canas.

2- Cornélio: Públio Cornélio Cipião, o Africano, que venceu Aníbal em Zama.

«Destarte a gente força e esforça Nuno,

Que, com lhe ouvir as últimas razões,

Removem o temor frio, importuno,

Que gelados lhe tinha os corações.

Nos animais cavalgam de Neptuno,

Brandindo e volteando arremessões;

Vão correndo e gritando, a boca aberta:

- «Viva o famoso Rei que nos liberta!»

21o Encoraja àquela gente o nobre Nuno,

E por lhe ouvir as ponderações,

Afastam o temor frio e inoportuno,

Que lhes congelava os corações.

Cavalgam nos animais de Netuno (1),

Brandindo e girando os arremessões (2);

Correndo, gritam com a alma desperta:

Viva o poderoso rei que nos liberta!

1- Netuno: deus do mar, a quem os cavalos eram consagrados.

2- Arremessão: antiga arma para lançar objetos.

«Das gentes populares, uns aprovam

A guerra com que a pátria se sustinha;

Uns as armas alimpam e renovam,

Que a ferrugem da paz gastadas tinha:

Capacetes estofam, peitos provam,

Arma-se cada um como convinha;

Outros fazem vestidos de mil cores,

Com letras e tenções de seus amores.

22o Entre os populares, alguns aprovam

A guerra que a pátria mantinha;

Outros limpam as armas e as renovam,

Pois a ferrugem da paz estragada as tinha;

Forram capacetes e peitorais provam,

E cada qual se arma como lhe convinha;

Há os que fazem trajes de várias cores,

Com dedicatórias aos seus amores.

Fabio Renato Villela

«Com toda esta lustrosa companhia

Joane forte sai da fresca Abrantes,

Abrantes, que também da fonte fria

Do Tejo logra as águas abundantes.

Os primeiros armígeros regia

Quem pera reger era os mui possantes

Orientais exércitos sem conto

Com que passava Xerxes o Helesponto;

23o Com toda essa brilhante companhia

O poderoso Joane (1) sai da aprazível Abrantes (2).

A bela cidade que na fonte fria

Do Tejo bebe de suas águas abundantes.

Os primeiros combatentes quem regia

Era aquele que poderia ter regido os possantes

Exércitos orientais, ou doutro canto (3),

Com que Xerxes (4) atravessou o Helesponto (5).

1- Joane: Dom João I.

2- Abrantes: Cidade portuguesa.

3- Canto: neste contexto, as tropas de outras regiões, subjugadas pelos Persas.

4- Xerxes: Rei da Pérsia, filho de Dario I. Retomando os projetos do pai invadiu a Atica, mas foi derrotado em Salamina por

Temístocles.

5- Helesponto: No Estreito que separava Tróia do Quersoneso. Conforme a lenda, o ponto onde Hele caiu enquanto fugia de

sua sogra, rumo a Cólquida.

«Dom Nuno Alveres digo: verdadeiro

Açoute de soberbos Castelhanos,

Como já o fero Huno o foi primeiro

Pera Franceses, pera Italianos.

Outro também, famoso cavaleiro,

Que a ala direita tem dos Lusitanos,

Apto pera mandá-los e regê-los,

Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.

24o Nuno Álvares (1) de quem digo “o verdadeiro

Açoite dos arrogantes Castelhanos”,

Como já tinha sido o feroz Huno (2), primeiro

Para os franceses e depois para os italianos.

Também cito outro famoso cavaleiro,

Que seguia na direita dos exércitos lusitanos,

Bravo e apto para comandar e regê-los,

Eis Mem Rodrigues (3), conhecido por Vasconcelos.

1- Dom Nuno Álvares: Condestável de Portugal e grande apoio de Dom João I nas lutas contra Castela, pela independência

de Portugal.

2- Huno: Átila, rei dos hunos, que se intitulava de “Flagelo de Deus”.

3- Mem Rodrigues: cavaleiro português que comandou a “Ala dos Namorados”, na batalha de Aljubarrota.

«E da outra ala, que a esta corresponde,

Antão Vasques de Almada é capitão,

Que despois foi de Abranches nobre Conde;

Das gentes vai regendo a sestra mão.

Logo na retaguarda não se esconde

Das Quinas e Castelos o pendão,

Com Joane, Rei forte em toda parte,

Que escurecendo o preço vai de Marte.

25o No flanco esquerdo, que ao direito corresponde,

O valoroso Antão Vasquez de Almada (1) é o capitão,

O qual, depois, foi elevado a nobre conde

De Abranches (2); que comanda a tropa com rígida mão.

Ilustres e grandes, na retaguarda não se esconde

As ordens de Quinas e Castelos, com o respectivo brasão.

Seguem Joane, o forte rei, por toda parte,

Que com o seu valor encobre as glórias de Marte.

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

10

1- Antão Vasques de Almada: nobre português. Camões confunde-o com o seu sobrinho Álvaro, quando lhe chama de conde

de Abranches.

2- Abranches: Situada na região da Normandia.

«Estavam pelos muros, temerosas

E de um alegre medo quási frias,

:Rezando, as mães, irmãs, damas e esposas,

Prometendo jejuns e romarias.

Já chegam as esquadras belicosas

Defronte das imigas companhias,

Que com grita grandíssima os recebem;

E todas grande dúvida concebem.

26o Debruçavam-se nos muros, temerosas,

Num misto de orgulho e medo e quase frias,

As mães, as irmãs, damas e esposas,

Prometendo jejuns, rezas e romarias.

Entretanto já chegavam as tropas belicosas

Em frente das inimigas companhias,

Que com enorme alarido os recebe;

E uma grande expectativa se percebe.

«Respondem as trombetas mensageiras,

Pífaros sibilantes e atambores;

Alférezes volteiam as bandeiras,

Que variadas são de muitas cores.

Era no seco tempo que nas eiras

Ceres o fruto deixa aos lavradores;

Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto;

Baco das uvas tira o doce mosto.

27o Respondem aos gritos as trombetas guerreiras,

As flautas sibilantes e os tambores.

Os oficiais giram as bandeiras,

Variadas e multicolores.

Era a estação das secas, quando nas eiras (1)

Ceres (2) deixava os frutos aos lavradores;

O sol entrava em Astréia (3), no mês de agosto;

Quando Baco (4) tira das uvas o doce mosto (5).

1- Eiras: Terreno onde se trabalha com cereais.

2- Ceres: Deusa da agricultura.

3- Astréia: Filha de Júpiter e de Temis. Deu nome ao signo de Virgem. A conjunção do Sol com Virgem a que Camões se

refere acontecia em 23 de agosto, segundo o calendário Gregoriano. Porém no tempo de Camões vigorava o calendário

Juliano, segundo o qual a junção acontecia a 12 de agosto. A batalha de Aljubarrota aconteceu em 14 de agosto de 1.385.

4- Baco: o deus do vinho.

5- Mosto: o primeiro suco que sai da uva, preparada para o vinho.

«Deu sinal a trombeta Castelhana,

Horrendo, fero, ingente e temeroso;

Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana

Atrás tornou as ondas de medroso.

Ouviu[-o] o Douro e a terra Transtagana;

Correu ao mar o Tejo duvidoso;

E as mães, que o som terríbil escuitaram,

Aos peitos os filhinhos apertaram.

28o Deu o sinal a trombeta castelhana,

Som horrível, feroz, enorme e pavoroso;

Ouviu-o o Monte Artabro (1), e o rio Guadiana (2)

Correu para trás de tão medroso.

Ouviu-o o Douro (3) e a terra Transtagana (4);

Correu para o mar o rio Tejo temeroso;

E as mães que o terrível som escutaram

No peito os filhinhos aconchegaram.

Fabio Renato Villela

1- Artabro: Cabo da Galizia, atual Ortegal.

2- Guadiana: Rio Português e espanhol que em algumas partes marca fronteira entre ambos.

3- Douro: Região no norte-nordeste de Portugal

4- Transtaganas: Terras além do rio Tejo.

«Quantos rostos ali se vêm sem cor,

Que ao coração acode o sangue amigo!

Que, nos perigos grandes, o temor

É maior muitas vezes que o perigo.

E se o não é, parece-o; que o furor

De ofender ou vencer o duro imigo

Faz não sentir que é perda grande e rara

Dos membros corporais, da vida cara.

29o Quantos rostos ali se vê pálidos e sem cor,

Pois para o coração correu o sangue amigo!

É que nos grandes perigos, o temor

Muitas vezes é maior que o real perigo.

E se não for, parece que o furor

Em vencer e ferir o duro inimigo

Insensibiliza para a perda grande e rara

De mutilar membros ou findar a vida cara.

«Começa-se a travar a incerta guerra:

De ambas partes se move a primeira ala;

Uns leva a defensão da própria terra,

Outros as esperanças de ganhá-la.

Logo o grande Pereira, em quem se encerra

Todo o valor, primeiro se assinala:

Derriba e encontra e a terra enfim semeia,

Dos que a tanto desejam, sendo alheia.

30o Começa-se a travar a incerta guerra:

De ambas as partes movem-se a primeira ala;

Alguns defendem a própria terra,

Outros só querem desfrutá-la.

Logo, o grande Pereira (1), que em si encerra

Nobre valor se destaca na batalha:

Encontra e derruba e por fim a terra semeia

Com aqueles que desejavam a Pátria alheia.

1- Nuno Álvares Pereira, já citado alhures.

«Já pelo espesso ar os estridentes

Farpões, setas e vários tiros voam;

Debaxo dos pés duros dos ardentes

Cavalos treme a terra, os vales soam.

Espedaçam-se as lanças, e as frequentes

Quedas co as duras armas tudo atroam.

Recrecem os imigos sobre a pouca

Gente do fero Nuno, que os apouca.

31o Pelo ar espesso os estridentes

Farpões, setas e tiros voam;

Debaixo dos duros cascos dos ardentes

Cavalos a terra treme e os vales ressoam.

Despedaçam-se as lanças e as freqüentes

Quedas com as pesadas armaduras ecoam.

Recarregam os inimigos sobre a pequena

Tropa do feroz Nuno, que, todavia, os apequena.

«Eis ali seus irmãos contra ele vão

(Caso feio e cruel!); mas não se espanta,

Que menos é querer matar o irmão,

Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta.

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

12

Destes arrenegados muitos são

No primeiro esquadrão, que se adianta

Contra irmãos e parentes (caso estranho),

Quais nas guerras civis de Júlio [ e ] Magno

32o Ali, seus próprios irmãos (1) contra ele vão,

(Fato feio e cruel), mas que não espanta,

Pois é quase nada querer matar o irmão,

Quem contra o rei e a própria pátria se levanta.

Esses renegados em grande número estão

Naquele primeiro esquadrão, que se adianta

Contra irmãos e parentes (Fato tão estranho),

E igual nas guerras de Julio e de Magno (2).

1- Os irmãos de Nuno Álvares Pereira combateram em Aljubarrota, mas pelo lado castelhano.

2- Julio César e Pompeu Magno, romanos. Leia-se Magno como “Manho” para rimar com estranho.

«O tu, Sertório, ó nobre Coriolano,

Catilina, e vós outros dos antigos

Que contra vossas pátrias com profano

Coração vos fizestes inimigos:

E se lá no reino escuro de Sumano

Receberdes gravíssimos castigos,

Dizei-lhe que também dos Portugueses

Alguns tredores houve algüas vezes.

33o Ó tu, Sertório (1), ó nobre Coriolano (2),

Catilina (3), e todos os outros antigos,

Que das próprias pátrias, com profano

Coração se tornaram inimigos:

Se lá no reino escuro de Sumano (4)

Receberem grandes castigos,

Digam que também entre os portugueses

Existiram traidores em algumas vezes.

1- Sertório: General romano que depois da morte de Mario de quem era partidário, organizou na Península Ibérica um

movimento contra Roma, sendo assassinado em 73 A.C. por Perpena.

2- Coriolano: General romano que depois de ter prestado grandes serviços a Roma aliou-se aos inimigos.

3- Catilina: Patrício romano que fomentou uma conspiração contra o Senado.

4- Sumano: Sobrenome de Plutão, o deus do Inferno.

«Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,

Tantos dos inimigos a eles vão!

Está ali Nuno, qual pelos outeiros

De Ceita está o fortíssimo lião

Que cercado se vê dos cavaleiros

Que os campos vão correr de Tutuão:

Perseguem-no com as lanças, e ele, iroso,

Torvado um pouco está, mas não medroso;

34o Fraquejam entre os portugueses os primeiros,

Tantos são os inimigos que contra eles estão.

Ali está Nuno, igual quando pelos outeiros

Da cidade de Ceita (1) o poderoso leão

Vê-se cercado por cruéis cavaleiros

Que caçam nos campos de Tutuão (2)

E o perseguem com as lanças, até que furioso

Um pouco se perturba, mas nunca fica medroso

1- Ceita ou Ceuta: Cidade marroquina, que pertenceu aos portugueses.

2- Tutuão ou Tetuão: cidade no Marrocos.

«Com torva vista os vê, mas a natura

Ferina e a ira não lhe compadecem

Que as costas dê, mas antes na espessura

Das lanças se arremessa, que recrecem.

Tal está o cavaleiro, que a verdura

Fabio Renato Villela

Tinge co sangue alheio; ali perecem

Alguns dos seus, que o ânimo valente

Perde a virtude contra tanta gente.

35o Com a vista turvada vê os inimigos, mas a sua natureza

E o seu caráter, feroz e irado, não se arrefecem;

E faz com que contra os inimigos, de tanta malvadeza,

Ele e os seus companheiros se arremessem.

Assim está o cavalheiro, que com dureza,

Tinge o campo com o sangue alheio: mas onde falecem

Alguns dos seus, pois mesmo o coração mais valente

É insuficiente para combater tanta gente.

«Sentiu Joane a afronta que passava

Nuno, que, como sábio capitão,

Tudo corria e via e a todos dava,

Com presença e palavras, coração.

Qual parida lioa, fera e brava,

Que os filhos, que no ninho sós estão,

Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,

O pastor de Massília lhos furtara,

36o Joane viu a terrível pressão que passava

Nuno, pois ele, como grande capitão,

Para todo lugar corria, tudo via e a todos dava,

Ânimo, coragem, incentivo e determinação.

Como se fosse uma leoa parida, feroz e brava,

Cujos filhotes sozinhos estão,

E pressente que enquanto comida lhes buscara,

O cruel pastor de Massilia (1) os furtara,

1- Massilia: grande região da África. Para Camões, praticamente representa toda a África.

«Corre raivoso e freme e com bramidos

Os montes Sete Irmãos atroa e abala:

Tal Joane, com outros escolhidos

Dos seus, correndo acode à primeira ala:

- «O fortes companheiros, ó subidos

Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,

Defendei vossas terras, que a esperança

Da liberdade está na nossa lança!

37o E então corre raivosa, vibra e com rugidos

Os montes Sete Irmãos (1) atordoa e abala:

Assim fez Joane junto de alguns escolhidos

Segue correndo e socorre a primeira ala:

- Ó fortes companheiros, ó erguidos

Cavaleiros, a quem nenhum outro se iguala,

Defendei as vossas terras, que a esperança

Da liberdade está na vossa lança!

1- Montes Sete Irmãos: cordilheira na África do Norte.

«Vedes-me aqui, Rei vosso e companheiro,

Que entre as lanças e setas e os arneses

Dos inimigos corro e vou primeiro;

Pelejai, verdadeiros Portugueses! »

Isto disse o magnânimo guerreiro

E, sopesando a lança quatro vezes,

Com força tira; e deste único tiro

Muitos lançaram o último suspiro.

38o Vejam-me aqui, vosso rei e companheiro,

Que entre as lanças, setas e os arneses (1)

Dos inimigos eu prossigo e vou primeiro;

Lutem verdadeiros portugueses!

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

14

Assim falou o magnífico guerreiro

E, levantando a lança por quatro vezes,

Com força atira; e por causa deste tiro

Muitos inimigos lançaram o último suspiro.

1- Arneses: armaduras.

«Porque eis os seus, acesos novamente

Dua nobre vergonha e honroso fogo,

Sobre qual mais, com ânimo valente,

Perigos vencerá do Márcio jogo,

Porfiam; tinge o ferro o fogo ardente;

Rompem malhas primeiro e peitos logo.

Assi recebem junto e dão feridas,

Como a quem já não dói perder as vidas.

39o Os soldados, inflamados novamente,

De uma nobre vergonha e honroso fogo,

Que mais inflama o ânimo valente,

Lutam com mais ardor e vencem

Os perigos do guerreiro jogo.

Tinem o ferro das armas e o fogo ardente,

Rompem-se as armaduras e logo

Depois os peitos; sofrem e provocam feridas,

Como se já não lhes importasse perder as vidas.

«A muitos mandam ver o Estígio lago,

Em cujo corpo a morte e o ferro entrava.

O Mestre morre ali de Santiago,

Que fortìssimamente pelejava;

Morre também, fazendo grande estrago,

Outro Mestre cruel de Calatrava.

Os Pereiras também, arrenegados,

Morrem, arrenegando o Céu e os Fados.

40o Muitos Castelhanos vão para o Estigio (1) lago,

Quando neles o gelo da morte entrava.

Ali morre o Mestre de Santiago (2),

Que tão bravamente lutava;

Também morre, fazendo um grande estrago,

Outro cruel Mestre, da ordem de Calatrava (3).

E os irmãos Pereira (4) morrem resignados,

Negando o céu e o país, atraiçoados.

1- Estigio ou Estige: rio ou lago do Inferno.

2- Santiago: mestre da Ordem Militar deste nome. Mas, ao contrário do que cita Camões, não morreu nessa batalha de

Aljubarrota e segundo Fernão Lopes, na de Valverde.

3- Calatrava: Ordem da cavalaria fundada por Dom Sancho III, rei de Castela. O nome do mestre é: Dom Pedro Álvares

Pereira.

4- Vide nota na estrofe 32.

«Muitos também do vulgo vil, sem nome,

Vão, e também dos nobres, ao Profundo,

Onde o trifauce Cão perpétua fome

Tem das almas que passam deste mundo.

E por que mais aqui se amanse e dome

A soberba do imigo furibundo,

A sublime bandeira Castelhana

Foi derribada òs pés da Lusitana.

41o Também muitos plebeus, sem nome,

Vão juntos com os nobres para o Profundo (1),

Lá, Cérbero (2), o cão de eterna fome,

Aniquila as almas que saem desse Mundo.

E como cada vez mais se amanse e dome

A arrogância do inimigo furibundo,

A sublime bandeira castelhana

Jaz derrubada aos pés da lusitana.

Fabio Renato Villela

1- Profundo: Inferno

2- Cérbero: Cão de três cabeças e cauda de serpente que guarda a entrada do Inferno.

«Aqui a fera batalha se encruece

Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;

A multidão da gente que perece

Tem as flores da própria cor mudadas.

Já as costas dão e as vidas; já falece

O furor e sobejam as lançadas;

Já de Castela o Rei desbaratado

Se vê e de seu propósito mudado.

«O campo vai deixando ao vencedor,

42o Noutro canto a batalha recrudesce

Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;

A multidão de gente que falece

Tem as cores das faces mudadas.

Já se dão as costas e as vidas; já se esmorece,

Mas um resto de furor ainda joga as lançadas.

Porém o rei de Castela vê que está arruinado,

E que o seu propósito está acabado.

Contente de lhe não deixar a vida.

Seguem-no os que ficaram, e o temor

Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.

Encobrem no profundo peito a dor

Da morte, da fazenda despendida,

Da mágoa, da desonra e triste nojo

De ver outrem triunfar de seu despojo.

43o Taciturno deixa o campo ao vencedor,

Consola-se por não ter deixado a própria vida.

Seguem-no os que sobreviveram, e o temor

Dá-lhes asas para fugirem em louca corrida.

Encobrem dentro do peito a dor

Da morte e da riqueza despendida,

Da mágoa, da desonra e o triste nojo

De assistir outrem tomar-lhe o despojo.

«Alguns vão maldizendo e blasfemando

Do primeiro que guerra fez no mundo;

Outros a sede dura vão culpando órdi

Do peito cobiçoso e sitibundo,

Que, por tomar o alheio, o miserando

Povo aventura às penas do Profundo,

Deixando tantas mães, tantas esposas,

Sem filhos, sem maridos, desditosas.

44o Alguns vão maldizendo e blasfemando

Contra quem fez a primeira guerra no mundo;

Outros, as sórdidas ganâncias vão culpando,

Daquele coração cobiçoso e furibundo,

Que para tomar o alheio, o miserando

Expôs o povo às penas do Profundo,

Deixando tantas mães, tantas esposas,

Sem filhos, sem maridos, sempre chorosas.

«O vencedor Joane esteve os dias

Costumados no campo, em grande glória;

Com ofertas, despois, e romarias,

As graças deu a Quem lhe deu vitória.

Mas Nuno, que não quer por outras vias

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

16

Entre as gentes deixar de si memória

Senão por armas sempre soberanas,

Pera as terras se passa Transtaganas.

45o O vencedor Joane (1) só ficou os dias

Necessários no campo, em grande glória;

Com oferendas e depois com romarias,

Deu graças a Deus por lhe permitir a vitória.

Mas Nuno prossegue nas guerreiras vias,

Pois quer que lhe tenham na memória

Só pelas proezas militares soberanas;

Assim, logo parte para as terras Transtaganas (2).

1- Joane: Dom João.

2- Transtaganas: as terras além do rio Tejo.

«Ajuda-o seu destino de maneira

Que fez igual o efeito ao pensamento,

Porque a terra dos Vândalos, fronteira,

Lhe concede o despojo e o vencimento.

Já de Sevilha a Bética bandeira,

E de vários senhores, num momento

Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa,

Obrigados da força Portuguesa.

46o O seu destino lhe ajuda de tal maneira

Que sua ação ocorre no exato momento,

Porque a terra dos Vândalos (1), na fronteira,

Dá-lhe o despojo da vitória após breve enfrentamento.

Logo depois em Sevilha (2) a Bética (3) bandeira,

E a de vários outros territórios, num momento,

Caem a seus pés, sem defesa,

Tal é a força portuguesa.

1- Aqui Camões refere-se a Andaluzia, antigamente chamada de Vandália em função de ter sido dominada por muito tempo

pelos Vândalos, povo bárbaro da Europa central.

2- Sevilha: cidade da Andaluzia, Espanha.

3- Bética: Região da Espanha que corresponde aproximadamente a atual Andaluzia.

«Destas e outras vitórias longamente

Eram os Castelhanos oprimidos,

Quando a paz, desejada já da gente,

Deram os vencedores aos vencidos,

Despois que quis o Padre omnipotente

Dar os Reis inimigos por maridos

As duas Ilustríssimas Inglesas,

Gentis, fermosas, ínclitas princesas.

47o Por estas e outras vitórias, longamente

Os castelhanos foram oprimidos,

Até que a paz, já desejada por toda gente,

Os vencedores ofereceram aos vencidos;

Depois, quis o Deus onipotente

Dar os reis inimigos como maridos

As duas ilustríssimas inglesas,

Gentis, formosas e nobres princesas.

«Não sofre o peito forte, usado à guerra,

Não ter imigo já a quem faça dano;

E assi, não tendo a quem vencer na terra,

Vai cometer as ondas do Oceano

Este é o primeiro Rei que se desterra

Da pátria, por fazer que o Africano

Conheça, pelas armas, quanto excede

A lei de Cristo à lei de Mafamede.

Fabio Renato Villela

48o Já sofre quem se acostumara à guerra,

Por já não ter mais inimigo a quem faça dano;

Assim, não tendo mais a quem vencer na terra,

Vai se aventurar nas ondas do Oceano.

Dom João I é quem que se desterra

Da pátria, para fazer que o africano

Reconheça o quanto é superior,

Ante o Islã, a religião de Nosso Senhor.

«Eis mil nadantes aves, pelo argento

Da furiosa Tétis inquieta,

Abrindo as pandas asas vão ao vento,

Pera onde Alcides pôs a extrema meta.

O monte Abila e o nobre fundamento

De Ceita toma, e o torpe Mahometa

Deita fora, e segura toda Espanha

Da Juliana, má e desleal manha.

49o Eis que mil navios, pelo argento (1)

Mar da furiosa Téthis (2) inquieta,

Abrindo as infladas velas seguem ao vento,

Para onde Alcides (3) traçou a sua extrema meta.

Logo o monte Abila (4) e o nobre povoamento

De Ceita (5) ele conquista e o sórdido Mahometa (6)

Expulsa, enquanto assegura que toda a Espanha

Fique livre da força Juliana (7), má e desleal artimanha.

1- Argento: prateado.

2- Téthis: Deusa do mar, filha do céu e da Terra, mulher do Oceano, do qual pariu mais de três mil filhos, ou seja, todos os

rios do mundo.

3- Alcides: Hércules, que por ser neto de Alceu, era assim chamado.

4- Monte Abila: nas proximidades de Ceuta.

5- Ceita ou Ceuta: cidade marroquina que pertenceu aos portugueses.

6- Mahometa: islamita seguidor da religião maometana

7- Camões se refere a Julião, conde visigodo que se aliou aos árabes para invadir a Península Ibérica no século VIII. Leia-se,

portanto, Espanha como Península Ibérica.

«Não consentiu a morte tantos anos

Que de Herói tão ditoso se lograsse

Portugal, mas os coros soberanos

Do Céu supremo quis que povoasse.

Mas, pera defensão dos Lusitanos,

Deixou Quem o levou, quem governasse

E aumentasse a terra mais que dantes:

Ínclita geração, altos Infantes.

50o Porém, a morte não lhe tardou muitos anos,

E nem deixou que herói tão poderoso desfrutasse

De seu Portugal; pois ela quis que nos soberanos

Reinos do Céu Supremo ele morasse.

Porém, para defender os lusitanos,

Deus que o levou, deixou quem bem governasse

E aumentasse as conquistas mais que antes,

Pois era nobre a descendência e valorosos os Infantes (1)

1- Infantes: filho de reis de Portugal e da Espanha que não era herdeiros da Coroa.

«Não foi do Rei Duarte tão ditoso

O tempo que ficou na suma alteza,

Que assi vai alternando o tempo iroso

O bem co mal, o gosto co a tristeza.

Quem viu sempre um estado deleitoso?

Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?

Pois inda neste Reino e neste Rei

Não usou ela tanto desta lei?

51o Sucedeu-lhe Dom Duarte, que não foi tão venturoso.

Enquanto ficou na suprema alteza,

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

18

Alternou um governo ruim e às vezes glorioso,

O bem e o mal, o júbilo e a tristeza.

Mas quem já viu um Estado sempre prazeroso?

Ou quem já viu na boa sorte haver firmeza?

Então como duvidar que com este rei

A instável sorte não usou e abusou desta lei?

«Viu ser cativo o santo irmão Fernando

(Que a tão altas empresas aspirava),

Que, por salvar o povo miserando

Cercado, ao Sarraceno se entregava.

Só por amor da pátria está passando

A vida, de senhora feita escrava,

Por não se dar por ele a forte Ceita.

Mais o público bem que o seu respeita.

52o Viu ser cativo o seu santo irmão Fernando

(Que a tantas proezas aspirava).

E que para salvar seu povo miserando,

Cercado pelo Sarraceno a ele se entregava.

E apenas por amor à pátria esteve passando

Uma vida, que de senhora tornou-se escrava,

E tudo por não lhe socorrer a forte Ceita (1).

Pois ele, pelo bem público, a tudo se sujeita.

1- Ceita: ou Ceuta, cidade marroquina que pertenceu aos portugueses. Neste contexto: para se resguardar da fúria moura,

a Cidade entregou-lhes Fernando que resignadamente ao sacrifício se sujeitou.

«Codro, por que o inimigo não vencesse,

Deixou antes vencer da morte a vida;

Régulo, por que a pátria não perdesse,

Quis mais a liberdade ver perdida.

Este, por que se Espanha não temesse,

A cativeiro eterno se convida!

Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,

Nem os Décios leais, fizeram tanto.

Codro, para que o inimigo não vencesse

Deixou que antes a morte lhe tomasse a vida.

Régulo (2), para que a pátria não perdesse,

Optou por ter a sua liberdade perdida.

Fernando, como a Espanha não lhe socorresse,

Ao terrível cativeiro eterno se convida.

Codro, nem Curcio (3), cujo heroísmo causa espanto,

Nem os leais Décios, fizeram tanto.

1- Codro: ultimo rei de Atenas. Sacrificou-se pela pátria, deixando-se matar pelos dórios para cumprir um oráculo.

2- Régulo: cônsul romano, apontado como exemplo de amor à pátria. Aprisionados pelos cartagineses foi enviado a Roma,

sob palavra, e persuadiu o Senado a resistir. Ao regressar a Cartago, como tinha prometido, foi supliciado.

3- Marco Curcio: sacrificou-se por Roma, lançando-se com o cavalo num abismo que os oráculos haviam anunciado que só

se fecharia quando recebesse no seu seio o que o povo romano tivesse de mais precioso. Neste caso a coragem de um

soldado.

4- Décios: nome de três romanos (pai, filho e neto) que em três batalhas se sacrificaram para dar a vitória aos exércitos de

Roma.

«Mas Afonso, do Reino único herdeiro,

Nome em armas ditoso em nossa Hespéria.

Que a soberba do Bárbaro fronteiro

Tornou em baxa e humílima miséria,

Fora por certo invicto cavaleiro,

Se não quisera ir ver a terra Ibéria.

Mas Africa dirá ser impossíbil

Poder ninguém vencer o Rei terríbil.

54o Mas Afonso (1), o único herdeiro,

Famoso pelas proezas em nossa Hespéria (2),

Que a arrogância do bárbaro fronteiro

Abaixou e transformou em humilde miséria.

Fabio Renato Villela

Tornou-se invicto cavaleiro

Nos combates na terra Ibéria (3)

E até na África se diz ser impossível

Alguém vencer a este rei terrível.

1- Afonso: sucessor de Dom Duarte, chamado de “O Africano” por suas conquistas na África.

2- Hespéria: a península Ibérica.

3) Em 1475, Afonso invadiu o reino de Castela (uma província da Espanha), quando a ele se aliaram vários fidalgos

castelhanos. Trazia um poderoso exército, porém não soube aproveitar o tempo de progressão da campanha e na planície

de Toro encontrou os exércitos de Fernando de Aragão e o de Isabel de Castela e saindo-se mal na batalha retirou-se em

desordem.

«Este pôde colher as maçãs de ouro

Que somente o Tiríntio colher pôde.

Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro

A cerviz inda agora não sacode.

Na fronte a palma leva e o verde louro

Das vitórias do Bárbaro, que acode

A defender Alcácer, forte vila,

Tângere populoso e a dura Arzila.

55o Afonso, o Africano, colheu as maçãs de ouro (1),

Que apenas o Tirintio (2) colher pôde.

Pelo jugo que impôs ao bravo mouro

A coluna, ainda agora, ele não sacode.

Na testa leva a palma e o verde louro

Das vitórias sobre o bárbaro, que acode

Para defender Alcácer (3), forte vila,

O Tanger (4) populoso e a resistente Arzila (5).

1- Maçãs de Ouro: eram os frutos cultivados pelas Hespérides, filhas de Atlas, num pomar guardado por um dragão de cem

cabeças. Hércules matou o dragão e apoderou-se dos frutos, sendo esse o seu 12o trabalho. Segundo Camões, esse pomar

ficaria no Marrocos.

2- Tirintio; natural de Tirins, na Argólida. Nessa estrofe, Camões refere-se a Hércules que nasceu ali.

3- Alcácer ou Cequer: cidade marroquina tomada aos mouros em 1458, por Afonso V.

4- Tangere ou Tanger: porto de Marrocos, perto do Estreito de Gibraltar.

5- Arzila: cidade marroquina.

«Porém elas, enfim, por força entradas

Os muros abaxaram de diamante

Às Portuguesas forças, costumadas

A derribarem quanto acham diante.

Maravilhas em armas, estremadas

E de escritura dinas elegante,

Fizeram cavaleiros nesta empresa,

Mais afinando a fama Portuguesa.

56o E as terras da Espanha foram adentradas

E ruíram suas muralhas, duras como o diamante,

Ante as forças portuguesas, já acostumadas

A derrubarem tudo o que encontravam adiante.

Proezas militares maravilhosas e extremadas

Dignas de livros e de história elegante,

Fizeram os bravos lusitanos nesta empresa,

Aumentando a digna a fama portuguesa.

«Porém despois, tocado de ambição

E glória de mandar, amara e bela,

Vai cometer Fernando de Aragão,

Sobre o potente Reino de Castela.

Ajunta-se a inimiga multidão

Das soberbas e várias gentes dela,

Desde Cáliz ao alto Perineu,

Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.

57o Porém, mais tarde, movido pela ambição

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

20

E pela vaidade de conquistar, amarga e bela,

Afonso V vai afrontar Fernando de Aragão (1),

E o poderoso reino de Castela (2).

Juntam-se os espanhóis numa grande multidão

Com os povos das várias regiões dela.

E desde Cáliz (3) até ao alto Pirineu (4),

O imenso exército ao rei Fernando obedeceu.

1- Fernando de Aragão: Fernando, o Católico, rei de Aragão, um dos reinos que compunham a Espanha.

2- Castela: nesse contexto, o principal reino da Espanha. No épico, Camões o aponta como tradicional inimigo de Portugal.

3- Cáliz ou Cádiz: cidade na Andaluzia, Espanha.

4- Pirineu: os montes Pirineus.

«Não quis ficar nos Reinos occioso

O mancebo Joane, e logo ordena

De ir ajudar o pai ambicioso,

Que então lhe foi ajuda não pequena.

Saiu-se, enfim, do trance perigoso,

Com fronte não torvada, mas serena.

Desbaratado o pai sanguinolento,

Mas ficou duvidoso o vencimento;

58o Entretanto, não quis ficar em Portugal, ocioso,

O jovem Joane (1), e logo ordena

Que lhe acompanhem para ajudar ao pai ambicioso,

Para quem, naquela hora, a ajuda não foi pequena.

Por fim, Afonso V saiu daquele aperto perigoso,

De cabeça não curvada, mas serena.

E embora fosse confusa a retirada do pai sanguinolento,

Restou a dúvida se o Espanhol venceu o enfrentamento.

1- Joane: Dom João II, filho de Afonso V – O Africano. Foi rei de Portugal entre 1481 a 1495 e o grande incentivador dos

descobrimentos portugueses. * Vide notas na estrofe 54.

«Porque o filho, sublime e soberano,

Gentil, forte, animoso cavaleiro,

Nos contrários fazendo imenso dano,

Todo um dia ficou no campo inteiro.

Destarte foi vencido Octaviano,

E António vencedor, seu companheiro,

Quando daqueles que César mataram

Nos Filípicos campos se vingaram.

59o Porque o filho de Afonso, o soberano,

Sendo forte e esplêndido cavaleiro,

Fez no inimigo tão duro dano,

Que ficou um dia todo pelo campo inteiro (1).

Assim como quando foi vencido Otaviano (2),

E Antonio (3), o vencedor e seu ex- companheiro,

Reinou pelo campo e puniu os que a César mataram.

Nos campos Filípicos (4) deu-lhes o castigo que procuraram.

1- Naquela batalha o príncipe D. João II destroçou os inimigos e obrigou a Fernando de Aragão a recuar.

2- Otaviano: Augusto, imperador romano.

3- Antonio: Marco Antonio, triúnviro romano.

4- Filípicos campos: referência ao lugar da Macedônia (Filipos) onde

Brutus venceu Otaviano, sendo, posteriormente, derrotado por Antonio.

Camões, aqui, alude as reviravoltas entre lealdades e guerras. Entre aliados que se tornam inimigos.

«Porém, despois que a escura noite eterna

Afonso apousentou no Céu sereno,

O Príncipe que o Reino então governa

Foi Joane segundo e Rei trezeno.

Este, por haver fama sempiterna, eterna,

Mais do que tentar pode homem terreno

Tentou, que foi buscar da roxa Aurora

Os términos, que eu vou buscando agora.

Fabio Renato Villela

60o Depois que a escura noite eterna

Aposentou Afonso (1) no céu sereno,

O príncipe que lhe sucede e que governa,

É Joane II (1), o rei trezeno (2).

Este, para ter renome e fama

Mais do que já ousara o homem terreno

Ousou chegar ao Oriente onde está a Aurora,

O mesmo objetivo, que eu vou buscando agora.

1- Joane: Dom João II. O “Africano”.

2- Trezeno: o décimo terceiro rei de Portugal.

«Manda seus mensageiros, que passaram

Espanha, França, Itália celebrada,

E lá no ilustre porto se embarcaram

Onde já foi Parténope enterrada:

Nápoles, onde os Fados se mostraram,

Fazendo-a a várias gentes subjugada,

Pola ilustrar, no fim de tantos anos,

Co senhorio de ínclitos Hispanos.

61o Manda seus mensageiros, que passaram

Pela Espanha, França e Itália celebrada,

E lá no porto ilustre embarcaram

Onde Parténope (1) foi enterrada.

Nápoles, onde os Fados se mostraram,

Fazendo com que fosse subjugada,

Por vários povos, sendo no fim de tantos anos,

Brilhante domínio dos ilustres Hispanos.

1) Parténope ou Partenôpe: o nome poético da cidade Nápoles. Uma das Nereidas, com este nome, suicidou-se por ter sido

desprezada por Ulisses se lançado à Costa no lugar onde foi fundada a cidade de Nápoles. Nápoles foi dominada pelos

normandos, alemães, franceses e na época de Camões pelos aragoneses os “ilustres hispanos”.

«Polo mar alto Sículo navegam;

Vão-se às praias de Rodes arenosas;

E dali às ribeiras altas chegam

Que com morte de Magno são famosas;

Vão a Mênfis, e às terras que se regam

Das enchentes Nilóticas undosas;

Sobem à Etiópia, sobre Egipto,

Que de Cristo lá guarda o santo rito.

62o Pelo mar chamado de Sículo (1) navegaram

E logo alcançaram às praias de Rodes (2), arenosas;

E daquele ponto às ribeiras altas chegaram,

As quais com a morte de Magno (3) ficaram famosas.

Vão a Mênfis (4) e às terras que se regam

Com as enchentes do rio Nilo, tão suntuosas;

E sobem à cristã Etiópia, acima do Egito,

1) Sículo: o mar que contorna a Sicília, no sul da Itália.

2) Rodes: ilha no mar Mediterrâneo.

3) Magno: Pompeu Magno, político romano, adversário de César.

4) Mênfis: capital do Egito antigo, situada nas margens do rio Nilo.

«Passam também as ondas Eritreias,

Que o povo de Israel sem nau passou;

Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,

Que o filho de Ismael co nome ornou.

As costas odoríferas Sabeias,

Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,

Cercam, com toda a Arábia descoberta,

Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

22

63o Passam também as ondas Eritréias (1),

Onde o povo judeu, entre as águas, passou (2);

Deixam para trás as serras Nabatéias (3),

Que Nabate, filho de Ismael (4), batizou.

As perfumadas costas Sabéias (5),

Que a mãe do belo Adônis (6) tanto honrou,

Eles cercam; e toda a Arábia é descoberta,

Primeiro Feliz (7) e depois Pétrea (7) e Deserta (7).

1- Eritréias: a costa do Mar Vermelho.

2- Alusão à travessia dos Judeus pelo mar Vermelho, com Moises.

3- Nabatéias: cordilheira da Nabateia, no noroeste da Arábia.

4- O filho de Ismael: Nabate, o primogênito de Ismael.

5) Sabéias: região dos Sabeus, cuja capital Sabá, era famosa pela produção de perfumes.

6) A mãe de Adônis é Mirra, que foi transformada numa planta com o mesmo nome.

7) As três regiões em que a Arábia era dividida: Feliz, Pétrea e Deserta.

«Entram no Estreito Pérsico, onde dura

Da confusa Babel inda a memória;

Ali co Tigre o Eufrates se mistura,

Que as fontes onde nascem têm por glória.

Dali vão em demanda da água pura

(Que causa inda será de larga história)

Do Indo, pelas ondas do Oceano,

Onde não se atreveu passar Trajano.

64o Entram no Estreito Pérsico (1), onde perdura

Da confusa torre de Babel (2) a memória;

Ali com o rio Tigre (3) o rio Eufrates (3) se mistura,

Cujas fontes de onde nascem é que lhes dá a glória.

Dali partem em busca da água pura,

O que será motivo de uma longa historia,

Do rio Indo (4) e seguem pelas águas do Oceano,

Por onde não se atreveu nem Trajano (5).

1- Estreito Pérsico: o Estreito de Ormuz.

2- Babel: a Torre de Babel, que os Homens pretenderam construir para atingir o céu e por isso, sofreram o castigo de Deus,

que semeou a confusão entre os construtores determinando que falassem línguas diferentes.

3- Tigre: grande rio da Ásia que nasce no Tauro Armênio (Monte Ararat, onde Noé parou a sua arca no fim do dilúvio, Por

isso sua fonte seria “santa”) e deságua no golfo pérsico, formando com o rio Eufrates o Chade árabe.

4- Rio Indo: importante rio da Índia.

5- Trajano: imperador romano célebre como administrador e conquistador.

«Viram gentes incógnitas e estranhas

Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,

Vendo vários costumes, várias manhas,

Que cada região produze e cria.

Mas de vias tão ásperas, tamanhas,

Tornar-se fàcilmente não podia.

Lá morreram, enfim, e lá ficaram,

Que à desejada pátria não tornaram.

65o Viram gentes desconhecidas e estranhas,

Da Índia, da Carmânia (1) e Gedrosia (2),

Vendo vários costumes e várias artimanhas,

Que cada região produz e cria.

Mas de tanta aspereza e dificuldades tamanhas,

Retornar, facilmente, não se podia.

Lá morreram finalmente e por lá ficaram,

E à desejada pátria amada não retornaram.

1) Carmânia: região da Pérsia, atual Quirman.

2) Gedrosia: região da Pérsia a leste da Carmânia.

«Parece que guardava o claro Céu

A Manuel e seus merecimentos

Esta empresa tão árdua, que o moveu

A subidos e ilustres movimentos;

Fabio Renato Villela

Manuel, que a Joane sucedeu

No Reino e nos altivos pensamentos,

Logo como tomou do Reino cargo,

Tomou mais a conquista do mar largo.

66o Parece que reservava o claro céu

Para Manuel (1), de tantos merecimentos,

A árdua empreitada, que sempre o moveu

A elevados e ilustres movimentos.

Manuel, que a Dom João II sucedeu

No governo e nos nobres sentimentos,

Logo que tomou do reino o encargo,

Expandiu a conquista do vasto mar, tão largo.

1- Manuel ou Emanuel: 14o rei de Portugal, grande impulsionador dos descobrimentos.

«O qual, como do nobre pensamento

Daquela obrigação que lhe ficara

De seus antepassados, cujo intento

Foi sempre acrecentar a terra cara,

Não deixasse de ser um só momento

Conquistado, no tempo que a luz clara

Foge, e as estrelas nítidas que saem

A repouso convidam quando caem,

67o Daquele nobre pensamento (1),

Daquela obrigação que herdara

De seus antepassados, cujo intento

Sempre foi conquistar mais terra tão cara,

Ele não se esquecia nem por um momento

Enquanto o Sol dava a diurna luz clara.

Um pouco olvidava quando as estrelas saem

E ao repouso convidam, enquanto caem,

1- A cobiça por novas terras, que herdara dos seus antecessores, era uma constante em seus pensamentos e apenas a noite

é que dele se apartava, mas não completamente.

«Estando já. deitado no áureo leito,

Onde imaginações mais certas são,

Revolvendo contino no conceito

De seu ofício e sangue a obrigação,

Os olhos lhe ocupou o sono aceito,

Sem lhe desocupar o coração;

Porque, tanto que lasso se adormece,

Morfeu em várias formas lhe aparece.

68o Já estando deitado no leito,

Onde as divagações mais claras são,

Pensava continuamente no conceito

Dos seus encargos e na sua obrigação.

Semi-adormecido, ainda era agitado o peito,

Pois as preocupações não saiam do coração,

E então, quando cansado adormece,

Morfeu (1), em várias formas, lhe aparece.

1- Morfeu: deus dos sonhos.

«Aqui se lhe apresenta que subia

Tão alto que tocava à prima Esfera,

Donde diante vários mundos via,

Nações de muita gente, estranha e fera.

E lá bem junto donde nace o dia,

Despois que os olhos longos estendera,

Viu de antigos, longincos e altos montes

Nacerem duas claras e altas fontes.

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

24

69o Naquela hora lhe parece que subia,

Tão alto que tocava à primeira Esfera (1),

Onde na sua frente vários Mundos ele via:

Nações de gente muito estranha e fera.

E no Oriente, junto de onde nasce o dia,

Depois que os olhos mais longe estendera,

Viu em antigos, longínquos e altos montes

Nascerem duas claras e sublimes fontes.

1- Primeira Esfera: o primeiro céu, segundo o sistema Ptolomaico.

«Aves agrestes, feras e alimárias

Pelo monte selvático habitavam;

Mil árvores silvestres e ervas várias

O passo e o trato às gentes atalhavam.

Estas duras montanhas, adversárias

De mais conversação, por si mostravam

Que, dês que Adão pecou aos nossos anos,

Não as romperam nunca pés humanos.

70o Aves agrestes, feras e alimárias (1),

Pelo selvagem monte habitavam;

Milhares de arvores silvestres e ervas várias

O caminho e a sobrevivência dos povos atrapalhavam.

Estas duras montanhas que são contrárias

A uma melhor descrição, por si mostravam

Que desde que Adão pecou no inicio dos nossos anos,

Nelas, nunca estiveram pés humanos.

1- Alimárias: animais de carga. Pelo contexto, provavelmente, camelos.

«Das águas se lhe antolha que saíam,

Par'ele os largos passos inclinando,

Dous homens, que mui velhos pareciam,

De aspeito, inda que agreste, venerando.

Das pontas dos cabelos lhe saíam

Gotas, que o corpo todo vão banhando;

A cor da pele, baça e denegrida;

A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.

«D'ambos de dous a fronte coroada

Ramos não conhecidos e ervas tinha.

71o Ele vislumbra que das águas saiam,

E em sua direção, com largos passos andando,

Dois homens, que muito velhos pareciam,

De aspecto rude, mas venerando.

Das pontas de seus cabelos lhes caiam

Gotas, que aos seus corpos iam banhando;

A cor de suas peles era sem brilho e enegrecida,

E a barba era dura, emaranhada e comprida.

Um deles a presença traz cansada,

Como quem de mais longe ali caminha;

E assi a água, com ímpeto alterada

Parecia que doutra parte vinha,

Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa

Vai buscar os abraços de Aretusa.

72o De ambos a testa era coroada

Com ramos desconhecidos e outra ervazinha.

Um deles tem a aparência mais cansada,

Como se fosse o que de mais longe caminha;

E assim a água, que dele saia era alterada,

Parecendo que de outra região vinha,

Igual a Alfeu (1) da Arcádia, que em Siracusa (2)

Vai buscar os abraços de Aretusa (3).

Fabio Renato Villela

1- Alfeu: rio da Arcádia que se apaixonou por Aretusa, transformada em fonte, e assim unia as suas águas com as da

amada.

2- Siracusa: cidade situada na costa Oriental da Sicília, Itália.

3- Aretusa: ninfa que foi transformada em fonte, por Liana, quando era perseguida por Alfeu.

«Este, que era o mais grave na pessoa,

Destarte pera o Rei de longe brada:

- «Ó tu, a cujos reinos e coroa

Grande parte do mundo está guardada,

Nós outros, cuja fama tanto voa,

Cuja cerviz bem nunca foi domada,

Te avisamos que é tempo que já mandes

A receber de nós tributos grandes.

73o O homem que parecia ser séria pessoa,

De longe, para o rei assim brada:

- Ó tu, a cujo reino e coroa

Grande parte do mundo está subjugada,

Nós, cuja fama tanto voa,

E de quem a impetuosidade nunca foi domada,

Alertamos-te que já é hora para que mandes

Teu povo receber nossos tributos grandes.

«Eu sou o ilustre Ganges, que na terra

Celeste tenho o berço verdadeiro;

Estoutro é o Indo, Rei que, nesta serra

Que vês, seu nascimento tem primeiro.

Custar-t'-emos contudo dura guerra;

Mas, insistindo tu, por derradeiro,

Com não vistas vitórias, sem receio

A quantas gentes vês porás o freio.»

74o Eu sou o ilustre rio Ganges (1), que na terra

Celeste tem o nascedouro verdadeiro;

Este outro é o Indo rei (2), que nesta serra

Que tu vislumbras é o que nasce primeiro.

A nossa conquista lhe custará uma dura guerra;

Mas se insistires, por derradeiro,

Com vitórias ocultas e sem receio

Verá em quantos povos colocarás o freio.

1- Rio Ganges: que segundo a lenda, nascia no Paraíso. Ainda hoje é sagrado para os hindus.

2- Rio Indo: importante rio da Índia.

«Não disse mais o Rio ilustre e santo,

Mas ambos desparecem num momento.

Acorda Emanuel cum novo espanto

E grande alteração de pensamento.

Estendeu nisto Febo o claro manto

Pelo escuro Hemispério somnolento;

Veio a manhã no céu pintando as cores

De pudibunda rosa e roxas flores.

75o Nada mais disse o ilustre Rio santo,

E ambos desapareceram num momento.

Dom Manuel I acorda com espanto

E com grande aflição no pensamento.

Nisto, Febo (1) estendeu o claro manto

Pelo escuro Mundo ainda sonolento;

A manhã veio pelo céu pintando as cores

De corado róseo e rubras flores.

1- Febo: o outro nome de Apolo, o deus do Sol. O sol.

«Chama o Rei os senhores a conselho

E propõe-lhe as figuras da visão;

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

26

As palavras lhe diz do santo velho,

Que a todos foram grande admiração.

Determinam o náutico aparelho,

Pera que, com sublime coração,

Vá a gente que mandar cortando os mares

A buscar novos climas, novos ares.

76o O rei chama os nobres do Conselho

E lhes relatando a estranha visão

Repete as palavras ditas pelo santo velho,

Fato que causou uma grande admiração,

E, assim, decidem que o náutico aparelho,

Seja preparado e parta para a sublime missão,

E que siga cortando os mares

Em busca de novos climas e novos lugares.

«Eu, que bem mal cuidava que em efeito

Se pusesse o que o peito me pedia,

Que sempre grandes coisas deste jeito,

Pres[s]ago, o coração me prometia,

Não sei por que razão, por que respeito,

Ou por que bom sinal que em mi se via,

Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave

Deste cometimento grande e grave.

77o E eu, que mal imaginava que um efeito

Haveria ao que o peito sempre me pedia,

Pois sempre, proezas e grandes feitos,

O meu ousado coração pressentia;

Não sei por qual razão e de que jeito,

Ou quais virtudes que o nobre Rei via,

Eis que me pôs nas mãos a chave,

Para empreendimento tão grande e grave.

«E com rogo e palavras amorosas,

Que é um mando nos Reis que a mais obriga,

Me disse: - «As cousas árduas e lustrosas

Se alcançam com trabalho e com fadiga;

Faz as pessoas altas e famosas

A vida que se perde e que periga,

Que, quando ao medo infame não se rende,

Então, se menos dura, mais se estende.

78o Com palavras gentis e afetuosas,

Deu a ordem real que a todos obriga.

Disse-me: - As coisas árduas e valorosas

São alcançadas com trabalho e fadiga;

Torna-se uma pessoa elevada e famosa,

Aquela, cuja vida perde ou que periga;

E que ao medo infame não se rende,

E que ao morrer, pela fama, mais se estende (1).

1-Ou seja, morto por tentar uma grande proeza o Homem passa a ser imortal, como, por exemplo, Gandhi.

«Eu vos tenho entre todos escolhido

Pera üa empresa, qual a vós se deve,

Trabalho ilustre, duro e esclarecido,

O que eu sei que por mi vos será leve.»

«Não sofri mais, mas logo: - «Ó Rei subido,

Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,

É tão pouco por vós que mais me pena

Ser esta vida cousa tão pequena.

79o Para tal missão eu o tenho escolhido

Pelos seus méritos, a vós se deve;

Fabio Renato Villela

Será um trabalho afamado, duro e decidido,

Mas eu sei que tu, por mim, o farás parecer leve.

Não agüentei mais e logo respondi: - Ó rei erguido,

Aventurar-me ao ferro, ao fogo e à neve,

É muito pouco, se for por vós e sinto pena

De ser a minha vida uma coisa tão pequena.

«Imaginai tamanhas aventuras

Quais Euristeu a Alcides inventava:

O lião Cleonéu, Harpias duras,

O porco de Erimanto, a Hidra brava,

Decer, enfim, às sombras vãs e escuras

Onde os campos de Dite a Estige lava;

Porque a maior perigo, a mor afronta,

Por vós, ó Rei, o esprito e carne é pronta.»

80o Imaginai as imensas aventuras

Que Euristeu (1) a Alcides (2) ordenava:

O leão Cleonéu (3), as Hárpias duras (4),

O porco de Erimanto (5), a Hidra brava (6),

Descer, por fim, ao Campo das sombras escuras,

Ao reino de Dite (7) que o Estige (8) lava;

Pois a maiores perigos e a maior afronta

Por vós, ó rei, a minha alma está pronta.

1-Euristeu: rei de Micenas, que impôs os Doze Trabalhos a Hércules.

2- Alcides: Hércules, que assim era chamado por ser neto de Alceu.

3 O leão de Cleonéu: referência a um vale da Neméia onde Hércules estrangulou um leão.

4- Hárpias: monstro alado com rosto de mulher e corpo de ave de rapina.

5- Porco de Erimanto: monte na Arcádia, onde vivia um javali monstruoso que Hércules capturou vivo, sendo esse o seu

terceiro trabalho.

6- Hidra: monstro nascido de Tifon e Equidna, cujo veneno estava misturado à água do rio Anigro, na Elida, o que lhe dava

o odor fétido.

7- Dite: o diabo. O reino do Inferno.

8- Estige: lago ou rio do Inferno.

«Com mercês sumptuosas me agardece

E com razões me louva esta vontade;

Que a virtude louvada vive e crece

E o louvor altos casos persuade.

A acompanhar-me logo se oferece,

Obrigado d'amor e d'amizade,

Não menos cobiçoso de honra e fama,

O caro meu irmão Paulo da Gama.

81o Com expressões amistosas me agradece

E vê razões para louvar a minha boa vontade;

E a virtude sendo louvada revive e cresce;

E a enfrentar grandes perigos nos persuade.

Para acompanhar-me logo se oferece,

Por um dever de amor e fraternidade,

E também por desejar a honra e a fama,

O meu querido irmão Paulo da Gama.

«Mais se me ajunta Nicolau Coelho,

De trabalhos mui grande sofredor.

Ambos são de valia e de conselho,

D'experiência em armas e furor.

Já de manceba gente me aparelho,

Em que crece o desejo do valor;

Todos de grande esforço; e assi parece

Quem a tamanhas cousas se oferece.

82o A mim, também, se junta Nicolau Coelho,

Neste trabalho, um grande colaborador,

São ambos de valia e de sábio conselho,

Experientes nas armas e de grande vigor.

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

28

Em seguida, de jovens marujos eu me aparelho,

Nos quais cresce o desejo, o valor

E a grande determinação; e assim aparece

Todos, que a tamanha empreitada se oferece.

«Foram de Emanuel remunerados,

Por que com mais amor se apercebessem,

E com palavras altas animados

Pera quantos trabalhos sucedessem.

Assi foram os Mínias ajuntados,

Pera que o Véu dourado combatessem,

Na fatídica nau, que ousou primeira

Tentar o mar Euxínio, aventureira.

83o Pelo rei Dom Manuel I todos foram agraciados,

Para que com mais ardores se preparassem,

E com palavras sublimes foram animados

Para vencer as dificuldades que encontrassem.

Igual quando os Mínias (1) foram agrupados,

Para que o Velo de Ouro buscassem,

Naquela fatídica nau que ousou ser a primeira

A aventurar-se no mar Euxínio (2), como pioneira.

1- Mínias: os Argonautas, assim chamados por descenderem de Mínias, rei da Tessália.

2- Euxínio: o atual Mar Negro.

«E já no porto da ínclita Ulisseia,

Cum alvoroço nobre e cum desejo

(Onde o licor mistura e branca areia

Co salgado Neptuno o doce Tejo)

As naus prestes estão; e não refreia

Temor nenhum o juvenil despejo,

Porque a gente marítima e a de Marte

Estão pera seguir-me a toda a parte.

84o E então, já no porto da ilustre Ulisséia (1),

Com nobre alvoroço e muito desejo

(Ali onde a água se mistura com a branca areia

E o salgado mar de Netuno com o doce rio Tejo)

As naus já estão prontas; e não refreia

Temor algum o jovem tripulante sobejo.

Marujos e a tropa famosa nas guerras de Marte

Estão prontos para seguir-me por toda parte.

1- Ulisséia: Lisboa, que segundo a tradição teria sido fundada por Ulisses, o lendário herói grego.

«Pelas praias vestidos os soldados

De várias cores vêm e várias artes,

E não menos de esforço aparelhados

Pera buscar do mundo novas partes.

Nas fortes naus os ventos sossegados

Ondeiam os aéreos estandartes;

Elas prometem, vendo os mares largos,

De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.

85o Pelas praias os marujos e os soldados

Vestem cores variadas, tecidas com várias artes;

Mostram-se cheios de esforço e determinados

A descobrirem do mundo, novas partes.

Nas poderosas naus os ventos sossegados,

Balançam os aéreos estandartes.

Nas naus, eles prometem, vendo os mares largos,

Serem estrelas no Olimpo, como a de Argos (1).

1- Argos: constelação no Norte que representava a nau dos Argonautas, daí a alusão de Camões.

«Despois de aparelhados, desta sorte,

Fabio Renato Villela

De quanto tal viagem pede e manda,

Aparelhámos a alma pera a morte,

Que sempre aos nautas ante os olhos anda.

Pera o sumo Poder, que a etérea Corte

Sustenta só co a vista veneranda,

Implorámos favor que nos guiasse

E que nossos começos aspirasse.

86o Depois de preparados desta sorte,

Pois viagem como essa, muito demanda,

Preparamos a alma para a morte,

Que aos olhos do navegante, sempre anda.

Para o Sumo Poder, que a celeste corte

Dirige apenas com a vista veneranda,

Imploramos a Graça e que nos dirigisse

E o inicio de nossa jornada permitisse.

«Partimo-nos assi do santo templo

Que nas praias do mar está assentado,

Que o nome tem da terra, pera exemplo,

Donde Deus foi em carne ao mundo dado.

Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo

Como fui destas praias apartado,

Cheio dentro de dúvida e receio,

Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

87o Assim partimos do santo Templo (1)

Que nas praias do mar está assentado,

E que tem o nome do lugar, como exemplo,

Onde Deus, feito Carne, ao mundo foi dado.

Confesso-te, ó Rei, que se relembro

Como fui dessas praias separado,

Tão cheio de dúvidas e de receio,

Para não chorar aos olhos ponho freio.

1- Templo: igreja no povoado de Belém, nos arredores de Lisboa.

«A gente da cidade, aquele dia,

(Uns por amigos, outros por parentes,

Outros por ver somente) concorria,

Saüdosos na vista e descontentes

E nós, co a virtuosa companhia

De mil Religiosos diligentes,

Em procissão solene, a Deus orando,

Pera os batéis viemos caminhando.

88o A gente da cidade, naquele dia,

(Alguns por serem amigos ou parentes,

E outros apenas para ver) acorria,

Tristes, já saudosos e carentes.

E nós, com a virtuosa companhia

De mil sacerdotes e fiéis diligentes,

Em solene procissão, a Deus orando,

Para os batéis fomos caminhando.

1- Batéis: pequenos barcos que faziam o transporte da praia aos navios.

«Em tão longo caminho e duvidoso

Por perdidos as gentes nos julgavam,

As mulheres cum choro piadoso

Os homens com suspiros que arrancavam.

Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso

Amor mais desconfia, acrecentavam

A desesperação e frio medo

De já nos não tornar a ver tão cedo.

89o Em um caminho tão longo e duvidoso,

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

30

Perdidos, as pessoas já nos julgavam,

As mulheres com um choro copioso,

Os homens com suspiros que escapavam.

Mães, esposas e irmãs cujo temeroso

Amor é o que mais desconfia, acrescentavam

À dor e ao desespero, o frio medo

De não nos ver novamente tão cedo.

«Qual vai dizendo: - «Ó filho, a quem eu tinha

Só pera refrigério e doce emparo

Desta cansada já velhice minha,

Que em choro acabará, penoso e amaro

Porque me deixas, mísera e mesquinha?

Porque de mi te vás, ó filho caro,

A fazer o funéreo enterramento

Onde sejas de pexes mantimento?»

90o Uma mãe ia dizendo: - Ó filho, a quem eu tinha

Como consolo e doce amparo

Para esta cansada velhice minha,

A qual em prantos acabará de modo tão amaro (1),

Por que me deixas miserável e sozinha?

Por que partes para longe de mim, ó filho caro,

Para que ficar sujeito a um horrível sepultamento

Onde dos peixes será um triste alimento?

1- Amaro: amargo.

«Qual em cabelo: - «Ó doce e amado esposo,

Sem quem não quis Amor que viver possa,

Porque is aventurar ao mar airoso

Essa vida que é minha e não é vossa?

Como, por um caminho duvidoso,

Vos esquece a afeição tão doce nossa?

Nosso amor, nosso vão contentamento,

Quereis que com as velas leve o vento?»

91o Outra, despenteada, dizia: - ó doce e amado esposo,

Sem quem, não quer o Amor, que viver eu possa,

Por que vais aventurar no mar furioso

Essa tua vida, que é mais minha do que vossa?

Como pode por um empreendimento duvidoso,

Esquecer uma doce afeição como a nossa?

O nosso amor, o nosso ingênuo contentamento,

Queres que como as velas o leve para longe o vento?

«Nestas e outras palavras que diziam,

De amor e de piadosa humanidade,

Os velhos e os mininos os seguiam,

Em quem menos esforço põe a idade.

Os montes de mais perto respondiam,

Quási movidos de alta piedade;

A branca areia as lágrimas banhavam,

Que em multidão com elas se igualavam.

92o Nestas e noutras palavras que diziam,

De amor e precoce e dolorida saudade,

Os velhos e os meninos as seguiam,

Mas neles a dor era menor em função da idade.

As Serras mais próximas, com ecos, respondiam,

Parecendo que também eram tocadas pela piedade;

A branca areia, as lágrimas banhavam,

E eram tantas que em quantidades se igualavam.

«Nós outros, sem a vista alevantarmos

Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,

Por nos não magoarmos, ou mudarmos

Fabio Renato Villela

Do propósito firme começado,

Determinei de assi nos embarcarmos,

Sem o despedimento costumado,

Que, posto que é de amor usança boa,

A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

93o Nós, sem os olhos levantarmos

Para não ver a mãe ou a esposa naquele estado

E assim não nos magoarmos ou mudarmos

Do firme propósito que tínhamos iniciado,

Com rapidez, determinei, logo embarcamos

Sem as despedidas a que estávamos acostumados,

As quais, ainda que seja uma prática boa,

Para quem parte e para quem fica mais magoa.

«Mas um velho, d'aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

Cum saber só d'experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:

94o Mas um velho, de aspecto venerando,

Que estava na praia, entre toda gente,

Colocando em nós os olhos e balançando

Por três vezes a cabeça, muito descontente,

A rude voz foi um pouco levantando,

E nós, já no mar, ouvimos claramente,

O saber que apenas de experiência é feito,

Nas palavras que ele tirou do sábio peito:

- «Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

Cüa aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas!

95o Ó vaidade de conquistar, ó inútil cobiça,

Destas futilidades a que chamamos Fama!

Ó enganadora satisfação, que se atiça

Com a promessa do que de honra se chama!

Mas que duro castigo e que injustiça

Fazes no coração do ambicioso que muito te ama.

Que suplícios, que perigos, que tormentas,

Quanta aflição, ele experimenta!

«Dura inquietação d'alma e da vida

Fonte de desemparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinas e de impérios!

hamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo dina de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!

96o Tanta angustia na alma e na vida,

Fonte de tantos abandonos e adultérios,

Pérfida consumidora, destruidora reconhecida

De riquezas, reinos e impérios!

Chamam-te de ilustre, de elevada,

Mas na verdade só és digna de insultos e vitupérios;

Chamam-te de Fama e de Glória soberana,

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

32

E é assim que ao povo ignorante se engana!

«A que novos desastres determinas

De levar estes Reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas,

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos e de minas

D'ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

97o A que novos desastres tu intenciona

Levar este reino e esta gente?

A que perigos e a que mortes lhes destinas,

Encobertos por algum nome imponente?

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que dizes, acharão tão facilmente?

Que fama lhes prometerá? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

«Mas, ó tu, geração daquele insano

Cujo pecado e desobediência

Não somente do Reino soberano

Te pôs neste desterro e triste ausência,

Mas inda doutro estado mais que humano,

Da quieta e da simpres inocência,

Idade d'ouro, tanto te privou,

Que na de ferro e d'armas te deitou:

98o Mas, ó tu, descendência daquele insano (1)

Cujo pecado e desobediência

Não apenas do Paraíso soberano

Privou-te, deixando-te nesta triste ausência.

Como do outro estado, sobre-humano,

Da quieta e simples inocência;

Também da “Idade do Ouro” tanto te privou,

Que na de ferro e das armas, para sempre te condenou:

1- Referindo-se à Humanidade, descendente de Adão que perdeu o estado de Anjo e depois o “Paraíso”.

«Já que nesta gostosa vaidade

Tanto enlevas a leve fantasia,

Já que à bruta crueza e feridade

Puseste nome, esforço e valentia,

Já que prezas em tanta quantidade :

O desprezo da vida, que devia

De ser sempre estimada, pois que já

Temeu tanto perdê-la Quem a dá:

99o Já que esta tola imaturidade

Tanto arrebata a doce fantasia,

Já que à bruta crueldade e à ferocidade,

Chamas de “coragem, honra e valentia”,

Já que estimas em tanta quantidade,

O desprezo pela vida, a qual devia

Ser sempre estimada, pois já

Temeu perdê-la Quem (1) a dá:

1- Referência a Jesus que receou a morte na noite anterior a sua crucificação.

«Não tens junto contigo o Ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas?

Não segue ele do Arábio a lei maldita,

Se tu pola de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras e riqueza mais desejas?

Fabio Renato Villela

Não é ele por armas esforçado,

Se queres por vitórias ser louvado?

100o Não tens nas proximidades o Ismaelita,

Com quem sempre terá guerras sobejas?

Não dizes que ele segue o Arábio (1) e sua maldita,

Religião e que só para defender Cristo pelejas?

Que ele não tem mil cidades nem terra infinita,

E não são mais terras e riquezas o que desejas...

Dizes que ele é nas batalhas valente e determinado,

Mas que tu não desejas só vencê-lo para ser glorificado...

1- Arábio: referência a Maomé. Nessa estrofe, para alguns a mais simbólica, Camões expõe os falsos argumentos de quem

vai à busca de mais poder, riqueza e fama, mas usa de subterfúgios para dar à sua cobiça certo propósito digno e louvável.

Como se fosse para uma luta em que não se visa qualquer vantagem pessoal. Para outros, inclusive este escrevinhador, o

bardo aqui tece uma contundente critica à hipocrisia que desde sempre motivou os interesses humanos e que só um gênio

de sua estatura poderia fazê-lo numa época em que pessoas eram queimadas vivas por muito menos. Talvez seja essa a

melhor parte em termos de auto-critica que o Poeta faz em relação à sua própria Pátria.

«Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe;

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a Fama te exalte e te lisonje

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia.

101o Deixa fortalecer-se à tua porta o inimigo,

Enquanto vai buscar outro lá longe.

Com isto irá despovoar o reino antigo,

Tornando-o frágil como um velho monge.

Buscas o incerto e o desconhecido perigo,

Só para que a Fama te celebre e lisonjeie,

Chamando-o de Conquistador, ilusória cornucópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e da Etiópia (1).

1- Etiópia, que na época de Camões correspondia a toda a África.

«Oh, maldito o primeiro que, no mundo,

Nas ondas vela pôs em seco lenho!

Dino da eterna pena do Profundo,

Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!

Nunca juízo algum, alto e profundo,

Nem cítara sonora ou vivo engenho

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória!

102o Oh! Maldito seja quem foi o primeiro no Mundo,

A por no mar as velas e um seco lenho (1)!

É digno de pena eterna no Profundo (2),

Se realmente é justa a crença que eu sigo e tenho!

Tomara que nunca lhe tenham em alto conceito,

E nem lhe dediquem músicas ou outro engenho,

Que lhe dê a fortuna, a fama e a glória,

Que com o corpo se enterre sua triste memória.

1- Seco lenho: os navios.

2- Profundo: o inferno.

«Trouxe o filho de Jápeto do Céu

O fogo que ajuntou ao peito humano,

Fogo que o mundo em armas acendeu,

Em mortes, em desonras (grande engano!).

Quanto milhor nos fora, Prometeu,

E quanto pera o mundo menos dano,

Que a tua estátua ilustre não tivera

Demo – Adaptação de OS LUSÍDADAS ao Português Atual

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Fogo de altos desejos, que a movera!

103o O filho de Japeto (1) trouxe do céu

O fogo que inflamou o coração humano,

E as guerras que em todo o Mundo só rendeu,

Mortes e as desonras (Ó que grande engano!).

Melhor nos teria feito Prometeu,

E menor para o Mundo seria o dano,

Se na estátua do Homem, que trouxestes,

Não houvesse o fogo da cobiça, que roubastes.

1- Filho de Japeto: o deus Prometeu que fez uma estátua de barro criando assim o Homem. Nela, ocultou o fogo (das

paixões) que roubou do Olimpo, por conta do que, foi condenado por Zeus a ser acorrentado num rochedo e ter as suas

entranhas – que sempre renasciam – eternamente devoradas por uma águia. Por fim, foi libertado por Hércules.

«Não cometera o moço miserando

O carro alto do pai, nem o ar vazio

O grande arquitector co filho, dando

Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.

Nenhum cometimento alto e nefando

Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração.

Mísera sorte! Estranha condição!»

104o Se Ícaro (1), não tivesse sido homenageado,

Pela afronta ao Carro Alto do Pai (2) e ao ar vazio,

E se ao grande construtor (3), não fosse dado,

O nome de um mar (4) e ao outro, a fama de um rio,

Nenhum atentado grande e nefando

Por fogo, ferro, água, inércia e frio,

Deixaria tentada a humana criação.

Que sorte miserável! Que terrível maldição (5)!

1- Moço miserando: Ícaro, filho ou sobrinho de Dédalo.

2- Carro Alto do Pai: O sol.

3- Dédalo, grande construtor da mitologia edificou o Labirinto onde vivia o Minotauro. Ao fim da obra, ficou aprisionado

pelo rei Minos que temia que ele contasse ao Mundo sobre o seu filho. Dédalo, então, fez uma asa para si e outra para Ícaro,

que embora fosse advertido que as suas asas eram coladas apenas com cera aproximou-se demasiadamente do Sol que as

derreteu, fazendo-o cair morrer no mar Egeu. Com essa lenda, Camões, alude ao fato de que desde então, movidos por esse

exemplo de imprudência que resultou em fama e glória, o Ser Humano aceita grandes riscos apenas para desfrutar de um

frívolo reconhecimento.

4- O mar Egeu.