terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sobrevivendo com o Câncer Linfático - Capítulos 2 e 3


Sobrevivendo com o Câncer Linfático
(Linfoma de Hodgkin)
2ª Edição - 2012

CAPÍTULO 02
Meu pai foi um “comunista de carteirinha”. Em casa havia sessões de espiritismo e concomitantemente seguíamos os dogmas da igreja católica. Com direito a crisma, batizados, procissões e tudo mais. Cresci entre o racionalismo de Karl Marx, o humanismo religioso e o simbolismo supersticioso do esoterismo. Da junção, então, do racionalismo com o místico formei minha identidade religiosa. Acreditava em Deus, mas sempre o achei muito distante de minha capacidade de compreendê-lo e afastava a tentação de humanizá-lo. Racionalmente eu pensava que Ele estava em uma esfera e eu em outra. Se eu o chamasse Ele não me ouviria e em contrapartida eu não deveria incomodá-lo, posto que Ele já houvesse me dado todas as condições para que eu existisse. Sua tarefa teria se encerrado aí.
Entretanto, nunca me conformei que a vida pudesse estar contida apenas na matéria e, todavia, não me convenciam os apelos religiosos habituais. Não!Eu tinha certeza (ou a petulância) de crer que nasci para dominar o pior dos elementos: eu próprio. Para isso teria que travar uma luta diária contra as facilidades do comodismo, da subserviência, da falsa humildade e do gosto pelas coisas que julgava corriqueiras e que fazem à alegria da maioria.
Teria que ser o “Super Homem” que Nietzsche propôs um dia. Ao ler, pela primeira vez, “Assim falava Zaratustra” encontrei o meu modelo. A força da vontade imperando contra o obscurantismo da mediocridade humana. A apropriação do destino.
Busquei viver essa teoria e exigia de mim um detalhismo tão perfeccionista quanto pernóstico. Não podia admitir a fraqueza, o interesse tacanho e principalmente a servilidade. Valores abstratos e talvez ultrapassados, tais como a vergonha de falhar, de fraquejar, foram objetos de culto em toda a minha vida. Agora, no entanto, posso ver que essa soberba, muito menos que pelo niilismo, foi originada pelo excesso de situações humilhantes que já houvera passado na vida.
Jurei que tão logo pudesse, não seria mais ofendido. E assim que pude, coloquei meu recalque em evidência e me recusava a pedir. A herdar. Odiava ter que solicitar favores. Vacilava até mesmo em exigir direitos. Eu deveria pairar acima dos comuns! E vivi essa fantasia até o fatídico “02 de abril”.
Falido financeiramente, em vias de perder meu filho e sob a ameaça de ter câncer, a quem recorrer? Nietzsche que me desculpasse, mas Deus era mais reconfortante. Primeiro, fui tomar “passes” em um “Centro Espírita”. Reconhecia a boa vontade de quem me levou e de quem os ministrou. Porém, o que eu queria era algo mais íntimo. Sem intermediários. Na igreja católica escolhia o horário em que estivesse mais vazia e me postava por longas horas. Buscava me lembrar das orações que havia aprendido na infância e tentava recitá-las, mas o formalismo dos versos prontos ainda impedia o contacto que eu queria, até que em certo dia, uma moça sentou-se ao meu lado e sem nada falar me sorriu. Trazia consigo um despojamento que me encorajou a tirar a fantasia de “Super Homem” e consegui chorar. Nunca mais a vi depois desse dia, pois certamente ela voltou para a sua outra vida.
Daí em diante o diálogo com Ele ficou muito mais fácil. Sem que eu lhe pedisse, Ele ofereceu o que eu mais buscava. Guardei com carinho a serenidade ofertada e me preparei para enfrentar o que estivesse por vir.
Ainda não era íntimo de Mr. Hodgkin, mas compreendi o motivo de sua visita quando entendi que ele me devolveu à condição de humano e o direito de fraquejar. Que fosse, então, bem-vindo!

CAPÍTULO 03
Até meados de maio acrescentei à minha rotina diária uma novidade. Mais que um lugar, um hábito. Deixava meu filho no colégio, minha ex-mulher no consultório e rumava para a igreja. Quase sempre das 7h às 9h ficava refletindo, dando asas à imaginação e tentando entender o porquê de toda aquela situação estar acontecendo comigo.
Afora minha prepotência, minha vaidade, meu retraimento e tantos outros defeitos, julgava não ser merecedor daquela situação. Sempre trabalhei muito e honestamente, nunca me envolvi em fatos duvidosos, ajudava a todos sempre que possível e necessário e tinha, sim, até algumas qualidades. Os erros que cometi foram por ter tentado e nunca por omissão e eu sentia que a vida tinha me traído.
 Tanta miséria eu já tinha passado, tantas dificuldades e agora mais essa. Por quê? 
Da igreja seguia para a loja e para novamente me frustrar com o resultado do dia anterior, fazer e refazer mil contas e ver que o dinheiro disponível era insuficiente para as necessidades. Todos os dias a mesma rotina. A mesma aflição.
Em 15 de maio – aliás, uma data que eu sempre associara a algum evento perdido em minha memória – estive no consultório da hematologista. O tempo que tive que aguardar para conseguir essa consulta e a quantidade de pessoas na sala de espera já sugeria a sua fama. Durante a consulta a sua objetividade e gentileza me fascinaram. Alguns dias depois seriam a sua honestidade e o desprendimento.
Procedendo ao exame clínico, constatou os gânglios enfartados e indicou a necessidade de biópsia. Chamou seu marido, cujo consultório é vizinho ao seu e juntos demarcaram o local a ser operado. Acertamos a operação para a terça-feira seguinte, em regime ambulatorial e sem anestesia geral. Disse-me, ainda, ser inútil declinar algum prognóstico antes da biopsia, mas que estaria torcendo por um bom resultado.
Novamente os problemas de acne que tive no passado me ajudaram a não temer o procedimento, pois uma incisão como aquela seria igual a tantas outras que eu já fizera. O final de semana repetiu os últimos e novamente busquei o isolamento quase total. Sem sucesso, é verdade. Aproveitava as folgas que as brincadeiras de meu filho me permitiam ou, então, os intervalos das visitas de amigos para remoer minhas dúvidas, aflições e ressentimentos.
Mas também para começar a encarar a morte. O condicionamento da educação e da natureza previa a vida, mas as dificuldades e mágoas de agora começavam a sutilmente sugerir que talvez aquela fosse uma saída. Diriam os puritanos, uma fuga. Que fosse!
Ainda que não assumisse, já sentia certo prazer com a pior hipótese. A traição, que eu julgava a vida estar me aprontando, resultava nessa indiferença pela mesma. Já não era importante viver.
Na segunda-feira fui contatado pela secretária da médica avisando-me de uma mudança nos planos. Eu deveria me internar naquela noite e seria operado na manhã seguinte com anestesia geral. Segundo ela, para efeito de maior conforto. Apenas por isso (sic).
Durante o dia vendi o único bem que me restara e com o carro se foi a minha mobilidade e a perspectiva de voltar logo a viajar para atender os meus clientes. Com o produto da venda paguei os vencimentos mais urgentes e à noite me internei. Na manhã do dia seguinte, antes de adormecer completamente por efeito da anestesia ainda vi, de relance, o rosto do anestesista com quem eu tivera oportunidade de conviver nas festas nos bons tempos.
Por volta das 15h00 acordei muito bem disposto. O incômodo do soro e uma leve dor no corte não conseguiam fazer frente ao benefício do sono. Após vários dias eu tinha conseguido uma trégua. Eu tinha dormido!
Senti fome, vontade de levantar, de viver. Fui contente, na cadeira de rodas, até o setor de radiologia para ser submetido a uma ultrassonografia do abdômen, a qual, segundo o médico, indicava uma lesão no fígado, mas que poderia ser apenas um sinal de nascença. No laudo, entretanto aventou a hipótese de ser um hemangioma ou um “TU hepático”.
Naquela noite dormi novamente e no dia seguinte recebi alta e, novamente, uma resposta vaga do médico: Todos nós, Sr. Fábio, estamos torcendo para não ser câncer. O fato é que eu não morrera e como o corte estava cicatrizando tão bem era evidente que eu não tinha nada maligno (novamente usava uma teoria que havia lido não sei onde) e acreditei que ele poderia ter razão em sua confiança.
A falta do carro começou a prejudicar a vida da família, pois morávamos em uma casa distante de tudo e tínhamos que vencer um longo caminho andando. Além de dinheiro, começou também a faltar tempo. Fui a uma concessionária, fizemos um novo financiamento e só não compramos o novo carro por resistência de minha ex-mulher. Não entendi o motivo dessa resistência, em vista da necessidade que estávamos passando e da, ainda, possibilidade de pagar as prestações. Mais tarde iria compreendê-la.
Os dias passando e cada vez mais a tensão crescendo. O dinheiro da venda do carro não foi o bastante para suavizar as contas, as vendas em declínio e o ambiente em casa se deteriorando. Eu próprio estava deteriorando. Foram momentos de tanto pavor, ressentimento e mágoas que passei a encarar a morte como uma desejada amante. Tudo o que eu escutava, o que eu pensava e o que tinha visto indicavam que eu me tornara apenas “O INCÔMODO”.
Via a vida em sua pior feição e não mais a queria. Estava cansado. Muito cansado.
O câncer teria vindo a calhar. Seria o suicídio perfeito. Com álibi e sem culpa. Ali estava a desculpa para os meus fracassos. Todos veriam que não consegui ganhar bastante dinheiro, porque quando iria começar, a maldita doença interrompeu esta fase. O meu verdadeiro potencial nunca poderia ser conhecido. Todas as responsabilidades cessariam. Tudo seria perdoado. Não sei se Freud explicaria. Contudo, o vírus me justificaria.
Assim, no dia 27 voltei à hematologista em busca do resultado da biópsia quase ansiando para que fosse positivo. – Ainda não chegou Sr. Fabio. Deve estar no laboratório, no andar de baixo.
Desci dois andares e a recepcionista me pediu para aguardar, ao contrário dos demais pacientes para quem ela entregava os envelopes. Após alguns minutos fui convidado a entrar na sala do médico responsável. O convite me significou, de imediato, que algo de anormal havia e a desarrumação do ambiente – na verdade um laboratório com uma mesa e uma cadeira – indicava que esses convites eram raros, o que reforçava minha suposição.
O patologista me pareceu inseguro, quase amedrontado. Tanto quanto a outra médica presente. Alegou que o resultado não estava pronto em vista da dificuldade de fechar o diagnóstico e me pediu que voltasse no dia seguinte. A singularidade da situação me deu a certeza: deve ser câncer.
Voltei conforme o combinado e imediatamente fui conduzido à sua sala. Fez-me sentar e teve que permanecer em pé. Mais por nervosismo que pelo fato de haver apenas uma cadeira. Seu constrangimento (?) superava o do dia anterior. Parecia temer comunicar a doença e ter que se deparar com uma reação passional de minha parte. Citou três hipóteses para o meu mal e os nomes científicos que mencionou pouco me esclareceram. Perguntei então qual das três seria câncer e ele me respondeu que todas. Sugeriu outro exame, a ser feito na Universidade de Botucatu, para determinar com precisão qual das hipóteses seria a verdadeira. Ante meu consentimento, fez rapidamente o pedido para o convênio médico e fui buscar a autorização. Devia aparentar tensão no rosto, o que derrubou qualquer barreira burocrática que pudesse existir ali.
Na volta para seu laboratório comecei a sentir o irrealismo que o câncer causa. O patologista já estava menos tenso, pois viu que os arroubos emocionais não combinavam com o meu estilo e já então se permitiu sentar na beirada da mesa. Depois, rimos nervosamente quando ele me sugeriu que enquanto demorasse o novo resultado eu trabalhasse e vivesse normalmente. Ou então que eu não precisaria me preocupar, pois o caso não era sério (sic). Eu deveria ter sido acalmado e não acalmá-lo. Cômico, para não ser trágico.
Do seu laboratório voltei para o consultório da hematologista, que não estava. Fui atendido por seu marido e ouvi seus bons prognósticos para a doença e o pedido para que regressasse na segunda feira seguinte para consultar e esclarecer as dúvidas com a sua mulher.
Do consultório fui para o Clube, onde me encontraria com minha ex-mulher e com sua irmã para tratarmos da separação. Durante a caminhada repetia silenciosamente e de modo tão contínuo “estou com câncer” que parecia recitar um mantra indiano. Os carros, as ruas, as pessoas e até a própria caminhada não existiam fisicamente. Apenas me rodeavam.
Já no Clube e pelo alambrado do campo de futebol avistei o meu filho que no auge de seus onze anos jogava futebol com os amigos. Por muito tempo fiquei admirando-o. Como estava ficando alto... Como era bonito!
O impacto do diagnóstico me confundia, mas uma serena resignação se contrapunha. Sabia que a doença é grave, que o otimismo dos médicos poderia ser uma mera gentileza ou talvez a tentativa de evitar um escândalo de minha parte, que o tratamento seria terrível e tudo o mais que cerca a situação. Mesmo assim o entorpecimento persistia. Ou melhor, durou até que eu visse o menino.
Meu Deus, o meu menino! Senti o mesmo cheiro que ele tinha quando era bebê e só dormia em meu colo. Revi-o aos dois ou três anos uniformizado como um jogador da seleção (era tão magrinho e tinha um chute tão forte que o orgulho que eu sentia nessas ocasiões eliminava o cansaço das madrugadas de futebol). Ouvi novamente as suas perguntas sobre “moral e cívica”. Assinei de novo o seu primeiro boletim da escola e fiz todos os carinhos “arrepiantes, né, pai?” que o cansaço por vezes me impediu.
Pai... Era possível que ele deixasse de ter. Senti tristeza e a primeira dor do câncer.
Prever que ele seria obrigado a viver com quem não queria, a conviver com a mediocridade, talvez sofrer agressões de um eventual padrasto, ter a sua grandeza tolhida e tantas outras questões me fizeram sentir a segunda. A Morte que até há pouco me fora tão atraente, perdeu o encanto.
A reunião no Clube que serviria para acertamos os detalhes do divórcio acabou sendo esvaziada. Algumas horas antes, enquanto aguardava ser atendido pelo médico, eu mentira por telefone para minha mulher ao lhe responder sobre o resultado da biópsia. Compartilhando o mesmo sofá com mais quatro pessoas, achei ruim falar em alta voz que estava com câncer. Agora, e após ter recebido um abraço e as felicitações de minha cunhada, constrangidamente tive que contar a verdade. Entretanto, ambas já sabiam o resultado, pois enquanto eu estava sendo operado para a biópsia, a hematologista já lhes confidenciara o resultado. A confirmação foi encarada com serenidade pelas duas.
A doença existia de fato, mas a vida precisava continuar e passamos a discutir a nossa separação, mesmo sem definirmos com clareza as datas. Para ela o divorcio seria oportuno, tanto por questões econômicas, no sentido de que minha falência deixaria de atingi-la, quanto por questões pessoais.
Também eu me interessava pelo rompimento no sentido de me livrar da culpa de ter atingido o seu patrimônio e pelo fato de a doença ser uma ameaça constante. Conforme já me referi anteriormente, as eventuais deformidades, dores e outras complicações me assustavam. Que eu as tivesse longe dos olhos de meu filho.
Contudo, segundo ela, seria desumano me abandonar naquele estado. Eu já tinha descoberto que me tornara um “incômodo” e, agora, que necessitaria de piedade.
O que de mim restou foi despido da fantasia, das ilusões, dos ideais. Da alegria. Restei tão nu quanto nua ficou a vida. Crua e, talvez, breve.
De chofre, tomei consciência da inutilidade daquilo tudo que antes me fora tão caro. E que ainda era para os outros. Foi como descer de um carrossel e passar a apenas observá-lo de longe. Da vida normal já não participaria mais. Tão somente coexistiria ao seu lado.
A chegada do amigo Orlando, que tanto sabia do divórcio quanto da doença, e para quem comuniquei o resultado da biópsia quando me telefonou no Clube cortou o estupor que sentia e tentei não demonstrar a confusão que sentia. Ouvir e fingir que acreditava na argumentação (podemos morrer antes que você; o que para eles era uma hipótese, para mim se tornara um fato) sobre os “avanços da medicina”, as curas milagrosas, as ervas miraculosas e todo o restante do arsenal, foi uma tarefa complicada.
 O mantra indiano “eu estou com câncer” insistia em martelar minha mente enquanto rodopiava o pavor de perder o meu filho. Escutei e fingi acreditar apenas e somente por educação. Pude ver, então, o quão forte é o nosso condicionamento. Meu formalismo ainda estava intacto.
A insônia daquela sexta feira foi diferente das anteriores. Os fantasmas da falência, da miséria e da falta de perspectivas continuaram a povoar cada segundo, mas agora vinham acompanhados daqueles relativos ao medo do tratamento, das dores e das deformidades. Eram tão reais que quase podia tocá-los. Pensei em dar nomes a cada um, afinal já convivia com os primeiros há tanto tempo que me sentia íntimo dos mesmos. Certamente o mesmo aconteceria com os segundos. O fato, contudo, é que essa insônia inaugurou uma série que perdura até hoje.
Sábado foi o dia de contar aos funcionários, vizinhos da loja e amigos o resultado. A decisão de contar foi tomada para evitar que o eventual agravamento das minhas condições de saúde e a agudização da crise financeira não lhes causasse surpresas. Também serviria para minorar a minha culpa em relação à segunda.
- Sim, eu tenho câncer!
À incredulidade de suas feições somava-se um mal disfarçado sentimento de pena, alguns de repulsa (há quem considere contagioso) e a catilinária habitual sobre “os avanços da ciência”, “o poder da fé...” etc.
 Domingo foi o dia de deixar minha cunhada colocar um “composto fitoterápico milagroso” e reviver os fantasmas, os quais, como amigos íntimos que eram já não se contentavam em vir com hora marcada.
O isolamento a que me submeti era apenas o reflexo da solidão que sentia. Da imensa solidão que o desconhecido e a anormalidade nos impõem. Como conviver com quem não estava fadado a morrer? Como explicar a angústia, o medo?
Na manhã de segunda-feira fui ao consultório da hematologista. Enquanto aguardava, minha ex-mulher juntou-se a mim contra a minha vontade. Aquele momento deveria ser apenas meu. O casamento, a cumplicidade já não existia mais, então porque reparti-lo? Ora... Fiquei alegre quando ela respondeu com alguma rispidez à minha mulher que lhe indagara sobre leituras sobre o tema: “para leigos, não!” Senti-me vingado. Bem feito, quem mandou se intrometer onde não devia?
Fui chamado e encontrei uma médica sorridente, amável. Senti confiança. Antes de ser atendido, listara mentalmente as perguntas que faria. Como seria o desenrolar da doença? Quando começariam as dores? E as deformações? E, principalmente, quando eu morreria?
Queria um parâmetro. Uma previsão. Programar-me para o evento. Entretanto, tão logo começamos a conversar, sufoquei as perguntas. Imaginei que seria mal educado tomar-lhe tempo. Ainda o formalismo. O respeito quase medieval àquela que tinha o poder sobre a vida e a morte. Nada perguntei, apenas ouvi o seu prognóstico... O tratamento reduziria o tumor até extingui-lo. Não poderia prever o tempo de sobrevida. Citou o exemplo de sua primeira paciente na cidade que já completara cinco anos. Que o tratamento era, de fato, severo. Que não era contagioso e nem hereditário, etc... E falou que havia tomado à liberdade de fazer o meu encaminhamento para a Unicamp. Conhecia casos em que o paciente abandonava o tratamento em função das dificuldades locais, e então solicitara a terapêutica naquela Universidade.
Adorei a sua iniciativa, pois ao saber que estava com câncer eu já havia decidido fazer o tratamento naquela Universidade, pois conhecia a excelência de seus resultados e, agora, aquele encaminhamento me livraria de qualquer restrição que pudesse haver.
Aquele desprendimento, aquela grandeza me emocionou. A imagem eu que fazia dos médicos em geral era a mesma que a maioria da população faz: mercenários. Já tinha visto tantos erros, tanta incompetência, tanta ganância, tanta insensibilidade que era difícil mudar esse conceito. Na verdade, eu culpava muito mais a banalização da profissão, por conta da disseminação dos cursos, que os indivíduos em si. Quando era criança a figura do médico carregava uma aura de sacerdócio. Conheciam todas as nossas doenças e as curavam. Inexistia o aperfeiçoamento tão detalhado como agora. Era mais simples. Sem a batelada atual dos exames pedidos e as seguidas idas e vindas. Consultório, remédios e cura. Ou morte.
E mesmo assim, com resultados mais pobres que os atuais, o médico era quase um semideus. Talvez, também, a pouca concorrência e, conseqüentes ganhos maiores evitavam que demonstrasse tanta ganância. Infelizmente, o que não ocorre hoje.
Ou, ocorre? Antes a dermatologista e, agora, a hematologista tinha acabado de provar que sim! Poderiam ter chamado o meu tratamento a si e ter obtido rendimentos com ele. No entanto, preferiram serem fiéis à nobreza de sua profissão.
Na tarde desse dia, encontrei o amigo Orlando na porta de um banco e aproveitei uma carona para ir a uma agencia da Previdência Social, onde há muito tempo atrás eu tinha feito um seguro que nunca tinha usado. Fui verificar se tinha direito a algum tipo de pecúlio, pois, embora tivesse contribuído durante 33 anos seguidos, havia quase dois que eu não recolhia a contribuição. Enquanto aguardávamos o atendimento, o meu celular tocou e recebi uma encomenda de um cliente de Poços de Caldas. Era um conjunto de embalagens que restara e estava em casa. O pedido coincidia com o estoque, tanto em formato quanto em quantidade, de forma tão precisa que ficou difícil acreditar em mera coincidência. Essa venda poderia me dar uma sobrevida financeira para alguns dias e comemorei a entrada do dinheiro como se tivesse ganhado na loteria. Até as minhas ilusões estavam diminuindo.
Naquela tarde o atendimento na Previdência não foi possível e foi remarcado para a manhã seguinte. Se a amabilidade da primeira pessoa foi ofuscada pelo seu embaraço, a moça, no dia seguinte, foi de uma sensibilidade, competência e amabilidade que me deixaram atônito e tal qual havia acontecido com a classe dos médicos, outra má imagem que eu tinha, começou a ruir.
Sim, eu ainda tinha direito a receber um auxílio mensal. Fez os papéis e me encaminhou para a médica perita que comprovou a moléstia e me cobriu de gentilezas e votos de boa sorte. Ante a minha pergunta sobre a gravidade do quadro me disse para “confiar em Deus”. Pouco científico, é verdade, mas cheia de sensibilidade.
Bem diferente, aliás, do ocorrido com outra Seguradora na qual eu mantinha outro seguro e que em face da solicitação de pagamento negou-se peremptoriamente, alegando pré-existência da doença (de fato, para nós, leigos, é muito fácil diagnosticar esse tipo de doença...).
No dia seguinte fui para Poços de Caldas levar a encomenda junto com o meu amigo Edison (com i, por favor). Era bom rever a minha cidade natal. Fizemos à entrega, os passeios habituais e ainda pude, para inveja do amigo que estava dirigindo, saborear uma cachaça de lei. Tudo tão gostoso. Tão bom. Pena que o cansaço extremo que sentia não me deixasse esquecer que tinha câncer.
No dia 20 de maio voltei ao prédio onde fica o consultório da hematologista. Mas, dessa vez, fui com minha ex-mulher visitar outra “doutora”, em outro escritório. O de uma advogada que conhecíamos e que é mãe de um amigo de meu filho. Fomos tratar das formalidades do divórcio.
Pela primeira vez em minha vida tive que confessar os meus fracassos a terceiros. Sentia tanta vergonha que concordava automaticamente com todas as suas propostas de divisão de bens (como se houvesse), pensão alimentícia, visitas ao filho, etc. Eu só pensava em conseguir sair dali o mais rápido possível. A proposta do divórcio, aliás, era absurdamente estranha. Estávamos casados há doze anos e mais os quatro de namoro e noivado. Durante todo esse tempo nunca houve qualquer tipo de desentendimento, brigas ou simples discussões. Sempre nos demos bem e, em outras ocasiões, tínhamos até mesmo sido feliz.
Mas, como eu já disse, a crise financeira foi minando o convívio e a hospedagem de minha mãe foi uma agravante importante e, assim, acabei ficando entre o dilema de abandonar a mãe ou a mulher; e como essa última era plena de condições de sobrevivência e eu agora só estaria atrapalhando a sua vida, a escolha recaiu sobre o elo mais frágil.
Demasiado humano, diria Nietzsche. Seria verdade, se tivesse sido possível. Mas naquele momento nem isso eu pude fazer.
Quando descemos do prédio os termos da advogada ainda nos soavam estranhos. Era como se tivessem sido dirigidos a outras pessoas. Estaríamos apenas observando. Nunca, creio que posso falar também por minha ex-mulher, nos imagináramos naquela situação. Agora não a aceitávamos.
No dia trinta, a falta de dinheiro tinha chegado ao limite extremo. No café da manhã, em companhia de meu filho, liguei para a Previdência para saber do andamento do meu processo e fui agradavelmente surpreendido pela informação de que estava pronto e o dinheiro estaria disponível no dia seguinte. A escuridão me pareceu, então, menos intensa. Junto com o medo da miséria total, o impacto do divórcio foi sendo dissolvido.


Digitado por Taisinha, Primavera em Goias Velho.