terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sobrevivendo com o Câncer Linfático - Capítulo I e Apresentação


Sobrevivendo com o Câncer Linfático
(Linfoma de Hodgkin)
2ª Edição - 2012


Dedicado ao amigo Edison Garcia, que foi o meu anjo da guarda em todo o processo.
Dedicado às queridas Lucia Agulhari e
Maísa Mota.

Agradecimentos sinceros e muito carinho aos amigos Amaury, Marlene, Neide, Geraldo e tantos outros.

Sincera gratidão à Dra. Ana Amélia Pulz a aos Médicos (as), Residentes, Enfermeiros (as) e a todos os outros profissionais da Unicamp.


Para Joana Vice Villela
                    e
Para Thyago M. Villela, meu motivo.

                                                             Ficha Técnica da 1ª Edição.
Coordenação: Marlene Dal Pietro
Texto: Fábio Renato Villela
Revisão do Texto: Mara Figueiredo
Direção de Arte: Edison A. Garcia
Computação Gráfica e Tratamento de Imagem:
Edison A. Garcia Filho
Serviços Gráficos:
Reflexo Fotolito Ltda.
www.reflexofotolito.com.br
Tel.: 11 - 279 8044
Instituto de Difusão Espírita www.ide.org.br Tel.: 0xx19 - 541 0077

                                                           Ficha Técnica da 2ª Edição
Revisão Gramatical – Tereza Manuela Arcângelo
Diagramação – Equipe “Nada Ltda.” – RJ.
Divulgação – Taís Albuquerque
Processamento – Clube de Autores e Agbook.

                                                       Notas a ambas as Edições

Não viso lucro financeiro com essa obra e por isso optei por receber como “Direitos Autorais” um valor meramente simbólico para que o preço final ficasse o menor possível. Assim, solicito aos que puderem que façam uma contribuição às Entidades de Apoio ao Paciente Oncológico, escolhendo aquela que melhor lhes parecer.

Esse material pode ser reproduzido livremente, sem qualquer ônus, desde que citada à fonte.

Contatos com o autor poderão ser feitos através dos canais abaixo:

E-mail – villela.fabiorenato@gmail.com


(Blog oficial com o Portfólio de minhas obras, prêmios, citações e outros dados relativos à minha carreira).


(Blog em que posto poesias, artigos, crônicas, ensaios etc.).

Caro (a) leitor (a)
Desde a primeira infância que enfrento o Câncer. Aos quatro ou cinco anos tive um tumor na omoplata direita que exigiu uma cirurgia para extirpá-lo e que me acarretou perda de massa muscular e desvio de postura. Consequências pequenas, pois em contrapartida consegui viver normalmente até abril de 1999, quando uma recidiva severa me acometeu.
O Câncer é uma doença terrível e de difícil convivência, tanto para o paciente quanto para aqueles que convivem com o mesmo. Somam-se angústias, dores, solidão e medo; e a esse conjunto cruel acrescenta-se a desinformação.
É quase inútil buscar informações com os médicos, pois na maioria dos casos o próprio linguajar dos mesmos é incompreensível e sempre resta aos pacientes ou familiares à dúvida se o (a) médico (a) não estaria “escondendo alguma coisa”.
Também é difícil conversar com aqueles que não sofrem da doença, pois a mesma envolve tantos aspectos (alguns até positivos) que não se pode explicar e tampouco compreender com a facilidade desejada a rotina que a enfermidade impõe.
Por isso decidi escrever a minha história de maneira bem realista, sem falsa pieguice, mas dando ênfase na esperança, que é a única a ponte que nos liga ao futuro.
Tomara que os enfermos possam se enxergar nessas linhas e saber que os horrores que enfrentam não lhes são exclusivos. Que milhões os compartilham e podem entender toda a angústia que o sofrimento lhes causa.
E que os familiares e acompanhantes possam melhor compreender as agruras de quem convive com uma morte que deixou de ser apenas uma possibilidade, para se tornar uma ameaça muito próxima. Que possam entender as inquietações, as tristezas, os desânimos e, com isso, prestar a ajuda que nos é tão necessária.
Assim, espero que a leitura dessa modesta obra possa ser útil e do agrado de todos.

São Paulo, 10 de Outubro de 2012.

 CAPÍTULO 01
Em dois de abril de 1.999, por volta das 10 horas estava em Campinas, SP, a negócios. Tinha, nessa ocasião, um pequeno comércio e revendia a um grupo de clientes já contumazes, artigos para suas lojas e bazares.
O desencontro com um deles me proporcionou o tempo necessário para fazer uma visita às sobrinhas cuja boutique ficava nas proximidades. Eram quase uma rotina essas visitas, pois fomos criados juntos e as considero como irmãs ou como filhas.
Ao ritual bem humorado de nossos encontros, naquele, entretanto, juntou-se a observação de uma delas sobre o inchaço em meu pescoço. De fato, há cerca de uns dez dias o local se apresentava inchado e avermelhado. Nada, todavia, que pudesse me preocupar, pois certamente seria apenas o reflexo de um gânglio sebáceo que havia irrompido e supurado há alguns dias deixando aquela sequela.
Essas erupções cutâneas me atormentavam desde a pré-adolescência e eu já estava acostumado à rotina de inchaços, dores e febres que causavam.
Verdade que essa inflamação ocorreu depois de quase um ano da penúltima e me pegou de surpresa, já que após ter feito um tratamento com uma dermatologista de minha cidade, julguei que estivesse livre do problema. Tratamento, aliás, que me causou um grande, mas esperado, aumento na taxa de Colesterol e uma enorme, e inesperada, perda de peso, a qual chegou a me preocupar.
Foi também mais dolorosa que a de costume (talvez pela falta da habitualidade anterior, supus) e chegou a me impedir de trabalhar por alguns dias.
Contudo, naquele dia, não sentindo qualquer outro sintoma, (febre intermitente, fadiga e indisposição), ou melhor, sentindo-os e os debitando erroneamente ao problema anterior da acne, não dei tanta importância ao fato. Trabalhei normalmente o restante do dia e ao voltar para casa comentei, de passagem, com minha ex-mulher sobre a visita e o inchaço observado.
Também ela estava acostumada a esses inconvenientes e tanto como eu, nada notara antes. Porém, uma observação mais atenta e, tendo em vista que a supuração tinha ocorrido há aproximadamente quinze dias ficou estranha à permanência do edema. Mais estranho ainda era um tumor que coroava o inchaço, embora também pudesse ser uma “segunda loja” que havia remanescido conforme já houvera precedentes.
De qualquer forma, aquele inchaço deixou de ser notado naquela noite. Como de hábito, antes do jantar tomei meu uísque rotineiro, comentei com o amigo Orlando que viera nos visitar sobre as dificuldades que o comércio estava enfrentando, curiosidades das minhas viagens diárias em busca de clientes e outros assuntos banais. Tinha coisas mais sérias com que me preocupar. Dinheiro, principalmente.
Em julho de 1.997, após estarmos morando há três anos em Araras, SP, e julgando ser o momento adequado pedi demissão de meu emprego e realizei um sonho antigo: montar meu próprio negócio. Iniciei revendendo apenas para lojistas produtos e/ou embalagens específicas para os seus comércios.
Porém, com a explosão de consumo ocorrida no Plano Real e o sucesso que as lojas de preço único (R$ 1,99) faziam (disso era testemunha, pois eram os meus principais clientes) decidi aproveitar o ponto onde estava estabelecido para também inaugurar a minha.
Abri o varejo em 1.998 e até o final daquele ano o aquecimento econômico garantiu um bom movimento. Todavia, já em janeiro de 1.999, a retração era visível e tanto no varejo quanto no atacado as vendas despencaram. Na mesma proporção, mas em sentido inverso, as dividas se acumularam. Em decorrência dessa situação complicada, eu passei a enfrentar sérios problemas no casamento, tanto advindos da crise nas finanças quanto do fato de minha mãe estar morando conosco.
Minha mãe, de fato, é uma pessoa difícil, contudo eu não poderia simplesmente abandoná-la e em face das dificuldades, nem poderia alugar um apartamento para instalá-la. A situação chegou a um ponto tão extremo que no dia primeiro de janeiro daquele ano cheguei a propor à minha ex-mulher a nossa separação. Algo que nunca havia imaginado, aliás, pois sempre nos déramos bem e a eventual separação de meu filho era algo em que eu não podia nem pensar.
Contudo, esse conjunto de problemas vinha, há alguns meses, roubando meu sono e a insônia multiplicava a angústia. Nunca havia passado por situação como aquela, pois embora desde menino estivesse acostumado à miséria e às dificuldades, não tinha que me preocupar com outras pessoas.
Agora não. O fantasma da falência, de imaginar o meu filho passando o que eu já passara; a vergonha que sentia de minha ex-mulher por ter lhe ocasionado esses problemas e de minha mãe por não poder lhe dar um teto; o medo que a desarmonia entre ambas redundasse em uma deflagração aberta - conforme eu vivera na infância e sabia o que representaria para o meu filho - e o constrangimento que sentia de mim mesmo por ter falhado já eram angústias suficientes para que eu acrescentasse uma nova. Por que então me preocupar com aquele sintoma que já me era conhecido?
Ledo engano! Sem eu saber e ainda desconhecido, Mr. Hodgkin já havia entrado em minha vida.
O ilustre desconhecido foi um cientista que em 1.832 descreveu pela primeira vez um grupo de casos daquela enfermidade, a qual, em 1.865 foi batizada com seu nome “Doença de Hodgkin” e que segundo o Aurélio em sua página 605 (segunda edição) significa:
 “Doença maligna dos nodos linfáticos e tecido linfático extra nodal, que se manifesta com o aumento indolor e progressivo dos nodos linfáticos, o qual, muitas vezes, se inicia no pescoço e também com o aumento de baço e doutras formações linfoides. Sinônimo de linfogranuloma maligno, linfogranulomatose”.
SIM, EU ERA PORTADOR DE CÂNCER LINFÁTICO!
Dois dias depois, que se passaram sem que eu voltasse a atentar para o edema, levei meu filho à dermatologista para extrair umas pequenas verrugas. Coisa rotineira em crianças de sua idade (10 anos), segundo a própria. Era a mesma médica que anteriormente havia tratado de minhas acnes. E desse contacto restou um relacionamento muito amistoso entre nós. Também ela tinha vindo de São Paulo e também sentia as mesmas dificuldades para adaptar-se aos modos peculiares de uma cidade pequena como Araras. Além disso, a sua competência nos tornou clientes fiéis e a relação de toda minha família com a mesma superou em muito o simples contacto médico/paciente.
Provavelmente foi essa a razão para que ela esquecesse as verrugas do garoto e dirigisse toda atenção ao meu pescoço. A urgência que demonstrou ao encaminhar-me ao otorrinolaringologista, ainda que eu a tivesse avisado da infecção anterior do gânglio sebáceo acendeu o meu sistema de alerta. Ainda sem imaginar o quanto, pressentia que o problema poderia, sim, ser mais grave.
Talvez uma infecção de garganta? Irritação pelo cigarro? Há tempos pensava em abandonar o vício e me arrependi de não ter conseguido. Agora eu alegava que não o fazia em decorrência da crise que estava atravessando e antes eu usara a tola justificativa de que “bobagem, o cigarro não faz mal” e todas as outras que usamos para acobertar a nossa falta de vontade.
Saindo de seu consultório, fomos ao do otorrino. Também ele é um profissional conhecido, tanto por cuidar de meu filho quanto pelo relacionamento profissional com minha ex-mulher que é fonoaudióloga. Esse conhecimento facilitou o encaixe em sua agenda e no final do expediente fui atendido. Antes, porém, tive a precaução de deixar o filho na sala de espera, pois temia que um eventual mau prognóstico fosse ouvido por ele.
A eventualidade de ser Câncer já perpassava levemente em minha cabeça, provavelmente pelo fato de ter perdido há aproximadamente cinco meses um primo, também portador de um tumor no pescoço.
Seguindo a praxe, o médico fez o exame clínico e constatou o enfartamento dos gânglios. Em seguida fez o pedido para o indefectível hemograma e uma ultrassonografia da região. Ao lhe pedir um diagnóstico, ele foi vago em sua resposta alegando a necessidade de exames complementares. No dia seguinte colhi o sangue e no posterior fiz o ultrassom. Em relação ao primeiro exame, desconheço se apontou alguma anomalia, porém, o segundo foi confirmou - pelo médico que o executava - o ingurgitamento. Ante a pergunta de minha ex-mulher sobre as causas do mesmo, também ele foi inconclusivo. Idem, se eu deveria tomar antibióticos. Pergunta essa, que hoje eu vejo, era mais um desejo que propriamente uma indagação. Ainda não admitíamos a hipótese de malignidade e, veladamente, torcíamos para que a ingestação dos antibióticos fosse o bastante. Porém, a dúvida estava instalada.
Retornando ao otorrino com os resultados dos exames fui submetido a uma laringoscopia, que consiste em introduzir pelo nariz, um tubo espelhado dentro da garganta e vislumbrar o interior da mesma. A sisudez do médico, tanto quanto o meu receio de perguntar e ouvir o que não queria, inibiu maiores questionamentos. Assim, no dia 08 de abril recebi o diagnóstico de laringite crônica (irritativa) e vibrei com o resultado. Eu sabia! Não era algo tão grave como cheguei a temer. Deixaria de fumar, tomaria a medicação e tudo se resolveria.
Imagine que eu cheguei a pensar em câncer? Ora essa! Eu que sempre tive um processo super-rápido de cicatrização das úlceras cutâneas (tinha lido em algum lugar que isso era um precioso indicativo de minha imunidade à doença). Eu, que no mês anterior tinha feito um Chek-Up (antes que o Convênio Médico tivesse que ser reduzido por falta de recursos para pagá-lo) e tive um resultado excelente nas funções cardíacas e respiratórias. Como pude ter pensado nisso...? Talvez o estresse que estava vivendo tenha contribuído para esse pessimismo.
Durante uma quinzena tomei o antibiótico receitado e como não tinha nada de grave continuei a enfrentar apenas os velhos problemas. Minto, tinha mais um: pagar pelos antibióticos. Comecei a sentir ali a impropriedade dos preços daquele produto que ninguém, salvo os hipocondríacos, consome porque quer.
De resto, trabalhava normalmente, tentava vender, cobrir os cheques pré-datados, cumprir os compromissos e apaziguar os ânimos em casa. Sempre tendo escapado por muito pouco de protestos, cheques devolvidos e um confronto real em casa.
Por natureza, eu não consigo exteriorizar sentimentos, e me sentia dentro de uma jaula dominando - ou tentando - domar as feras, apenas com a intenção. Com o olhar.
A generalização, todavia, das dificuldades para todos os segmentos da economia, enquanto me redimia (afinal, não era só minha culpa), alimentava a minha esperança de que venceria mais essa crise. Aos 43 anos já tinha vivido a crise da hiperinflação, da recessão, da outra inflação e todas as outras que assolam o País. Essa seria apenas mais uma.
Mesmo sem ter um centavo investido em Bolsas de Valores eu acompanhava todos os telejornais em busca de uma boa notícia que embasasse a minha esperança. Acompanhava os pregões como se deles dependesse a minha ressurreição. Mas essa boa nova nunca vinha.
Quanto ao inchaço, este permanecia imutável, apesar dos antibióticos de última geração, segundo o otorrino. Porém não o sentia. Não doía. Não incomodava. Às perguntas e à preocupação dos amigos, respondia que o tratamento iria resolver... De fato, acreditava nisso.
Finda a medicação, voltei ao médico. Ainda evasivamente, característica de sua origem oriental (?), e constatando a ineficácia do tratamento ele fez o meu encaminhamento para uma hematologista de sua confiança. Segundo ele, como especialista na área, ela poderia dar uma resposta conclusiva sobre o problema. Mais evasiva que sua argumentação, contudo, foi a minha percepção que não atinou de pronto sobre a gravidade que o caso estava tomando.
Antes da hemato voltei à dermatologista para extrair algumas manchas que tinha nas costas - e que eu temia que se transformassem em câncer em um futuro remoto (santa ingenuidade). Novamente os problemas da cútis ficaram em segundo plano e sua atenção restringiu-se à minha cervical. A sua preocupação era evidente. Chegou a questionar o otorrino por não ter feito a punção do gânglio e se dispôs a fazer ela própria o pedido para este procedimento. Tentou me falar algo (possivelmente já tinha o diagnóstico), mas se calou. Fez a extirpação das manchas e só se mostrou mais calma ante a expectativa de minha ida à especialista nos próximos dias. 
A sua relativa calma, entretanto, anulou a minha. Comecei a admitir que, sim, eu poderia estar com algo mais grave que uma laringite crônica. A confiança que eu sentira até então se esvaiu, assim como a minha coragem e a fé de que poderia resolver a situação que estávamos vivendo.
Pela primeira vez na vida senti que agora já não dependia só de mim. Eu já não podia tudo. Era apenas um joguete das circunstâncias. Tanto das presentes quanto das que o futuro delineasse. Sabia que o câncer pode ser tratado. Que existem casos de longa sobrevida (tive uma tia que conviveu com a doença por muito tempo), que surgem novos tratamentos todos os dias, etc. Mas aquela era uma hora muito imprópria para ficar doente (como se existisse uma hora apropriada...).
Justo agora, com tantos problemas, tantas vicissitudes negativas? Ao contrário da maioria dos pacientes da patologia, não me perguntava por que eu? Mas sim, por que agora?
Há dois anos estava empregado, com um salário muito acima da média, patrimônio, liquidez de dinheiro aplicado e tudo mais que consegui juntar em conjunto com minha ex-mulher. Se fosse possível escolher, aquela teria sido a hora certa. Pelo menos eu poderia me preocupar “apenas” com a doença. E agora? Eu não teria nem o direito de sofrer, em paz, a enfermidade.
Por tudo que havia feito e passado na vida, me revoltei. Não era justo. Não agora.
Dias depois, aproveitei uma viagem até Itupeva e levei minha mãe para passar alguns dias na residência de meu irmão. Já preparava a minha saída de casa. Não apenas pela iminência do divórcio, mas também pelo fato de que se o câncer fosse confirmado eu iria embora de qualquer maneira. Repugnava-me a ideia de expor as deformidades que a moléstia me causaria (tinha visto o estado em que ficou meu primo) e sentia pavor de pensar que essa seria a imagem que meu filho guardaria de mim. Tinha medo das dores e por elas causar incômodos.
Queria ter um canto. Um recanto. Na verdade, eu queria fugir. Da doença. Da situação. Da crise. Daquilo em que eu me transformara.
Um amigo muito especial, o Bino, para quem relatei os problemas que estava vivendo chegou até mesmo a alugar um quarto em uma casa de família, numa cidade vizinha.
Novamente, eu teria que recomeçar a vida e, como sempre, não do zero. Mas, pior, em débito. Só que antes a autoconfiança me impulsionava e agora a incerteza me paralisava. Não era como das outras vezes. O tempo que me restara seria de que tamanho? Do que eu viveria? Como sustentaria meu filho? Temia muito mais a conjunção desses fatores que a doença em si.
O trabalho já não rendia. A ameaça acompanhava cada segundo. A espada sempre suspensa por um fio, sobre a cabeça. A cada decisão ou planejamento o SE tornou-se imperativo. Se não for câncer farei isso...  Se não for câncer farei aquilo... E se for câncer, o que farei? Meu Deus!
Mesmo tentando acreditar nos amigos que insistiam que não seria nada. Que tudo se ajeitaria e todas as demais frases que se julga adequadas à situação, manter o otimismo foi dificílimo. Eu precisava mentir. Para eles e para mim. Achava de “bom tom”. Relutava em perder o que julgava ser boa educação. O câncer ainda não tinha me despido dos formalismos.
Em momentos de alta dosagem alcoólica conseguia entorpecer o pessimismo (ou o realismo?) e acreditava que o susto que estava tomando naqueles momentos seria motivo de risadas em um futuro próximo. Por isso, talvez, mantive, e ainda a mantenho, uma garrafa de vinho do Porto para comemorar o resultado negativo que certamente viria. Agora, talvez, para brindar uma eventual cura.
Mas o fato é que a situação financeira, também já em decorrência da ameaça da doença, estava se agravando cada vez mais e por consequência, a familiar. A vinda de minha cunhada para uma visita de alguns dias e que antes teria me dado tanto prazer, agora me indicava apenas a iminência da separação e o afastamento do meu filho.
Fatos que antes me passariam despercebidos agora me sensibilizavam. Como o encontro casual que tive com uma prima, na terrinha natal. Quando ela me perguntou sobre o problema em meu pescoço, eu vi que a notícia já tinha chegado até lá (aliás, nada mais inapropriado que aquele encontro. Tanto para mim quanto para ela. Se a sua dor estava contida no passado próximo, pois era irmã daquele que morrera há alguns meses, a minha estava acontecendo agora. Ainda estava para acontecer). Ou, então, a justificativa de um cliente ao se recusar a comprar novamente de mim, por medo da interrupção no fluxo de mercadorias que fatalmente aconteceria. Ou, então, ter dado um auxílio a uma moça no portão de casa e ter recebido em troca um folheto com o Salmo de Davi. No verso, constava:
 “A associação dos pacientes de Câncer agradece a sua colaboração“.

A sombra do câncer multiplicava a angústia. Foram dias difíceis! Muito difíceis!


NOTA do AUTOR - os próximos capítulos serão ofertados no modo "DEMO". Você pode continuar a sua leitura, por intermédio de exemplar impresso ou em E-book, através do Link abaixo postado. Agradeço a compreensão.

https://www.clubedeautores.com.br/book/136272--Sobrevivendo_com_o_Cancer_Linfatico