quarta-feira, 18 de abril de 2012

Filosofia Moderna e Contemporânea - HUSSERL, Edmund - A Fenomenologia

HUSSERL, Edmund
1859 – 1938
A Fenomenologia

Em 1859, na Moravia, então integrante do Império Austríaco, nasceu Edmund HUSSERL, o homem que tentaria organizar uma das principais partes da Filosofia: a Fenomenologia (de Fenômeno = aquilo que os Sentidos [tato, visão, audição, paladar e olfato] captam + Logia = estudo).

Husserl iniciou seus estudos com a Matemática e com a Astronomia, mas após terminar seu Doutorado na primeira, dedicou-se exclusivamente à Filosofia.

Casou-se com a Srta. Malvine Steinschneider, com quem teve três filhos e foi para sustentar a família que Edmund lecionou para alunos particulares, em Halle, onde ficou até 1901, quando foi chamado para ser Professor Associado na Universidade de Gotina. Em 1916 assumiu o posto de Mestre na Universidade de Freiburg, onde teve, dentre outros, Martin Heidegger, como aluno. Ali lecionou até 1933 quando foi demitido por ter ascendência judia (demissão que teve a participação direta de Heidegger). A partir de então se dedicou unicamente a escrever até que faleceu em 1938.

O comportamento adverso de Heidegger em relação ao Mestre não o impediu de usar o Ideário de Husserl para construir seu Sistema Filosófico, o qual desembocaria no Existencialismo. Por isso, aliás, é que se diz que foi Edmund o ascendente mais antigo do Sistema da Existência que dominou o Ocidente desde o pós-guerra até os dias atuais, ainda que lhe vistam com outras roupagens e lhe deem outros nomes.

Outros Pensadores também se encantaram com a Fenomenologia e a levaram para a França, onde filósofos como Levinas e Merleau-Ponty a exportaram para o resto do Mundo, colocando-a como pedra basilar de seus próprios Esquemas Filosóficos. A partir de então, as Ideias de Husserl tornaram-se fundamentais para uma série de Eruditos que a viram como o fundamento apropriado para todos os Estudos que consideram os Fenômenos como a porta de entrada dos Ideários que vigoram na atualidade.  

É possível afirmar que Husserl herdou de seu mestre, Frans Brentano a ideia de que a Filosofia precisa de um “Método Cientifico”, pois o “Rigor Lógico” desse tipo de estudo, proporcionaria meios para que se chegasse às Verdades que os Homens sempre buscaram. Em termos resumidos, podemos dizer que Husserl compartilhava da seguinte ideologia:

  • A Ciência aspira à Certeza em relação ao Mundo.

  • Mas a Ciência é Empírica (ie, dependente do que foi captado pelos Sentidos [tato, visão, audição, paladar e olfato]). Dependente da Experiência a Posteriori.  

  • A Experiência, porém, é sujeita a suposições, predisposições, insuficiência de intelecto, visões individualistas etc. O que foi captado pelos Sentidos de um Homem, será (quase sempre) diferente do que foi captado por outro Homem.

  • Logo, a Experiência, em si, não é confiável. Tampouco é Ciência.

Mas, então, como chegaríamos à Ciência e, depois, às “Verdades Filosóficas”?  Para Husserl e seguidores, apenas um caminho poderia nos levar a esses Conhecimentos: estudar até a compreensão total, os Fenômenos que formam a Experiência e, assim, compreendendo as partes, chegar ao entendimento do “Todo”, ao completo entendimento da Experiência e às “Verdades Primeiras, ou Filosóficas”.

Husserl foi um Pensador cujo objetivo máximo era atingir a “Plena Certeza”. Objetivo, diga-se, que sempre permeou a ambição dos filósofos, desde a Grécia antiga. Sócrates, por exemplo, colocou como impeditivo da Certeza a nossa incapacidade intelectual para mensurar as coisas e as noções abstratas. Segundo ele, podemos concordar facilmente com os demais sobre as Coisas que são passiveis de serem captadas pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato). Concordaremos, por exemplo, facilmente sobre o fato de “existirem cinco pessoas na sala”, pois o que os nossos Sentidos e os Sentidos dos outros captassem convergiriam para esse mesmo número; mas quando se trata de questões filosóficas, abstratas, como, por exemplo, o que é a Bondade, a Maldade, a Justiça, a Injustiça etc. (?) a concordância termina imediatamente, pois são questões que estão além e acima da matéria mensurável. E se não podemos saber com certeza o que é, por exemplo, “Justiça” como poderemos discutir a sua natureza, a sua gênese, sua serventia etc. Como se poderia investigá-la, estudá-la em sentido lato, e lhe dar uma definição que seja Geral, Universal, ie, que a todos convença. Como ter certeza de Coisas iguais?
O PROBLEMA DA CERTEZA

HUSSERL iniciou sua carreira como “Matemático” e habituou-se às Certezas que caracterizam esse assunto. Por isso, imaginou que os problemas apresentados à Filosofia poderiam, também, serem solucionados com essa “mesma Certeza”. Ele ambicionava colocar todas as Ciências – que à época incluíam todos os ramos do conhecimento humano, desde a química, a física, a matemática até a Psicologia, a Filosofia, a Ética, a Política etc. em uma base segura; ou seja, em uma condição que permitisse que o estudo da mesma produzisse “Certezas definitivas”.

As “Teorias Cientificas” baseiam-se em Experiências, mas Husserl acreditava que elas sozinhas não constituíam a Ciência, propriamente dita. E como sabem os Estudiosos que a experiência é, naturalmente, repleta de suposições, equívocos, contradições etc. Husserl queria expulsar essas Incertezas para dar aos Estudos Científicos bases sólidas e incontestáveis.

Para tanto, recorreu ao Ideário do filósofo francês Renê Descartes (1596 – 1650), efetuando as alterações necessárias para ajustá-lo ao que pretendia. Como se sabe, o francês queria libertar a Filosofia das suposições, predisposições e dúvidas. É claro que essas, de acordo com a época, vinham dos dogmas religiosos e de pura Mitologia e crendices. Já em Husserl, as suposições, as dúvidas etc. provinham das conjunturas de sua época, o Racionalismo e o Materialismo, além, é claro, dos dogmas da Igreja. Tirando essa diferença, vê-se que:

Descartes afirmou que “embora quase tudo pudesse ser posto em dúvida, ele Não podia duvidar de que duvidava. Sua brilhante dedução usou a duvida evidente para chegar a uma certeza tecnicamente incontestável.

Husserl pretendia o mesmo. Usar o que poderia ser visto como incerto para alcançar uma certeza quase palpável. Para tanto sugeriu que se adotássemos uma postura “cientifica” em relação à Experiência – descartando toda suposição (inclusive de que há um Mundo fora de nós mesmos) – poderíamos, então, começar a pensar de modo filosófico, como numa lousa intacta, livre de predisposições, pré-julgamentos, pré-conceitos, pré-deduções etc. E foi justamente a esse Método, a esse tipo de abordagem que Husserl chamou de Fenomenologia. Ou seja, uma investigação filosófica sobre os Fenômenos da Experiência.

Dizia: precisamos olhar para a Experiência com uma “atitude cientifica” deixando de lado (ou “Colocando entre Parênteses”, conforme suas palavras) todas as nossas suposições. Então, se olharmos com paciência, cuidado e atenção, poderemos criar uma base segura de Saber, de Conhecimento que nos permitirá trabalhar com os problemas apresentados à Filosofia desde os princípios da História.

Em tese, Husserl teria descoberto a “Pedra Filosofal”, mas infelizmente seu Método fracassou. Vários Pensadores tentaram utilizá-lo, porém nunca houve concordância entre os mesmos, tampouco sobre o que seria o Método, propriamente dito. E, claro, a maneira de usar-lhe na prática. O próprio Husserl, no final de sua carreira admitiu ter falhado na tentativa de dar aos Filósofos e a outros Eruditos a maneira de se abordar uma questão teórica, especulativa, abstrata, filosófica com todo o rigor cientifico.

Restou-lhe o consolo de ter criado uma das Tradições Filosóficas mais ricas e citadas e, talvez, a esperança de que seu Modelo de Estudos venha a ser aperfeiçoado por outrem e possa ser útil efetivamente.

São Paulo, 18 de Abril de 2012.