sexta-feira, 20 de abril de 2012

Burka

Aperta-me a melancolia
dessa Burka que visto.
Eu poderia dizer
que Solidão rima
com desejo de não ser
outro, além do que sou.
Mas nada rima
e nem seria uma obra-prima.
Apenas me achariam pedante.
Imaginem só: já é ateu,
comunista, cético e quase
niilista.
E ainda quer ter o privilégio
da falta de companhia... Ora! Ora!
Aonde chegará o velho?
Eu acho que velho
sou o que fiquei
depois que o Tempo passou.
Mas nada responderei,
pois temo que me batam
com o sapato como eu vi
fazendo no asilo, com a
concordância
da nora e do filho.
Melhor ficar quieto
e me ajeitar à Burka,
sonhando que é a Biblioteca
da Urca, onde eu ia menino
para ler escondido o Livro de
São Cipriano, da capa preta,
para o Diabo me aparecer
e comprar minha alma.
O dinheiro daria para fugir
do horror que tudo era;
e pensar que era tão pouco
o que eu haveria de querer:
era paz e batata frita com
coca-cola no jantar, como
acontecia na casa do
Sr. Luis Contador.
Mas que nunca chegaram
porque o dinheiro do pai
ficou na cama da Gessi.
E depois o Tempo trouxe
tantas outras Gessis,
que só agora eu
poderia ter o espaço
vazio que meu sonho
de sozinho queria.
Mas o Diabo chegou tarde
e não quero mais negociar.
Essa Burka que chamam
de câncer já vai me empurrando
de volta para o fosso
em que sempre vivi.