sábado, 7 de abril de 2012

Filosofia Moderna e Contemporânea - WITTGENSTEINS, Ludwig - Os limites da minha Linguagem significam os limites do Mundo.

WITTGENSTEIN, Ludwig
1889-1951
Os limites da minha Linguagem significam os limites do Mundo.

Vienense, filho de uma família rica, WITTGENSTEIN estudou engenharia e, depois, em Cambridge, Filosofia com Bertrand Russel. Lutou na 1ª Guerra, onde caiu como prisioneiro. Por volta dessa época, começou sua obra mais importante o “TRACTATUS LÓGICO-PHILOSOPHICUS” que viria a ser publicado em 1921. Por acreditar que o seu livro resolvia todos os problemas propostos à Filosofia, embarcou numa série de atividades alheias à Academia, tais como, arquiteto, professor e jardineiro.

Porém, após fazer uma autocrítica de seu Pensamento, reassumiu seu trabalho em Cambridge em 1929, tornando-se professor da Universidade em 1939. Morreu aos 51 anos, deixando uma das obras consideradas mais difíceis de serem compreendidas, mas, também, uma das mais brilhantes.

Com a frase em epigrafe, Os limites da minha Linguagem são os limites do Mundo WITTGENSTEIN sintetizou o seu ideário. Para ele,

  • A Linguagem é formada por Proposições, ou seja, pela exteriorização dos nossos Pensamentos em formato de Afirmações que podem ser Falsas ou Verdadeiras;
  • O Mundo, por outro lado, é formado por Fatos, ou acontecimentos. As Coisas que geram esses Fatos tem o seu próprio modo de ser;
  • As Proposições são “Imagens” de Fatos, assim como os mapas são as imagens do Mundo;
  • Qualquer Proposição que Não retrate Fatos é sem sentido, vazia. Tome-se esse exemplo: matar é ruim. É uma frase que não indica um fato ocorrido ou que está ocorrendo, Exprime apenas uma opinião sobre uma atitude, sem nexo direto com o momento em que é exarada. Logo, não pode ser considerada uma Proposição.
  • Por isso, pela exigência de só poder retratar Fatos, a minha Linguagem é limitada a declarações de fatos sobre o Mundo. Eu posso dizer várias outras frases, mas essas serão consideradas vazias. Também poderão ser consideradas metafóricas, surreais, opiniões, etc. Contudo, serão sempre sobre um tema que não exige a Reflexão Lógica e Racional.
  • Destarte, invertendo o eixo da questão, tenho que É o Mundo que está limitado pela Linguagem. Afinal, o Mundo só existe até onde eu consigo Pensar (e externar esse Pensar pela Linguagem) sobre ele. Por isso, aliás, o “tamanho do Mundo” nunca será absoluto, apenas relativo, porquanto o indivíduo que desfruta de uma mente culta e fértil e de um rico vocabulário que dê conta de tantos pensamentos terá sempre um “Mundo maior” do que o Mundo que cabe ao boçal e inculto. Pensa-se “grande” ou “pequeno”, como diz o adágio popular.

Não é sem motivos que WITTGENSTEIN é considerado um Filósofo “difícil” de ser compreendido. Sua obra principal, TRACTATUS LÓGICO PHILOSOPHICUS, é um dos textos mais temidos pelos estudiosos de Filosofia, que o consideram um dos mais intrincados do século passado. Contudo, é, também, um dos Pensamentos mais ricos e fecundos que se teve na área do filosofar. Além de ser surpreendente, como se verá logo adiante.

Essa obra de pequeno tamanho, cerca de setenta páginas em média, é formada por uma série de sucintas notas, escritas em linguajar de complexa tecnicidade. Assim, para melhor apreciá-la, situaremos a mesma no contexto em que foi escrita, dando-lhe o devido desconto em função do momento difícil que o Mundo atravessava graças ao conflito Mundial.

Por abordar o tema “Limites da minha Linguagem e do (meu) Mundo”, WITTGENSTEIN é remetido à Corrente de Pensadores que teve inicio com o Kant, no século XVIII. O alemão, em seu livro “Critica da Razão Pura” iniciou a tarefa de investigar qual seria o limite de Conhecimento, do Saber que é facultado ao Homem. Até quanto o Homem consegue aprender e reter um Saber. Um dos motivos para que Kant entrasse nesse terreno foi a sua crença que vários problemas apresentados à Filosofia existiam “apenas” porque nós não conseguimos diferenciar do que somos capazes, daquilo que não somos em termos intelectuais. Kant acreditava que ao dirigir nossa atenção a nós mesmos, às nossas limitações, poderíamos resolver, ou talvez até eliminar, quase todos os “Problemas Filosóficos” que desde a noite dos tempos, incomodam e desafiam aos que se debruçam sobre as dimensões mais profundas da vida, do Universo e do Homem.

WITTGENSTEIN em seu TRACTATUS empreende investigação semelhante à de Kant, porém é muito mais radical que o mestre alemão. Já no inicio da obra ele afirma (arrogantemente?) que estava começando a esclarecer o que pode ser “falado significativamente; ie, o que pode ser dito com significado, com importância efetiva, ao contrário dos discursos fúteis sem qualquer importância real.

A partir daí, como Kant fez com os limites da Razão (ou da capacidade de raciocinar e desse ato produzir, ou captar e reter Saber, Conhecimento), WITTGENSTEIN quis definir os limites da Linguagem e, consequentemente, os limites de todo Pensamento, pois, lembremos que a Linguagem é “apenas” uma exteriorização do que se pensou.

WITTGENSTEIN iniciou essa busca porque supunha que a maioria das discordâncias filosóficas seria oriunda de erros fundamentais na maneira como lidamos com o Pensamento e com o modo de discutirmos o Mundo.

As teses centrais de WITTGENSTEIN no “Tractatus” são, ao cabo, baseadas num principio simples: o principio de que tanto a Linguagem, quanto o Mundo são organizados, ou estruturados, de acordo com uma determinada forma, um determinado formato válido para ambos. E que essas estruturas podem ser decompostas, mostrando, portanto, as partes que a compõe. A partir daí, WITTGENSTEIN buscou mostrar as Estruturas do Mundo e as da Linguagem para, então, esclarecer o modo como elas se relacionam entre si. Isso feito, o filósofo partiu em busca de extrair várias conclusões de longo alcance, sobre os problemas que a Filosofia estuda há longo tempo.

Para bem compreender o que WITTGENSTEIN quis dizer com a sua frase “os Limites da minha Linguagem são os limites do Mundo” é necessário perguntar o significado que ele deu aos vocábulos “Mundo” e “Linguagem”, pois ele não os utilizou com o sentido rotineiro que lhes damos. Aliás, quando ele fala sobre “Linguagem” fica claro o quanto ele bebeu na fonte do inglês Bertrand Russerl, posto que para este também, a “Linguagem” cotidiana era inadequada para expressar com a devida clareza e precisão as coisas sobre o Mundo. Como se sabe, Russerl (matemático e filósofo) acreditava que a Lógica (nos moldes da matemática) formava, ou constituía, uma “Linguagem Perfeita” por ser isenta de ambiguidades e, por isso, desenvolveu um modo de traduzir a linguagem do dia-a-dia para um modelo que tivesse uma “Forma Lógica”.

A Lógica ocupa-se das Proposições*. Podemos pensar em proposições como Asserções** que podem ser Verdadeiras ou Falsas. Vejamos o exemplo a seguir:
“O elefante está bravo” É uma proposição. Porém, a palavra isolada “elefante” Não é, pois ela, por si, nada propõe ou afirma. É apenas um rótulo, um nome dado a uma criatura, a um Ser. Assim, conforme o “Tractatus”, a Linguagem Significativa (que espelha um fato. No caso, o elefante estar bravo) deve ser formada apenas por proposições. A totalidade das proposições, conforme WITTGENSTEIN é a própria Linguagem.

*Proposição – em Lógica, expressão linguística de uma operação mental (de um pensamento, de um juízo) composta de Sujeito, Verbo (sempre redutível ao verso Ser) e Atributo. Passível de ser Verdadeira ou Falsa. Geral, o ato ou efeito de propor, de sugerir.
**Assertiva – afirmação peremptória. Em Lógica, proposição, afirmativa ou negativa, de sentido completo e de intenção declarativa que pode ser Verdadeira ou Falsa.

Agora, já cientes do que WITTGENSTEIN entendia por “Linguagem”, será possível adentrarmos mais fundo sobre o que ele quis dizer com o vocábulo “Mundo”.

No “Tractatus”, WITTGENSTEIN escreve que “o Mundo é a totalidade dos Fatos, não das Coisas”. Aqui já se pode entrever um paralelo entre o modo como WITTGENSTEIN tratou a Linguagem e o modo como tratou o Mundo. Recordemos do exemplo do “Elefante” e observaremos que pode ser um Fato o elefante estar bravo, ou que há um elefante no recinto, mas um elefante, por si só, não constitui um Fato. Como já falamos antes, o termo “elefante” é apenas um nome, um rótulo dado a uma criatura. Veem-se como as Estruturas da Linguagem e a do Mundo podem se relacionar. Como uma pode influenciar a outra.

A ideia de que a Linguagem “retrata” o Mundo foi elaborada durante a 1ª Guerra, em certo dia que WITTGENSTEIN leu num jornal a matéria sobre um acidente de carro e que os fatos relativos foram encenados no julgamento usando-se miniaturas de carros, ruas e pessoas, com o intuito de representar o que houve na Realidade. As miniaturas puderam representar seus originais porque estavam relacionadas entre si e foi obedecida com rigor a forma como os carros e pedestres estavam quando sucedeu o acidente. Criou-se, pois, uma imagem verossímil do ocorrido e o que uma imagem* compartilha com aquilo que representa, é uma “Forma Lógica (ou um formato que obedece a racionalidade)”, segundo WITTGENSTEIN.

Nota – é importante salientar que aqui estamos falando sobre “imagens lógicas” e Não sobre “imagens visuais”. As primeiras são aquelas que decorrem de um Pensamento Lógico e Racional, em que a sequência de fatos, imagens etc. obedece a algum tipo de encadeamento, como o cronológico, por exemplo. O contrário ocorre com as “imagens visuais”, pois nem tudo que vejo está relacionado com algum método. Posso ver ao mesmo tempo uma bola e um passarinho, os quais, claro, não estão relacionados entre si, tampouco com algum Sistema lógico.

WITTGENSTEIN disse que: “a Lógica não é um conjunto de Doutrinas, mas uma imagem-espelho do Mundo”. Contudo, é obvio que a nossa imagem pode estar incorreta. Pode não coincidir com a Realidade física, concreta. Nesses casos, teremos uma “imagem-falsa”, vez que a Palavra só representa a Realidade se ambas – Palavra e Realidade - tiveram a mesma “forma lógica” que conduza a analogia absoluta. Sem ela, WITTGENSTEIN descarta a “imagem-falsa”, pois não admite qualquer meio-termo. Ele começou sua tese com Proposições que podem ser, naturalmente, Verdadeiras ou Falsas, e transpôs essa rigidez na classificação para o Campo das imagens, as quais, então, só poderão ser Falsas ou Verdadeiras.

Como a Linguagem e o Mundo tem um mesmo formato lógico, a Linguagem pode falar sobre o Mundo reproduzindo-o e o retratando de um modo que concorde com a Realidade (física, concreta) captável pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato). Isso colocado, podemos observar o porquê de WITTGENSTEIN estar tão interessado pelos limites da Linguagem, pois eles também são os Limites do Mundo.

Agora mudaremos o foco para investigarmos o Pensamento do filósofo acerca da discussão sobre Religião e sobre Valores Éticos. Para WITTGENSTEIN é totalmente sem propósito tentar analisar esses elementos, pois são “Coisas” que estão “além do Limite do Mundo”, o que pode ser visto, claro, como “além do Limite da Linguagem”. Sobre isso, aliás, WITTGENSTEIN foi claro ao dizer: está claro que a Ética não pode ser colocada na Linguagem.

Alguns leitores de WITTGENSTEIN afirmam que seu Pensamento sobre essas questões tende mais para as Ciências, posto que ele rejeite os Conceitos abstratos, pertinentes ao debate sobre Ética, Religião e afins. Todavia, é preciso ver que há mais complexidade no assunto. WITTGENSTEIN não considerou que os “Problemas da vida, ou os Problemas Existenciais (quem sou eu, de onde vim, para onde vou etc.)” sejam Absurdos. Pelo contrário, pois ele acreditava que eles são os mais importantes dentre todos. Porém, dizia WITTGENSTEIN, é preciso admitir que eles não podem ser colocados em Proposições* e, por isso, não podem se tornar parte do estudo de Filosofia. Escreveu o filósofo que “essas Coisas”, mesmo que não possamos falar delas, tornam-se manifestas (aparentes, captáveis) e que “são o que é místico”.

Proposições* - a Filosofia, para conseguir elucidar todos os “problemas filosóficos” exige uma Linguagem lógica, racional, sem ambiguidades. Portanto, para WITTGENSTEIN, ela só pode ser composta por Proposições, ou declarações sobre fatos. Veja-se o exemplo:

“o gato sentou no tapete” é uma Proposição que relata um fato, um acontecimento. Proposição que pode ser dividida em suas partes componentes (gato + tapete = gato sentado), cujo estudo individual de cada uma dessas partes permitirá a compreensão do Todo.

Nota do Autor – note-se como o Ideário de WITTGENSTEIN bebeu na fonte de Kant, pois foi o alemão foi quem primeiro colocou a impossibilidade de compreendermos certas Coisas por nos faltar capacidade intelectual para tanto.

Essa admissão de WITTGENSTEIN sobre os limites do Conhecer acabou afetando todo seu Sistema de Pensamento. Afetou o próprio TRACTATUS, pois é possível, então, questionar se as Proposições ali contidas retratam efetivamente o Mundo, já que até a Lógica, sua ferramenta principal, nada fala sobre esse mesmo Mundo. Sendo assim, o TRACTATUS é, também, carente de Sentido, de Racionalidade?

Dando provas de uma grandeza rara no meio, WITTGENSTEIN não se aferrou à sua Ideia, insistindo em seu duvidoso e improvável acerto, apenas por uma questão de orgulho mesquinho. Ao contrário. Ante a dúvida colocada, ele admitiu que o TRACTATUS carecesse mesmo de Sentido, pois, disse, qualquer um que o compreenda adequadamente verá, ao cabo, que as Proposições que nele utilizei também não têm nexo lógico.

Elas, as proposições, disse WITTGENSTEIN, estão ali como simples degraus que nos ajudam a subir e alcançar um patamar situado para além dos “problemas estudados pela Filosofia”, mas após a subida, esses degraus podem ser descartados sem qualquer prejuízo.

Nas décadas de 1920 e 1930 ele começou a duvidar de seu próprio Sistema até que chegou à conclusão exposta no parágrafo acima, tornando-se um dos mais severos críticos ao Sistema que propusera. Questionou, principalmente, sua antiga e aferrada crença de que a Linguagem consiste apenas de Proposições, pois ao se ater a esse dogma, ignorou, erroneamente, as muitas outras nuances do que fazemos com a Linguagem em nosso cotidiano.

Por fim, deve-se ressaltar a singularidade do Sistema de WITTGENSTEIN, que ainda hoje permanece como uma das obras mais desafiadoras da Filosofia Ocidental e, também, como uma das mais misteriosas. Afinal, como classificar um esquema de pensamento que embora tenha sido rejeitado pelo próprio criador, ainda continua sendo estudado com atenção pelos Pensadores atuais. Conterá alguma “Verdade oculta” que intuímos, mas que não conseguimos esclarecer, tampouco abandonar?

São Paulo, 07 de Abril de 2012.