terça-feira, 3 de abril de 2012

Filosofia Moderna e Contemporânea - MERLEAU-PONTY, Maurice - O Espanto Original

MERLEAU-PONTY, Maurice
1980/1961

Para vermos o Mundo, temos de romper com nossa aceitação habitual a ele. É necessário readquirir o “Espanto”, o “Assombro” ante as coisas da vida, para poder vê-las em sua plenitude.

Nascido em ROCHEFORT-SUR-MER, França, MERLEAU-PONTY cursou a célebre “ÉCOLE NORMALE SUPÉRIEURE” junto com Sartre, Simone de Beauvoir e outros filósofos de renome. Graduou-se em Filosofia em 1930 e lecionou em várias escolas até se alistar no Exército para lutar na Segunda Guerra Mundial. Em 1945, com o fim do conflito, publicou sua obra mais importante “A Fenomenologia da Percepção” e tornou-se professor na Universidade de Lyon. Após trabalhar algum tempo na imprensa como colaborador da revista “Les Temps Moderns”, de Filosofia, MERLEAU-PONTY assumiu em 1952 a cátedra dessa matéria no célebre “Collège de France” e ali lecionou até falecer em 1961, com apenas 53 anos de idade.

Sua produção literária foi de suma importância para o Pensamento Contemporâneo. Abaixo, suas obras:

A Estrutura do Comportamento, 1942.
Fenomenologia de Percepção, 1945.
Humanismo e Terror, 1947.
Sentido e Não Sentido, 1948.
As Aventuras da Dialética, 1955.
Os Signos, 1960.
O Visível e o Invisível, publicado postumamente, em 1964, Claude Lefort.

A frase em epigrafe “a fim de ver o Mundo, temos de romper com nossa aceitação habitual a ele” sintetiza sua Filosofia (na qual ele agrupou outros campos de seu interesse – sobre a educação e sobre a psicologia infantil) que basicamente consiste na censura ao “hábito ou descaso” que nos impede ver a grandeza que existe em cada ato. Com efeito, a repetição monótona das coisas e dos fatos no dia-a-dia acaba nos impedindo de apreciar a totalidade da vida e do Mundo e, por isso, seria preciso romper com essa monótona visão para redescobrir a grandiosidade da vida e do mundo. É necessário readquirir o “Espanto”, o “Assombro” ante as coisas da vida, para poder vê-las em sua plenitude.

A tradição filosófica estipulou algumas noções, ou Categorias como Sujeito, Objeto, Consciência, Representação, Fato, Conceito etc. e fez das mesmas instrumentos obrigatórios para que o Homem explicasse (sic) sua História, a Arte, a Linguagem e o próprio Pensamento. E com o tempo, o estudo filosófico se acomodou a essas Categorias, habituando-se a limitar o estudo às mesmas.

MERLEAU-PONTY foi, talvez, o único filósofo de sua geração a compreender que era necessária romper as cadeias dessas Categorias para que o Conhecimento desejado pudesse ser o mais completo possível. Para que a Filosofia retomasse a sua função original de indagar, de exigir respostas, de querer saber até onde seja possível. 

“nossa experiência (a aquisição de algum Saber, d’algum Conhecimento) é cheia de enigmas e de contradições... (mas) as nossas suposições (nossos olhares) diárias nos impedem de ver esses enigmas e contradições... (por isso) devemos abandonar essas suposições (esses olhares rotineiros) cotidianas... e (re) aprender a examinar a nossa experiência para podermos ver (a totalidade de tudo)... Para vermos o Mundo (em sua integridade), temos de romper com nossa aceitação habituação (com o modo rotineiro) a ele...”.

A noçao de que a Filosofia tem inicio em virtude de nossa capacidade de “Espantarmos-nos” diante da complexidade do Mundo (a qual nos parece até fantasmagórica), chegou-nos da Grécia Clássica. Mais precisamente com Aristóteles, que no século IV AEC fez tal afirmativa, embora ele mesmo tenha sido um dos que instituíram as Categorias de que falamos acima.

Geralmente não atentamos para a grandeza, para o valor que a nossa vida diária mostra. Porém, se quisermos compreender mais profundamente o Mundo, teremos de renunciar a aceitação habitual, quase desdenhosa, que damos às Coisas (objetos, seres, fatos etc.) do cotidiano. Teremos, consequentemente, que valorizar o que nos parecia ordinário, comum, sem importância. E isso deve acontecer no local mais difícil; ou seja, no campo da experiência, no ato de captar algum Saber, algum Conhecimento. Afinal, o que pode ser mais confiável do que os fatos captados através da Percepção Direta (quando “sentimos” a Coisa. Sem, ainda, tê-la passado pelo julgamento da Razão, ou do raciocínio lógico). Se olharmos com mais zelo e atenção (resistindo ao hábito de desconsiderar fatos como aquele) para o quê os nossos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) capturam, poderemos enxergar aquilo que haverá de completar o Saber oriundo dessa captação.

Justamente por isso, MERLEAU-PONTY decidiu questionar com muita ênfase as pressuposições, os pré-conceitos, os pré-julgamentos do dia-a-dia, as Categorias instituídas pela Filosofia como instrumentos únicos e imprescindíveis, haja vista que essas pressuposições atrapalhariam a nossa experiência mais profunda do Mudo (a maneira como tomamos Conhecimento amplo sobre as Coisas). E para realizar tal questionamento MERLEAU-PONTY valeu-se do método da Fenomenologia* como ferramenta de pesquisa.

*Fenomenologia – método criado por Bertrand Russel, no inicio do século XX, que visa estudar como as Coisas (os fenômenos) aparecem, ou se relacionam conosco. O estudo daquilo que captamos através dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato).

MERLEAU-PONTY adotou a sistemática de Husserl, mas com uma diferença importante: para ele, o filósofo ignorou um fato fundamental em relação à nossa Experiência (enquanto aquisição de algum Saber), posto que ela Não seja apenas uma experiência mental, mas é, também, um experiência corporal. Em “Fenomenologia da Percepção”, após explorar essa ideia, MERLEAU-PONTY concluiu que a Mente e o Corpo Não São Entes separados. Afirmativa que contrariava uma longa tradição na filosofia que remontava ao filósofo Descartes.   

Para MERLEAU-PONTY devemos entender (ou aceitar?) que o Pensamento – enquanto exercício mental, teórico, abstrato – e a Percepção – o percebimento através dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) são completamente unidos, ligados, incorporados. E que o Mundo, a Consciência (ou Mente), e o Corpo (físico) são todos partes de um único Sistema.

Essa sua conclusão, claro, não prima pela originalidade, pois vários Pensadores que lhe antecederam e até alguns Sistemas Religiosos (como o Hinduísmo) já afirmavam o Monismo. Hegel, por exemplo, afirmou que Tudo é Um e que está contido em uma “Ideia Total ou Absoluta”.

Todavia, MERLEAU-PONTY foi original ao dar a esse conjunto (a junção de Mente e Corpo, o “corpo-sujeito”) o papel de protagonista no processo de aprendizado. Original por ter estabelecido que o Corpo Físico Não é  um mero fantoche comandado pela Mente. Que o Corpo Físico é, ao cabo, a nossa Existência no Mundo. É, também, capaz de participar como Sujeito da experimentação, ou experiência, ou aquisição de Conhecimento, de Saber. Ver “membro-fantasma, adiante”.

E por rejeitar a Dualidade, (ou a visão de que o Mundo é composto por dois Entes separados), MERLEAU-PONTY reservou ao Físico a mesma importância que era dada à Mente, ressalvando, porém, que tanto quanto naquela, nenhuma informação adquirida pelo Corpo material é capaz de fornecer um Saber completo sobre as Coisas experimentadas. Será sempre necessário o emprego de Físico e Mente para que o Saber adquirido seja o mais extenso possível.

Ao se dedicar a ver o Mundo doutra maneira, o filósofo interessou-se por experiência incomuns. Ele acreditava, por exemplo, que o caso do “membro-fantasma (quando o amputado ainda “sente” o membro que lhe foi tirado)” confirmava a sua visão de que o Corpo Físico não é apenas uma máquina, pois, se fosse, não “reconheceria” mais a parte que lhe foi subtraída. Por isso, disse que o Corpo é, na verdade, um “Corpo Vivido”, ou seja, que carrega em si as experiências que já viveu. No caso, ele tem a memória do membro amputado; da experiência de ter tido aquele membro.

A ênfase que deu ao Corpo Físico, ao papel desempenhado pelo mesmo na aquisição de Saber, e as suas outras Intuições Filosóficas sobre a Natureza (o que é) da Mente e sobre a sua ligação com o Corpo, levaram a uma retomada do interesse sobre seu Ideário, pelos chamados “Cientistas Cognitivos”, ie, os Eruditos que estudam o processo de aprendizagem, de adquirir conhecimento.

Muitos avanços nessa área confirmam a validade de sua tese que afirma que ao rompermos com a “aceitação habitual” do Mundo, a experiência, ou a aquisição de Conhecimento, apresenta muitas outras vertentes estranhas, muitas outras nuances que sequer eram imaginadas.

Que tenhamos olhos para ver...

São Paulo, 01 de Abril de 2012.

Bibliografia Consultada e Recomendada:


Dicionário de Filosofia – 6ª Edição
Nicola Abbagnano
Tradução – Alfredo Bosi e Ivone Castilho Benedetti
Ed. VMF – Martins Fontes SP.

O Livro da Filosofia – Anna Hall, editora de projeto e Sam Atkinson, editor Sênior – Londres, Grã Bretanha.
Tradução de Rosemarie Ziegelmaier.

A História da Filosofia
Org. e texto final – Bernadette Siqueira Abrão.
Ed. Nova Cultural Ltda.