domingo, 23 de junho de 2013

Psicanálise Freudiana e suas variações - Psicologia Moderna e Contemporânea


PSICANÁLISE FREUDIANA e SUAS VARIAÇÕES.
O Comportamento e o Inconsciente

Como vimos anteriormente, a Teoria do Comportamento, ou Behaviorismo dominou o cenário estadunidense por quase meio século, graças ao seu apego anterior às filosofias que fossem ligadas às questões práticas. É uma idiossincrasia daquele povo, pode-se dizer.

O fato é que tanto quanto o PRAGMATISMO, o Behaviorismo oferecia-lhes elementos que poderiam ser classificados como “concretos” e “objetivos”. Bem ao gosto do estadunidense médio que não se afeiçoa com as sutilezas da abstração.

Porém, do outro lado do Atlântico, no inicio do século XX, os Psicólogos europeus já seguiam uma nova trilha, principalmente em razão do trabalho desenvolvido por SIGMUND FREUD, cujas teses privilegiavam as doenças da Mente, chamadas de Psicopatologias, e o tratamento terapêutico das mesmas.

Uma visão totalmente oposta ao Behaviorismo, que centralizava suas atenções nos chamados “Reflexos Condicionados”, ou seja, na conexão existente entre os estímulos e as respectivas respostas que ocasionavam. Um conjunto que criava padrões de comportamento, sem dar atenção à questão da Saúde Mental do indivíduo.

A Teoria Freudiana, por sua vez, desdenhava os “Reflexos Condicionados” e os demais elementos de sua antecessora e baseava a sua linha de trabalho na observação e na historia de cada caso individualmente, desprezando “evidências experimentais generalizantes”.

Tendo trabalhado com o célebre neurologista JEAN MARTIN CHARCOT, Freud foi bastante influenciado pelo método de hipnose* que o francês utilizava para tratar os casos de histeria. E foi graças a essas observações, que ele se deu conta da enorme importância do Inconsciente* como determinador do comportamento do indivíduo.

NOTA do AUTORHipnose – a indução a um estado passageiro em que o paciente fica como se estivesse em transe. Geralmente só é possível de ser aplicado em pessoas que são altamente sugestionáveis.

NOTA do AUTORInconsciente – ou Subconsciente, segundo a Psicanálise é a parte da Psique que armazena as experiências vividas, as emoções sentidas etc. e que regula, ao cabo, a personalidade e o comportamento de cada sujeito. A ela, o Consciente, o lado racional, não tem acesso, sendo necessário todo um tratamento especifico para sondar-lhe o conteúdo e descobrir no mesmo as causas de eventuais problemas que perturbem o paciente.

Freud acreditava que se pudesse acessar o Inconsciente através de diálogos com seus pacientes, poderia desenterrar “memórias dolorosas” escondidas e trazê-las para o campo do Consciente, onde ele e o enfermo poderiam compreender racionalmente o processo e num procedimento similar ao de uma desinfecção cirúrgica, extirpá-las, extinguindo assim a causa e o sofrimento da patologia. Ou, no mínimo, proporcionando algum alivio nos sintomas.

Com isso, pode-se dizer que Freud individualizou a Psicologia, mudando o seu foco do grupo, para o indivíduo; tornando-a um instrumento curativo e não só uma ferramenta usada para se estudar o Comportamento.

Essa nova visão, contrariando a “regra” de que as grandes ideias só são reconhecidas e reverenciadas a posteriori, logo encantou outros eruditos da Europa e não demorou em também desembarcar com êxito nos EUA.

Em Viena, capital da Áustria, um grupo de importantes pesquisadores juntou-se a Freud na recém-criada “Sociedade Psicanalítica”. Nela, destacavam-se ALFRED ADLER, CARL JUNG, MELAINE KLEIN e KAREN HORNEY.

Porém, com o correr do tempo, esse famosos Psicólogos, e mais alguns outros, afastaram-se da Teoria Freudiana por divergências pontuais e especificas e, com isso, abriram novos caminhos. Contudo, porque as divergências eram apenas pontuais, o cerne da Doutrina de Freud, a importância soberana do Inconsciente, nunca foi rejeitado por nenhum deles.

Dentre essas divergências pontuais, pode-se destacar a de JUNG que substituiu o conceito de arquétipos e introduziu a concepção de “Inconsciente Coletivo*”. Ou, então, a de ERIK ERIKSON que seguiu um caminho mais voltado aos aspectos Social e Desenvolvimentista.

NOTA do AUTOR – Inconsciente Coletivo, segundo JUNG é o nível mais profundo da Psique. É onde estão contidas as estruturas psíquicas que o indivíduo herda da Coletividade e que são expressas ou representadas pelos arquétipos.

E essas novas concepções foram se solidificando (e com isso, solidificando também a ideia original) até que a Psicanálise, durante a primeira metade do século XX, assentou-se como a principal alternativa ao Behaviorismo, sobretudo na França onde despontava JACQUES LACAN e seus seguidores.

Porém, após o fim da Segunda Guerra Mundial, já na década de 1950, essa primazia começou a soçobrar graças ao surgimento de outras formas de terapia, ou tratamento, que começaram a ser utilizadas em conjunto com a teoria freudiana clássica.

Em comum, todas essas formas buscavam essencialmente trazer mudanças reais, concretas às vidas dos pacientes, como, por exemplo, a linha batizada de GESTALT, liderada por FRITZ e LAURA PERLS, em conjunto com PAUL GOODMAN, que utilizavam uma visão eclética sobre todas as questões, fazendo com que sua abordagem abrangesse todos os aspectos do paciente.

Por outro lado, a Filosofia Existencialista (que tem em SARTRE seu representante mais conhecido) inspirou alguns Psicanalistas como VIKTOR FRANKL e ERICH FROMM que deram à terapia um aspecto mais associado às questões sociais e políticas.

É importante também destacar um grupo de Psicanalistas, como ABRAHAM MASLOW, CARL ROGERS e ROLLO MAY, que buscaram uma abordagem mais Humanista* e realizaram uma série de encontros nos EUA, em fins da década de 1950, de onde surgiu o primeiro arcabouço de uma “Associação” que passou a ser conhecida como a “Terceira Força”.

A principal tarefa dessa Associação era estudar temas e assuntos como a autorrealizaçao, criatividade e liberdade individual, dentre outros de teor similar. Além dessas investigações, o grupo se dedicava a convencer à Sociedade que a Saúde Mental, ou Psicológica, era tão importante quanto o tratamento dos distúrbios Psiquiátricos.

NOTA do AUTORHumanista, ou Humanismo – vale recordar que o termo Humanismo NÃO é sinônimo de generosidade, de bondade. É o titulo de um Sistema Filosófico que tem como objetivo colocar o homem como o centro do Universo. Sendo assim, no presente caso, a abordagem “humanista” da Associação consistia em colocar o homem, o paciente, como o alvo preferencial de todos os cuidados. Que a sua Saúde Mental era, de fato, sumamente importante.

Dessa forma, ainda que se visse fragmentada em algumas correntes divergentes, a Psicanálise navegava quase soberana, sofrendo concorrência apenas da chamada “Psicologia Cognitiva”, que veremos a seguir.



PSICOLOGIA COGNITIVA

A Psicologia Cognitiva censurava na Psicanálise a carência de evidências objetivas, tanto em relação às suas teorias, quanto em relação à sua eficiência como tratamento.

E, com efeito, ela produziu teorias que tiveram o aval da Ciência Clássica e, posteriormente, as terapêuticas que propôs foram clinicamente comprovadas como efetivas.

Desse modo, tirou da Disciplina a sua aura de abstração e a trouxe para a realidade concreta do cotidiano.

Psicoterapia Cognitiva

Como já se disse, os adotantes dessa tendência rejeitaram A Psicanálise Freudiana e às suas variações por considera-la “não cientifica” e baseada em teorias impossíveis de comprovação.

PAUL WATZLAWICK, por exemplo, questionou um dos conceitos básicos da analise freudiana, ou seja: a tese da “lembrança reprimida”. Outra estudiosa, ELIZABETH LOFTUS, comprovou que nenhuma espécie de memória ou lembrança podia ser plenamente confiável. Em contrapartida, Psicologia Cognitiva ofertava terapias baseadas em evidencias reais, demonstráveis, racionais, como no caso da “Teoria Racional Emotivo Comportamental  (TREC)” desenvolvida por ALBERT ELLIS. Ou, então, a “Teoria Cognitiva” de AARON BECK.

Contudo, a ênfase que SIGMUND FREUD havia dado ao desenvolvimento infantil e a historia pessoal continuou a ter grande influencia sobre a Psicologia desenvolvimentista e social e foi assim que no final do Século XX alguns Psicoterapeutas como GUY CORNEAU, VIRGINIA SATIR e DONALD WINNICOTT voltaram suas atenções para o ambiente familiar*; ao passo que outros como TIMOTHY LEARY e DOROTHY ROWE, concentraram-se nas pressões* que o meio social exerce sobre o individuo.

NOTA do AUTOR – de certa forma, esses Psicanalistas utilizaram-se, ainda que de forma obliqua, algumas premissas da GESTALTICA ao considerarem o sujeito inserido em um Todo, o quê alteraria a sua Psique

Contudo, como se pôde ver, apesar de pontos divergentes, as ideias básicas de Freud alicerçaram todo o edifício que abriga a Psicanálise.

Inobstante o fato de ter sido questionada com frequência ao longo do tempo, a Psicanálise Freudiana foi a fonte de onde desaguou a Terapia Cognitiva e a Terapia Humanista, das quais resultaram avanços efetivos no tratamento da saúde mental.

A própria popularização de alguns conceitos utilizados pelo célebre austríaco, tais como “Inconscientes”, “Impulso”, “Comportamento” etc. comprova que ele conseguiu trazer a disciplina do terreno abstrato e acadêmico para a realidade concreta do cotidiano do cidadão médio. Por isso, seu nome insere-se no rol dos grandes gênios que a humanidade produziu.


Produção de TAÍS ALBUQUERQUE - desde o Rio de Janeiro, no Outono de 2013