quarta-feira, 30 de julho de 2014

Spinoza e o Panteísmo - Parte IV - após a expulsão.



Baruch Spinoza recebeu com aparente tranquilidade a sua exclusão, mas é certo que intimamente sofreu profundamente com a solidão, a qual se tornou mais aguda porque o seu pai, frustrado por ele não ter correspondido à expectativa de ser uma sumidade judaica, também o expulsou de casa e a sua irmã virou-lhe as costas, além de tentar ludibriá-lo* quando da divisão da pequena herança que ambos receberam.
Ademais, ainda lhe pesava o sofrimento causado pelo vazio que descrença lhe acarretou. Se ele tivesse substituído a antiga fé por outra, se tivesse abraçado outra comunidade e se por ela tivesse sido acolhido, certamente que o sofrimento seria abrandado, porém, nada disso aconteceu e com o tempo ele foi se tornando mais amargo e melancólico, sem, contudo, perder a delicadeza e a nobreza que lhe conquistaram amigos fiéis.
Embora reservado, em algumas ocasiões ele deixou transparecer a sua mágoa com os “Guardiões da Lei”, como aparece em sua obra “Ética, apêndice”, onde ele diz:

“Aqueles** que desejam descobrir as causas dos milagres e compreender as coisas da natureza como Filósofos, em vez de olhar para elas assombrados como se fossem bobos, são logo considerados hereges e ímpios, e como tal proclamados por aqueles a que a massa adora como interpretes da natureza e dos deuses. Porque esses homens sabem que, uma vez afastada a ignorância, cessaria o deslumbramento, que é o único meio pelo qual a sua autoridade é mantida”.

Assim, melindrado, Baruch viveu dias sombrios até que um acontecimento mais grave fê-lo mudar-se da cidade. Em certa noite, ao caminhar pela cidade, um fanático o atacou e as consequências só não foram mais graves graças a sua agilidade, que lhe permitiu escapar com apenas um leve ferimento a faca, no pescoço.
Abalado por mais essa violência, mudou-se para a cidade de Outerdek, passando a residir no sótão da casa de uma família de cristãos adeptos da seita Memonita. Também foi, provavelmente, a época em que mudou o seu primeiro nome, passando de Baruch para Benedictus.
Os simplórios senhorios admiravam-no e foram um importante suporte para que ele recobrasse a tranquilidade e a disposição para retomar os seus estudos e trabalhos, os quais, absorviam-no de tal modo que não era raro ele passar trancado em seu quarto por dois ou três dias, sem sair nem para fazer as refeições.
E além dessa intensa atividade intelectual, Benedictus também trabalhou como professor infantil na escola de seu antigo mestre, Van den Ende, e exercia o oficio de polidor de lentes, que aprendera na escola primaria judia, como era de praxe. Com essas rendas é que se mantinha, usando de parcimônia em seus gastos como era de sua natureza. Pode-se dizer que vivia sem fausto, mas com o conforto de que necessitava. Aliás, sobre essa rigidez de hábitos, Colerus, outro residente na casa e o autor de uma curta biografia do filósofo, conta que Spinoza dizia ser como uma serpente que morde a própria cauda, numa alusão ao fato de que nada lhe sobrava, nem faltava em seu modesto orçamento.
E foi, certamente, essa tranquilidade de que ele desfrutava na casa e na companhia de seus senhorios cristãos que o levou a acompanhá-los quando eles se mudaram para a cidade de Rhynsburg em 1660. Na nova morada ele continuou com seus trabalhos e ali escreveu uma de suas obras mais importantes, “A Ética demonstrada geometricamente”, além de fragmentos de outra, chamada “Sobre o melhoramento do intelecto”.
Porém, embora tenha terminado a redação de “A Ética” por volta de 1665, ele não fez qualquer esforço para publicá-la, pois temia que lhe acontecesse o mesmo que a Adrian Koerbagh que publicara um trabalho com ideias similares as suas e fora condenado a dez anos de prisão, onde acabou falecendo, após cumprir dezoito meses da pena.
Temeroso, pois, ele aguardou até 1675 para tentar lançar o livro e com esse objetivo ele foi para Amsterdã, mas ao chegar soube de alguns rumores e, novamente, decidiu postergar o lançamento. Sobre isso escreveu ao amigo Oldenburg fazendo as seguintes colocações:

“Espalhou-se um rumor de que seria lançado em breve um livro meu, no qual eu tentava provar que não existe Deus algum. Essa noticia, lamento acrescentar, foi aceita como verdadeira por muita gente. Certos teólogos (que provavelmente eram os autores do boato) aproveitaram-se da ocasião para apresentar um protesto contra mim junto ao príncipe e aos magistrados. (...) Tendo recebido um sinal quanto a esse estado de coisas por parte de alguns amigos dignos de confiança, que me garantiram, alem do mais, que os teólogos estavam por todo canto à minha espera, decidi adiar a tentativa de publicação até que pudesse ver rumo a situação iria tomar”.
Dessa sorte, devido aos empecilhos, Benedictus Spinoza só pôde publicar em vida dois livros, sendo o segundo, anonimamente:

1) Princípios de uma Filosofia Cartesiana – 1663.
2) Um Tratado sobre a Religião e o Estado, 1670.

A sua obra mais célebre, A Ética, só veio à luz após a sua morte, juntamente com um Tratado inacabado sobre Política e outro relativo ao Arco-Íris (focalizando os aspectos de luz, refração etc.). Também foi descoberto por Van Vloten, em 1852, um texto escrito em holandês (ao contrário dos demais que foram escritos em latim como era praxe para os textos de Filosofia e científicos), intitulado “Um breve Tratado sobre Deus e o Homem”, que se acredita fosse um esboço preparatório para a “Ética”.
E mesmo tendo essas cautelas, Spinoza não deixou de ser inscrito no famigerado Índex Expurgatorius da igreja católica, que relacionava os livros proibidos pela Santa Inquisição por atentarem (sic) contra a doutrina e contra o governo. Porém, como se tornou frequente no campo das Artes, a inclusão nessa lista espúria acabou rendendo-lhe mais popularidade e prestígio e a partir daí a obra ganhou uma enorme circulação, ainda que estivesse protegida por um falso titulo que a remetia para a categoria dos livros de Medicina ou de narrativa histórica.
E com o aumento da popularidade e dos prestigio, não tardaram a aparecer as críticas ao autor e ao seu sistema. Em um dos livros escritos para refutar-lhe, chegou-se a taxar Spinoza de: “o mais ímpio ateu que já viveu na face da Terra”. Por isso, se hoje, em pleno século XXI, o termo “ateu” ainda é sinônimo de mau caráter, perversão etc. não é difícil imaginar o quanto houve de aversão ao filosofo naquela época. E além das execrações públicas, Spinoza passou a receber várias cartas que iam das mais covardes ameaças, dos insultos mais sórdidos, até as piedosas e talvez sinceras, tentativas de reconduzi-lo “ao bom caminho”.
Porém, em paralelo às censuras, ele também recebeu muitas demonstrações de apoio, como as que lhe deram o filósofo Leibniz, as de Von Tschirnhaus, um jovem inventor e nobre alemão; as do cientista holandês Huyge e as de vários outros próceres. Alguns passaram a admirar-lhe de tal modo que ultrapassaram a barreira habitual que existe entre o autor e o leitor, como foi o caso do rico comerciante de Amsterdã chamado Simon de Uries que tentou fazê-lo ser o seu único sucessor, obrigando o filósofo a um grande esforço para demovê-lo da ideia imprópria.
Outro amigo, o Supremo Magistrado da República Holandesa, Jan de Witt, deu-lhe uma pensão vitalícia e até o rei Luis XIV propôs-lhe um rico subsidio, que foi recusado porque a sua condição era a de que o filósofo dedicasse ao monarca o seu próximo livro e Spinoza preferiu a liberdade à subvenção.
Dessa forma, criticado por muitos e amparado por vários, Spinoza decidiu, em 1665, mudar-se para a localidade de Voorburg, subúrbio de Haia e depois, em 1670, para o centro da cidade com o intuito de ficar mais perto de seus amigos e protetores.
E, de fato, nesse novo lar ele estreitou o seu relacionamento com os mesmos e, especialmente, com Jan de Witt, o qual acabou sendo assassinado, juntamente com o seu irmão, por uma turba enfurecida que os acusava de serem os responsáveis pela derrota holandesa ante as tropas francesas em 1672.
Esse linchamento causou uma profunda dor ao filósofo e ele imergiu em grave melancolia por muito tempo, mas um convite feito pelo chefe das forças francesas, o Príncipe Condé, para que fosse até o seu acampamento e ali fosse homenageado por seus admiradores franceses, restituiu-lhe um pouco da confiança na humanidade, entendendo aquele gesto como prova de que a barbárie da guerra nunca conseguiria destruir completamente o espírito humano.
Mas é claro que esse entendimento não estava ao alcance do vulgo e não foram poucas as acusações de “traição” que lhe impuseram. Todavia, tais impropérios tiveram pouca repercussão, pois era patente a sua lealdade e o seu pacifismo e, desse modo, a vida prosseguiu sem grandes sobressaltos, ao contrário das agruras que certos autores quiseram dar aos seus dias, pois, afinal, ele desfrutava de relativa segurança econômica, bons e influentes amigos, um trabalho que o agradava e o reconhecimento de seus pares. Até mesmo uma Cátedra na prestigiada universidade de Heidelberg lhe foi oferecida, sendo, no entanto, recusada, pois junto ao convite estava a exigência de não tecer críticas ao sistema político e à doutrina religiosa cristã.
A sua carta de recusa é um misto de elegância e de loas à liberdade do pensamento e vale à pena transcrevê-la:

“Honrado senhor: tivesse algum dia sido minha intenção assumir as funções de professor em qualquer faculdade, meus desejos teriam sido amplamente satisfeitos ao aceitar a posição que Sua Alteza Sereníssima, o Príncipe Palatino, me faz a honra de oferecer por vosso intermédio. A oferta, ademais, cresce muito de valor, em minha opinião, pela liberdade de filosofar a ela acrescentada. (...) Mas não conheço os limites exatos dentro dos quais a referida liberdade de filosofar teria que ser mantida, a fim de que eu não parecesse interferir na religião oficial do principado. (...) Vede, portanto, honrado senhor, que não aspiro a qualquer posição terrena mais elevada do que aquela de que gozo agora; e que pelo amor à tranquilidade que penso não poder assegurar se o fizesse, devo abster-me de entrar para a carreira de professor público (...)”.
Por tudo isso, quando ele faleceu, em 20 de fevereiro de 1677, vitima de problemas respiratórios crônicos, pode-se imaginar que desfrutou de uma passagem tão serena quanto foi a maioria de seus dias. E o magnífico legado intelectual que deixou, ainda serve como sólida base para várias Escolas do Pensamento e para que o seu nome seja mantido no panteão das maiores inteligências que já habitaram esse pequeno ponto azul no universo.
Na sequência abordaremos seus argumentos e conclusões, explicitados em seus quatro livros, cuja ordem de criação será mantida, por uma questão de fidelidade ao desenvolvimento de seu pensamento.

Nota do Autor* – Baruch recorreu a Justiça e após ganhar a ação contra a irmã, doou-lhe a quantia que estava e questão.

Nota do Autor** – é difícil, ao ler esse trecho, não se pensar nos “Padres”, “Pastores”, “Bispos”, “Curandeiros” e outros charlatães que hoje infestam a sociedade e enriquecem à custa da ignorância da grande massa de oprimidos. São nestes momentos que percebemos o quão pouco evoluímos.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.