quarta-feira, 9 de julho de 2014

Schopenhauer e o Iluminismo Alemão - Parte X - O individuo genial.


Neste capitulo Schopenhauer aborda com muita propriedade os indivíduos que se situam acima da média e que por isso chocam os demais por apresentarem um comportamento inusual, que, geralmente, é classificado pejorativamente como “estranho”, “maluco”, “tolo”, “acomodado” etc.
Afinal, para o homem comum, mero escravo da Vontade e vitima do Tédio, como seria possível compreender um indivíduo que paira acima dessas cadeias? Como poderia entender, por exemplo, um indivíduo como o príncipe indiano chamado Sidharta (posteriormente classificado como um Buda, isto é, como um “Iluminado”) que num belo dia abandona os luxos de sua vida nababesca para encontrar a paz interior no seio do despojamento?
Esse tratado de Schopenhauer é, certamente, um dos mais esclarecedores sobre o tema, sendo a base para que vários autores modernos, nele apoiem as suas teses psicológicas, de autoajuda e religiosas.
Vale à pena conhecê-lo, pois, enquanto ele nos ajuda a compreender as atitudes de pessoas geniais – e dentro do possível, seguir-lhes o exemplo - também nos mostra que existe sim uma força capaz de vencer a cadeia dos Desejos e o horror do Tédio.
Nesse contexto, gênio não é, claro, o cientista brilhante, a soprano divina, o maratonista de escol, o biliardário que faz fortunas imensas e outros tipos que normalmente são associados ao sucesso e à felicidade.
Aqui, genial é o indivíduo que detém no nível mais alto a Sabedoria, pois não é preciso muito esforço para observar que quanto mais baixa for a forma de vida, mais ela é regida pela Vontade. Entre os seres humanos não é diferente, pois quanto mais embrutecido for o indivíduo, mais ele se sujeita à escravidão dos Desejos. São aqueles que buscam desesperadamente a posse, porque intuem que só existem por terem algo e não por serem uma pessoa que possa ser querida, estimada, amada.
E, infelizmente, em sua maioria a humanidade é composta por essas pessoas, cuja Vontade é imensa e cuja Sabedoria é mínima. Justamente o oposto do indivíduo genial que essencialmente prima pelo Saber em detrimento do Desejo. Segundo Schopenhauer “o gênio consiste no seguinte: a faculdade de Saber recebeu um desenvolvimento consideravelmente maior do que o serviço da Vontade exige”.
E para que essa Sabedoria aconteça é imperioso que haja uma transferência da força despendida na atividade reprodutora para o exercício intelectual, já que a reprodução é onde a Vontade se manifesta com maior intensidade, porque só através da mesma é que ela consegue vencer sua inimiga perpétua, a morte. Nesse ponto, aliás, é possível citar um exemplo que embora peque por ser extremado, presta-se muito bem como ilustração: “alguns indivíduos são tão acossados pelo instinto sexual que são capazes de cometerem estupros e outras violências sem qualquer peso na consciência, mas são incapazes de sentirem ou de despertarem uma afeição sincera, porque as suas sensibilidades perderam-se ante a dominância da Vontade que os subjuga”. Schopenhauer afirma ser essa a causa da aversão que geralmente existe entre o indivíduo dotado de gênio e a mulher, já que para ele, o gênero feminino representa a reprodução e a submissão do intelecto à Vontade (de viver) e de fazer viver. Para elas, tudo é subjetivo, pessoal e considerado como um simples meio para fins pessoais. Óbvio que essa visão negativa que o filósofo tinha sobre o universo feminino não se escora na realidade dos fatos. Também é óbvio que foi fortemente influenciada por sua péssima relação com a mãe. Contudo, sem qualquer intuito discriminatório ou chauvinista, deve-se admitir que a atenção dada pela mulher comum aos aspectos materiais (traduzida pela característica vaidade feminina), é um elemento que apoia parcialmente a afirmativa do filósofo.
Mas, voltando à corrente principal do tema, vemos que o gênio, já liberto da Vontade, pode ver o objeto (as coisas) em sua real dimensão, tal como ele é. Como se o seu pensamento fosse um raio de sol que atravessa uma nuvem deixando para trás a mera aparência, a casca, e avançando até a essência, a realidade última daquele fenômeno. É o que acontece, por exemplo, com os grandes pintores que veem nas pessoas que retratam, não só as suas características individuais, mas, também, aquilo de universal, de real, de permanente que nelas existem. O gênio percebe clara e imparcialmente aquilo que é objetivo, ou seja, essencial.
E é esse afastamento do prisma subjetivo, pessoal, que faz o indivíduo genial ser mal adaptado ao mundo dos homens comuns, governados pela Vontade. Não é falso, portanto, o estereotipo do gênio que por mirar uma estrela cai numa poça de lama. Por enxergar tão longe, ele não consegue ver aquilo que o rodeia, o que dá margem para aqueles adjetivos que expusemos anteriormente acerca de sua pessoa, ou seja, esquisito, lunático, estranho etc. e que o torna isolado das outras pessoas.
Afinal, a sua atenção se fixa na essência, no fundamental, no eterno, no universal; enquanto que a da grande massa atenta apenas para o superficial, específico, temporário etc. São dois tipos de mentes totalmente diferentes, sem nenhuma área em comum que possibilite a simpatia mutua. Quando muito, existe apenas a tolerância dos vulgares, talvez acrescida de uma admiração cerimoniosa, e a condescendência do erudito com a ignorância daqueles. Segundo Schopenhauer: “em geral o homem só é sociável na medida em que for intelectualmente pobre e ordinariamente vulgar”.
Contudo, o homem dotado de genialidade não se ressente muito da exclusão social, porque ele não depende de companhia como as pessoas comuns já que a riqueza de sua vida interior satisfaz as suas necessidades. Segundo o filósofo:
“O prazer que ele recebe de toda a beleza, o consolo que a Arte proporciona, o entusiasmo do artista (...) habilitam-no a esquecer as preocupações da vida e o recompensam pelo sofrimento que aumenta em proporção à clareza da consciência e pela sua solidão desértica entre uma raça diferente de homens”. 
A dor aumentada que ele sente, por conta de enxergar com mais clareza as atrocidades da vida, e a própria solidão a que sua genialidade o condenou, em alguns casos, podem fazer com que o homem genial leve uma vida melancólica e essa tristeza, em extremos, pode levá-lo às raias da insanidade, como acontecido com o poeta Byron, o escritor Rousseau e tantos outros.
Todavia, ainda que esses indivíduos geniais possam sofrer a melancolia e a insanidade é forçoso admitir que neles está o exemplo a ser seguido para que o homem consiga alçar o voo a que talvez algum deus o tenha destinado.

Nota do Autor – é certo que os conceitos de Insanidade, de Normalidade e de Dor são relativos, mas para não alongar a questão e não fugirmos ao escopo da obra, aqui se adjetivou como “normal” aquilo que é concernente à maioria dos casos.
 
Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.