sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Spinoza e o Panteísmo - Parte V - Tratado sobre a Religião e o Estado


(Tractatus Theologico-Politicus)
Para vários críticos esse primeiro livro de Spinoza é o que menos pode despertar o interesse do homem moderno, porque nele o filósofo usou exageradamente a argumentação, subtraindo da obra aquele toque de subentendidos que fazem a leitura se tornar mais estimulante e fluente.
Ademais, dizem, as suas críticas à Religião são excessivamente brandas se comparadas com aquelas que ele proferiu depois, no bojo do movimento que criou para combater o nefasto poder que os clérigos de todas as religiões usavam em beneficio próprio ou por puro fanatismo e ignorância.
Em relação à primeira censura é preciso admitir que talvez sejam justas, pois o livro resvala para certa ingenuidade; porém, é importante lembrar que o objetivo do autor era expor o seu ideário e não criar uma obra-prima literária. Quanto à segunda, nunca é demais recordar que as pressões ameaçadoras que pairavam no ambiente recomendavam que se tivesse muita cautela, haja vista que as fogueiras da Inquisição católica não eram apenas uma paranoia infundada. Assim, pode-se imaginar que o teor de suas críticas adequava-se à insegurança do momento e que foram ganhando corpo à medida que ele sentiu-se mais seguro, graças ao amparo dos amigos influentes e ao reconhecimento que conquistara de seus pares.
Feitas essas considerações, partamos para o livro que Spinoza inicia com o seguinte arrazoado:

“Toda a Sagrada Escritura foi escrita primordialmente para um povo inteiro e, em segundo lugar, para toda a raça humana; em consequência, o seu conteúdo teve, necessariamente, que ser adaptado, tanto quanto possível, à compreensão das massas”.
E por conta desse fator, ela é, de fato, pródiga em relatar milagres, aparições sobrenaturais, epifania espetacular etc. porque quanto mais inculto e menos dotado de inteligência for o indivíduo, mais ele é suscetível a crer. Dessa sorte, é comum no seio do populacho imaginar que o “Poder Divino” só será efetivamente percebido se for exposto de modo extraordinário, fantástico, e contrário à rotina dos processos regidos pelas Leis naturais. Não é raro, inclusive, que as inteligências menores suponham que Deus esteja inativo enquanto esses processos naturais acontecem e que, ao contrário, a regularidade da natureza deixe de existir enquanto ocorrem as “superproduções divinas”. Ultrapassa-lhes a capacidade mental, a ideia de que ambas as situações ocorram simultaneamente. Não lhes é possível imaginar que Deus e a Natureza sejam uma coisa só.
A ideia de que Deus é um “Ser” individual que paira acima de tudo é inculcada no homem comum desde a sua mais tenra infância, graças ao verdadeiro processo de “lavagem cerebral” que lhe é ministrado pelas tradições familiares, sociais, educacionais, religiosas etc.
Tradições que se formaram no início dos tempos com a tentativa dos antigos de explicarem o invisível a partir do que lhes era possível conhecer e segundo a disposição social em que viviam. E como o que eles viviam era a Monarquia Absoluta, nada mais natural que associassem a figura de Deus com a de um “Rei Superior” aos da terra, já que ele comandava a todos.
E essas tradições foram se consolidando até o ponto em que as lendas se tornaram “verdades” e esse “Ser”, de mítico, passou a ser “real”, com poderes, inclusive, de escolher seus representantes no planeta para que governassem os povos em seu nome. Inaugurou-se, assim, o famigerado “Direito Divino” que garantia a legitimidade do governante que tivesse sido declarado como “ungido”, tanto por ser o mais forte ou o mais astuto, quanto por ter tido a imensa sorte de nascer na dinastia dominante.
E não foi muito diferente o inicio das religiões e dos cleros. Primeiro, chegaram os homens que se autoproclamavam “intérpretes” da vontade divina e, depois, com o correr do tempo, os seus descendentes consolidaram as suas instituições de tal forma que em certo momento passaram até a disputar o poder terreno com os Estados.
Fica claro, portanto, o peso das tradições enquanto formatadoras da crença popular. Contudo, os beneficiados pela situação, isto é, o clero, a nobreza e seus áulicos e agregados, não tardaram a perceber que só a tradição não seria suficiente para manterem o rebanho resignado e esperançoso de recompensas futuras e que o processo de “lavagem cerebral” teria que ser contínuo e cada vez mais abrangente, nascendo daí a ideia de se criar as histórias fabulosas (e, portanto, facilmente admitidas pela massa rude), que reafirmassem a “autoridade inquestionável de Deus”, devidamente interpretada e aplicada por seus representantes (sic).
Astutamente, os inventores de tais histórias não economizaram nos “efeitos especiais” para que o “Poder de Deus” tivesse a devida publicidade e, por isso, nunca deixaram faltar os artifícios que ainda hoje são utilizados, e não só no campo religioso ou governamental, para que o convencimento fosse completo.
Os judeus, por exemplo, talvez deixassem de respeitar tão prontamente a Moises se ele tivesse contado que o Mar Vermelho se abriu apenas por causa do vento leste. Era preciso dizer que o fato fora uma intervenção direta de Javé. Ou, então, os Apóstolos Cristãos que não hesitavam em narrar, mesmo que por parábolas, os “milagres” que Deus fazia por intermédio de seu filho Jesus. E exemplos como esses podem ser encontrados no Islã, no Hinduísmo (e em suas derivações, o Budismo, o Jainismo etc.), no Xintoísmo e nas demais religiões. Atualmente, inclusive, a execução de “milagres” é o carro chefe das Seitas pentecostais (chamadas de “evangélicas” ou “crentes” no Brasil), que se utilizam desses instrumentos ao seu bel prazer e com isso conseguem auferir lucros imensos.
Por tudo isso, para Spinoza, ao não se reconhecer que a linguagem bíblica é intencionalmente recheada de situações sobrenaturais, muito se perde, pois se as Sagradas Escrituras fossem lidas apenas em seu sentido metafórico ela nada teria de contrária à Razão, ao raciocínio.
Porém, ao lhe ser dada essa interpretação literal, tanto por má fé quanto por ignorância, as suas incongruências, improbabilidades e contradições se tornam inadmissíveis para todos que possuem um mínimo de luz e com isso se deixa de tratar a religiosidade com a seriedade que ela merece, enquanto canal de acesso à transcendência.
Seria, talvez, até salutar manter certa espetaculosidade, pois todo sentimento religioso está embasado na irracionalidade e todo crente a exige de tal maneira que se ela for suprimida de uma religião, ele não tardará em fundar outra que a contenha. É da natureza das massas esse apego ao miraculoso, haja vista que no sobrenatural reside a sua única esperança de ser recompensado pelas tantas agruras e injustiças que sofre em seu cotidiano.
Contudo, seria imperioso que limites fossem traçados para evitar a manipulação odiosa dos mais ignorantes e/ou desesperados, os quais, ainda que possuidores de saber, às vezes enfrentam situações tão dolorosas que se veem impelidos a buscar no “divino”, alguma solução para as angústias.
E seria ainda mais salutar, ensinar que Deus e a Natureza são, em verdade, a mesma coisa. Um único “Ser”, indivisível, que age segundo as Leis Naturais, feitas para contemplarem o todo, o coletivo, e não o indivíduo. Que se ensinasse o homem a ver a beleza que existe nessa junção. A grandiosidade que há na justeza dessas Leis e, principalmente, o esplendor existente no fato de que a felicidade ou o infortúnio do homem é de sua responsabilidade, não estando atrelado a punições ou prêmios, aplicados ou concedidos, segundo o grau de obediência a um mitológico “Soberano do Universo”.
Em suas ponderações, Spinoza não fazia diferenciação entre o Antigo e o Novo Testamente, ou seja, entre o Judaísmo e o Cristianismo, considerando-os uma única religião, desde que de ambas fossem retiradas as interpretações equivocadas ou mal intencionadas que fomentam ódios primitivos nas camadas mais incultas e passasse a existir uma visão mais profunda e acertada de seus postulados.
Não há, dizia, um motivo real para que os judeus filosóficos e os cristãos filosóficos (no sentido de “amigos do saber”) não concordem o suficiente para viverem em paz* e de modo cooperativo. Para tanto, o primeiro passo seria convergirem a respeito da figura de Jesus, o qual, para Spinoza, nada teria de divino, embora pudesse ser escolhido como o melhor dos homens. Em suas palavras:

“A eterna sabedoria de Deus (...) mostrou-se e todas as coisas, mas principalmente na mente do homem e, acima de tudo, em Jesus Cristo”.

Spinoza também exalta a Ética pregada pelo chamado “Messias”, comparando-a com a “Verdadeira Sabedoria”. Para ele, ao segui-la, o indivíduo se eleva ao ponto de compreender racionalmente o próprio Deus, tornando-se, por conseguinte, um indivíduo livre dos dogmas que só causam as disputas e divisões. A partir de então, ele pode contribuir efetivamente para o estabelecimento de um mundo isento das querências egoístas e menores que impedem a verdadeira fraternidade e a harmoniosa felicidade.
Aqui chegados, encerramos parcialmente os comentários acerca do primeiro livro. Adiante faremos a segunda parte desses comentários, referente às questões políticas, já que as mesmas são fundamentadas no próprio indivíduo e seus valores, os quais continuarão a serem enfocados na sequência, para se otimizar o estudo da temática.

Nota do Autor* - enquanto escrevo esse Ensaio, chegam-me pela WEB, noticias sobre o conflito entre Israel e os Palestinos, que já ceifou as vidas de cerca de duas centenas de pessoas, a maioria de civis inocentes. Esse exemplo mostra o quanto existe de distância entre o que se prega e o que se vive.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessora de Imprensa e de RP., do Rio de Janeiro em Junho de 2014.