sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Spinoza e o Panteísmo - Parte XII - A Imortalidade e a Religião



Com esse tema Spinoza encerra a sua obra-prima, Ética (Geométrica). Raramente os livros despertam tantas lucubrações e discussões como este, tanto no aspecto positivo, quanto no negativo. Para alguns, a Metafísica que apresenta é pequena; a Teologia é insatisfatória e a Psicologia é medíocre. No entanto, para a maioria, é um verdadeiro guia para uma vida virtuosa, da qual resultam a paz interior e a felicidade efetiva.
Para muitos estudiosos, a Filosofia de Spinoza, a rigor, é uma tentativa de encontrar os motivos que justifiquem o seu amor ao mundo, à vida; posto que ele via-se como a encarnação de seu povo – os judeus – e igualava as perseguições que sofria com as que vitimaram os hebreus durante o transcorrer de toda a história. Perseguições, aliás, que ele não conseguia entender, por achar que eram dirigidas a homens e a povos justos e generosos.
É possível que tais estudiosos tenham razão, ainda que seja duvidoso reduzir o esplendor de tal Sistema a uma causa apenas. Porém, ainda que seja o único motivo, esse fato em nada diminui a magnitude de seu trabalho, inclusive por oferecer supostas contradições que eliminam qualquer ranço de pretensão doutrinária.
Ademais, o Sistema filosófico que Spinoza condensou na obra, faz com que ela continue sendo compatível com qualquer época, inclusive a atual, pois a profundidade dos temas abordados compensam suas eventuais deficiências e servem como eficaz contraponto à superficialidade da vida calcada na ignorância e no apego desmedido à matéria.
Exemplo dessa profundidade é a questão relativa à Imortalidade e a Religiosidade, já que ambos são assuntos centrais para a vida humana e temas constantes em todos os esforços para elevar o Pensamento.
Na juventude, em face da insuficiência de sua religião – o judaísmo ortodoxo – Spinoza buscou noutras fontes as respostas de que seu espírito necessitava e, com isso, criou uma alternativa à própria religião, sem, no entanto, desprezá-la totalmente; chegando mesmo a tirar do judaísmo as premissas que se adequavam ao seu Racionalismo.
Na maturidade aumentou-lhe o sentimento religioso e ele chegou à precoce velhice e morte, mais piedoso do que fora na mocidade. Se antes lhe bastava o ideário que propunha o mundo como um processo regido por Leis impessoais, fixas e eternas; a partir de certo momento, ele sentiu a necessidade de transformar esse “Processo frio e impessoal” em algo mais sentimental, espiritual, passível de ser amado.
Desse modo, ele tentou juntar a sua carência emocional com a ideologia anterior, vendo-se, cada vez mais, como parte de um “Todo”; como parte indistinguível da natureza. Em suas palavras:

“O maior bem é o conhecimento da união que a mente tem com toda a natureza”.

Sempre fora uma de suas teses mais caras, o fato de que a separação entre o homem e a natureza é apenas uma ilusão (uma arrogância antropocêntrica? Na.) já que tudo faz parte da grande vertente de Causa e Efeito.
O homem, na verdade, é uma forma fugaz de um Ser (não no sentido de indivíduo) maior. E, por isso, ainda que o seu corpo morra, ele se faz eterno. Como se fosse “célula” do “corpo divino”, enquanto que a sua mente, seria “simples lampejos” da mente divina. Uma panteísta fusão do indivíduo com o “Todo”, que oferece a perspectiva de que o homem seja tão imortal quanto o “Absoluto” do qual é parte. Como, aliás, já afirmavam os sadus da Índia, muito antes de sua sabedoria ter chegado ao Ocidente por intermédio, principalmente, de Sócrates e de Platão.
Helênicas teses que Spinoza encampou e que se tornaram icônicas de seu Sistema; mas, ainda assim, a junção que o filósofo propôs na maturidade, acabou recebendo a censura de vários estudiosos que a consideram mais obscura que o restante de seu pensamento.
Apontaram, inclusive, a dúvida provocada pelo holandês acerca do tipo de imortalidade a que ele se referia. Para uns, ele propusera que a eternidade seria em decorrência da reputação conquistada através da superioridade de suas ideias e de suas obras; para outros, que a imortalidade estaria associada ao indivíduo mesmo, sendo, portanto, pessoal, individual, por graça de algum milagre acontecido (sic).
É claro que essa segunda opção seria uma notória contradição ao cerne da Filosofia de Spinoza, mas, talvez, nela, eles acreditaram por vê-lo amargurado ante a iminência da própria morte, como, aliás, sucede a qualquer homem. Imaginaram-no, talvez, carente de um consolo.
Todavia, é preciso registrar que o próprio Spinoza nunca concebeu este tipo de imortalidade e sempre insistiu na diferença existente entre os conceitos de “Eternidade” e de “Permanência”. Assim ele disse:

“Se prestarmos atenção à opinião comum dos homens, veremos que eles estão cônscios da eternidade de sua mente; mas eles confundem eternidade com duração, e a atribuem à imaginação ou à memória, que acreditam continuar depois da morte”.

Ademais, ele sempre repetiu a tese de Aristóteles que nega a sobrevivência da memória pessoal “a Mente não pode imaginar ou recordar qualquer coias, exceto enquanto estiver no corpo”. E ainda no tocante à sobrevivência individual, sempre houve de sua parte a rejeição peremptória da ideia de “castigos” ou “recompensas” celestiais, como diz na última proposição do livro:
“Bem aventurança não é recompensa da Virtude, mas a própria Virtude”.
E certamente pensava igual a respeito da Imortalidade, a qual não seria a recompensa pelo “Pensamento Claro (conhecedor da ‘Verdade Primeira’, das essências ou substâncias)”, já que o prêmio é o próprio “Pensamento Claro” que leva o Passado para o Presente e adentra o Futuro, vencendo, portanto, as divisões do tempo e captando a “perspectiva eterna” que subjaz a todas as mudanças. Imortal, pois, é esse Saber que revela a permanente Criação.
Todavia, a pecha de obscuridade permaneceu, sem, no entanto, deslustrar a grandiosidade de ideário spinoziano. Preço que geralmente é pago por todos que pensam superlativamente e que, por isso, nem sempre podem ser compreendidos.
Por fim, para encerrarmos as considerações sobre a Ética transcreveremos as palavras com que o filósofo terminou a sua obra majestosa:

“Completei, assim, tudo que queria mostrar com relação ao poder da mente sobre as emoções, ou à liberdade da mente. Do que fica claro o quanto o homem sábio está na frente e como é mais forte do que o ignorante, que é guiado apenas pela concupiscência. Porque o homem ignorante, além de ser agitado de muitas maneiras por causas externas, jamais goza de uma verdadeira satisfação da mente: ele vive, além do mais, quase inconsciente de si mesmo, de Deus e das coisas, e tão logo deixa de ser passivo, deixa de ser. Ao contrário, o homem sábio, na medida em que seja considerado como tal, dificilmente é movido no espírito; é cônscio de si mesmo, de Deus e das coisas por uma certa necessidade eterna, nunca deixa de ser, e sempre goza da satisfação da mente. Se a estrada que mostrei que leva a isso for muito difícil, ainda assim pode ser descoberta. E é evidente que deve ser muito difícil, já que é muito raro ser encontrada. Pois como seria possível ela ser desprezada praticamente por todos se a salvação estivesse ao alcance de todos e pudesse ser encontrada sem dificuldades? Mas todas as coisas excelentes são tão difíceis quanto raras”.

No próximo bloco, completaremos as observações acerca do segundo livro, comentando as ideias de Spinoza sobre as questões políticas.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Comunicação com o Público. Rio de Janeiro, inverno de 2014.