quarta-feira, 21 de agosto de 2013

LEVINAS, Emanuel - Filósofos Modernos e Contemporâneos



LEVINAS, EMANUEL
1906 – 1995
A Razão vive na Linguagem

Em 1920 EDMUND HUSSERL explorava a nossa relação, ou o nosso relacionamento como os outros Seres humanos através de sua Fenomenologia. Nessa mesma época, o filósofo austríaco MARTIN BUBER, afirmava que o sentido da vida, ou da existência provém do fato de que nos relacionamos com outros homens.

A partir da década de 1960, seguindo essa tendência e fortemente influenciado pela Fenomenologia, LEVINAS estuda a questão de como os relacionamentos sociais influenciam os Pensamentos e conclui que Razão está na Linguagem, ou seja, que é através do convívio, do diálogo e do exercício da linguagem que o “Pensar Racional” se forma.

Linguagem, porém, que LEVINAS desvincula da oralidade, já que para ele, uma simples troca de olhares é suficiente para que se estabeleça a comunicação entre as pessoas.

E tal foi o sucesso desta sua conclusão que a partir da década de 1970 as suas ideias sobre a “Responsabilidade (social)” passaram a ser determinantes para a Psicoterapia e de capital importância para a Filosofia como se pode observar, por exemplo, quando JACQUES DERRIDA a utiliza em suas tratativas sobre o “asilo político”, ou quando fazem parte importante dos ideários das filósofas feministas francesas LUCE IRIGARAY e JULIA KRISTEVA.

O Ser humano e seus encontros.

Falar do Ser humano é sempre um assunto que desperta interesse, pois nada na vida nos perturba tanto, quanto o encontro com outro homem.

O simples fato de ele estar ali e nos lançar um apelo contundente, mesmo que mudo, para que o livremos da miséria indecente a que está submetido, desafia-nos a pensar e a justificar a nossa própria existência.

Mas de onde vem esse constrangimento? O que tememos?

Para melhor estudar o assunto, seguiremos o modelo empregado por LEVINAS, que frequentemente utilizava exemplos para expor os seus argumentos:

Imagine que ao caminhar por uma noite fria de inverno, você aviste um pedinte todo encolhido, tentando inutilmente proteger-se do vento gelado. Ainda que ele não lhe peça nada, a simples presença miserável do mesmo causa-lhe um incômodo que o acompanha por longo tempo. Essa característica humana, a empatia (a capacidade de se colocar no lugar do outro e de “sentir” o que ele sente) encarregou-se de estabelecer um relacionamento, uma ligação entre você que olha e ele que é avistado. Relação que prescinde de qualquer outra forma de comunicação.

O mendigo pode até não pedir qualquer esmola, mas você não consegue deixar de sentir uma espécie de “obrigação” de solucionar as suas carências.

E mesmo que se decida ignorá-lo, alguma coisa já foi comunicada.

A relação estabelecida, mesmo que informal e silenciosa, influencia o pensamento de tal modo que conforme a escala de valores que se adote, chega-se até à acusação de “antiético” por deixá-lo naquela situação.
E assim como acontece com um indivíduo, acontece com povos inteiros e é o que “nos obriga” a prestar socorro às populações atingidas pela fome, pela guerra etc.

O holocausto judeu

Nascido na Lituânia, LEVINAS era judeu e viveu na época da Segunda Guerra e do holocausto nazista. Obviamente, essa situação teve uma enorme influência em sua Filosofia, tornando-a voltada para o estudo sistemático da ética e da moralidade e trazendo para o centro de seu ideário as preocupações com o “sofrimento alheio” e com o “outro”.

Exemplo disso pode ser visto em sua obra “Totalidade e Infinito”, de 1961, que é calcada na discussão das questões morais e éticas.

Nela, além de defender a tese de que a “Linguagem” é o meio com o qual nos comunicamos com os outros Seres humanos e que a nossa comunicação prescinde da oralidade: ele argumenta que antes mesmo de se iniciar uma conversa, ou um simples e breve cumprimento, sentimos intuitivamente, instantaneamente, que estamos diante de um Ser humano e que em algum grau e de alguma maneira “temos responsabilidade*” com a sua segurança, com a sua satisfação.

Nota do Autor – quando sentimos “responsabilidade” pela segurança do “outro”, pode-se imaginar que sem ela nós o atropelaríamos com o nosso carro. Ou despudoradamente tomaríamos o seu agasalho e o seu bem estar, etc.

Alguns, claro, desdenham dessa responsabilidade, mas não conseguem escapar de “seu peso”, que tanto pode ser um simples arrependimento, ou o efeito deletério de um eventual revide, ou de uma sanção judicial.
Por isso, mesmo entre os indivíduos mais perversos, sempre existirá algum comprometimento com os outros Seres. Basta lembrar, por exemplo, que HITLER era vegetariano porque não suportava pensar no sofrimento dos animais, que nós assassinamos nos matadouros e/ou torturamos em circos, rodeios e quejandos.

A Racionalidade está na Linguagem

A partir dessas observações, pode-se entender o porquê de LEVINAS insistir que a “Razão (ou a Racionalidade) está na Linguagem.

Afinal, é nela que está a exteriorização do que “Pensamos Racionalmente” e sua existência só acontece no “Relacionamento com outro Ser”.

Ao sentirmos arrependimento por termos negligenciado ao outro, ou preocupação em favorecê-lo, ou em justificar* a nossa própria existência, estamos, na verdade, construindo “Pensamentos Racionais oriundo dos relacionamentos”.

NOTA do AUTOR - o porquê* de se ter comida, roupas e conforto enquanto outrem viver em terrível miséria.


Epílogo

Por ter essa visão humanista da filosofia em que o Ser humano e a sua principal característica – a Linguagem -assumem a posição central na disciplina e a sua contribuição fundamental em outros campos da matéria, especialmente no desenvolvimento do pensamento “Existencialista”, LEVINAS conquistou a merecida reverência com que continua a ser tratado pelos estudiosos atuais.



Produção e divulgação de TANIA BITTENCOURT, rien limitée, do Rio de Janeiro, no inverno de 2013.