terça-feira, 6 de agosto de 2013

Já é Hora Michê


Quando abriu os olhos estranhou o branco da parede em frente. Tentou coçar a vista com a mão esquerda, mas viu que estava preso à lateral da cama. Tentou com a direita e o resultado foi idêntico. A ideia de que a mosca que zumbia no ambiente viesse assentar em seu nariz o apavorou, pois sabia que estava indefeso ante a ameaça varejeira e a dor aguda que sentiu no lado esquerdo da nuca só agravou o mal estar e o terror que dele se apossava. 

A dor e a pressuposta tortura que a mosca lhe faria, fê-lo transpirar e berrar com todas suas forças, contudo do grito não ouviu som nenhum e antes de se perguntar se estava mudo sentiu outra dor. Mais extensa, mais intensa e mais profunda. 

O antigo medo – quase que de nascença - de ser esfaqueado encontrou seu espaço entre o terror da mosca e o mal estar da dor na nuca. Com o pouco de liberdade que conseguia ergueu-se no travesseiro e viu sob um sujo curativo na barriga, uns bichinhos brancos que lhes pareceu indesejados convidados para um banquete. 

O torpor quase imediato que se seguiu trouxe-lhe o escuro e nele sentiu-se leve, com a esperança de que estaria morrendo.

- Qual o seu dote?
- só a pura virgindade.
A cara de maldade que o gordo lhe fez indicou que sua tentativa de ser engraçado falhara.
- Dote? Como assim?
- Qual o tamanho da “camisinha” que o “pequeno príncipe” veste?
- Ah, certo. Desculpe-me não sabia.
- Eu vi.
- Olha, não sou super, ou melhor, “bem dotado”, não.
- Então, o que tu veio fazer aqui?
- Bom, o Nelson que me encaminhou disse que algumas nem sexo querem. Só companhia mesmo. Ir ao cinema, a uma exposição...
- E você conseguirá ficar de mãos dadas, a tarde toda num Shopping, enquanto ela se questiona por que não fizeram o "bordadinho" da gola no formato de círculo, ao invés do quadradinho que é cafona?
- Terei que conseguir, mas olha, vou te ser sincero, embora eu saiba quem faça, eu não consigo juntar o “presente” que ele pede para arranjar os meus documentos.
- Por isso você não trabalha?
- É
- Do que você vive?
- Moro numa pensão já há uns dois anos e vendo meus livros em Sebos, minhas roupas em Brechós e faço algum “bico” que aparece. De vez em quando recebo um convite para almoçar, ou consigo um empréstimo e assim vou indo. Não sei para onde, mas estou indo.
- Vou te dar este cartão e o dinheiro para tu chegar em São Paulo. Lá, procure o Rogério, certo?
- Certo, mas... eu não faço com “bichas” e...
- Psiu. O Rogério te explicará como a coisa funciona.


Ainda em estado de graça, não houve como dormir. Olhou Bete ao seu lado e tornou a admirar-lhe a boca carnuda, os seis pequenos, a cintura fina e seus largos quadris. O retrato da beleza, pensou. 
Já na sacada acendeu um cigarro e não conseguiu deixar de rir ao lembrar-se de quando uma Senhora lhe dissera que o cigarro o mataria. Coitada. Se ela imaginasse. Aliás, pensou, imaginação teve mesmo o diretor daquele espetáculo. Ter iluminado toda a boate com verde e amarelo enquanto a nova cantora baiana entoava a “Aquarela” foi lindo. 

Beleza necessária, diga-se, pois era preciso oferecer uma noite inesquecível à Bete. Já estavam juntos há onze meses e talvez pelo fato de que ele a conhecera enquanto servia à sua mãe e que depois a reencontrara em um dos treinos de tiro, indicava-lhe que ela seria a mulher de sua vida. 

Muitos anos depois soube que não.

- Nome?
- Pat. Não! P A T T Y, como em inglês.
- Splash! Ai! Ai! Ai! Não! Não! Não “doutor” ...
- Ai! Ai! Pára! Pelo amor de Deus, pára.
- Puta tem Deus? Hein, Comuna? Tem?
- Ai! Ai! Ai! Não! Chega! Pára!


(Depois de tudo, meu Deus dos Ateus, quando a encontrei sinto que a perco. Por quê? Em qual esquina nossos caminhos se distanciaram?)

- É verdade o que estão dizendo?
- Quem está dizendo?
- O pessoal da casa.
- Ah, ah, ah. Tu precisavas ver.
- Então você apagou mesmo o charuto na “perseguida” da biscate?
- E não? O diabo foi o cheiro, mas que foi engraçado foi.
- Mas, “doutor”, não me vá dizer que foi o charuto que você “confiscou” dos "comunas", vai?
- É claro que não. Aqueles eu guardei para vender para o Coronelzinho que fabrica sofá.
- É eu sei quem é. É aquele que não perde a sessão quando sabe que vamos “enrabar” um Comuna com o cassetete.
- Isso. É ele mesmo. Eu só não sei se ele queria ser o Comuna ou o “Jorjão enrabador”, ah, ah, ah.
- Olha, que ele tem jeito mesmo. Aquela mania de ser machão... Sabe como é...


A nova tentativa de levantar também foi em vão, mas dessa vez lhe pareceu ter ouvido uma voz conhecida. A voz de Bete? Ou seria outra alucinação? Como se já não lhe bastasse o que tinha, ainda dera para ter essas assombrações por conta da medicação. Apurou o ouvido e não teve dúvidas. Sim! Era Bete! Mas como? Ele a vira sair morta do “Casarão”? Escutara o barulho que a pá fazia enquanto lhe arrebentava a cabeça. Escutara-a chamar pela mãe até não poder mais...

- E a biscate do comuna, é verdade que você a matou com uma pá? O pessoal comenta muito, você sabe. Alguns dizem que esse “veneno” você pegou porque ela riu do tamanho do teu pau...
- Olhe, a tua mãe nunca reclamou.
- Calma, eu só estou falando. É verdade que foi assim que você a matou?
- Eu não! Imagine! Quem matou foi Deus, eu só ajudei, ah, ah, ah...
- Caramba, tu tem cada uma... Você já deve ter ouvido o que o pessoal tem comentado. Até o Ivan achou que foi demais.
- E quem o fdp. do Ivan pensa que é? Não é ele que adora jogar ácido no ouvido dos comunas para lhes ver desmanchando?
- Olhe, eu não falei por mal, mas acho que até o Diretor não gostou
- E quem é esse “cachorro de milico” para gostar ou não? Que se f... todos!


Era estranho ouvir Bete falando. De relance pareceu-lhe tê-la visto, mas não a reconheceu completamente, pois ela estava tão mudada. Não tinha nem o olho vazado e nem a boca cortada. E na sua pele já não se viam as marcas dos cigarros que nela foram apagados. E ela sorria tão calma. Tão confiante. Lembrou-se do quanto a amara. Do bem que sentia quando ela o chamava de “meu homem”. Do desejo que sentia quando a via envolta pela camisola branca. 

Depois, suas lembranças retrocederam e ele reviu sua curta infância e pré adolescência. Ambas terminadas por decreto. Mais especificamente pelo AI5, em sua festa de aniversario (a primeira que iria ter) pelos doze anos vividos. Lembrou-se do frio que sentia quando lavava as privadas na Rodoviária de sua cidade natal. As cinco da matina, em cidade de Serra, não raro a temperatura caia a cinco, seis graus abaixo de zero. Recordou da dor que passava quando a pimenta que embalava arrancava-lhe a pele do lábio. Rememorou Helena, sua professora de história e de cama. Reviu algumas “clientes” e de novo sentiu o asco de ter sido michê, ter sido um prostituto, uma puta. Refez mentalmente todos os estudos de Marx, Mao e Lênin e, claro, Marcuse, Sartre e Trotsky, as aulas de tiro, de fabricação de explosivos, de defesa pessoal... tanto tempo, meu Deus.

Sentiu de novo o calor do seu filho que quando era um bebezinho só dormia em sua barriga. O orgulho que o garoto sempre lhe dera e a sensação de ter sido como Deus, por que ele também criara uma vida. E riu porque o Câncer completaria a “obra” que o “doutor, não lograra êxito”.

Tantas lembranças que corriam, como em antigos filmes de Chaplin, homenageado por Drummond. O poeta que o fazia acreditar que algum dia o homem seria diferente.

Tanto vivera, tanto lera, tanto escrevera, tanto amara...

E entre lágrimas rebeldes (a única rebeldia que lhe restara), tristes, saudosas notou que Bete se aproximara. Quase que sentia sua presença, como se presença ela tivesse. Estava tão serena. Tão bonita. A vida não tivera tempo de lhe envelhecer. Mas, e ele? A miséria, o abandono, a tortura, a cadeia, o exílio, a boêmia, o casamento de mentira e o divórcio, tão inesperado quanto necessário, deixaram suas marcas. 

O que diriam as “suas clientes” se o vissem agora? Talvez o mesmo palavrão que lhe disse o travesti que o assaltara recentemente. Ou aquele que gritava o “doutor” enquanto lhe enfiava clipes embaixo das unhas.

Ou talvez não. Melhor, talvez algumas não. Talvez até elogiassem seus livros, seus poemas (há gosto pra tudo). Talvez elas tivessem amadurecido como ele e, por isso, compreenderam que o sexo que compravam, não era senão o carinho que desejavam e que sempre lhes negavam. Gostaria de rever algumas. O que lhes teria acontecido? Seriam ternas avós que os netos não conseguem imaginar numa cama?
E o “doutor”, o canalha do “lobo” que adorava enfiar baratas nos orifícios das Comunas, que fim tiveram? Ou serão eternos como a própria maldade? 

Ou eterno é apenas o perfume das rosas que à noite se abriam no jardim da pensão em Botafogo? Eterno como o amor que sempre sentira, ou, que sempre pressentira pela Musa que um dia chegaria? 

Por onde andaria a  médica que viu o "Linfoma entrar na Avenida com seus Foliões" e bem o avisara:

- Sr. Fabio, o seu caso é uma questão de meses.

De exatos seis meses, completados no último dia 26, de um Maio que não era o de Maiakóvski.

Eterno
Singelo
Efêmero
Boêmio

Tudo, de tudo comporta.

E ele não pôde deixar de sentir tristeza por abandonar  o filho e a mulher que sempre amou. Ambos foram seus motivos. 

Mas também não pôde deixar de sentir um enorme alivio quando Bete soltou seus braços da cama e o ajudou a levantar-se. Os vermes brancos na ferida deixaram de existir junto com a própria. 

Depois, deixou que Bete o levasse enquanto ouvia fecharem atrás de si um saco preto onde guardaram uma parte do que ele tinha sido.

Para Bete, saudades.