segunda-feira, 12 de agosto de 2013

KIERKEGAARD, Soren - Filósofos Modernos e Conteporâneos




O GRITO
Edvard Munch

KIERKEGAARD, SOREN
1813 – 1855
A angústia é a vertigem da liberdade.

Notas biográficas

KIERKEGAARD nasceu em Copenhague, Dinamarca, durante a chamada “Era de ouro da cultura dinamarquesa”.
 
Veio ao mundo no seio de uma família de ricos comerciantes. Seu pai era um crente fervoroso, propenso à melancolia e, provavelmente, quem mais lhe transmitiu essas características que influenciaram diretamente em sua personalidade e em sua Filosofia.

KIERKEGAARD acreditava piamente na existência de Deus nos moldes cristãos e também era propenso à melancolia, mas essas particularidades não lhe impediram de ser um duro e ácido critico da igreja dinamarquesa, a quem acusava de hipocrisia,

Estudou Teologia na universidade Copenhague e frequentou vários seminários de Filosofia, adquirindo um vasto saber nessa área.

Com a morte do pai, herdou uma fortuna considerável e a partir daí passou a se dedicar com exclusividade aos estudos filosóficos e teológicos.

Em 1837, apaixonou-se e iniciou um namoro com a Srta. REGINE OLSEN, com quem noivou após três anos. Porém, um ano após ter feito o pedido de noivado, rompeu o relacionamento alegando que a sua melancolia (que hoje seria chamada de “Depressão”) incapacitava-o para a vida de casado.

A partir de então a solidão lhe foi constante, bem como a tristeza, que, aliás, tornou-se o emblema de uma geração de pensadores que começava a descobrir o peso da responsabilidade de existir. De Ser.

Durante toda a sua vida, as oscilações de humor estiveram presentes e a sua difícil personalidade não lhe ajudou no meio-social, tornando-o um homem solitário e amargurado, inteiramente dedicado ao trabalho, aos estudos e à sua angústia incurável.

Condições perniciosas que certamente apressaram o fim precoce de sua vida, finda aos quarenta e dois anos.

Sua morte aconteceu após uma queda e uma perda de consciência e embora tenha sido socorrido em um hospital de bons recursos, não resistiu e um mês após o acidente expirou pela última vez.
Na sequência adentraremos em suas ideias.

O ideário de KIERKEGAARD

1.      Quando tomamos decisões, temos a Liberdade Absoluta* de escolha.
2.      Nesse processo tomamos consciência de que podemos escolher entre: nada fazer ou fazer algo.
3.      Diante dessa capacidade, nossa mente se apavora ante a ideia de que “nós temos liberdade absoluta.
4.      E descobrimos a Angústia e a “Vertigem da Liberdade”.

Nota do Autor* (1) – não abordaremos a questão das limitações que a penúria e outras restrições de ordem social e política impõe ao indivíduo, fazendo com que as suas escolhas não sejam tão livres quanto propôs o filósofo, para não prejudicarmos a fluidez de seu pensamento.

Pois, o fato de saber que apenas nós mesmos é que teremos responsabilidade pelas escolhas que fizermos e que por isso arcaremos com as consequências respectivas, impõe-nos uma Liberdade para a qual não fomos preparados, haja vista que somos “jogados” involuntária e aleatoriamente no mundo.
Nada nos precedeu e tudo que tivermos que aprender será no desenrolar da existência. Possuirmos, então, tamanha Liberdade ofusca-nos e nos causa à sensação de Vertigem, da qual sobrevém a sensação de Angústia que nos acompanha em todos os momentos da vida.

Mesmo quando nos acovardamos e nos refugiamos na Vida Inautêntica; ou seja, naquele tipo de vida em que as ocupações e preocupações cotidianas, menores, superficiais são falsamente tomadas como essenciais. Quando fugimos da “Verdade”, sem adentrar mais profundamente nas grandes questões existenciais.

O Existencialismo

A partir dessas premissas, KIERKEGAARD desenvolveu o seu Sistema filosófico e por isso é considerado por vários eruditos como o fundador do “Existencialismo”, principalmente no ponto em que somos classificados como “Seres abandonados na vida.

NOTA do AUTOR – a bem da verdade é oportuno que se registre que alguns de seus antecessores já haviam apontado para essas questões, mas a sistematização que ele lhes deu justifica a autoria que alguns lhe concedem.

Como se disse, o horror que sentimentos por termos a capacidade de escolher vêm da intuição de que “pagaremos” por nossas decisões. Somos deixados aleatoriamente num mundo que exige escolhas a cada segundo sem que nada, nem ninguém, tivesse nos preparado para optar por “X” ou por “Y”.

Mesmo inconscientemente, agora, estou escolhendo quais palavras usarei para terminar esse subtítulo e você estará escolhendo se continuará a leitura ou não.

O pessimismo

Para vários estudiosos a visão Pessimista do pensamento de KIERKEGAARD e de seus seguidores surgiu como reação ao Idealismo Alemão que dominava o cenário filosófico do Ocidente em meados do século XIX.

Certamente que foi uma atitude que lhe granjeou vários desafetos, mas também inúmeros admiradores, desejosos de experimentar outro modelo Filosófico e com isso escapar da visão hegemônica que se instalara nos meios acadêmicos e eruditos, principalmente graças à supremacia do ideário de HEGEL e de seus seguidores.

KIERKEGAARD, com efeito, propôs-se a combater a noção de um “sistema filosófico completo”, nos moldes do Hegelianismo, cuja tese central definia a humanidade como mera parte de um “desenvolvimento, ou de um desenrolar, histórico inevitável”.

Defendia, ao contrário de HEGEL, uma abordagem individualista, ou subjetiva, de cada homem. Buscava resgatar a investigação sobre o que significa, de fato, ser humano. Existir como homem em sua nobreza de indivíduo singular e autônomo e não como mera parte de um grande sistema filosófico.

Contudo, suas objeções a HEGEL não eram totais, pois tanto quanto o alemão, ele também acreditava que as nossas vidas acontecem por obra das nossas ações, as quais são oriundas das nossas escolhas e que isso é o que define a nossa moralidade, principalmente na questão relativa ao embate e a decisão entre o autoprivilegio hedonistico* e a “consideração ética” aos interesses de terceiros.

NOTA do AUTOR – Hedonístico, modo de proceder no qual o indivíduo só se preocupa em obter a máxima satisfação material possível, sem qualquer preocupação com os direitos alheios e com as questões mais profundas da vida.

Contudo, se para HEGEL essa escolha era grandemente influenciada pelas condições materiais, intelectuais e emocionais do momento histórico vivido pelo individuo, para KIERKEGAARD as Escolhas Morais não tinham essa dependência tão significativa. Derivavam mais de outros fatores.

Ademais, por serem subjetivas ou individuais seriam dissociadas de qualquer relação com o grupo, pois, ainda que o meio social exerça algum tipo de influência, ao cabo, a decisão final será sempre do sujeito.

Cada indivíduo faz a sua escolha de acordo com suas convicções e com seus valores mais íntimos*.  Por isso, inexiste qualquer padrão ou tendência nessas opções. É exclusivamente a “vontade do indivíduo” que determina seus julgamentos.

NOTA do AUTOR – sempre ressalvando, é óbvio, que sempre existirá alguma influência do meio, mas essa não atinge o âmago do indivíduo. Por outro lado, fica pendente a questão relativa à formação desses valores íntimos. Quais os fatores que influenciaram a personalidade do indivíduo? O seio familiar? As condições materiais em que foi criado? Etc.

Porém, como já se disse e ao contrário do que se poderia imaginar em um primeiro momento, essa plena liberdade de escolha está longe de causar prazer ou bem-estar ao homem, já que é precisamente por desfrutá-la que ele se torna o único responsável pelo acerto ou pelo equivoco de suas decisões.

Com efeito, somos obrigados a decidir continuamente sem que nada ou ninguém tenha nos ensinado como fazer a escolha certa; ou, melhor, sem que exista qualquer garantia de que existe uma “escolha certa”.

E termos ciência dessa condição, dessa enorme responsabilidade, e o fato de não haver “um Manual” que nos oriente como agir, causa-nos a constante apreensão que sentimos. O medo constante de “escolhermos errado” e das consequências que tal erro nos acarretará.

Consequências, que podem ir de um doloroso remorso, de um penoso arrependimento individual, até a severidade dos tribunais. Além, é claro, da perspectiva de sermos castigados por toda Eternidade, como temem os que acreditam em divindades religiosas.

A invenção de Deus

Tem-se, então, a “Eterna Angústia*” que todos sentem. Inclusive aqueles que tentam se refugiar na chamada “Vida Inautêntica*” e acabam, por isso, aumentando ainda mais o seu sofrimento por conta dos citados “castigos infernais” e outros de ordem metafísica e de falsa moralidade.

E para se resguardarem da “Angústia” e perpetuarem a ilusão de que há algum propósito, algum sentido para a existência, os Inautênticos inventam Deus (es), a Quem repassam esses mistérios e a responsabilidade de os fazer felizes, enquanto eles se resignarem a obedecer à Leiou àVontade de Deus.

KIERKEGAARD abordou esse sentimento de Medo Constante e difuso em sua obra “O Conceito da Angústia”, de 1844.

Ali, além das observações acima expostas, o filósofo utiliza-se de exemplos para explicitar essa malévola sensação. Citaremos um deles:

Um homem, no alto de um precipício ou de um prédio, olha para baixo e sente dois tipos de medos:

1.   O medo de cair no vazio (ou no Desconhecido), representativo do “mundo escuro” onde terá que fazer as suas opções e o pavor pelas consequências resultantes das mesmas, já que qualquer escolha que fizer sempre deixará uma parte ressentida.
2.   O medo do próprio impulso de saltar no ar. O medo de ousar. O medo de “voar” mais alto. O medo de abandonar a sua ignorância, que por vias tortas ainda lhe assegura alguma “zona de conforto”.

NOTA do AUTOR 01 – talvez se deva incluir nos tipos de “Medos” que mais comumente aflige o homem, aquele que pode nos impulsionar ao suicídio quando tomamos ciência da nossa condição de “Sisífos”, cuja labuta insana e sem sentido, como a maioria de nossas ocupações, obrigava-o a rolar uma rocha, ou a vida do homem comum, morro acima só para vê-la cair, tão logo atingia o cimo do monte. O medo do suicídio, que pode ser (e quase sempre é) agravado pela crença de que se está cometendo um “Pecado” perante o Deus de sua religião e o medo da censura ao seu gesto que a Sociedade fará, taxando-o de “covarde”.

NOTA do AUTOR 02 – mencionamos acima que o medo do suicídio chega ao crente acrescido do medo por pecar. Essa junção, essa somatória, talvez, possa explicar a melancolia crônica de que KIERKEGAARD sofria e que o levou a uma vida de solidão e tristeza. Afinal, a sua devoção religiosa foi constantemente bombardeada pelas verdades da Racionalidade filosófica.

O medo, segundo KIERKEGAARD, oriundo do “Poder de Escolha”. De se saber capaz de pular ou não do precipício. E de ser incapaz de saber se se deve, ou não saltar.

Medos tão atordoantes que geram naturalmente, automaticamente, a chamada “Vertigem”. O nocivo efeito colateral de nossa liberdade de escolher e que nos acarreta a responsabilidade exclusiva por nossas opções.

E é de tal monta o medo que essa responsabilidade assume que não são raros os casos de atordoamento, tontura e vertigem. Vertigem que, tempo depois, SARTRE chamou de “Náusea”.

Vê-se, portanto, o quão duro para o homem é escolher. E justamente por isso, quase todos, segundo as suas posses, não hesita em delegar a terceiros as decisões que deveriam ser suas. Para fugir da responsabilidade, o homem não hesita em se submeter às escolhas alheias, mesmo que isso implica em abrir mão de sua independência e até de sua decência.

E com essa lanosa postura, ele vive resignadamente seguindo as Leis, os Costumes, as Regras que outros decidem implantar, pois lhe fala alto e de modo imperativo o medo de arcar com o peso das escolhas.

Porém, talvez por um resquício de dignidade, ou mais certamente por mera questão de imagem, quer-se ter o “Direito” de ser “vitima” das circunstâncias produzidas pelas escolhas que terceiros fizeram.

O caso da Política Partidária e Eleitoral é um exemplo clássico dessa situação. Culpa-se, despudoradamente o representante eleito, como se a responsabilidade pela sua eleição não fosse do acusador.

Epílogo

Para KIERKEGAARD, a Angústia que sentimos ao fazer qualquer tipo de escolha, torna esse poder de optar mais um fardo que um bônus. É a ocasião em que nos tornamos conscientes do Poder que temos e que nos possibilita até a mais terrível das decisões.

Todavia, quando ele descreveu essa Angústia como “A Vertigem da Liberdade*”, mas que ela também pode ser útil ao nos livrar de respostas impensadas e de situações difíceis, deixou patente uma ponta de esperança no ato de viver.

Contudo, tal sutileza não foi captada por seus contemporâneos e as suas ideias foram severamente rejeitadas.

Sua argumentação acerca da liberdade de escolha, da inexistência de qualquer essência precedente à existência e a sua interminável busca por um significado ou propósito para a vida, só vieram a ser reconhecidas depois, ao forneceram o primeiro arcabouço para o Existencialismo.

E, também, ao fornecerem as premissas para os “Sistemas Filosóficos” de importantes eruditos como NIETZSCHE, HEIDEGGER e, mais tarde, por SARTRE.

Por outro lado, inobstante o fato de seu pensamento apontar para a possibilidade de vivermos em um universo onde cada ação é uma escolha humana individual, exceto o ato de nascer e de morrer involuntariamente, e sem a presença de qualquer ente divino, KIERKEGAARD não abandonou a sua crença na metafísica e no Deus cristão, ao contrário da maioria dos pensadores.

E por ter vivido essa dualidade, ele pagou o alto preço de uma vida melancólica e breve, mas certamente gravou seu nome de forma perene no rol dos mais importantes pensadores da atualidade. A própria duplicidade entre a sua crença e o seu pensamento racional aponta para a superior amplitude de seu intelecto.

 © Registro na BNRJ/EDA sob nº 605.931 – Lv. 1.161 – Fls. 121.  Proibida qualquer forma de cópia.

 Produção e divulgação de TAÍS ALBUQUERQUE, do Rio de Janeiro no inverno de 2013.