Chegastes suave como o orvalho e então eu soube que tu eras o jasmim recém colhido, que o Rouxinol anunciara no canto primeiro da aurora.
domingo, 9 de setembro de 2012
Estações
Nas faces pardas
os olhares pardos já não brilham.
Talvez ainda mirem a terra que ficou
e a vida que se deixou.
São opacos, baços, pardos.
Três prostitutas idosas
desfilam sua inútil experiência
em vestidos de faillet azul.
Vestidos que voltarão intocados
aos armários em que habitam.
Os olhares pardos não os despiram,
tampouco lhes sorriram
as faces dos homens pardos.
Uma jovem opulenta
ostenta na canela pesada
tatuagens em ideogramas chineses,
quem lhe acompanha
toca um Sax inexistente
e a criança que levam
chora por todos os motivos.
Próximas da "Escada Rolante",
que como o Tempo devora o próprio passar,
falsas ciganas insistem em ler
as mãos vazias do ouro que querem
e surdas pragas acompanham
a moça que queria saber o Futuro.
Na plataforma, beijos
tentam evitar as ausências,
mas é em vão que os abraços
enlaçam os corpos,
pois todos se vão.
Pois todos ficam.
Resta apenas essa bruta vontade
de escrever um poema
e contar como dói
a distância.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
O "7 de Setembro"
Em 1.500 certo marujo teve a primazia
de avistar essa terra de Santa Maria.
Junto, chegaram capitães, soldados e padres em romaria.
Com a primeira missa, fixou-se a intenção: pilhar nunca seria em demasia.
À segunda seguiu-se a ação: domar os nativos e extinguir a selvageria.
Domados e reduzidos a lacaios daquela confraria,
viram os brasileiros que nem Tupã escaparia.
Mas como isto não bastasse na terra da Sesmaria,
rumaram para África e foi a vez do negro pagar por sua heresia.
Qual heresia? Aquela de ter um deus que lhe sorria.
Tomaram-lhe a liberdade, a dignidade e o que mais havia.
Mudaram-lhe até o Deus. Olorum já não se lhe permitia.
Porém, certo dia, certo Napoleão, colocou a Corte em correria
e para cá mudou-se a realeza. A contra gosto todavia.
Contudo, sem opção, estabeleceu-se o reino nessa freguesia,
até que Bonaparte também passasse. Alguns ficaram. Talvez à revelia.
Nas Minas, certo dentista perdeu a cabeça por ousadia.
Sabia o gajo que a Liberdade é a Mais-Valia.
E como tantos outros ousaram esta doce utopia,
não nos queixemos, pois sempre houve quem lutasse contra a vilania.
Rolaram cabeças e amores, mas veio o que tanto se queria:
declarou-se a Independência, ainda que olvidassem da efetiva alforria.
Governos diversos. Ditadura perversas. Até Democracia;
ainda que se esquecessem de acabar com a triste fantasia
de esconder o horror da miséria e expor a falsa alegria
dos bobos das Cortes. Será uma simplória miopia?
Quem sabe? Talvez um dia...
E assim vamos indo nesta triste calmaria.
Patética travessia! Para alguns, somos os reis da folia ...
Armada a lona, o palhaço autêntico que há tempos não se via pergunta:
Tem Marmelada? Têm sim sinhô! É a corrupção que propicia.
Têm latifúndio? Têm sim sinhô! É uma mania.
Têm prostituição infantil? Têm sim sinhô! Turistas gostam de pedofilia.
Têm injustiça social? Têm sim sinhô! É de Deus. É de serventia.
Têm nepotismo? Têm. Mas não fale moço. Ainda lembro da “Otoridade” que me batia.
Têm trabalho escravo? Têm . . mas não fale. Eu nem sei o quanto lhes devia.
E político que se julga patrão e não funcionário público? Tem, por causa da nossa covardia.
Mas não fale . . . sabe como é moço . . . era a ele que eu me vendia.
E agora, seleta platéia, têm solução?
Sei não!
Quem sabe alguém nos auxilia?
Já se fala em CPI, em Rigoroso Inquérito para acabar com esta aleivosia ...
É que são tão poucos os que exercem a quase extinta cidadania.
Até eu, aprendiz inepto de poeta, submeto-me à nova tirania
chamada de Globalização; aquela que uniformiza a minha história, a minha poesia
e que rouba a minha identidade. O que sou e por onde ando já nem sei.
Também ignoro aonde, porque e como errei.
O diabo é que não raro, ao pensar no “7 de Setembro”,
pego-me dizendo que é o “Independence Day”.
Produção e divulgação de TANIA BITENCOURT, desde Florianópolis, no inverno/primavera de 2013.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Uma Musa
Sempre houve uma Musa apenas,
porque sempre se quis o Amor verdadeiro.
Desses, que permitem o silêncio
que tudo diz sobre o que não se fala.
Desses, em que o Desejo
é o orgasmo que se prolonga
pelas mãos que se dão
para que o sono não afaste
as almas adormecidas.
Desses, que antecipam a madrugada
em que os versos são escritos
e nos quais se sabe que as Odisséias
são redivivas e a Poesia é possível.
Desses, em que se entende
o porquê de Odisseu tanto navegar
em busca de sua Penélope única;
sabia o herói
que ainda que o Mar
seja a liberdade
é doce o gosto de ficar,
pois o perfume da rosa
só há,
porque a raiz existe.
Desses, que um dia no calendário
é mais que uma marca.
É o signo do eterno recomeçar.
Para a Cris,
Digitado pela Taisinha.
domingo, 2 de setembro de 2012
George LUKÁCS - Filósofos Modernos e Contemporâneos (Revisado)
LUKÁCS, Georg Bernhard
Von Szegedin.
São Paulo, 02 de Setembro de 2012.
1885 – 1971
Szegedi Lukács Gyorgy
Bernát (em húngaro) nasceu em Budapeste, na Primavera europeia.
Sua importância na
Filosofia Contemporânea é reconhecida até por seus críticos e segundo Lucien Goldmann ele foi capaz de
refazer em sua vida atribulada o que houve de principal na Filosofia alemã.
Inicialmente como Critico (no
sentido de “estudante minucioso”) sob a influência de Immanuel Kant, depois como adepto de Hegel e, por fim, como seguidor de Karl Marx.
Sua reputação é
decorrência direta de seu talento e de sua dedicação aos estudos, os quais
foram terminados, em nível acadêmico, na Universidade de Budapeste.
Ali, além do currículo
escolar, LUKÁCS desenvolveu várias outras atividades e se associou a alguns
círculos Socialistas, sendo que em um deles teve contato com Ervin Szabó, renomado Anarquista e
Sindicalista, que lhe apresentou as obras de Georges Sorel.
Devido a tais
influências, LUKÁCS foi, num primeiro momento, um sincero entusiasta do “Anti-Positivismo” (ou seja, condenava com veemência o “Materialismo Cientifico” e a “Rigidez
da Moralidade Positiva” já que ambas contrariavam os preceitos da Filosofia Anarquista) enquanto demonstrava um tímido
entusiasmo pelo “Modernismo”, apenas por ser o inverso do “Classicismo”
que imperava nas Artes à época.
De 1904 a 1908,
envolveu-se com as pessoas de uma companhia de teatro que já havia encenado
peças de Henrik Ibsen, August Strindberg
e Gerhart Hauptmann. A companhia
desses Intelectuais, em conjunto com os anteriores, foi um poderoso incremento
em sua Cultura e um fator decisivo para orientar a sua perspectiva sobre o
Mundo.
Tornou-o aberto para as
possibilidades que estão além da estreita visão burguesa e o convenceu da
importância da Racionalidade para
minar as antigas superstições religiosas que foram adaptadas para a Política e
que embasavam a organização da Sociedade.
LUKÁCS passou a maior
parte de sua juventude na Alemanha e entre os estudos que realizou na Universidade
de Berlim (1906-1910) e na de Heildeberg (1911-1913), conheceu mais
alguns Intelectuais que consolidaram sua erudição e aumentaram-lhe o leque das
opções filosóficas. Dentre outros, conheceu:
Georg Simmel, Max Weber, Ernst Bloch e
Stefan George, os quais, junto com o próprio ambiente universitário,
levaram-no a adotar o Neokantismo*, como Sistema
Filosófico preferido, sem, no entanto, repudiar suas antigas inclinações por Platão, Hegel, Kierkegaard, Dilthey e Dostoiévski (que geralmente é mais conhecido como romancista).
NEOKANTISMO – (do grego, neo = novo +
Kantismo) Movimento filosófico da
segunda metade do século XIX que se difundiu principalmente na Europa. Sua
principal proposta era afirmar a Filosofia como “Teoria do Conhecimento” e fundamentadora
das Ciências Naturais e das Normas Sociais, segundo o Ideário de Immanuel Kant.
Ativismo Político
Após graduar-se, LUKÁCS
voltou à Hungria em 1915 e passou a liderar um grupo de Intelectuais de Esquerda que contava em suas fileiras com Karl Mannheim, Béla Bartok, Béla Balázs,
Karl Polanyi etc. Ali ele começou sua prática efetiva nas lidas do
Socialismo.
Com a eclosão da Primeira
Guerra Mundial e da Revolução Bolchevique, adaptou seu Ideário ao momento e em
1918 juntou-se ao Partido Comunista
Húngaro tornando-se dedicado e fiel Marxista.
Durante o curto Governo
da República Soviética da Hungria ele
foi feito “Comissário do Povo para a
Educação e Cultura” e trabalhou na 5ª Divisão do Exército Vermelho Húngaro.
Após a derrota e queda da
Republica Húngara, caiu na clandestinidade, mas acabou preso em Viena, Áustria,
e só escapou da deportação graças à intervenção de Intelectuais renomados,
como, por exemplo, Thomas Mann e Heinrich Mann.
Em termos intelectuais,
voltou sua atenção para os Pensamentos de Lênin
e trabalhou no desenvolvimento dos mesmos.
Resultou desses estudos a
obra “História
e Consciência de Classe” – sobre a qual falaremos mais algures –
formada por uma coletânea de Ensaios, cuja publicação primeira, em 1923, obteve
uma enorme repercussão em justa compensação ao seu esforço em prover o Leninismo de melhor base filosófica.
Alguns de seus admiradores
chegaram a comentar a respeito da mesma que nem o próprio Lênin teria feito melhor, porém essa simpatia não foi unânime e o
livro foi duramente atacado por Grigory Zinoviev
(que posteriormente foi perseguido por Stalin) no 5º Congresso do Komiterm, em 1924.
Contudo, não obstante
esse revés continuou seu trabalho sobre Lênin
e logo após a sua morte escreveu um curto estudo sobre o mesmo, intitulado de “Um Estudo sobre a Unidade de seu Pensamento”.
Em 1925 mudou seu foco e
publicou uma revisão critica do “Manual
do Materialismo Histórico” de Nikolai
Bubkharin.
No campo político e na
condição de húngaro exilado, permaneceu ativo na “Esquerda” do Partido
Comunista Húngaro e nessa situação se opôs tenazmente à política de Béla Kun.
Suas “Teses sobre Blum”, de 1928, clamavam pela derrubada do Governo de Horty (Miklós 1868 – 1957) e pela
instauração de uma “Ditadura Democrática
do Proletariado e Camponeses” como estágio intermediário até que ocorresse
a implantação definitiva da “Ditadura do
Proletariado”.
Todavia, novamente, suas
ideias não tiveram boa aceitação pelo Komiterm
o que o obrigou a fazer, posteriormente, uma autocrítica reconhecendo a
impropriedade de sua posição.
De 1929 a 1933 o Filósofo
permaneceu em Berlim, mas diante da ascensão do Nazismo mudou-se para Moscou e
ali permaneceu até o fim da 2ª Guerra.
Aproveitando-se desse
ensejo, as forças que lhe faziam oposição voltaram ao ataque acusando-o de ser “Agente Soviético” por ter residido na
Rússia durante aquele período. E tal perseguição lhe ocasionou sérios
contratempos em seu regresso à Hungria. Porém, apesar disso, ele se envolveu no
estabelecimento do novo Governo húngaro e foi eleito para a “Academia de Ciência Húngara”.
De 1945 a 1946 ele se
dedicou a criticar os autores não comunistas como parte de seu trabalho no Partido.
Trabalho que, aliás, era-lhe agradável, pois ele compartilhava dessa censura,
taxando tais autores de “deficientes
intelectuais”. E seu zelo na tarefa foi tal que ele acabou sendo acusado de
participar do “jogo administrativo”
de remoção dos Intelectuais independentes e/ou contrários ao Regime.
Dentre os Pensadores que
teriam sido perseguidos por LUKÁCS pode-se citar, entre outros, Bélas Hamvas, István Bibó, Lajos Prohászka,
Karoly Kerényi, sendo que alguns foram presos em várias ocasiões, outros
mandados para manicômios e, outros, forçados a trabalhos menores e/ou braçais.
O pensador Claudio Mutti afirmou a propósito, que
LUKÁCS teria sido membro da “Comissão do
Partido” responsável pela elaboração das listas de livros proibidos por
serem “antidemocráticos” e/ou “socialmente aberrantes” que o “Departamento de Propaganda e Informação”
do Gabinete do 1º Ministro impunha ao País, enquanto silenciava os autores
proscritos, pelos métodos conhecidos.
Essa acusação nunca foi
cabalmente comprovada, mas o certo é que LUKÁCS influiu diretamente na censura
estabelecida pela chamada “Tática Salami”
que vigorou na Hungria durante os anos de 1945 a 1950, sob o governo de Mátyás Rákosi. Porém, até onde se sabe,
apenas como Critico de Literatura e avesso aos métodos ditatoriais.
Ademais, deve-se dizer, é
sabido que LUKÁCS acreditava na superioridade da “Arte Socialista”, mas preferia que essa vantagem decorresse da honesta
competição entre estilos e não através de expurgos, deportações, censuras,
deportações, desaparecimentos e outras “medidas
administrativas”.
Aliás, essa sua
tolerância artística e intelectual custou-lhe o próprio cargo quando o
Presidente Mátyas reeditou a famigerada
“Tática Salami” sobre o próprio Partido Comunista Húngaro, entre 1948 a
1949, e o expulsou dos quadros do Governo.
Ao Partido, contudo, ele
voltou no ano seguinte, 1950, e conforme seus adversários, “convencido” a cooperar com o Regime que, assim, o teria usado
durante a prática dos expurgos que foram feitos na Associação de Escritores, entre 1955 a 1956.
É verdade que alguns
Intelectuais como Aczel e Merav minimizaram a sua participação
nos funestos acontecimentos, afirmando que ele participou apenas como
assistente e que cedo demonstrou a sua insatisfação ao abandonar as reuniões.
Após a morte de Stalin em 1956, LUKÁCS tornou-se Ministro no breve Governo de Imre Nagy que não contava com a
simpatia da URSS.
Ainda como Ministro,
participou da antipartidária Associação
Revolucionária Comunista “Petofi” e atuou em várias frentes em prol de
reformas que restituíssem credibilidade ao desgastado “Partido Comunista Húngaro”. Mas seu ativismo não foi bem aceito e
ele esteve prestes a ser preso e fuzilado nas décadas de 1960 e 1970, como
foram vários de seus companheiros.
NOTA do AUTOR - Seus livros “O Jovem Hegel” e “A Destruição da Razão” foram utilizados
para acusá-lo de ter-se tornado um inimigo do Socialismo por ter distorcido
(sic) a ligação do Marxismo com o Hegelismo e ter denunciado (sic) a
Irracionalidade do Sistema.
Após a queda do Governo Nagy, foi deportado para a Romênia com
o restante do staff do Presidente deposto. Lá, permaneceu fiel ao Comunismo,
mas se tornou um critico mordaz do Partido Comunista da URSS e o da Hungria até
os últimos anos de sua vida.
A Obra
LUKÁCS não foi um autor
extremamente prolífico, mas a qualidade superior de seus textos garantiu-lhe o
merecido prestigio que ainda hoje lhe é creditado.
Seu livro, “História
e Consciência de Classe”, de 1919 – 1922 iniciou a corrente de
pensamentos que posteriormente tornou-se conhecida como “Marxismo Ocidental”.
Um dos destaques
positivos da obra é a contribuição que empresta ao debate relativo à ligação da
Sociologia, Política e Filosofia com o Marxismo. Outro ponto destacado é a
reconstrução da “Teoria Marxista da
Alienação”. E, também, a reflexão do autor sobre outras teses de Marx, como Ideologia, Falsa Consciência, Retificação, Consciência de Classe etc.
Na sequência veremos seus argumentos sobre algumas delas:
Sobre a Ideologia
ele reafirma a sua tese de que a mesma é uma “Projeção da Consciência de Classe da Burguesia”; ou seja, aquele “conjunto de ideias, crenças e valores” relata, ou descreve, o que
os Indivíduos Burgueses pensam sobre
si mesmos e sobre o grupo sócio econômico e cultural a que pertencem. Expressa
a convicção de que a reunião desses indivíduos, cujas ideias e valores são semelhantes,
forma uma “Classe Social”.
Segundo ele, a Ideologia é usada pela Burguesia como se fosse uma “Verdade Absoluta ditada por Deus” e que,
por isso, deverá ser aceita e obedecida por todos. Com isso, a Classe dos Burgueses pretende evitar que
o Proletariado tome consciência de
sua miserável condição e de seu imenso potencial revolucionário.
NOTA do AUTOR – observe-se aqui a semelhança, que não é aleatória, com o Pensamento
de ALTHUSSER.
Em outro texto, “O que é o Marxismo Ortodoxo?” o Erudito
analisa a Falsa Consciência e afirma que a “Ciência do Real”, ou o “Conhecimento
da Realidade” deve limitar-se ao que é efetivamente concreto e se deve
pensar ou refletir de maneira exclusivamente objetiva sobre um Período histórico,
para se conseguir desmistificar as falsas “Verdades
Eternas”, tais como as “Leis
imutáveis da Economia”, posto que essas, não passam de meras ilusões ou
distorções criadas com nefastos objetivos.
Quanto a Reificação,
LUKÁCS argumenta que tal Coisificação é uma decorrência da
própria natureza (ou forma de ser) da Sociedade
Capitalista, que induz o individuo a privilegiar os seus interesses
pessoais acima de tudo.
A Coisificação impede, portanto, o surgimento da “Consciência de Classe”, já que esta obrigaria o indivíduo a pensar
primeiro nos interesses de sua “Classe”
e só depois nos seus particulares.
Reificaçao – Coisificação – reduzir o Ser Humano, ou aquilo que é ligado a ele (como as suas crenças, ideias, etc.) a
valores exclusivamente materiais, físicos, concretos. O termo Reificação é originário do latim (“res” = coisa + ficar + ção) e
indica o momento em que o Homem se torna apenas uma “Coisa” e é afastado e de suas características humanas (de suas ideias, crenças, sentimentos, valores éticos ou morais como
honra, dignidade etc.); assim como toda a realidade objetiva, concreta, material. Tudo passa a
ser apenas “um objeto inanimado”. Esta condição é inevitável e acontece durante
o “Processo de Alienação” que lhe é
imposto pela natureza (ou forma de ser) do Capitalismo.
Aos interessados em aprofundar-se no tema, recomendamos a sugestão
do Sociólogo e Mestrando em Critica de História da Arte, Thyago Marão Villela, para que se estude a “Teoria do Fetiche” de Marx,
onde ele coloca a tese de que no Capitalismo as “coisas ou objetos” parecem
estabelecer relações sociais (como se fizessem amizades,
intrigas, inimizades etc.) enquanto os Indivíduos se
quedam passivos perante os mesmos, transformando-se também em meras “coisas ou
objetos”.
Assim sendo, para o
surgimento da “Consciência de Classe”
é imperioso extinguir o processo de “coisificação”
tão logo ela se materialize, o que só é possível com o surgimento de Correntes
Filosóficas e Políticas que quebrem a inércia vegetativa em que vive o Proletariado e que este ganhe poder
intelectual através de estudos, para que na sequência apareçam Partidos Leninistas capazes de orientar
a Revolução.
Mas o que vem a ser
exatamente a Classe Social?
Em sua obra já citada “História da Consciência de Classe”, de
1920, ele trata primeiro da ausência de definição sobre “Classe” na obra de Marx
e, num segundo momento, propõe a sua definição:
O que forma uma Classe Social é a posição do grupo de indivíduos que a
compõe em relação ao “modo de produção” (ou
seja, grosso modo, Engenheiros compõem [ou
fazem parte de] uma “Classe Social” e
Pedreiros compõe outra, justamente porque cada qual ocupa uma posição diferente
em relação ao modo de produção).
Na sequência, afirma que
em cada “Classe” (no Sistema Capitalista) há uma Consciência, a qual, porém, não é
formada segundo os interesses dos indivíduos componentes da mesma, mas sim pelo
seu Sentido Histórico, ou seja, pela
suposição criada no correr da história de que uma Consciência seja vinculada racionalmente a determinada Classe por haver uma ligação entre
densidade intelectual e firmeza da Consciência.
Em tese: a “Classe
Burguesa” graças ao fato de ser composta por indivíduos com mais densidade
intelectual teria mais firmeza em suas convicções que a “Classe Proletária”, cujos indivíduos não primam pelo intelecto e,
portanto, não conseguem manter- se convictos de suas posições.
NOTA do AUTOR – a quantidade disponível dos recursos materiais de cada Classe
materializa essa diferenciação. Apenas por ter certa folga material é que a
Burguesia pode se dar ao direito de cultivar valores abstratos que formam a
Consciência de sua Classe. Já o Proletariado tem sua atenção voltada
exclusivamente para a sobrevivência física, para as necessidades básicas diárias, sendo impraticável
enxergar além de seu horizonte imediato. O seu eventual “companheiro de Classe”
deixa de sê-lo para se tornar um competidor a mais que lhe disputa os parcos
recursos. É um círculo vicioso que lhe proíbe, pois, a formação da sua
“Consciência de Classe”, a qual, no entanto, seria um instrumento teórico
imprescindível em sua luta contra a Burguesia e em busca de mais justiça social.
A partir daí o Pensador
analisa as duas Classes que o Marxismo
estuda: a Burguesia e o Proletariado.
A primeira, não obstante
possuir capacidade para compreender a totalidade da Sociedade (ie, que além de si, existem outras Classes que também tem o Direito de
buscar suas realizações), tem essa compreensão reduzida pela força de seus interesses (grosso modo, é como se forçasse a não ver)
e com isso tem apenas uma Falsa Consciência.
Já o Proletariado, apesar do que foi exposto na “nota do autor” anterior, tem potencial para vir a compreender
plenamente a Sociedade - principalmente porque lhe interessa destruir o “Modo de Produção Capitalista” – mas
seria necessário que se desvencilhasse daquela Falsa Consciência que
toma emprestada da Burguesia; ou
melhor, que lhe é imposta pela mesma. Que se livrasse da referida.
Dessa sorte, a Revolução Proletária, segundo LUKÁCS,
não poderá surgir de um ambiente pacifico (ou pacificado), já que nada será
entregue voluntariamente. Tudo terá que ser tomado.
Não acontecerá de modo passivo, pois é
imperioso que o Proletário adquira
sua Consciência
de Classe através da luta para que se organize e se fortaleça e crie
condições efetivas para derrubar o Sistema que lhe oprime.
É preciso que saiba se
aproveitar das Crises que
periodicamente assolam o Capitalismo
para fazer eclodir a Revolução.
NOTA do AUTOR – essas ideias de LUKÁCS foram bem aceitas, mas foram repudiadas por
ele no fim de sua carreira. Principalmente a parte em que ele colocava o
Proletário como sujeito da Historia.
Critica Literária e
Estética.
Doravante trataremos
dessa outra atividade do Intelectual, pois além da excelência de seu trabalho
no campo da Filosofia Política e Filosofia Marxista, ele foi um dos mais
influentes Críticos Literários do século XX.
Sua entrada nessa lida
aconteceu com os estudos feitos em sua obra “A Teoria do Romance”. Trata-se
de um relato sobre a história do Romance, enquanto gênero literário e, também,
uma investigação acerca de suas características.
Outro Ensaio de sua lavra
que se tornou célebre é aquele intitulado de “Kafka ou Thomas Mann”.
Nele, LUKÁCS argumenta a favor da superioridade que enxerga na obra do segundo,
classificando-a como mais adequada ao Modernismo.
Aliás, sobre essa
classificação é interessante notar que LUKÁCS a coloca de forma elogiosa, enquanto
discordava das inovações “Modernistas”
introduzidas na Forma Literária por
autores como o próprio Kafka, James
Joyce e Samuel Beckett.
Outra singularidade a ser
notada em seu trabalho é o louvor que ele dedicava aos antigos Romances de Cavalaria, como, por
exemplo, os de Walter Scott.
Em seu livro “O
Romance Histórico” ele afirma categoricamente que autores como Scott, embora resvalem para certa
nostalgia em favor da Monarquia, opunham-se valorosamente contra a ascensão da Burguesia (Sic).
Prosseguindo, veremos
outros trabalhos de sua autoria que também merecem notoriedade, como, por exemplo: “Notas sobre o Romance” e “Narrar
ou Descrever”.
Nesse último, o Erudito
analisa mais detalhadamente a Literatura
Marxista e discorre sobre a diferença entre o “Romance Naturalista” e o “Romance
Realista (ao estilo do escritor francês, Emile Zola, autor de “Germinal”, entre
outros)”. No primeiro, ele faz uma revisão histórica sobre a formação do gênero
“Romance”, desde a sua gênese até o
ponto em que prognostica seu futuro formato, quando ele for feito pelo Proletariado.
NOTA do AUTOR – deve-se observar que tais Prognósticos foram muito mal recebidos por
várias Correntes do Marxismo, principalmente por aquelas que lhe eram adversárias.
Segundo LUKÁCS, o Romance sob a égide do Capitalismo (como
pode, segundo ele, ser observado já em Dom Quixote de Miguel de Cervantes [sic]) mostra o abandono de uma Consciência de Classe Coletiva em beneficio de uma Consciência Individualista, o que lhe dá
um formato, ou uma forma, predominantemente burguês.
Mas, com o triunfo do Socialismo o gênero se encaminhará para
a Forma, ou Formato, Realista, no
qual a individualidade voltará a ser vista como “apenas” uma parte dentro de uma Estrutura Geral.
Como já se mencionou
algures, LUKÁCS também demonstra seu repúdio pela “Forma Naturalista” que, a seu ver, privilegia aspectos da
Realidade que em nada contribuem para o esclarecimento acerca da Condição Social em que o Enredo se
desenrola.
Em “Narrar ou Descrever” afirma que para favorecer o surgimento de uma
Conscientização mais critica sobre o papel social dos indivíduos a Narrativa, ou o “Narrar”, é mais eficiente que a Descrição, haja vista que esta se prende a formalismos inúteis.
Além dos textos citados,
LUKÁCS escreveu vários textos sobre o ramo da Filosofia chamado de Estética. Para ele, ao contrário de Intelectuais
de peso como, por exemplo, Theodor
Adorno, a principal função da Arte
é fomentar a transformação da “Consciência
Individual”, dando-lhe, assim, capacitação teórica para confrontar a Sociedade Capitalista.
Para muitos, essa sua
visão é estreita e tacanha, mas é oportuno lembrar que esse ponto de vista foi decisivo para que
posteriormente surgisse o “Realismo Socialista
Russo” que, apesar da rejeição de tantos, constituiu-se em um Movimento de
alta importância no cenário da Arte e
da Sociedade.
Epilogo
Chegados ao final, vimos
que Pensamento de LUKÁCS foi combatido, criticado e censurado e que ainda hoje
enfrenta resistência de vários setores da Esquerda.
Contudo, também vemos que
o mesmo sobreviveu rijo e forte e chegou aos nossos dias com a relevância que
merece graças à sua profundidade, singularidade e erudição.
sábado, 1 de setembro de 2012
Homens Sós
Estão vagos os altares
porque os deuses se foram
em busca doutra humanidade.
Já não escutam os nossos apelos
as Aras sagradas.
As preces foram esquecidas
e as relíquias estão perdidas.
Cânticos proibidos,
em cantos esquecidos,
preenchem o silêncio das Catedrais
e se perderam na imundice mundana
os santos arabescos dos vitrais.
Lágrimas góticas
escorrem de nossos olhos barrocos
porque tememos o fim dos Demônios
que a nossa derradeira utilidade combatia.
Cegos, nem vimos que hoje
a Lua se fez azul.
E, surdos, deixamos de ouvir
o Mar que se ressuscita
nas praias eternas,
em cada onda que morre
na rebentação dos danados.
Ficamos nós.
Os Homens sós.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Fome
Sinto a urgência do desejo
na saudade com que te lembro.
Há fome em minha carência
e é sede a tua ausência.
E é vazio o espaço
que teu corpo preencheu.
A cama que nos fez apenas um
agora é vasta e inútil
em sua plenitude obsoleta.
Tornamo-nos vontades distantes,
pois dizem que são
tempos proibidos
e que os Poemas
já não são lidos.
Mas ainda há a espera
por essa outra música
que embalará o novo festim.
Vista o vestido mais bonito
e calce as sandálias que te
fazem mais sensual.
Breve, a orquestra
tocará o sinal.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Versos de Cabral
O vento que carregava
o verso de João Cabral,
primeiro soprou as águas
do Capiberibe,
mas foi em vão
que tentou lavar
a morte Severina.
Agora, que o escuro desceu,
ele só busca o Passado
que cheira ao mel
da cana esmagada,
com a alma
do homem canavial.
Agora ele só busca o Passado,
onde o urro da besta-fera
assassinava os touros embaixadores
nos dramáticos
domingos diplomáticos.
Agora ele só busca o Passado,
da Sevilha que vestia o homem
e do cais de todo porto
que despia as putas do Mundo.
Agora ele só busca
os versos de Cabral,
que o vento de lá
haverá de proferir.
Homenagem pouca ao Mestre João Cabral de Melo Neto.
Quadro de Thyago Marão Villela
domingo, 26 de agosto de 2012
Louis ALTHUSSER - Filósofos Modernos e Contemporâneos
ALTHUSSER, Louis
1918 – 1990
Nascido
na Argélia (colônia francesa à época), Louis recebeu esse nome em homenagem a
um tio paterno que morreu na 1ª Guerra Mundial.
Segundo
o Filósofo, esse tio teria sido o grande amor de sua mãe, que só se casou com
seu pai após o falecimento do amado e para cumprir o que se esperava de uma
jovem naquele tempo.
Uma
história que se assemelha a um romance de folhetim, mas que acabou tendo enorme
influência em sua personalidade, pois desde que soube do ocorrido, ainda em
tenra infância, passou a se sentir um mero “substituto”
do falecido e essa situação lhe causou graves danos psicológicos que redundaram
em sequelas severas, as quais, na idade madura, levaram-no a ser tratado até
com eletrochoques.
Porém,
os danos emocionais não lhe perturbaram a inteligência fulgurante que o fez ser
um aluno excepcional desde o inicio dos estudos.
Após a
morte de seu pai, junto com a irmã, seguiu a mãe em sua mudança para Marseille e ali se tornou adulto.
Em 1937,
aderiu ao “Movimento da Juventude Catolica”
e foi aceito na célebre École Normale Supérieure,
ENS,
em Paris.
Contudo, a deflagração da
2ª Guerra Mundial interrompeu seus estudos, pois foi convocado para servir ao
Exército no front. Como vários outros, caiu prisioneiro e permaneceu cativo num
Campo de Concentração até o Armistício. Todavia, ao contrario dos colegas, essa
condição não o entristeceu e nem o fez tentar escapar, como faziam os outros soldados
que fugiam para voltar à luta. Ele se acomodou ao cativeiro, embora isso lhe
causasse, posteriormente, muita vergonha pela covardia.
Após a beligerância,
ALTHUSSER voltou à ENS, mas novamente seus estudos tiverem que ser interrompidos.
O inimigo, agora, eram os abalos em sua saúde mental que lhe impediam de
estudar normalmente.
A própria Escola
reconheceu suas dificuldades e lhe foi solidária, permitindo-lhe residir em seu
quarto na Enfermaria, onde, aliás, ele viveu por décadas, saindo apenas para
ser internado em Hospitais nos piores períodos de sua enfermidade.
Mas, não obstante as
dificuldades, em 1948, ele conseguiu se formar e se tornou Professor na mesma.
Também nesse ano de 1948
ele se filiou ao Partido Comunista
Francês, materializando dessa maneira sua crescente simpatia pelo Ideário
Socialista.
Antes, porém, em 1946,
ele conheceu a revolucionária de origem judaico-lituana Hélène Rytmann que se tornou sua companheira até o ano de 1980,
quando ele a estrangulou num alegado surto psicótico.
Incidente que deixou sérias
dúvidas sobre a motivação. Teria sido mesmo um ataque de demência, ou um ato
doloso? A Justiça o considerou inimputável e ele foi inocentado, mas, cinco
anos depois, em seu livro “Le Avenir dure
Longtemps” ele ressuscitou o ocorrido e refletindo sobre o mesmo, assumiu
certa responsabilidade pelo assassinato.
Reflexões, aliás, que causaram
uma grande polêmica entre seus detratores e admiradores. Aos primeiros coube
recrudescer as censuras e acusações, enquanto que aos segundos restou alegar
que a citada “responsabilidade”
deveria ser entendida apenas e exclusivamente no campo filosófico e não
jurídico.
Por fim, o Sistema
Judicial acabou dando razão aos adversários do Pensador e o condenou a ser internado
judicialmente no Hospital Psiquiátrico Sainte-Anne.
Após ter cumprido sua
internação, ALTHUSSER mudou-se para o norte da França e viveu em reclusão, com
poucos amigos e se dedicando apenas à sua autobiografia. Em 22 de Março foi
fulminado por um ataque cardíaco e morreu aos 72 anos.
ALTHUSSER é considerado
um dos principais nomes do Estruturalismo* francês, ocupando o mesmo de
patamar de Claude Lévi-Strauss, Jacques LACAN, Michel Foucault e Jacques
Derrida.
NOTA do AUTOR – sobre o *Estruturalismo,
recomendo a obra de minha autoria “Filosofia
Sem Mistérios – Dicionário Sintético”- Ed. Seven System – Biblioteca 24x7.
Acesse-o em: www.fabiorenatovillela.blogspot.com
Sua notoriedade formou-se
ao longo da vida e graças à sua inteligência, erudição e produtividade, qualidades
que foram expostas nos importantes livros que escreveu e que foram lidos e
traduzidos em todo o Mundo. Destes, citamos abaixo aqueles que são considerados
“Obras-Chave”:
- Lire Le
Capital – 1965
- Pour
Marx – 1965
- Positions
– 1976.
Além dos livros,
ALTHUSSER também escreveu inúmeros Ensaios, Artigos e outros gêneros, nos quais
sempre se revela a superioridade de sua argumentação. Grande parte dos mesmos,
só veio a público após o falecimento do Pensador e a sua publicação foi
providencial para o completo entendimento de suas teses.
Dessas teses, uma das
mais importantes está contida em “Marxisme
et Humanisme (inserido em Pour Marx)” e é conhecida como “anti-humanismo teórico”.
Ali o Filósofo faz uma
confirmação vigorosa de que o Marxismo
é Anti-humanista e, aproveita o
ensejo para condenar ideias como “o potencial
humano”, “o ser da espécie” etc.
que geralmente são defendidas equivocadamente por alguns marxistas.
Afinal, para ele, deve-se
sempre privilegiar a “Luta de Classes”
em detrimento de uma suposta “importância
decisiva da condição humana”. Importância que não passaria de uma simplória
fantasia criada pela Ideologia Burguesa.
NOTA do
AUTOR – é oportuno recordar
que, ao contrário do que vulgarmente se acredita, Humanismo NÃO É sinônimo de Bondade. Humanismo é um Sistema
Filosófico que afirma ser o Homem o centro das atenções e que tudo deve ser feito
segundo os seus interesses. Para o Socialismo, o centro das atenções Não É
o indivíduo, mas a Coletividade, por isso o Marxismo é anti-humanista.
Outra tese fundamental é exposta
em seu Ensaio “Sur Le June Marx (inserido em Pour Marx)” e propõe um “Corte
Epistemológico (ou uma ruptura no estudo)” na produção literária Karl Marx, pois, segundo ele, os textos da juventude foram muito
influenciados por Hegel e por Feuerbach e não podem ser considerados
genuinamente marxistas.
Apenas os textos da
maturidade teriam importância efetiva para a construção do Socialismo, o que os
colocaria em posição avantajada sobre os primeiros.
NOTA do AUTOR – essa tese de ALTHUSSER encontrou forte resistência entre alguns
intelectuais, principalmente por parte de Lukács
(Georg, 1885 -1971 – Hungria), o que gerou uma acirrada polêmica entre
ambos. No ensaio relativo ao Pensador húngaro, voltaremos ao tema.
No Ensaio “Contradiction et Surdétermination”,
surge mais uma das importantes teorias de ALTHUSSER que se utiliza de um termo
da psicanálise para colocar o Conceito da Sobredeterminaçao.
Aqui, o Pensador o utiliza para substituir a ideia de “Contradição” por um modelo mais complexo de causalidade múltipla
em situações políticas.
Essa concepção, que,
aliás, é muito próxima do “Conceito de
Hegemonia” de Antonio Gramsci (1891
– 1937 – Itália) propõe que variados motivos (ou causas) contribuem muito
mais para o surgimento de determinados fatos políticos (ou situações políticas, como, por exemplo, a Revolução Bolchevique, o
Golpe Militar de 1964 no Brasil etc.) que apenas uma simples “Contradição interna” ou “incoerência
interna” de um Sistema econômico e/ou político.
Ou seja, grosso modo, não
será apenas as “Contradições do Capitalismo (como, aliás, supõe inúmeros adeptos do Socialismo)” que deflagrará o sucesso do Socialismo.
Vários outros fatores haverão de determinar o êxito ou não do processo.
Será, portanto, um “Fator Superior, ou Sobredeterminante” que
estipulará a maneira como certo “Fato Político”
acontecerá.
Outro ponto fundamental
em seu Sistema é o Conceito chamado de “Aparelhos Ideológicos do Estado” e a
análise sistemática sobre o Conceito “Ideologia”.
Aliás, ALTHUSSER, também
é conhecido como o “Teorico das Ideologias” em razão da profundidade e correção
com que tratou o tema. Seu Ensaio, “Idéologie
et Appareils Idéologiques d’état (Notes pour une recherche)”, a propósito,
é reputado como um dos mais importantes do gênero.
Nele, o Pensador expõe a
sua concepção sobre o que seja a “Ideologia*” (tomando por base, novamente, o conceito de Gramsci (1891 – 1937 – Itália) acerca da hegemonia da mesma), afirmando peremptoriamente
que a mesma É uma prática (uma rotina material, física, real) em todas as Sociedades e não só uma abstração, uma “ideia equivocada” que o “Racionalismo Esclarecido” eliminaria
como se acreditou por algum tempo.
*IDEOLOGIA - conjunto de ideias e conceitos que se propõem elevados e capazes de
direcionar os comportamentos de um grupo social.
E afirma que em virtude
dessa supremacia ser estabelecida por “forças
políticas (ie, por Homens que detém
e exercem o Poder Político através de Associações, Partidos etc.)”, ela (a Ideologia*) É resultante de noções
e de pensamentos oriundos do Inconsciente e da “Fase do Espelho*”.
E para complementar o
trabalho, ele descreve as Estruturas e os Formatos das mesmas, as quais seriam
inevitáveis “Agentes de Repressão”,
haja vista ser impossível lhes escapar, ou não lhes ser obedientes.
NOTA do AUTOR – grosso modo, pode-se dizer que a Ideologia resulta de atividades
mentais Irracionais (lendas, mitos,
valores irracionais) do Subconsciente e Não,
obviamente, de elaboradas Reflexões Racionais e ponderadas.
Por outro lado, a “Fase do
Espelho” atua impondo a “necessidade” do Indivíduo se espelhar no Outro,
refletir-se nele e imitá-lo. Assumir, pois, as suas Ideias, ou Ideologias.
Aos interessados na questão da “Fase
do Espelho*” sugerimos a leitura do Ensaio sobre Jacques Lacan constante dessa obra.
Prosseguindo, na
sequência abordaremos suas ideias acerca do “Estado” e dos “Aparelhos
Ideológicos” do mesmo.
Os Aparelhos Ideológicos
do Estado
Segundo ele, o Estado só
passa a existir a partir do Poder de Estado, ou seja, através da
tomada e/ou manutenção do mesmo.
Só então é possível a
instalação do Aparelho de Estado –
ie, a administração, a burocracia, as Forças Armadas etc.
Como se percebe são
noções associadas, mas divergentes, pois o Aparelho de Estado pode continuar
existindo (com a máxima normalidade que a situação permitir) enquanto Forças Divergentes lutam (ou só o disputam através de votos) pela posse e/ou manutenção do Poder de Estado.
O Estado Burguês e
Marxista
Como se sabe, o Marxismo
considera o “Estado Burguês” um
aparelho repressivo, ou uma “máquina de
repressão” que permite às “Classes
Dominantes” exercer a sua dominação sobre o proletariado através da “Mais Valia” e da violência das armas.
O “Estado Burguês” não é apenas a burocracia (inoperante,
sufocante e má intencionada), mas também É o Exército, Marinha e
Aeronáutica (que exercem o papel de
“braço armado”), o Chefe de Estado, o 1º Ministro, a Polícia, o Judiciário etc.
O Estado, em resumo, é a “Força
de execução e intervenção repressiva” que está a serviço da “Elite”, ou “Classe Dominante”.
O Essencial da Teoria
Marxista para o Estado
O objetivo inicial da “Luta de Classes” é a tomada do Poder
do Estado para na sequência utilizar o Aparelho do Estado em
prol do proletariado.
O Proletariado, após
destruir o “aparelho burguês”
existente, numa primeira etapa
deverá usar o Aparelho de Estado em beneficio das Classes desfavorecidas e no
correr do tempo, conscientizar-se progressiva e continuamente para levar uma
vida comunitária que redundará no abandono de antigos hábitos e valores,
chegando, ao cabo, na extinção completa e definitiva do Poder e do Aparelho
de Estado, que é o Objetivo final.
Mas o que efetivamente
será destruído? O que é realmente, fisicamente essa estrutura?
Para dirimir as dúvidas, ALTHUSSER
adentra os meandros do Sistema e subdivide os “Aparelhos Ideológicos”
conforme as respectivas características, pois o “Marxismo Erudito” – do
qual ele era legitimo representante – considera o “Estado” como um órgão mais complexo do que diz a própria teoria
marxista básica e rudimentar.
A enorme importância de
sua contribuição está precisamente nesse ponto. Pois só ele estabeleceu a
citada subdivisão, ao contrário dos outros Eruditos, como Gramsci, que nada realizaram nesse campo.
Ainda que soubessem que o
Aparelho (Repressivo) do Estado não
se resume ao “Estado Oficial, Governamental”
e que outras Instituições da Sociedade Civil também fazem parte
do conjunto de “Forças Repressoras”
optaram pelo silêncio, por razões desconhecidas.
Dessa sorte, ALTHUSSER
incumbiu-se da tarefa e estabeleceu as Organizações
não Oficiais que atuam como “bedéis
sociais”. São elas:
AIE = Aparelho Ideológico
do Estado.
AIE - Religioso (as
Igrejas, as Seitas, as Religiões),
AIE - Escolar (O Sistema
de Escolas Públicas e Privadas),
AIE – Familiar,
AIE – Jurídico,
AIE - Político (os
diferentes Partidos, o Sistema Político, a Câmara, o Senado etc.),
AIE - Sindical (O
Conjunto dos Sindicatos, das Centrais Sindicais),
AIE - Cultural (as
Letras, as Belas-Artes, os Esportes etc.),
AIE – da Informação (A
Imprensa escrita, a Televisão, o Rádio).
Após tê-las identificado,
o Pensador insistiu na necessidade de não se confundir os Aparelhos Ideológicos do Estado com os Aparelhos (Repressivos) do Estado, haja vista existirem as seguintes
diferenças entre ambos:
- Existe
apenas um Aparelho (Repressivo) do
Estado, enquanto que são vários os Aparelhos
Ideológicos.
- Enquanto o primeiro pertence ao Público,
através do Governo, os segundos são de propriedade privada. Porém, ainda
assim, podem ser considerados “Estatais”
na medida em que se sabe o quão o Público e o Privado estão associados* no
“Estado Burguês”. Ademais, neste
contexto, pouco importa se os “Aparelhos”
são Públicos ou Privados, vez que atuam como Aparelhos Ideológicos do Estado.
*NOTA do AUTOR - grosso modo essa promiscuidade pode ser observada em algumas Empresas
de Segurança que embora sejam privadas, agem como se fosse Forças Policiais.
- Aqui se
tem a diferença mais importante. O Aparelho
(Repressivo) do Estado funciona principalmente através da violência
explícita, física e só secundariamente através do convencimento
ideológico, através da Ideologia. Já no Aparelho Ideológico do Estado dá-se o inverso; ou melhor, nele a violência explícita
é substituída pela camuflada e a pressão é exercida através de sanções, exclusões,
expulsões etc. Não deixa de ser uma violência, é claro, mas como é executada
com atenuantes, dissimulações e simbolismos, escamoteia sua face perversa
enquanto atinge a todos que focaliza.
ALTHUSSER prossegue esclarecendo
que apesar dessas diferenças, ambos os Aparelhos
são complementares e combinam as suas forças para favorecer a Classe Dominante,
que usa o Aparelho Ideológico do Estado
para impor a sua Ideologia e se vale do Aparelho
(Repressivo) do Estado para fazer com que ela seja obedecida.
NOTA do AUTOR - Para corroborar sua tese, ALTHUSSER cita a preocupação de Lênin em
reformular radicalmente o Aparelho Ideológico de Estado- Escolar, para permitir
que o Proletariado garantisse por intermédio dos estudos, o futuro da Revolução
e a passagem para o Socialismo.
A Elite usa os poderes
dos Aparelhos Ideológico e Repressivo do
Estado para conservar a sua posição, mas sempre tomando o cuidado especial
de manter-se hegemônica sobre e nos Aparelho Ideológico do Estado, pois sabe
que nenhuma Classe Social consegue
permanecer no Poder se não se autolegitimar, por mais falaciosas e cínicas que
possam ser as suas argumentações.
Por outro lado, e graças a
essa preocupação da Classe Dominante,
é possível observar que os Aparelhos Ideológicos do Estado são,
também, meio e espaço valiosos para se deflagrar a “Luta de Classes”, pois neles,
a “Classe Dominante” não dispõe de
facilidade absoluta para impor suas Leis e seus interesses, já que as “Classes exploradas” possuem os meios e
os instrumentos efetivos para se expressar e reagir.
Ao contrário do que
sucede nos Aparelhos (Repressivos) do
Estado onde a força e a violência das armas e a brutalidade do
autoritarismo cala qualquer tentativa de oposição.
ALTHUSSER e a Educação.
No Passado a quantidade
de Aparelhos Ideológicos do Estado
era maior que na atualidade e, dentre eles imperava a Igreja, que além das questões espirituais, também ditava as normas
sobre as chamadas questões seculares, tais como, a Escola, a Economia, a Cultura,
a Política etc.
Praticamente todo o
Ideário de uma Sociedade obedecia aos seus mandamentos.
O advento da Revolução
Francesa não resultou apenas na transferência do Poder de Estado para a
Burguesia Capitalista, mas também no
ataque ao principal Aparelho Ideológico
do Estado, ou seja, a Igreja.
Com isso a primazia
ideológica foi transferida para outra Instituição: a Escola.
A Escola se encarrega de
doutrinar as crianças, inculcando-lhes de
modo diferente os “Saberes (a língua materna, suas
noções acerca da Ciência, da Economia, da Política, da História etc.)” da Ideologia Dominante e, também, a própria “Ideologia Dominante (sua
Moral, Educação Cívica, Filosofia do Regime etc.)”.
E tal pregação é muito
bem sucedida, pois nenhum outro Aparelho
Ideológico do Estado possui tantos trunfos para obter sucesso quanto ela,
haja vista que a mesma dispõe de uma audiência cativa por vários anos, que lhe
dedica cinco ou seis horas por dia e, sobretudo, que é composta por indivíduos
tão influenciáveis, quanto podem ser as crianças e os jovens que nem sequer
formaram as respectivas personalidades.
Espremidos entre as
normas e orientações que recebem do Aparelho
Ideológico de Estado - Familiar e as que recebem do “Escolar”, os (as) alunos (as) são alvos fáceis, pois essa pressão
bilateral os torna mais frágeis ainda e prontos e aceitar o que lhes for
colocado sem meios de questionar e de fazer oposição.
Com isso, tornam-se “cúmplices involuntários” pela
manutenção da “Ideologia da Classe Dominante” e da mesma no Poder. Só em raríssimas ocasiões algum
indivíduo consegue vislumbrar a iniquidade da situação, mas, então, o Aparelho (Repressivo) do Estado é
acionado para silenciá-lo e manter o rumo de antes.
O problema, segundo
ALTHUSSER, é que também são raríssimos os Mestres dispostos (ou que tenham Cultura e Saber para isso) a questionar e contestar
o Sistema que a todos, ao cabo, escraviza.
A maioria nem sequer tem
consciência do sórdido trabalho que executa e nem do triste papel que representa.
Ao contrário, colocam todo empenho em cumprir as orientações que recebem dos
Superiores e em manter essa representação Ideológica, que, aliás, faz a Escola
atual assumir o papel que outrora foi da Igreja.
Para o Filósofo, a
educação tem importância fundamental, mas ao contrário de outros Pensadores (Durkheim, em especial) que a viam como
indutora e mantenedora do “equilíbrio
social”, ALTHUSSER desejaria que ela fosse o instrumento para a ruptura com
o Sistema e libertação dos oprimidos.
Contudo, pelas razões
acima apresentadas (desinteresse e/ou
incapacidade dos Professores e doutrinamento dos alunos) e que são decorrentes do
fato de que o papel e as operações da Educação são estipulados fora de seu
âmbito, ou mais precisamente nos Gabinetes da Classe Dominante da Sociedade
Capitalista, é inútil esperar o seu concurso para a reforma no Status Quo.
Essa conclusão levou o
Filósofo a elaborar a uma ácida critica à Sistemática implantada, conforme
segue:
A Teoria Critica
Reprodutivista
Os “Críticos Reprodutivistas” censuram o que consideram uma
característica perversa da “Escola”
nas Sociedades Capitalistas, onde a “Escola
Pública”, que recebe a massa proletária, dedica-se apenas a incutir nos
alunos a Ideologia das Classes Dominantes,
enquanto que as “Escolas Particulares”
ofertam efetivamente o “Saber Universal”
aos filhos da Elite, eternizando,
pois, a iníqua situação.
NOTA do AUTOR – correndo os riscos que toda generalização implica, associamos o termo
“Escola Pública” com baixa qualidade e “Escola Particular” com alta qualidade,
tomando por base o que acontece no Brasil atual. É claro que cometeremos
injustiças e estaremos distante da verdade se olharmos para o nível das
Universidades, quando, então, os conceitos se invertem. Pedimos desculpas aos
que forem atingidos injustamente e contamos com a compreensão de todos.
A “Crítica Reprodutivista” também enfoca o “aspecto político” do que
é dado aos alunos, em detrimento dos “aspectos
técnicos” que deveriam ser oferecidos;
e alerta para a óbvia consequência de que no Futuro essa deficiência se revelará
um filtro poderoso para impedir ou dificultar o acesso aos melhores empregos e
oportunidades.
É, pois, essa oferta equivocada
ou má intencionada que faz com que a “Escola”
destinada ao proletariado seja vista como uma mera “Reprodutora de um Proletário submisso”
na medida em que lhe ensina (sic) apenas conceitos que legitimam a Ideologia da
Classe Dominante.
Assumida por ALTHUSSER e
logo encampada por vários outros Intelectuais alinhados à Esquerda no espectro
Político, a Teoria Critica Reprodutivista floresceu significativamente
durante o célebre Maio de 1968 e a
partir daí tornou-se “peça de resistência”
para todos que se opõem aos ditames na área educacional, impostos pela
Sociedade Capitalista.
NOTA do AUTOR – merece destaque nesse quesito a obra de Jean – Claude Passeron e
Pierre Bordieu, “La Reproduction”, que ambos escreveram em 1970.
Porém, mesmo quem lhe
reconhece a propriedade e a correção, observa-lhe a falha de se limitar a expor
a situação caótica, sem propor qualquer alternativa substituta.
Uma das criticas mais
lúcidas à mesma partiu do Filósofo brasileiro Dermeval Saviani (1946 – Professor Emérito da Unicamp SP.) que a
taxou de equivocada por afirmar que a Educação não tem poder para
determinar, ou estipular, como devem ser as relações sociais e por aceitar
passivamente o jugo dessas relações iníquas.
Saviani ainda argumenta
que a mesma julga erroneamente que na Sociedade
Capitalista a Educação limita-se a resguardar os interesses do Capital, impedindo o surgimento de
qualquer proposta pedagógica e deixando os “Educadores
de Esquerda” sem perspectivas.
Mas, ele prossegue, se
tal fato fosse real, o que restaria a esses “Educadores
de Esquerda” senão abandonar o ofício (?); o quê, como se sabe, não é o que acontece.
Epilogo
De todo modo, as objeções
e oposições que são colocadas contra o Pensamento de ALTHUSSER, neste
particular e no geral, são naturais e até previsíveis, posto que a Filosofia seja
exatamente isso: a dialética em
busca da melhor compreensão.
São pontos de vista divergentes que em nada ofuscam o brilho de sua Filosofia
e a coragem em criticar conceitos arraigados e ultrapassados.
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