quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Óperas, guia para iniciantes - Parte II - A história da ópera. A Ópera Chinesa.


Um gênero musical, uma nova forma teatral, um novo modelo de balé etc. não são frutos de um acontecimento único, de uma causa exclusiva.

Em verdade, pode-se dizer que todo nascimento é o resultado de uma série de acontecimentos e com a Ópera não foi diferente. Uma ideia aqui, um acréscimo ali, um aperfeiçoamento acolá etc. produziram o espetáculo que para muitos é a mais completa demonstração da genialidade do espírito humano.

Assim sendo, seria equivocado contar a história da Ópera partindo apenas de sua gênese ocidental, pois desde muito antes essa manifestação cultural já existia no Oriente, principalmente na China, onde servia como divertimento, instrumento educativo e até como veículo de crítica aos governantes.

Foi, seguramente, um dos principais elementos que asseguraram a identidade nacional e ainda hoje é vista como uma poderosa ferramenta para a preservação da autêntica arte chinesa, bem como dos valores tradicionais, sempre ameaçados pelas hordas do capitalismo ocidental que avança velozmente em seu território.

Por isso, existe atualmente um vigoroso movimento de revalorização dessa expressão cultural; porém, como também acontece com as suas irmãs ocidentais, ela é mais conhecida indiretamente, que por contar com a efetiva aclamação popular. Usando-se uma gíria ocidental, passou a ser “descolado” dizer-se apreciador do gênero, mas, infelizmente, é uma admiração que não se concretiza realmente.

A popularidade de que já desfrutou, agora é apenas uma recordação, pois o estrago que a famigerada “Revolução Cultural” maoista causou, não pôde ser amenizado entre uma juventude cada vez mais ligada em outras formas culturais, ou melhor, em outros entretenimentos. Todavia, apesar desse afastamento com o grande público, alguns abnegados continuam a despender os melhores esforços para manter a chama acesa, até que novos tempos a recoloquem em seu devido lugar.

Para nós, que vivemos nessa outra metade do mundo, resta torcer para que tenham êxito e buscar conhecê-la melhor, já que nela está a matriz da nossa própria Ópera, ainda que muito eruditos não admitam essa associação entre ambas.

Por ser o espetáculo mais antigo da genuína e tradicional cultura chinesa, alguns estudiosos estimam que por causa dessa longevidade e, também, em razão da vastidão do território nacional, existam mais de três centenas de estilos de óperas, os quais são compostos de elementos comuns a todos e particularidades regionais, sempre com ênfase no respeito às tradições e no culto aos antepassados.

Consensualmente se aceita que antecedeu à Ópera atual, a expressão artística chamada de Quinqiang que já mesclava danças e músicas folclóricas com narrativas singelas e toscas encenações teatrais.

A primeira descoberta do Quinqiang data de c. século II AEC, na localidade de Shaanxi, às margens do famoso “Rio Amarelo” ou Yangtze. O reconhecimento oficial dessa manifestação cultural ocorreu por volta de 1279-1368, durante a Dinastia Yuan, ocasião em que lhe foi acrescentada formas musicais mais refinadas e poesia e mímica.

Após esse período e com a ascensão da Dinastia Ming (1368-1944 DEC) desenvolveu-se um novo estilo que se tornou conhecido como Kunqu*, composto por músicas, danças e representações bem mais elaboradas. Esse requintado modelo reinou quase que absoluto por cerca de duzentos anos**.

Após esses dois séculos, embora já não fosse hegemônico, a sua popularidade ainda aumentou, graças aos novos adeptos das camadas mais populares que se encantaram com a nova modalidade de representação introduzida no estilo, chamada de Jingiu. A conquista seguinte foi a benção e o apoio que passou a receber da Corte Imperial, quando, então, passou a ser chamada de Ópera de Pequim.

Acomodando as influências que recebeu de suas antecessoras, Quinqiang e Kunqu, esse novo estilo tornou-se mais leve e simples e a adoção da acrobacia deixou-o mais dinâmico, bem ao gosto das massas menos cultas. A partir daí foi rebatizada como a Ópera Nacional da China.

Desde então, em linhas gerais, os seus enredos são compostos por quatro personagens, cujas performances adéquam-se à história que contam. São elas:

Sheng – o herói

Jing – a mulher

Representante do Mal – que pode ser de três formas: vocal, atuação teatral, acrobacia.

Palhaço – que pode ser sombrio, cômico ou espirituoso.

Através desse quarteto os Enredos, geralmente vinculados aos sentimentos humanos, são contados, cantados, dançados e representados acrobaticamente. Dentre várias, quatro histórias foram eleitas as mais populares. A saber:

Romance for the West chamber
The peony pavillon, que originalmente era encenada em cinquenta e cinco atos com mais de vinte horas de duração. Atualmente foi reduzida para se enquadrar às exigências da contemporaneidade.

The peach bloss fan – que demorou uma década para ser escrita.

The palace of eternal Youth – baseada na história real do imperador que se apaixonou por uma concubina. Aliás, a temática do “amor impossível” é recorrente no gênero.

Outro ponto que merece destaque na Ópera Chinesa são as maquiagens e as máscaras dos atores e atrizes.

A troca das máscaras, por exemplo, é feita com tamanha rapidez que, por si só, torna-se um espetáculo muito apreciado. Ademais a beleza e o colorido das mesmas, bem como a das pinturas corporais e faciais, criam uma atmosfera mágica que causa encantamento em todos os espectadores.

Essas máscaras e maquiagens seguem um padrão de cores que está intimamente ligado à crença sobre as propriedades das mesmas, significando, portanto, os vários aspectos emocionais e éticos que se quer representar. Tem-se, então:

Branco – é sinistro, diabólico, suspeito. Quem usa máscaras com essa cor é geralmente o interprete do vilão.

Verde – impulsivo, violento e sem autocontrole, o que é um defeito gravíssimo para os padrões de comportamento chinês.

Vermelho – nobre, valente, virtuoso. Em termos ocidentais, seria o “herói”, o “galã”.

Preto – imparcial, feroz, rude. Contudo, não é necessariamente um Ser maléfico, pois a sua brutalidade não é intencional.

Amarelo – ambicioso e nem sempre preocupado com as questões éticas.

Azul – inabalável, firme e leal.

Por tudo isso, é inegável o valor dessa manifestação cultural que o Oriente oferta ao mundo. Saibamos valorizá-la devidamente, pois é no resgate de nossas melhores criações que encontramos o próprio sentido da existência.

Nota do Autor* - aos interessados, oferecemos no final da obra um apêndice sobre o desenvolvimento do estilo Kunqu. A leitura do mesmo é opcional, não interferindo no desenrolar da obra geral.

Nota do Autor** - em 2001 a UNESCO declarou o Kunqu uma “Obra-Prima oral e intocável da humanidade”.
§§§
No próximo capítulo, veremos a história da Ópera no Ocidente e faremos um curto glossário com os termos mais utilizados no universo operístico.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.