sábado, 7 de junho de 2014

Idealismo Alemão - Parte XII - Temas de Filosofia


Considerações finais sobre o Pensamento de Kant

Iniciaremos nossos comentários com o seguinte questionamento: será realmente o Espaço apenas uma “Forma de Sensibilidade” desprovida de qualquer realidade concreta, objetiva, independente da mente que o percebe?

Por um lado, pode-se dizer que sim, já que é um conceito vazio até que seja preenchido por coisas, Seres etc., que são percebidos ou captados através dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) e entregues à mente para serem classificados e organizados de acordo com a posição de cada um em relação aos demais. A mente não tem a capacidade de percebê-lo fora de si mesma. É indispensável que ele “a adentre” nesse processo. Por isso, é certo que o Espaço seja visto como uma “forma necessária” do sentido interno.

Porém, é indubitável que existem “fatos espaciais” que independem de qualquer percepção para existirem efetivamente, como, por exemplo, o circuito anual que a Terra efetua ao redor do Sol em forma elíptica.

Tampouco o Tempo é apenas uma construção mental feita através da coordenação de Sensações. Se nós captamos o Espaço através da percepção simultânea de objetos diferentes e de vários pontos; de modo análogo captamos o Tempo, mas aqui a simultaneidade é substituída pela sucessão, de modo que ele nos chega como uma Sensação de “antes” e de “depois” ou como uma medida* do movimento. O certo é que a sua efetiva existência independe de ser captada pela mente, como, aliás, pode ser observado no ciclo de nascimento, duração da vida e morte de uma árvore, de um homem etc.

Nota do Autor – aos interessados na questão do Tempo enquanto conceito, recomendamos o Ensaio, “O Tempo, segundo os Filósofos”, de nossa autoria, publicado em: www.fabiorenatovillela.com.

Feitas essas colocações, pode-se especular o motivo de Kant ter colocado o Tempo e o Espaço como simples “elementos para organizar as Sensações recebidas”.

Alguns estudiosos sustentam que a sua intenção ao afirmar essa subjetividade, essa abstração foi a de se opor ao Materialismo que então predominava o cenário. E, paralelamente, opor-se à ideia de um tipo de Deus, tão objetivo quanto o Espaço e o Tempo, que pudesse ser conhecido racionalmente, como propunham o clero e os demais adeptos da “Teologia Racional”.

Para outros, porém, a sua insistência levou-o ao erro, pois já seria mais que suficiente a sua afirmativa sobre o “Idealismo Critico” que nos ensinou que toda realidade (física, concreta) só nos é revelada através das idealizações que fazemos da mesma, após tê-la captado ou percebido pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato), pelas Sensações.

Outro ponto que lhe é contestado diz respeito à “Verdade Cientifica” e a sua obsessão pela “Verdade Absoluta”, pois a própria Ciência, inclusive a Matemática, sabe-se relativa em suas verdades e se contenta com um alto grau de probabilidade. Não são poucos os eruditos que se perguntam se o conhecimento “necessário” será, de fato, necessário?

Porém, não obstante essa argumentação contrária é inquestionável o valor da contribuição kantiana ao saber humano. Principalmente por ter demonstrado em definitivo que o mundo externo, as coisas que nos rodeiam, só é conhecido por nós como uma Sensação resultante da captação feita pelos sentidos.

E, também, por ter comprovado que a mente humana não é uma “cera passiva”, uma “tabula rasa” sujeita aos ditames das Sensações, como afirmou Hume e outros Filósofos empiristas. Ao contrário, a mente é um “agente ativo” que seleciona e reconstrói a experiência que lhe chega. Um agente que pode, inclusive, fazer subtrações naquilo que os Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) captaram e lhe carrearam sem eliminar a sua grandeza.

E a ele também se deve o questionamento acerca do conceito “Categorias”, que desde Aristóteles reinou sem qualquer investigação mais atenta. Serão as Categorias ou “formas interpretativas de pensamento” anteriores às Sensações e às experiências? Ou serão adquiridas pela memória da espécie e repassadas ao individuo? Ou serão como “sulcos” de pensamento onde se encaixam as Sensações chegadas? Ou, então, hábitos de percepção e concepção que são provocados pelas Sensações, as quais se organizam nos mesmos em um primeiro momento para serem, depois, reorganizadas pela memória, segundo parâmetros mais refinados, até serem transformadas em ideias efetivas?

E mais outros elementos poderiam ser citados, mas seria desnecessário, pois mesmo a discordância de alguns acerca da unidade* da mente é incapaz de lhe empanar o brilho.

Nota do Autor – Kant julgava que a unidade da mente seria nativa (a “transcendental unidade de percepção”) enquanto outros sábios julgam-na adquirida, haja vista a possibilidade dela deixar de existir a partir de um distúrbio qualquer, como a amnésia, por exemplo.

Tampouco diminui a sua grandeza, o rude tratamento que foi dado à sua Ética no século XIX. Os homens de letras da época rejeitaram peremptoriamente a sua ideia de que o Senso Moral seria inato, a priori, absoluto, pois se vivia o auge da concepção Evolucionista que proclamava ser o Senso Moral uma espécie de “depósito social” instalado em cada indivíduo, o qual até poderia ter uma inata propensão a viver em comunidade, embora isso não o tornasse uma “Criação Divina” dotado automaticamente da sabedoria sobre o “certo” e o “errado”, até porque esses conceitos já eram vistos acertadamente como relativos e alteráveis conforme as condições concretas ou objetivas de cada situação. Para aqueles sábios e muitos outros, inclusive da atualidade, nenhuma ação é boa apenas por si mesma, como propunha Kant.

Contudo, para atenuar o equivoco do filósofo, deve-se considerar a criação que Kant recebeu e que foi fortemente influenciada pelo “Pietismo” da mãe e, também, a sua vida marcada pela fragilidade física e pela estreita observância dos deveres em detrimento dos prazeres ou do simples bem estar físico. Um comportamento, diga-se, diretamente associado ao “espírito alemão”.

Todavia, mesmo nesse ponto, vemos que após um longo período de liberalismo, importantes segmentos sociais dão mostras de que anseiam por essa rigidez de costumes, de comportamento, de observação extrema de certos parâmetros e de cumprimento de deveres, ainda que a custa de sacrifícios pessoais. Para muitos, esse “chamamento kantiano ao dever” não está equivocado.

Por outro lado, mudando o prisma de nossas considerações, deparamo-nos com um dos pontos altos do Sistema kantiano ao observarmos a sua maravilhosa guinada em direção das ideias religiosas que ocorre na segunda Crítica, a da Razão Prática.

Ideias sobre “Deus, liberdade e imortalidade” que o leitor apressado julgou enterradas na primeira Critica, a da Razão Pura, aqui ressurgem como se o filosofo fosse um mágico que tira coisas de uma cartola vazia. Vê-se, maravilhado, Kant tirar do conceito de “Dever” as ideias acima.

A esse respeito, o filósofo Schopenhauer disse acreditar que Kant continuava, na realidade, tão cético quanto antes, mas que hesitava em destruir a fé popular por temer as consequências dessa falta de um poderoso freio moral. Alguns outros, pseudo Filósofos na maioria, entenderam o posicionamento de Schopenhauer de maneira errada ou má intencionada e não tardaram em debitar a Kant tentativas de “racionalizar Deus” e outras sandices do gênero. Porém, o que Kant tinha em mente, ainda segundo a visão de Schopenhauer, era derrubar os antigos erros, mas tomando o cuidado de manter em pé, através de sua “Teologia Moral” alguns suportes temporários para que esses sustentassem o homem enquanto ele não atingisse a idade em que se veria desnecessitado das superstições religiosas.

De todo modo, essas observações adversas de inimigos menores não merecem muita consideração, pois a magnitude do Ensaio “A Religião dentro dos Limites da Razão Pura” não deixa dúvidas sobre a sinceridade de propósitos de Kant, que ao transformar a base da Religião de “crença” em “conduta” fez com que a mesma se tornasse uma manifestação legitima de transcendência e Metafísica.

Mas é claro que um Sistema como o de Kant, cuja grandeza permite até aparentes contradições, não poderia passar incólume pela inveja de muitos, pelas bem intencionadas censuras de outros e, também, pelas evidências advindas do progresso cientifico.

Nada, porém, foi capaz de abalar a sua importância, a qual, aliás, tornou-o um referencial para todo o pensamento filosófico do Século XIX. Depois dele, a Europa em geral e a Alemanha em particular, passaram a falar amiúde sobre a Metafísica, a Transcendência, o Númeno ou “coisa-em-si” etc.

Redescobriu-se o “Mundo das Ideias” de Platão. Schiler e Goethe estudaram-no atentamente. Beethoven homenageou-o e Fichte, Schelling, Hegel e Schopenhauer produziram em rápida sucessão grandes Sistemas de Pensamentos erguidos sobre a base comum do Idealismo Kantiano.

Enquanto isso a sua crítica à Razão e a sua exaltação ao Sentimento, à Intuição prepararam o terreno para o “Voluntarismo” do já citado Schopenhauer e o de Nietzsche e para o “Intucionismo” de Bérgson, cabendo à sua afirmativa sobre a igualdade entre as Leis do Pensamento e as Leis da Realidade servir como alicerce para o Sistema de Hegel. Ademais, deve-se citar, ainda, o hodierno movimento “Neo Kantista” que busca a aplicação de seus enunciados na realidade contemporânea.

Por fim, pode-se dizer que apesar do apego do homem atual ao Materialismo e de sua crença no poder quase místico das Ciências, graças a Kant o Idealismo permanece tão vigoroso quanto antes. E se nada mais tivéssemos a agradecer-lhe, a conservação dessa janela por onde escapamos dos estreitos limites do Físico, já seria um justo motivo para o nosso eterno reconhecimento.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Relação Públicas, no Rio de Janeiro, em Junho de 2014.