domingo, 2 de setembro de 2012

George LUKÁCS - Filósofos Modernos e Contemporâneos (Revisado)

LUKÁCS, Georg Bernhard Von Szegedin.

1885 – 1971
Szegedi Lukács Gyorgy Bernát (em húngaro) nasceu em Budapeste, na Primavera europeia.
Sua importância na Filosofia Contemporânea é reconhecida até por seus críticos e segundo Lucien Goldmann ele foi capaz de refazer em sua vida atribulada o que houve de principal na Filosofia alemã.
Inicialmente como Critico (no sentido de “estudante minucioso”) sob a influência de Immanuel Kant, depois como adepto de Hegel e, por fim, como seguidor de Karl Marx.
Sua reputação é decorrência direta de seu talento e de sua dedicação aos estudos, os quais foram terminados, em nível acadêmico, na Universidade de Budapeste.
Ali, além do currículo escolar, LUKÁCS desenvolveu várias outras atividades e se associou a alguns círculos Socialistas, sendo que em um deles teve contato com Ervin Szabó, renomado Anarquista e Sindicalista, que lhe apresentou as obras de Georges Sorel.
Devido a tais influências, LUKÁCS foi, num primeiro momento, um sincero entusiasta do “Anti-Positivismo” (ou seja, condenava com veemência o “Materialismo Cientifico” e a “Rigidez da Moralidade Positiva” já que ambas contrariavam os preceitos da Filosofia Anarquista) enquanto demonstrava um tímido entusiasmo pelo “Modernismo”, apenas por ser o inverso do “Classicismo” que imperava nas Artes à época.
De 1904 a 1908, envolveu-se com as pessoas de uma companhia de teatro que já havia encenado peças de Henrik Ibsen, August Strindberg e Gerhart Hauptmann. A companhia desses Intelectuais, em conjunto com os anteriores, foi um poderoso incremento em sua Cultura e um fator decisivo para orientar a sua perspectiva sobre o Mundo.
Tornou-o aberto para as possibilidades que estão além da estreita visão burguesa e o convenceu da importância da Racionalidade para minar as antigas superstições religiosas que foram adaptadas para a Política e que embasavam a organização da Sociedade.
LUKÁCS passou a maior parte de sua juventude na Alemanha e entre os estudos que realizou na Universidade de Berlim (1906-1910) e na de Heildeberg (1911-1913), conheceu mais alguns Intelectuais que consolidaram sua erudição e aumentaram-lhe o leque das opções filosóficas. Dentre outros, conheceu: Georg Simmel, Max Weber, Ernst Bloch e Stefan George, os quais, junto com o próprio ambiente universitário, levaram-no a adotar o Neokantismo*, como Sistema Filosófico preferido, sem, no entanto, repudiar suas antigas inclinações por Platão, Hegel, Kierkegaard, Dilthey e Dostoiévski (que geralmente é mais conhecido como romancista).
NEOKANTISMO – (do grego, neo = novo + Kantismo) Movimento filosófico da segunda metade do século XIX que se difundiu principalmente na Europa. Sua principal proposta era afirmar a Filosofia como “Teoria do Conhecimento” e fundamentadora das Ciências Naturais e das Normas Sociais, segundo o Ideário de Immanuel Kant.
Ativismo Político
Após graduar-se, LUKÁCS voltou à Hungria em 1915 e passou a liderar um grupo de Intelectuais de Esquerda que contava em suas fileiras com Karl Mannheim, Béla Bartok, Béla Balázs, Karl Polanyi etc. Ali ele começou sua prática efetiva nas lidas do Socialismo.
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Bolchevique, adaptou seu Ideário ao momento e em 1918 juntou-se ao Partido Comunista Húngaro tornando-se dedicado e fiel Marxista.
Durante o curto Governo da República Soviética da Hungria ele foi feito “Comissário do Povo para a Educação e Cultura” e trabalhou na 5ª Divisão do Exército Vermelho Húngaro.
Após a derrota e queda da Republica Húngara, caiu na clandestinidade, mas acabou preso em Viena, Áustria, e só escapou da deportação graças à intervenção de Intelectuais renomados, como, por exemplo, Thomas Mann e Heinrich Mann.
Em termos intelectuais, voltou sua atenção para os Pensamentos de Lênin e trabalhou no desenvolvimento dos mesmos.
Resultou desses estudos a obra “História e Consciência de Classe” – sobre a qual falaremos mais algures – formada por uma coletânea de Ensaios, cuja publicação primeira, em 1923, obteve uma enorme repercussão em justa compensação ao seu esforço em prover o Leninismo de melhor base filosófica.
Alguns de seus admiradores chegaram a comentar a respeito da mesma que nem o próprio Lênin teria feito melhor, porém essa simpatia não foi unânime e o livro foi duramente atacado por Grigory Zinoviev (que posteriormente foi perseguido por Stalin) no 5º Congresso do Komiterm, em 1924.
Contudo, não obstante esse revés continuou seu trabalho sobre Lênin e logo após a sua morte escreveu um curto estudo sobre o mesmo, intitulado de “Um Estudo sobre a Unidade de seu Pensamento”.
Em 1925 mudou seu foco e publicou uma revisão critica do “Manual do Materialismo Histórico” de Nikolai Bubkharin.
No campo político e na condição de húngaro exilado, permaneceu ativo na “Esquerda” do Partido Comunista Húngaro e nessa situação se opôs tenazmente à política de Béla Kun.
Suas “Teses sobre Blum”, de 1928, clamavam pela derrubada do Governo de Horty (Miklós 1868 – 1957) e pela instauração de uma “Ditadura Democrática do Proletariado e Camponeses” como estágio intermediário até que ocorresse a implantação definitiva da “Ditadura do Proletariado”.
Todavia, novamente, suas ideias não tiveram boa aceitação pelo Komiterm o que o obrigou a fazer, posteriormente, uma autocrítica reconhecendo a impropriedade de sua posição.
De 1929 a 1933 o Filósofo permaneceu em Berlim, mas diante da ascensão do Nazismo mudou-se para Moscou e ali permaneceu até o fim da 2ª Guerra.
Aproveitando-se desse ensejo, as forças que lhe faziam oposição voltaram ao ataque acusando-o de ser “Agente Soviético” por ter residido na Rússia durante aquele período. E tal perseguição lhe ocasionou sérios contratempos em seu regresso à Hungria. Porém, apesar disso, ele se envolveu no estabelecimento do novo Governo húngaro e foi eleito para a “Academia de Ciência Húngara”.
De 1945 a 1946 ele se dedicou a criticar os autores não comunistas como parte de seu trabalho no Partido. Trabalho que, aliás, era-lhe agradável, pois ele compartilhava dessa censura, taxando tais autores de “deficientes intelectuais”. E seu zelo na tarefa foi tal que ele acabou sendo acusado de participar do “jogo administrativo” de remoção dos Intelectuais independentes e/ou contrários ao Regime.
Dentre os Pensadores que teriam sido perseguidos por LUKÁCS pode-se citar, entre outros, Bélas Hamvas, István Bibó, Lajos Prohászka, Karoly Kerényi, sendo que alguns foram presos em várias ocasiões, outros mandados para manicômios e, outros, forçados a trabalhos menores e/ou braçais.
O pensador Claudio Mutti afirmou a propósito, que LUKÁCS teria sido membro da “Comissão do Partido” responsável pela elaboração das listas de livros proibidos por serem “antidemocráticos” e/ou “socialmente aberrantes” que o “Departamento de Propaganda e Informação” do Gabinete do 1º Ministro impunha ao País, enquanto silenciava os autores proscritos, pelos métodos conhecidos.
Essa acusação nunca foi cabalmente comprovada, mas o certo é que LUKÁCS influiu diretamente na censura estabelecida pela chamada “Tática Salami” que vigorou na Hungria durante os anos de 1945 a 1950, sob o governo de Mátyás Rákosi. Porém, até onde se sabe, apenas como Critico de Literatura e avesso aos métodos ditatoriais.
Ademais, deve-se dizer, é sabido que LUKÁCS acreditava na superioridade da “Arte Socialista”, mas preferia que essa vantagem decorresse da honesta competição entre estilos e não através de expurgos, deportações, censuras, deportações, desaparecimentos e outras “medidas administrativas”.
Aliás, essa sua tolerância artística e intelectual custou-lhe o próprio cargo quando o Presidente Mátyas reeditou a famigerada “Tática Salami” sobre o próprio Partido Comunista Húngaro, entre 1948 a 1949, e o expulsou dos quadros do Governo.
Ao Partido, contudo, ele voltou no ano seguinte, 1950, e conforme seus adversários, “convencido” a cooperar com o Regime que, assim, o teria usado durante a prática dos expurgos que foram feitos na Associação de Escritores, entre 1955 a 1956.
É verdade que alguns Intelectuais como Aczel e Merav minimizaram a sua participação nos funestos acontecimentos, afirmando que ele participou apenas como assistente e que cedo demonstrou a sua insatisfação ao abandonar as reuniões.
Após a morte de Stalin em 1956, LUKÁCS tornou-se Ministro no breve Governo de Imre Nagy que não contava com a simpatia da URSS.
Ainda como Ministro, participou da antipartidária Associação Revolucionária Comunista “Petofi” e atuou em várias frentes em prol de reformas que restituíssem credibilidade ao desgastado “Partido Comunista Húngaro”. Mas seu ativismo não foi bem aceito e ele esteve prestes a ser preso e fuzilado nas décadas de 1960 e 1970, como foram vários de seus companheiros.
NOTA do AUTOR - Seus livros “O Jovem Hegel” e “A Destruição da Razão” foram utilizados para acusá-lo de ter-se tornado um inimigo do Socialismo por ter distorcido (sic) a ligação do Marxismo com o Hegelismo e ter denunciado (sic) a Irracionalidade do Sistema.
Após a queda do Governo Nagy, foi deportado para a Romênia com o restante do staff do Presidente deposto. Lá, permaneceu fiel ao Comunismo, mas se tornou um critico mordaz do Partido Comunista da URSS e o da Hungria até os últimos anos de sua vida.
A Obra
LUKÁCS não foi um autor extremamente prolífico, mas a qualidade superior de seus textos garantiu-lhe o merecido prestigio que ainda hoje lhe é creditado.
Seu livro, “História e Consciência de Classe”, de 1919 – 1922 iniciou a corrente de pensamentos que posteriormente tornou-se conhecida como “Marxismo Ocidental”.
Um dos destaques positivos da obra é a contribuição que empresta ao debate relativo à ligação da Sociologia, Política e Filosofia com o Marxismo. Outro ponto destacado é a reconstrução da “Teoria Marxista da Alienação”. E, também, a reflexão do autor sobre outras teses de Marx, como Ideologia, Falsa Consciência, Retificação, Consciência de Classe etc. Na sequência veremos seus argumentos sobre algumas delas:
Sobre a Ideologia ele reafirma a sua tese de que a mesma é uma “Projeção da Consciência de Classe da Burguesia”; ou seja, aquele “conjunto de ideias, crenças e valores” relata, ou descreve, o que os Indivíduos Burgueses pensam sobre si mesmos e sobre o grupo sócio econômico e cultural a que pertencem. Expressa a convicção de que a reunião desses indivíduos, cujas ideias e valores são semelhantes, forma uma “Classe Social”.
Segundo ele, a Ideologia é usada pela Burguesia como se fosse uma “Verdade Absoluta ditada por Deus” e que, por isso, deverá ser aceita e obedecida por todos. Com isso, a Classe dos Burgueses pretende evitar que o Proletariado tome consciência de sua miserável condição e de seu imenso potencial revolucionário.
NOTA do AUTOR – observe-se aqui a semelhança, que não é aleatória, com o Pensamento de ALTHUSSER.
Em outro texto, “O que é o Marxismo Ortodoxo?” o Erudito analisa a Falsa Consciência e afirma que a “Ciência do Real”, ou o “Conhecimento da Realidade” deve limitar-se ao que é efetivamente concreto e se deve pensar ou refletir de maneira exclusivamente objetiva sobre um Período histórico, para se conseguir desmistificar as falsas “Verdades Eternas”, tais como as “Leis imutáveis da Economia”, posto que essas, não passam de meras ilusões ou distorções criadas com nefastos objetivos.
Quanto a Reificação, LUKÁCS argumenta que tal Coisificação é uma decorrência da própria natureza (ou forma de ser) da Sociedade Capitalista, que induz o individuo a privilegiar os seus interesses pessoais acima de tudo.
A Coisificação impede, portanto, o surgimento da “Consciência de Classe”, já que esta obrigaria o indivíduo a pensar primeiro nos interesses de sua “Classe” e só depois nos seus particulares.
Reificaçao – Coisificação – reduzir o Ser Humano, ou aquilo que é ligado a ele (como as suas crenças, ideias, etc.) a valores exclusivamente materiais, físicos, concretos. O termo Reificação é originário do latim (“res” = coisa + ficar + ção) e indica o momento em que o Homem se torna apenas uma “Coisa” e é afastado e de suas características humanas (de suas ideias, crenças, sentimentos, valores éticos ou morais como honra, dignidade etc.); assim como toda a realidade objetiva, concreta, material. Tudo passa a ser apenas “um objeto inanimado”. Esta condição é inevitável e acontece durante o “Processo de Alienação” que lhe é imposto pela natureza (ou forma de ser) do Capitalismo.
Aos interessados em aprofundar-se no tema, recomendamos a sugestão do Sociólogo e Mestrando em Critica de História da Arte, Thyago Marão Villela, para que se estude a “Teoria do Fetiche” de Marx, onde ele coloca a tese de que no Capitalismo as “coisas ou objetos” parecem estabelecer relações sociais (como se fizessem amizades, intrigas, inimizades etc.) enquanto os Indivíduos se quedam passivos perante os mesmos, transformando-se também em meras “coisas ou objetos”.
Assim sendo, para o surgimento da “Consciência de Classe” é imperioso extinguir o processo de “coisificação” tão logo ela se materialize, o que só é possível com o surgimento de Correntes Filosóficas e Políticas que quebrem a inércia vegetativa em que vive o Proletariado e que este ganhe poder intelectual através de estudos, para que na sequência apareçam Partidos Leninistas capazes de orientar a Revolução.
Mas o que vem a ser exatamente a Classe Social?
Em sua obra já citada “História da Consciência de Classe”, de 1920, ele trata primeiro da ausência de definição sobre “Classe” na obra de Marx e, num segundo momento, propõe a sua definição:
O que forma uma Classe Social é a posição do grupo de indivíduos que a compõe em relação ao “modo de produção” (ou seja, grosso modo, Engenheiros compõem [ou fazem parte de] uma “Classe Social” e Pedreiros compõe outra, justamente porque cada qual ocupa uma posição diferente em relação ao modo de produção).
Na sequência, afirma que em cada “Classe” (no Sistema Capitalista) há uma Consciência, a qual, porém, não é formada segundo os interesses dos indivíduos componentes da mesma, mas sim pelo seu Sentido Histórico, ou seja, pela suposição criada no correr da história de que uma Consciência seja vinculada racionalmente a determinada Classe por haver uma ligação entre densidade intelectual e firmeza da Consciência.
Em tese: a “Classe Burguesa” graças ao fato de ser composta por indivíduos com mais densidade intelectual teria mais firmeza em suas convicções que a “Classe Proletária”, cujos indivíduos não primam pelo intelecto e, portanto, não conseguem manter- se convictos de suas posições.  
NOTA do AUTOR – a quantidade disponível dos recursos materiais de cada Classe materializa essa diferenciação. Apenas por ter certa folga material é que a Burguesia pode se dar ao direito de cultivar valores abstratos que formam a Consciência de sua Classe. Já o Proletariado tem sua atenção voltada exclusivamente para a sobrevivência física, para as necessidades básicas diárias, sendo impraticável enxergar além de seu horizonte imediato. O seu eventual “companheiro de Classe” deixa de sê-lo para se tornar um competidor a mais que lhe disputa os parcos recursos. É um círculo vicioso que lhe proíbe, pois, a formação da sua “Consciência de Classe”, a qual, no entanto, seria um instrumento teórico imprescindível em sua luta contra a Burguesia e em busca de mais justiça social.
A partir daí o Pensador analisa as duas Classes que o Marxismo estuda: a Burguesia e o Proletariado.
A primeira, não obstante possuir capacidade para compreender a totalidade da Sociedade (ie, que além de si, existem outras Classes que também tem o Direito de buscar suas realizações), tem essa compreensão reduzida pela força de seus interesses (grosso modo, é como se forçasse a não ver) e com isso tem apenas uma Falsa Consciência.
Já o Proletariado, apesar do que foi exposto na “nota do autor” anterior, tem potencial para vir a compreender plenamente a Sociedade - principalmente porque lhe interessa destruir o “Modo de Produção Capitalista” – mas seria necessário que se desvencilhasse daquela Falsa Consciência que toma emprestada da Burguesia; ou melhor, que lhe é imposta pela mesma. Que se livrasse da referida.
Dessa sorte, a Revolução Proletária, segundo LUKÁCS, não poderá surgir de um ambiente pacifico (ou pacificado), já que nada será entregue voluntariamente. Tudo terá que ser tomado.
 Não acontecerá de modo passivo, pois é imperioso que o Proletário adquira sua Consciência de Classe através da luta para que se organize e se fortaleça e crie condições efetivas para derrubar o Sistema que lhe oprime.
É preciso que saiba se aproveitar das Crises que periodicamente assolam o Capitalismo para fazer eclodir a Revolução.
NOTA do AUTOR – essas ideias de LUKÁCS foram bem aceitas, mas foram repudiadas por ele no fim de sua carreira. Principalmente a parte em que ele colocava o Proletário como sujeito da Historia.
Critica Literária e Estética.
Doravante trataremos dessa outra atividade do Intelectual, pois além da excelência de seu trabalho no campo da Filosofia Política e Filosofia Marxista, ele foi um dos mais influentes Críticos Literários do século XX.
Sua entrada nessa lida aconteceu com os estudos feitos em sua obra “A Teoria do Romance”. Trata-se de um relato sobre a história do Romance, enquanto gênero literário e, também, uma investigação acerca de suas características.
Outro Ensaio de sua lavra que se tornou célebre é aquele intitulado de “Kafka ou Thomas Mann”. Nele, LUKÁCS argumenta a favor da superioridade que enxerga na obra do segundo, classificando-a como mais adequada ao Modernismo.
Aliás, sobre essa classificação é interessante notar que LUKÁCS a coloca de forma elogiosa, enquanto discordava das inovações “Modernistas” introduzidas na Forma Literária por autores como o próprio Kafka, James Joyce e Samuel Beckett.
Outra singularidade a ser notada em seu trabalho é o louvor que ele dedicava aos antigos Romances de Cavalaria, como, por exemplo, os de Walter Scott.
Em seu livro “O Romance Histórico” ele afirma categoricamente que autores como Scott, embora resvalem para certa nostalgia em favor da Monarquia, opunham-se valorosamente contra a ascensão da Burguesia (Sic).
Prosseguindo, veremos outros trabalhos de sua autoria que também merecem notoriedade, como, por exemplo: “Notas sobre o Romance” e “Narrar ou Descrever”.
Nesse último, o Erudito analisa mais detalhadamente a Literatura Marxista e discorre sobre a diferença entre o “Romance Naturalista” e o “Romance Realista (ao estilo do escritor francês, Emile Zola, autor de “Germinal”, entre outros)”. No primeiro, ele faz uma revisão histórica sobre a formação do gênero “Romance”, desde a sua gênese até o ponto em que prognostica seu futuro formato, quando ele for feito pelo Proletariado.
NOTA do AUTOR – deve-se observar que tais Prognósticos foram muito mal recebidos por várias Correntes do Marxismo, principalmente por aquelas que lhe eram adversárias.
Segundo LUKÁCS, o Romance sob a égide do Capitalismo (como pode, segundo ele, ser observado já em Dom Quixote de Miguel de Cervantes [sic]) mostra o abandono de uma Consciência de Classe Coletiva em beneficio de uma Consciência Individualista, o que lhe dá um formato, ou uma forma, predominantemente burguês.
Mas, com o triunfo do Socialismo o gênero se encaminhará para a Forma, ou Formato, Realista, no qual a individualidade voltará a ser vista como “apenas” uma parte dentro de uma Estrutura Geral.
Como já se mencionou algures, LUKÁCS também demonstra seu repúdio pela “Forma Naturalista” que, a seu ver, privilegia aspectos da Realidade que em nada contribuem para o esclarecimento acerca da Condição Social em que o Enredo se desenrola.
Em “Narrar ou Descrever” afirma que para favorecer o surgimento de uma Conscientização mais critica sobre o papel social dos indivíduos a Narrativa, ou o “Narrar”, é mais eficiente que a Descrição, haja vista que esta se prende a formalismos inúteis.
Além dos textos citados, LUKÁCS escreveu vários textos sobre o ramo da Filosofia chamado de Estética. Para ele, ao contrário de Intelectuais de peso como, por exemplo, Theodor Adorno, a principal função da Arte é fomentar a transformação da “Consciência Individual”, dando-lhe, assim, capacitação teórica para confrontar a Sociedade Capitalista.
Para muitos, essa sua visão é estreita e tacanha, mas é oportuno lembrar que esse ponto de vista foi decisivo para que posteriormente surgisse o “Realismo Socialista Russo” que, apesar da rejeição de tantos, constituiu-se em um Movimento de alta importância no cenário da Arte e da Sociedade.
Epilogo
Chegados ao final, vimos que Pensamento de LUKÁCS foi combatido, criticado e censurado e que ainda hoje enfrenta resistência de vários setores da Esquerda.
Contudo, também vemos que o mesmo sobreviveu rijo e forte e chegou aos nossos dias com a relevância que merece graças à sua profundidade, singularidade e erudição.

São Paulo, 02 de Setembro de 2012.

sábado, 1 de setembro de 2012

Homens Sós


Estão vagos os altares
porque os deuses se foram
em busca doutra humanidade.
Já não escutam os nossos apelos
as Aras sagradas.
As preces foram esquecidas
e as relíquias estão perdidas.
Cânticos proibidos,
em cantos esquecidos,
preenchem o silêncio das Catedrais
e se perderam na imundice mundana
os santos arabescos dos vitrais.
Lágrimas góticas
escorrem de nossos olhos barrocos
porque tememos o fim dos Demônios
que a nossa derradeira utilidade combatia.
Cegos, nem vimos que hoje
a Lua se fez azul.
E, surdos, deixamos de ouvir
o Mar que se ressuscita
nas praias eternas,
em cada onda que morre
na rebentação dos danados.
Ficamos nós.
Os Homens sós.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Fome


Sinto a urgência do desejo
na saudade com que te lembro.
Há fome em minha carência
e é sede a tua ausência.
E é vazio o espaço
que teu corpo preencheu.

A cama que nos fez apenas um
agora é vasta e inútil
em sua plenitude obsoleta.
Tornamo-nos vontades distantes,
pois dizem que são
tempos proibidos
e que os Poemas
já não são lidos.

Mas ainda há a espera
por essa outra música
que embalará o novo festim.
Vista o vestido mais bonito
e calce as sandálias que te
fazem mais sensual.
Breve, a orquestra
tocará o sinal.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Versos de Cabral




O vento que carregava
o verso de João Cabral,
primeiro soprou as águas
do Capiberibe,
mas foi em vão
que tentou lavar
a morte Severina.




Agora, que o escuro desceu,
ele só busca o Passado
que cheira ao mel
da cana esmagada,
com a alma
do homem canavial.

Agora ele só busca o Passado,
onde o urro da besta-fera
assassinava os touros embaixadores
nos dramáticos
domingos diplomáticos.

Agora ele só busca o Passado,
da Sevilha que vestia o homem
e do cais de todo porto
que despia as putas do Mundo.

Agora ele só busca
os versos de Cabral,
que o vento de lá
haverá de proferir.

       Homenagem pouca ao Mestre João Cabral de Melo Neto.

Quadro de Thyago Marão Villela

domingo, 26 de agosto de 2012

Louis ALTHUSSER - Filósofos Modernos e Contemporâneos



ALTHUSSER, Louis
1918 – 1990

Nascido na Argélia (colônia francesa à época), Louis recebeu esse nome em homenagem a um tio paterno que morreu na 1ª Guerra Mundial.

Segundo o Filósofo, esse tio teria sido o grande amor de sua mãe, que só se casou com seu pai após o falecimento do amado e para cumprir o que se esperava de uma jovem naquele tempo.

Uma história que se assemelha a um romance de folhetim, mas que acabou tendo enorme influência em sua personalidade, pois desde que soube do ocorrido, ainda em tenra infância, passou a se sentir um mero “substituto” do falecido e essa situação lhe causou graves danos psicológicos que redundaram em sequelas severas, as quais, na idade madura, levaram-no a ser tratado até com eletrochoques.

Porém, os danos emocionais não lhe perturbaram a inteligência fulgurante que o fez ser um aluno excepcional desde o inicio dos estudos.

Após a morte de seu pai, junto com a irmã, seguiu a mãe em sua mudança para Marseille e ali se tornou adulto.

Em 1937, aderiu ao “Movimento da Juventude Catolica” e foi aceito na célebre École Normale Supérieure, ENS, em Paris.
Contudo, a deflagração da 2ª Guerra Mundial interrompeu seus estudos, pois foi convocado para servir ao Exército no front. Como vários outros, caiu prisioneiro e permaneceu cativo num Campo de Concentração até o Armistício. Todavia, ao contrario dos colegas, essa condição não o entristeceu e nem o fez tentar escapar, como faziam os outros soldados que fugiam para voltar à luta. Ele se acomodou ao cativeiro, embora isso lhe causasse, posteriormente, muita vergonha pela covardia.
Após a beligerância, ALTHUSSER voltou à ENS, mas novamente seus estudos tiverem que ser interrompidos. O inimigo, agora, eram os abalos em sua saúde mental que lhe impediam de estudar normalmente.
A própria Escola reconheceu suas dificuldades e lhe foi solidária, permitindo-lhe residir em seu quarto na Enfermaria, onde, aliás, ele viveu por décadas, saindo apenas para ser internado em Hospitais nos piores períodos de sua enfermidade.
Mas, não obstante as dificuldades, em 1948, ele conseguiu se formar e se tornou Professor na mesma.
Também nesse ano de 1948 ele se filiou ao Partido Comunista Francês, materializando dessa maneira sua crescente simpatia pelo Ideário Socialista.
Antes, porém, em 1946, ele conheceu a revolucionária de origem judaico-lituana Hélène Rytmann que se tornou sua companheira até o ano de 1980, quando ele a estrangulou num alegado surto psicótico.
Incidente que deixou sérias dúvidas sobre a motivação. Teria sido mesmo um ataque de demência, ou um ato doloso? A Justiça o considerou inimputável e ele foi inocentado, mas, cinco anos depois, em seu livro “Le Avenir dure Longtemps” ele ressuscitou o ocorrido e refletindo sobre o mesmo, assumiu certa responsabilidade pelo assassinato.
Reflexões, aliás, que causaram uma grande polêmica entre seus detratores e admiradores. Aos primeiros coube recrudescer as censuras e acusações, enquanto que aos segundos restou alegar que a citada “responsabilidade” deveria ser entendida apenas e exclusivamente no campo filosófico e não jurídico.
Por fim, o Sistema Judicial acabou dando razão aos adversários do Pensador e o condenou a ser internado judicialmente no Hospital Psiquiátrico Sainte-Anne.
Após ter cumprido sua internação, ALTHUSSER mudou-se para o norte da França e viveu em reclusão, com poucos amigos e se dedicando apenas à sua autobiografia. Em 22 de Março foi fulminado por um ataque cardíaco e morreu aos 72 anos.
ALTHUSSER é considerado um dos principais nomes do Estruturalismo* francês, ocupando o mesmo de patamar de Claude Lévi-Strauss, Jacques LACAN, Michel Foucault e Jacques Derrida.
NOTA do AUTOR – sobre o *Estruturalismo, recomendo a obra de minha autoria “Filosofia Sem Mistérios – Dicionário Sintético”- Ed. Seven System – Biblioteca 24x7.
 Acesse-o em: www.fabiorenatovillela.blogspot.com
Sua notoriedade formou-se ao longo da vida e graças à sua inteligência, erudição e produtividade, qualidades que foram expostas nos importantes livros que escreveu e que foram lidos e traduzidos em todo o Mundo. Destes, citamos abaixo aqueles que são considerados “Obras-Chave”:
  1. Lire Le Capital – 1965
  2. Pour Marx – 1965
  3. Positions – 1976.
Além dos livros, ALTHUSSER também escreveu inúmeros Ensaios, Artigos e outros gêneros, nos quais sempre se revela a superioridade de sua argumentação. Grande parte dos mesmos, só veio a público após o falecimento do Pensador e a sua publicação foi providencial para o completo entendimento de suas teses.
Dessas teses, uma das mais importantes está contida em “Marxisme et Humanisme (inserido em Pour Marx)e é conhecida como “anti-humanismo teórico”.
Ali o Filósofo faz uma confirmação vigorosa de que o Marxismo é Anti-humanista e, aproveita o ensejo para condenar ideias como “o potencial humano”, “o ser da espécie” etc. que geralmente são defendidas equivocadamente por alguns marxistas.
Afinal, para ele, deve-se sempre privilegiar a “Luta de Classes” em detrimento de uma suposta “importância decisiva da condição humana”. Importância que não passaria de uma simplória fantasia criada pela Ideologia Burguesa.

NOTA do AUTOR – é oportuno recordar que, ao contrário do que vulgarmente se acredita, Humanismo NÃO É sinônimo de Bondade. Humanismo é um Sistema Filosófico que afirma ser o Homem o centro das atenções e que tudo deve ser feito segundo os seus interesses. Para o Socialismo, o centro das atenções Não É o indivíduo, mas a Coletividade, por isso o Marxismo é anti-humanista.

 Outra tese fundamental é exposta em seu Ensaio “Sur Le June Marx (inserido em Pour Marx) e propõe um “Corte Epistemológico (ou uma ruptura no estudo) na produção literária Karl Marx, pois, segundo ele, os textos da juventude foram muito influenciados por Hegel e por Feuerbach e não podem ser considerados genuinamente marxistas.
Apenas os textos da maturidade teriam importância efetiva para a construção do Socialismo, o que os colocaria em posição avantajada sobre os primeiros.
NOTA do AUTOR – essa tese de ALTHUSSER encontrou forte resistência entre alguns intelectuais, principalmente por parte de Lukács (Georg, 1885 -1971 – Hungria), o que gerou uma acirrada polêmica entre ambos. No ensaio relativo ao Pensador húngaro, voltaremos ao tema.
No Ensaio “Contradiction et Surdétermination”, surge mais uma das importantes teorias de ALTHUSSER que se utiliza de um termo da psicanálise para colocar o Conceito da Sobredeterminaçao. Aqui, o Pensador o utiliza para substituir a ideia de “Contradição” por um modelo mais complexo de causalidade múltipla em situações políticas.
Essa concepção, que, aliás, é muito próxima do “Conceito de Hegemonia” de Antonio Gramsci (1891 – 1937 – Itália) propõe que variados motivos (ou causas) contribuem muito mais para o surgimento de determinados fatos políticos (ou situações políticas, como, por exemplo, a Revolução Bolchevique, o Golpe Militar de 1964 no Brasil etc.) que apenas uma simples “Contradição interna” ou “incoerência interna” de um Sistema econômico e/ou político.
Ou seja, grosso modo, não será apenas as “Contradições do Capitalismo (como, aliás, supõe inúmeros adeptos do Socialismo) que deflagrará o sucesso do Socialismo. Vários outros fatores haverão de determinar o êxito ou não do processo.
Será, portanto, um “Fator Superior, ou Sobredeterminante” que estipulará a maneira como certo “Fato Político” acontecerá.
Outro ponto fundamental em seu Sistema é o Conceito chamado de “Aparelhos Ideológicos do Estado” e a análise sistemática sobre o Conceito “Ideologia”.
Aliás, ALTHUSSER, também é conhecido como o “Teorico das Ideologias” em razão da profundidade e correção com que tratou o tema. Seu Ensaio, “Idéologie et Appareils Idéologiques d’état (Notes pour une recherche)”, a propósito, é reputado como um dos mais importantes do gênero.
Nele, o Pensador expõe a sua concepção sobre o que seja a “Ideologia*” (tomando por base, novamente, o conceito de Gramsci (1891 – 1937 – Itália) acerca da hegemonia da mesma), afirmando peremptoriamente que a mesma É uma prática (uma rotina material, física, real) em todas as Sociedades e não só uma abstração, uma “ideia equivocada” que o “Racionalismo Esclarecido” eliminaria como se acreditou por algum tempo.
*IDEOLOGIA - conjunto de ideias e conceitos que se propõem elevados e capazes de direcionar os comportamentos de um grupo social.
E afirma que em virtude dessa supremacia ser estabelecida por “forças políticas (ie, por Homens que detém e exercem o Poder Político através de Associações, Partidos etc.), ela (a Ideologia*) É resultante de noções e de pensamentos oriundos do Inconsciente e da “Fase do Espelho*”.
E para complementar o trabalho, ele descreve as Estruturas e os Formatos das mesmas, as quais seriam inevitáveis “Agentes de Repressão”, haja vista ser impossível lhes escapar, ou não lhes ser obedientes.
NOTA do AUTOR – grosso modo, pode-se dizer que a Ideologia resulta de atividades mentais Irracionais (lendas, mitos, valores irracionais) do Subconsciente e Não, obviamente, de elaboradas Reflexões Racionais e ponderadas.
 Por outro lado, a “Fase do Espelho” atua impondo a “necessidade” do Indivíduo se espelhar no Outro, refletir-se nele e imitá-lo. Assumir, pois, as suas Ideias, ou Ideologias.
Aos interessados na questão da “Fase do Espelho*” sugerimos a leitura do Ensaio sobre Jacques Lacan constante dessa obra.
Prosseguindo, na sequência abordaremos suas ideias acerca do “Estado” e dos “Aparelhos Ideológicos” do mesmo.
Os Aparelhos Ideológicos do Estado
Segundo ele, o Estado só passa a existir a partir do Poder de Estado, ou seja, através da tomada e/ou manutenção do mesmo.
Só então é possível a instalação do Aparelho de Estado – ie, a administração, a burocracia, as Forças Armadas etc.
Como se percebe são noções associadas, mas divergentes, pois o Aparelho de Estado pode continuar existindo (com a máxima normalidade que a situação permitir) enquanto Forças Divergentes lutam (ou só o disputam através de votos) pela posse e/ou manutenção do Poder de Estado.
O Estado Burguês e Marxista
Como se sabe, o Marxismo considera o “Estado Burguês” um aparelho repressivo, ou uma “máquina de repressão” que permite às “Classes Dominantes” exercer a sua dominação sobre o proletariado através da “Mais Valia” e da violência das armas.
O “Estado Burguês” não é apenas a burocracia (inoperante, sufocante e má intencionada), mas também É o Exército, Marinha e Aeronáutica (que exercem o papel de “braço armado”), o Chefe de Estado, o 1º Ministro, a Polícia, o Judiciário etc.
O Estado, em resumo, é a “Força de execução e intervenção repressiva” que está a serviço da “Elite”, ou “Classe Dominante”.
O Essencial da Teoria Marxista para o Estado
O objetivo inicial da “Luta de Classes” é a tomada do Poder do Estado para na sequência utilizar o Aparelho do Estado em prol do proletariado.
O Proletariado, após destruir o “aparelho burguês” existente, numa primeira etapa deverá usar o Aparelho de Estado em beneficio das Classes desfavorecidas e no correr do tempo, conscientizar-se progressiva e continuamente para levar uma vida comunitária que redundará no abandono de antigos hábitos e valores, chegando, ao cabo, na extinção completa e definitiva do Poder e do Aparelho de Estado, que é o Objetivo final.
Mas o que efetivamente será destruído? O que é realmente, fisicamente essa estrutura?
Para dirimir as dúvidas, ALTHUSSER adentra os meandros do Sistema e subdivide os “Aparelhos Ideológicos” conforme as respectivas características, pois o “Marxismo Erudito” – do qual ele era legitimo representante – considera o “Estado” como um órgão mais complexo do que diz a própria teoria marxista básica e rudimentar.
A enorme importância de sua contribuição está precisamente nesse ponto. Pois só ele estabeleceu a citada subdivisão, ao contrário dos outros Eruditos, como Gramsci, que nada realizaram nesse campo.
Ainda que soubessem que o Aparelho (Repressivo) do Estado não se resume ao “Estado Oficial, Governamental” e que outras Instituições da Sociedade Civil também fazem parte do conjunto de “Forças Repressoras” optaram pelo silêncio, por razões desconhecidas.
Dessa sorte, ALTHUSSER incumbiu-se da tarefa e estabeleceu as Organizações não Oficiais que atuam como “bedéis sociais”. São elas:
AIE = Aparelho Ideológico do Estado.
AIE - Religioso (as Igrejas, as Seitas, as Religiões),
AIE - Escolar (O Sistema de Escolas Públicas e Privadas),
AIE – Familiar,
AIE – Jurídico,
AIE - Político (os diferentes Partidos, o Sistema Político, a Câmara, o Senado etc.),
AIE - Sindical (O Conjunto dos Sindicatos, das Centrais Sindicais),
AIE - Cultural (as Letras, as Belas-Artes, os Esportes etc.),
AIE – da Informação (A Imprensa escrita, a Televisão, o Rádio).
Após tê-las identificado, o Pensador insistiu na necessidade de não se confundir os Aparelhos Ideológicos do Estado com os Aparelhos (Repressivos) do Estado, haja vista existirem as seguintes diferenças entre ambos:
  1. Existe apenas um Aparelho (Repressivo) do Estado, enquanto que são vários os Aparelhos Ideológicos.
  2.  Enquanto o primeiro pertence ao Público, através do Governo, os segundos são de propriedade privada. Porém, ainda assim, podem ser considerados “Estatais” na medida em que se sabe o quão o Público e o Privado estão associados* no “Estado Burguês”. Ademais, neste contexto, pouco importa se os “Aparelhos” são Públicos ou Privados, vez que atuam como Aparelhos Ideológicos do Estado.
*NOTA do AUTOR - grosso modo essa promiscuidade pode ser observada em algumas Empresas de Segurança que embora sejam privadas, agem como se fosse Forças Policiais.
  1. Aqui se tem a diferença mais importante. O Aparelho (Repressivo) do Estado funciona principalmente através da violência explícita, física e só secundariamente através do convencimento ideológico, através da Ideologia. Já no Aparelho Ideológico do Estado dá-se o inverso; ou melhor, nele a violência explícita é substituída pela camuflada e a pressão é exercida através de sanções, exclusões, expulsões etc. Não deixa de ser uma violência, é claro, mas como é executada com atenuantes, dissimulações e simbolismos, escamoteia sua face perversa enquanto atinge a todos que focaliza.
ALTHUSSER prossegue esclarecendo que apesar dessas diferenças, ambos os Aparelhos são complementares e combinam as suas forças para favorecer a Classe Dominante, que usa o Aparelho Ideológico do Estado para impor a sua Ideologia e se vale do Aparelho (Repressivo) do Estado para fazer com que ela seja obedecida.
NOTA do AUTOR - Para corroborar sua tese, ALTHUSSER cita a preocupação de Lênin em reformular radicalmente o Aparelho Ideológico de Estado- Escolar, para permitir que o Proletariado garantisse por intermédio dos estudos, o futuro da Revolução e a passagem para o Socialismo.
A Elite usa os poderes dos Aparelhos Ideológico e Repressivo do Estado para conservar a sua posição, mas sempre tomando o cuidado especial de manter-se hegemônica sobre e nos Aparelho Ideológico do Estado, pois sabe que nenhuma Classe Social consegue permanecer no Poder se não se autolegitimar, por mais falaciosas e cínicas que possam ser as suas argumentações.
Por outro lado, e graças a essa preocupação da Classe Dominante, é possível observar que os Aparelhos Ideológicos do Estado são, também, meio e espaço valiosos para se deflagrar a “Luta de Classes”, pois neles, a “Classe Dominante” não dispõe de facilidade absoluta para impor suas Leis e seus interesses, já que as “Classes exploradas” possuem os meios e os instrumentos efetivos para se expressar e reagir.
Ao contrário do que sucede nos Aparelhos (Repressivos) do Estado onde a força e a violência das armas e a brutalidade do autoritarismo cala qualquer tentativa de oposição.
ALTHUSSER e a Educação.
No Passado a quantidade de Aparelhos Ideológicos do Estado era maior que na atualidade e, dentre eles imperava a Igreja, que além das questões espirituais, também ditava as normas sobre as chamadas questões seculares, tais como, a Escola, a Economia, a Cultura, a Política etc.
Praticamente todo o Ideário de uma Sociedade obedecia aos seus mandamentos.
O advento da Revolução Francesa não resultou apenas na transferência do Poder de Estado para a Burguesia Capitalista, mas também no ataque ao principal Aparelho Ideológico do Estado, ou seja, a Igreja.
Com isso a primazia ideológica foi transferida para outra Instituição: a Escola.
A Escola se encarrega de doutrinar as crianças, inculcando-lhes de modo diferente os “Saberes (a língua materna, suas noções acerca da Ciência, da Economia, da Política, da História etc.) da Ideologia Dominante e, também, a própria “Ideologia Dominante (sua Moral, Educação Cívica, Filosofia do Regime etc.)”.
E tal pregação é muito bem sucedida, pois nenhum outro Aparelho Ideológico do Estado possui tantos trunfos para obter sucesso quanto ela, haja vista que a mesma dispõe de uma audiência cativa por vários anos, que lhe dedica cinco ou seis horas por dia e, sobretudo, que é composta por indivíduos tão influenciáveis, quanto podem ser as crianças e os jovens que nem sequer formaram as respectivas personalidades.
Espremidos entre as normas e orientações que recebem do Aparelho Ideológico de Estado - Familiar e as que recebem do “Escolar”, os (as) alunos (as) são alvos fáceis, pois essa pressão bilateral os torna mais frágeis ainda e prontos e aceitar o que lhes for colocado sem meios de questionar e de fazer oposição.
Com isso, tornam-se “cúmplices involuntários” pela manutenção da “Ideologia da Classe Dominante” e da mesma no Poder. Só em raríssimas ocasiões algum indivíduo consegue vislumbrar a iniquidade da situação, mas, então, o Aparelho (Repressivo) do Estado é acionado para silenciá-lo e manter o rumo de antes.
O problema, segundo ALTHUSSER, é que também são raríssimos os Mestres dispostos (ou que tenham Cultura e Saber para isso) a questionar e contestar o Sistema que a todos, ao cabo, escraviza.
A maioria nem sequer tem consciência do sórdido trabalho que executa e nem do triste papel que representa. Ao contrário, colocam todo empenho em cumprir as orientações que recebem dos Superiores e em manter essa representação Ideológica, que, aliás, faz a Escola atual assumir o papel que outrora foi da Igreja.
Para o Filósofo, a educação tem importância fundamental, mas ao contrário de outros Pensadores (Durkheim, em especial) que a viam como indutora e mantenedora do “equilíbrio social”, ALTHUSSER desejaria que ela fosse o instrumento para a ruptura com o Sistema e libertação dos oprimidos.
Contudo, pelas razões acima apresentadas (desinteresse e/ou incapacidade dos Professores e doutrinamento dos alunos) e que são decorrentes do fato de que o papel e as operações da Educação são estipulados fora de seu âmbito, ou mais precisamente nos Gabinetes da Classe Dominante da Sociedade Capitalista, é inútil esperar o seu concurso para a reforma no Status Quo.
Essa conclusão levou o Filósofo a elaborar a uma ácida critica à Sistemática implantada, conforme segue:
A Teoria Critica Reprodutivista
Os “Críticos Reprodutivistas” censuram o que consideram uma característica perversa da “Escola” nas Sociedades Capitalistas, onde a “Escola Pública”, que recebe a massa proletária, dedica-se apenas a incutir nos alunos a Ideologia das Classes Dominantes, enquanto que as “Escolas Particulares” ofertam efetivamente o “Saber Universal” aos filhos da Elite, eternizando, pois, a iníqua situação.
NOTA do AUTOR – correndo os riscos que toda generalização implica, associamos o termo “Escola Pública” com baixa qualidade e “Escola Particular” com alta qualidade, tomando por base o que acontece no Brasil atual. É claro que cometeremos injustiças e estaremos distante da verdade se olharmos para o nível das Universidades, quando, então, os conceitos se invertem. Pedimos desculpas aos que forem atingidos injustamente e contamos com a compreensão de todos.
A “Crítica Reprodutivista” também enfoca o “aspecto político” do que é dado aos alunos, em detrimento dos “aspectos técnicos” que deveriam ser oferecidos; e alerta para a óbvia consequência de que no Futuro essa deficiência se revelará um filtro poderoso para impedir ou dificultar o acesso aos melhores empregos e oportunidades.
É, pois, essa oferta equivocada ou má intencionada que faz com que a “Escola” destinada ao proletariado seja vista como uma mera “Reprodutora de um Proletário submisso” na medida em que lhe ensina (sic) apenas conceitos que legitimam a Ideologia da Classe Dominante.
Assumida por ALTHUSSER e logo encampada por vários outros Intelectuais alinhados à Esquerda no espectro Político, a Teoria Critica Reprodutivista floresceu significativamente durante o célebre Maio de 1968 e a partir daí tornou-se “peça de resistência” para todos que se opõem aos ditames na área educacional, impostos pela Sociedade Capitalista.
NOTA do AUTOR – merece destaque nesse quesito a obra de Jean – Claude Passeron e Pierre Bordieu, “La Reproduction”, que ambos escreveram em 1970.
Porém, mesmo quem lhe reconhece a propriedade e a correção, observa-lhe a falha de se limitar a expor a situação caótica, sem propor qualquer alternativa substituta.
Uma das criticas mais lúcidas à mesma partiu do Filósofo brasileiro Dermeval Saviani (1946 – Professor Emérito da Unicamp SP.) que a taxou de equivocada por afirmar que a Educação não tem poder para determinar, ou estipular, como devem ser as relações sociais e por aceitar passivamente o jugo dessas relações iníquas.
Saviani ainda argumenta que a mesma julga erroneamente que na Sociedade Capitalista a Educação limita-se a resguardar os interesses do Capital, impedindo o surgimento de qualquer proposta pedagógica e deixando os “Educadores de Esquerda” sem perspectivas.
Mas, ele prossegue, se tal fato fosse real, o que restaria a esses “Educadores de Esquerda” senão abandonar o ofício (?); o quê, como se sabe, não é o que acontece.
Epilogo
De todo modo, as objeções e oposições que são colocadas contra o Pensamento de ALTHUSSER, neste particular e no geral, são naturais e até previsíveis, posto que a Filosofia seja exatamente isso: a dialética em busca da melhor compreensão.
São pontos de vista divergentes que em nada ofuscam o brilho de sua Filosofia e a coragem em criticar conceitos arraigados e ultrapassados.

São Paulo, 24 de Agosto de 2012.

sábado, 25 de agosto de 2012

Alameda

Caminhas pela alameda
e os lírios te saúdam.
As folhas caídas
são coisas da vida,
na velha espera
pela nova quimera.

Que boa sorte o Sol te preconize
e no mármore a eternize,
e que todos os Aedos
afastem os teus medos.

Em breve o vento trará
o perfume das tulipas
e será a rota certeira
da vida verdadeira.

Por isso, passa
teu passo
pela alameda.
E que a vida te conceda,
doce Papillon
essa clara certeza
de sempre seguir,
pois eis que a vida
é a dádiva de ir.