segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O fim da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio


Ouvi há poucos dias, entremeio a uma entrevista da candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff, a seguinte afirmação: “não tenho nada contra a Filosofia nem contra a Sociologia... (...) O currículo é muito extenso (sic)... (...) Desestimula o aluno (sic)... (...) é preciso alterar o currículo do Ensino Médio (sic)”.

Num primeiro momento julguei ter entendido mal e para não cometer um julgamento injusto escrevi um email ao escritório de campanha da Senhora Candidata indagando se aquela proposta era real, mas não tiveram sequer a delicadeza de me responder. Confesso que não me recordo doutros detalhes de sua fala naquele momento, mas devido ao silêncio de sua assessoria e a menção sobre alterações no currículo que passou a ser feita nos programas seguintes, não me restou dúvidas acerca da realidade daquela ameaça às disciplinas do Pensamento, da Reflexão, da Análise, da Iluminação e, principalmente, da Libertação das vetustas superstições e das sórdidas dominações praticadas com o uso e o abuso do amedrontamento físico e celestial, como instrumento de coerção.

Sabemos todos que o mundo em geral, e o Brasil em particular, vive uma crise sem precedentes de declínio cultural e artístico, com os seus indefectíveis reflexos no comportamento ético das pessoas. Uma situação dramática que se revela de forma nua e crua na violência juvenil, no culto desenfreado ao material e no completo descaso pela vida e pela realização das pessoas. O chamado “funk ostentação” sintetiza com perfeição essa quadra tenebrosa do Presente e as horrorosas perspectivas para o Futuro, aumentando o drama de um povo que durante toda a sua história não foi capaz de produzir uma obra literária, cinematográfica etc., tampouco uma pesquisa cientifica (talvez com exceção do avião de Santo Dumont) que merecesse o reconhecimento das outras nações. O fato de não termos, por exemplo, um único Prêmio Nobel (ainda que muitos aleguem seu caráter comercial e antiético) é uma amostra clara do nosso déficit no campo das ideias, ao contrário de países vizinhos, como o Peru, a Colômbia, o Chile, a Argentina e o México que também sofreram processos colonizadores deploráveis e enfrentam situações tão adversas quanto as que nos afrontam.

Países vizinhos que produziram e produzem Arte, Cultura e Ciências que são reconhecidas pelo mundo, não porque sejam mais capazes que nós outros, mas, sim, porque foram e são estimulados a pensar, tanto pelo hábito da leitura, quanto pelo aprendizado nas escolas das disciplinas do Pensamento, como parte indissociável da grade regulamentar. Exatamente o que nunca ocorreu no Brasil, salvo na época da ditadura burguesa e militar que implantou o doutrinamento da “Direita” através do famigerado curso de OSPB.

Pois bem, agora, quando as primeiras gerações começam a se beneficiar desses novos conhecimentos, eis que surge essa sombra no horizonte.

É claro que é importantíssimo e até vital que se aprenda a construir um trator robusto; que se aprenda como ampliar o cultivo da soja ou que se ensine como se fabrica uma roupa barata e de boa qualidade. Isso é inquestionável, pois sem essas coisas básicas não se vive, inclusive para pensar, criar. Mas sei que é desnecessário prosseguir nessa argumentação, pois a inteligência do amável leitor (a) dispensa-me desse fardo de lugares-comuns.

O que me causa perplexidade, apreensão e medo é o avanço das trevas que se projeta no horizonte. Essa ameaça Fascista, com ranços da Inquisição religiosa e traços do Stalinismo mais tacanho, que caminha sub-repticiamente com o intuito único de cercear, de limitar a Liberdade e o consequente Crescimento pessoal, obtidos através do aprendizado de como raciocinar, analisar, julgar; e não por meio do adestramento que ensina decorar regras, leis, fórmulas e quejandos.

Se é importante, como dissemos acima, o avanço e desenvolvimento material, não é menos importante que esse avanço seja repartido com quem o produziu; e para que tal divisão seja equânime, equilibrada, justa é preciso que a capacidade intelectual não seja privilégio de uma Elite que parece ter esquecido suas raízes e suas lutas anteriores.

Em razão do exposto é que eu conclamo a todos e a todas para que repilamos essa tentativa de limitar o aprendizado escolar da Arte de Pensar, pois os outros meios de instrução (TV. radio, web etc.) que poderiam estimular a reflexão e a criatividade, demonstram à exaustão a sua despreocupação com o assunto, haja vista que sua única preocupação é aumentar a audiência e os lucros auferidos, ainda que a custa da exibição de um bizarro circo de horrores.

Não enaltecerei um candidato em detrimento de outro, tampouco farei apologia de determinada opção política, pois respeito à vontade soberana de quem paga os salários e as outras vantagens daqueles que disputam uma vaga no quadro de Servidores Públicos.

Mas pedirei aos eleitores e eleitoras de qualquer um dos candidatos que se unam na luta em prol da rejeição de qualquer tentativa de diminuir a Liberdade que conquistamos a tão duras penas. Que não permitamos que a Liberdade de Pensar não seja estimulada através do ensino, pois só somos livres quando podemos sonhar. 

De minha parte, deixo aqui, de público, o meu repúdio a essa suja intenção, que, se concretizada, certamente condenará as novas gerações a permanecerem no eterno ciclo de ignorância e abjeta dependência.




Rio de Janeiro, 13 de Outubro de 2014.

Fabio Renato Villela