quinta-feira, 3 de abril de 2014

METAFÍSICA - A Ciência das Ciências






Platão
Em meados do século IV AEC a Grécia oferecia ao saber do Mundo o labor de Platão e o de seus discípulos que contribuíam poderosamente para o desenvolvimento da Matemática, da Física, da Ética e da Política. Após esclarecer a natureza das ciências que formam o currículo de um Filósofo – enquanto “amigo do saber” – ou seja, a aritmética, a geometria, a astronomia e a música, o mestre Platão demonstrou o quão necessário se fazia formar uma ciência que fosse superior a todas essas, bem como às demais, pois, em suas palavras:

“Penso que se o estudo de todas essas ciências que arrolamos foi feito de tal modo que nos levou a entender os seus pontos comuns e o seu parentesco... (é hora de) percebermos as razões pelas quais elas estão tão intimamente interligadas; (o) desenvolvimento (dessa compreensão) nos levará ao objetivo que temos em mira e o nosso trabalho não será debalde; caso contrário, será”.

Em outros termos, alertava Platão que se investigações fossem feitas sem a preocupação de lhes enxergar sob um ponto de vista maior, que integrasse os estudos em um conjunto, o conhecimento auferido seria inútil por ser estanque. Mal comparando, seria como se beltrano soubesse fazer tijolos e cicrano soubesse fazer cimento, mas sem um saber que unisse essas duas habilidades não seria possível construir abrigos. Cada um daqueles saberes seria inútil.

E o instrumento para efetivar a necessária integração das ciências seria justamente a “Ciência Superior” ou a “Metafísica*”, que abarcaria todos os fundamentos das “ciências menores”. Seria, pois, a “Ciência das Ciências” na qual Platão enxergava a Dialética como fundamental para criticar e joeirar as hipóteses que embasam as diversas disciplinas, as quais, porém, não as podem decifrá-las em profundidade por lhes faltar capacidade para tanto. Ou, “as que não ousam tocar porque não estão em condições de explicá-las”, nas palavras do mestre. Coerentemente com sua abrangência, o objeto de estudo da Metafísica seria o conjunto de temas estudados pelas “ciências menores”, sendo o seu principio ou fundamento o balizador que apontaria a validade e veracidade dos princípios ou fundamentos daqueles estudos coadjuvantes.

Nota do Autor – Metafísica* - chamou-se de Metafísica a essa “Ciência Superior” porque na época a “Physica” era a ciência mais importante e, então, como ela seria Superior à Física (meta = acima, além) o nome adequou-se perfeitamente. Existem outras versões para a gênese do termo, sendo a mais conhecida a que versa sobre a localização dos textos aristotélicos, relativos a Metafísica, terem sido arquivados por Andrônico de Rodes no século I AEC, discípulo de Aristóteles, após os textos relativos à física. Embora não haja um consenso, a primeira versão é a mais aceita pelos estudiosos.

Aristóteles

Aristóteles adotou a ideia da Metafísica chamando-a de “Filosofia Primeira” ou “Ciência que estamos procurando” e esquematizou-a na forma de treze “problemas enumerados” que apresentou no Livro III de sua obra, chamada justamente de “Metafísica”.

Esses problemas abordaram direta ou indiretamente os seguintes tópicos:

1 – as relações entre as ciências e seus objetos, ou temas, de estudo.

2 – as relações entre as ciências e os princípios de seus temas.

3 – a possibilidade de existir uma “Ciência Maior” que estudasse todas as Causas, todos os Princípios primeiros, todas as Substâncias ou Essências e seus atributos e, ainda, as Substâncias não sensíveis (ie. não captáveis pelos Sentidos [tato, visão, audição, paladar e olfato]).

4 – a questão das partes que formam todas as coisas.

5 – a possível diversidade de natureza entre os princípios.

6 – a unidade do Ser.

Etc.

São tópicos, diga-se, que versam sobre assuntos que se situam no ponto de encontro, ou de intersecção, entre as ciências individuais (a Física, a Química, a Oratória, a Lógica etc.) e aquilo que seja de interesse comum para elas.

Desse modo, a Metafísica seria a “Ciência Primeira” por fornecer a todas as outras, um fundamento ou uma base comum. Seria um tipo de “enciclopédia das ciências”; um inventário de todas elas, bem como de suas relações, de suas subordinações, de suas tarefas ou finalidades e de seus limites.
Porém, com o correr do tempo, o conceito de Metafísica ampliou-se e passou a ser apresentado em três formas principais, as quais serão desenvolvidas na sequência.

1 – como Teologia

2 – como Ontologia

3 – como Gnosiologia.

Nota do Autor – a conceituação que mais vigora atualmente é aquela que define a Metafísica como “a ciência daquilo que está além da experiência sensível, ou seja, além daquilo que pode ser captado pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) e racionalizados pelo Intelecto”. Esse fato faz com que alguns autores, inclusive este escrevinhador, usem certa licença literária e a utilizem como sinônimo de “sobrenatural” ou daquilo que está além da matéria, do concreto, do físico etc. Todavia, para outros, essa definição é incompleta, pois geralmente atem-se apenas à Metafísica teológica e a faz ser subordinada à condição de estar além da experiência.

A 1ª concepção de Metafísica – teológica

O conceito de “Metafísica Teológica” provém da ideia de que o seu objeto é um “Ser” mais elevado e perfeito que qualquer outro; ou seja, Deus, do qual se origina todos os outros seres e coisas. Porém, na obra de Aristóteles o conceito teológico mistura-se com o conceito “Ontológico” que, como se sabe, refere-se “ao Ser, enquanto Ser”.

Afirma o Estagiarita que o conhecimento de que existe algo eterno, imóvel, separado das coisas é um conhecimento especial e que por isso deve estar em uma categoria especial das Ciências Teoréticas e não na categoria que abriga a Physica, nem na Matemática. Para ele, é imperioso que esse tipo de sabedoria esteja em uma Ciência que seja superior às duas citadas, pois só a “Ciência Primeira” será capaz de se ocupar das “coisas separadas, imóveis e eternas”.

Também afirma que todas as Causas (ou as Ideias, no sentido platônico) são eternas e que as Causas das “coisas eternas, imóveis e separadas” são especiais porque nelas está aquilo que de Deus podemos acessar. Segundo seu ponto de vista, existem três Ciências Teoréticas: Matemática, Física e Teologia, já que o divino está em todos os lugares, mas porque Deus é o objeto de estudo mais elevado, apenas a ciência mais elevada será capaz de examiná-lo.

Afinal, se existissem apenas as coisas físicas, concretas, a Física seria a ciência mais elevada, mas como existem as Coisas Eternas, a sua Filosofia (no sentido de estudo) haverá de ser a “Ciência Primeira” que, também, é a mais universal ou abrangente, haja vista ser a teoria do “ser enquanto ser” sem se limitar às qualidades e características individuais. Porque é a teoria daquilo que o “Ser” é, ou faz com que seja.

Fica claro que Aristóteles associa os conceitos de Metafísica ontológica com os conceitos de Metafísica teológica porque pretendeu priorizar o “objeto Deus”, a partir da consideração de que o divino tem prioridade sobre todas as outras formas de Ser. Assim, as ciências seriam mais ou menos valorizadas na medida em que os seus objetos de estudo mais se aproximassem ou se afastassem da divindade.

Todavia, esse critério, em verdade, já fora adotado por Platão que em Fedon afirmou:

“Privilegia-se a ciência que tem por objeto aquilo que é ótimo e excelente (ou seja, a própria perfeição, ou Deus).

Contudo, essa hierarquização segundo a maior ou menor perfeição do objeto de estudo relegava as outras ciências a um nível de inferioridade que não contribuía para validá-la, tampouco para dignificar o estudo que lhe fosse dedicado. Atento ao fato, Aristóteles, a partir de certo momento, passou a insistir apenas no conceito de Metafísica Ontológica, embora não renegasse o Teológico, o qual sempre reaparece quando se afirma a correspondência entre um “Ser primeiro” e uma “Ciência primeira”.

Plotino, por exemplo, tratou a Metafísica como eminentemente Teológica já que ela se contrapõe com as coisas que tem por objeto de estudo o Inteligível (Deus) ou a “Realidade Suprema”, às ciências que tem por objeto as coisas sensíveis (ie. captáveis pelos Sentidos [tato, visão, audição, paladar e olfato]). Em sua obra Enéades ele afirma:

“Entre as ciências que estão na alma (ou na mente) algumas tem por objeto as coisas sensíveis, se é que podem ser chamadas ciências já que melhor lhes caberia o nome de opiniões... as outras, as verdadeiras Ciências que tem por objeto o Inteligível, chegam à alma provinda do Intelecto divino e nada tem de sensível”.

Também em Spinoza encontra-se uma Metafísica que divide a realidade em um domínio superior e privilegiado e outro, inferior e derivado, como é característica da Metafísica Teológica. Para o holandês, o objeto da Metafísica é a “ordem necessária” do Mundo (ou seja, Deus), já que para ele:

“A ordem das coisas coincidia com a sua conexão causal”.

Em outros termos, para ele todas as coisas do Mundo tem uma Causa que as faz existir, e essa Causa é Deus, que se confunde com o próprio Mundo.

Também se observa que Metafísica para Hegel apresenta o viés teológico haja vista que ele afirma peremptoriamente que Deus é o seu objeto (de estudo, de reflexão). Disse:

“a Filosofia tem objetos em comum com a religião porque o objeto de ambas é a Verdade, no sentido altíssimo da palavra, porquanto Deus e somente Deus é a Verdade”.

Desse arrazoado depreende-se que a Filosofia pela igualdade com a religião em termos de objeto (Deus, a Verdade) reina soberana sobre as outras ciências já que essas tem como objeto aquilo que é finito, irreal e derivado; ao contrário da Filosofia que se ocupa da Verdade, do Infinito. Diz Hegel, ainda, que igual à Filosofia as outras ciências tem conhecimentos e pensamentos, mas esses são dirigidos para objetos do Mundo dos Fenômenos e o conjunto de conhecimentos relativos aos mesmos está excluído da Filosofia por não condizer com a mesma, tanto em termos de forma, quando de conteúdo.

Outra versão de Metafísica Teológica é encontrada no sistema de Croce, não obstante suas declarações antimetafísicas. A sua Filosofia do Espírito que tem como objeto a história eterna do “Espírito Universal”, comprova esse engajamento, já que nela ele afirma que todas as outras ciências são rebaixadas à posição de simples aparências, ou “acidentes empíricos” perante a “Realidade Sublime”, ou seja, Deus.

Ainda nessa senda, encontra-se no sistema de Bérgson outra expressão da Metafísica Teológica, já que ele propõe o afastamento dos símbolos para se entrar diretamente em contato com uma “Realidade Privilegiada”, de natureza divina, que é a corrente da consciência. Em relação as outras ciências ele as classifica como “simples auxiliar da ação”.

Por fim, observe-se que todas as outras filosofias que tendem para o Espiritualismo (não confundir com espiritismo) ou Mentalismo ou Consciencialismo são em graus variados adeptos da tese que afirma ser a Metafísica essencialmente teológica.

A 2ª Concepção de Metafísica – ontológica

A segunda concepção fundamental de Metafísica é “Ontológica”; ou seja, vinculada à doutrina que estuda os caracteres, ou as características fundamentais do Ser. As características que todo Ser possui e não pode deixar de ter.

Nessa concepção destacam-se como principais propostas as seguintes:

1 – existem determinações “necessárias” do Ser; isto é, determinações que de nenhuma forma ou maneira o Ser pode deixar de ter.

2 – estas determinações estão presentes em todas as formas e modos do ser particulares (individuais).

3 – existem ciências que tem por objeto um modo de ser próprio, isolado, em razão de motivos que lhes são cabíveis.

4 – deve existir uma ciência que tenha por objeto as determinações necessárias do Ser, as quais são reconhecíveis em razão de um Principio que lhe é adequado.

5 – essa ciência vem antes que todas as outras e por isso é chamada de “Ciência Primeira”. E, também, porque o seu Objeto de estudo está implícito nos “Objetos” de todas as outras ciências, condicionando com o seu Principio a validade de todos os outros Princípios.

A Metafísica que segue essas proposições indica a existência de:

1 – determinada teoria da “Essência”, mais precisamente da “Essência Necessária”.

2 – determinada teoria de “Ser Predicativo”, mais precisamente da inerência.

3 – determinada teoria do “Ser Existencial”, mais precisamente da “necessidade”.

Esses conjuntos, segundo muitos, expressam a forma mais apurada que a Metafísica recebeu de Aristóteles. É a Metafísica como a “Teoria da Substância ou Essência”; ie., aquilo que um Ser não pode (deixar) de ser, ou não ser.A teoria da Essência Necessária ou a Necessidade de Ser.

A Metafísica nesse sentido tem a contradição como Principio, pois só assim será possível delimitar e reconhecer o Ser substancial, ou a Essência do Ser. A esse respeito Aristóteles disse:
Quem nega esse Principio destroi a Substância e a Essência necessária, pois é obrigado a dizer que tudo é acidental e que não existe algo como “ser homem” ou “ser animal”.

Indicar a Substância ou Essência de uma coisa nada mais é que indicar o “Ser (existir)” próprio dela. Assim sendo, o “Objeto” da Metafísica Ontológica não pode deixar de ser a Essência ou a Substância, pois através destas forma-se o Principio de explicação de todas as coisas existentes. Para Aristóteles:

A Substância de cada coisa é a Causa Primeira do Ser dessa coisa, ou, em outros termos, a Essência de algo é o motivo de sua existência.

A Substância, porém, não deve ser vista, nesse sentido, como uma “Realidade Sublime” que dignifica a ciência que a tem como objeto de estudo, pois, enquanto Substâncias, tanto Deus quanto um ramo de capim tem o mesmo valor e as ciências que os tomam por objetos, a mesma dignidade. Em sua célebre obra “Partes dos Animais” Aristóteles reconheceu explicitamente que todas as ciências que se ocupam da Essência ou Substância tem a mesma relevância.

Nota do Autor – note-se que “Deus” seria mais valorizado se aqui a Metafísica fosse Teológica, mas como aqui os objetos têm os mesmos pesos já que o que se estuda é o “Principio Primeiro” da existência, ou do Ser de ambos a maior valorização é pelo Principio de cada qual.

Fica claro, portanto, que desse ponto de vista a prioridade da Metafísica não está na excelência “divina” do seu objeto como no caso da Metafísica teológica, mas sim no fato do objeto de estudo ser a “Essência” ou a “Substância” da coisa, o que permite entender os objetos de todas as ciências, tanto em seus aspectos comuns e fundamentais a toda a classe a que pertence, quanto no seu aspecto individual. Com isso, deduz-se que todas as ciências, em alguma medida e de alguma forma, investigam, ao cabo, as Substâncias, pois mesmo que se limite aos aspectos individuais, neles subjaz a sua Essência. A Metafísica enquanto Teoria da “Substância Genuína” ocupa uma prioridade decorrente da lógica e não de um suposto valor sobre as demais ciências, pois a sua prioridade decorre do fato de seu objeto ser Ontológico, ie., ser a Essência. Essa prioridade leva as outras ciências a sinalizarem a sua existência da mesma forma que as diversas faces de uma Substância sinalizam a existência da mesma.

A Metafísica Ontológica sofreu certo abalo no século XIII, Idade Média, quando São Tomas de Aquino reavaliou as ideias de Aristóteles restringindo a superioridade lógica da Metafísica sob o argumento de que ela, enquanto “Teoria da Substância (ou Essência)”, não incluía Deus entre os seus objetos pelo simples fato Dele não ser uma Substância como as outras, igual a dos outros Seres, as quais seriam apenas “Criações divinas”.

Essa postura de São Tomaz fez com que a Metafísica perdesse a prioridade em favor da Teologia, considerada a partir de então como uma ciência independente, cujos Princípios seriam ditados diretamente por Deus, fato que a tornava superior a todas as outras que, então, não passariam auxiliares da mesma.

Todavia, através de Duns Scot a Metafísica voltou a ser vista como prioridade. Definiu-a o Filósofo como: “a Ciência Primeira” do “Saber Primeiro”, isto é, o objeto de estudo da Metafísica é o “Ser Comum” ou a “Essência” das coisas e/ou Seres. Comum, portanto, a todas as criaturas e ao seu Criador divino.

Note-se que ao incluir Deus ao grupo geral, Scot reafirmou que a prioridade da Metafísica é a Lógica e não mais a “Teologia”. E essa definição perdurou por toda a história posterior, passando a partir do século XVII a ser chamada de Ontologia.

Inaugurou essa nomenclatura, Jacobus Thomasius em sua obra Schediasma Historicum e desde então o termo ganhou admiradores e adeptos, dentre os quais Clauberg que o justificou do seguinte modo:

Assim como se chama de “Teosofia” ou “Teologia” a ciência que versa sobre Deus, não parece impróprio que se chame de “Ontologia” ou “Ontosofia” a ciência que versa sobre o “Ente” em geral e não sobre este ou aquele “ente” designado por um nome especial ou distinto dos outros por certa propriedade (ou característica).

A assunção dessa Metafísica Ontológica, ou simplesmente Ontologia, não representou um antagonismo contra os dados da experiência (contra aquilo que é perceptível). Na verdade, sob a sua inspiração, começava a ser feita de forma organizada e sistemática a exposição dos caracteres fundamentais (característica básicas) do Ser que a experiência revela repetidamente.

E essa maneira de pensar encontrou em Wolff um ardoroso adepto, cujo talento e esforço contribuíram significativamente para o sucesso que a disciplina ganhou após um breve tempo. Segundo ele, o pensamento comum já possui de forma confusa as noções que a Ontologia expõe de maneira clara e sistematizada, mas com isso não se pode supor que existe uma “ontologia natural”, formada pelas noções desorganizadas, embora os Escolásticos tenham afirmado que sim, chegando mesmo a tentar demonstrá-la.

Conforme a sua ótica, essa “ontologia natural” diferencia-se da “Ontologia artificial (ou elaborada, investigada, racionalizada)” da mesma forma que a “Lógica” diferencia-se dos procedimentos naturais do intelecto. Assim, a Metafísica não deve ser vista como se fosse um simples “Dicionário de Filosofia”, mas, sim, uma Ciência Demonstrativa cujo objeto é formado por características que pertencem a todos os Entes, seja de modo absoluto ou sob certas condições. Ademais, graças ao seu empenho, a Metafísica Ontológica passou a tratar também das questões empíricas* e com isso findou o antigo conflito entre o apriorismo dedutivo da Metafísica e as experiências sensoriais. Dessa sorte, baseado nessa nova formatação, o erudito também fez a diferenciação entre a “Psicologia empírica”, na qual, a partir da experiência são estabelecidos os Princípios que explicam as Causas do que pode acontecer na mente (alma) humana e a “Psicologia Racional” que é a “Ciência de todas as coisas possíveis na alma humana”.

Nota do Autorquestões empíricas*: os dados captados pelos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) e racionalizados pelo Intelecto.

E Wolff foi além ao diferenciar a “Ontologia” das outras três disciplinas Metafísicas, a saber:  Teologia, Psicologia e Física (especialmente na parte que trata da Cosmologia), cujos objetos são Deus, a Mente (alma) humana e as Coisas naturais, físicas, concretas. Nessa última, voltando-se, claro, para as Substâncias ou Essências das mesmas.

Outro aspecto interessante a ser destacado na Ontologia de Wolff vem do fato de que ela poderia ser interpretada a partir de dados colhidos de forma empírica (ie. através do que foi captado pelos Sentidos [tato, visão, audição, paladar e olfato] e racionalizado pelo intelecto) como é possível fazer nas outras ciências e essa aproximação com a realidade física, concreta, rendeu-lhe o apoio e a defesa de outros estudiosos, dentre os quais alguns próceres do Iluminismo que, como se sabe, focava a Razão, a materialidade, a física. O Filósofo  D’Alembert, por exemplo, disse:

“Visto que todos os Seres, tantos os espirituais (ou mentais) quanto os materiais tem propriedades (características) gerais em comum como a existência, a possibilidade, a duração etc. é certo que esse ramo da Filosofia, a Ontologia, no qual todos os outros ramos haurem em parte os seus Princípios, seja denominado Ontologia, ou seja, “Ciência do Ser” ou ‘Metafísica Geral’”.

E D´Alembert estendeu o seu apreço até ao ponto de propor a criação de outra Metafísica, voltada mais para as Ciências Naturais que se encarrega das coisas materiais, físicas. Sobre isso, disse:

“Que seja criada mais para nós, que fique mais próxima e presa à Terra, uma Metafísica cujas aplicações se estendam às Ciências Naturais e aos diversos ramos da Matemática. De fato, em sentido estrito, não há ciência que não tenha a sua Metafísica se com isso entendermos os Princípios Gerais sobre os quais se constrói determinada doutrina, que são, por assim dizer, os germes de todas as verdades particulares”.

Compartilharam dessa opinião os Filósofos Crusius e Lambert que iniciaram a defesa atual de uma Ontologia descritiva, ou “denotativa”, que se limite a observar e a registrar os traços da existência e que simultaneamente também leve em consideração o instrumento dessa observação; ou seja, que considere a reflexão humana e as condições que a solicitem.

A 3ª concepção de Metafísica – gnosiológica

 A terceira concepção recebe o nome de Gnosiologia, nomenclatura que ficou conhecida através de Kant, embora Bacon já a tivesse ventilado quando citou a noção de “Filosofia Primeira”, que ele definiu como:

“Uma ciência universal, que seja a mãe de todas as outras e que, no progresso das doutrinas, constitua a parte comum do caminho, antes que as sendas se separem e se desunam”.

Segundo Bacon, essa Filosofia ou Ciência Primeira deveria ser o:

“receptáculo dos axiomas que não pertençam às ciências particulares (ou individuais, como a química, a física, a oratória etc.), mas sejam comuns a numerosas ciências”.

A história do conceito da Filosofia Primeira é a história do Conceito Positivista da Filosofia, que tem em comum com o conceito kantiano o fato de enfatizar os Princípios e não os Objetos das ciências. Como já se viu, para Kant, a Metafísica é o estudo dos Princípios Cognitivos (ou das possibilidades de saber), pois são eles que formam a Razão (a racionalidade) humana e, por isso, condicionam todo saber e toda ciência. Examinando esses Princípios é possível chegar aos Princípios (ou fundamentos, ou bases) gerais de cada ciência.

Esse conceito de Metafísica que Kant expos no final de sua obra “Crítica da Razão Pura” também afirma que a Metafísica pode ser entendida de duas formas:

1 – como a segunda parte da Filosofia da Razão Pura (ou seja, do raciocínio que não sofreu influências de experiências empíricas). Como um Sistema da Razão Pura (ciência). Como um conhecimento filosófico total (verdadeiro, absoluto e, também, fenomenológico, aparente) que deriva sistematicamente da Razão Pura (e, nesse caso, dela é retirada a parte preliminar ou propedêutica da Filosofia da Razão Pura que é a Crítica, ou o estudo minucioso).

2 – como a Filosofia Total da Razão Pura, incluindo a Crítica. É nesse sentido que Kant chamava a Metafísica de Ontologia.

A Metafísica de Kant, a exemplo da “Cientifica” ou “Crítica (no sentido de estudo minucioso, cientifico)”, opunha-se à Metafísica dogmática tradicional, censurando-a nas três partes que foram destacadas por Wolff: teologia, psicologia e cosmologia. Contudo, ele não censurou a primeira parte, a Ontológica, já que o conceito básico da mesma continuava válido, embora fosse necessário corrigir-lhe alterando o seu caráter realista (concreto, material) para um caráter subjetivo.

Afinal, segundo a sua concepção, fazem parte da Metafísica Crítica ou Ontológica a Metafísica da Natureza e a dos Costumes (ie., dos comportamentos sociais, morais e éticos), sendo que a da Natureza abarca todos os princípios racionais puros (sem influência de qualquer experiência empírica) decorrentes de simples conceitos da ciência teórica de todas as coisas; enquanto que a de Costumes compreende os “princípios que determinam a priori o (que) fazer e o (que) não fazer”. Uma “Moral Pura”, portanto.

Como se observa, a Metafísica kantiana tem como característica principal o fato de ser “uma ciência de conceitos puros”; ou seja, uma disciplina que engloba os conhecimentos que podem ser obtidos independentemente das experiências empíricas.

Pode-se dizer que essa linha de pensamento teve continuidade na Filosofia contemporânea com Husserl e a sua Fenomenologia, embora ele se diferencie de Kant por não considerar os “Princípios muito gerais como constituintes da Razão”. Na verdade, ele os considerava apenas como o fundamento, a base, de certos campos do Saber ou de uma ciência especifica ou, ainda, de um conjunto de ciências. Por isso, aliás, ele os chamou de “materiais”, conforme segue:

“Cada objeto empírico (coisas físicas, materiais) insere-se com a sua essência material em uma espécie material superior, em uma ‘região’ de objetos empíricos”.

A argumentação de Husserl leva-nos a concluir, ao cabo, que a Ontologia (a Metafísica que se atem às essências) é apenas a “Lógica* Pura”, haja vista ser a mesma a “ciência eidética do objeto em geral”, ie., o estudo das essências do objetos, dos Seres, das coisas etc.

Nota do Autor - Lógica, no sentido de “Logos”, intelecto, raciocínio.

N. Hartmann que compartilha com Husserl o pressuposto fenomenológico reativou a “Ontologia Geral” argumentando que o seu objeto é o “Ente (o homem, a coisa)” e não o “Ser (o existir em essência)”, pois este é apenas aquilo que há em comum em cada Ente. Grosso modo, o Ser seria algo como o Principio Vital que existe em todos os seres.

Para ele, o Ser e o Ente se diferenciam tal como a “Verdade” e o “Verdadeiro”, a “Realidade” e o “Real” etc. E Hartmann prossegue sua argumentação afirmando que existem muitas “coisas verdadeiras”, mas o Ser da Verdade é um só; ou seja, é única a real existência e natureza de “todas as verdades”. Igualmente, o “Ser” de todos os “Entes” é único, independente da variedade de entes divididos em classes, espécies, reinos, formatos etc.

Essa posição realista adotada pelo Pensador, a principio parece aproximá-lo da postura de Wolff e doutros tradicionalistas, mas num segundo exame se percebe que é significativo o seu distanciamento dos mesmos, pois para ele o que constitui o objeto da Ontologia é o “modo” como o Ser é captado durante a experiência fenomenológica (o contato com a coisa que se fez aparente, captável). E foi justamente essa visão que inseriu a sua Ontologia na corrente chamada de Fenomenológica.

Corrente Fenomenológica em que brilha Heidegger, cuja tese afirma que o “sentido do Ser” só pode ser compreendido ao se investigar o “Ser” do único “Ente” que faz perguntas e as responde: o homem. Com isso, o Filósofo reafirmou o caráter primeiro da Ontologia ou Metafísica dizendo:

“O problema (o estudo) do Ser tende não só à determinação das condições a priori da possibilidade das ciências que estudam o Ente enquanto Ente e que, portanto, ao fazê-lo sempre já se movem numa compreensão do Ser, mas, também, à determinação das condições de possibilidade da Ontologia ou Metafísica que precedem e fundamentam as ciências ônticas (empíricas)”.

Em outros termos, vemos que Heidegger alerta que o problema do Ser não se refere apenas ao Ente, mas ao Ser das “ciências menores”. Com esse argumento, de certo modo, ele repõe a Metafísica em toda a sua plenitude, elevando-a do estudo da Ontologia do Ente que imperou durante certo tempo, para o patamar de “Ciência das Ciências”. De todas as ciências e não só daquela que estuda o Ente.

Epilogo

As teorias até aqui comentadas admitem o pressuposto de que a Metafísica possui duas características:

1 – Ser necessária.

2 – Ser primária.

Ser “necessária” é decorrente do fato de seu objeto de estudo, de lida, ser o “objeto necessário” de todas as outras ciências. Ser “primária” porque é o fundamento, a base de todas as ciências. Contudo, tais atributos não chegaram à contemporaneidade, pois embora a Metafísica mantenha-se presente e atuante da Filosofia o seu foco foi alterado para as seguintes questões:

1 – a questão do significado ou dos significados de “existência” na linguagem das diversas ciências.

2 – a questão referente ao relacionamento entre as diversas ciências e relativa às investigações sobre objetos que incidem nos pontos onde essas ciências se encontram.

Em relação ao primeiro item observa-se que o termo “Ontologia” é usado no sentido de haver um compromisso de se utilizar o verbo “Ser” e seus sinônimos em apenas um sentido determinado. Aliás, sobre isso, o Filósofo Quine declarou:

“Nossa aceitação de uma Ontologia é semelhante, a principio, à nossa aceitação de uma teoria cientifica: adotamos, no mínimo, por sermos dotados de “Razão”, o esquema conceitual mais simples no qual os fragmentos desorganizados da experiência bruta possam ser adaptados ou distribuídos. Nossa Ontologia estará determinada uma vez que tenhamos fixado o esquema conceitual total em que se adapte a ciência em seu sentido mais amplo; as considerações que determinam a construção racional de uma parte qualquer desse esquema conceitual (por exemplo, a parte biológica ou física) não são diferentes, em termos de espécie, das considerações que determinam a construção racional de todo o esquema”.

Em outras palavras, Quine diz que atualmente dá-se o mesmo tratamento à Metafísica que às teorias científicas comuns: racionalmente esquematizam-se os dados colhidos na experiência e os adaptam à ciência, sendo que a Metafísica daquela ciência estará completada quando o esquema amplo da mesma for fixado, usando-se para tanto o principio de que a lida usada nas partes pode e deve ser usada para a totalidade.

Nota do Autor – segundo alguns estudiosos, nota-se no discurso de QUINE quase que uma desmistificação da Metafísica. Certo “rebaixamento” de sua importância. Mas é uma opinião que não condiz com a realidade, pois o que se vê é que na atualidade a Metafísica desfruta da importância que sempre teve.  Porém, o modo atual  de encará-la segue o Racionalismo, talvez cético, que impera nos dias de hoje e ela, então, passa a ser vista como “apenas” mais uma ciência, não obstante o fato de ser superior às demais.

Carnap, aliás, endossa a opinião contida na nota acima e é esse sentido que dá ao termo Ontologia na Lógica e na metodologia atual.

Em relação à segunda questão, observa-se que atualmente a Metodologia substituiu a Metafísica tradicional na função de discutir as relações entre as “ciências menores” e as questões que provem das interferências marginais entre as mesmas. É certo que ela não herdou a pretensão de ser uma espécie de “enciclopédia das ciências” e que por isso tenha o condão de definir completamente as tarefas e os limites de cada disciplina; e justamente por isso é que não reivindica o poder de julgá-las, tampouco o de governá-las. Age mais como um organizador do universo conceitual que favoreça a comunicação entre os saberes, mas sem atentar contra a independência de cada qual. Com esse objetivo busca aparar as arestas em cada etapa das pesquisas científicas, tanto para favorecer as disciplinas quanto para aumentar os benefícios que elas possam gerar para o homem.

Mariana, MG, em 02 de abril de 2014.