sábado, 4 de maio de 2013

NIETZSCHE, Friedrich - Humano, demasiado, humano.



NIETZSCHE, Friedrich
1844 – 1900
Humano, demasiado humano.
Deus Morreu!
O Homem é algo a ser superado!
O Tele-Evangelismo atual e NIETZSCHE.

... NIETZSCHE reagiu à Filosofia de Hegel e ao Historicismo alemão. Ao primeiro, atribuía um interesse anêmico pela história e certo desinteresse com a própria vida e como a sua principal bandeira propunha uma reavaliação de todos os Valores (sobretudo da Moral Cristã que ele taxava de “Moral Escrava”) para que o curso da vida dos “Fortes” não fosse retardado ou obstruído pelos “Fracos”, a sua oposição tornou-se severa.

Para ele a Tradição filosófica e o Cristianismo tinham se afastado do Mundo (físico, material) e se voltado para o “Céu”, ou para o “Mundo das Ideias”, os quais, não passam de tolas ilusões.

Por isso, conclamava “sede fiéis à Terra” e não acreditem naqueles que falam de esperanças além desse Mundo....
Trecho extraído de “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder – Editora Cia das Letras.



Friedrich NIETZSCHE nasceu na Prússia, no seio de uma família religiosa, sendo seu pai e seus tios Ministros da Igreja Luterana.

Órfão de pai ainda na primeira infância, foi criado pela mãe, pela avó e pelas tias, mas nem essa presença feminina majoritária foi suficiente para suavizar a sua personalidade, cuja introspecção impediu que gozasse de amizades e de convívio social.

Aluno brilhante, aos 24 anos de idade se tornou Professor na Universidade de Basel, onde conheceu o compositor Richard Wagner (1813 – 1883, considerado o maior compositor alemão) que influenciou decisivamente o seu Ideário, até que o antissemitismo do Maestro causasse o rompimento entre ambos.

Em meados de 1870, contraiu difteria e depois da enfermidade nunca mais recuperou a saúde completa. Por isso, teve que renunciar ao seu cargo de Professor em 1879 e peregrinar durante uma década, por toda a Europa, em busca de cura para seus males.

Porém suas tentativas foram baldadas e em 1889, quando tentava evitar que um cavalo fosse chicoteado, desmaiou em plena rua e sofreu um tipo de Colapso Mental que agravou seu estado e o levou à morte, aos 55 anos de idade.

NIETZSCHE legou ao Mundo um Sistema Filosófico primoroso. Com ele, ideias que antes não eram sequer ventiladas (como a inexistência de Deus, por exemplo), ganharam um ordenamento de tal profundidade e coerência que seguramente abriram o caminho para que, entre outros, o Existencialismo vingasse pouco tempo depois.

Tais concepções foram expostas em seus vários livros e textos esparsos. Em relação aos primeiros, citaremos a seguir, aqueles que são considerados suas obras-chave.

Em relação aos segundos, não adentraremos em minúcias por questão de espaço, mas sugerimos a pesquisa e o estudo de suas interpretações acerca dos Filósofos Pré Socráticos, já que nelas estão concentrados vários de seus princípios.

1.   O Nascimento da Tragédia, 1872.
2.   Assim falou Zaratustra, 1883 – 1885 (sobre o qual nos debruçaremos com mais ênfase).
3.   Para Além do Bem e do Mal, 1886.
4.   Crepúsculo dos Ídolos, 1888.

Na sequência analisaremos os diversos temas que compõe o mosaico de seus Pensamentos:

Na Grécia ClássicaPlatão afirmava que o Mundo Verdadeiro era o “Mundo das Ideias”, um “local” imaterial, metafísico, onde estariam os modelos de todas as Coisas e Seres que existem materialmente, os quais, por isso, não passariam de meras e grosseiras cópias imperfeitas daqueles moldes.

Para fazer tais afirmações, o Mestre grego recorreu aos Conhecimentos que sorveu no Hinduísmo, durante sua temporada de estudos na Índia.

E a teoria ganhou tantos adeptos que, com o tempo, passou a ser considerada como uma Verdade Absoluta. 

Principalmente depois de ter sido encampada pelo Cristianismo, que a catapultou para todo o Ocidente e fez da mesma a base de toda Cultura europeia e dos territórios colonizados.

Desse modo, por milênios acreditou-se que:

1.   O Cristianismo está correto quando diz que tudo que existe neste Mundo atual (físico, concreto, material) é menos importante que aquilo que está no Céu, ou no “Mundo após a morte”.
2.   E também está correto quando prega que devemos nos afastar do que parece importante nesta vida, pois é um falso brilho. Que devemos tentar transcendê-la através da negação da mesma. Ou seja, através do ato de negar-se à satisfação dos desejos físicos (fome, sede, sexo, luxo, dinheiro, conforto etc.).

Essas exortações ainda são repetidas com frequência em nossa época, tanto por motivos Católicos (e assemelhados), quanto Budistas (e assemelhados) e/ou Filosóficos (no campo da ética, patriotismo e outros semelhantes).

Triunfar sobre as necessidades e vontades do próprio corpo é um desejo perseguido por homens tendências filosóficas e religiosas diversas.

Dos monges budistas e/ou hinduístas que fazem do ascetismo um estilo de vida, aos monges cristãos trapistas, dentre outros, que buscam nos votos de pobreza a “Salvação da Alma”, até o Filósofo Schopenhauer, cujo Ideário (derivado das “Upanishads” hindus) afirmava categoricamente que:
“Querer” leva ao Sofrimento!

NOTA do AUTOR - a leitura de Schopenhauer foi de fundamental importância para NIETZSCHE que lhe absorveu a Ideia Central, mas em sentido contrário. Se para o primeiro, “Querer Viver” seria a causa primeira da Dor, para o segundo seria o primeiro motivo de prazer.

O fato é que este Ideal sempre recebeu importantíssimo apoio de todos aqueles que não querem dividir suas posses (Elites Social e Financeira, Clero, Estados, Nobreza etc.) e alardeiam até o convencimento, que a renúncia ascética é uma virtude que deve ser buscada pelos puros.

É claro que buscam tal convencimento não por motivos nobres, mas apenas como um reforço sobrenatural de amedrontamento para evitar que os “puros (geralmente as Classes Oprimidas e espoliadas) avancem sobre suas posses e interesses.

Além da habitual coerção física e financeira, utilizam esse método espúrio de “Lavagem Cerebral” para que os despossuídos creiam que a miséria em que vivem é, ao cabo, um privilégio (sic).

E os puros”  não hesitam em seguir tal publicidade, pois nela também está embutida uma promessa que lhes é de suma importância: a esperança de que as suas mazelas serão recompensadas, as injustiças que sofreram serão corrigidas e que, no futuro, serão felizes.

Se no Presente o sufocamento dos desejos e das vontades os livra dos padecimentos das frustrações advindas pela não consecução dos objetivos, a esperança vindoura os inspira a suportar as injustiças, humilhações e penúrias que sofrem no dia a dia sem se rebelarem.

Ajuda-os a se conformarem em viver segundo “A Moral do Escravo”.

Todavia, apesar do caráter hegemônico que a Virtude da Renúncia desfrutava em todos os segmentos da Sociedade Cristã, a partir do inicio do Iluminismo essa concepção começou a ser questionada.

E nos séculos seguintes, o avanço do Racionalismo tornou tal questionamento cada vez mais agudo, pois já se duvidava com muito mais frequência de uma Moral e de uma Ética cuja base era uma lenda mitológica, ou seja, a Religião.

E esse movimento crítico, de crescimento regular e vigoroso, encontrou em NIETZSCHE sua expressão mais erudita.

Juntamente com inúmeros outros Pensadores, ele Não permitiu que Mitos e Fábulas continuassem sendo consideradas comoVerdades Inquestionáveis.

Desse modo, graças à crescente validação do Pensamento Lógico e Racional de Pensadores de seu quilate, em contraponto ao obscurantismo das Mitologias e Religiões, pôde se decretar que: Deus morreu!

NOTA do AUTOR – Observe-se que o Filósofo refere-se à morte das antigas normas, regras, leis e valores que se apoiavam nas fábulas e nos mitos divinos. Refere-se, pois, à morte do “Deus” inventado pelos homens, pelas Religiões e que era, como ainda é, um instrumento usado para controlar com ameaças de “Castigo Eterno” aos insatisfeitos e contestadores e para dar esperanças de “recompensas além-túmulo” aos “escravos", conformados em obedecer aos ditames sociais; aos desvalidos, aos fracos, aos injustiçados etc. Morreu o “Deus” que fora construído pela carência humana em perpétua necessidade de ilusão como contrapartida à crueza da vida. Morreu o “Deus” que não resistiu à lúcida coragem dos que não hesitaram em pensar com a Verdade da lógica racional.




O Homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-Homem. Uma corda sobre o abismo.
“Assim falou Zaratustra” o seu livro mais afamado.

A tese nietzschiana de que o homem é algo a ser superado foi apresentada pelo Filósofo em sua obra mais afamada, Assim Falou Zaratustra, que foi escrito em três partes distintas durante os anos de 1883 e 1884 e mais um apêndice redigido em 1885. 

Como se vê, foi escrita rapidamente, sendo, por exemplo, que a conclusão da primeira parte não custou mais que alguns dias.

E mesmo com essa ligeireza, o Filósofo obteve êxito e conseguiu expor a sua teoria desafiadora com clareza e consistência.

E contribuiu para esse sucesso, o recurso de romancear o texto filosófico.

Ao se utilizar dessa prerrogativa, NIETZSCHE conseguiu dar um “rosto” ao que seria estritamente abstrato e, por isso, de difícil compreensão.

A obra lhe serviu para lançar uma censura vigorosa contra o modo de pensar tradicional e, principalmente, contra as seguintes concepções:

1.   A noção que temos do “homem”, ou da “Natureza Humana”.
2.   A ideia que fazemos de Deus.
3.   As ideias que concebemos acerca da Ética e da Moral.

Noutro livro, o Pensador já havia afirmado que se deveria “Filosofar com um martelo” numa clara alusão à necessidade de estilhaçar as antigas ideias filosóficas, especialmente em relação àquelas citadas acima.
E, com efeito, em Assim Falou Zaratustra ele foi contundente em suas criticas, as quais se revestiram de seu estilo impetuoso e febril para ganhar maior ressonância.

E tal foi o rigor empregado que para muitos as suas afirmativa aproximavam-se mais de “Profecias” do que de Filosofia.

Zaratustra inicia sua Pregação.

Zaratustra é um nome alternativo dado ao profeta Zoroastro.

Nascido na Pérsia (Iraque atual, em c. 628 – 551 AEC), foi o fundador do Zoroastrismo que ainda hoje se constitui como sólida religião, cuja tese central é a luta entre o BEM e o MAL.

Mas o “Zaratustra de NIETZSCHE coloca-se para “além do Bem e do Mal”, já que busca estar acima dos antigos Conceitos e das concepções puramente arbitrárias do que significariam tais Conceitos.

Aliás, a escolha do nome “Zaratustra” para a personagem não foi aleatória, ficando clara a ironia de NIETZSCHE, já que ele não concordava com qualquer crença em que se despreze a relatividade do Bem e do Mal.

O relato se inicia contando que o Profeta, aos trinta anos, muda-se para o alto de uma montanha onde vive por uma década em completa solidão, até que em certa manhã acorda sentindo-se cansado pelo acúmulo de Sabedoria que o retiro lhe proporcionou.

Decide, então, voltar ao convívio humano para compartilhar o seu Saber com a humanidade.
No sopé da montanha encontra um velho eremita e reconhece que ambos já estiveram juntos há dez anos, quando de sua subida.

O ermitão observa as mudanças que Zaratustra sofreu com o tempo e simbolicamente lhe diz que quando o viu subir ele só carregava Cinzas (aludindo aos antigos conceitos) e que agora o vê portando Fogo (em alusão à chama, à luz, à energia das novas concepções).

Na sequência, o velho lhe pergunta por que ele se dará ao trabalho de compartilhar com os demais a sapiência que arduamente conquistou?

E não satisfeito, aconselha-o a ficar nas montanhas, já que os homens não conseguirão (talvez nem desejem) entender a sua mensagem.

Ao lhe responder, Zaratustra questiona a validade da vida que o eremita leva e ao saber que ele se limita a cantar, a rir, a chorar e a louvar a Deus põe-se a rir, pois seria inútil debater com o mesmo.
E, enquanto avança, repete consigo mesmocomo é possível que esse eremita ainda não tenha sabido que Deus morreu?

A Morte de Deus e o descrédito do Público.

A afirmativa sobre a morte de Deus, como se pode imaginar, causou um enorme rebuliço entre a Intelectualidade e, mais ainda, entre o populacho insuflado pelo Clero.

Afinal, à época, a simples dúvida acerca da existência divina era considerada não só uma blasfêmia, mais um verdadeiro crime.

Até Filósofos Racionalistas do quilate de Descartes, por exemplo, não ousavam pensar que Deus inexistisse.

NOTA do AUTOR - ainda hoje, em pleno século XXI, é uma afirmação polêmica. Principalmente porque, quase sempre, é citada fora de contexto, tanto por ignorância quanto por má fé, e sem a devida explicação de que “a morte” refere-se mais à figura mítica que foi criada pelo homem e menos a um eventual e verdadeiro “Ente Superior”. O mau uso dado a esta afirmativa visa manipular o populacho ignorante que aceita ser conduzido por maus Religiosos e Lideres corruptos.

É claro que NIETZSCHE não era o único que negava a existência do “Ser Supremo”. Ou melhor, daquele tipo de “Ser Supremo” que a Religião e a velha Filosofia propunham existir.

Outros esclarecidos partilhavam dessa negação, mas foi NIETZSCHE quem assumiu o ônus de fazer tal declaração publicamente.

E a rejeição que ele enfrentou foi pesadíssima, como, aliás, ainda hoje é.

Por muito tempo o vocábulo em latim niilismo, por exemplo, que significa “descrença em tudo”, foi associado com falta de caráter.

Mas não obstante a rejeição, ou talvez pela mesma, o fato é que sua teoria ganhou adeptos e se tornou a mais famosa do Pensador.

A ela, claro, está visceralmente ligada a noção de que o homem é “algo a ser superado”, com as indefectíveis alterações que isso causaria nos códigos Morais da Sociedade.

E são justamente essas alterações e superações que ocupam as reflexões de Zaratustra enquanto ele prossegue seu caminho.

Assim, ao chegar à próxima cidade ele vê que uma multidão prepara-se para assistir à exibição de um acrobata em uma corda bamba.

Juntando-se ao povo, Zaratustra toma a palavra e tenta falar ao mesmo antes que o artista inicie seu espetáculo: “vejam, vou ensiná-los o que é o Super-Homem (na tentativa de lhes explicar a sua ideia de que o homem é capaz de ir além, de se superar)”.

Mas, em resposta o público limita-se a rir de sua arenga, imaginando que ele fizesse parte do show.

NOTA do AUTOR – a advertência do eremita aqui já começa a se concretizar. Observe-se a elegância do estilo de NIETZSCHE ao expor a dificuldade do populacho em se libertar dos protótipos de comportamento.

E fazer parte de um show, ser um superficial “showman” não era uma preocupação apenas da personagem, pois NIETZSCHE também sinaliza a sua apreensão sobre a forma como seu livro será recebido, já que teme ser visto como alguém raso, sem erudição, sem conteúdo e capaz apenas de proporcionar divertimento ao público.

Subvertendo Antigos Valores

NIETZSCHE acreditava que algumas ideias tornaram-se visceralmente ligadas, como, por exemplo, a de “Deus e Humanidade” entre outras.

Destarte, quando ele afirmou através de sua personagem que Deus Morreu!” ele não questionou apenas a Religião, mas também ao conjunto de Valores que julgamos mais “Sublimes (obediência, temor a Deus, humildade, paciência, resignação, covardia etc.).

morte de Deus não seria, portanto, apenas o falecimento de uma divindade, mas o fim de todos os Valores Sublimes que nos foram maquiavelicamente impostos como se fosse verdadeiros e bons. 

Um claro exemplo dessa associação pode ser visto naquilo que NIETZSCHE expressou como:
  
“Humano, demasiado humano”.

NOTA do AUTOR - segundo o Filósofo, o Homem cria alguns Valores e algumas afirmativas como, por exemplo, o de que “Somos todos irmãos”, “Deus é Pai”, a Abnegação, a Bondade etc. e com o correr do tempo esquece-se que os criou. Uma vez que a origem foi esquecida, tais Valores passam a ser creditados a Deus, como se Ele os tivesse estabelecido; porém, os mesmos são apenas criações “humanas, demasiadamente humanas”.

E essa censura, esse ataque, atendeu a um dos objetivos centrais da Filosofia nietzschiana que é o de reavaliar os Padrões e Valores. 

Reavaliar a importância efetiva de cada um, questionando todas as maneiras habituais de pensar sobre a Ética, sobre a Moral e sobre o Sentido, ou o Significado prático da própria vida.

Ao fazer tal proposta, o Filósofo insistia que estava inaugurando uma “Filosofia da Alegria*”, que visava justamente afirmar e confirmar a grandeza da vida presente.

Da vida que se vive aqui e agora.

NOTA do AUTOR – “Filosofia da Alegria” e não “da Felicidade” haja vista que os preceitos da mesma visavam liberar o exercício dos prazeres físicos, concretos, hedonistas que são capazes de proporcionar algum bem estar físico, ou alguma alegria material, concreta. Não se propunha ofertar a “Felicidade Sublime” de uma “alma imaculada”, isenta das vicissitudes da vida mundana.

Para ele, muitas das coisas que julgamos boas ou virtuosas, de Deus, na verdade, são apenas maneiras de limitar o acesso das pessoas aos prazeres do Mundo físico.

Criar regras para disciplinar à vida sexual é um claro exemplo disso.

Evitar extravasar-se em público porque não seria de bom-tom é outro, ou, então, sujeitar-se a empregos tediosos apenas porque se julga que “é um dever”.

A proposta de NIETZSCHE é justamente a de se confrontar essas Filosofias que negam a vida e que, em contrapartida, ofertam a esperança de sermos reconhecidos no outro Mundo, ou como mártir abnegado neste mesmo.

Blasfemando contra a Vida

NIETZSCHE recorre ao vocabulário religioso para dele pinçar o termo blasfêmia que normalmente é usado contra aqueles que rejeitam os cânones litúrgicos.

Vocábulo que com ele, claro, ganha outro significado; e com esse sentido oposto, blasfemo passa a ser a denominação de todos aqueles que negam a Vida, ie, que negam os desejos, as vontades que o homem naturalmente possui e que sufoca por pressão das normas e regras ditadas por terceiros.

Que renega por pressão direta ou indireta das convenções e tratativas estipuladas por outros, que assim o controlam com a ameaça do Castigo Eterno ou com a recompensa além-túmulo.

Por isso, vemos que depois de proclamar a vinda do Super-Homem, Zaratustra passa a condenar a Religião, especialmente o Cristianismo.

Segundo ele, no Passado, a maior blasfêmia era contra Deus, mas doravante seria contra a Vida
Zaratustra reconhece, aliás, que este foi o seu maior erro. Não deveria ter-se isolado na montanha para oferecer intermináveis preces a um Deus que não existe.

Ali, ele, Zaratustra, pecou contra a Vida.

NOTA do AUTOR – o decantado Super-Homem seria alguém dotado de enorme poder e independência mental e corporal. Capaz de se libertar das amarras criadas pelas fábulas divinas, celestes e de ter a coragem de celebrar a Vida, fazendo-a conforme os seus desejos. NIETZSCHE nega que tal personagem tenha existido, mas citou Sócrates, Napoleão Bonaparte, Shakespeare como modelos.

O Mundo Real

No Ensaio “Como o Mundo Verdadeiro se tornou finalmente fábula, publicado no livro “O Crepúsculo dos Deuses”, NIETZSCHE faz nova alusão à morte de Deus.

Na sequência do subtítulo, “A história de um Erro”, ele faz um resumo da história da Filosofia Ocidental e aponta a fábula Celeste e Divina  (originada por uma leitura errada de Platão) como a causa de termos perdido a noção da grandeza do Mundo Real (ou físico, concreto, material).

Como se sabe, Platão dividia o Mundo (aqui entendido em seu sentido amplo e não apenas como o Planeta Terra) em “Aparente” que é o Mundo físico, concreto, que nós captamos através dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato); e o Mundo Real ao qual só temos acesso parcial através do intelecto, das reflexões, do pensamento.

Mundo das Aparências não é real, Verdadeiro, porque está sujeito a constantes transformações e a ter um fim.

Mundo Real, ao contrário, é Eterno, Infindável, Imutável.

Perpetuamente inalterável, independentemente de seu tamanho, do material de que foi feito, do fato de ser bi dimensional (desenhado, apenas) ou tri dimensional (esculpido), de sua utilidade, de sua cor etc.

NOTA do AUTOR - Essa conclusão, o sábio grego extraiu de suas observações sobre a Matemática. Mais precisamente de seus estudos sobre a Geometria, onde ele observou, por exemplo, que a forma, ou o formato de um Triângulo é sempre igual.  Através de nossa capacidade mental sabemos que ele é composto por três lados, que a soma de seus ângulos será sempre 180º etc. mesmo que ele não esteja sendo observado ou captado por alguém. A “Ideia Triângulo” existe, independentemente de ser captada por alguém, ou não.

Essa tese de Platão tornou-se universalmente aceita e o conceito permeou a Filosofia por milênios, ganhando inclusive outros nomes, como a coisa em si” ou o “númeno de Kant, ou a Essência, ou a Substância de Descartes, Spinoza e outros.

E mesmo a célebre divergência havida entre Platão e o seu discípulo Aristóteles não passou de uma querela acerca da localização desse Mundo das Ideias.

Para o mestre, a “Ideia” (ou Modelo, ou Paradigma, ou Padrão) estaria em um espaço imaterial, metafísico, enquanto que para o aluno estaria na própria Coisa, ou Ser a quem anima, dá vida. Seria a sua “alma, ou espírito”.

O certo é que tanto para um, quanto para o outro, nós captamos apenas a cópia do “modelo original” (através dos Sentidos [tato, visão, audição, paladar e olfato]); como acontece, por exemplo, com As coisas triangulares (ou seja, os objetos que tem naturalmente a forma triangular, ou que são fabricados com esse formato [a pirâmide, a flâmula etc.]), pois somos incapazes de captar a “Ideia Triângulo”.

De todo modo, as “Coisas Triangulares” são fundamentais, pois além de suas utilidades práticas, através das mesmas teremos um vislumbre, ainda que pálido, da “Ideia Triângulo”, escapando das amarras do Materialismo puro.

Afinal, por uma característica de nossa capacidade mental, nós necessitamos de um ponto inicial, de uma base, para entendermos qualquer coisa abstrata, imaterial.

Destarte, se quisermos conhecer, por exemplo, a “Bondade” nós precisaremos formar na Mente um esboço dessa substância. Mas como não conseguimos formar qualquer ideia a partir do nada, recorremos aos “atos, ou ações de bondade” para termos uma noção – mesmo que desfocada – daquela essência.

É claro que tais visões não são perfeitas e tampouco nos mostram o “Mundo Verdadeiro” em sua totalidade.

E justamente por reconhecer essa limitação é que o próprio Platão já alertava para a mesma, esclarecendo que sua proposta original foi a de explicar o surgimento das Coisas, dos Seres e o porquê de haver entre os indivíduos da mesma classe, ou categoria, uma característica comum, malgrado as diferenças individuais, pessoais.

E que nunca teve a intenção que a sua magistral concepção fosse aviltada e apequenada a ponto de servir de fundamento para uma crença mitológica.

Mas os homens assim o fizeram, tanto por falta de escrúpulos, quanto por falta de erudição, de conhecimento.

E a grandeza do Platonismo acabou servindo como base para a ideologia de uma seita que, lembremos, surgiu após dois milênios da vida do Mestre helênico.

NOTA do AUTOR – para expor essa teoria, Platão escreveu uma fábula “O Mito da Caverna” que é, seguramente, o melhor texto filosófico já produzido e uma das mais belas páginas da Literatura Universal. Aos interessados recomendo sua leitura na obra de minha autoria “Filosofia Sem Mistérios – Dicionário Sintético”- Ed. Seven System – Biblioteca 24x7.

Contudo, a genialidade de Platão não foi usada apenas em falcatruas. Ao contrário, pois foi a partir de seu Ideário que se construiu todo o edifício em que se instalou o Pensamento Filosófico vigente, ainda que tuas teses sofram restrições pontuais.

Restrições, aliás, que não tiveram o aval de NIETZSCHE. Sua rejeição focava apenas o mau uso que dela foi feito. Por isso, a sua luta denodada contra o Cristianismo, em suas diversas correntes.
E sua batalha ganhou destaque graças ao furor de sua pena que expôs magistralmente seus argumentos apropriados, profundos e contundentes.

Ao contrário de muitos, ele não tentou se acomodar ao “status quo”, não se submeteu a uma “aliança com o Cristianismo”.

Rejeitou-o com sincera e inédita transparência e isso lhe custou ácidas criticas em seu tempo e quase que um anátema entre o populacho dos tempos de hoje, que não hesitam em lhe associar com “as artes diabólicas”.

Mas é claro que para indivíduos de seu quilate ético e intelectual, criticas desse teor sempre foram insignificantes. Como, aliás, ainda são.

Por isso a atualidade de sua afirmativa de que rebaixar o Mundo Físico, Concreto a um vale de lágrimas é um desserviço que se presta ao homem, fazendo com que ele creia em Valores errados, como o da resignação covarde, da submissão medrosa, do ascetismo sem sentido, da tola ilusão em miragens e quimeras etc.

Valores Cristãos

Quando NIETZSCHE fez a divisão entre “Mundo Real” e “Mundo Aparente usou a apropriação equivocada que o Cristianismo fizera do Platonismo.

Por isso, para ele, os Valores Cristãos eram equivocados.

Em lugar do Mundo Real das Formas, de Platão, os cristãos criaram um “Mundo Real Alternativo”.

Um Paraíso, um Céu, que se promete aos que praticam os atos, ou as ações, considerados arbitrariamente como virtuosos.

Restando ao “Mundo presente, físico, concreto” o papel secundário de ser uma "escada"  que os "Virtuosos" subiriam se obedecessem aos Valores que uma Elite estipulou como corretos.

Outra diferença refere-se ao fato de que ao invés da total inacessibilidade ao Mundo Real de Platão, o Paraíso Celeste seria alcançável, após a morte, se indivíduo seguisse as regras cristãs.

NOTA do AUTOR – e como defender o acerto e a correção dessas regras e desses valores? O quê dizer, por exemplo, da absolvição dada aos exploradores europeus pelos genocídios e pela escravidão a que sujeitavam os nativos colonizados, desde que os mesmos fossem executados e/ou escravizados em sincronia com a “pregação do Sagrado Evangelho”? Tal qual o “Direito Divino” que “legitimava” a presunção de alguns indivíduos serem Governantes de povos e de nações por “Vontade Divina”, também as “Regras Cristãs” eram consideradas de autoria do próprio Deus (quer através das “Tábuas de Lei” que Moises teria recebido no Monte Sinai, quer por intermédio de outras revelações que variados “Profetas” ou “Santos” teriam recebidos) e, portanto, inquestionáveis (sic). É claro que tal justificativa só é aceitável aos humildes de inteligência ou indolentes de alma, pois qualquer raciocínio mediano a classifica como absolutamente ridícula. Contudo, esse comportamento ridículo foi generalizado e ainda hoje permeia grande parte da ideologia social. Pensadores como NIETZSCHE insistem no bom combate para exterminá-lo, mas é uma ideia tão introjetada que os resultados são muito menores que os desejados.

E essa condição de "simples degrau, ou escada" corrobora o desprezo que os cristãos devem dedicar às Coisas, aos Seres, aos Fatos físicos, mundanos e reafirma o apelo para que reneguem a Vida (ie, os desejos, as inclinações naturais do homem) em favor das Promessas que se “realizarão no além-túmulo.

O resultado desse modo de pensar é a consideração de que devemos renegar e/ou desdenhar as nossas próprias ideias, vontades, habilidades, capacidades etc. E que devemos nos afastar e, se possível, transcender, ultrapassar, a vida que vivemos.

A noção de que tudo que é valoroso seja inalcançável neste Mundo faz com que se neguem, de fato, todas as conquistas mundanas.

Inclusive aquelas que demandaram esforço ético e válido para acontecerem e que por isso deveriam, sim, serem apropriadamente valorizadas.

NOTA do AUTOR – contudo não se pode afirmar categoricamente que tais negativas sejam sinceras, ou se são apenas um modo de exercer a obediência aos cânones sociais e religiosos.

Porém, quando se despreza tudo que existe no Presente, no Físico, passa-se a viver apenas em função de uma simples quimera, de uma mera ilusão.

Em função de um mito que criou um falso “Mundo Real”.

Em razão de todas essas colocações, NIETZSCHE chama os Padres, Pastores, Ministros e outros religiosos – especialmente os cristãos – de “Pregadores da Morte”, porque os seus ensinamentos nos induzem a abandonar a Vida (não necessariamente cometendo suicídio, mas abandonando as Coisas da vida que, ao cabo, são as nossas características mais básicas) ao fazerem “publicidade das recompensas no Além.

Assim, ao invés de saborearmos os prazeres que o Mundo pode nos oferecer em repetidas ocasiões; em um  Eterno Retorno , pois segundo o Filósofo “o que acontece uma vez, acontece mil vezes” (como num lauto banquete em que os acepipes se sucedem), deixamos de fazer o que seria necessário para desfrutarmos dos mesmos e optamos pela inércia e pela espera dos Prazeres Celestes que o Futuro nos reservaria.

Ao invés de construirmos a Felicidade, optamos por deixar “a vida passar”, na esperança de que ela nos aguarda no Futuro se formos passivos e obedientes. Se negarmos a nossa Vontade de Potência, (ie, a nossa Vontade, o nosso desejo de exercer o poder), ou o potencial que temos.

Um Mundo Além do Alcance

Não é raro que se pergunte o porquê de NIETZSCHE insistir com sua tese provocativa (Deus Morreu), quando sabia o potencial de irritabilidade que ela continha.

A resposta, talvez, esteja nessa última parte.  Pois era mesmo seu desejo causar uma grande celeuma que fosse capaz de abalar a estrutura vetusta em que o Pensamento estava acomodado, mesmo que isso lhe causasse sérios prejuízos pessoais.

De certa maneira, um gesto heroico. E coerente com a solidez de suas convicções.

E para que possamos entender melhor essas convicções será oportuno recuarmos no tempo e estudar brevemente a Filosofia de Kant (Immanuel, 1724 – 1804), cujas ideias são fundamentais para se compreender a teoria nietzschiana.

Como se sabe, os estudos kantianos focavam a questão relativa aos limites possíveis para o Conhecimento humano.

Em sua obra mais célebre “A Critica da Razão Pura” ele argumenta que não conseguimos conhecer, captar, apreender o Mundo como ele é em si.

Só conseguimos captar o seu corpo físico, material, mas não a sua alma, sua essência.

Segundo ele, Não podemos alcançá-lo nem mesmo através do intelecto, da inteligência, do raciocínio, ao contrário do que Platão acreditava.

Tampouco podemos atingi-lo através de ações virtuosas ou pela Graça divina como os Religiosos prometem.

Para KantMundo Real existe efetivamente, porém está totalmente além do nosso alcance.

NOTA do AUTOR – os argumentos de Kant para chegar a essas conclusões são complexos e não serão discutidos aqui. Aos interessados recomendo a obra de minha autoria “Filosofia Sem Mistérios – Dicionário Sintético”- Ed. Seven System – Biblioteca 24x7.

NIETZSCHE utilizou-se, pois, da tese kantiana para concluir que se o Mundo Real é de fato absolutamente inatingível em vida e mesmo depois da morte, ele não passaria, em verdade, de uma concepção inútil. De uma ideia supérflua. Uma noção que deve ser descartada, haja vista a sua inacessibilidade.
  
Jocosamente alguns dizem que se Deus está morto, NIETZSCHE topou com o cadáver.

NOTA do AUTOR – é oportuno notar que são as impressões digitais de Kant, que estão no no cadáver divino”, pois ele foi o verdadeiro autor do deicídio. Afinal, tê-lo recoberto com a manta da completa inacessibilidade foi equivalente a suprimi-lo da vida do homem. Contudo, vale lembrar, NIETZSCHE não questionava a existência ou não de uma eventual “Ser Supremo”, mas sim o mau uso que se fez desse ente.

O Erro mais Duradouro

Para NIETZSCHE o equivoco mais persistente em todo Pensamento Humano – tanto filosófico, quanto religioso – é a separação que se pretende entre o Mundo Real e o Mundo Aparente.

No texto de sua autoria Como o Mundo Verdadeiro se tornou finalmente fábula ele avançou na questão e propôs que se renunciarmos a ideia de que existe esta duplicidade de “Mundos” corrigiremos este “erro estúpido”.

Ao enxergarmos a desnecessidade, talvez à incoerência de insistir na separação de Essência (ou Realidade)” e “Aparência”, certamente atingiríamos o zênite do Pensar Humano. Atingiríamos, pois, o ponto mais alto da Filosofia.

Esse é, portanto, um ponto-chave para NIETZSCHE, pois, segundo ele, quando compreendermos que existe apenas um Mundo, nós corrigiremos o erro de transferir os nossos melhores valores e atributos para um “Além” imaginário.

Após termos compreendido que só há um Mundo, seremos forçados a rever nossos valores e até o significado do que seja Ser um homem, ser um Ser Humano. Veremos o quanto o homem pode se superar.

O quanto é possível que exista, de fato, o Super-Homem.

E esse Super-Homem, na visão de NIETZSCHE NÃO é um super-herói, um ente dotado de poderes sobrenaturais ou quejandos.

Na verdade, é apenas um novo modo de ser, de existir, cuja característica fundamental á a Afirmação da Vida; ie, o individuo utilizar seu poder pessoal, suas habilidades, capacidades e possibilidades para fazer a vida atender aos seus interesses e satisfazer os seus desejos e vontades.

É, ao cabo, o sujeito conseguir dar um Sentido à sua existência. O “Sentido da Terra.

NOTA do AUTOR – ao leitor (a) não passou despercebido que o Monismo pregado por NIETZSCHE não lhe é original. Desde os Pré-Socráticos que se discute a Pluralidade versus a Unicidade, mas ele soube com maestria beber na fonte de Kant e na de Hegel para compor a sua teoria. Kant, ao propor a inacessibilidade absoluta ao Mundo das Essências deu-lhe o aval necessário para que ele decretasse a inutilidade do mesmo para a vida humana. Enquanto que de Hegel ele aproveitou o Movimento Dialético (tese – antítese = síntese) para explicar o processo de ascensão que pode levar o simples humano ao estágio de Super-Homem.

NOTA do AUTOR – quando se fala em “desejos”, “vontades” do homem nietzschiano não se quer dizer de “desejos ou vontadesvulgares, inferiores. Embora não se possam excluir totalmente as mesmas, deve-se pensar que, também, podem ser as de cunho superior, éticas, pois ambas fazem parte da vida. Ademais, classificar umas e outras como superiores ou inferiores não deixa de ser um mero exercício de conceituação calcado em ideias oriundas da Religião e das antigas concepções sociais. Um atentado contra o relativismo ocasionado pelas condições que presidem as vidas individuais e das próprias sociedades.

Criando a Nós Mesmos

NIETZSCHE não alcançou em vida sucesso com o público. E mesmo entre a intelectualidade a dureza de seu Pensamento radical causou mais desconforto que aceitação.

Essa rejeição, inclusive, levou-o a ter que arcar com as despesas de publicação de seus livros, pois não encontrou Editores que o bancassem.

Porém, após a sua morte a admiração foi acontecendo progressiva e continuamente até que na década de 1930 o seu conceito de “Super-Homem” acabou sendo encampado maquiavelicamente pelos Nazistas que passaram a lhe citar em sua retórica oficial, por ordem do próprio Hitler que se lhe tornara um leitor fiel.

Seu Ideário soava-lhes como se fosse uma “legitimação” do sistema nazifascista, particularmente no trecho em que NIETZSCHE censura a humildade subserviente contida na Moral Judaico-Cristã que dominava a Europa,

É claro que essa “legitimização” decorreu apenas da má compreensão – por falta de escrúpulos, ou de bom entendimento – das ideias nietzschianas, haja vista que a proposta original do Pensador não previa qualquer tipo de extermínio físico, tampouco de tortura, exploração, dominação etc.

Segundo a maioria dos estudiosos, Hitler manipulou os textos e os Pensamentos de NIETZSCHE para que parecessem advogar o uso indiscriminado da violência generalizada, da discriminação, da eugenia, já que teoricamente “glorificavam a Superioridade Ariana”.

É consenso, aliás, entre esses mesmos estudiosos que o próprio NIETZSCHE teria ficado horrorizado com essa distorção. Até mesmo porque a sua Filosofia censurava vigorosamente os Valores que os totalitaristas defendiam: o patriotismoo nacionalismo exacerbadoa segregaçãoa religiosidade torta, a expansão colonial e outras tantas teses que eram caras aos “donos do Poder”.

NIETZSCHE, na realidade, foi um dos poucos Pensadores que desafiou tais Conceitos e Ideologias e, por ironia da história, foi um dos mais usados para dar credibilidade a tais absurdos.

Justo ele, que em um trecho de “Assim Falou Zaratustra” deixou de forma claríssima a sua opinião contrária ao Nacionalismo, quando o taxou de uma “forma de alienação e fracasso”.

Justo ele que havia alertado que “apenas onde o Estado termina, começa o Ser Humano que Não é supérfluo”.

Contudo, apesar de todas as evidências de sua rejeição a qualquer forma de Totalitarismo e de intolerância de cunho étnico ou social, ainda hoje essa nódoa persiste em sua memória e não é incomum que lhe sejam assacadas injúrias por conta dessa suposta associação; que, se houve, foi totalmente à sua revelia e sem o seu conhecimento, pois, a aproximação de seu Pensamento com a manipulação nazista aconteceu graças à sua irmã, Elisabeth (ela sim uma antissemita convicta) que se aproveitou de sua posição de guardiã da obra nietzschiana para repassá-la ao Regime Nazista após o Filósofo ter adoecido.

Todavia, nem essa mancha foi capaz de ofuscar totalmente o brilho de sua Filosofia.

A sua ideia sobre a ilimitada possibilidade do homem foi importante para a constituição de vários Sistemas Filosóficos que vicejaram depois da 2ª Guerra e as suas ideias acerca da Religião* e sobre a importância da autoavaliaçao foram decisivas nos Pensares de vários Filósofos Existencialistas, como, por exemplo, SARTRE, que, aliás, parafraseou o Super-Homem ao afirmar que “cada um de nós deve definir o significado da própria existência”.

Tele-Evangelistas

Acerca da Religião é interessante observar um fenômeno dos nossos dias que acaba se constituindo em mais uma das ironias da história em relação ao Pensar de NIETZSCHE.

As Religiões Evangélicas, principalmente através dos “Tele-Pastores”, aproximam-se de modo obliquo e nem sempre ético das Ideias do Filósofo ao proporem que se “exija de Deus” benefícios e alegrias materiais para agora, para esta vida e não mais, como no antigo Catolicismo, para a “Vida no além”.

Há quase um consenso entre eles de que os Fiéis devem buscar a realização material e a satisfação dos desejos no momento atual e que rejeitem sumariamente a espera por “recompensas celestes”.

É claro que para tais desejos e vontades serem concedidos é imperioso que o “Fiel” leve a vida segundo os cânones estipulados por tais “Pastores, Bispos, Missionários etc.”, os quais, nem sempre primam pela ética e decência.

Cânones que NIETZSCHE combatia com vigor, denunciando-lhes a falsidade e hipocrisia. De todo modo, o que se vê é que a Religião se apoiou em um de seus mais ardorosos críticos para consolidar seu crescimento.

Epílogo

Não só a Filosofia se beneficiou das ideias nietzschianas, pois outros campos da Cultura herdaram suas visões críticas, contrarias as tradições equivocadas do Ocidente. Com isso, vários outros Eruditos e Artistas puderam ousar novas Estéticas e novas Linguagens.
 
Assim, por tudo, NIETZSCHE se tornou uma estrela de primeira grandeza na constelação do Saber Humano e compreender as suas teses é vislumbrar um Futuro mais livre, justo, criativo e, talvez, mais feliz para o homem.

                             Dedicado ao amigo "Batata", cuja  luta diária pela Cultura merece toda consideração.