quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A Quimioterapia

Eis que se troca a Esperança
pela Espera.
A dor me desespera
e a vida me onera.

O frio me entorpece,
a comida não me apetece
e a maldita "quimio" que nunca desce.
O que foi riso desaparece
e do resto, a gente esquece.

Inútil pensar no carinho que enternece.
Na voz que antes me excitava e agora aborrece.
E no outro corpo que já não me aquece.

Ao meu lado outra vida desaparece.
Um anjo que fenece,
um lírio que falece
(eu queria rezar, mas não sei a prece).

Voltei para a conhecida Estrada.
Caminho do Nada
e sem alivio d'alguma parada.
Tento lembrar da moça bonita
e dos planos que sonhamos
(e que nunca realizamos).

E pensar que ela,
ao entrar em minha vida
compensou esse caminho
de pedra não polida.
Neo, novo, Neolítico...
que me anda qual paralítico.

Aumentam-me a dose e a inconsciência.
Mas ainda masco a impotência
que me sobrou de tua ausência
(favinho de mel,
se tu soubesse o quanto houve de Céu
nos momentos em que me tirastes do Léu...).

Atrás do vidro
revejo meu reflexo moído.
E o quão doído
é esse sofrer sem sentido.

Noutro poema escrevi
que muita vida já comi.
Agora, é chegado o momento
de findar o sofrimento.
De chorar o último lamento,
de sorrir o penúltimo contentamento
e de fingir que nada foi em vão.

Tomei a vida por usucapião
e vivi meu o quinhão.
Agora, eu queria breve
o derradeiro não.