quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Filosofia Contemporânea - Bérgson e o Elã Vital


“É ridículo e vergonhoso os Homens serem máquinas; é ridículo e vergonhoso que a sua filosofia, assim os descreva... Bérgson (Henri, 1859/1941 – França) alcançou grande popularidade ainda jovem por ter defendido as esperanças que brotam continuamente no peito humano... a contribuição de Bérgson à filosofia foi preciosa, pois se estava a um passo de acreditar que o Mundo seria um espetáculo acabado e pré-determinado, no qual a iniciativa humana não passaria de uma inócua ilusão...”

As frases acima, pinçadas do magistral livro de WILL DURANT (A História da Filosofia), bem ilustram a contra corrente que alguns eruditos lançaram contra a vaga do Positivismo/Materialismo que imperou quase absoluto no inicio do século XX.

Viu-se no capitulo anterior, O CÍRCULO DE VIENA, que tal modo de pensar, antigo em sua origem, fora fortificado com o progresso das Ciências, que, acreditava-se, responderia a todas as questões sobre o Mundo, sobre o Cosmo, sobre a Vida, enfim. Sanaria todas as dúvidas que acompanham o Homem desde que esse começou a pensar. Contudo, o avanço na Mecânica mostrou-se incapaz de atravessar a superfície e a Essência, o mistério do movimento, ou o da força continuou o mesmo. Os novos aparelhos da Medicina conseguiam fotografar o Cérebro, mas não os Pensamentos. Os movimentos estrelares poderia ser previstos, mas não a sua causa etc. Os arcanos continuavam intactos. E foram as tentativas de decifrá-los que formaram a Corrente de Pensadores que abandonou a estreiteza do Materialismo por lhe ver insuficiente como instrumento de aquisição de Conhecimento.

Sabe-se que o ato de pensar pode ter inicio no objeto pensado e prosseguir com a tentativa de levar a “realidade” desse objeto, ou dessa coisa, para o circulo das Leis do Raciocínio, ou da Razão. E pode continuar, com a tentativa de lhe despir de qualquer traço imaterial e enquadrá-lo nas “Leis da Natureza, física, material, concreta”.

Ou, ao contrário, o ato de pensar pode começar no próprio Pensamento e submetê-lo ao império da Lógica. E a partir daí, acreditar que todas as coisas, seres, atos etc. são geradas pela Mente. O chamado “Idealismo (que pode ter outras expressões)”.

Idealismo, que, pressionado pelas conquistas cientificas, foi com o correr do tempo, perdendo espaço para o Positivismo/Materialismo/ ou Racionalismo. E tão largo se fez o predomínio desses últimos que no inicio do século XX as Ciências tornaram-se modelos para a própria Filosofia; ou seja, a Filosofia deveria agir conforme os ditames do Estudo e da Pesquisa Científica. A tese de DESCARTES (René, 1596/1650 – França) de que o Pensamento (a reflexão, o raciocínio) deveria nascer no próprio ato de refletir e depois seguir “para fora” ao encontro doutros Pensamentos, foi solapada pela industrialização da Europa, principalmente a Ocidental, que sem qualquer pudor afastou o Pensamento “do próprio Pensamento” e o fez seguir em direção às coisas materiais, aos objetos concretos.

O filósofo SPENCER (Herbert, 1820/1903 – Grã Bretanha) talvez tenha sido a melhor expressão da Teoria Mecanicista/Industrialista. Admirador de DARWIM aplicou as teorias deste ao conjunto da Sociedade criando o chamado “Darwinismo Social” pelo qual justificava (sic) os privilégios dos ricos pelo fato de serem os “mais capazes” na selva social. Suas exaltações às virtudes (sic) da Mecânica, da Lógica, hoje, em retrospecto, podem até soarem ridículas, mas à época encontraram amplo respaldo, pois “nada mais Lógico (sic) que a evolução dos Seres atendesse às necessidades físicas, impostas pela Natureza concreta”. Antes, DARWIN (Charles, 1809/1882 – Grã Bretanha) publicou suas teorias sobre a Evolução das Espécies, e essa senda continuou-lhe favorável; ao contrário da de SPENCER que logo foi esquecido.


Esquecimento e abandono tão rápidos, quanto foi a substituição do ponto-de-vista físico, concreto, material pelo ponto-de-vista biológico. Pela progressiva disposição de ver a “Essência do Mundo” no ato de viver. Na “marcha da vida”. E tal foi a adesão a essa perspectiva que não foram poucos aqueles que quiseram dar vida à matéria inerte. O estudo da eletricidade, do magnetismo, da inteligência artificial e da robótica (esses últimos mais recentemente) conferiu à Física uma característica quase vitalistica.

Como Prometeu, ou o deus judaico-cristão, que fez o Homem a partir do barro, tentou-se processo semelhante com aço, eletricidade, vidro etc.

Em vez de adaptar o Pensamento à Matéria, inverteu-se o eixo e tentou-se adaptar a mesma ao Pensar, quase lhe conferindo espírito e alma.

Se SCHOPENHAUER (Arthur, 1788/1860 - Alemanha) já tinha aludido à possibilidade de tornar o conceito de Vida mais fundamental, mais “Essência” de tudo; foi Bérgson, em nossa Era, quem adotou essa Idéia, essa Linha de Pensamento e com ela quase converteu toda gente. Quase converteu todo Mundo cético de que a Essência da Vida está na própria vida, dividida em cada uma de suas formas. Está, pois, em todo Homem, em todo Animal e em todo Vegetal.

Bérgson nasceu em Paris, França, e desde cedo sua inteligência superior mostrou-se generosa e lhe deu os meios para fazer sua brilhante carreira de Acadêmico de Pensador. Alguns o comparam, respeitosamente, ao jovem Davi que matou o Golias do Materialismo.

Quando jovem, foi adepto das teorias de SPENCER, mas ao aprofundar seus estudos deparou-se com discrepâncias que não pôde absorver. Alguns autores chamam tais discrepâncias de “as três juntas reumáticas” do Materialismo, sendo fácil citá-las do seguinte modo: a Relação entre a Matéria e a Vida; a Relação entre o Corpo (cérebro) e a Mente e a Relação entre o Determinismo e a Escolha (ou livre-arbítrio).

A primeira “junta”BIOGENESE; ie, a criação ou geração de vida a partir da matéria inerte. Após muitos e muitos experimentos, os Materialistas estavam tão distantes de solucionar o mistério da Vida, como sempre estiveram, pois para que haja Vida é necessário que exista, além da matéria necessária, ALGO que se desconhece. Que não pode ser estudado, ser decifrado. Só acreditado. Os crentes, por isso, chamam esse “algo” de “Sopro Divino, ou equivalente”. Bérgson o chamou, ao fim de suas lucubrações, de ELÃ VITAL.

A segunda das três “juntas” é a que se refere sobre o Cérebro e a Mente. Embora o Pensamento e o Cérebro estejam associados, a conexão entre ambos estava (e está) tão misteriosa como sempre, malgrado as tentativas dos Positivistas/Materialistas de resolver a questão, inclusive com a dissecação de cadáveres humanos e com a vivificação de animais. Se todo ato de Pensar é o simples resultado de combinações químicas/elétricas ocorridas no cérebro material, corporal, para que serviria a Consciência? Por que o mecanismo cerebral não podia desativar esse “epifenômeno”, como disse HUXLEY. Por que o cérebro não desligava (sic) as más sensações, as sofridas emoções, ou os pensamentos transcendentais? Aliás, se o Pensar se limitasse ao cérebro corporal, de onde chegariam os Pensamentos Transcendentais que viajam muito além do corpo?

Em relação à terceira “junta” vigorava a afirmação que o Determinismo, ou Fatalismo era mais provável que o Livre-Arbítrio, pois tal afirmativa era embasada no fato de que toda liberdade é limitada pelas condições materiais. Ao decidir por algo, o Homem sofre tantas imposições de ordem social e natural, que se poderia pensar que o Poder de Escolha fosse uma falácia.

Porém, alguns duvidavam dessa afirmativa por uma questão de simples observação. Quando olhada no terreno individual, as proibições ou limitações sociais e naturais atuam de fato. Todavia, quando se avista o conjunto da Humanidade, observa-se o contrário; pois, foi o conjunto dos Homens que LIVREMENTE ESCOLHEU as regras sociais e adequou a natureza segundo seus interesses. Ademais, se fosse correta a tese Mecanicista, o momento presente seria apenas o resultado do momento passado, e esse do momento que lhe precedeu. E assim sucessivamente até que ao fim dessa fila se depararia com o momento primeiro. E com ele, a pergunta óbvia: o que lhe precedeu? Certamente algo abstrato, imaterial; conforme ditaria a Lógica, tão cara aos Materialistas.

Desse modo, possuindo todo esse cabedal de refutações ao Materialismo/Positivismo/Determinismo, Bérgson entrou na arena para expor suas teses que de imediato conquistaram inúmeros adeptos e lhe deram a merecida fama. Afinal, entre tantos “duvidadores” sem coragem de o serem plenamente, ele teve a valentia de duvidar abertamente. De ousar ir contra a corrente e de recolocar a Filosofia em seu pedestal de “Deusa dos Pensamentos Superiores”. Na seqüência adentraremos com mais detalhes em seu modo de pensar, iniciando pela questão da Mente e do Cérebro.

Segundo Bérgson, o Homem se inclina naturalmente pelo Espaço, pois este pode ser percebido pelos Sentidos (Olfato, visão, tato, paladar, audição) e analisado cientificamente pelo cérebro corpóreo, material; logo, é aí que tenta encontrar a Essência, a Coisa-em-Si, dos objetos, dos fatos, dos Seres, do Mundo, da Vida. Porém, para o filósofo, essa busca é vã, já que a Essência não está no Espaço, mas, sim, no Tempo.


Prossegue Bérgson, dizendo que o que se tem de compreender é que o Tempo é uma Acumulação, um Crescimento. A cada segundo aumenta-se a quantidade de Tempo que cada qual tem. Esse Acúmulo foi nomeado por Bérgson de “DURAÇÃO” e é um termo chave de sua doutrina. DURAÇÃO é, portanto, o acréscimo contínuo do Passado que cresce à medida que se avança. O Passado estende-se ao Presente e aí se fixa real e atuante. DURAÇÃO é, pois, o termo adequado para essa aquisição já que o Passado “PERDURA”, ou Permanece eternamente. Dele, nada se perde. E porque não há perda, e porque é imutável e eterno, o Passado (ou o Tempo) assume as características de “Essência”; ao contrário do Espaço que pode ser alterado.

É certo que conscientemente usamos apenas uma parte do Passado para os pensamentos cotidianos, mas o Inconsciente é formado inteiramente pelo que já se viveu; e é esse Inconsciente, ao cabo, que dita o Futuro, na medida em que nele estão as vivências, as experiências, a memória individual e a coletiva; bem como as aspirações, os projetos, os desejos etc.

Contudo, o Futuro nunca será igual ao Passado que o embasa, pois este é um acumulo a cada segundo. Assim, o dia de hoje, que é o Futuro de ontem, não será igual ao dia de amanhã, pois ao saldo já existente serão acrescidas as vivências e as experiências de agora. Cada minuto é, pois, algo novo, imprevisível. E a mudança é muito mais radical do que se supõe.

O Tempo, como se viu, é imprevisível, ao contrário do Espaço cuja previsibilidade geométrica é fato nos objetos, nas coisas, nos Seres. Aliás, o conhecimento das previsibilidades dos acontecimentos, das coisas, dos objetos é a Meta dos Pensadores Materialistas/Positivistas/Mecanicistas. Mas essa previsibilidade atinge apenas o “lado de fora”, a “casca”, a superfície das coisas e Não as suas Essências. É apenas uma ilusão intelectualista.

A Essência está na Mudança, no Movimento. Mudar é amadurecer e amadurecer é continuar criando a si mesmo eternamente.

Antes de avançar e antes das criticas de um leitor (a) mais atento, registre-se que esse ideário de Bérgson bebeu na fonte de Heráclito, que na Antiguidade (Pré-Socrático – c. 535/475 a.C.) já pregava estar no Movimento Contínuo – DEVIR – a Essência do Mundo.

Tanto para o antigo filósofo, quanto para Bérgson, a própria Realidade é o Tempo e a Duração.

Para o francês, no Homem a Memória é o “Veiculo da Duração”, ou a “Criada do Tempo”. Através da Memória o Passado é acessado e oferece as alternativas conhecidas para que se vença o próximo desafio. Claro que com a velhice (desde que sadia) e o acúmulo de Passado, maiores e melhores serão as alternativas ofertadas, as quais geram a “Consciência” que é proporcional à riqueza do Passado acumulado. Ter consciência é como ter uma lanterna que ilumina o potencial de cada ato presente, ou futuro. É como se fosse um laboratório onde as respostas possíveis são testadas antes de serem formuladas irrevogavelmente.


Por todos esses argumentos, Bérgson pôde afirmar peremptoriamente que o Homem não é uma máquina que a tudo se adapta resignadamente. É, antes, um foco de força, de energia, redirecionavel. É um ponto da “Evolução Criativa”.

Se os Deterministas/Positivistas/Materialistas tivessem razão, diz Bérgson, e cada ação fosse apenas o resultado automático e mecânico de forças preexistentes, o “motivo mecânico” de aquela ação ocorrer seria imperativo, pouco ou nada importando o desejo do Homem; mas não é o que ocorre. A escolha do individuo é que determina se tal ato ocorrerá e como haverá de ocorrer. É certo que a escolha, ou o poder de escolher, exige certo esforço, pois é preciso superar o rude impulso, o hábito, ou a indolência. Mas, ao cabo, é o Indivíduo quem permite, ou não, o fato, o acontecimento, a ação.

A Mente, pois, não é a mesma coisa que o cérebro, pois enquanto este só age segundo suas limitações mecânicas e físicas corporais, a Mente é livre para vôos que superam as fronteiras concretas, materiais. O cérebro é mais um tipo de arquivo, de armário, de depósito de imagens, padrões, resoluções, enquanto que a Consciência (ou Mente) é “quem” acessa esse deposito. A consciência, pode-se dizer, é a Recordação (dos efeitos anteriores) que embasa a escolha das resoluções que serão usadas no momento presente.

O que nos leva a pensar na Mente ligada ao cérebro físico é uma decorrência do processo evolucionário. A parte das Mente que se chama de “Intelecto” é naturalmente Materialista, desenvolveu-se para compreender e agir com os objetos concretos, coisas espaciais (que preenchem o espaço). A partir dessa perspectiva, a Mente, reduzida ao Intelecto, traça um “auto-retrato” em que aparece subordinada à matéria e às Leis Naturais. Todavia, esse retrato deformado tende a desaparecer na medida em que o esclarecimento lança luzes sobre a questão e que Homens como Bérgson reponham as coisas em seus devidos lugares.

O Intelecto do Homem desenvolveu-se para assegurar a adaptação do corpo humano ao meio-ambiente e, como se fosse um palco de teatro, representar as relações existentes entre as coisas e essas consigo. Em suma, o Intelecto Serve para se pensar na matéria concreta, física. No terreno do concreto, ele situa-se à vontade e capta os objetos sólidos, os Seres etc. Enxerga o vir-a-ser como se já fosse o próprio “Ser”. Porém, por suas características, não consegue captar a conexão entre as coisas, tampouco o “Fluxo da Duração (o Passado que perdura no Presente e projeta o Futuro)” que é a própria vida. É como se estivesse em um filme, do qual só capta quadro a quadro, perdendo a continuidade que dá vida ao filme. O Intelecto pode mesmo ser comparado a uma câmera fotográfica que só consegue capturar quadro a quadro estáticos e não o “filme”, ie, a continuidade, o movimento, a marcha. Mas, se não fosse o movimento, o filme não existiria, como sucede com a própria existência. É possível ao Intelecto ver a matéria (ou cada fotograma), mas Não pode perceber a Energia que os move.

Para Bérgson, a dificuldade em aceitar o DEVIR (O Movimento Eterno) como Essência vem da teimosia do Homem em aplicar conceitos da Física ao Pensamento. Para ele, aliás, está aí uma das fontes do Materialismo/Determinismo. Se o indivíduo fizesse uma breve pausa reflexiva veria o quanto são impróprios tais Conceitos do Mundo Material, em relação à Mente. A simples constatação de que se pensa com igual rapidez em 01 km, como em ½ Km; ou que um Pensamento pode circunavegar a Terra em milésimos de segundo, já deveria bastar para que cessassem com a insistência de medir coisas diferentes segundo o mesmo padrão. A vida está além dos conceitos materiais, porque ela é uma questão de Tempo e não de Espaço (afinal, vive-se tantos anos, ou tantos quilômetros?).

Todavia, diziam os críticos do filósofo: como captar o fluxo e a Essência da Vida se não for através do Intelecto?

Bérgson, respondia que se deveria dar um valor relativo ao intelectualismo, mas que se conservasse a consciência de que o Intelecto Não é tudo! Sugeria que se fizesse o seguinte exercício: abandonem por um instante o Pensamento Materialista e olhem para o próprio interior. Para os vossos “Eu”. Nele se verá a Mente e não o Cérebro; o Tempo e não o Espaço; a Ação e não a Passividade; a Escolha (o livre-arbítrio) e não o Determinismo. Por esse simples exercício, qualquer um habilita-se a compreender a outra realidade. A imaterial, que nem por isso, é menos real que a concreta.

Voltando ao exemplo acima, a visão do “Eu” agrupa os fotogramas no “Todo”, o que permite vê-los em sua real significação. Essa Percepção direta é a chamada INTUIÇÃO. Não há qualquer processo místico, apenas o exame mais direto possível, haja vista que é isento de pré-julgamentos, pré-conceitos e vícios e hábitos. O filósofo Spinoza (Baruch, 1632/1677, Holanda) já dizia que o Pensamento Reflexivo (oriundo do raciocínio, da reflexão) Não é a melhor forma de Conhecimento. Pela Percepção Direta, ou Intuição, é que se sente a presença da Mente e de tudo que está acima e além da matéria. Pela Intuição é que se observa o cerne, a essência da Vida.

Esse apego à Intuição tornou-se a pedra-de-toque para vários filósofos, dentre os quais se destaca Rosseau (Jean Jacques, 1712/1778 - Genebra) que chegou a afirmar que o “Pensamento Reflexivo” seria uma doença (sic); e que o Intelecto seria “uma coisa traiçoeira” que se deveria abjurar.

Bérgson não encampou idéias tão radicais, pois via alguma utilidade no Intelecto, à medida que ele proporcionava a convivência do Homem com a matéria. À Intuição estava reservado o “Sentimento Direto (o saber sem necessidade de refletir)” da Vida, da Mente e de toda Metafísica.

Além de admitir as diferentes formas de “Conhecimento”, Bérgson achava uma tolice hierarquizar essas mesmas maneiras, ou seja, o Instinto, a Intuição, o Intelecto, pois cada qual tem sua importância à medida que Homem “habita” lugares diversos. Existe, tanto no Campo Material, quanto no Sublime (espiritual, ou mais elevado). Dizia que: quando deixamos o domínio da Matemática e da Física para entrar no domínio da Vida e da Consciência (ou da Biologia e da Filosofia) temos que apelar a certo “Senso de Vida”, cuja origem é o mesmo impulso que produz o Instinto.

Note-se que Bérgson não rejeita o Intelecto completamente. Apenas usa a linguagem da “Compreensão” para diferenciar os tipos de Conhecimentos possíveis. Afinal, não se pode evitar que as palavras usadas para tal explicação sejam Psicológicas, ie, cerebrais. É imperioso utilizá-las, ainda que tragam uma carga de conotações materiais que lhe foram impostas pela sua origem. Observe-se, por exemplo, que “Espírito” quer dizer Alento, impulso; “Mente” quer dizer uma Medida (como um kg, por exemplo) e “Pensar” sempre aponta para uma Coisa, um Objeto, um Fato, um Ser etc. Mas, apesar disso, só por estes meios grosseiros é que a Alma (a Essência) pode se expressar.

Alguns críticos de Bérgson argumentavam que não se transcendeu o Intelecto, pois é com ele que se “vê” as outras formas de Consciência e que a Introspecção (o olhar para o Eu interior) e a Intuição são simples metáforas materialistas.

Porém, essa critica só seria aceitável, se não restasse para além do Pensamento Conceitual e Lógico (o pensamento sobre um conceito, [ie, sobre o que é uma coisa, um fato] regido pela lógica materialista) a extensa rede de Pensamentos que não se adéquam ao titulo acima. Rede, aliás, que é feita da mesma substância que formou o Intelecto. Por isso, Bérgson disse que: escavar as sagradas profundezas do Inconsciente será o principal trabalho da Psicologia no novo século. De fato, pois graças a ele e a outros, a Filosofia já tinha realizado o seu ao expor indubitavelmente a existência do que há além e acima da matéria.

Assumindo-se, pois, o Tempo como o verdadeiro “Impulso da Evolução” e não mais o mecanismo de luta e sobrevivência descritos por DARWIN – e adotado por vários outros filósofos, especialmente por SPENCER – sente-se a “Duração (o acumulo de Passado)” no Processo Evolutivo e, com ela, o aumento das Forças Vitais que geram continuamente o absolutamente novo. De fato, o Progresso não acontece por “Ajuntamento de Espaço”, mas sim por “Acumulação de Tempo”. Pelo acumulo de Saber que se adquire com o correr do Tempo.

Vários Pensadores rejeitam DARWIN, ainda que respeitem seu trabalho, exatamente por suas teses defenderem, como se sabe, a origem de novos órgãos, novas funções, novos organismos e novas espécies (novos espaços físicos, concretos) através da “Seleção Natural”. É uma teoria que já se acha minada pelas dificuldades que apresenta, tais como: como foi que os Instintos se originaram?Se apenas as qualidades congênitas são transmissíveis, o mesmo Instinto já nasceria “pronto para uso”? E várias outras questões que não serão citadas aqui para não se alongar o assunto.

NOTA DO AUTOR – tenhamos em Mente que o arrazoado de Bérgson tem quase um século e que durante este período várias pseudos incorreções na Teoria de Darwin foram revistas, fomentando uma revalorização de seus estudos.

De todo modo, as incongruências da Mecânica, saudada por Darwin como o Verdadeiro Processo Evolutivo, acaba, por efeito contrário, confirmando que há “algo mais na Evolução”. A vida, diz Bérgson, é mais que sua maquinaria. É uma Força que pode crescer, que pode moldar, em certa medida, as suas circunstâncias e que pode se restaurar quando necessário. Mas, prossegue o filósofo, que fique claro: não há um “projeto externo” fazendo com que tais potencialidades aconteçam. Tudo se faz internamente. Aliás, se assim não fosse, não se teria nada além de outro Mecanismo, ainda que invertido. Não! Tais potencialidades pertencem à própria vida, distribuída entre suas formas, ie, todos os seres vivos. É, pois, esse “algo a mais” que produz a Evolução Criativa.

No seu inicio, a vida é quase tão inerte quanto a matéria, como se o Impulso Vital fosse demasiadamente fraco para arriscar a aventura do Movimento. O lírio que curva, por exemplo, é um altar à “deusa Segurança”. Mas ao evoluir, a vida dispensa essa segurança e avança em direção à liberdade do voo. Por isso, em toda Evolução, a maior recompensa é dada a quem aceita o risco maior. Pela existência dessas fases, Bérgson enxerga a vida em três linhas de Evolução:

1ª – quando a Vida se queda na imobilidade dos vegetais.
2ª – quando a Vida é impulsionada apenas pelo bruto Instinto, como nas abelhas e nas formigas.
3ª – quando a Vida atinge o ápice e busca a Liberdade, despindo-se de seus Instintos Primários e assumindo o “risco de pensar”.

É certo que o Instinto continua sendo a maneira mais direta de sondar a Realidade e captar a Essência das coisas, do Mundo; mas a Inteligência - passageira privilegiada no carro da Evolução – assume cada vez mais o papel de fiel depositária dos interesses da própria Evolução.

Para o filósofo, essa vida continuamente criativa é o que se pode chamar de Deus. Para ele, Deus e Vida são uma coisa só. Mas ressalte-se que não é o Deus onipotente e infinito que as religiões vendem no atacado e no varejo. Tampouco é Onisciente, mas segue em direção ao Conhecimento, à plena Consciência. Não é um “Deus pronto para uso”, pois Ele é vida, ação e liberdade e estas são conquistas a serem feitas e não herdadas.

Paralelamente ao Divino, as lutas, as derrotas e as vitórias do Homem são os elementos que formam o “Elã Vital”, a ânsia, o desejo vital, que o impulsiona à sua busca interminável. Assim, Deus e Homem partilham dos mesmos impulsos, das mesmas buscas infindas e isso faz com que seja praticamente impossível traçar uma linha que os diferencie. São as duas faces de uma mesma moeda, chamada de Vida.

Recorte – decorrente dessa sua tese acerca da Intuição e do Pensamento Reflexivo, vale destacar que Bérgson usou esses conceitos para analisar os tipos de Conhecimento que são possíveis ao Homem:

  1. O Conhecimento Relativo que é feito através do Intelecto e da Racionalidade e que só consegue ofertar um Saber relativo, longe da Essência das coisas estudadas.
  2. O Conhecimento Absoluto que é oriundo da Apreensão Intuitiva (ou da captura através da Intuição) e oferece o Saber Total sobre as coisas estudadas. As suas Essências, ie, como as coisas são realmente.
Esse segundo tipo, conforme Kant, não estaria disponível ao Homem, porém Bérgson insistiu no contrario, afirmando que sim, que poderia sim ser realizado desde que a Intuição fosse “treinada”, em conformidade com o senso de tempo. Veja-se o exemplo: é possível conhecer uma cidade através de fotografias, mas é um Conhecimento Relativo, parcial, incompleto. Porém, ao se caminhar pela mesma, é possível ter a sensação do próprio tempo interior e, também, a sensação dos “vários tempos” que se desdobram pela cidade. E como esses outros “tempos” se sobrepõem, será possível, segundo Bérgson, captar a Essência à medida que os tempos singulares serão vistos dentro desta mesma Essência.
O mesmo, claro, se dá em relação ao Mundo, às Coisas, à Vida etc.

São Paulo, 16 de Fevereiro de 2012.