segunda-feira, 16 de março de 2015

Óperas, guia para iniciantes - TOSCA - Personagens e Prefácio


Óperas, guia para iniciantes
TOSCA
Personagens e Prefácio
Autoria – Puccini (Giacomo – 1858-1924 – Itália)
Libreto – a Luiggi Illiaca e Giuseppe Giacosa



Personagens:
Floria Tosca – Cantora famosa – protagonista – interpretada por uma Soprano.
Mario Cavaradossi – Pintor – interpretado por um Tenor.
Barão Scarpia – Chefe de Polícia – interpretado por um Barítono.
Cesare Angelotti – Revolucionário – interpretado por um Baixo.
Sacristão – interpretado por um Barítono.
Spoletta – Policial auxiliar do Barão Scarpia - interpretado por um Tenor.
Sciarrone – Carcereiro – interpretado por um Baixo.
Pastor – interpretado por uma voz infantil.



Época e local
Roma, Itália, 1800 DEC.

Prefácio
Classificada por muitos eruditos e por legiões de admiradores leigos como a melhor Ópera de todos os tempos, Tosca é, com efeito, um drama denso, intenso que explora com maestria toda a gama de sentimentos humanos, criando uma atmosfera que envolve o público de tal modo que não são raras as manifestações de dor, de alegria e de comoção que surgem da plateia, quebrando em várias ocasiões o aspecto solene e formal de que o espetáculo se reveste.

Nela, não há concessões nem subterfúgios. Os sentimentos, e os atos que desencadeiam, são expostos com uma crueza que choca e fascina, enquanto a estupenda trilha melódica reforça a cada momento a dramaticidade do mesmo.

Por tudo isso vale a pena conhecê-la e, se possível, assisti-la. É uma experiência marcante.

§§§

sexta-feira, 13 de março de 2015

Idas e Vindas



Serenaram os ventos, moça,
e toda a Enseada fez-se remanso.
Aquiete a tua alma e deixe que a dor
siga a lágrima caída.

Veja, moça, eis a Lua chegada.
E, veja, ainda que tão pálida
a sua luz afasta a escuridão.
É a vida, moça, que se recusa ao não.

Amores se vão, passam, terminam.
Veja, aquela onda nunca mais se repetirá.
Mas, amores chegam, arrebatam-nos.
Outras ondas nos levarão.



Lettré, l´art et la Culture, Rio de Janeiro, verão de 2015

terça-feira, 10 de março de 2015

Óperas, guia para iniciantes - LA TRAVIATA - Personagens e Enredo.



Autoria – Verdi (Giuseppe Fortunino Francesco – 1813-1901 – Itália).
Libreto – Francesco Maria Piave.
Personagens:

Violetta Valéry– Protagonista, interpretada por uma Soprano.

Alfredo Germont – amado e amante de Violetta, interpretado por um Tenor.

Georges Germont – o pai de Alfredo, interpretado por um Barítono.

Flora Bervoix – amiga de Violetta, interpretada por uma Mezzo Soprano.

Marquês d´Obigny – nobre frequentador dos salões de Flora, interpretado por um Baixo.

Barão Douphol – amante de Violetta, interpretado por um Baixo.

Doutor Grenvil – médico que cuida de Violetta, interpretado por um Baixo.

Annina – aia fiel de Violetta, interpretada por uma Soprano.

Giuseppe – frequentador do círculo social dos protagonistas, interpretado por um Tenor.
Época e local

Paris, França, meados de 1850.
Enredo

O primeiro ato se inicia quando Violetta Valéry* abre os salões de sua magnífica casa para oferecer uma de suas festas habituais.
Nesse cenário irá se desenrolar o primeiro encontro entre a anfitriã e o jovem Alfredo Germont, herdeiro de tradicional e abastada família da região da Provence, França.
Tão logo é apresentado a Violetta, pelo Marquês d´Obigny, o jovem se impressiona com a beleza e com a graça da mesma. Eufórico e deslumbrado por estar em um dos salões mais festejados da Europa, o rapaz interiorano não consegue conter a emoção e flana pelo salão como se estivesse em um sonho.
Alguns momentos depois, ele ergue um brinde a Mme. Valéry, que nota, então, que apesar de seu jeito provinciano, ele tem alguns encantos. Porém a sua avaliação sofre uma brusca interrupção por conta de um súbito mal estar que a acomete.
Os presentes correm para socorrê-la e Alfredo é quem se mostra mais atento e dedicado. Para confortá-la, ele não poupa cuidados e atenções, bem como palavras ternas e aconchegantes, permeadas de elogios acerca de sua beleza e de seus encantos, os quais, diz, ele admira desde longa data.
Violetta está habituada a ser cortejada e admirada e, por isso, a sua primeira reação às investidas de Alfredo traz um pouco de ironia e desdém. Contudo, ela sente que há na admiração e nos modos do jovem uma sinceridade que é inabitual em seu circulo social e, sem que se dê conta, começa a comparar a sua honestidade de caráter e a sua pureza com os trejeitos viciados das pessoas que frequentam os seus salões e lhe compartem a vida.
Assim, quando ele pede para revê-la, ela não hesita em consentir, desde que ele espere até que a camélia que lhe adorna comece a fenecer. Alfredo exulta com a resposta, pois sabe que a flor morrerá logo no dia seguinte e que, portanto, bastará esperar apenas algumas horas.
Enquanto isso a festa prossegue e quando finda, Violetta volta a pensar exclusivamente no que lhe ocorreu e se pergunta se enfim o amor verdadeiro lhe chegou? Um vago sentimento romântico preenche o seu olhar e ela se permite uma série de devaneios, mas, de chofre, a realidade volta a lhe assaltar e ao entoar a ária “Sempre Libera”, ela reafirma a sua intenção de não se deixar iludir por falsas promessas.
Não! Ela canta, não abdicará de sua independência. Será sempre livre e não renunciará às festas, aos flertes e aos outros prazeres do mundo.
Todavia, a voz do jovem Alfredo insiste em seu coração, contrapondo-se a essas determinações e deixando-lhe a dúvida sobre qual caminho seguir.
Com isso, encerra-se o primeiro ato.
§§§

O segundo ato é ambientado numa casa de campo, nos arredores da Cidade Luz. Nela, três meses após o primeiro encontro, o casal Alfredo e Violetta desfruta de uma deliciosa lua de mel.
Porém, apesar do clima romântico e feliz, Violetta se angustia por questões financeiras, sem que o amado perceba. E como os problemas se multiplicam e se tornam mais prementes, ela passa a viver num clima de tortura constante, o que obriga a sua fiel aia Annina a revelar a triste situação a Alfredo.
Ele percebe, então, o quanto tem sido um peso para ela, já que a sua família cortou-lhe todas as rendas por desaprovar o seu relacionamento com uma Traviata (uma transviada, como foi traduzida em suas primeiras apresentações no Brasil). Disposto a resolver a triste situação, ele parte incontinenti rumo a Paris em busca de uma solução.
Nesse entretempo, o velho e severo Georges Germont, pai de Alfredo, está fazendo o caminho inverso para exigir que Violetta se afaste de seu filho, haja vista que a união entre ambos comprometerá seriamente o futuro do rapaz, devido às convenções sociais e aos interesses econômicos envolvidos na questão.
Insultada e sentindo-se esmagada pelas ofensas que o velho lhe dirige, ela tenta retrucar, porém acaba concordando com a sua argumentação e cede às suas exigências por acreditar que com isso estará protegendo o seu bem amado. Com toda a pureza de sua alma, pede a Deus que lhe dê uma mulher de sua classe social e econômica que o faça deveras feliz.
Recorte do Autor
A atitude de Violetta é um gesto de desprendimento e de generosidade que foi comum na literatura da época e que não passou despercebido aos autores de Óperas, que faziam questão de incluí-lo em quase todas as suas obras devido ao seu potencial de admiração das plateias.
Para alguns leitores e espectadores mais engajados politicamente era, também, uma crítica ao arcaísmo farisaico das vetustas estruturas sociais e políticas do momento, vez que demonstravam a existência de nobres sentimentos nas pessoas das ditas “classes inferiores”; ao contrário do que ocorria entre aquelas pertencentes “as elites”, movidas apenas pelo apego materialista egoísta, pelos interesses mesquinhos, pelo culto exagerado da vaidade e pela superficialidade hipócrita.
Esse artifício literário e dramatúrgico ainda hoje é largamente utilizado, principalmente pelos autores de telenovelas e doutros divertimentos popularescos, que com ele buscam agradar ao seu público alvo: as pessoas menos instruídas, que imaginam que tais demonstrações de grandeza espiritual compensam a exploração a que são submetidas e que lhes renderá benefícios futuros, de ordem Metafísica ou não.
Nesse ínterim Alfredo retorna a casa e não encontrando Violetta pressente alguma fatalidade. Em seguida vê que os seus temores tem fundamento ao encontrar o bilhete em que ela lhe dá um frio adeus.
Cego de dor, parte a procura de sua amada, mas quem encontra é o seu pai que entoando a ária “Di Provenza” implora que ele volte para casa. Porém, crente que Violetta o deixou para seguir ao Barão Douphol, Alfredo só pensa em vingar-se, desafiando o rival para um duelo mortal.
A segunda cena desse segundo ato sinaliza a passagem de algum tempo e transcorre nos salões de Flora Bervoix, a amiga de Violetta, que está oferecendo uma de suas festas famosas.
De repente e de modo inesperado pela anfitriã, adentra a casa o ainda ressentido Alfredo que ao ser indagado sobre Violetta responde rispidamente não saber e nem se interessar por ela.
Mais alguns momentos e é a vez de Violetta entrar em cena, acompanhada por Douphol. Ao ver o ex-amante ela tem um sobressalto e passa a temer um confronto entre ele e o seu acompanhante, razão pela qual, roga ao barão para que não aceite provocações.
Porém, durante o jogo de cartas que era tradicional nessas ocasiões, Duphol acusa Alfredo de trapaça e ele, em resposta, desafia-o para um duelo, pouco se importando, a princípio, com as súplicas que Violetta lhe faz. Por fim, diz-se pronto a desconsiderar o duelo desde que ela volte para si.
Lutando com todas as suas forças para não ceder ao desejo de voltar, ela se nega a acompanhá-lo, pois ainda se sente presa à promessa que fez a seu pai e à sua própria convicção de que atrapalharia o seu futuro.
Alfredo, ignorando a intervenção paterna e as razões de Violetta, vê naquela recusa a confirmação de que ela não o ama mais e isso reacende a sua ira fazendo com que a trate com termos vulgares, chulos e injustos. Então, Douphol toma as dores de sua acompanhante e é a sua vez de o desafiar para um duelo.
E com esse clima tenso, termina a festa de Flora e o segundo ato.
§§§

O terceiro ato é encenado em um quarto sombrio, pobremente mobiliado e carregado de miasmas negativos. Ali agoniza Violetta.
Alguns meses se passaram desde a festa em casa de Flora e a jovem, completamente arruinada, vê chegar lentamente mais um dia de penúria e de melancolia. Seus antigos amigos e admiradores desapareceram e agora só lhe acompanha a fiel Annina.
Instantes depois entra em cena o doutor Grenvil que procura confortar a enferma, dizendo-lhe palavras de conforto e de encorajamento. Porém, para a Aia fiel ele não esconde que Violetta está vivendo as suas últimas horas.
Da rua, em contraste com o clima triste do quarto, chega o som alegre das músicas do Carnaval que acontece naqueles dias. Violetta relê pela enésima vez a carta enviada por Georges Germont, na qual ele lhe pede perdão por ter malogrado o romance entre ela e seu filho e por todo mal que isto lhe causou. Mostrando-se sinceramente arrependido, ele completa a missiva, avisando que ele e Alfredo, a quem confessou o seu sórdido gesto, já estão a caminho e que em breve a verão.
E essa última expectativa feliz dá-lhe alguma força e ele entoa a ária “Addio Del Passato” com a qual expressa as suas doces recordações dos dias felizes.
Nesse momento Alfredo entra no quarto e ambos entoam a célebre “Parigi, o Cara (cara, caríssima, amada)”. Juntos, novamente, deixarão Paris e a futilidade daquela vida e residirão no campo onde Violetta reencontrará a saúde plena e todos os sonhos se realizarão.
Porém, essa doce quimera logo se desfaz quando um violento acesso de tosse devolve-os à trágica realidade de que a morte não tarda a chegar.
O velho Germont e o doutor Grevil chegam, mas nada mais pode ser feito. Resta-lhes observar o último suspiro de Violetta Valéry, a eterna “Dama das Camélias”.


Nota do Autor* – Violetta Valéry* é reconhecida pelos amantes das letras como a “Dama das Camélias”, vez que essa personagem é uma adaptação de Marguerite Gauthier, do célebre romance homônimo de Alexandre Dumas Fº.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

domingo, 8 de março de 2015

Mulheres e Vida


A mulher pari a vida.
A vida servida, a vida crescida,
a vida sentida.

E chora a mulher que fez a vida,
pois ei-la vida saída,
vida partida,

E sorri a mulher que refaz a vida.
A vida revivida, a vida re-sentida,
a vida atrevida.

E gargalha a mulher que refez a vida,
de novo seduzida, de novo amada,
de novo desejada.

E, então, revive na mulher,
a própria vida.


A todas.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, verão de 2015.

sábado, 7 de março de 2015

Óperas, guia para iniciantes - O GUARANI (IL GUARANY) - Histórico, Final.


Talvez não seja exagerado dizer que a Ópera brasileira nasceu na noite de 19 de março de 1870* quando a sua produção mais célebre, “O Guarani”, foi apresentada pela primeira vez em um palco do “Primeiro Mundo”, mais precisamente, no suntuoso teatro Alla Scala, na cidade de Milão, Itália, recebendo efusiva consagração.
Com efeito, só a partir daí é que o País passou a ser visto como um produtor de música erudita de primeira qualidade. E, também, como um consumidor do gênero, graças, posterior e principalmente, ao “Ciclo da Borracha” na Amazônia que além de construir um magnífico teatro, trazia da Europa as melhores Companhias e os grandes talentos para a apresentação das novidades e dos clássicos operísticos.
Ademais a obra “O Guarani” marcou a presença inaugural no tradicional teatro lírico europeu, de um gênero musical que apesar de ser fortemente influenciado pela tradição europeia, apresentava traços genuinamente brasileiros.
Trouxe uma nova e até exótica linguagem para uma expressão artística que já estava soberbamente consagrada, pois, ainda que respeitasse milimetricamente os ditames, as marcas e as regras do gênero, Carlos Gomes acrescentou-lhe um cenário totalmente inusitado, para espanto e deslumbramento de plateias habituadas aos temas e paisagens locais, embora gostassem de se jactar cosmopolitas.
De acordo com as crônicas, críticas e noticias da época a ovação que a obra e seu compositor receberam na estreia, estendeu-se por toda a temporada europeia e, segundo alguns, o sucesso do jovem paulista do interior foi de tal monta que o próprio Giuseppe Verdi teria dito: “este jovem começa por onde acabo”. Para outros, talvez menos ufanistas, como o famoso crítico Artur Imbassahy, essa fala de Verdi nunca existiu, embora seja certa a admiração que o maestro italiano tenha lhe dedicado. Outro expoente da crítica especializada, Luis Heitor Correa de Azevedo, a propósito dessa admiração, cita uma carta que Verdi escreveu ao seu amigo Peretti, cerca de dois anos após a estreia, na qual diz: “assisti com grande e viva satisfação à Ópera do colega Carlos Gomes e posso lhe afirmar que a mesma é de bela fatura, e reveladora de uma alma ardente, de um verdadeiro gênio musical”.
Por isso, exageros ufanistas à parte, o certo é que a obra teve, sim, uma enorme repercussão no Exterior e isso tornou o maestro campineiro um verdadeiro “herói nacional” em sua volta ao Brasil, quando se apresentou para ninguém menos que o Imperador Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, em 02 de dezembro de 1870*, como parte das comemorações do aniversário de Sua Majestade.
Apresentação, aliás, que além de ser a consagração do artista em solo natal, foi, também, um agradecimento do compositor ao Imperador, que sempre foi o seu grande incentivador e financiador.
Todavia, como não poderia deixar de ser, a obra também recebeu algumas críticas, como, por exemplo, a que se refere ao Libreto (escrito pelo poeta Scalvini e baseado no livro homônimo de José de Alencar) que teria trazido o tema indígena de uma maneira muito superficial, sendo, apenas, uma tola idealização do “bom selvagem” de Jean Jacques Rousseau (sic).
Para outros, porém, o simples fato de se ter colocado em palcos europeus o “homem genuinamente brasileiro” foi antes de tudo, uma afirmação de orgulho étnico, já que Pery, dentre todos os personagens masculinos, é quem tem os mais elevados princípios éticos e morais, sendo, por isso, superior ao protótipo do colonizador branco que encarna todas as virtudes.
Contudo, em novo contraponto, principalmente da geração que fez ou acompanhou a famosa “Semana de Arte Moderna de 1922”, Pery não seria um homem íntegro, mas um simples “capacho” do colonizador que não hesitou em trair o seu próprio povo para receber as “miçangas” do Primeiro Mundo.
Aplausos, vaias, elogios, críticas etc. que sempre estarão associados aos grandes feitos, em qualquer campo da atividade humana. É da natureza do homem ter essas visões variadas sobre um só assunto e, talvez, seja precisamente esse o motor que impulsiona a humanidade para as novas realizações, mas, nesse caso específico, sem entrar no mérito das argumentações favoráveis ou contrárias, é importante ter em mente que a Ópera é um gênero que ultrapassa a realidade empírica e, por isso, lhe é permitido dar vazão as idealizações que o compositor julgar adequadas para contar a sua história.
Ademais, nunca será equivocado reverenciar ao ilustre maestro que apesar da distância geográfica e cultural com os grandes centros conseguiu romper a barreira que separava a “Grande Arte” do público brasileiro. A ele, pois, o reconhecimento devido.


Nota do Autor* – a famosa protofonia (Abertura) que anuncia o programa radiofônico estatal “A Hora do Brasil” só foi escrita em 1871, após as primeiras apresentações da Ópera, para a Exposição Industrial de Milão, Itália.

São Paulo, 07 de março de 2015.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Prêmio Buriti 2014


Prêmio Buriti 2014 

Primeiro colocado na categoria "Contos", com a obra "O Ipê Vermelho", no 5º Concurso Literário Internacional - Buriti Cronicontos, em homenagem ao escritor Dr. Jobal do Amaral Velosa, em Américo Brasiliense, SP.


Agradeço sinceramente ao Colegiado e a Diretoria da Associação pela honra que me foi concedida e aos queridos amigos e amigas leitores pelo apoio de sempre. Muito obrigado.
Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, verão de 2015.

Óperas, guia para iniciantes - "O Guarani" - Resenhas - Enredo.


Enredo
A Ópera tem como cenário inicial a calçada fronteiriça ao casarão de Dom Antonio de Mariz, onde ele reside com sua filha Cecília ou Cecy, como lhe chama Pery, o cacique da tribo dos Guaranis que é amigo leal da casa e apaixonado pela jovem.
Pela calçada passa um grupo de homens que regressam da caça entoando cantos em louvor as suas aventuras e ao prazer de caçar. Nas mãos, ostentam os animais abatidos como verdadeiros troféus.
Um pouco à frente, o aventureiro espanhol de nome Gonzáles debocha do afeto que outro aventureiro, o português Álvaro, demonstra sentir por Cecy, mas a pilheria não é bem aceita pelo segundo e um entrevero entre ambos só não acontece porque o fidalgo, pai da moça, chega com a noticia de que uma tragédia quase aconteceu há pouco, quando os índios Aimorés tentaram invadir a sua residência e sequestrar a filha, em vingança pela morte acidental de uma moça de sua tribo, por outro grupo de aventureiros. Também diz que o pior só não aconteceu graças ao corajoso Pery que teve êxito em ludibriar os inimigos e esconder a sua filha dos “outros selvagens”.
Após o relato, Dom Antonio apresenta a todos o herói Pery, que, então, reafirma a sua amizade e lealdade a Cecy e sua família.
Nesse momento adentra a cena a jovem e entoa uma ária repleta de gratidão ao indígena por ele ter-lhe salvo a vida. E a alegria que demonstra é tanta que Don Álvaro supõe pretensiosamente que a mesma tenha algo a ver com sua afeição por ela, mas logo Gonzáles desfaz a sua ingênua ilusão, ocasionando um novo mal-estar entre ambos.
Contudo, o entusiasmo de Álvaro logo é restaurado quando Dom Antonio o apresenta à filha como o noivo que ele lhe escolheu. Embora pasma com a noticia, ela não contradiz o pai e se limita a ficar em silêncio até que todos entoam a “Ave Maria”, pois a noite é chegada.
Momentos depois quase todos se retiram e ficam em cena apenas Cecy e Pery e ela lhe pergunta o motivo de ele evitar-lhe constantemente. Em resposta, ele entoa a ária “Sento Uma Forza Indomita” com a qual revela o grande amor que lhe tem. Radiante de alegria, ela não esconde que lhe corresponde e quando ele deixa a cena ela se põe a divagar sobre a felicidade de amar e de ser amada, mas, também, sobre os enormes obstáculos que aquele amor haverá de enfrentar.
E assim se encerra o primeiro ato.
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O segundo ato tem início com Pery rastejando junto a uma caverna. É visível o seu contentamento por ter conseguido chegar ao local antes dos aventureiros que pretendem furtar os haveres do pai de Cecy, conforme uma conversa dos membros do bando, que ele ouviu dias atrás.
Embora esteja escuro ele consegue identificar Gonzáles, Rui e Alonso, que, em certo momento e apesar de sua cautela, conseguem aprisioná-lo. Sentindo-se, então, já vitorioso, Gonzáles demonstra a sua liderança sobre os outros e zombeteiro entoa a “Canção do Aventureiro”, com a qual faz apologia da vida sem lei e sem ética.
Enquanto isso, a segundo cena desse ato dois, mostra a jovem Cecy recolhida em seu quarto pensando no amor de um “príncipe misterioso”, que, em verdade, é o mote de uma balada romântica.
Finda a música ele adormece suavemente, mas, então, o seu quarto é invadido sorrateiramente pelo maldoso Gonzáles que por instantes se põe a admirá-la adormecida. Porém, um ruído a desperta e a presença do aventureiro a congela de pavor.
Indiferente ao seu sofrimento, o espanhol ordena-lhe que o siga e ante a resistência dela, ele não hesita em arrastá-la rudemente em direção à porta do quarto, só parando quando uma flecha atinge-lhe a mão.
Assustado e açulado pela dor ele se põe a disparar a sua arma para responder ao ataque inesperado, enquanto berra por seus comparsas, os quais, já estavam a caminho após ouvirem o tiro, que era um sinal previamente combinado.
Nisso, um grande alvoroço instala-se no casarão, pois ao saberem do frustrado rapto de Cecy, os moradores acodem ao quarto e Dom Álvaro desafia o espanhol para um duelo mortal. Logo, ambos se engalfinham e a briga só é interrompida com a chegada de Dom Antonio que ordena que todos deponham as armas e sosseguem os espíritos.
Nesse instante, Pery, que conseguira fugir de seu cativeiro, declara estar pronto para revelar a sórdida traição de Gonzáles e dos outros. O aventureiro, porém, nega todas as acusações e pensa em como se vingar do indígena. Novamente os ânimos se exaltam e só arrefecem quando ouvem o alarido resultante do ataque que os Aimorés fazem ao solar.
É o final do segundo ato.
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O terceiro ato é ambientado no acampamento dos Aimorés onde o grande número de baixas ocorridas no ataque é lamentado; enquanto, por outro lado, é celebrada a vitória de se ter conseguido raptar a filha de Dom Antonio e o “traidor” Pery.
Enquanto a tribo se prepara para um novo ataque, Cecy é amarrada a uma árvore e com a face coberta, prepara-se para o pior.
Nesse instante os indígenas entoam um canto vigoroso no qual expressam seu ódio ao homem branco, mas as grandes explosões de canhões que se escuta ao fundo, apavoram os guerreiros que buscam no cacique as necessárias palavras de incentivo e de encorajamento. Este, após infundir-lhes coragem, manda que Cecy seja trazida à sua presença.
Num primeiro momento a beleza da moça o enternece, mas ele sabe que toda a tribo deseja a morte ou a escravidão da mesma. Assim, para contentar os seus, o morubixaba decide tornar-lhe “uma rainha” para que nesse posto ela presida o suplício de Pery. Será, imagina, uma forma de aumentar-lhe o sofrimento, pois ele sabe de seu amor pelo “traidor”.
Em seguida ele ordena que Pery seja trazido e ele não se mostra intimidado. Ao contrário, faz inúmeras afirmativas sobre a covardia da tribo e demonstra todo o seu desprezo pelos algozes.
Acontece, então, o célebre “Bailado dos Indígenas”, que para muitos críticos é o ápice da representação tal a sua força evocativa.
Terminada a dança, a cena se esvazia e nela ficam apenas Cecy e Pery. Ela indaga sobre o pai e suspira aliviada ao saber que ele salvou-se. Em seguida implora que o amado fuja, mas ele se recusa a abandoná-la e enquanto a ação se desenrola nesse clima trágico e romântico o cacique aimoré e sua tribo retornam e fazem o “Ritual da Invocação”, que acontece como um dos preparativos para a execução de Pery.
Todavia, esses preparativos não são concluídos, pois a aldeia é assaltada por Dom Antonio Mariz e seus homens. O combate que se segue é violento e nele o cacique é ferido.
Assim, encerra-se o terceiro ato.
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O quarto ato é encenado inicialmente no subterrâneo do solar de Dom Antonio Mariz. Ali, Gonzáles e os outros malfeitores tramam raptar Cecy e assassinar Pery e o velho fidalgo.
Contudo, a reunião dos malvados não dura muito, pois logo adentra o pai da jovem, que diz já saber dos planos maquiavélicos que eles urdiam e os alerta para o grande castigo que preparou para eles. Diz-lhes que uma enorme explosão destruirá a todos, inclusive a ele próprio*. O terror se apodera dos bandidos de tal forma que eles nem percebem a chegada de Pery que diante da ameaça de Dom Antonio, roga-lhe para que poupe Cecy.
Cedendo ao amor paternal, o castelão concorda em poupá-la, mas com a condição de que o índio se converta ao Catolicismo e que na condição de cristão a leve dali. É um câmbio que o intrépido e apaixonado Pery não hesita em fazer, partindo tão logo termina o rápido batismo que lhe é feito pelo ancião.
Ciente do ocorrido, a jovem Cecy reluta em abandonar o pai, mas sabendo da firmeza de sua intenção deixa-se, por fim, levar-se por Pery que a carrega no colo até um abrigo seguro em uma colina.
Dom Antonio, ao sabê-la abrigada e segura cumpre a sua vontade e ordena a explosão que ceifa a vida de todos. Em seu esconderijo, Cecy ajoelha-se e clama por piedade e pelo perdão de Deus para seu pai, sendo acompanhada no gesto e na fé por seu amado Pery.
É o fim da primeira Ópera brasileira a ser encenada com absoluto êxito em terras do Velho Continente.
Nota do Autor* - a decisão de se matar tomada pelo velho Dom Antonio causa alguma perplexidade nos espectadores já que o libreto é omisso quanto aos motivos do mesmo. Antes de tudo é importante ter em mente que todo libreto baseia-se em outra obra, mas não é, em absoluto, a sua transcrição literal e, por isso, é válido supor que a motivação do fidalgo seja decorrência de seu desgosto com a traição sofrida e pelo esgotamento que as condições hostis de vida na nova colônia lhe causaram. Ademais, em termos teatrais, seria impossível reproduzir as partes finais do livro, como, por exemplo, o verdadeiro dilúvio que esconde os protagonistas na cena final. Pede-se a compreensão do leitor/espectador.
Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Óperas, guia para iniciantes - O GUARANI (IL GUARANY) - Personagens e prefácio



O Guarani (Il Guarany)

Autoria – Gomes (Antonio Carlos – 1836-1896 – Brasil)
Libreto – Antonio Scalvini

Personagens:

Dom Antonio de Mariz – fidalgo português. Interpretado por um Baixo.
Cecy ou Cecília – protagonista. Filha de Dom Antonio. Interpretada por uma Soprano.
Pery – protagonista. Indígena e chefe dos Guaranis, inimigos dos Aimorés. Interpretado por um Tenor.
Dom Álvaro – português. O noivo escolhido para Cecy, por Dom Antonio. Interpretado por um Tenor.
Gonzalez – aventureiro e malfeitor espanhol. Interpretado por um Barítono.
Rui Bento – aventureiro e malfeitor português. Interpretado por um Tenor.
Alonso - aventureiro e malfeitor português. Interpretado por um Baixo.
Cacique Aimoré – interpretado por um Baixo.

Época e local

Região fluminense, por volta de 1560.
Prefácio

Os acordes iniciais dessa Ópera, provavelmente, já foram ouvidos pela maioria dos brasileiros ao menos uma vez na vida. Com eles, anuncia-se o início do programa radiofônico governamental chamado de “A Voz do Brasil” que é de reprodução obrigatória para todas as estações de rádio do país e que nunca deixou de ser apresentado, apesar de sua baixíssima audiência nos tempos atuais e dos vários movimentos contrários a ele, que se manifestaram ao longo dos anos.

Aqui, por motivos óbvios, não discutiremos as qualidades, os defeitos e a utilidade do mesmo, mas não poderíamos deixar de registrar que graças ao mesmo, ainda que por vias tortas, a grande obra de Antonio Carlos Gomes não caiu no completo esquecimento, como ocorreu com outras obras eruditas que aqui foram feitas e olvidadas por falta de políticas culturais efetivas.

Ao contrário do que acontece nos países do chamado “Primeiro Mundo”, onde a Grande Música permeia o cotidiano das pessoas comuns, no Brasil ela é vista como o passatempo esnobe de uma elite desligada da realidade nacional, perpetuando, assim, um erro brutal, pois é em obras como a desse paulista interiorano, que a essência brasileira pulsa com mais vigor e só isso deveria bastar para que fossem mais amplamente divulgadas pelos canais de comunicação populares, resgatando aquilo que um povo tem de melhor a oferecer: a sua cultura.

Mas, enquanto tal não acontece, deixaremos esse pequeno contributo com a expectativa de que vários outros aconteçam para que homens da estatura de Carlos Gomes tenham reconhecido o seu enorme mérito; e que nós, brasileiros, tenhamos cada vez mais motivos para nos orgulharmos daquilo que a nossa gente é capaz de criar.

São Paulo, 04 de março de 2015.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

domingo, 1 de março de 2015

Rio, de 450 Janeiros.


Porque há
em cada um dos teus encantos
a sedução dos novos encontros,
tu serás sempre,
Cidade Maravilhosa,
a soma apaixonante
de todas as descobertas.


Homenagem pouca a São Sebastião do Rio de Janeiro que hoje completa 450 anos de esplendor. Carinho sincero aos amigos e amigas cariocas.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, verão de 2015.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Óperas, guia para iniciantes. O BARBEIRO DE SEVILHA, Resenhas. Final


Histórico
A crítica à Sociedade foi uma vertente muito ativa na literatura dos séculos XVII e XVIII, num reflexo direto das novas ideias Iluministas que escancararam as injustas condições em que vivia o povo, em contraponto aos privilégios gozados pela aristocracia, pelo clero e por outras camadas privilegiadas.
E dentre vários autores que se especializaram nesse segmento brilhou o talento de Beaumarchais (Pierre-Augustin Caronde, 1732-1799, França) que além de outros reconhecimentos, teve duas de suas três sátiras de costumes transformadas em óperas por compositores de escol como Paisiello (Giovanni Battista, 1740-1816, Itália atual) e Rossini que fizeram a primeira, “O Barbeiro de Sevilha”; e Mozart que se encarregou da segunda, “As Bodas de Fígaro”, uma continuação da primeira.
A obra de Beaumarchais foi publicada pela primeira vez em 1775 e já no ano seguinte, 1776, foi levada à cena lírica por Paisiello que à época desfrutava de muito prestígio, embora hoje esteja semiesquecido, tal qual a sua versão.
Porém, quando Rossini, em 1816, pretendeu fazer nova Ópera sobre a comédia de Fígaro, foi naquela primeira versão que ele buscou o suporte de que necessitava para compor uma das óperas que mais se destacaram em todos os tempos, como bem se vê nos dias atuais pelo arrebatamento que ainda causa em críticos especializados, em simples diletantes e, até, no público leigo.
O processo de recriação da peça de Paisiello não foi uma tarefa fácil para Rossini em razão do prestígio daquele compositor e das inevitáveis cobranças e comparações que o seu trabalho suscitava.
Todavia, graças a sua genialidade, ele concluiu parcialmente o trabalho em apenas uma quinzena. A exiguidade de tempo não foi uma opção sua, devendo-se mais ao curto prazo que lhe foi concedido pelo Duque Cesarini que contava estrear duas* peças no Carnaval daquele ano, previsto para meados de fevereiro.
E a pressa no processo deu azo para a ocorrência de vários acontecimentos singulares e até hilários, como, por exemplo:
1)      Embora trabalhasse arduamente, Rossini não conseguiu apresentar para a noite de estreia a “Abertura” da Ópera e usou, então, a “Abertura” de outra obra, “Elizabeth, Rainha da Inglaterra”, que havia sido encenada anos antes, com pouca repercussão e que estava esquecida na ocasião. O fato hilário foi que vários autoproclamados “entendidos”, “eruditos”, “especialistas” etc. viram (sic) naquela Abertura postiça, vários elementos e personagens de “O Barbeiro”. Note-se, pois, que a prepotente jactância por presumida erudição não é um fenômeno dos dias de hoje, sendo um pecado tão antigo, quanto à história do homem...
2)      E as “trocas”, os “empréstimos” não se restringiram a esse fato, pois algumas Árias de outras obras também foram usadas, como, por exemplo, “Ecco Ridente in Ciello” que originalmente pertence a “Aureliano em Palmira” e a famosa “La Calunnia” que compõe o acervo de “Sigismondo”...
3)      Ademais a ária cantada na cena “Lição de Música” acabou tendo a sua partitura extraviada e como Rossini recusou-se a escrever outra, até hoje os Sopranos são liberados para executarem a ária que lhes agradar, com a única exigência de que tenha alguma relação com o contexto.
Improvisações que acrescentaram um sabor mais picante ao prazer de se escutar a obra-prima de um jovem de vinte e quatro anos de idade que soube, como raríssimos, dar ao Mundo um de seus mais belos momentos.
Nota do Autor – A primeira obra para o evento foi “Torvaldo e Doliska” que atualmente está esquecida; sendo a segunda a inesquecível “O Barbeiro de Sevilha”, que desde a sua estreia no Teatro Argentina, em Roma, conquistou a admiração geral.
São Paulo, 28 de fevereiro de 2015.
Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Óperas, guia para iniciantes. O BARBEIRO DE SEVILHA, resenhas. Parte II


Continuação...
Nesse ínterim, chamados por Bartolo, adentra a cena um grupo de soldados para expulsar o oficial bêbado que insiste impertinentemente em se alojar na residência; mas, disfarçadamente, Almaviva apresenta a sua condição de nobre ao Comandante do pelotão que, por isso, relaxa a sua prisão.
Bartolo protesta, o Conde retruca e a soldadesca fala descompassadamente. Nesse clima “buffo” encerra-se o primeiro ato.
§§§
Ambientado no mesmo cenário, um sala no casarão do doutor Bartolo, o segundo ato inicia-se com ele aproveitando o silêncio e o vazio da sala para colocar os seus pensamentos em ordem.
Após algumas conjecturas, compreende que a farsa do oficial bêbado tinha alguma relação com Rosina, mas antes que possa tomar alguma medida é surpreendido com batidas à porta.
Ao atendê-la, depara-se com um jovem que se apresenta como Professor de Música substituto que veio fazer às vezes de Don Basílio, acometido de grave enfermidade. Trata-se, claro, de nova investida de Almaviva que usa esse novo disfarce em atenção à sugestão de Fígaro.
A princípio, Bartolo não lhe dá crédito, mas quando o jovem diz que acabou de lecionar para o Conde e como confirmação mostra uma carta que o mesmo teria recebido de uma moça (em verdade a carta é de Rosina), o velho tutor logo vê uma “prova” da volubilidade do “conde namorador” e prevê que a “comprovação da falha de caráter” de seu rival será utilíssima para o plano que ele e Don Basílio arquitetam para desmoralizá-lo, forçando-o a mudar-se de cidade e a desistir do casamento com Rosina.
Ávido em apossar-se daquela “prova”, o tutor nem questiona o falso professor sobre o fato de ele ter furtado a missiva. Alegre, recebe-o e tem início uma das cenas mais célebres do gênero operístico: a famosa “lição de música”, onde Rosina canta a ária da lição, Almaviva não lhe poupa elogios e galanteios, enquanto Bartolo canta e dança ridiculamente uma música que foi popular na época de sua juventude.
A jovem não tem dificuldades em reconhecer no falso mestre o seu amado Conde e ouve, envaidecida, os elogios à sua voz e à sua beleza, enquanto o seu tutor continua com a sua hilária expansão de alegria.
Nesse momento chega à cena o barbeiro Fígaro para cuidar das barbas de Bartolo, mas ele o dispensa, pois ainda está envolvido em sua comemoração e disposto a atentar para tudo que acontecer no ensaio. Para lhe pressionar, Fígaro diz que se não for naquela hora, ele não poderá cuidar de sua aparência por longos dias em razão de seus muitos compromissos “só Deus sabe o quanto estou ocupado...”.
Sem alternativa e a contragosto, Bartolo cede e entrega ao barbeiro o molho de chaves para que ele retire no armário os apetrechos necessários. Justamente o que Fígaro queria, pois será a oportunidade de surrupiar a chave do balcão para que posteriormente ele e o Conde tenham acesso a Rosina.
De volta ao salão ele inicia o barbear, mas espalha tanta espuma na face do tutor que lhe impede de ver que Almaviva e Rosina ultimam, junto ao cravo, os planos para fugirem nesse mesmo dia.
Porém, a situação fica tensa quando inesperadamente Don Basílio surge em cena, vendendo saúde.
Novamente o espírito “buffo” da peça se mostra explícito quando todos o rodeiam e se mostram aterrorizados “por seu tétrico aspecto” e pela “horrível doença que o está consumindo”. Pasmo, Basílio aceita a sugestão e começa a sentir-se mal e não se faz de rogado ao aceitar o generoso suborno que o Conde lhe dá para que volte à sua casa e se recolha ao leito até recobrar a “saúde”.
Fígaro volta às barbas de Bartolo que em meio ao tumulto destampou as orelhas e com isso consegue ouvir as confidencias dos amantes. Indignado, ele se levanta e protesta vigorosamente, denunciando a todos – inclusive Fígaro – como pérfidos traidores. Já não lhe restam dúvidas da participação do barbeiro nem da iminência da fuga de sua tutelada.
Todavia, as suas invectivas só causam risos e demonstrações de desprezo nos outros, que saem juntos da sala.
No auge da irritação, ele chama pela ama Berta e lhe ordena extrema vigilância para que ninguém entre na casa durante a sua ausência. Em seguida sai para exigir que Don Basílio apresse os papeis e faça o seu casamento para aquela noite, custe o que custar.
Sozinha, Berta se põe a cantar uma melodia que ironiza a pressa em casar que assaltou o velho e moça, ainda que os motivos de ambos sejam totalmente diferentes.
Quando retorna, Bartolo mostra a Rosina a carta endereçada a Almaviva e ela, por desconhecer que Lindoro e o Conde são a mesma pessoa, julga-se vitima de uma traição. Magoada, decide abandonar o amado e desposar o velho tutor.
Nesse trecho a orquestra executa uma peça que sugere com maestria uma violenta tempestade noturna, numa magnífica alusão aos tumultos que invadem a alma da jovem.
Quando a música termina, dois vultos assomam ao balcão: são Lindoro e Fígaro que vem executar o plano de fuga; porém, Rosina recusa-se a segui-los, ainda ressentida com a suposta traição. Apenas quando Almaviva esclarece a questão dos disfarces é que ela decide continuar a fuga. Fígaro os apressa, mas um novo empecilho surge quando a escada que os levaria do balcão ao solo é retirada por alguém, impedindo-lhes escapar.
Nesse momento chega o tabelião Don Basílio e como eles estão cientes de sua venalidade logo o cercam propondo-lhe, mediante alto suborno, que ele altere os nomes do noivo nos papeis de casamento. Novamente ele não titubeia em praticar o ilícito e as alterações são feitas.
Nisso chega Bartolo e já encontra o matrimônio sacramentado e oficializado. Tomado de ira, num primeiro momento quase sofre um colapso. Porém, com o correr dos minutos e graças às ponderações que os outros lhe fazem acerca da fortuna do Conde e do quanto isso pode lhe ser benéfico, ele se acalma e se junta aos demais nas comemorações jubilosas que encerram o espetáculo.
Nota do Autor* - Cavatina - ária curta, sem repetição nem segunda parte.
Nota do Autor** – “Largo Al Factótum” ou “Abra Caminho para o Factótum” é uma ária que se tornou um ícone de popularidade no meio operístico. O termo “Factótum” vem do latim e significa um “servente geral” ou, literalmente, um “faz tudo”.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Óperas, guia para iniciantes - O BARBEIRO DE SEVILHA - Resenhas, parte I


Barbeiro de Sevilha

Autoria – Rossini (Giochino Antonio – 1792-1868 – Itália)
Libreto – Cesare Sterbini

Personagens:

Almaviva, o Conde – interpretado por um tenor.
Bartolo, Doutor – médico e tutor de Rosina. Interpretado por um Baixo.
Rosina – protagonista feminina. Interpretada por uma Soprano.
Fígaro, Barbeiro e “faz tudo” – interpretado por um Barítono.
Don Basílio – professor de música. Interpretado por um Baixo.
Fiorello – empregado do Conde Almaviva. Interpretado por um Baixo.
Berta – empregada de Don Bartolo. Interpretado por uma Soprano.
Ambrógio – servidor de Don Bartolo. Interpretado por um Baixo.

Época e local

Sevilha, Espanha, século XVIII.
Enredo

O primeiro ato dessa “Ópera Buffa” tem como cenário uma rua de Sevilha onde o jovem e galante Conde de Almaviva prepara uma serenata em homenagem a uma linda jovem por quem se apaixonou após tê-la avistado em algumas ocasiões.
Junto dele estão Fiorello, seu criado, e os músicos que se esmeram na execução das melodias, como, por exemplo, na ária para Tenores e guitarra, “Ecco Ridenti in Cielo”.
Além dessa outras músicas são tocadas e, então, o espectador assiste ao primeiro momento “buffo” da Ópera quando os músicos se recusam a parar a serenata, inoportunamente agradecidos pela excelente remuneração que o Conde lhes oferece. E, realmente, o fim da audição só acontece após certo tempo, quando fica claro para todos que a jovem não virá à janela ou ao balcão.
Enfim sozinho Almaviva se posta sob a marquise de sua amada até que um rumor de passos obriga-o a se esconder; porém, o temor é injustificado, pois quem se aproxima é Fígaro, com quem já havia travado relações noutra localidade.
Loquaz como de hábito, Fígaro entoa a popularíssima cavatina* “Largo Al Factótum** (Fígaro aqui... Fígaro ali... Fígaro lá...)”, com a qual conta que além de ser o barbeiro da cidade é, também, um verdadeiro “faz tudo” em Sevilha, graças às suas inúmeras habilidades e ao seu conhecimento quase total da cidade e de seus habitantes.
Após essa entusiasmada apresentação, ele e o Conde começam a traçar um plano para que Almaviva consiga adentrar o casarão e cortejar a doce Rosina. Fígaro lhe conta que a moça é discípula e não filha do velho doutor Bartolo e também fala sobre as qualidades, os sonhos e os desejos da mesma. Em resposta, Almaviva diz-lhe que adotará o pseudônimo de “Lindoro” e que ocultará, num primeiro momento, a sua posição de nobreza e a sua fortuna, pois almeja ser amado apenas por si mesmo e não por suas posses.
Enquanto ambos arquitetam o plano, Rosina e o doutor Bartolo surgem no balcão. A jovem traz um papel semioculto na mão que logo desperta o ciúme e a ira do velho, mas ela, ardilosamente, diz-lhe tratar-se apenas do enredo de uma Ópera muito popular chamada de “Precaução inútil (sic)”.
Sem atentar para a ironia da moça, ele ordena-lhe que se recolha e avisa aos criados para que proíbam a entrada de qualquer pessoa na casa, com exceção de Don Basílio, o professor de música da jovem. Em seguida, Bartolo sai apressado rumo ao Tabelião para pedir urgência nos trâmites dos papeis de seu casamento com a tutelada.
Antes de lhe obedecer, Rosina deixou cair o papel que segurava, no qual convida o romântico seresteiro a visitar-lhe, avisando-o da saída de seu tutor.
Através da ária “Se Il Mio Nome”, Almaviva aceita o convite e já usando o falso nome de Lindoro, apresenta-se como um homem pobre, incapaz de lhe proporcionar uma vida de luxo e riqueza. A jovem começa a responder-lhe falando da iminência de seu casamento, mas é bruscamente interrompida.
Aflito, ele pede auxílio a Fígaro, pois entende a urgência de se impedir aquele nefasto arranjo matrimonial. O “Factótum” lembra-se, então, da chegada de um batalhão à cidade e sugere que Almaviva se faça passar por um oficial e que, nessa posição, busque alojamento na casa, conforme a praxe da época.
O dueto relativo a esse estratagema encerra a primeira cena.
A segunda cena desse primeiro ato é ambientada em uma das salas do casarão onde Rosina entoa a ária “Una Voce Poco Fá”, que conta uma história símile a que está vivendo: uma voz que há pouco escutou, já toca o seu coração. Em seguida a música passa a fazer menção ao seu tutor e às suas intenções e ela se despe de cerimônias e se autodefine como alguém gentil, doce e pacífica, mas, também, aguerrida em defesa de seus interesses e de suas vontades. Uma víbora impiedosa se lhe forem contrariados os sonhos e desejos.
Finda a ária, ela se retira do recinto que, então, passa a ser ocupado pelo velho Bartolo e por Don Basílio, que além de professor de música, também é o Agente Matrimonial que está cuidando do casamento. O ancião explica-lhe que tem muita pressa em realizar o casamento, pois teme que sua tutelada se apaixone por um de seus vários pretendentes.
E o casamenteiro lembra, a propósito, que um desses admiradores é o próprio Conde de Almaviva, a quem urge afastar, já que ele é um concorrente de muito peso.
Concorde com o risco, Bartolo pede-lhe auxílio para afastar esse risco e o professor entoa a célebre ária “La Calunnia” que sugere a maneira mais eficaz de afastar uma pessoa: a calúnia, a intriga, a maledicência. Será preciso, segundo seus pérfidos argumentos, lançar calúnias sobre o nobre pretendente até que ele se sinta acuado e não lhe reste alternativa a não ser mudar-se de localidade, vez que a sua reputação foi jogada na lama. Afinal, ninguém resiste a uma intriga, já que a mesma é como uma brisa suave que se insinua sorrateira entre o populacho e vai se avolumando com os acréscimos que as pessoas lhe colocam, até que, no fim, torna-se um tufão que a tudo arrasa. Ao pobre caluniado, resta apenas o desprezo e o ódio de todos e, em consequência, a vontade de morrer.
Essa ária, além da beleza superior, também se notabilizou por ser extremamente descritiva do comportamento humano. Para muitos, é uma variante do “Realismo” que, então, vicejava na literatura da época.
Ao fim da mesma, os dois idosos se retiram e a cena fica vazia por alguns instantes. Na sequência, Rosina recebe a visita de Fígaro que se diz primo de Lindoro e lhe pede que escreva um bilhete confirmando o seu interesse no rapaz. Ela finge hesitar, mas, na verdade, ela já havia feito tal bilhete e o mesmo é de tal modo explicito que Fígaro deixa de ter qualquer dúvida em relação aos seus sentimentos. Ela está pronta para o amor e não há nada mais que ele possa ensinar-lhe.
Nesse entretempo, Bartolo regressa a casa e ao perceber a falta de uma folha de papel adivinha que Rosina usou-a e se põe a pressioná-la para que ela confesse a quem escreveu. Ela resiste às suas investidas e ele se irrita com as suas negaças, censurando-a asperamente, através de uma ária extremamente vigorosa.
Ela não responde aos seus insultos e abandona a cena que, em seguida, é ocupada por Almaviva, disfarçado em um oficial bêbado que insiste em se hospedar ali, apesar da tenaz resistência que lhe opõe o velho Bartolo. Uma pantomima que o Conde sustenta por algum tempo, enquanto busca meios para entregar um novo bilhete para sua amada...

Continua...

Nota do Autor* - Cavatina - ária curta, sem repetição nem segunda parte.

Nota do Autor** – “Largo Al Factótum” ou “Abra Caminho para o Factótum” é uma ária que se tornou um ícone de popularidade no meio operístico. O termo “Factótum” vem do latim e significa um “servente geral” ou, literalmente, um “faz tudo”.


Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Verão de 2015.