sábado, 22 de março de 2014

Versos Gerais



Solenes, desfilam os versos
nas ladeiras de perpétua idade.
Janelas observam-nos
e portas se oferecem,
mas seguem os versos,
pois o caminho exige
que histórias sejam semeadas
e que se cante
os amores inconfidentes
e a flor que rompe o asfalto.

Solenes versos gerais
caminham as serras,
saciam-se no Santo de Francisco
e se abrigam nos balcões centenários
à espera das Musas
por quem foram feitos.
             


                                                                                           Para a Musa.


Produção e divulgação de YARA MONTENEGRO, Assessora de RP., desde Inconfidentes MG, no Outono de 2014.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Instantes




Serão tuas, doce amada,
as ruas de Outono.
Teus, os ventos do norte
que trazem o frescor
dos dramas conjurados.
E tuas, as chuvas que brotam
os novos tempos.
Caminhe teus novos caminhos
e beba em todas as esquinas
a doce noite dos amantes.
Somos instantes.

                     Para a Musa.

Produção e divulgação de YARA MONTENEGRO, assessoria de RP, de Lambari MG, no Outono de 2014.

domingo, 16 de março de 2014

A Filha




Não a fiz. Fizeram-na os anjos.
Não a embalei. Tampouco lhe afastei
Os monstros do armário, as sombras da noite
e o terror da bruxa do açoite.
Não lhe acompanhei à primeira aula,
ao primeiro jardim e ao teatro sem fim.
Não sonhamos juntos o brilho da estrela
que se avista na infância primeiro.
Caminhos e destinos repartidos, levaram-nos.
Mas eis que então, ei-la soberana no reino da Poesia,
exercendo o fascínio de sentir. Ei-la, luz a luzir.

Não, não a fiz.
Fizeram-na os anjos.
Fizeram-na Cecília.
Fizeram-na porto e ilha.
Fizeram-na, minha filha.


Para Cecília, filha amada.
 

sábado, 8 de março de 2014

Elas




A ternura ainda é possível.
A essência de santas putas senhoras,
sobrevive à rudeza do Mundo.

Lavadeiras, operárias, faxineiras
sorriem batons imprecisos.
Alegria despossuída
ante a crueza do Mundo.

Embalam filhos incertos
de destinos não sabidos.
Acalentam sonos e sonhos
de quem pouco sonhará.

Musas esquecidas
de poucos poemas.
Macabéas* da vida.
De tantas vidas...



Imagem disponível na Web. Toda solidariedade às Garis do Rio de Janeiro.


* da obra de Clarice Lispector.

quarta-feira, 5 de março de 2014

As cinzas do dia



Agora, resta apenas a cinza
dos dias cinzas.
Presto, rugem as bestas
que guardam os tesouros
e tu, homem, perdeu
o caminho das quimeras.
Está vazio o teu jardim,
vago, o teu leito
e seco, o teu peito.
Roubaram-te a vida
os ladrões da vida
e submerges afogado
pelos sujos oceanos
das perdas e danos.
Sucumbes entre as ondas
das obrigações
que te fizeram querer.
Sufocas por não ter beleza,
por não ter riqueza.
Sufocas por que dizem
que tu és apenas o que é.

                 Para Beth. Saudades.

segunda-feira, 3 de março de 2014

DOM QUIXOTE - Livro II - O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha - Resenha




Pode-se afirmar que o Livro “um” de Dom Quixote foi o primeiro “Best Seller” havido no mundo. Publicado em Madri no ano de 1605, tão rapidamente conquistou o público que logo nos bailes e festas às fantasias seguintes, as mascaras de Sancho Pança e do Cavaleiro da Triste Figura eram as mais usadas por conta das boas graças que as duas personagens conquistaram nos corações dos leitores independentemente de suas classes sociais ou intelectuais. Outro dado que também aponta para o enorme sucesso da obra está no fato de ter havido dez reedições em espanhol da mesma até 1613 e uma em inglês no ano de 1612 e outra, em francês, no ano de 1614.  Dados robustos que falam por si e não deixam dúvidas sobre o encanto que a composição de Cervantes espalhou por todos os cantos em que chegou. Dela, algumas passagens se tornaram de tal forma difundidas que até quem não leu o livro, as conhece, como é o caso, por exemplo, do duelo contra os moinhos de vento. E para aumentar o fascínio que o esplêndido estilo do autor oferta, existe a possibilidade de haverem várias leituras para o texto, o qual, de inicio, era tido como uma deliciosa comédia que arrancava sonoras gargalhadas graças às trapalhadas do Cavaleiro e à figura simplória de Sancho. Posteriormente, a obra passou a ser lida como um libelo contra a mesquinhez de uma realidade pobre, tacanha e cruel; digna apenas de ser esquecida e trocada pelas fantasias e pelos sonhos, sem temer as censuras e as cobranças de uma sociedade carcomida pela busca desenfreada por valores duvidosos e pelo continuo abandono da generosidade, lealdade, honra e outros valores éticos. Sociedade regida pelo mais baixo interesse material e constrangedora da liberdade, da criatividade e de outras expressões tão caras ao gênio humano. Sociedade que não hesita em tratar como demente todo aquele que tenha coragem suficiente e se disponha a resgatar aquilo que a vida deveria ser. Sociedade que não titubeia em trancar nos manicômios e nos presídios todos aqueles que rezam suas próprias cartilhas e não se sujeitam ao bárbaro domínio exercido por figuras mitológicas e ou religiosas e tampouco se submetem à caduquice de valores e conceitos que só se sustentam em convenções criadas pelos mais poderosos em seu próprio beneficio. E simbolizando esses “santos loucos e heroicos”, Dom Quixote chegou aos nossos dias e foi em nosso tempo que recebeu a justíssima homenagem de ter sido eleito o “Melhor livro de Ficção de todos os Tempos”. Assim, por tudo isso, não é difícil imaginar o quanto Cervantes foi pressionado pelos Editores e leitores para continuar com a saga do de Dom Quixote e Sancho Pança, mesmo ele nunca tendo dado a entender de forma explicita se tinha em mente prosseguir com a obra-prima. De todo modo, por volta de 1611 ele retomou o trabalho e após três anos de labuta foi surpreendido com o aparecimento de uma versão apócrifa de seu livro. Escrito por um tal Alonso Fernandes Avellaneda (vide nota) o “Quixote” falso tenta fazer uma continuação das aventuras do Cavaleiro Errante, mas como costuma acontecer com as cópias, a péssima qualidade do mesmo indica a sua má origem e o quanto falhou em sua tentativa. Ademais, o autor usa de sórdida grosseria para atacar Cervantes chamando-o de “velho” e “maneta” em alusão à sua avançada idade e ao fato dele ter perdido a mão esquerda na famosa batalha de “Lepanto”. Embora desgostoso com a falcatrua e por ter sido vituperado covardemente, Cervantes mostrou-se novamente superior e não partiu para o revide brutal, que talvez fosse desejado pelo plagiador, vez que essa celeuma poderia trazer-lhe a fama que buscava, mas que não merecia. Ao contrário do vulgar, ele respondeu em forma de zombaria citando o livro falso nesse Segundo Livro, sempre destacando as suas incoerências, mentiras e mediocridades. Assim, quando em 1915 veio à luz essa segunda parte, já no prólogo ele avisa que não partiria para a agressão, mas em compensação, durante o transcorrer do texto, ele não deixa de citar de forma pejorativa o embuste de foi vitima. Foi, deveras, um lance genial. Um livro dentro de outro. Como, aliás, de certa forma, já ocorrera no Primeiro Livro quando o suposto primeiro narrador avisa estar apenas recontando uma história escrita em árabe e que chegou ao castelhano através da tradução de Cide Hamete Benengeli (o também suposto segundo narrador). Mas se no primeiro volume, o cerne era voltado apenas para cantar o heroísmo de Quixote, no segundo é usado, também, para punir o fraudador. Por isso, logo nas primeiras páginas, Quixote e Sancho ficam sabendo que as suas façanhas foram escritas e ao longo do romance a dupla encontra supostos leitores daquela farsa, a qual, em todas as ocasiões, eles desautorizam e ridicularizam. Em termos literários, Cervantes repete seu brilho e nas várias aventuras em que a dupla se mete, nota-se o estilo fluente e delicioso do autor. O fato de terem se tornado conhecidos graças ao livro apócrifo granjeia-lhes vários admiradores que entre a sádica satisfação de rirem das suas sandices e ingenuidades, submetendo-os às diversas burlas e variados estratagemas, espantam-se com o descortino da aguda inteligência de Quixote e com a profunda, embora simples, sabedoria de Sancho Pança. No final do livro, após viverem tantas aventuras e após terem sido vitimas de um engodo final, os heróis voltam para as respectivas casas e após alguns dias, Dom Quixote morre, não sem antes recuperar a sanidade. Ou o que dizem ser a sanidade.
Um clássico! Talvez o maior!

Nota – o pseudônimo de Avellaneda nunca foi cabalmente identificado, mas é quase consenso a tese do estudioso Martin de Riquer que em 1988 publicou “Cervantes, Passamonte y Avellaneda” onde sustenta que o Quixote apócrifo é a reposta dada por um soldado que lutou ao lado de Cervantes em “Lepanto”, 1571, de nome Gerónimo de Pasamonte, natural de Aragão. Como Cervantes, ele também foi condenado ao cativeiro na dura posição de remador de galeras (Sancho, aliás, em certo trecho, censura o horror da situação daqueles condenados a quem o chicote do feitor não dava trégua) e também se aventurou nas letras, sendo autor de uma autobiografia. Para Riquer, seu motivo foi o fato de Cervantes tê-lo usado como modelo da desairosa personagem, Ginés de Pasamonte, um facínora que foge de sua escolta graças a uma estapafúrdia ação do Cavaleiro da Triste Figura.

Resenha feita em São Paulo, 03 de Março de 2014.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Inconfidências


Solenes, desfilarão os versos
pelas ruas de antiga idade.
Musas eternas cantam
os perenes amores
que rebrotam entre os jasmins.
E novas saudades se mostram
abaixo da Lua inconfidente.


Para a Musa de sempre.


Com carinho para Keyla, Joilson, Marcelo e Alexandra. A história vive em vocês.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Morte de Ivan Ilitch - Tolstói - Resenha





Tolstoi (1828 – 1910) nasceu no seio de uma rica família aristocrática e graças a isso desfrutou até a metade da vida de uma confortável e luxuosa condição de existência. Porém, após ter-se casado com uma mulher quinze anos mais jovem e ter sido pai de dez filhos, sofreu uma completa reviravolta em sua personalidade e tornou-se macambúzio, soturno e consciente das tristes condições em que viviam os pobres de sua pátria. No desenvolvimento dessa transformação vieram o divórcio, o recolhimento em sua propriedade, o afastamento da vida social e a leitura compulsiva dos grandes romancistas, especialmente Cervantes e Victor Hugo. Na sequência, chegaram o misticismo, o abandono das riquezas e o inicio efetivo da sua produção literária cujo mote principal focalizava os aspectos humanos e sociais. Seus textos retratavam aquilo que ele via, já que passou a visitar as áreas carentes da cidade e a manter um estreito convívio com as pessoas do povo. E foram essas aproximações e experiências que embasaram os enredos de obras como “Ana Karenina”, "Guerra de Paz" e desta, que, a exemplo das outras, mostram a crua realidade de uma sociedade injusta, egocêntrica, hedonista e dissoluta, embora, em paralelo, sempre com o contraponto de figuras nobres e de valores elevados.

Isto colocado, passemos à resenha de “A Morte de Ivan Ilitch”:

Se tu queres cantar o Mundo, cantes a tua aldeia...

A sentença acima se tornou icônica e pode perfeitamente ser usada no presente caso, bastando substituirmos a noção de espaço pela noção de tempo, pois, com efeito, os fatos ali narrados e ocorridos em c. de 1800 são tão iguais aos que ocorrem nos dias atuais, que não se pode observar a menor mudança no comportamento humano. Tanto quanto naquela época, o que hoje impera é o interesse próprio e egoísta, ainda que mal disfarçado e apenas para se atender às conveniências sociais.
O texto começa com a conversa descontraída de três servidores da Justiça que debatem assuntos banais de trabalho de carreira, tais como transferências, promoções, aumentos de salários etc. A conversa segue descontraída até que chega a noticia da morte de um dos juízes e automaticamente cada um dos presentes começa a imaginar o que aquilo pode lhe render de beneficio, em termos de promoções, transferências, aumentos de salários etc., além de sentirem o alivio pela foice da morte ter atingido a outro e não a ele próprio. E tais pensamentos, convenientemente disfarçados por hipócrita comiseração, também povoam as mentes de PIOTR IVANOVITCH e FIÓDOR VASSILIEVITCH, cuja proximidade com o morto era mais estreita e exatamente por isso o primeiro sente-se na obrigação de velar o juiz. Assim, sacrifica o repouso costumeiro após o jantar e dirige-se até a residência do falecido. Afinal, para ele o sacrifício pode ser compensador, pois a vaga que se abrirá com a morte do juiz, poderá ajudá-lo a auxiliar seu cunhado, funcionário inferior em uma estância sem importância, e com isso livrar-se da cobrança que a sua esposa e a família dela lhe fazem. Movido, então, por esses interesses, hipocritamente revestidos de solidariedade e piedade, dirige-se à casa do amigo extinto e lá, em primeiro lugar, encontra-se com outro amigo comum, SCHWARZ, que demonstrando completa indiferença com o ocorrido, não perde a oportunidade fazer piadas e confirmar que o esperam para o carteado de costume. Em seguida, finge um grande devotamento religioso e a custo consegue disfarçar o asco que sente ao avistar o cadáver. Ainda chocado com o cheiro do cadáver, com a sua aparência e com o horror da cena, sente-se reconfortado quando a viúva pede-lhe que a acompanhe, pois ela precisa conversar em particular um “assunto de extrema gravidade”. Ele a segue e logo percebe que as lágrimas que ela derrama são falsas e que o que lhe interessa de fato é saber o quanto ela pode exigir de pensão do Governo. PIOTR também percebe que ela já fez extensas pesquisas a respeito e que conhece mais do assunto do que ele mesmo e então responde que não há modo de fazer nada e que ela receberá apenas o padrão, mas ela fingindo ignorância sugere algum tipo de falcatrua, com o que ele não concorda e aproveitando-se do fato de que os serviços funerários estão prestes a começar ele se desembaraça da mesma e segue lépido e feliz ao encontro do jogo de baralho que lhe aguarda.

A outra metade da obra narra a vida de IVAN ILITCH, cuja principal característica foi a retidão profissional, familiar e social. Um indivíduo que primou em levar a vida cumprindo religiosamente todas as regras e leis, dispensando-se de aventuras e de bruscas mudanças. Uma vida recompensada por pequenas alegrias no trabalho, na aquisição e decoração de uma nova casa, vitórias no carteado e outras alegrias que são típicas de espíritos pequenos que desse modo compensam as frustrações advindas do casamento fracassado, da insuficiência do dinheiro que nunca é bastante para ostentar junto aos parentes e amigos mais pobres, da inquietude pressentida etc. E dentro dessa rotina prossegue-lhe a vida até que uma dor inesperada anuncia a chegada da doença que, ao cabo, o matará. Com a chegada da enfermidade, ele passa a pesquisar sofregamente os aspectos da mesma e devora todos os textos médicos buscando motivos de esperanças e tentando embasar a sua nova condição de enfermo e, portanto, “digno” e merecedor de atenções especiais, principalmente dos familiares; mas, ao contrário do que pretendia, logo ele começa a sentir o asco e o incômodo que causa em sua esposa e em sua filha, a despeito da tentativa que ambas fazem para parecerem atenciosas, amorosas e dedicadas. Ressente-se da indiferença das mesmas e, principalmente, do fato de sua esposa debitar-lhe a culpa por estar doente, não perdendo ocasião de falar para qualquer um que a sua situação é decorrente de sua indisciplina em não tomar os remédios como deveria; ou, então, que ele está nesse estado por ter comido aquele alimento, ou por ter usado aquela roupa e coisas similares. E o ressentimento em breve transforma-se em ódio e num crescendo de tensão, TOLSTOI relata as minúcias do cotidiano em que os mais diversos momentos causam dor, sofrimento, solidão e mais ódio, mais ressentimento, mais asco e mais vontade de que “ele descanse” e “descanse a pobre família” que por ter que suportá-lo vê-se privada de sua rotina.

É um texto duro, até cruel. E, pior, verdadeiro. É claro que existem exceções e há enfermidades e mortes que são suavizadas pelos cuidados e pelo amor que o paciente recebe, mas infelizmente são casos excepcionais e que ocorrem, geralmente, quanto a doença é breve e a morte não tarda, evitando que o trabalho e o incômodo dado pelo paciente atrapalhe a rotina daqueles que lhes são próximos. Mas TOLSTOI contou o que ocorre na aldeia, no Mundo e tanto no seu tempo, quanto no atual. Contou o que acontece com a maioria. Contou o que acontece quando a doença é empecilho ao lazer e à paz da família; quando as dores e os gritos do paciente impede-lhes o sono; quando a sua alimentação, a sua medicação e a sua higiene aumentam o trabalho; quando a sua demora em morrer retarda os planos com a herança; quando a sua degeneração física causa asco e a mental causa raiva e impaciência. Contou, enfim, o que são os homens.
 
Um texto esplêndido e uma leitura essencial. Um clássico!


Resenha feita a partir da Edição - "Biblioteca da Folha", Editora "Ediouro", com tradução de
Marques Rebelo.

Produção e divulgação de YARA MONTENEGRO, assessoria de RP, desde Ouro Preto, MG, no Verão de 2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

PROMETEU ACORRENTADO - As Gregas Tragédias








ÉSQUILO – 525(4)/456 AEC. - Elêusis

Cenário – região desolada na Citia, atual Sibéria.

Época da ação – primórdios da Humanidade

A 1ª Apresentação – em 458 AEC. em Atenas.


Personagens:

1. Coro – representando as Oceânidas

2. Hefesto – o deus do fogo.

3. Hermes – deus, arauto e mensageiro de Zeus.

4. Ío, filha do rei Ínaco, amada por Zeus e perseguida por Hera, a ciumenta esposa do “Pai dos Deuses”.

5. Poder e Força – divindades auxiliares de Zeus.

6. Prometeu, um dos titãs, filho de Urano (o Céu, também chamado de jápeto) e Gaia, ou de Urano e Têmis.

Prefácio

Num banquete servido aos Homens e aos Deuses, Prometeu encarregou-se de fazer a partilha de um boi assado. Ludibriando Zeus fê-lo escolher a parte onde colocara apenas ossos, camuflados por uma gordura branca. O “Pai do Deus” ao ver-se vitima do ardil encolerizou-se contra Prometeu e contra os mortais (que ficariam com as partes nobres da carne) e para castigá-los escondeu-lhes o fogo, o último elemento que faltava para que eles atingissem a civilização. O titã voou até o Olimpo, acendeu um ramo nas brasas do Sol (ou nas fornalhas de Hefestos, segundo uma variante da lenda) e deu aos Homens aquela chama. Zeus, duplamente enganado, puniu os Homens mandando à Terra a deusa Pandora e a Prometeu castigou mandando acorrentá-lo num rochedo.

A tragédia de Ésquilo começa a partir desse ponto, mas achamos oportuno recuarmos um pouco no tempo para facilitar a compreensão da peça. Também, com esse espírito, discorreremos brevemente sobre Pandora, que apesar de não estar diretamente mencionada na obra de Ésquilo ocupa um papel de destaque no encadeamento da lenda.
É bem conhecida a fábula de Pandora que ao abrir sua caixa libertou todas as maldades no Mundo. Também é comum que se creia que nem só de Maldades estava cheia a caixa, pois nela havia uma exceção benéfica: a esperança. Todavia é um erro supor que a “Esperança” fosse algo benéfico, pois ela é apenas mais uma das maldades. É a “Esperança” que ilude o Homem fazendo-o crer que seu Futuro será diferente. Que ele poderá dominar esse Futuro. É claro que mudanças superficiais ele poderá realizar, mas o intimo, a essência, está nas mãos do Destino, das circunstâncias que lhe cercam e cercarão. É a “Esperança” que obriga a Humanidade a perseverar como se fosse o mitológico Sísifo, cuja pena no Hades consistia em empurrar uma pesada rocha montanha acima e ao chegar ao cume, ver que a pedra rolava para seu ponto inicial, fazendo-o erguê-la novamente. Lendo a fábula de Pandora com a alma desarmada de clichês, nota-se a semelhança do Homem e Sísifo. Ambos fazem um inútil trabalho contínuo (ou uma vida de trabalho, cuja satisfação é sempre momentânea; e logo substituída por nova ambição) sem saber o motivo de tanta dor e sofrimento. 
Encenação

A representação teatral inicia com a chegada do “Poder”, da “Força”, de Hefestos e do prisioneiro Prometeu a um rochedo na distante e congelada Citia. Hefestos deixa escapar sua tristeza por ver um deus, um irmão seu naquela situação e logo é advertido pelo “Poder” para a necessidade de cumprir a ordem do Pai Zeus. Lembra-lhe que todos, inclusive os deuses estão presos às cordas do Destino e que tudo é inútil na tentativa de modificá-lo. Tudo é predeterminado.

Note-se que essa negação do “Livre Arbítrio” e da meritocracia para alcançar “A Salvação” voltaria à cena milênios depois nas vozes de Religiosos Protestantes. Calvino e Lutero, dentre outros, pregavam a “Graça Divina”; ou seja, seriam “Salvos” aqueles que fossem escolhidos (sic) por Deus, independentemente dos seus atos.

Preso por grossas cadeias, Prometeu experimenta a solidão com a partida de seus carcereiros e dá inicio as suas lamúrias e queixumes (alguns estudiosos veem nessa cena o original da cena da Crucificação de Jesus: um Ser Divino, protetor dos Homens, é castigado por tê-los favorecido.) até que ouve um barulho que lhe indica a chegada de alguém. São as Oceânidas que lhe trazem sua amizade e sua solidariedade. Prometeu, repete-lhes suas queixas e lhes ouve dizer que Zeus é um “Novo Rei” ainda em fase de consolidação do poder e inexperiente em seus mandos e desmandos.

Esse fato se repete a sorrelfa em várias oportunidades na História do Homem, principalmente quando as revoltas, justas ou injustas, chegam ao Poder e a agitação social, inclusive com violência, faz-se presente até que haja uma acomodação de todos os agentes deslocados por aquela convulsão.

Através do Coro, as Ninfas contestam Prometeu que julga ser motivo de escárnio doutros deuses. Ponderam que ninguém poderia ficar satisfeito com aquela situação. Nesse ponto, Prometeu cita pela primeira vez a hipótese de Zeus vir a ser derrubado por outro deus. Cita, então, um segredo (que se desposasse Tétis, o filho que gerassem o destronaria. Por isso, o Senhor dos Deuses fez com que ela se casasse com o mortal Peleu, a quem deu o filho chamado Aquiles, o maior guerreiro grego) que sabe e que interessa diretamente a Zeus, pois nele está o nome de quem o substituirá no trono. Prossegue afirmando que tal trunfo lhe é valioso e que por isso não será revelado mesmo que lhes sejam ditas doces palavras, ou lhes sejam aplicadas cruéis torturas.

Ante o medo que as Ninfas externam, dizendo que o coração de Zeus é tão duro quanto um diamante, Prometeu as consola retrucando que chegará o tempo que ele, o soberano Pai dos Deus, será curvado pelas circunstâncias e será obrigado a vir humildemente pedir-lhe socorro. Na sequencia, Prometeu responde ao Corifeu (representando a líder das Ninfas) contando o que fez para receber aquele castigo. Contou-lhe primeiro que foi decisivo como aliado de Zeus contra os titãs, pois usou além da força bruta a sutil inteligência; e se queixa da ingratidão de Zeus, nesse assunto.

Prosseguindo sua narrativa, contra-argumenta com o Coro, dizendo-lhe ser fácil criticar, mas de tudo que fez de nada se arrepende, pois como tinha o dom da adivinhação sabia de antemão o que teria que enfrentar, embora não esperasse que em condições tão duras. E tudo por amor aos homens...

Volta à questão do egocentrismo. Por amor ao Homem, ou por desejo de se opor a Zeus? Por ciúme do poder adquirido pelo irmão? A segunda opção tem mais probabilidade de ser a verdadeira.

Nesse momento chega o titã Oceano que presta juras de amizade enquanto censura Prometeu por não ter se submetido ao poder de Zeus. Primeiro ele recebe as criticas com polidez, mas depois usa de sarcasmo e diz que os covardes, como Oceano, não devem dar motivos para censuras dos poderosos do momento e que, portanto, ele deve partir sem vagar. Assumindo sua paúra, Oceano parte célere, amedrontado de ter contrariado o novo Senhor.

Nesse trecho é oportuno observar uma característica bem humana: qualquer sentimento mais nobre, a amizade, por exemplo, não resiste a um eventual risco. Tanto há milênios, quanto nos dias atuais. Há, aqui, todo um desnudamento profundo do caráter humano. Chega-se ao mais intimo do Ser, graças à genialidade de Sófocles. No outro extremo, o da nobreza dos sentimentos, as Oceânidas permanecem junto a Prometeu suavizando-lhe a solidão a que foi condenado.

Na sequencia o titã relata os benefícios que concedeu aos homens, narrando desde os primórdios da Humanidade:

1. A arte de construir casas, livrando-o das cavernas, onde vivia então.
2. O uso do raciocínio e a partir daí o conhecimento astronômico básico.
3. As ciências matemáticas e a escrita.
4. A doma e o uso dos animais de carga
5. Os navios à vela.

E após essa enumeração, queixa-se por não saber como se livrar da terrível condição em que ele próprio agora está. O Corifeu o compara a um médico talentoso, mas que desconhece o remédio que o curaria de sua enfermidade. Prometeu enumera mais algumas dádivas que deu aos Homens:

1. Os remédios e as ervas medicinais. Os alimentos funcionais.
2. As artes divinatórias. Como interpretar as estranhas de um animal sacrificado, ou o vento dos pássaros etc.
3. A metalurgia.

O Corifeu lhe pede, então, que não mais exagere no amor aos mortais. E que, se um dia libertar-se dessas correntes, leve uma vida harmoniosa com os outros deuses, especialmente com Zeus.

Responde-lhe Prometeu que ainda não é hora para a reconciliação. O Destino já fixou essa hora, bem como as dores que ainda sofrerá. E essas determinações são inflexíveis. Não podem ser alteradas. E o Corifeu faz a pergunta esperada: e quem controla o Destino (ou a Deus)?

O filho de Jápeto pondera, então, que o Destino é controlado pelas três Parcas e pelas três Fúrias, que não esquecem jamais qualquer erro. Sendo o próprio Zeus sujeito a isso.

No hinduísmo há essa concepção de Deus. Acima da TRIMURTI (Vishnu, Brahma, Shiva) está o “Deus Maior”, chamado de BRAHMAN. No catolicismo, algumas correntes já admitem que exista um “Deus” acima do demiurgo que construiu o Universo.

Na sequencia, a questão do controle de Zeus (ou de Deus, na modernidade e na contemporaneidade) é retomada pelo Corifeu, mas Prometeu se recusa ao assunto, alegando que ainda não é o Tempo certo para a revelação de tal segredo.

O Corifeu continua questionando e pergunta a Prometeu o porquê de seu amor aos Homens? Que benefícios isso lhe traz? Mas antes que o titã responda, chega à cena a beleza jovem de ÍO que atormentada pelo moscardo (a mosca da madeira) enfeitiçado, corre por todas as direções enquanto pergunta às Oceânidas sobre o prisioneiro atado à rocha, em meio aos seus próprios queixumes.

Prometeu diz conhecê-la, bem como ao seu fardo. De amada de Zeus, passou a ser a perseguida pela ciumenta esposa do “Pai dos Deuses”, Hera. Retruca a jovem pedindo-lhe que revele as futuras torturas que ainda passará. E Prometeu lhe diz que revelará o seu futuro, de forma clara e objetiva. Porém, antes que comece, o Corifeu pede a ÍO que ela própria conte seus males e ela, envergonhada, conta dos sonhos frequentes que a induziram a receber Zeus em seu corpo; de como seu pai a expulsou de casa, pensando que desse modo agradava aos deuses. E como seu físico e sua mente foram modificados para que ela ficasse parecida com uma novilha; também fala como o moscardo começou a torturar-lhe diuturnamente, impedindo qualquer repouso ou refeição. E mais contaria, mas acha melhor voltar a pedir o vaticínio de Prometeu.

Prometeu inicia seu vaticínio indicando-lhe o caminho a seguir. Nele, encontrará e deverá evitar vários povos hostis, exceto o das Amazonas que a tratarão como amiga e lhes darão um breve repouso, na dura e longa caminhada que fará até sair da Europa e adentrar a Ásia. Simultaneamente, compara seu sofrimento com o da jovem e não a persuade de desistir do suicídio. Apenas lamenta o fato de ser imortal, de lhe ser proibido o descanso que a morte promete, e lhe diz que só terá paz com a queda de Zeus; perspectiva que também alegra ÍO, pois ela entende que foi ele o causador de seus males. O titã lhe conta, então, que Zeus caiará tombado por um filho de sua estirpe; mas não será um filho seu, posto que ele só venha após serem passadas treze gerações. Também lhe diz do longo caminho que deverá percorrer já em solo asiático e dos perigos que enfrentará até que no território do atual Egito funde uma Colônia.

O Corifeu volta a lhe perguntar: quem destronará Zeus? Em resposta o titã diz que na Colônia, ÍO recuperará a forma humana e a sua paz interior. Ali gerará um filho negro, EPAFO, que cultivará a região banhada pelo Nilo criando as bases de uma linhagem real. Dessa linhagem virá o seu libertador, mas não entra em detalhes alegando que seria necessário um longo tempo para chegar ao término da narrativa, o que seria improdutivo para a jovem.

O nobre descendente de ÍO, através da linhagem de Epafo, é Herácles (Hércules, em latim) que efetivamente libertou Prometeu.

Entrementes, novamente aguilhoada pelo moscardo, ÍO chora seus sofrimentos e em desabalada carreira sai de cena.

Enquanto o Coro relata o erro de ÍO, que se “casou” apenas por estar deslumbrada pelo poder e fortuna de Zeus, Prometeu retoma seu discurso sobre a queda de Zeus e se gaba de ser o único que sabe o segredo de sua queda e como minorá-lo. As Oceânidas questionam-lhe se ele não estaria confundindo seus desejos com a real previsão do Futuro, hipótese que o titã rechaça e quando vai contra-argumentar, adentra à cena o deus Hermes, especialmente detestado por Prometeu que não lhe perdoa a servilidade, a covardia perante Zeus. Um Homem que se sujeita a ser um mero “menino de recados”.

Com esse ódio no peito, Prometeu o recebe com escárnio, acentuando sua covardia e sua servil condição de mensageiro. Hermes responde-lhe os insultos chamando-o de “Sofista”, ou seja, enganador, manipulador por meio de discurso vazio, mas convincente pela bela forma. Também lhe chama de “ladrão”, pelo “fogo” dado aos Homens. E entre ataques e contra-ataques, Hermes transmite-lhe a pergunta de Zeus sobre que casamento lhe arruinará? Ordena Zeus que Prometeu esclareça essa profecia, mas como seria de se esperar, o titã se nega a dizer quem o derrubará, enquanto continua seu feroz ataque ao mensageiro, insultando-o pela sua mediocridade, sua baixa estima e sua ingenuidade de achar que tanto ele quanto Zeus, serão eternos nos postos que ora ocupam. Ele mesmo, diz Prometeu, já assistiu à queda de dois “Pais dos Deuses”. Primeiro Urano e depois Cronos, avô e pai de Zeus.

Furioso, antes de voltar ao Olimpo, Hermes ameaça Prometeu com novos castigos: o primeiro será o “cão alado” que estraçalhará seu corpo; o segundo será a “branca águia real” que comerá seu fígado diariamente, ou na medida em que ele se regenere. O Corifeu tenta intervir na briga pedindo que Prometeu abrande sua fúria e se submeta ao novo “Rei dos Deuses”. Mas é em vão tal apelo, pois o titã reafirma sua posição e diz nada temer dos novos castigos que Zeus lhe infligirá. É acompanhado nessa determinação pelas leais Oceânidas que se recusam a abandonar o filho de Jápeto. Com isso repelem o conselho de Hermes para se afastarem e não serem feridas pelos raios de Zeus.

E firmes em sua convicção e em seu propósito, Prometeu e as Ninfas são colhidos pela imensa tempestade que se abate sobre eles, cuja fúria pressupõe o extermínio de todos. É o fim da apresentação teatral.

Epílogo

O leitor ou espectador observa que nessa Tragédia o sentimento dominante é a ira e o desejo de vingança contra uma suposta ou real injustiça. Num primeiro momento exalta-se a justeza do caráter de Prometeu. Num segundo instante, essa admiração chega às Oceânidas, cuja lealdade é voluntária. E talvez mais digna de louvor justamente por isso e pelo fato de não terem a mesma imortalidade de Prometeu, tampouco sua proteção como ente divino.

Ao fechar o livro, ou ir para casa após o teatro, o conceito de firmeza vai sendo substituído pela dúvida sobre os reais motivos de Prometeu. O que ele fez, foi mesmo por “amor aos Homens”? Ou terá sido apenas uma maneira de afrontar alguém (Zeus) que teria usurpado um trono que deveria ser seu? Foram os Homens apenas “massa de manobra”, tola e ingênua? É quase certo que a sua resposta será “Sim”. Pois olhando em retrospectiva, vê-se que o “fogo (a luz, a sabedoria)” dado pelo titã serviu para iluminar um Pensador como Platão; mas, com muito mais ocorrência, serviu para armar os Homens que se matam entre si, por conceitos absurdos. O que adiantou para a Humanidade a “civilização” que o deus lhe ofertou? Só a opressão de uns contra outros, sem que através dela se criasse efetivas melhorias para todos. Tudo que foi dado, e NÃO conquistado, veio com a maldição de todas as heranças: a criação de uma geração de incapazes, inescrupulosos, vadios e fúteis.

Todas essas questões perpassam os Juízos de todos que têm contato com a obra de Ésquilo, cada qual analisando de uma maneira própria. Mas é certo que todos - independentemente do juízo que faça das personagens - concordam que se saboreou um texto de beleza superlativa. Uma das grandezas de Ésquilo, cuja sutileza permite a quem dele se aproxima, viajar pelos meandros das almas humanas e divinas.
 
Rio de Janeiro, 12/02/2011.



Produção e divulgação de YARA MONTENEGRO, assessoria de RP., desde Ouro Preto, MG, no Verão de 2014.