sábado, 18 de agosto de 2012

Friedrich NIETZSCHE - Filósofos Modernos e Contemporâneos



NIETZSCHE, Friedrich
1844 – 1900
Humano, demasiado humano.
Deus Morreu!
O Homem é algo a ser superado!
O Tele-Evangelismo atual e NIETZSCHE.

... NIETZSCHE reagiu à Filosofia de Hegel e ao Historicismo alemão. Ao primeiro, atribuía um interesse anêmico pela História e confrontava esse desinteresse com a própria vida, já que sua principal reivindicação era por uma reavaliação de todos os Valores (sobretudo da Moral Cristã que ele taxava de ‘Moral Escrava’) para que o curso da vida dos ‘Fortes’ não fosse retardado ou obstruído pelos ‘Fracos”.
Para NIETZSCHE a Tradição filosófica e o Cristianismo tinham se afastado do Mundo (físico, material) e se voltado para o ‘Céu’, ou para o ‘Mundo das Ideias’, sendo que os mesmos não passavam de ilusões.
Por isso, conclamava ‘sede fiéis à Terra’ e não acreditem naqueles que falam de esperanças além desse Mundo...”.
Trecho extraído de “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder – Editora Cia das Letras.

Friedrich NIETZSCHE nasceu na Prússia, no seio de uma família religiosa, na qual o pai e seus tios eram Ministros da Igreja Luterana.

Órfão de pai ainda na primeira infância, NIETZSCHE foi criado pela mãe, pela avó e pelas tias, mas nem essa presença feminina majoritária foi suficiente para suavizar a sua Personalidade, cuja introspecção impediu que gozasse de amizades e de convívio social.

Aluno brilhante, aos 24 anos de idade se tornou Professor na Universidade de Basel, onde conheceu o compositor Richard Wagner (1813 – 1883, considerado o maior compositor alemão) que influenciou decisivamente o seu Ideário, até que o antissemitismo do maestro causasse o rompimento da amizade de ambos.

Em meados de 1870, NIETZSCHE contraiu difteria e depois da enfermidade nunca mais recuperou a saúde completa. Por isso, teve que renunciar ao seu cargo de Professor em 1879 e viajar por toda a Europa durante uma década em busca de cura para seus males.

Em 1889, quando tentava evitar que um cavalo fosse chicoteado, desmaiou em plena rua e sofreu um tipo de Colapso Mental que agravou seu estado e o levou à morte, aos 55 anos de idade.

Contudo, antes do fim, NIETZSCHE legou ao Mundo um Sistema Filosófico primoroso. Com ele, ideias que antes eram sequer ventiladas, como a inexistência de Deus, por exemplo, ganharam um ordenamento de tal profundidade e coerência que seguramente abriram o caminho para que, entre outros, o Existencialismo vingasse pouco tempo depois.

Tais concepções foram expostas em seus vários livros e textos esparsos. Em relação aos primeiros, citaremos a seguir, aqueles que são considerados suas obras-chave. Em relação aos segundos, sugerimos a pesquisa e o estudo de suas interpretações acerca dos Filósofos Pré Socráticos, pois ali estão concentrados vários de seus princípios.

1.     O Nascimento da Tragédia, 1872.
2.     Assim falou Zaratustra, 1883 – 1885 (sobre o qual nos debruçaremos com mais ênfase).
3.     Para Além do Bem e do Mal, 1886.
4.     Crepúsculo dos Ídolos, 1888.

Na sequência analisaremos os diversos temas que compõe o mosaico do Pensamento de NIETZSCHE.

Na Grécia clássica, Platão afirmava que o “Mundo Verdadeiro” era o “Mundo das Ideias”, um “local” imaterial, metafísico, onde estariam os “modelos” de todas as Coisas e Seres que existem materialmente, e que, por isso, não passariam de meras e grosseiras cópias imperfeitas daqueles moldes.

Esse Ideário, ao contrário do que acredita a maioria, não é de autoria do Mestre grego. Sua origem remonta ao Hinduísmo, no qual Platão bebeu durante suas viagens ao Sub Continente Indiano.

Mas, independentemente de qual seja a sua fonte original, o fato é que a teoria ganhou adeptos e, com o tempo, o status de “Verdade Absoluta”. Principalmente depois de ter sido encampada pelo Cristianismo, que a catapultou para todo o Ocidente e fez da mesma a base de toda Cultura europeia e dos territórios colonizados.

Desse modo, por milênios se acreditou que:

1.     O Cristianismo está correto quando diz que tudo neste Mundo (físico, concreto, material) é menos importante que aquilo que está no “Céu”, ou no “Mundo após a morte”.
2.     E também quando prega que devemos nos afastar do que parece importante nesta vida e tentar transcendê-la através da negação da mesma. Ou seja, através do ato de negar-se à satisfação dos desejos físicos (fome, sede, sexo, luxo, dinheiro, conforto etc.).

Essas exortações ainda são repetidas com frequência em nossa época, tanto por motivos Católicos (e assemelhados), quanto Budistas (e assemelhados) e/ou Filosóficos (no campo da ética, patriotismo e outros semelhantes).

Triunfar sobre as necessidades e vontades do próprio corpo é um desejo perseguido por vários Homens. Dos monges budistas e/ou hinduístas que fazem do ascetismo um estilo de vida, até o Filósofo Schopenhauer, cujo Ideário (derivado das “Upanishads” hindus) afirmava categoricamente que:

“Querer” leva ao Sofrimento!

 NOTA do AUTOR - a leitura de Schopenhauer foi de fundamental importância para NIETZSCHE que lhe absorveu a Ideia, mas em sentido contrário. Se para o outro o “Querer Viver” seria a causa primeira da Dor, para NIETZSCHE era o motivo do prazer.

E é um ideal que recebe importantíssimo apoio de todos aqueles que não querem dividir suas posses (Elites Social e Financeira, Clero, Estados, Nobreza etc.) e alardeiam até o convencimento, que a renúncia ascética é uma virtude que deve ser buscada pelos “puros”.

E os “puros” e aqueles realmente bem intencionados, não hesitam em seguir tal publicidade, pois nela também está embutida uma promessa que lhes é de suma importância: a esperança de que as suas mazelas serão recompensadas, as injustiças que sofreram serão corrigidas e que, no futuro, serão felizes.

Se no Presente o sufocamento dos desejos e das vontades os livra dos padecimentos das frustrações advindas pela não consecução dos objetivos, a esperança vindoura os inspira a suportar as injustiças, humilhações e penúrias que sofrem no dia a dia sem se rebelarem. Ajuda-os a se conformarem em viver segundo “A Moral do Escravo”.

Todavia, apesar do caráter hegemônico que a “Virtude da Renúncia” desfrutava em todos os segmentos da Sociedade Cristã, a partir do inicio do Iluminismo essa concepção começou a ser questionada. E nos séculos seguintes, o avanço do Racionalismo tornou tal questionamento cada vez mais agudo, pois já se duvidava com muito mais frequência de uma Moral e de uma Ética cuja base era uma lenda mitológica, ou seja, a Religião.

E esse movimento crítico, de crescimento regular e vigoroso, encontrou em NIETZSCHE sua expressão mais erudita. Juntamente com inúmeros outros Pensadores, ele Não podia permitir que Mitos e Fábulas fossem consideradas “Verdades Inquestionáveis”.

Desse modo, graças à crescente validação do Pensamento Lógico e Racional de Pensadores de seu quilate, em contraponto ao obscurantismo das Mitologias e Religiões, pôde se decretar que: Deus morreu!

NOTA do AUTOR – Observe-se que o Filósofo refere-se à morte das antigas normas, regras, leis e valores que se apoiavam nas fábulas e nos mitos divinos. Refere-se, pois, à morte do “Deus” inventado pelos Homens, pelas Religiões e que era, como ainda é, um instrumento usado para controlar com ameaças de “Castigo Eterno” aos insatisfeitos e contestadores e para dar esperanças de “recompensas além-túmulo” aos “escravos", conformados em obedecer aos ditames sociais; aos desvalidos, aos fracos, aos injustiçados etc. Morreu o “Deus” que fora construído pela carência humana em perpétua necessidade de ilusão como contraponto à crueza da vida. Morreu o “Deus” que não resistiu à lúcida coragem dos que não hesitaram em pensar com a Verdade da lógica racional.

O Homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-Homem. Uma corda sobre o abismo.
“Assim falou Zaratustra” o seu livro mais afamado.

A tese nietzschiana de que o Homem é “algo a ser superado” foi apresentada pelo Filósofo em sua obra mais afamada, Assim Falou Zaratustra, o qual foi escrito em três partes distintas durante os anos de 1883 e 1884 e mais um apêndice redigido em 885. 

Foi escrita rapidamente, sendo, por exemplo, que a conclusão da primeira parte não custou mais que alguns dias. E mesmo com essa ligeireza, o Filósofo obteve êxito ao conseguir expor sua teoria desafiadora com clareza e consistência.

E muito contribuiu para esse sucesso o recurso de romancear o texto filosófico. Ao se utilizar dessa prerrogativa, NIETZSCHE conseguiu dar um “rosto” ao que seria apenas abstrato e, por isso, de difícil compreensão.

NIETZSCHE a usou para lançar uma censura vigorosa contra o modo de pensar tradicional e, principalmente, contra as seguintes concepções:

1.     A noção que temos do Homem, ou da Natureza Humana.
2.     A ideia que fazemos de Deus.
3.     As ideias que concebemos acerca da Ética e da Moral.

Noutro livro, o Pensador já havia afirmado que se deveria “Filosofar com um martelo” numa clara alusão à necessidade de estilhaçar as antigas ideias filosóficas, especialmente em relação àquelas citadas acima.

E, com efeito, em Assim Falou Zaratustra ele foi contundente em suas criticas, as quais se revestiram de seu estilo impetuoso e febril para ganhar maior ressonância. Aliás, tal foi o rigor empregado que para muitos as suas afirmativas aproximavam-se mais de Profecias do que da Filosofia, propriamente dita.

Zaratustra inicia sua Pregação.

Zaratustra é um nome alternativo dado ao profeta Zoroastro. Nascido na Pérsia, atual Iraque, em c. 628 – 551 a. C. ele foi o fundador do Zoroastrismo que ainda hoje se constitui como sólida religião. A ideia central da mesma é a luta entre o BEM e o MAL, mas o “Zaratustra de NIETZSCHE” coloca-se para “além do BEM e do Mal”, posto que já ultrapassasse as concepções puramente arbitrárias do que significariam tais conceitos.

A escolha desse nome para a personagem não foi aleatória, ficando clara a ironia de NIETZSCHE, já que ele não concordava com a crença em que se despreza a relatividade do Bem e do Mal.

O relato se inicia contando que aos trinta anos, o Profeta se muda para o alto de uma montanha onde por uma década vive em completa solidão, até que em certa manhã acorda sentindo-se cansado pelo acúmulo de Sabedoria que o retiro lhe proporcionou. Decide, então, voltar ao convívio humano para compartilhar o seu Saber com a Humanidade.

No sopé da montanha encontra-se com um velho eremita e reconhece que já estiveram juntos há dez anos, quando de sua subida. O ermitão observa as mudanças que Zaratustra sofreu com o tempo e simbolicamente lhe diz que quando o viu subir ele só carregava “Cinzas (aludindo aos antigos conceitos) e que agora o vê portando “Fogo (em alusão à chama, à luz, à energia das novas concepções).

Na sequência, o velho lhe pergunta por que ele se dará ao trabalho de compartilhar com os demais a sapiência que arduamente conquistou? E não satisfeito, aconselha-o a ficar nas montanhas, já que os Homens não conseguirão (talvez nem desejem) entender a sua mensagem.

Ao lhe responder Zaratustra questiona a validade da vida que o eremita leva e ao saber que ele se limita a cantar, a rir, a chorar e a louvar a Deus põe-se a rir, pois seria inútil debater com o mesmo. E, enquanto avança, repete consigo mesmocomo é possível que esse eremita ainda não tenha sabido que Deus morreu?

A Morte de Deus e o descrédito do Público.

Essa afirmativa sobre “a morte de Deus”, como se pode imaginar, causou um enorme rebuliço entre a Intelectualidade e, mais ainda, entre o populacho insuflado pelo Clero.

Afinal, à época, a simples dúvida acerca da existência Divina era considerada não só uma blasfêmia, mais um verdadeiro crime. Até Filósofos Racionalistas do quilate de Descartes, por exemplo, não ousavam pensar que Deus inexistisse.

É claro que NIETZSCHE não era o único que negava a existência do “Ser Supremo”, ou melhor, do “Ser Supremo” tal como era apresentado pelas Religiões e pelas velhas concepções filosóficas. Muitos outros partilhavam dessa negação, mas foi NIETZSCHE quem assumiu o ônus de fazer tal declaração publicamente. E a rejeição que ele enfrentou foi pesadíssima, como, aliás, ainda hoje é. Por muito tempo o vocábulo em latim “niilismo”, por exemplo, que significa a descrença em tudo, foi associado com falta de caráter.

Mas não obstante a rejeição, ou talvez pela mesma, o fato é que sua teoria ganhou adeptos e se tornou a mais famosa do Pensador. A ela, claro, está visceralmente ligada a noção de que o Homem é “algo a ser superado”, com as indefectíveis alterações que isso causaria nos códigos Morais da Sociedade.

E tanto essa superação, quanto as alterações nos Valores Morais são os assuntos que ocupam as reflexões de Zaratustra enquanto ele prossegue seu caminho.

Ao chegar a uma cidade, tal ligação se torna mais explícita como se pode observar quando ele vê que uma multidão assiste à exibição de um acrobata que anda em uma corda bamba.

Juntando-se ao povo, o Profeta fala antes que o artista inicie seu espetáculo: “vejam, vou ensiná-los o que é o Super-Homem” na tentativa de lhes explicar a sua ideia de que o Homem é capaz de ir além, de se superar. Mas, como resposta, o público limita-se a rir de sua arenga imaginando que ele fizesse parte do show.

NOTA do AUTOR – a advertência do eremita aqui já começa a se concretizar. Observe-se a elegância do estilo de NIETZSCHE ao expor a dificuldade do populacho em se libertar dos protótipos de comportamento.

E fazer parte de um show, ser um superficial “showman não era uma preocupação apenas da personagem, pois NIETZSCHE deixa claro sua apreensão sobre a forma como seu livro será recebido, pois teme ser visto como alguém raso, sem erudição e sem conteúdo.

Subvertendo Antigos Valores

NIETZSCHE acreditava que algumas ideias tornaram-se visceralmente ligadas, como, por exemplo, a de “Deus e Humanidade” entre outras.

NOTA do AUTOR – um claro exemplo dessa associação pode ser visto naquilo que NIETZSCHE expressou como “Humano, demasiado humano”.

Segundo o Filósofo o Homem cria alguns Valores e algumas afirmativas, como o de que “Somos todos irmãos”, “Deus é Pai”, a Abnegação, a Bondade etc. e com o correr do tempo esquece-se que os criou. Uma vez que a origem foi esquecida, tais Valores passam a ser creditados a Deus, como se Ele os tivesse estabelecido; porém, os mesmos são apenas criações “humanas, demasiadamente humanas”.

Destarte, quando afirmou através de sua personagem, Zaratustra, que “Deus Morreu!” ele não atacou apenas a Religião, mas também ao conjunto de Valores que julgamos mais “Sublimes”, tais como, os que citamos acima.

“morte de Deus” não seria apenas o falecimento de uma divindade, mas o fim de todos os “Valores Sublimes” que herdamos.

E essa censura, esse ataque, atendeu a um dos objetivos centrais da Filosofia nietzschiana que é o de reavaliar os Padrões e Valores. Reavaliar a importância efetiva de cada um, questionando todas as maneiras habituais de Pensar sobre a Ética, sobre a Moral e sobre o Sentido, ou o Significado prático da própria vida.

Ao fazer tal proposta, o Filósofo insistia que estava inaugurando uma “Filosofia da Alegria”, que visava justamente afirmar e confirmar a grandeza da vida presente. Da vida que se vive aqui e agora.

Para ele, muitas das coisas que julgamos “boas”, na verdade, são apenas maneiras de limitar o acesso das pessoas aos prazeres do Mundo físico. Criar regras para disciplinar à vida sexual é um claro exemplo disso. Evitar extravasar-se em público porque não seria de bom-tom é outro, ou, então, sujeitar-se a empregos tediosos apenas porque se julga que “é um dever”.

A proposta de NIETZSCHE é justamente a de se confrontar essas “Filosofias que negam a vida” e que em contrapartida ofertam a esperança de sermos reconhecidos no “outro Mundo”, ou como “mártir abnegado neste mesmo”.

Blasfemando contra a Vida

NIETZSCHE recorre ao vocabulário religioso para dele pinçar o termo “blasfêmia” que normalmente é usado contra aqueles que rejeitam os cânones litúrgicos.

Vocábulo que com ele, claro, ganha outro significado; e com esse sentido oposto, blasfemo passa a ser a denominação de todos que “negam a Vida”, ie, que negam os desejos, as vontades que o Homem naturalmente possui e que sufoca por pressão das normas e regras ditadas por terceiros.Pelas convenções e tratativas estipuladas por outros, que assim o controlam com a “ameaça do Castigo Eterno” ou com a “recompensa além-túmulo”.

Por isso, vemos que depois de proclamar a vinda do Super-Homem, Zaratustra passa a condenar a Religião, especialmente o Cristianismo.

NOTA do AUTOR – o decantado Super-Homem seria alguém dotado de enorme poder e independência mental e corporal. Capaz de se libertar das amarras criadas pelas fábulas Divinas, Celestes e de ter a coragem de celebrar a Vida, fazendo-a conforme os seus desejos. NIETZSCHE nega que tal personagem tenha existido, mas citou Sócrates, Napoleão Bonaparte, Shakespeare como modelos.

Segundo ele, no Passado, a “maior blasfêmia” era contra Deus, mas doravante seria contra a Vida. 

Este, aliás, Zaratustra reconhece, foi o seu maior erro. Não deveria ter-se isolado na Montanha para oferecer intermináveis preces a um Deus que não existe. Ali, ele, Zaratustra, pecou contra a Vida.

O Mundo Real

No Ensaio “Como o Mundo Verdadeiro se tornou finalmente fábula”, publicado no livro “O Crepúsculo dos Deuses”, NIETZSCHE faz nova alusão à “morte de Deus”.

Neste Ensaio, cujo subtítulo é “A História de um Erro”, ele faz um resumo da História da Filosofia Ocidental e aponta a fábula Celeste e Divina – iniciada por uma leitura errada de Platão – como a causadora da perda de nossa noção sobre a grandeza do Mundo Real (ou físico, concreto, material).

Como se sabe, Platão dividia o Mundo (aqui entendido em seu sentido amplo e não apenas como o Planeta Terra) em “Aparente” que é o Mundo físico, concreto, que nós captamos através dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato); e o Mundo Real ao qual só temos acesso parcial através do Intelecto, das reflexões, do pensamento.

“Mundo das Aparências” não é Real, Verdadeiro, porque está sujeito a constantes transformações e a ter um fim. O “Mundo Real”, ao contrário, é Eterno, Infindável, Imutável.

Essa conclusão, o sábio grego extraiu de suas observações sobre a Matemática. Mais precisamente de seus estudos sobre a Geometria, onde ele observou, por exemplo, que a forma, ou o formato de um Triângulo é sempre igual. Ele é, sempre foi e sempre será idêntico.

Perpetuamente inalterável, independentemente de seu tamanho, do material de que foi feito, do fato de ser bi dimensional (desenhado, apenas) ou tri dimensional (esculpido), de sua utilidade, de sua cor etc.

Através de nossa capacidade mental sabemos que ele é composto por três lados, que a soma de seus ângulos será sempre 180º etc. mesmo que ele não esteja sendo observado ou captado por alguém.

“Ideia Triângulo” existe independentemente de ser captada, ou não.

Essa tese de Platão tornou-se universalmente aceita e o conceito permeou a Filosofia por milênios, ganhando inclusive outros nomes, como “a coisa em si” ou o “númeno” de Kant, ou a “Essência”, ou a “Substância” etc.

E mesmo a célebre divergência havida entre ele e o seu discípulo Aristóteles não passou de uma querela acerca da “localização” desse “Mundo das Ideias”.

Para o Mestre, essas “Ideias, ou Modelos, ou Paradigmas, ou Padrões etc.” estavam em um “espaço imaterial, metafísico”, enquanto que para o aluno, a “Ideia” estaria na própria Coisa, ou Ser a quem anima, dá vida. Como se fosse a sua “alma, ou espírito”.

Através dos Sentidos (tato, visão, audição, paladar e olfato) nós captamos “As coisas triangulares”, ou seja, os objetos que tem naturalmente a forma triangular, ou que são fabricados com esse formato (a pirâmide, a flâmula etc.).

Essas “coisas triangulares”, além de suas utilidades práticas, também são úteis para que nós possamos ter um vislumbre – mesmo que opaco – da “Ideia Triângulo”.

Afinal, por uma característica de nossa capacidade mental, nós necessitamos de um ponto inicial, de uma base, para entendermos qualquer coisa abstrata, imaterial.

Destarte, se quisermos conhecer, por exemplo, a “Bondade” nós precisaremos formar na Mente um esboço dessa substância. Mas como não conseguimos formar qualquer ideia a partir do nada, recorremos aos “atos, ou ações de bondade” para termos uma noção – mesmo que desfocada – daquela essência.

É claro que tais visões não são perfeitas e tampouco nos mostram o “Mundo Verdadeiro”.

E justamente por reconhecer que a visão que podemos ter do “Mundo Real” é limitada, que o próprio Platão já alertava para sua limitação, esclarecendo que sua proposta foi a de explicar o surgimento das Coisas, dos Seres e o porquê de haver entre os indivíduos da mesma classe, ou categoria, uma característica comum, malgrado as diferenças individuais, pessoais.

E que nunca teve a intenção que a sua magistral concepção fosse aviltada e apequenada a ponto de servir de fundamento para uma crença mitológica.

Mas os Homens assim o fizeram, tanto por falta de escrúpulos, quanto por falta de erudição, de conhecimento. E a grandeza do Platonismo acabou servindo como base para a ideologia de uma seita que, lembremos, surgiu após dois milênios da vida do Mestre helênico.

NOTA do AUTOR – para expor essa teoria, Platão escreveu uma fábula “O Mito da Caverna” que é, seguramente, o melhor texto filosófico já produzido e uma das mais belas páginas da Literatura Universal. Aos interessados recomendo a obra de minha autoria “Filosofia Sem Mistérios – Dicionário Sintético”- Ed. Seven System – Biblioteca 24x7. Acesse-o em: www.fabiorenatovillela.blogspot.com 

Contudo, nem só de falcatruas foi o uso dado ao Ideário Platônico, pois sua teoria serviu para o desenvolvimento de muitas teses filosóficas sérias, inclusive por ser contestada em algumas.

NIETZSCHE não se enquadra entre esses Filósofos que a contestaram enquanto Filosofia. Sua rejeição focava o mau uso que dela foi feito. Sua luta foi contra o Cristianismo, em suas diversas correntes.

E sua batalha ganhou destaque graças ao furor de sua pena que expôs magistralmente seus argumentos apropriados, profundos e contundentes.

Ao contrário de muitos, ele não tentou se acomodar ao “status quo”, não se submeteu a uma “aliança com o Cristianismo”.

Ele o rejeitou com sincera e inédita transparência e isso lhe custou ácidas criticas em seu tempo e quase que um anátema entre o populacho dos tempos de hoje, que não hesitam em lhe associar com “as artes diabólicas”.

Mas é claro que para indivíduos de seu quilate, criticas desse teor são insignificantes e ele prosseguiu com sua afirmativa de que se elevar o “Mundo Real” ao patamar de Suprassumo, enquanto se rebaixa o “Mundo Físico, Concreto” a um “vale de lágrimas” é um desserviço que se presta ao Homem, fazendo com que ele creia em Valores errados, como o da resignação covarde, da submissão medrosa, do ascetismo sem sentido, da tola ilusão em miragens e quimeras etc.

Valores Cristãos

Quando NIETZSCHE dividiu o Mundo entre “Real” e “Aparente” usou para tanto a apropriação equivocada que o Cristianismo fizera do Platonismo. Por isso, para ele, os Valores Cristãos eram equivocados.

Em lugar do “Mundo Real das Formas”, de Platão, os cristãos criaram um “Mundo Real Alternativo”. Um “Paraíso, um Céu”, que se promete aos que praticam os atos, ou as ações, considerados arbitrariamente como virtuosos.

Restando ao “Mundo presente, físico, concreto” o papel secundário de ser uma "escada"  que os "Virtuosos" subiriam se houvessem obedecido aos Valores Cristãos.

Ao invés da inacessibilidade do “Mundo Real” de Platão, o “Paraíso Celeste” seria alcançável, mas apenas após a morte e desde que o indivíduo seguisse as regras cristãs.

NOTA do AUTOR – e como defender o acerto e a correção dessas regras e desses valores? O quê dizer, por exemplo, da absolvição dada aos exploradores europeus pelos genocídios e pela escravidão a que sujeitavam os nativos colonizados, desde que os mesmos fossem executados e/ou escravizados em sincronia com a “pregação do Sagrado Evangelho”?

Tal qual o “Direito Divino” que legitimava alguns indivíduos como Governantes de povos e de nações, as tais “Regras Cristãs” eram consideradas de autoria do próprio Deus (quer através das “Tábuas de Lei” que Moises teria recebido no Monte Sinai, quer por intermédio de outras revelações que variados “Profetas” ou “Santos” teriam recebidos) e, portanto, inquestionáveis (sic).

É claro que tal justificativa só é aceitável aos humildes de inteligência ou indolentes de alma, pois qualquer raciocínio mediano a classifica como absolutamente ridícula.

Contudo, esse comportamento ridículo foi generalizado e ainda hoje permeia grande parte da ideologia social. Pensadores como NIETZSCHE insistem no bom combate para exterminá-lo, mas é uma ideia tão introjetada que os resultados são muito menores que os desejados.

E essa condição de "simples degrau, ou escada" corrobora o desprezo que os cristãos dedicam às Coisas, aos Seres, aos Fatos físicos, mundanos e reafirma o apelo para reneguemos a Vida (ie, os desejos, as inclinações naturais do Homem) em favor das Promessas que se “realizarão” no além-túmulo.

A noção de que tudo que é valoroso é inalcançável neste Mundo, nesta Vida, faz com que reneguemos intimamente, ou explicitamente, todas as conquistas mundanas que obtemos. Inclusive aquelas que demandaram esforço ético e valido para acontecerem e que por isso deveriam, sim, serem apropriadamente valorizadas.

O resultado desse modo de pensar é a consideração de que devemos renegar e/ou desdenhar as nossas próprias ideias, vontades, habilidades, capacidades etc. E que devemos nos afastar e, se possível, transcender, ultrapassar, a vida que vivemos.

Porém, ao pensarmos e agirmos dessa maneira passamos a viver em função de uma simples quimera, de uma mera ilusão. Em função de um mito que criou um “Mundo Real”, que, na verdade, é imaginário, ilusório.

Em razão de todas essas colocações, NIETZSCHE chama os Padres, Pastores, Ministros e outros religiosos – especialmente os cristãos – de “Pregadores da Morte”, porque os seus ensinamentos nos induzem a abandonar a Vida (não necessariamente cometendo suicídio, mas abandonando as Coisas da vida que, ao cabo, são as nossas características mais básicas) ao fazerem “publicidade das recompensas” no Além.

Assim, ao invés de saborearmos os prazeres que o Mundo pode nos oferecer em repetidas ocasiões (em um Eterno Retorno , pois segundo o Filósofo “o que acontece uma vez, acontece mil vezes”, como num lauto banquete em que os acepipes se sucedem) deixamos de fazer o que seria necessário para desfrutarmos dos mesmos e optamos pela inércia e pela espera dos “Prazeres Celestes” que o Futuro nos reservaria.

Ao invés de construirmos a Felicidade, optamos por deixar “a vida passar”, na esperança de que ela nos aguarda no Futuro se formos passivos e obedientes. Se negarmos a nossa Vontade de Potência, ie, a nossa Vontade, o nosso desejo de exercer o poder, ou o potencial que temos.

Um Mundo Além do Alcance

Não é raro que se pergunte o porquê NIETZSCHE insistia com sua tese provocativa de que “Deus Morreu”, quando sabia o potencial de irritabilidade que ela continha.

A resposta, talvez, seja essa última parte. Era, sim, o seu desejo, causar tal celeuma para que o abalo balançasse a estrutura vetusta em que o Pensamento estava acomodado, mesmo que isso lhe causasse sérios prejuízos.

Antes de considerarmos tal desejo um gesto heroico, será mais prudente olharmos apenas como um gesto de quem é coerente com suas convicções.

E para que possamos entender melhor tais convicções será oportuno recuarmos no tempo e estudar a Filosofia de Kant (Immanuel, 1724 – 1804), cujas ideias são fundamentais para se compreender a teoria de Friedrich.

Como é sabido, os estudos kantianos focavam a questão relativa aos limites possíveis para o Conhecimento humano.

Em sua obra mais célebre “A Critica da Razão Pura” ele argumenta que não conseguimos conhecer, captar, apreender “o Mundo como ele é em si”. Só conseguimos captar “o seu corpo físico, material”, mas não “a sua alma, sua essência”.

Nós Não podemos alcançá-lo nem mesmo através do Intelecto, da inteligência, do raciocínio, ao contrário do que Platão acreditava. Tampouco podemos atingi-lo através de ações virtuosas ou pela Graça divina como os Religiosos prometem.

Para Kant, Mundo Real existe efetivamente, mas está absoluta e definitivamente além do nosso alcance.

NOTA do AUTOR – os argumentos de Kant para chegar a essas conclusões são complexos e não serão discutidos aqui. Aos interessados recomendo a obra de minha autoria “Filosofia Sem Mistérios – Dicionário Sintético”- Ed. Seven System – Biblioteca 24x7. Acesse-o em: www.fabiorenatovillela.blogspot.com

NIETZSCHE utilizou-se, pois, da tese kantiana para concluir que se o “Mundo Real” é de fato absolutamente inatingível em Vida e Após da Morte, ele não passaria, em verdade, de “uma concepção inútil”. De uma “ideia supérflua”.

Logo, é uma noção que deve ser descartada. Pode-se dizer que se “Deus está morto”, NIETZSCHE topou com o cadáver.

NOTA do AUTOR – é oportuno notar que “no cadáver divino” estariam as impressões digitais de Kant, o verdadeiro autor do deicídio. Afinal, tê-lo recoberto com a manta da completa inacessibilidade foi equivalente a suprimi-lo da vida do Homem.

O Erro mais Duradouro

Para NIETZSCHE o equivoco mais persistente em todo Pensamento Humano – tanto filosófico, quanto religioso – é a separação que se pretende entre o “Mundo Real” e o “Mundo Aparente”.

Para ele, se renunciarmos à ideia de “Mundo Real”, o quê sobrará? O “Mundo Aparente”? Não! Nem este restaria.

No texto de sua autoria “Como o Mundo Verdadeiro se tornou finalmente fábula” ele avançou na questão e propôs que em tal renúncia se iniciaria o fim deste “erro estúpido”.

Ao enxergarmos a desnecessidade, talvez a incoerência de insistir na separação de “Essência ou Realidade” e “Aparência”, certamente atingiríamos o zênite do Pensar Humano. Atingiríamos, pois, o ponto mais alto da Filosofia.

Esse é, portanto, um ponto-chave para NIETZSCHE, pois, segundo ele, quando compreendermos que existe apenas um Mundo nós corrigiremos o erro de transferir os nossos melhores valores e atributos para um Além imaginário.

Após termos compreendido que só há um Mundo, seremos forçados a rever nossos valores e até o significado do que seja Ser um Homem, um Ser Humano.

Então, se o próprio significado do que é SER Humano pode ser modificado, fica claro o quanto é possível que o Homem possa ser superado; ou melhor, o quanto ele pode se superar. O quanto é possível que exista o Super-Homem.

E esse Super-Homem, na visão de NIETZSCHE é um novo modo de ser, de existir, cuja característica fundamental á a “Afirmação da Vida”; ie, o individuo que se utiliza de seu poder pessoal, de suas habilidades, capacidades e possibilidades para fazer a vida atender aos seus interesses e satisfazer os seus desejos e vontades.

É, ao cabo, o sujeito que consegue dar um Sentido à sua existência. O “Sentido da Terra.

NOTA do AUTOR – ao leitor (a) não passou despercebido que o Monismo pregado por NIETZSCHE não lhe é original. Desde os Pré-Socráticos que se discute a Pluralidade versus a Unicidade, mas ele soube com maestria beber na fonte de Kant e na de Hegel para compor a sua teoria. Kant, ao propor a inacessibilidade absoluta ao Mundo das Essências deu-lhe o aval necessário para que ele decretasse a inutilidade do mesmo para a vida humana. Enquanto que de Hegel ele aproveitou o Movimento Dialético (tese – antítese = síntese) para explicar o movimento de ascensão que pode levar o simples humano ao estágio de Super-Homem.

NOTA do AUTOR – quando se fala em “desejos”, “Vontades” do Homem nietzschiano não se quer dizer de “desejos ou vontades” vulgares, inferiores. Embora não se possam excluir totalmente as mesmas, deve-se pensar que, também, podem ser as de cunho superior, éticas, pois ambas fazem parte da vida e, ademais, classificar umas e outras como superiores ou inferiores não deixa de ser um mero exercício de conceituação calcado em ideias oriundas da Religião e das antigas concepções sociais. Um atentado contra o relativismo ocasionado pelas condições que presidem as vidas individuais e das próprias sociedades.

Criando a Nós Mesmos

NIETZSCHE não alcançou em vida sucesso com o público. E mesmo entre a Intelectualidade a dureza de seu Pensamento radical causou mais desconforto que aceitação.

Essa rejeição, inclusive, levou-o a ter que arcar com as despesas de publicação de seus livros, pois não encontrou Editores que o bancassem.

Porém, após a sua morte a admiração foi acontecendo progressiva e continuamente até que na década de 1930 o seu conceito de “Super-Homem” acabou sendo encampado pelos Nazistas que passaram a lhe citar em sua retórica oficial, por ordem do próprio Hitler que se lhe tornara um leitor fiel.

Seu Ideário, particularmente no trecho em que apela pela erradicação da Moral Judaico-Cristã que dominava a Europa, soava-lhes como se fosse uma legitimação do Sistema nazifascista.

É claro que essa legitimização decorreu apenas da má compreensão – por falta de escrúpulos, ou de bom entendimento – das ideias nietzschianas, haja vista que a proposta original do Pensador era justamente o contrário. Era em favor de se resgatar, ou de se retornar, aos valores mais rústicos, físicos, estimulantes que haviam vigorado na Europa pré- cristã.

Segundo a maioria dos estudiosos, Hitler manipulou os textos e os Pensamentos de NIETZSCHE para que parecessem advogar o uso indiscriminado da violência generalizada, da discriminação, da eugenia, enquanto glorificavam a “Superioridade Ariana”.

É consenso, aliás, entre esses mesmos estudiosos que o próprio NIETZSCHE teria ficado horrorizado com essa distorção, até porque a sua Filosofia censurava vigorosamente aqueles Valores que os totalitaristas defendiam: o Patriotismoo Nacionalismo exacerbadoa Segregaçãoa Religiosidade torta, a expansão colonial e outras tantas teses que eram caras aos “donos do Poder”.

NIETZSCHE, na realidade, foi um dos poucos Pensadores que desafiou tais Conceitos e Ideologias e, por ironia da História, foi um dos mais usados para dar credibilidade a tais absurdos.

Justo ele, que em um trecho de “Assim Falou Zaratustra” deixou de forma claríssima a sua opinião contrária ao Nacionalismo, quando o taxou de uma “forma de alienação e fracasso”. Justo ele que havia alertado que “apenas onde o Estado termina, começa o Ser Humano que Não é supérfluo”.

Contudo, apesar de todas as evidências de sua rejeição a qualquer forma de Totalitarismo e de intolerância de cunho étnico ou social, ainda hoje essa nódoa persiste em sua memória e não é incomum que lhe sejam assacadas injúrias por conta dessa suposta associação; que, se houve, foi totalmente à sua revelia e sem o seu conhecimento, pois, a aproximação de seu Pensamento com a manipulação nazista aconteceu graças à sua irmã, Elisabeth (ela sim uma antissemita convicta) que se aproveitou de sua posição de guardiã da obra nietzschiana, após o Filósofo ter adoecido, para repassá-la ao Regime.

Todavia, nem essa mancha foi capaz de ofuscar totalmente o brilho de sua Filosofia. A sua noção sobre a ilimitada possibilidade do Homem foi importante para a constituição de vários Sistemas Filosóficos que vicejaram depois da 2ª Guerra e as suas Ideias acerca da Religião* e sobre a importância da autoavaliaçao foram decisivas nos Pensares de vários Filósofos Existencialistas, como, por exemplo, SARTRE, que, aliás, parafraseou o “Super-Homem” ao afirmar que “cada um de nós deve definir o significado da própria existência”.

NOTA do AUTOR – acerca da Religião é interessante observar um fenômeno dos nossos dias. As religiões evangélicas, principalmente através dos “Tele-Pastores”, aproximaram-se muito das Ideias do Filósofo ao proporem que se “exija de Deus” benefícios e alegrias materiais para agora, para esta vida e não mais, como no antigo Catolicismo, para a “Vida no além”. Há quase um consenso entre eles que os Fiéis devem buscar a realização material e a satisfação dos desejos no momento atual e rejeitarem a espera por recompensas celestes. É claro que tais desejos e vontades passam pelos filtros das Moralidades que pregam, mas os mesmos não são essencialmente diferentes daqueles que NIETZSCHE pregava. Ironicamente a Religião se apoiou em um de seus mais ardorosos críticos para consolidar seu crescimento.

Mas não só a Filosofia se beneficiou de suas Ideias, pois outros campos da Cultura herdaram suas visões criticas contra as tradições equivocadas do Ocidente e, com isso, puderam ousar novas Estéticas e novas Linguagens.

Assim, por tudo, NIETZSCHE se tornou uma estrela de primeira grandeza na constelação do Saber Humano e compreender as suas teses é vislumbrar um Futuro mais livre, justo, criativo e, talvez, mais feliz para o Homem.

São Paulo, 17 de agosto de 2012.



Digitado por Taisinha em Porto Alegre.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

No Sul


Tua presença se aproxima,
suave como a brisa
que refresca a noite no Sul.
Percorrestes a madrugada
e sacias agora a saudade
que se deitou atrevida
na cama semi vaga.
Sinto teu brilho
no sorriso que te imagino
e ouço o riso de maresia
que canta em tua voz.
Um céu inteiro nos separa
e, no entanto, aqui te sei.
Aperto tua mão
e aconchego tua alma
em meu corpo,
enquanto sinto que a calma
do amor havido
afasta a tristeza
que por pouco chegava.


     

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Na Bienal


O homem de meia-idade
segura a mão da mulher
cuja beleza, idade não tem.
Passa entre os dez dedos
um cúmplice amor
que se adivinha renovado
na maturidade que lhe prolonga
a juventude dos desejos.

Invejo-lhes o amor seguro.
A calma de se saber querido.
E a plena certeza de querer,
expressa na carícia que não se nega.
Invejo-lhes o amor estável, amigo,
sem pressa.

Juntos, passeiam livros,
escolhem palavras
e riem versos.

Logo seguirão para o restaurante,
onde eu jantarei o bife sozinho
dessas noites na grande cidade vazia.
Amanhã estarão juntos
e seguirão caminhos iguais.

Eu voltarei para a multidão
e tentarei fazer um poema
para o homem e para a mulher
do maduro amor de meia-idade.
Talvez eu consiga cantar
esse homem e essa mulher
que fomos nós.

Digitado por Taisinha.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Face

Vejo em meu rosto
os caminhos que já percorri
e as estações em que desci.
Vejo um sudário
do que vivi.

Caminho comprido
de cinquenta mais seis.
Décadas sem becas,
mas de algum saber.
Talvez tão inútil
quanto esse ainda querer.

Revejo em minha face
os mares que naveguei,
os montes que atravessei
e os outros tantos caminhos
que só eu sei.

Ali, naquele sulco,
hoje estéril,
vicejou um grande amor.
Acolá, sob as sombras,
escondem-se algumas perdas.
São as máscaras
que a vida me vestiu.

Mas, no entanto,
essa água que purifica minha cara
e lava a minha alma,
rega o que eu semeei
e será essa nova messe
que haverá de me levar
por outras veredas.

Sinto que de novo
o verde se espalha
e que uma nova
promessa me fala,
na intimidade da antiga sala.


Dig. Taisinha

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

São Petersburgo da Soprano

É fria a alma que olha o vazio.
Seus campos foram queimados
e seus seios estão secos.
A fúria que um homem canta
não lhe toca.
Acabaram-se-lhes as revoltas.

E no entanto, o busto liberto
da Soprano que segue ao Tenor,
devolve-lhe a ânsia alucinada.

A vida insiste em levá-la consigo
e ainda que seja um traço apenas,
o sorriso que lhe brota
murmura que o sobrevoo
de Lux resiste às trevas

e que o Sol a reverberar
nos rios congelados
em breve iluminará
a noite dos desesperançados.

       Homenagem pouca à Soprano Renée Fleming.

Digitado por Taisinha.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Princesa do Mundo

Nas forjas do Olimpo,
Hades funde a prata
da Lua imensa.
E a luz que se faz azul
sonha macio o seio
da mulher amada.
Mitológicos desejos
dão-me cem mãos
e com elas acaricio
os centímanos desejos.
Os ventos de Eolo
encrespam o Egeu,
mas alisam as melenas
da Moça do mar,
enquanto o fresco regato
refrigera os hinos das vestais
em honra à Ártemis.
Foram abatidos os inimigos
que se ouvia nos gregos labirintos
e se sabe que os deuses
do eterno Elêusis
vaticinam a paz que repousa
nos olhos da Princesa amada.
É suave no Mundo,
a noite do Tempos.

         

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Jean Paul SARTRE - Filósofos Modernos e Contemporâneos


SARTRE, Jean Paul e o Existencialismo (recorte), a Náusea (resenha).
1905 – 1980
A Existência precede a Essência.
 O Homem Inautêntico. O Homem Contingente.
“Quando olhei para a bandeira da França, eu vi apenas um pedaço de pano” – Paul Nizan.

Se fosse pedido um rosto para a Filosofia na atualidade, esse semblante seria o de SARTRE. Com efeito, cabe ao francês a missão e o privilégio de representar o “Pensamento Superior”, que desde a aurora da humanidade proporciona ao Homem a oportunidade de fugir da mediocridade cotidiana e ter acesso às questões mais profundas sobre o Mundo, sobre a vida e, principalmente, sobre ele próprio.

Pensador formado nos terríveis anos que precederam, viram realizar-se e sucederam os horrores da 2ª Guerra Mundial, SARTRE trouxe para sua escrita toda a angústia, toda a incerteza que permearam a insanidade de um Mundo que não hesitou em matar-se cruelmente, torturar-se barbaramente e enterrar seus melhores anseios e suas melhores realizações artísticas, culturais e humanas em um conflito que representou à perfeição toda a bestialidade do “Ser” que mata sem motivo, talvez por existir sem motivo.

Tempos em que a falta de razão para existir e de um propósito para sobreviver, saltaram das Teorias para a crua Realidade. Tempos em que o “Existencialismo” ganhou corpo, solidez e popularidade.

Afinal, era preciso estudar a “alma”, a “essência” da “falta de essência”. Era preciso estudar o “Ser sem alma, sem essência” que vive por acaso e que, intuindo que a sua morte lhe é o fim definitivo, vive para o “Nada”.

Era preciso estudar o Homem. E, como poucos, SARTRE o fez.

Nascido em Paris, tornou-se órfão de pai já aos quinze meses de vida. Foi criado pela mãe e pelo avô e desde a tenra infância mostrou-se um aluno brilhante.

Com relativa facilidade ingressou na prestigiada École Normale Supériure e ali conheceu Simone de Beauvoir (a quem chamava de Castor) que foi sua companheira por toda vida.

Filósofo e romancista como ele foi Simone a sua base mais sólida e o esteio que lhe permitiu galgar ao posto de “o mais célebre Filósofo do Existencialismo” e um dos raríssimos Pensadores que teve a capacidade de levar a Filosofia ao encontro do público leigo.

Após a graduação, SARTRE trabalhou como Professor e foi nomeado para a cátedra de Filosofia da Universidade de Le Havre, em 1931.

Durante a Guerra, serviu no Exército e foi feito prisioneiro por um curto período. Após readquirir a liberdade, em 1941, ingressou no Movimento de Resistência (que usando táticas de Guerrilha combatia os invasores alemães) e ali combateu até 1945 quando houve a vitória definitiva dos Aliados.

Após o conflito, sua escrita se tornou progressivamente mais politizada e para fazer frente à sua caudalosa produção, bem como a de seus seguidores e amigos, fundou a Revista Político-Literária “Les Temps Moderns”.

Além do trabalho que ali desenvolvia, SARTRE escreveu vários livros, dentre os quais, citamos na sequência aqueles que são consideras “Obras-Chave”. E foram os livros que lhe renderam, além de outros inúmeros admiradores, o Prêmio Nobel de Literatura, de 1964, que ele recusou por discordar do caráter “mercantilista e burguês” do mesmo.

Contudo, apesar de sua recusa, várias outras homenagens sempre lhe foram dedicadas até que em 1980 mais de cinquenta mil pessoas acompanharam seu enterro, em derradeira consagração.

Obras-Chave
  1. *A Náusea, de 1938.
  2. O Ser e o Nada, de 1943.
  3. O Existencialismo é um Humanismo, de 1945.
  4. Critica da Razão Dialética, de 1960.
*NOTA do AUTORa titulo de complementação, acrescentamos no final do presente Ensaio um Recorte sobre o Existencialismo, que apesar de sua brevidade, apresenta ao (a) leitor (a) os pontos essenciais da doutrina.

*NOTA do AUTOR – devido à importância de “A Náusea” no contexto de seu Ideário e pela sua capacidade de demonstrar quase integralmente o Pensamento do Filósofo, faremos brevíssima resenha da obra no final desse Ensaio.

Desde a Antiguidade que a questão sobre o que “É” ser um Homem – um Ser Humano – e sobre as diferenças que temos em relação aos outros Seres, ocupa a Mente dos principais Filósofos.

Quando se reflete sobre a questão, supõe-se, geralmente, que exista uma “Natureza Humana”, ou uma “Essência” que define a condição de ser, de existir, como Humano.

O passo seguinte é pensar que essa “Essência” ou “Natureza (ie, a forma de ser que é típica dos Seres Humanos)” seja imutável, fixa e idêntica para todos os Homens em todas as épocas e em todos os lugares, independentemente das condições em que vivem e da Cultura que os rege. Todos possuiriam as mesmas características fundamentais e se guiariam pelos mesmos valores básicos.

NOTA do AUTOR – por analogia, seria algo como a “Ideia” de Platão que serve como modelo para a “fabricação” dos indivíduos. As diferenças entre os indivíduos (os magros, os gordos, os baixos, os altos, os negros, os asiáticos etc.), ou entre os Grupos Sociais que formam, seriam superficiais e ocasionadas apenas e principalmente pelas condições climáticas (africanos, por exemplo, tem a pele negra porque a abundância de Sol em sua Terra dispensa seus corpos de ofereceram áreas brancas que facilitam a absorção dos raios solares. Os europeus tem a pele branca pelo motivo inverso etc.).
E são essas imposições do clima, que além dos aspectos corporais, moldam também seus hábitos, suas necessidades (europeus necessitam de casa aquecidas e brasileiros de casas refrigeradas), suas vontades, suas habilidades artísticas, industriais, artesanais etc. Moldam, enfim, a sua Cultura.

Essa visão, que foi fortemente influenciada pela Teologia e pela Mitologia (através de Mitos como o da “Geração ou Criação Divina”, do “Pai Divino” e de todos os “Homens serem Irmãos”) vigorou por milênios, até que um grupo de Pensadores sistematizou as dúvidas e oposições que já existiam desde o principio da Filosofia.

SARTRE, seguindo o eco de seus antecessores, negou categoricamente a presença, ou a existência, de tal “Essência Humana”. Didaticamente ofereceu o seguinte exemplo sobre a problemática:

Imaginemos um abridor de cartas. Essa lâmina nasceu das mãos de um artesão que em algum momento teve a ideia de criar a ferramenta e o claro entendimento sobre a finalidade do objeto, pois seria inconcebível um “abridor de carta” existir sem que o seu fabricante soubesse qual seria a sua finalidade. Portanto, a Essência do Abridor veio antes de sua Existência.

É claro que os Humanos não são tão simples quanto um “abridor de cartas”, mas para SARTRE isso não altera o fato de que NÃO HÁ um plano determinado para o que os Homens são, porque Não existe nenhum “Artesão”, um Deus demiurgo, que os tenha planejado e fabricado.

NOTA do AUTOR – Essa condição, aliás, pode ser comprovada pela própria liberdade de ação que cada indivíduo usufrui, exceto, é óbvio, pelas limitações da Natureza e pelas imposições sociais.
Mas nem essas imposições e/ou limitações são suficientes para obrigar um indivíduo a ser Padeiro, por exemplo, se a sua vocação ou vontade o levar para o trabalho com eletricidade.

Nem mesmo os Sistemas Totalitários, ou o antigo Sistema Hindu de Castas conseguiu que esse direcionamento fosse voluntário, tampouco completamente acatado.

NÃO HOUVE um plano para que fulano tivesse a “finalidade padeiro”. E mesmo que alguns argumentem que as vocações, as habilidades, são amostras do “Plano Divino”, percebe-se que isso é uma falácia, pois o que dirige o sujeito para esta ou aquela área são as condições da sociedade em que vive, exceto as exceções de praxe.
No atual estágio que o Brasil atravessa, por exemplo, onde o acesso à Universidade foi relativamente facilitado, isso fica bem claro.

Dessa sorte, o “hipotético padeiro por desígnio divino” aproveita a condição favorável para estudar e buscar uma profissão que lhe dê maiores recompensas. Contrariou a “finalidade a que teria sido destinado (sic)” e foi buscar sua realização onde presume encontrá-la.

Assim, inexiste a dita “Finalidade ou Essência Humana”, ao contrário, pois, de um “abridor de cartas”.

Definir a Nós Mesmos.

Nota-se no parágrafo anterior o quão explicita é a conexão entre a concepção de que “A Existência precede a Essência” e o Ateísmo dos Existencialistas em geral e de SARTRE em particular.

E, com efeito, grande parte dos esforços de SARTRE foi canalizada para demonstrar que as abordagens Religiosas sobre o Homem funcionam apenas através da analogia com os trabalhos artesanais que o próprio Homem realiza: o que é o Ser Humano, ie a “Natureza Humana” seria análoga, pois, ao “abridor de cartas” na Mente de Deus (Sic).

SARTRE também considerava que muitas teorias Não Religiosas ainda conservam as suas raízes no modo de Pensar Religioso, o que as invalida justamente por não terem base lógica e racional.

Assim, o Filósofo defendeu a posição que julgava mais consistente com o seu Ateísmo. Afinal, já que Não Existe Deus, não seria possível que Ele tivesse dado um “objetivo, uma finalidade, uma Essência” a qualquer coisa. Inclusive ao Ser Humano.  Que Ele estabelecesse uma “Natureza Humana”.

Até esse ponto é importante observar a associação direta que SARTRE, a exemplo de outros, faz entre “Essência e Finalidade”.

Conceito que apesar de sua origem Mística e Religiosa, teve um tratamento filosófico ao ser estudado dentro da Corrente Teleológica (Teleíos = do grego, final, causas), que, como se sabe, considera o Mundo um Sistema de relações entre meios e fins. É o Estudo dos Fins, ou das Finalidades Humanas e se tornou uma concepção tão introjetada em nosso modo de pensar que é vista por muitos como uma “Verdade Absoluta”.

Todavia, para SARTRE outra “Natureza Humana” é possível. É possível que ele construa a sua “Essência” ao estabelecer seus objetivos, ou uma finalidade para si mesmo.

E como essa “Essência” não foi dada por nenhum “Ser Divino” compete ao Homem definir a si próprio. Qual é, ao cabo, a sua Essência. Por isso, a sua máxima “Definir a nós mesmos”, da qual se originaram os conceitos:

Primeiramente o Homem existe (nasce), surge no Mundo (descobre-se separado da mãe, atravessa a infância, a adolescência) e só depois se Define (em termos de caráter, personalidade)”.
Quanto aos Homens, não é o que eles são que me interessam, mas o que eles podem se tornar”.

SARTRE coloca que “definir a nós mesmos” Não é apenas uma questão de ter a capacidade de dizer “somos Seres humanos”. Não é enumerar as características pessoais.

Em verdade, é assumirmos a forma do tipo de SER que escolhemos nos tornar (não obstante as circunstâncias que influem nessa escolha).

Isso é, na verdade, o que nos faz diferentes de todos os outros Seres. Só nós podemos nos tornar aquilo que escolhermos fazer de nós mesmos.

Uma pedra será sempre uma pedra. Idem com um cão, uma árvore etc. Já o Homem tem o poder de formar a si próprio.

NOTA do AUTOR – a ideia sartreana de que somos livres para moldar as próprias vidas foi um dos conceitos chave da ideologia do Movimento Estudantil francês no célebre Maio de 1968, em contraponto à antiga ideia da predestinação, da “habilidade herdada”, do “dom divino” etc.

Porém, a Filosofia sartreana que nos libera do predeterminismo e passa a ser chamada de “Filosofia da Liberdade”, não é completamente favorável aos anseios do Homem, pois há a contrapartida da responsabilidade que acarreta, pela Liberdade que concede.

Somos livres para nos tornarmos o que quisermos, mesmo que as limitações materiais impeçam o exercício absoluto dessa autonomia (desejar ter asas e voar como um pássaro é inútil, por exemplo). E mesmo que no âmbito das Escolhas possíveis, frequentemente sejamos coagidos a decidir com base em antigos hábitos, ou vetustas regras e normas de conduta que nos são introduzidas desde o nascimento (e que para serem eliminadas exigem que tenhamos a coragem de nos rebelarmo-nos continuamente e assumirmos que vivemos num Mundo em que nada é predeterminado. Que descartemos qualquer ação, ou pensamento mecânico, pesando cada atitude, cada concepção na balança precisa da Racionalidade).

Mas, a verdade é que muitos poucos lutam pela liberdade e o motivo para tal comportamento vai além de um simples comodismo. A razão, de fato, é o medo que a liberdade acarreta.

Afinal, se eu escolho viver de certa maneira tenho que arcar com a responsabilidade dessa decisão, enquanto se eu optar em apenas seguir os padrões estabelecidos ficarei na confortável situação de poder debitar a tais padrões os meus fracassos e as iniquidades do Mundo.

Ao fazermos escolhas criamos um “Modelo” para a vida que julgamos ser a correta. Se, por exemplo, eu decido ser um Filósofo não estarei escolhendo apenas por mim, pois implicitamente estou afirmando que ser Filósofo é uma atividade que vale à pena.

Não somos, portanto, responsáveis apenas pelo impacto das escolhas em nossas vidas, mas também pelo seu impacto sobre os demais. E, como dissemos, sem regras alheias, não teremos desculpas que nos eximam pelas consequências oriundas das escolhas feitas.

NOTA do AUTOR – pedirei licença ao leitor (a) para propor, neste trecho, uma alteração no célebre aforismo de SARTRE que diz que “estamos condenados a ser livres”. Diria que “estamos condenados POR sermos livres”.

Por essa razão, a “Filosofia da Liberdade” também foi classificada como “Pessimista”, justamente por acarretar a responsabilidade pelas nossas decisões. Tal adjetivo o Filósofo rejeitava com veemência, pois no seu entendimento a sua forma de Pensar seria a mais “Otimista” possível, precisamente por permitir que exerçamos um controle efetivo sobre o tipo de Personalidade que queremos ter e sobre o modo como agiremos. Ainda que isto custe o preço de se arcar com as consequências pelas nossas opções.

De todo modo, o Ideário de SARTRE influenciou uma vasta gama de eruditos (e em especial a sua companheira Simone de Beauvoir) além da juventude que tomou as ruas no Maio de 1968 para combater o bom combate de derrubar as antigas ideias Predeterministas, Tradicionalistas e Autoritárias que dominaram o Mundo até as décadas de 1950, 1960.

E sua influência não ficou restrita ao plano teórico, pois a militância e o ativismo pelas Causas Sociais e Humanistas foi uma parte importante em sua vida.

Suas constantes mudanças de afiliações Partidárias, sua presença assídua nas grandes Manifestações e a sua voz ativa em defesa da Liberdade, sempre estiveram juntas de sua atuação no campo da Filosofia, da Política e da Literatura.

E foi seguramente esse conjunto de contribuições ao progresso do Homem, a sua grandeza intelectual e a sua alta estatura ética que o tornaram “o rosto da Filosofia”.

RECORTEO EXISTENCIALISMO

 Dizem os compêndios que o “Existencialismo” é uma Escola Filosófica criada por Soren Kierkegaard (Dinamarca, 1813 – 1855). Porém, a ideia por trás de tal Sistema sempre esteve entre as reflexões do Homem e exemplos desse fato já podem ser vistos no século IV aC. quando Aristóteles se perguntava “como devemos viver?”.
Destarte, quando Soren escreveu “Ou isto, ou Aquilo” em que investiga o papel desempenhado pelas “Escolhas” que fazemos na formação das nossas vidas, todo um rio caudaloso já havia passado, carreando essa questão.
Desse modo, pode-se pensar que diante do horror causado pela ascensão do Totalitarismo e pela deflagração do Conflito Mundial, fatos que por si expuseram ostensivamente a falta de Sentido da Existência e, principalmente, a falta de Sentido dos Valores Burgueses (como Pátria, Honra Nacional, Etnia, Deus, Religião etc.), nada mais natural que as cabeças geniais de Heidegger, JASPERS, Simone de Beauvoir e Jean Paul SARTRE entre outros, atualizassem a estrutura daquele antigo Pensar no formato do Existencialismo atual e o utilizassem para denunciar a hipocrisia daqueles falsos valores e daquele tipo de Existir.
E nesse formato atual, tem-se como tese central do Ideário a concepção de que não há uma “Essência” antes da “Existência”, sobre a qual falamos no corpo do Ensaio. Diretamente oriundas dessa tese central, surgem as concepções de Contingência e da Inautenticidade, que veremos a seguir.
Por negar peremptoriamente toda Metafísica e toda noção de Deus, o Existencialismo também nega a validade daqueles supostos valores que foram embasados pela divindade e/ou pela natureza. Nega, pois, a validade de todos os valores burgueses, os quais, ao cabo, seriam apenas instrumentos de opressão e de controle de uns sobre os outros.
A partir da Ideia de negação sistemática de Deus, pode-se resumir a “Contingência Humana” (ou seja, o fato de “existir por acaso”, sem propósito, sem finalidade, sem objetivo, sem sentido) da seguinte maneira:
  1. O Homem é um “Ser” que existe efetivamente.
  2. Quando esse Homem se propõe a fazer algo, primeiro ele estabelece um objetivo, um sentido para aquilo que tenciona fazer.
  3. Esse propósito, esse Sentido, essa Essência, vem antes da Existência daquilo que será feito.
Porém,
  1. Como Deus não existe.
  2. O Homem não foi Criado por “Ele (seja lá o nome que se dê a tal Ser, ou Energia, ou Força)”.
  3. Logo, não existe Essência, ou Propósito, ou Finalidade, ou Sentido que tenha antecedido a Existência Humana.
  4. Portanto, o Homem existe por um mero acaso, por uma simples Contingência. Sem qualquer sentido.
  5. Sendo assim, a EXISTÊNCIA, o Ato de Existir, vem antes de qualquer Essência no Homem.
Como, pois, Não há um propósito, um objetivo para o Homem existir (por mais que as Religiões digam o contrário, quando o colocam como o “ápice da Criação” e o principal elemento no “Comando” do Mundo), ele passa a ser considerado um “Ser Contingente”, ie, ele existe por um mero acaso. Tanto pode existir, como inexistir, que em nada alterará o Universo.
E por não ter uma “Essência”, tampouco nenhuma “atribuição especial”, nem um “Sentido maior, mais sublime” dados por um eventual “Criador”, surge uma outra condição além da Contingência. Ele é “condenado a ser livre”, o que lhe acarreta a total responsabilidade por seus atos, já que não pode se escusar por seus dolos e erros alegando “ter sido programado pela Natureza ou por Deus para isso”, “por ter sido feito dessa maneira” etc.
A partir dessa falta de Essência, de Sentido para a Vida e da problemática de “Ser condenado à Liberdade” é que resulta a Inautenticidade.
O Homem para se esquecer da falta de Sentido e da Liberdade que não deseja, apega-se exclusivamente às questões cotidianas (trabalhar, juntar dinheiro, colecionar parceiros (as) sexuais, obter honrarias, títulos, glórias etc.) e vive apenas em função das mesmas, esforçando-se ao máximo para não refletir sobre suas questões mais profundas e, ao cabo, Autênticas. Ele opta, então, por viver de forma Inautêntica.
Da conjunção de todos esses fatores é que surge a Angústia Existencial por saber que caminha para o Nada, pois se nada o antecedeu, também nada lhe sucederá. Caminha, pois para a morte definitiva, para o Nada absoluto.
 Na sequência veremos uma brevíssima resenha de uma obra-prima do Filósofo, a Náusea, onde ele expõe essa angústia como se ela fosse uma sensação de náusea orgânica que sempre recorda ao Homem a sua mísera condição.

A NÁUSEA - RESENHA

Essa obra é um exemplo perfeito das imensas possibilidades da Literatura, haja vista ser tão valorosa como “Tratado Filosófico”, quando “Romance”.
Nela, toda a genialidade de SARTRE fica patente e não deixa dúvidas sobre o merecimento do Prêmio Nobel que lhe foi outorgado (e recusado) em 1964.
Alguns a classificam como um “Romance Filosófico” e, com efeito, é tão bem concebido que não se consegue diferenciar os gêneros literários neste texto que conta a história de Antonio Roquetin.
O protagonista é um pesquisador, já entrado na casa dos trinta anos, que se muda para a cidade portuária francesa de Bouville (uma mal disfarçada referência ao porto holandês de Haia) após longas viagens.
Vai para a localidade com a intenção de escrever a biografia de uma personagem histórica, mas no desenrolar do trabalho o sedentarismo lhe produz estranhas sensações e enquanto ele se dedica à sua atividade, passa a ver o Mundo, e o lugar que ocupa no mesmo, de maneira totalmente diferente.
Num crescente empolgante de dúvidas e emoções, ele percebe que a sólida lógica racional que acreditava constituir a Realidade simplesmente não existe. Que os hábitos, valores, crenças etc. não passam de uma fina camada superficial sem qualquer lastro mais profundo.
Abalado pela conscientização, passa a ser acometido pela “Náusea da Existência”, ou seja, pela horrível sensação de sermos Contingentes, de não termos um Sentido e de que caminhamos para o Nada.
Pasmado pela indiferença das Coisas, dos Objetos inanimados e pela Inautenticidade dos Seres Humanos com quem convive, sente-se cada vez mais sufocado pela consciência de que cada situação que vive é o seu próprio ser, existir. Descobre, assim, que a sua Existência é desprovida de qualquer significado maior.
Através das reflexões que se originam dessas descobertas e circunstâncias que atingem a sua personagem, SARTRE analisa as questões relativas à Liberdade, à Responsabilidade, à Consciência e ao Tempo.
Influenciada pela Filosofia de Husserl e pelo estilo de Dostoiévski e de Kafka a obra apresentou o Existencialismo (enquanto Sistema de Pensamentos), ao Mundo, que não demorou a elegê-lo como um dos principais do século XX.
O conceito de que “A Existência precede a Essência” aparece nela pela primeira vez, antecipando, aliás, o conjunto de Ideias, do qual faz parte, e que só veio ao público em 1943, quando SARTRE publicou sua outra obra-prima “O Ser e o Nada”.
É uma obra monumental e indispensável para todos os interessados em adentrar o Universo de SARTRE e resgatar o direito de criar suas próprias convicções sobre o mistério que é existir.

Resenha elaborada a partir do original “La Náusea” de 1938 – Editora Gallimard, Paris.

São Paulo, 07 de Agosto de 2012.

Tais (Taisinha)

Bibliografia Complementar para o “Recorte”
– Filosofia sem Mistérios - Dicionário Sintético – Fabio Renato Villela – Ed. Seven System, Biblioteca 24x7. – Compras através do Link: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/busca/busca.asp?sid=1971372101488600662185725&palavra=fabio+renato+villela&tipo_pesq=&tipo_pesq_new_value=false&tkn=0

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Homem da Marquise

Não deixa de causar certa estranheza o fato de haver tanta gordura em seu corpo, enquanto que os andrajos que veste e os  rotos sapatos que calça denunciam a indigência em que vive. Como ele consegue?

Obeso e mendigo. E, ainda, “proprietário” de um “endereço fixo” (sic).

Nunca nos falamos, mas há aproximadamente dois anos nos cumprimentamos quando eu sigo para a Biblioteca onde escrevo e passo em frente à marquise onde ele goza do sonho capitalista da “casa própria”.

Nunca me pediu nada e tampouco lhe ofereci. Acho que ambos tememos causar algum prejuízo às nossas dignidades se introduzirmos algo além de respeito em nossa relação de cavalheiros. Somos dois homens que se cruzam enquanto carregam as misérias individuais entre as tantas coletivas.

Já o vi sendo insultado por um bando de desocupados e medíocres funcionários de lojas ou de bancos, que zombavam de sua indigência, sem atentar para as próprias. Mas também já presenciei quando ele era acarinhado pela atenção de uma senhora, cujas boas intenções eu não sei se eram reais e sinceras, ou apenas o resultado de seu desejo de aliviar a consciência, ou de sua vontade de conquistar mais um “milagre” para a sua Igreja.

Pouco importa. O fato é que em ambas as situações, suas placidez não se alterou. Manteve o sorriso tímido nos lábios maltratados enquanto esperava que as duas provações seguissem por inércia a inutilidade de seus criadores.

Logo mais, após esse café ligeiro e terminar essa crônica, seguirei para o trabalho e, provavelmente, ao seu encontro. Espero rever-lhe e lhe desejar “bom dia”. Nada mais seria necessário.




Por Tais (Taisinha)