quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Voltaire e o Iluminismo francês - Parte VII - O Tratado sobre a Tolerância

 
Voltaire e o Iluminismo francês - Parte VII -
Tratado sobre a Tolerância

Indiferentes aos contra ataques, Voltaire e seus adeptos prosseguiram com a carga. Dentre outras manifestações, ele escreveu o “Tratado sobre a Tolerância”, onde diz que suportaria os absurdos do dogma cristão se os Sacerdotes que o pregam, vivessem de acordo com aquilo que pregavam e fossem tolerantes com quem deles discordasse. Afinal, indagava, “com que direito um Ser criado livre pode obrigar um outro a pensar como ele?”.

Para ele não deveria haver qualquer concessão, já que a existência da desejada harmonia social dependeria da completa destruição do Poder Eclesiástico, do qual se originava a matriz de todas as intolerâncias. Seria, a seu ver, imprescindível que o Estado fosse laico e que a Sociedade criasse padrões éticos baseados no Conhecimento, no Saber e não na ignorância supersticiosa que a Igreja impunha.

Recorte do Autor:
“Nesse ponto, peço ao leitor (a) um instante para fazer a seguinte reflexão:
Não há como negar que se originam nas doutrinas religiosas a maioria, senão a totalidade, dos julgamentos pejorativos que ainda hoje são feitos sobre determinados segmentos da população. Vejamos dois exemplos:
1 - As pessoas da etnia negra são julgadas inferiores “porque foram amaldiçoadas por descenderem de Cam” (sic).
2 - Os homossexuais são malditos porque “são aberrações que desafiam a Lei Divina que criou o Homem e a Mulher” (sic).
A histeria rancorosa dirigida atualmente às pessoas homossexuais (principalmente nos cultos evangélicos, físicos ou televisionados), felizmente fica restrita à sórdida verborragia, embora existam casos de covardes agressões físicas em outros espaços sociais. Ademais, sempre há o risco de que as agressões verbais progridam para as perseguições fascistas que abundam na história recente.
No tocante à discriminação étnica, não custa lembrar que há poucas décadas, a mesma era oficial e com embasamento em dogmas religiosos em países dito civilizados, como os Estados Unidos, a África do Sul e a Austrália, onde, aliás, os aborígenes só passaram a serem considerados Seres humanos a partir de 1969, em pleno século XX. Atualmente, essa discriminação passou a ser criminalizada, embora subsista fortemente no inconsciente coletivo, ocasionando toda sorte de situações vexatórias, incriminadoras e prejudiciais.
Alguns contra-argumentarão que não são as doutrinas religiosas a fonte dos preconceitos e, sim, a deturpação que se faz das mesmas. É uma antítese com algum valor, reconheço, mas que não invalida o fato concreto de que a maioria dos religiosos adota posições que embasam as discriminações.


Voltando ao filósofo, vemos que após o lançamento de o “Tratado”, Voltaire publicou uma longa série de textos em panfletos, historietas, diálogos, cartas, catecismos, diatribes, pasquins, sermões, versos, contos, fábulas, comentários e ensaios, assinando o próprio nome ou usando um dos tantos pseudônimos que empregava. Em termos atuais, pode-se dizer que fez uma “Campanha publicitária” maciça.

Nunca a Filosofia tinha sido exposta com tamanha clareza e objetividade; e de modo tão didático e agradável. E, por consequência, nenhum filósofo havia sido tão popular quanto ele. Aos setenta anos de idade ele estava em pleno auge criativo e produtivo e graças a essa energia as suas críticas seguiram um percurso de ascendente impacto e de progressiva aceitação popular.

Inicialmente as suas críticas eram dirigidas para a questão da confiabilidade e autenticidade da bíblia. Assim, baseado em Spinoza, nos deistas1 ingleses e no filósofo Bayle (Pierre, 1647-1706, França) ele construiu uma sátira genial, na qual a personagem protagonista, chamada “Zapata”, candidata-se ao Sacerdócio. Ingenuamente, Zapata faz perguntas sobre a doutrina e sobre os ritos e as respostas que recebe revelam todas as incongruências das chamadas “Escrituras Sagradas”. Por fim, farto daquelas inconsistências, das mentirosas convenções e das demais falcatruas, passa a pregar outro tipo de divindade: um Deus despojado dos artifícios com que o Clero que lhe deturpou; um Deus simples, longe do fausto perdulário da liturgia católica. Por fim, anuncia outro Ser Supremo, distante do estereótipo de cruel ditador que as Elites utilizam para conservar a servilidade das massas ignorantes. Nesse texto, ele completou as considerações que já havia consignado no verbete “Profecia” do Dicionário Filosófico.

Noutros, ele prossegue na temática, esclarecendo que a popularidade que os rituais cristãos alcançaram é proveniente do fascínio que a cultura helênica, egípcia e hindu sempre exerceu sobre os homens, cujas mentes obtusas, na maioria das vezes, maravilham-se diante do miraculoso, do fantástico, do fabuloso. Aliás, a esse respeito, no verbete “Religião” do Dicionário Filosófico, ele pergunta ardilosamente: “depois da nossa Santa Religião, que sem dúvida é a nossa única boa, qual aquela que seria menos condenável?”. Na verdade, para além da ironia, o seu objetivo era demonstrar que quase todos os povos antigos já possuíam mitos semelhantes aos que os cristãos adotam; concluindo, por isso, que estes, são comprovadamente reles invenções dos padres, bispos, pastores (pais de santo) etc.

Entretanto, apesar da virulência com que atacava o Clero, Voltaire não censurava a Religião em si. Seu rancor focalizava diretamente os que a utilizavam em beneficio próprio, promovendo as explorações e as disputas internas e externas. Em suas palavras:

“(aos devotos – na.): não são as pessoas comuns (...) que tem provocado essas ridículas e fatais disputas, as fontes de tantos horrores. (...) Homens alimentados por vocês num ócio confortável, enriquecidos pelo seu suor e pela sua miséria, lutavam por adeptos e escravos; inspiraram vocês com um fanatismo destrutivo, para que pudessem ser os seus senhores; transformaram vocês em supersticiosos não para que vocês pudessem temer a Deus, mas para que temessem a eles”.

No próximo capitulo, abordaremos o texto intitulado de “O Filósofo Ignorante”.

Nota do Autor – Deístas1 – os adeptos da crença na existência de um Ser supremo, mas totalmente diferente e desvinculado dos dogmas religiosos.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Comunicação com o Público. Rio de Janeiro, Primavera de 2014.