terça-feira, 23 de setembro de 2014

Voltaire e o Iluminismo francês - Parte VII - Ecrasez L´infame


Voltaire e o Iluminismo francês - Parte VII -
Ecrasez L´infame

Já muito famoso, a partir de o “Dicionário Filosófico”, Voltaire tornou-se quase que uma unanimidade e passou a ser visto como um verdadeiro “paladino da Justiça”, a quem se deveria recorrer nos casos de intolerâncias e de perseguições.

E ele não hesitou em assumir esse papel, passando da condição de “homem de letras” para a de “homem de ação”.

Se nenhum fato tivesse quebrado a rotina, é provável que Voltaire tivesse se conservado fleumático, um cético moderado e sempre amável no trato; pois, em verdade, nem mesmo motivos para desentendimentos haveria, já que a maioria, para não dizer a totalidade, de frequentadores de seus círculos seria incapaz de lhe opor a menor discordância, tal era a reverência com que o tratavam. Seus argumentos e suas opiniões eram acatados, ou tolerados, até por seus inimigos no Clero e na Nobreza, já que lhes parecia mais prudente fazer-lhe algumas concessões, do que enfrentar a fúria devastadora de sua pena.

Porém, um acontecimento ocorrido em Toulouse, a sétima cidade mais importante da França, fê-lo abandonar a polida censura e desencadear uma verdadeira guerra contra o Clero, com o declarado propósito de “esmagar a infâmia do excesso de zelo religioso”.

Toulouse, na época, era praticamente controlada pela Igreja, que regia com mão de ferro todos os aspectos sociais, morais e teológicos dos cidadãos. Uma ditadura teocrática como as que vigoram, na atualidade, em algumas nações do Oriente próximo e médio; e como sonham implantar no Ocidente alguns políticos fanáticos religiosos.

Por isso, de acordo com as suas leis, o tristemente famoso “massacre de São Bartolomeu” era comemorado; bem como a revogação de “édito de Nantes” que havia estabelecido a liberdade religiosa. Ademais, ninguém que não fosse católico, poderia desempenhar as profissões mais conceituadas e melhores remuneradas, tampouco podiam os Protestantes servir como Criados de católicos; assim como não poderiam ter certos tipos de negócios etc. Uma extensa lista de proibições injustificáveis, embora comuns nas ditaduras.

Nesse ambiente opressor, em certo dia do ano de 1761, um Protestante chamado Jean Calas encontrou o seu filho morto, após ter cometido suicídio, provavelmente, por dificuldades financeiras. Sabendo que a Lei de Toulouse tratava os suicidas de modo particularmente cruel1, Jean Calas pediu aos parentes que declarassem que a morte de seu filho se deveu a causas naturais.

Porém, surgiu um boato de que o rapaz teria sido assassinado pelo próprio pai que não admitiria a sua suposta conversão ao catolicismo. Em razão do boato, sem qualquer julgamento ou comprovação, Jean Calas foi preso e sendo torturado barbaramente morreu logo depois.

A família ficou arruinada e tornou-se alvo dos fanáticos habitantes do lugar, não lhe restando alternativa que não fosse à do exílio. Dessa forma, seguiu para Ferney e, ali, buscou o auxilio de Voltaire.

A trágica história deixou o filósofo arrasado e logo após socorrer a família perseguida, ele investigou a questão e descobriu que aquele não fora um caso isolado, mas apenas mais um dos terríveis abusos que eram cometidos na localidade.

Foi, então, que a antiga bonomia de Voltaire cedeu lugar para a sua terrível fúria. Possesso, respondeu ao filosofo d´Alembert que dissera “dali por diante irei simplesmente zombar de tudo”, com a seguinte invectiva:

“Não é hora de zombaria, o espírito não se coaduna com massacres. (...) É este o país da Filosofia e do prazer? Ao contrário, é o país do Massacre de São Bartolomeu”.

Aquela situação absurda e crudelíssima o provocara de forma inédita e ele transformou a Filosofia em munição para a guerra que estava declarando. Presto, adotou o célebre slogan “Ecrasez l´infame (esmagai o infame)” e com a sua verve magistral, sacudiu toda a França contra os abusos da igreja.

E tamanha foi a sua dedicação à Causa que não será exagero dar-lhe o crédito de ter sido a principal força que derrubou o domínio teocrático, enquanto contribuía poderosamente para a queda da monarquia.

Dessa época, entre vários outros, destaca-se um discurso seu que entrou para a história como uma das peças de retórica de maior objetividade e poder de convencimento. Nele estava o apelo aos seus pares e a todos os que tivessem um mínimo de decência para que o expurgo daquelas espúrias e canalhas Instituições fosse imediato, completo e definitivo.

A reação do Clero e da Nobreza logo mostrou as suas armas, sendo uma delas a incrível, e obviamente frustrada, tentativa de subornar o filósofo que foi executada pela célebre Mme. de Pompadour.

E tal como essa, baldadas foram as outras tentativas de silenciá-lo, como veremos na sequência, no capitulo sobre o “Tratado sobre a Tolerância”

Nota do Autor 1 – o suicida era totalmente despido, atado a uma armação de madeira, arrastado pelas ruas e depois pendurado em um poste, onde ficava sujeito ao escárnio dos populares.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Comunicação com o Público. Rio de Janeiro, inverno de 2014.