terça-feira, 14 de janeiro de 2014

JUNG, Carl Gustav - O inconsciente coletivo, os arquétipos - Psicanálise Contemporânea



CARL JUNG
1875 - 1961
O inconsciente coletivo e os arquétipos.

CARL GUSTAV JUNG nasceu no seio de uma família culta, em uma pequena vila na Suíça. Logo na primeira infância ele se aproximou da mãe cujos episódios de depressão eram recorrentes. Também os seus outros familiares eram considerados excêntricos.

Sua formação seguiu a tradição, mas graças às peculiaridades da família ele não sofreu pressões para seguir determinado rumo e por isso foi muito além da média de seus contemporâneos. Linguista talentoso, poliglota, dominava vários idiomas europeus e até algumas línguas antigas, como o sânscrito. Casou-se com EMMA RAUS CHENBACH, em 1903, que lhe deu cinco filhos.

Seu interesse por psiquiatria ocorreu após ter conhecido SIGMUND FREUD, em 1907, e encantado por suas teses não demorou em se tornar Psicanalista, sendo considerado por muitos o legitimo sucessor do mestre austríaco. Porém, a sua reverencia ao “Pai da Psicanálise” sofreu alguns abalos em decorrência de suas divergências com o pensamento freudiano tradicional e, por fim, a própria amizade foi rompida e ambos nunca mais se encontraram.

Em 1935 tornou-se professor na universidade de Zurique, mas a sua carreira acadêmica foi curta, pois logo ele a abandonou para se dedicar às suas experiências e estudos. Assim, logo após a Segunda Guerra Mundial viajou pela África, Américas e Índia realizando pesquisas com os nativos e participando de expedições antropológicas e arqueológicas.

As divergências com Freud

Freud introduziu a concepção de que não somos guiados por forças externas, como, por exemplo, “Deus”, “Destino” e similares. Para ele, na verdade, somos motivados e controlados pelos processos internos de nossa própria mente, especialmente pelas forças ocultas no inconsciente. Também afirmou que as nossas experiências são afetadas por “pulsões primais”, ou instintos primitivos, que habitam o subconsciente.

JUNG, a exemplo dos outros pupilos, aceitava com entusiasmo essa tese, mas levou-a adiante e passou a investigar profundamente o quê formava o inconsciente. Quais os elementos que o constituíam e como eram os seus mecanismos, as suas maneiras de agir. Ao contrário de FREUD ele passou a argumentar que o inconsciente era constituído pelas vivências da coletividade e que os distúrbios psicológicos não derivavam da sexualidade, como afirmava o mestre.

Os símbolos e os arquétipos

O fato de os mitos e os símbolos serem surpreendentemente similares em todas as culturas do Mundo, ao longo do tempo, fascinava JUNG. E isso a despeito das enormes diferenças climáticas, geológicas e culturais entre os povos. E não tardou para que a sua inteligência superior concluísse que os mesmos eram o resultado dos “conhecimentos e das experiências” que os humanos compartilham enquanto espécie. E que a “memória” dessas experiências e conhecimentos é preservada geração após geração sob a forma de arquétipos que residem no “Inconsciente coletivo” que cada indivíduo traz em si e que atuam como modelos de comportamento.

Cada qual, ao nascer adéqua as suas tendências naturais ao arquétipo recebido e essa junção é que define como será o seu comportamento, o seu modo de ser e o seu estilo de vida, bem como, o entendimento ou a sua forma de compreender o Mundo.

A existência desses mitos e o seu compartilhamento era a confirmação de que uma parte da psique, ou alma humana contém ideias preservadas em uma estrutura imaterial e atemporal que age como se fosse uma espécie de “Memória Coletiva”, ou de “Inconsciente Coletivo” que talvez seja repassada geneticamente.

A partir dessa dedução, JUNG propôs a sua tese de que uma parte do “Inconsciente Coletivo” existe na mente de cada indivíduo como se ele herdasse um “cesto de saberes” que foram adquiridos por outros e não através de suas experimentações ou vivências pessoais. Uma parte que apresenta apenas leves diferenças oriundas das idiossincrasias de cada povo.

NOTA do AUTOR – arquétipo, termo oriundo do grego “archétypon”, modelo de seres criados, ou padrão exemplar, ou modelo, ou protótipo.

As memórias ancestrais

Para JUNG os arquétipos são como “camadas” da memória herdada e formam a totalidade da vivência da espécie humana. Em latim, o termo “archetypum” é traduzido como “primeiro modelo” e isto, para JUNG significava que os arquétipos são as memórias dos antepassados mais remotos que atuando como moldes ou fôrmas no interior da mente de cada homem, são usados inconscientemente para se organizar e compreender as próprias atitudes.

Podemos preencher as lacunas existentes na “Memória Coletiva” com os detalhes da vida pessoal, mas segundo JUNG é importante ter-se sempre a ciência de que as nossas memórias e vivências só podem ser racionalmente entendidas graças aos modelos e parâmetros sobre as quais repousam, ou seja, sobre a “Memória primeira, ou ancestral”.

Nada do que conseguimos pensar, sentir e/ou executar foge desses parâmetros, ressalvando-se as diferenças pontuais e superficiais oriundas da época e do lugar em que cada homem vive. Veja-se que para as sensações mais básicas o padrão se mantém inalterado como se pode observar com o fato de que a raiva que um Neandertal sentia em nada difere da sentida pelo homem atual. Graças a essa similaridade é que se torna possível reconhecer esse conjunto de sentimentos e ideias como algo dotado de sentido, ou de significado.

Assim, para JUNG, aquilo que nós julgamos ser um “instinto puro”, na verdade é apenas o uso inconsciente que fazemos dos arquétipos.

NOTA do AUTOR – segundo o dicionário Aurélio, o instinto é inerente ao homem e aos outros animais e atua de modo alheio à consciência, mas com finalidades precisas, como, por exemplo, o “instinto sexual”. Já no caso dos arquétipos o seu uso não é dirigido para uma função especifica. Servimo-nos deles para elaborar respostas às mais diversas situações da vida.  

JUNG concordava com a divisão da mente em três partes, feita por FREUD. Porém, deu-lhes nomes e funções diferentes, a saber:

  1. Ego - como em FREUD, o consciente, ou o “Self”.
  2. Inconsciente pessoal – o “depósito” que guarda as memórias e as vivências do indivíduo, inclusive aquelas que foram reprimidas ou recalcadas e que conforme a teoria freudiana causam os distúrbios mentais e/ou emocionais.
  3. Inconsciente coletivo – a parte que abriga os arquétipos, ou a Memória coletiva ou ancestral.
Os arquétipos

Como já se disse, os arquétipos representam situações vivenciadas por todos os homens e embora possam ter variações de uma cultura para outra, são essencialmente iguais em todo o Mundo. Dessa sorte, cada homem possui em seu intimo o modelo de cada um dos arquétipos. Não é raro, aliás, que eles sejam representados artisticamente em pinturas, esculturas etc. haja vista que protagonizam a maioria das lendas.

A forma de ser de um arquétipo, ou seja, a sua natureza, é geralmente tão difundida que nós os reconhecemos instantaneamente. Podemos, até mesmo, atribuir-lhes um significado emocional, o que pode levar a que lhes sejam atreladas certas atitudes e padrões de comportamento e de emoções.

Embora todos sejam facilmente reconhecíveis, alguns são mais populares como, por exemplo, o “velho sábio”, a “deusa”, a “madona”, a “grande mãe” e o “herói”. Além destes, JUNG considerava especialmente importante o arquétipo “a persona”, pois, tomando a si mesmo como objeto de estudo, ele percebeu que desde a mais tenra infância, tinha a tendência de mostrar apenas uma parte de sua personalidade, assim como a quase totalidade dos Seres humanos, já que é característico do homem dividir as suas personalidades em partes estanques que mostram apenas as facetas que são julgadas mais apropriadas às situações. O “Self”, ou o Ego racional que apresentamos ao Mundo, a nossa “imagem pública”, por exemplo, é o arquétipo “persona”, o qual se divide em partes “masculinas” e “femininas” e é moldado pela biologia e pela sociedade para assumir seus aspectos de gênero.

De acordo com essa perspectiva, quando a modelagem biológica não segue o curso majoritário acontecem os casos de homossexualidade, pois o corpo físico não corresponde ao aspecto preponderante que o Self assumiu. Em relação à modelagem social tem-se como certo que ela não tem qualquer influência nessa questão. Assim, quando nos definimos como homem ou como mulher, desprezamos a metade de nosso potencial, embora possamos acessá-lo através de determinado arquétipo.

Animus e Anima

O Animus é o componente masculino da personalidade feminina, enquanto o Anima é o oposto. São as metades que nós abandonamos, ou que nos é suprimida quando definimos o nosso gênero. São dois arquétipos que nos ajudam a compreender a maneira de ser do sexo oposto e por possuírem tudo que já foi realizado por homens e mulheres, refletem as ideias tradicionais masculinas e femininas.

O “Animus” é representado na cultural ocidental como o protótipo masculino, ou seja, o indivíduo musculoso, o enérgico comandante militar, movido apenas pela fria lógica, embora seja um sedutor romântico. O arquétipo “Anima” aparece como uma ninfa, uma virgem, uma mulher sedutora. Não é raro ser representada artisticamente em quadro e na literatura como Helena de Tróia, Eva ou em mulheres contemporâneas como Marilyn Monroe, cuja especialidade seria seduzir, enfeitiçar e sugar os homens como se fosse uma versão atual das ex-mitológicas sereias.

O Sombra

Outro arquétipo que temos em nosso Inconsciente representa a parte da nossa personalidade que queremos ocultar. Chamado de “Sombra” é oposto da Persona ou Ego. Simboliza os nossos pensamentos e as nossas emoções mais secretas e reprimidas por serem considerados indecorosos ou inadequados de nosso caráter. Na teologia cristã é geralmente associado com o Diabo, enquanto que na literatura leiga é comumente associado ao célebre Mr. HYDE do Dr. JEKYLL, do famoso livro “O médico e o monstro” de ROBERT LOUIS STEVENSON (1886). Esse arquétipo seria o nosso lado mau, que projetamos sobre os outros. Contudo, segundo JUNG, não se deve ver-lhe como inteiramente negativo, haja vista que ele também pode representar aspectos negativos de nossa personalidade que são nocivos apenas em determinadas situações e por isso são reprimidos apenas quando elas acontecem.

O Trapaceiro

JUNG identificou também este outro arquétipo a quem chamou de “Trapaceiro” porque a sua função básica é impedir que o Ego racional do indivíduo torne-se hegemônico. É uma figura brincalhona, mas que expõe com seriedade o quão vulnerável é o indivíduo que está sonhando com ele. É um lembrete constante sobre o risco de se levar tudo muito a sério e de se valorizar excessivamente os desejos É um arquétipo que também pode manifestar-se como o deus nórdico LOKI, ou o deus grego PAN, ou ANANSI, a grande aranha divina africana, ou, ainda, um simples mágico ou palhaço.


Os arquétipos e os sonhos

JUNG acreditava que os sonhos formam uma espécie de ponte entre o Inconsciente e o Self, ou ego consciente, e que os arquétipos tem importância fundamental para a decifração dos mesmos, já que eles atuam como símbolos dentro dos sonhos, facilitando a conversa. Acreditava, ainda, que cada arquétipo tem um significado especifico no contexto do que foi sonhado. O “Velho (a)” sábio (a), por exemplo, pode ser representado no sonho pela figura de um líder espiritual, um pai, um mestre, um médico etc. indicando aquelas pessoas que oferecem conselho, orientação e sabedoria. Ou, então, a “Grande Mãe” que pode aparecer como a própria mãe, a avó de quem sonha, significando a criadora que oferta cuidados e reconhecimento. Outro exemplo pode ser a “Criança Divina” representante do “Verdadeiro Self” em sua forma mais pura, que simboliza inocência e vulnerabilidade e aparece nos sonhos como um bebê, podendo ser associado à natureza intuitiva e espontânea. E como existem em nosso inconsciente, podem afetar nosso estado de humor, as nossas reações e até manifestar-se em forma de profecia, no caso da feminina Anima; ou em discursos frios e racionais no caso do Animus.

Usando os arquétipos

Segundo JUNG os arquétipos estão presentes na mente humana antes mesmo dos primeiros pensamentos conscientes e, por isso, exercem um poderoso impacto sobre a percepção que temos de nossas vivências.

Seja qual for a nossa opinião consciente sobre o que está acontecendo, quem realmente escolhe o que iremos perceber e vivenciar são aquelas ideias preestabelecidas que habitam o nosso Inconsciente. O nosso lado “racional” apenas obedece às suas linhas gerais e só dentro das mesmas é que dispõe de alguma autoridade.

Dessa forma, na verdade, é o Inconsciente coletivo que controla o estado consciente do indivíduo e muito do que consideramos ser um pensamento consciente ou uma deliberação autêntica, não passa de uma orientação dada pelo subconsciente, sobretudo através dos arquétipos organizadores.

O verdadeiro Self

Como se viu, JUNG identificou uma série de figuras, ou arquétipos, que representam as partes que forma a nossa Psique. E dentre todos, ele colocou como o arquétipo principal aquele que chamou de “O verdadeiro Self, ou Ego”, haja vista a posição central e destacada que ele possui por ser o organizador que busca harmonizar todos os outros aspectos e com isso formar um indivíduo íntegro, inteiro, completo.

Essa posição de destaque associa-se diretamente com o objetivo verdadeiro da vida que é a autorrealizaçao do individuo. A partir de seu pleno autoconhecimento o indivíduo livra-se das questões menores que anteriormente causavam-lhe angústia, sofrimento, desejos impossíveis, frustrações etc. e passa a vivenciar uma liberdade que antes desconhecia. De certo modo, atinge uma espécie de nirvana e consegue compreender a amplitude da vida, quando dela são expurgados os sentimentos medíocres.

Será sempre um caminho árduo até que se atinja esse patamar, mas a recompensa é altamente vantajosa, pois nas palavras do próprio JUNG:

“(apenas) entendendo o Inconsciente é que nos libertamos de seu domínio”.

Para JUNG quando o verdadeiro Self ou Ego é inteiramente compreendido, esse arquétipo torna-se fonte de sabedoria e de verdade, capaz até de conectar o indivíduo, ou o seu Ego racional e consciente com a sua dimensão mais ampla, ou espiritual, para alguns.

Personalidade introvertida e extrovertida. A associação de palavras.

Além dos estudos que realizou com os arquétipos e o Inconsciente coletivo, JUNG foi o pioneiro nas investigações acerca da prática “associação de palavras” e na introdução das noções sobre os tipos de personalidades existentes, a “introvertida” e a “extrovertida”. Esta divisão foi fundamental para o surgimento dos célebres “testes de personalidades” que ainda são utilizados, como, por exemplo, a “classificação tipológica de MEYERS-BRIGGS (MBTI)”.

Epílogo

Em razão de todas as valiosas contribuições que ofertou ao saber humano, CARL GUSTAV JUNG tornou-se uma celebridade no campo da Psicanálise, da Antropologia e até no da Espiritualidade, graças às suas investigações sobre tradicionais oráculos, como o Tarô e o I Ching.

Os “seus” arquétipos popularizaram-se de tal modo que podem ser facilmente reconhecidos em filmes, em livros e noutras várias manifestações culturais que retratam os tipos humanos universais.

São Paulo, 01 de agosto de 2013.


Produção e divulgação de YARA MONTENEGRO, assessoria de RP, da Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, no Verão de 2014.