sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

FREUD, Sigmund - Psicanálise Contemporânea


FREUD, Sigmund
1856 – 1939
O inconsciente é a verdadeira “Realidade Psíquica”

Prefácio

Raríssimos cientistas aproximaram-se tanto do público leigo quanto FREUD. Suas teses foram absorvidas pelas pessoas comuns que através das mesmas se conscientizaram de que as suas mazelas psíquicas e sentimentais eram enfermidades passíveis de tratamento e não “castigos divinos” ou imposições inelutáveis da natureza. Talvez, aliás, seja essa a causa principal da popularidade desse austríaco e menos a sua genialidade. Afinal foi ele quem descerrou a cortina que escondia as motivações mais intimas do Ser humano e fez do homem o sujeito de sua história. Libertou-o da triste condição de mero joguete da “ira divina” ou das “sortes do destino”. Deu-lhe a dignidade de ser um paciente de uma enfermidade que poderia ser curada e o livrou do estigma de ser uma aberração. Ou, então, reles cobaias cujos comportamentos poderiam ser adestrados mediante os métodos behaviorista preconizados por WATSON e SKINNER, entre outros. Demonstrou cientificamente que o homem é maior que qualquer teoria reducionista, seja ela de cunho psicológico, social, econômico ou religioso.

Contudo, paralelamente, aos benefícios dessa popularização, não tardou a surgir a vulgarização dos conceitos por ele estabelecidos, tanto por ingenuidade quanto por má fé. Logo, os “psicólogos de botequim” e as “psicologias de sarjeta” passaram a concorrer com os estudos sérios da matéria, pois como o próprio “FREUD explicaria” a natureza abstrata da disciplina e a impossibilidade de se mensurar resultados ensejou o aparecimento de todo tipo de charlatanismo.

Assim, a proposta do presente Ensaio é expor em linguagem coloquial o pensamento magistral do “pai da Psicanálise” que devolveu ao homem a sua dimensão espiritual sem as arapucas que as religiões espalham pelos caminhos e que durante milênios foram a sua única forma de acessar a metafísica. Esperamos atingir o objetivo, mas sempre colocando-nos ao inteiro dispor para corrigirmos falhas eventuais e involuntárias.

Mas o que é realmente a Psicanálise e a Psicoterapia?

Quando certas ideias, memórias, impulsos ou sentimentos são dolorosos ou inapropriados em demasia para que o consciente consiga suportá-los, por um mecanismo de autodefesa a psique os reprime e os armazena noutra parte da mente, chamada de inconsciente. Ali, eles se agregam aos impulsos instintivos e todos se tornam inacessíveis à reflexão racional, voluntária. Com o tempo as divergências entre os conteúdos do inconsciente e do consciente colidem e disso resulta a chamada “Tensão Psíquica” que é a causa de angústias, fobias, depressões e, em casos mais severos, distúrbios mentais de alta complexidade que podem acarretar o risco da agressividade, da inércia, ou do suicídio. São condições que dificultam o cotidiano do paciente e podem impedir as suas conquistas, realizações, afetos, alegrias etc., porém são transtornos que podem ser curados parcial ou totalmente através da correta aplicação de terapias apropriadas que, geralmente, trazem ao consciente esses pensamentos ou sentimentos reprimidos, permitindo que uma vez à luz da razão, eles possam ser racionalizados e extirpados.

Revertendo crenças ancestrais, FREUD demonstrou que a cura da alma está na mesma e que as fantasias litúrgicas ou místicas não passam de tolas fantasias, cujo único e duvidoso beneficio talvez seja o de abrir as portas do inconsciente graças à sua simbologia. Muito pouco, principalmente para homens que viviam como ele a nova era do avanço cientifico. E menos ainda para homens hodiernos que se conscientizaram que não há mérito no sofrimento e nem virtude na dor. Que as doenças, sejam físicas ou mentais, devem ser tratadas e curadas. Por isso, o nome de FREUD recebe as loas que lhes são devidas. Oxalá, o seu exemplo de dedicação, abertura e inteligência continue a semear essa visão e que a humanidade caminhe cada vez mais para a felicidade de todos.

Notas biográficas

SIGISMUND SCHLOMO FREUD nasceu em Freiberg, Morávia, e ao completar quatro anos mudou-se com a família para Viena (onde se tornou Sigmund). Após uma exitosa carreira como estudante, formou-se em Medicina em 1886 e logo depois abriu seu consultório especializando-se em Neurologia. Casou-se com MARTHA BERNAYS com quem viveu um longo e feliz matrimônio.

Depois de clinicar por certo tempo, desenvolveu o método batizado de “Cura pela fala” que se tornaria uma forma de abordagem psicológica revolucionária: a Psicanálise. Em 1908 fundou a “Sociedade de Psicanálise” que garantiu a continuidade de sua corrente de pensamentos, enquanto se tornava um referencial para toda uma nova geração de psicólogos que discordavam do behaviorismo que era, então, predominante.

Durante a 2ª Guerra Mundial, a sua condição de judeu tornou-o um alvo para os nazistas que dentre outras formas de perseguição queimaram os seus escritos em várias praças públicas. Para escapar de consequências ainda piores, ele e a família refugiaram-se em Londres onde ele acabou com a vida praticando um suicídio assistido, após ter sido diagnosticado como paciente de um câncer na boca.

As obras principais

  1. A interpretação dos sonhos, de 1900.
  2. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, de 1904.
  3. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905.
  4. O mal estar na civilização, de 1930.
O inconsciente

Os textos sagrados do Hinduísmo, os VEDAS, estimados em 2500 AEC, descrevem a consciência como um “campo abstrato, silencioso e completamente desconhecido”. Milênios depois, o médico e místico suíço conhecido como “Paracelso” descreveu-o em termos médicos pela primeira vez. Na contemporaneidade, FREUD disse:

“poetas e Filósofos descobriram o inconsciente antes de mim... O que eu descobri foi o método cientifico para estudá-lo...”.

Vê-se, pois, que embora seja imaterial, o homem sempre teve noção da existência de algo que ia além de seu próprio físico. Se antes, e ainda parcialmente agora, essa existência vagava nas ondas do misticismo ou do pensamento abstrato filosófico, a partir de FREUD o que era apenas uma intuição, tornou-se uma certeza cientifica.

O inconsciente

O inconsciente ou subconsciente é um dos conceitos mais misteriosos da psicologia. Por um lado é visto como um depósito que guarda todas as experiências, vivências e idiossincrasias do homem e por outra perspectiva surge como se estive “fora” do indivíduo. Um “lugar” inatingível pela razão ou raciocínio e totalmente livre de controle humano ou social. Um “espaço” incognoscível onde se armazenam os instintos, pensamentos e sentimentos. Também chamado de “alma”, “espírito” etc. o inconsciente sempre fascinou a todos, independentemente das luzes que cada qual possui. Assim, desde os mais letrados até os mais tacanhos, em todas as épocas da história, sempre foi tratado com curiosa reverência.

E com o célebre neurologista e psiquiatra austríaco não foi diferente. Quase que obsessivamente, FREUD buscou descobrir se seria possível explicar o que até então parecia inexplicável. Seus antecessores temiam que ele contivesse uma atividade psíquica que fosse poderosa em excesso e que pudesse ser nociva. Algo como um “monstro incontrolável”, uma “caixa de Pandora” que uma vez aberta, ou desvendada, liberaria todos os males. E foi justamente nesse ponto que a genialidade FREUD começou a se revelar, pois o seu destemor em enfrentar aquela “fera” fez o seu trabalho ser o primeiro contributo deveras positivo para a solução dos enigmas e para o inicio dos procedimentos terapêuticos capazes de curar as enfermidades oriundas dos desequilíbrios inconscientes. Seu labor iniciou-se quando ele descreveu a estrutura da mente, dividindo-a em:

  1. Consciente
  2. Inconsciente
  3. Pré-consciente,
enquanto popularizava as concepções de que estava no subconsciente a base da personalidade e a noção de que ele é a “parte” da mente que define e explica os mecanismos responsáveis pelas habilidades de pensar e de sentir.

Hipnose e histeria

A aproximação de FREUD ao inconsciente aconteceu em 1885 quando ele conheceu o trabalho que vinha sendo realizado pelo neurologista francês JEAN-MARTIN CHACOT que aparentemente lograva êxito ao tratar os sintomas de distúrbios mentais através do uso de técnicas de hipnose. CHARCHOT considerava a histeria um distúrbio causado por anormalidades no sistema nervoso, o que era uma concepção inédita e que proporcionava novas e importantes possibilidades de terapêutica.

Após conhecer seus métodos, FREUD retornou para Viena ansioso para utilizar aquela forma de tratamento, mas encontrou dificuldades para localizar uma técnica que fosse isenta do ranço de superstição e que fosse considerada realmente cientifica. Nessa época, ele travou conhecimentos com JOSEF BREUER, respeitado médico que descobrira ser possível reduzir em larga escala as inconveniências da sintomatologia dos distúrbios mentais de uma de suas pacientes usando apenas uma simples e aparentemente descompromissada conversa informal, na qual ela descrevia as suas fantasias e alucinações. Para reforçar a terapia, BREUER introduzira a hipnose para acessar mais facilmente as recordações dos eventos traumáticos que perturbavam a moça e com essa medida, após um breve tempo, os sintomas foram extintos ou substancialmente reduzidos. Um resultado deveras exitoso, ainda que se tenha questionado se o ocorrido foi ciência real, ou apenas charlatanismo, pois se duvidava inclusive se a moça portava de fato enfermidades psíquicas. Também não faltaram os argumentos favoráveis ao simples sugestionamento como o que ocorre nos confessionários onde o indivíduo narra os seus pecados, as suas “ideias sujas”, os seus “desejos sórdidos e proibidos” e acredita que foi perdoado graças à intercessão de seu confessor. Na verdade, essa argumentação favorável à sugestão ainda é muito repetida e não é raro encontrar quem julgue os “problemas psicológicos” como falsos e a Psicologia como uma espécie de charlatanismo. O certo é que apesar da consolidação e da popularização da disciplina como ciência, recai sobre a mesma uma série de dúvidas que obviamente estão relacionadas ao fato da mesma se dedicar a coisas abstratas, imateriais e sutis, distantes do universo dos homens mais grosseiros e, portanto, materialistas. Todavia é indubitável que o sofrimento psíquico e/ou emocional é real. Existe mesmo que seja solapado pela urgência das questões concretas e pela diminuição progressiva da sensibilidade humana.

De todo modo, após o sucesso no tratamento BREVER concluiu que os sintomas daquela paciente eram produzidos por lembranças perturbadoras que se escondiam nos meandros do inconsciente e que ao serem expostas à luz da razão ou do consciente sumiram como somem as sombras perante a luz.

Esse primeiro caso de “Terapia Psicanalítica” celebrizado com o nome da paciente, “Srta. ANNA O.”, consolidou essa forma de abordagem psicológica e foi a base, o alicerce sobre o qual FREUD construiu o seu sistema. Em pouco tempo os dois cientistas travaram relações e iniciaram uma sólida amizade e uma profícua parceira cientifica. Juntos eles desenvolveram e popularizaram a nova metodologia de tratamento, cuja base era a concepção de que várias formas de distúrbios, como o medo fóbico, a angústia, a histeria, as paralisias e as dores imaginárias, algumas paranoias etc., eram decorrentes de acontecimentos funestos ou experiências negativas que haviam ocorrido no passado do indivíduo e que se ocultavam em seu subconsciente causando-lhe enorme sofrimento.

Na sequência dos trabalhos, ambos escreveram a obra Estudos sobre a histeria, de 1895, na qual afirmavam terem encontrado a maneira de liberar as memórias reprimidas e armazenadas no inconsciente, propiciando ao paciente trazer à luz da razão as experiências negativas que davam origem ao seu padecimento, ocorrendo nesse desvendamento a cura dos distúrbios.

Apesar da coautoria, BREVER não compartilhava da ênfase exagerada, segundo sua ótica, que FREUD dava aos aspectos ligados à sexualidade, os quais, segundo o austríaco, estariam na raiz e nos conteúdos de todas as patologias mentais. E por conta dessa divergência, o relacionamento amistoso e profissional entre ambos terminou. Posteriormente a questão da ênfase na sexualidade voltaria a causar divergências entre FREUD e alguns seguidores, dentre os quais o mais célebre foi CARL GUSTAV JUNG.

A mente e o cotidiano

Geralmente supomos que a totalidade absoluta de nossos pensamentos, memórias, sentimentos, emoções etc. estejam alojados na parte consciente de nossa mente. Para FREUD, porém, o consciente ou a razão é apenas uma fração da nossa psique, ou mente, ou espírito. O “estado ativo” da consciência, ou a “mente operacional” que utilizamos para o exercício das funções rotineiras do cotidiano é apenas uma parte do conjunto de forças que agem e constroem a nossa “Realidade Psicológica”.

O consciente existe em um nível que nos é direta, imediata e facilmente acessível. Apartado do mesmo, porém, encontra-se o inconsciente que armazena em suas dimensões infinitas os “estados cognitivos*” ativos e os “comportamentos”, ou seja, as condições que estabelecem como serão as nossas atitudes.

NOTA do AUTOR – estados cognitivos* - as formas ou maneiras como processamos as ideias, a percepção, a memória etc.

Pode-se dizer que o consciente é subordinado ao inconsciente, já que segundo FREUD a razão ou racionalidade é apenas a superfície de um “complexo e profundo oceano”. Dessa sorte, a abrangência do inconsciente é total e contem em si o consciente e outra área que o mestre chamou de “pré-consciente”. Tudo que é consciente esteve em algum momento imerso nas profundezas do inconsciente e dele emergiu num dado instante e por algum motivo.

Porém, nem tudo que está contido no inconsciente emerge e se torna acessível. Ao contrário, permanece oculto e influenciando o indivíduo. Por outro lado, as lembranças que não chegam à nossa memória cotidiana, mas que não foram reprimidas por não serem negativas habitam o “pré-consciente”, de onde podem acessadas pelo consciente, pois este não necessita “defender-se” das mesmas, vez que elas são inofensivas.

Todavia, aquelas recordações traumáticas, dolorosas, que estão além da capacidade de processamento mental do indivíduo, ficam represadas no inconsciente, pois, segundo FREUD, toda a carga emocional negativa que podem deflagrar inviabilizaria a vida do sujeito, que para se defender, instintivamente, as remete para esse receptáculo e com isso consegue manter uma vida social aparentemente normal, embora padeça de um imenso sofrimento intimo.

O ID, o Ego e o Superego

No desenvolvimento de seu trabalho FREUD mudou a nomenclatura das partes em que a psique se subdivide e substituiu os conceitos de “consciente”, “inconsciente” e “pré-consciente” passando a chamá-los de ID, Ego e Superego.

O ID, formado pelos impulsos primitivos seria regido pelo “principio do prazer” que preconiza a satisfação de todos os desejos. Tudo deveria ser feito imediatamente conforme a sua vontade.

Contudo, o Ego que seria regulado pelo “principio da realidade” atua como um freio e impede que o ID prevaleça. Através do Ego se sabe que nem tudo é possível, pois as circunstâncias da vida são limitadoras.

Existe entre essas duas partes uma espécie de negociação, cabendo ao Ego buscar maneiras realistas e socialmente aceitas para ajudar ao ID satisfazer as suas vontades, minimizando as consequências nocivas.

Ao Superego caberia controlar o Ego, mostrando-lhe quais seriam essas maneiras realistas e sensatas de auxiliar ao ID. A formação de seus parâmetros morais teria origem no aprendizado que se recebe de pais, mestres, amigos e outros. O Superego atuaria, pois, como um “julgador” e também como a consciência de que algo foi feito e, ainda, como a fonte da culpa e do arrependimento nos casos em que as ações praticadas divergiram de seus julgamentos.

Segundo FREUD, o inconsciente abriga uma vasta quantidade de “forças conflitantes”, pois além das pulsões de vida e de morte, armazena as memórias intelectuais e emocionais que foram reprimidas. Ademais, contém os aspectos contraditórios inerentes à nossa forma de perceber a realidade física, já que a mesma está permeada pela outra realidade que reprimimos. O confronto entre essas forças contraditórias é a base de todo “conflito psicológico” que, por sua vez, está na raiz de todo sofrimento exteriorizado através das fobias, angústias, neuroses etc.

A passagem do consciente para o inconsciente

Outra influência decisiva que FREUD recebeu veio do psicólogo ERNST BRUCKE, considerado um dos fundadores da nova psicologia do século XIX. A tese central de BRUCKE era a de procurar explicações mecânicas para todos os fenômenos orgânicos, ou seja, para todas as ocorrências no corpo físico do indivíduo. Afirmava, por exemplo, que como todos os outros Seres vivos, o homem seria em essência um “sistema de energia” e que deveria comportar-se conforme o “principio de conservação de energia” que preconiza que a quantidade total de energia de um sistema permanece constante ao longo do tempo, não podendo ser destruída, mas apenas transferida ou transformada.

FREUD utilizou esse raciocínio aplicando-o aos “Processos Mentais*” e criando o conceito de “Energia Psíquica” que, também, é indestrutível e pode sofrer transformações, transmissões e conversões. Assim, se o indivíduo tiver uma lembrança traumática para o consciente, a mente só pode remetê-lo para o subconsciente em uma operação que ele batizou de “Recalque”, já que tal memória negativa é indestrutível.

Pulsões motivadoras

Além das memórias recalcadas ou reprimidas, o inconsciente também é o abrigo onde habitam as “pulsões instintivas” biológicas que orientam o comportamento do indivíduo e o direcionam a optar por aquilo que lhe promete suprir suas necessidades básicas. Com isso, garante a sobrevivência física do homem vez que o faz buscar água, comida, abrigo, calor e companhia. E, mais importante em termos biológicos, faz com ele sinta desejo sexual que resulta na preservação da espécie.

Além dessas pulsões, o inconsciente também guarda a chamada “pulsão de morte” que é lhe inata e que o impulsiona a seguir continuamente, mesmo que a cada passo ele se aproxime mais de seu fim. Freud classificava essa pulsão como autodestrutiva justamente por essa característica.

Tratamento psicanalítico.

Sendo o inconsciente inacessível e os distúrbios perceptíveis apenas quando se manifestam indiretamente o tratamento psicanalítico necessariamente difere dos demais procedimentos de cura, já que é obvia a inexistência de uma panaceia material para corrigir males abstratos.

Segundo FREUD, o sofrimento emocional resulta de um confronto inconsciente, sendo impossível lutar-se minuto a minuto contra as pulsões “indevidas” e as “memórias reprimidas” que os provocam. Sofrimento, aliás, que em alguns casos manifesta-se no corpo físico, no chamado processo “psicossomático”.

Por conta dessas características, foi necessária que a genialidade freudiana criasse uma nova forma de terapia, absolutamente inovadora, a “Psicoterapia Psicanalítica”, ou “Psicanálise”. Sua abordagem para lidar com os distúrbios psicológicos consiste em adentrar ao inconsciente do paciente e trabalhar nesse “espaço” com os conflitos aí existentes, visando livrar a pessoa das memórias recalcadas, das pulsões e desejos indevidos etc.

É um tratamento longo, difícil e demorado. E como os seus resultados tardam ou são poucos visíveis, não é raro que seja interrompido pelo paciente, o que, obviamente, inibe os bons resultados e fomenta certa descrença sobre a terapêutica.

Por exigir um alto grau de conhecimentos técnicos e humanos, a Psicanálise só é realizada por terapeutas devidamente capacitados e especializados na técnica freudiana de abordagem, que normalmente é executada com o paciente relaxado em um divã onde ele fala livremente durante as sessões que podem durar horas e ocorrerem diversas vezes na semana, por longos anos.

Esse modelo de tratamento é plenamente justificável porque se sabe que o inconsciente não é acessível apenas por uma simples vontade, tampouco por introspecção voltada para essa finalidade. O único modo de se chegar a ele é saber captar as mensagens subliminares que ele envia ao consciente, através de preferências, tendências, habilidades, limitações etc. que o indivíduo demonstra possuir, assim como a maneira do mesmo compreender as coisas, os fatos e as vicissitudes da vida.

Esse conjunto de características, mais os símbolos que o indivíduo cria e/ou segue é a sua chamada “personalidade”, ou o seu modo de ser. É a exteriorização daquilo que o seu inconsciente abriga e que se comunica, como já disse, através das mensagens silenciosas que ele envia e cuja decifração e interpretação demanda o concurso do Psicanalista, pois apenas alguém capacitado para a tarefa será capaz de filtrar as memórias traumáticas que impedem o indivíduo de viver plenamente.

Durante o processo terapêutico, o Psicanalista age como se fosse um “mediador” que procura abrir brechas por onde possam jorrar os pensamentos e sentimentos dolorosos e nocivos. Ele busca abrir espaço para que esses elementos negativos venham à luz da razão para aí serem racionalidades e curados.

É um trabalho deveras difícil, pois as mensagens produzidas pelos conflitos entre o consciente e o inconsciente geralmente surgem camufladas ou codificadas de tal forma que apenas os profissionais gabaritados conseguem pinçá-las eficazmente.

As técnicas terapêuticas
Com o tempo e com o desenvolvimento dos saberes sobre o tema, várias técnicas foram criadas e incorporadas ao arsenal curativo. Em comum todas tem a característica de permitir o afloramento do inconsciente. Na sequência, as mais populares:

Sonhos – uma das primeiras a serem utilizadas por FREUD foi a clássica “análise dos sonhos”, pois para ele:

“a interpretação dos sonhos é principal via de acesso para se conhecer as atividades inconscientes da mente”.

E a importância que ele via nos mesmos pode ser medida pelo fato de que foram os seus próprios sonhos que embasaram a sua obra “A interpretação dos sonhos”, de 1900. Nela, ele expõe a sua teoria de que todo sonho representa (como um ator no teatro) a realização de um desejo, o qual quanto mais for considerado inadequado para o consciente, mais distorcido, ou disfarçado, surgirá nos sonhos, pois o inconsciente envia as mensagens codificadas para tentar burlar a vigilância exercida pelo juízo do Superego.

Dentro desse tipo de abordagem até os prédios, as casas e outros locais tem um significado oculto. As escadarias, os subterrâneos, as portas trancas, ou um pequeno prédio num beco escuro podem representar sentimentos reprimidos, geralmente de cunho sexual.

Acessando o inconsciente

Outras manifestações do inconsciente tornaram-se bastante conhecidas graças à popularização das teses freudianas. Citaremos as duas mais conhecidas:

  1. O “ato falho”, o processo de “associação livre” etc. O primeiro caso consiste de um erro verbal, de uma espécie de colapso de linguagem que revela uma convicção, um pensamento, ou um sentimento que o indivíduo possui, mas que não demonstra por vários motivos e num certo momento “escapa” a contragosto. É uma substituição involuntária e indesejada de uma palavra por outra, similar fonética ou graficamente, que expõe o que estava reprimido.
  2. A “livre associação” é uma técnica criada por JUNG e que FREUD usava com frequência. É praticada com o paciente ouvindo certa palavra e dizendo em seguida o que primeiro lhe chegue à mente. Acreditava-se que esse processo permitia que o inconsciente emergisse, já que os “pensamentos reprimidos” poderiam ser externados antes que o consciente pudesse bloqueá-lo.
Com essas e outras técnicas, FREUD buscava ajudar os pacientes a se livrarem de suas memórias dolorosas, pois ao trabalhar com as mesmas sob a luz objetiva do consciente, eles poderiam “exorcizar” esses fantasmas, haja vista que ao mensurá-los objetivamente, ver-se-ia que os mesmos eram menores e menos graves do que se temia. Em certos casos a lida com os traumas vai além da extirpação dos mesmos e avança para a prevenção de novos sofrimentos, pois o paciente, a partir de então, passa a trabalhar com os aborrecimentos de maneira mais positiva. Deixa de sofrer passivamente e parte em busca de tratamentos, ao invés de recalcar as emoções que antes o levava até mesmo a ser agressivo, dependente químico, depressivo etc. Felizmente os casos graves de distúrbios psicológicos são raros e geralmente são motivados por traumas tão escondidos que o paciente nem se da conta de possuí-los. E é a tentativa de repelir o que ele não percebe que o leva aos extremos de comportamento. Nesse ponto é que entra a Psicanálise que permite a emersão desses “fantasmas ocultos”, ou segundo a terminologia, a “Catarse”.

Escolas ou tendências da Psicanálise

Ao enveredar por essa ramo da medicina é provável que o Dr. SIGISMUND SCHOLOMO FREUD não tivesse a noção exata da revolução que estava iniciando. O fato é que a partir da fundação da Sociedade de Psicanálise em Viena um novo mundo foi revelado e cada vez mais vem sendo desvendado.

O inconsciente deixou de ser um ente abstrato, quase místico, para se tornar a chave que permite a cura de males que por milênios infernizou a vida de tantas pessoas. A partir da poderosa influência que ele passou a exercer sobre a comunidade dos profissionais da saúde mental ele conseguir definir quais práticas eram aceitáveis e com o tempo, os alunos e os outros profissionais fizeram a complementação da obra que ele iniciou, contribuindo cada qual com novas ideias e aperfeiçoamentos.

É certo que algumas alterações e divergências acabaram por cindir a corrente de pensamento original. Dentre outros segmentos, três se destacam:

  1. Freudianos – que permaneceram fiéis às ideias originais.
  2. Kleinianos – adeptos de MELAINE KLEIN
  3. Neofreudianos – que posteriormente incorporaram às ideias originais de FREUD, outras práticas e concepções.
Atualmente a Psicanálise conta com cerca de vinte e duas tendências diferentes, mas todas embasadas pelo pensamento do mestre austríaco que foi, indubitavelmente, um dos maiores benfeitores da humanidade.

São Paulo, 25 de julho de 2013.

Produção e divulgação de YARA MONTENEGRO, assessoria de RP., do Rio de Janeiro, no verão de 2014.